O Estado geralmente aparecia nas análises de História Social do Traba- lho como um elemento de controle e repressão sobre a classe trabalhadora, sendo privilegiadas as abordagens que investigassem a resistência dos traba-
12 A própria tese da Flavia Fernandes Souza (2017) aborda a participação masculina no serviço doméstico.
O tema também foi explorado na tese da Nathalia Batista Peçanha (2018).
13 A sessão intitulou-se “Complexidicando a interseccionalidade: perspectivas queer sobre o mundo do trabalho”, reuniu as seguintes comunicações: “As lindas toilletes de Aymond: o trabalho de transformista nos palcos cariocas (1930 – 1950)”, de Flávia Ribeiro Veras; “Comportamentos desviantes e alegações para expulsão: a homossexualidade nas ‘vilas de malocas’ de Porto Alegre (relatório de Ildo Meneghetti, 1952)”, de Rodrigo de Azevedo Weimer; “Sexualidades desviantes e possibilidades de atuação na prostituição masculina a partir do caso Luísa Felpuda (Porto Alegre, 1980)”, de Tiago Medeiros; e “Complexificando a interseccionalidade: perspectivas queer sobre o mundo do trabalho”, de Benito Bisso Schmidt.
14 Destaco as pesquisas sobre o tema na área da administração, e cito como exemplos: Garcia e Souza, 2010;
Silva, et al., 2013.
15 Entre os poucos exemplos de textos que tratam da questão, cito o trecho da Nathalia Batista Peçanha (2018), que possui um trecho sobre o tema; e Medeiros (2019).
lhadores diante das ameaças estatais. A partir da década de 1990, no entanto, observa-se o surgimento de estudos que trazem uma visão mais complexa, sendo o Estado varguista e a década de 1950 períodos privilegiados, tendo os mesmos questionado determinadas acepções de um conceito caro à História Política, o populismo. Segundo tais concepções, a instituição da Justiça do Trabalho, o corporativismo sindical e a legislação social e trabalhista têm ape- nas a função de impor a dominação de classe, “para submeter os trabalhadores de modo absoluto a estruturas de dominações das quais o próprio Estado tornava-se fiador” (Silva; Chalhoub, 2009, p. 34).16
Se as relações entre os trabalhadores e as leis já têm sido bem exploradas para o pós-1930, tem surgido, a partir dos anos 2000, um contingente cada vez maior de pesquisas que se dedicam a essa relação no período Imperial e na Primeira República. Nesse sentido, os poderes municipais têm ganhado uma centralidade na análise.17
Organizei, juntamente com Cristiana Schettini Pereira, um dossiê que reuniu artigos dedicados a investigação da relação entre os trabalhadores e o poder municipal. Por um lado, os textos reunidos apontam para uma diver- sidade de regulamentos e leis municipais que incidiam sobre os trabalhadores e o trabalho. A análise sobre essas leis nos auxilia “a rever a imagem ainda presente na nossa historiografia de que, antes da aprovação das leis traba- lhistas, o Estado estava completamente ausente da regulação das relações de trabalho” (Terra; Pereira, 2013, p. 6). A legislação municipal abre, assim, um vasto campo de possibilidades analíticas para repensar periodizações e marcos explicativos para aqueles interessados na história social do trabalho.
A votação das leis, a implementação e a fiscalização das mesmas apon- tam que o poder municipal não tinha nada de monolítico e uniforme. Pelo contrário, “os conflitos – e, muitas vezes, a negociação – estavam presentes nas relações entre os trabalhadores e os fiscais, entre estes e os diferentes funcio- nários da municipalidade, e ainda entre o executivo e o legislativo municipal”
(Terra; Pereira, 2013, p. 6).
Levando em conta que o poder municipal indicia na organização da vida cotidiana urbana, ele se tornou um importante espaço de lutas por di- reitos. Indicamos, Pereira e eu, que os “trabalhadores e trabalhadoras tinham suas próprias leituras e expectativas sobre as medidas que buscavam controlar suas atividades, e alguns deles recorreram ao poder municipal com o intuito
16 A apresentação das abordagens desses trabalhos é feita também em: Silva e Costa (2001); Fortes e Negro (2003).
17 Exemplos da produção que aborda a relação dos trabalhadores com o poder municipal: Reis (1993);
Popinigis (2007); Farias (2012); Terra (2013).
de que este interviesse mais diretamente nos conflitos entre empregados e patrões” (Terra; Pereira, 2013, p. 7). Os textos recentes, alguns reunidos no referido dossiê, mostram como muitos grupos sociais e categorias profissio- nais tiveram nos regulamentos e leis municipais um importante foco para suas mobilizações e reivindicações. Esses trabalhadores demonstravam suas leituras e reivindicações através de abaixo-assinados, requerimentos e greves.
Tendo como foco o poder municipal, Cristiane Myasaka, em artigo do dossiê mencionado, trouxe um novo olhar para a bibliografia dedicada à aná- lise da reforma urbana de Pereira Passos, no Rio de Janeiro nos anos iniciais do século XX. Ao tratar da cobrança de multas por infrações em Inhaúma, distrito suburbano, a autora mostra que os trabalhadores que moravam no subúrbio, sempre que possível, questionavam as ações do poder municipal, evidenciando os usos políticos da legislação. Assim, esses habitantes “longe de serem vítimas indefesas do amplo processo de restruturação urbana em curso na capital federal, forjaram maneiras, no âmbito da legalidade, para diminuir seu impacto” (Miyasaka, 2013, p. 99).
O último número da revista publicado até o presente, trouxe também como tema do dossiê a questão da aproximação dos mundos da política e o do trabalho. Os organizadores propuseram que os artigos reunidos tinham em comum “a tentativa de repensar a dinâmica dos direitos e questionar os limites da cidadania e o alcance das lutas sociais travadas nesse âmbito” (Cas- tellucci; Lacerda; Silva, 2017, p. 5).
Exemplo de abordagem proposta no dossiê, o texto de Cláudia Viscardi analisou dois tipos de direito político, o de votar e ser votado, nos momentos das duas primeiras constituições republicanas, a de 1891 e a de 1934. Ela expôs que a “previsão de previsão de direitos políticos nas duas primeiras constituições republicanas e as alterações das regras de representação apontam para a ampliação da cidadania política ao longo do período, sobretudo para aqueles que dela estavam excluídos, como as mulheres, os trabalhadores e os indivíduos sem renda declarada” (Viscardi, 2017, p. 61).18
Primeiramente exploradas para o pós-1930, as interpretações mais mul- tifacetadas sobre as relações entre trabalhadores e Estado vêm ganhando fôle- go para o período posterior. Se os estudos sobre o Império e na Primeira Re- pública têm mostrado os trabalhadores agindo cotidianamente em relação às diferentes concepções e disputas em torno das leis, mesmo antes da aprovação da legislação trabalhista, falta explorar mais detidamente como essa experiên- cia embasou e esteve conectada com a do período getulista.
18 A participação dos trabalhadores nas eleições da Primeira República é tema que tem sido estudado em