A crítica ao androcêntrismo, promovida pelo movimento feminista e pelas pesquisas empreendidas pela História das Mulheres e das Relações de Gênero, a partir da década de 1970, foram fundamentais para a visibilidade das mulheres na História e na historiografia. Como mostrou Joana Maria Pedro20 (2005), as categorias “mulher”, “mulheres”, “gênero” e “sexo” foram instrumentalizadas pela política-epistemologia feminista na (des) construção dessa (in)visibilidade.
De fato, os estudos de Foucault, especialmente, o primeiro volume da História da Sexualidade (Foucault, 2009)21, provocaram um significativo im-
20 PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História, vol. 24, n.1, p.77-98, 2005.
21 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 2009.
pacto nas abordagens sobre a sexualidade. Em Foucault, a sexualidade afasta- -se da biologia e da psicanálise para ser compreendida como um dispositivo, atravessada por múltiplas tecnologias de saber-poder históricas. Em diálogo com Foucault, Scott22 (1994, p. 11) ensina que os usos e significados do gê- nero e do sexo “nascem de uma disputa política e são os meios pelos quais as relações de poder – de dominação e de subordinação – são construídas”.
Todavia, a pensar da emergência da compreensão da sexualidade como um problema histórico-historiográfico, a perspectiva feminista das décadas de 1980, por exemplo, partiu da heterossexualidade como referencial para pensar a sexualidade (das mulheres), na qual, “a prática heterossexual é suben- tendida em torno de esquemas do poder social, como o casamento, a família, a maternidade, a violência, o abuso, a prostituição, dentre outros” (Navarro Swain, 1999, p. 93).
Uma década depois das primeiras críticas feministas ancoradas na cate- goria “gênero” e dos estudos de Foucault, a teoria queer radicalizou o caráter heteronormativo do sexismo, descontruindo a heterossexualidade compulsó- ria, presente, inclusive, nos primeiros estudos historiográficos sobre as mulhe- res. É preciso lembrar que essa crítica queer foi “antecipada” por Gayle Rubin
23(1993), Monique Wittig24 (2006) e Adrianne Rich25 (2012).
Com o pensamento feminista, a História das Mulheres e das Relações de Gênero, os estudos de Foucault e a emergência da perspectiva queer, gêne- ro e sexo ganharam significados históricos e políticos. Tal abordagem foi re- volucionária nas ciências humanas, sendo fundamental para e emergência dos estudos sobre as homossexualidades na historiografia, pensada aqui a partir da abordagem de algumas obras inaugurais.
O livro Além do Carnaval, do historiador James Green26 (2000), sobre a homossexualidade masculina no Brasil de fins do século XIX ao início dos anos 1980, certamente contribuiu para a legitimação acadêmica da temática no Brasil, transformando-se em bibliografia obrigatória nos trabalhos que se seguiram. À pesquisa de Green, que analisa as experiências homossexuais nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, somam-se pesquisas realizadas em di- ferentes regiões do Brasil, que buscam destacar a pluralidade das experiências de gays, lésbicas, travestis e transexuais em diferentes contextos.
22 SCOTT, Joan W. Prefácio. Cadernos Pagu. Campinas, n.3, 1994, p.11-27.
23 RUBIN, Gayle. O Tráfico de Mulheres: Notas sobre a Economia Política do Sexo. Recife: SOS Corpo, 1993.
24 WITTIG, Monique. El Pensamiento heterosexual y otros ensayos. Madrid: Editorial Egales, 2006.
25 RICH, Adrianne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas - Estudos gays: gêneros e sexualidades, v. 4, n. 05, 27 nov. 2012.
26 GREEN, James. Além do Carnaval. A homossexualidade masculina. São Paulo: Editora da UNESP,
As pesquisas da historiadora Tânia Navarro Swain, que abordam as expe- riências das mulheres lésbicas a partir de uma perspectiva feminista, indicam que a quase invisibilidade destas na historiografia, observada na bibliografia sobre a produção homossexual nas ciências sociais brasileiras nas décadas de 1980 e 199027, já não se faz presente.
Travestis, de Elias Ferreira Veras28 (2019), por sua vez, aborda o “uni- verso trans”, especialmente, as experiências travestis no contexto de trans- formações histórico-subjetivas, que o autor denominou “tempo das perucas”
e “tempo dos hormônios-farmacopornográfico”. O livro de Veras lança luz sobre as experiências trans, até então estudadas, sobretudo, no campo da an- tropologia, questionando o fazer historiográfico heteronormativo, que histo- ricamente excluiu gays, lésbicas, travestis e transexuais da escrita da história.
Outros estudos citados por Veras e Pedro29 (2014) também podem ser destacados. As dissertações Será que ele é? Sobre quando Lampião da Esquina colocou as Cartas na Mesa, de Marcio Leopoldo Gomes Bandeira30 (2006);
Assumir-se ou não assumir-se? O Lampião da Esquina e as homossexualidades no Brasil (1978-1981), de Paulo Roberto Souto Maior Junior31 (2015); Homos- sexuais em trânsito: representações, militância e organização política homossexual na Bahia, 1974-1988, de Ailton José dos Santos Carneiro32 (2017); e as teses O homossexual respeitável: elaborações, impasses e modo de uma experiência sub- jetiva, de Eduardo Moreira Assis33 (2011) e Homoerotismo no Brasil contempo- râneo: representações, ambiguidades e paradoxos, de Miguel Rodrigues de Sousa Neto34 (2011), revelam o interesse dos/as historiadores/as pelas experiências homossexuais masculinas, presente nas primeiras pesquisas antropológicas, inclusive na pesquisa de Green.
27 ARNEY, Lance; FERNANDES, Marisa; GREEN, James. Homossexualidade no Brasil: uma bibliografia anotada. Cad. AEL, Campinas, v.10, n.18/19, 2003.
28 VERAS, Elias Ferreira. Travestis: carne, tinta e papel. Curitiba: Appris, 2019.
29 VERAS, Elias Ferreira; PEDRO, Joana Maria. Os silêncios de Clio: escrita da história e (in)visibilidade das homossexualidades no Brasil. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 6, n.13, p. 90 ‐ 109, set./
dez. 2014.
30 BANDEIRA, Marcio. Será que ele é? Sobre quando Lampião da Esquina colocou as Cartas na Mesa.
2006. 129 f. Dissertação (Mestrado em História) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.
31 SOUTO MAIOR Jr., Paulo. Assumir-se ou não assumir-se? O Lampião da Esquina e as homossexualidades no Brasil (1978-1981). 2015. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2015.
32 CARNEIRO, Ailton. Homossexuais em Trânsito: Representações, Militância e Organização Política Homossexual na Bahia, 1974-1988. 2017. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017.
33 ASSIS, Eduardo. O homossexual respeitável. Elaborações, impasses e modos de uma experiência subjetiva. 2011. Tese (Doutorado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.
34 SOUSA NETO, Miguel. Homoerotismo no Brasil contemporâneo: representações, ambiguidades e paradoxos. 2011. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2011.
Por sua vez, a dissertação A metamorfose encarnada: travestismo em Lon- drina (1970-1980), de José Carlos de Araújo Junior35 (2006), As sexualidades desviantes nas páginas do jornal Diário Catarinense (1986 – 2006), de Igor Henrique Lopes de Queiroz36 (2014); A força de uma palavra: homofobia nas páginas da folha de São Paulo (1986-2011), de Maurício Pereira Gomes37 (2014); (C)elas e elas: desconstruções de normativas de gênero e sexualidades na ala feminina do Presídio Regional de Joinville (2003-2013), de Camila Diane Silva38 (2015); e as teses Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop: amores e de- sencontros no Rio dos anos 1950-1960, de Nadia Cristina Nogueira39 (2005);
De Daniele a Chrysóstomo: quando travestis, bonecas e homossexuais entram em cena, de Rita de Cássia Colaço Rodrigues40 (2012); (Re/des)conectando gênero e religião: Peregrinações e conversões trans* e ex-trans* em narrativas orais e do Facebook, de Eduardo Meinberg de Albuquerque Maranhão Filho41 (2015);
mostram que Clio tem ampliado seu olhar.
Como apontaram Veras e Pedro (2014), esses estudos contribuíram para a pluralização das temáticas abordadas na emergente pesquisa sobre as homossexualidades no Brasil, ampliando e complexificando os horizontes te- óricos e metodológicos de um novo campo em construção. Produziram regis- tros históricos sobre a diversificação identitária presente no Brasil nas últimas décadas. São produtos do engajamento de pesquisadoras/es, em sua maioria ligadas/os aos movimentos feministas e aos LGBT, que demonstram que a visibilidade de determinadas temáticas na produção acadêmica, além de uma operação intelectual, é também uma escolha política.
Contudo, ainda que tenham expandido o campo inaugurado pela His- tória das Mulheres e das Relações de Gênero, que tenham problematizado as homossexualidades para além das experiências masculinas e, ainda que, em
35 ARAUJO JUNIOR, José Carlos de. A Metamorfose Encarnada: Travestimento em Londrina (1970- 1980). 2006. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006.
36 QUEIROZ, Igor. As sexualidades desviantes nas páginas do jornal Diário Catarinense (1986 – 2006). 2014. Dissertação (Mestrado em História Cultural) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2014.
37 GOMES, Maurício Pereira. A força de uma palavra: homofobia nas páginas da Folha de São Paulo (1986- 2011). 2014. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2014.
38 SILVA, Camila Diane. (C)elas e elas: desconstruções de normativas de gênero e sexualidades na ala feminina do Presídio Regional de Joinville (2003-2013). 2015. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015.
39 NOGUEIRA, Nadia. Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop: amores e desencontros no Rio dos anos 50 e 60. 2005. Tese (Doutorado em História) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2005.
40 RODRIGUES, Rita de Cássia. De Daniele a Chrysóstomo: quando travestis, bonecas e homossexuais entram em cena. 2012. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2012.
41 MARANHÃO FILHO, Eduardo Meinberg. (Re/des)conectando gênero e religião - peregrinações e conversões trans* e ex-trans* em narrativas orais e do Facebook. 2015. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
certos momentos, “sexualidade” e “classe” se cruzem em Além do carnaval, e
“sexualidade” e “gênero” estejam imbricados em Travestis, “raça” é uma cate- goria ausente em grande parte da abordagem dessas obras e, de modo geral, dos estudos sobre as homossexualidades no Brasil.