QUANDRO 13: Os princípios da DSI
1.2 Teoria do reconhecimento: o debate filosófico
1.2.5 Nancy Fraser
pelo reconhecimento só pode encontrar uma solução satisfatória, que é um sistema de reconhecimento entre iguais”.102
A exigência de reconhecimento é um princípio de igualdade universal. Esse fato requer uma política da diferença para estimular o reconhecimento da especificidade dos indivíduos ou grupos culturais, pois todos possuem uma identidade, isto é, aquilo que é peculiar a cada um. Essa ideia implica a criação de políticas sociais que possam incluir todos os cidadãos nos benefícios do Estado sem distinção de classe social, cor, orientação sexual ou religiosa, cultural ou filiação partidária política.
Constatamos que “o reconhecimento do multiculturalismo é um dos fatores essenciais da democracia contemporânea, visto que esta defende o acesso de indivíduos e grupos a uma existência intelectual, afetiva, moral e espiritual que se enraíza na identidade cultural dos cidadãos”.103 A política do reconhecimento implica reconhecer os indivíduos ou grupos culturais que buscam o respeito e a proteção da identidade.
reconhecimento pertence ao campo da ética, por exigir “o julgamento sobre o valor de práticas, características e identidades variadas”.111 A busca por reconhecimento é uma reivindicação por justiça.
Fraser defende o reconhecimento como uma questão de status social. A exigência do reconhecimento refere-se à “condição dos membros do grupo como parceiros integrais na interação social”.112 A experiência do não reconhecimento é vista como subordinação social.
O indivíduo é impedido de participar como um igual na vida social. A superação da injustiça requer uma política do reconhecimento. “Entender o reconhecimento como uma questão de status significa examinar os padrões institucionalizados de valoração cultural em função de seus efeitos sobre a posição relativa dos atores sociais”.113
O reconhecimento recíproco e a igualdade de status ocorrem quando os atores sociais como parceiros são capazes de participar como iguais, com a alteridade, na vida social.114 A filósofa americana recusa a noção de reconhecimento justificada sobre a “identidade”
humana, defendida por Axel Honneth.115 O reconhecimento é tratado como status social. A partir dessa tese, deduzimos duas premissas: “a) o reconhecimento está associado a ‘paridade de participação’116 – os atores sociais se constituem como parceiros, como membros iguais
109“A proposta de Fraser para integrar redistribuição e reconhecimento precisa dar conta de quatro questões filosóficas cruciais, a saber: a) O reconhecimento é uma questão de justiça ou de autorrealização? b) A justiça distributiva e o reconhecimento são dois paradigmas distintos, ou algum deles pode ser subsumido ao outro? c) A justiça demanda reconhecimento da identidade pessoal ou grupal ou da humanidade comum? d) Como se podem distinguir as reivindicações de reconhecimento daquelas que não são?”. In: TRAMONTINA, Robison.
A justiça social é uma questão de reconhecimento ou de (Re) distribuição: o debate entre Fraser e Honneth, p.07. Disponível em: <http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=6097d8f371420574>. Acesso em: 03 fev.
2018.
110FRASER, Nancy. Reconhecimento sem ética. Op. cit., p.103.
111 Ibidem, p.105.
112Ibidem, p.107.
113Ibidem, p.108.
114 Idem.
115“Esse modelo é problemático por quatro razões: a) enfatiza a estrutura psicológica da formação da identidade em detrimento das instituições sociais e da interação social (psicologização). b) Sustenta que a identidade de grupo é o objeto de reconhecimento, forçando o indivíduo a se conformar com a cultura do grupo. Isso resulta na imposição de uma identidade e simplifica a vida dos indivíduos, das suas identificações e afiliações. c) Reifica a cultura, no sentido de que ignora as interações transculturais, as entende como segmentadas e separadas. Logo, tende a promover o separatismo e enclausuramento dos grupos. Ao sustentar isso ignora a heterogeneidade interna e as disputas por autoridade e poder aproximando-se das formas repressivas do comunitarismo11. d) Vincula a política do reconhecimento à ética – ou seja, associa o reconhecimento ao conceito hegeliano de eticidade, operando com valores historicamente configurados em horizontes específicos que não pode ser universalizados”. In: TRAMONTINA, Robison. A justiça social é uma questão de reconhecimento ou de (Re) distribuição: o debate entre Fraser e Honneth, p.07. Disponível em: <
http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=6097d8f371420574>. Acesso em: 03 fev. 2018.
116“A paridade participativa em si corresponde à capacidade de interagir na sociedade a partir de um ponto comum, com representatividade adequada, e possibilidade de influenciar as organizações político democráticas.
Redistribuição relaciona-se à paridade de participação quando o usufruto dos bens sociais é compartilhado de igual maneira por todos os membros de um determinado grupo. Reconhecimento relaciona-se com a paridade
nas interações sociais, na vida social; b) o não reconhecimento são obstáculos que impedem a
‘paridade de participação’”.117
O reconhecimento é “um meio de superar as formas de subordinação que são institucionalizadas, ao invés de, simplesmente valorizar um grupo excluído”.118 Fraser defende o princípio da “paridade participativa”, “segundo o qual, a justiça requer arranjos sociais que permitam a todos os membros da sociedade interagir entre si como pares”.119 O reconhecimento é resultado da “paridade participativa” que exprime igual respeito por todos os indivíduos e garante igualdade de oportunidades, com o objetivo de atingir a consideração social à alteridade.
A autora reconhece que a “distribuição e o reconhecimento não são nitidamente separados um do outro nas sociedades capitalistas. Para o modelo de status, as duas dimensões estão imbricadas entre si e interage de maneira causal uma com a outra”.120 As duas dimensões combatem a experiência do não reconhecimento, visando à superação de uma relação institucionalizada de subordinação social.
A realidade do não reconhecimento é ter negado o status de parceiro integral na interação social e ser impedido de participar como igual na vida social, como consequência de padrões institucionalizados de valor cultural que constituem alguém como menos merecedor de respeito ou estima.121 A experiência de não ser reconhecido como igual entre os seus pares é uma violação da justiça. A má distribuição dos recursos impede a paridade participativa na vida social.122
Fraser defende que a dimensão do reconhecimento corresponde à subordinação de status enraizada em padrões institucionalizados de valor cultural. A dimensão distribuição
participativa na medida em que os direitos civis são compartilhados por todos sem distinção. Esta concepção vai de encontro a sua formulação de reconhecimento como status. [...] A esfera da paridade participativa não se sobrepõe as outras, mas apresenta-se como chave para ligá-las. Todas acabam sendo essenciais dentro da formulação teórica, pois, as especificidades de cada uma influenciam e se relacionam entre si”. In: CARDOSO, Fábio Luiz Lopes. Cidadania, paridade de participação e o modelo de análise tridimensional de Nancy Fraser.
Revista Sem Aspas, Araraquara, v. 1, n. 1 p. 103-116, 2012, p. 110-111.
117 TRAMONTINA, Robison. A justiça social é uma questão de reconhecimento ou de (Re) distribuição. Op.
cit., p.08.
118 OGANDO, A. C.; ASSIS, M. P. F. Reconhecimento e direitos individuas: categorias em tensão e o caso das mulheres brasileiras. Disponível em: http:// www.fazendogenero7.ufsc.br/artigos/O/Ogando-Assis_34.pdf . Acesso em: 03 fev. 2018.
119 PIZZO, Alex; LUCÉLIO, Neves Santos. Princípio de paridade participativa, reconhecimento e desigualdade social em Território Rural no Bico do Papagaio (TO). Novos Cadernos NAEA, v. 16, n. 1, Suplemento, p. 261- 280, jun. 2013, p.265.
120 FRASER, Nancy. Repensando o reconhecimento. ENFOQUES – revista eletrônica dos alunos do PPGSA/IFCS/UFRJ Volume 9, número 1, agosto 2010, p.126.
121 FRASER, Nancy. Rethinking recognition. New Left Review, n.3, May-June, 2000, p.113.
122 Ibidem, p.116.
econômica, enraizada em características estruturais do sistema econômico.123 “Não reconhecer é subordinar, excluir, inferiorizar, ser indiferente (invisibilidade)”.124 A busca por reconhecimento visa à “desinstitucionalizar padrões de valoração cultural que impedem a paridade de participação e substituí-los por padrões que a promovam”.125
O reconhecimento visto como igualdade de status é definida como paridade participativa, destacando-se como abordagem deontológica. Encontramos a liberação da força normativa das reivindicações por reconhecimento no horizonte de valor. O modelo de status está alinhado à ética. O reconhecimento inquirido no pensamento de Fraser abre e protege o espaço em que os indivíduos podem se desenvolver e se transformar.126