QUANDRO 13: Os princípios da DSI
5.1 Trabalho e reconhecimento: Jesus e o Reino
5.1.2 O trabalho
(georgós), diaristas (místhios) ou assalariados, servos por dívida e escravos, além desses, artífices, pequenos comerciantes e os que exerciam atividades manufatureiras, estes, sobretudo nas cidades. Na camada mais baixa do estrato inferior vivendo com o mínimo necessário á sobrevivência encontram-se os mendigos, as prostitutas, os pastores e os bandidos11.
Examinaremos posteriormente, que a vida de Jesus se enquadra no grupo dos diaristas que basicamente procurava trabalho quase todos os dias. Apresentaremos a realidade dos trabalhadores camponeses sob o julgo da opressão da carga tributária imposta na Palestina, em especial, com referência à região da Galileia.
ocupa com tarefas de governo, administração, arrecadação de impostos ou vigilância militar”17.
O trabalho era árduo, devido ao reduzido apoio de bois, burros ou camelos no cultivo da terra. “Os camponeses das aldeias consomem suas forças arando, vindimando ou ceifando as messes com foice”18. Na região do lago, destaca-se a importância da pesca. As famílias que residiam em Cafarnaum, Mágdala ou Betsaida viviam do lago. “As artes da pesca eram rudimentares: pescava-se com diversos tipos de redes, armadilhas ou tridentes. Muitos utilizavam barcos; os mais pobres pescavam da margem”19. A vida dos pescadores não era fácil em relação aos camponeses. O trabalho pesqueiro era “controlado pelos arrecadadores de Antipas que impunham taxas por direitos de pesca e utilização dos embarcadouros”20.
Segundo Pagola, na Galileia em que Jesus conheceu, nem o comércio com o exterior nem o comércio local tiveram importância. O transporte terrestre era difícil e oneroso. A facilidade de negociação se referia a pequenos objetos de luxo. Por exemplo, a cerâmica de barro era produzida para atender as necessidades das famílias que residiam nas aldeias. Nesse contexto econômico, fator de relevância numa sociedade agrária era a propriedade da terra.
Quem controlava as terras da Galileia? Em tese, eram os romanos e entendiam que o território conquistado pertencia a Roma. Por isso, o tributo era exigido dos trabalhadores que cultivavam as terras.
Antipas detinha o poder da propriedade da terra na Galileia. Além de controlar suas posses, “os soberanos podiam conceder terras a membros de sua família, a funcionários da corte ou a militares veteranos”21. Os grandes proprietários de terras viviam nas cidades e arrendavam suas terras aos camponeses. Os contratos com os camponeses eram muito exigentes. “O proprietário exigia a metade da produção ou uma parte importante, que variava conforme os resultados da colheita; outras vezes proporcionava a semente e o necessário para trabalhar o campo, exigindo pesadas somas por tudo isso”22. Os conflitos eram inerentes com os administradores ou soberanos das terras quando a colheita era reduzida.
17Ibidem, p. 41. Pagola ressalta que “Estudos comparativos levam à conclusão de que, no tempo de Jesus, a população que trabalhava nos campos da Galileia representava 80-90%, ao passo que 5-7% da população podia pertencer à elite”.
18 Idem. Segundo Pagola, “Jesus vive no meio destes camponeses galileus. Muitas de suas para parábolas parecem ter como cenário as terras do vale de Bet Netofa, ao norte de Nazaré e Séforis, não longe do lago da Galileia”.
19 Idem.
20 Idem. Pagola analisa que “Jesus integrou-se bem neste mundo de pescadores que não era o seu. Jesus come peixe em suas refeições e fala de ‘peixes’, ‘redes’ e ‘pesca’ em seus ditos e parábolas”.
21 Ibidem, p. 42.
22 Idem.
Muitos camponeses trabalhavam nas terras de sua própria propriedade e eram ajudados pelos familiares. Os terrenos eram modestos e situavam distantes das aldeias.
Diversos camponeses eram diaristas, em especial, pelo fato de terem perdido suas terras. Os trabalhadores diaristas “deslocavam-se pelas aldeias em busca de trabalho, sobretudo na época da colheita ou da vindima; recebiam seu salário quase sempre no final do dia;
constituíam uma boa parte da população e muitos deles viviam entre o trabalho ocasional e a mendicância”23.
Jesus conhecia bem essa realidade dos trabalhadores camponeses e diaristas.
Analisaremos posteriormente, a parábola dos trabalhadores da vinha (cf. Mt 20,1-16) que apresenta a realidade de “diaristas” sentados na praça de uma aldeia, esperando ser contratados por algum proprietário. É uma realidade que Jesus testemunhava ao percorrer as aldeias da Baixa Galileia24.
Havia enorme desigualdade de recursos nas sociedades agrícolas do Império romano entre a maioria da população camponesa e a pequena elite que viva nas cidades. A realidade na Galileia não era diferente. “São os camponeses das aldeias que sustentam a economia do país; eles trabalham a terra e produzem o necessário para manter a minoria dirigente. Nas cidades não se produz; as elites precisam do trabalho dos camponeses”25. A elite utilizava-se de diversos mecanismos para controlar o que se produzia no campo, explorando assim, o máximo benefício possível do trabalho dos camponeses. Essa relação de exploração relacionava-se aos objetivos dos tributos, taxas, impostos e dízimos.
A política exploratória dos tributos era legitimada como parte da obrigação dos trabalhadores camponeses para com a elite, “que defende o país, protege suas terras e executa serviços de administração”26. A administração e a cobrança das taxas da Galileia eram realizadas a partir dos centros urbanos de Séforis e Tiberíades. “Os camponeses experimentam pela primeira vez a pressão e o controle próximo dos governantes herodianos”27. Era impossível aos trabalhadores evitarem o pagamento de tributos e taxas. A organização dos tributos e o armazenamento de sementes eram eficazes. O centro urbano exigia dos camponeses a tributação, como base de sua sobrevivência e enriquecimento.
23Ibidem, p. 42-43.
24Ibidem, p. 43.
25Idem.
26Idem.
27Idem.
Essa política econômica promovia o crescente bem-estar das elites28. Os camponeses viviam subjugados na tributação. Os trabalhadores do campo não eram reconhecidos em dignidade, mas apenas meio para enriquecer a política econômica das elites dirigentes.
No contexto da política tributária, Roma era a primeira a exigir o pagamento do tributo29: “o tributum soli, correspondente às terras cultivadas, e o tributum capitis, que cada um dos membros adultos da casa devia pagar”30. Os administradores optavam em receber em grãos para evitar as crises de alimento em Roma que ocorriam com frequência. Os tributos eram também utilizados para diversas atividades: alimentação das legiões romanas monitoravam as províncias, construção de estradas, pontes ou edifícios públicos e, sobretudo, para manter o poder das classes governantes31.
Na prática o povo judeu devia pagar duas modalidades de tributo. O primeiro incide sobre os bens produzidos pela terra. Os pequenos deveria entregar a melhor parte da produção, conforme o estabelecido. O segundo incide sobre a pessoa. Se no Egito a opressão ocorreu por meio do trabalho forçado, na Palestina, uma das formas de opressão sob o povo é a tributação.
O trabalhador, por exemplo, que negasse a pagá-lo era considerado um rebelde contra o Império romano. Os reis vassalos romanos eram os responsáveis por organizar e arrecadar os tributos. Segundo Pagola, “estima-se que, no tempo de Antipas, a arrecadação podia representar 12% ou 13% da produção”. 32 Esse fato revela uma carga excessiva de tributo para os camponeses. Antipas possuía seu próprio sistema de tributos. A sua estratégia utilizava-se de arrecadadores contratados e depois de pagar ao soberano a quantia determinada, buscava extrair os máximo de benefícios tributários dos camponeses trabalhadores e das pessoas33. A
28 “Praticamente não existe intercâmbio econômico de reciprocidade entre camponeses e elites, e sim imposição de uma política que se resume em três palavras ‘exação’, ‘tributo’ e ‘redistribuição’ a partir do poder”. In:
PAGOLA, José Antonio. Jesus. Op. cit. p. 43.
29“Ao que parece, o tributum soli consistia em pagar um quarto da produção a cada dois anos; como tributum capitis, cada pessoa pagava um denário por ano: os varões a partir dos quatorze e as mulheres desde os doze.
30PAGOLA, José Antonio. Jesus. Op. cit. p. 43-44.
31Ibidem, p. 44.
32Idem.
33 “Nos evangelhos aparecem com frequência os ‘publicanos’ (telônai) ou ‘arrecadadores de impostos’. Parece que é preciso distinguir, pelo menos, três níveis: as grandes famílias às quais Roma confiava a arrecadação de seus tributos; estas famílias, que procuravam também seu próprio interesse, tinham seus servos, que realizavam o
‘trabalho sujo’ da arrecadação nas aldeias do campo ou nos embarcadouros do lago; os ‘chefes de publicanos’
(architelônai), como Zaqueu, que faziam contrato com as classes dirigentes para fazer a arrecadação de uma determinada região; por último, os ‘publicanos’ (telônai), que são servos e inclusive escravos que executam diretamente o antipático trabalho da arrecadação, a serviço dos grandes arrecadadores e dos chefes de publicanos. São estes, provavelmente, os que se aproximam de Jesus”. In: PAGOLA, José Antonio. Jesus. Op.
cit., p. 44.
carga tributária era excessiva34 e para muitas famílias, um terço ou a metade do que produziam deveria ser entregue aos arrecadadores.
A segunda modalidade de tributos são os religiosos, conforme as orientações do Templo de Jerusalém. “Conforme as prescrições da Lei (cf. Ex 13,2) devia ser oferecido ao Templo, e depois resgatado a preço fixo, todo primogênito masculino tanto dos homens como dos animais (cf. Lc 2,23)”;35 os judeus deviam oferecer “as primícias do solo (cf. Ex 34,26) e pagar em gêneros ou em dinheiro os dízimos dos principais produtos do campo, da vinha e das oliveiras;”36 ressalta por fim, “os dízimos dos animais (cf. Lv 27,32s) há tempo não eram mais arrecadados. No tempo de Jesus o zelo dos fariseus estendia a obrigação dos dízimos até aos produtos secundários da horta (cf. Mt 23,2-3.23)”.37
Era parte das normas do Tempo que, “todo israelita adulto era, além disso, obrigado a versar todo ano a didracma pelo Templo (cf. Mt 17,23) que devia ser paga em moeda judaica, o que tornava necessários, nas adjacências do edifício sacro, verdadeiros serviços de câmbio”.38 Entendemos que havia uma dupla carga de tributos ao Império romano e ao Templo religioso.
Os diversos desafios dos trabalhadores camponeses era guardar sementes suficientes para a semeadura do próximo ano e como sobreviver até à seguinte colheita sem cair na lógica do endividamento. Segundo Pagola, “Jesus conhecia bem os apuros destes camponeses que, procurando tirar o máximo rendimento de suas modestas terras, semeavam inclusive em solo pedregoso, entre cardos e até em lugares que as pessoas usavam como atalhos”39. Essa realidade reflete-se na parábola do semeador (cf. Mc 4,3-8).
A dívida era o desafio temido pelos trabalhadores camponeses. Na prática “os membros do grupo familiar ajudavam-se uns aos outros para defender-se das pressões e chantagens dos arrecadadores”40. Muitos trabalhadores acabavam vítimas do endividamento.
Jesus conheceu a Galileia em que os trabalhadores estavam endividados. Qual era a maior ameaça para o camponês?
34 Por exemplo, o trabalhador brasileiro trabalha em média 151 dias para pagar os impostos devidos ao Estado.
Isso significa que os impostos exigem em média 41,4% do salário do trabalhador. Disponível em:
<http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2014/05/21/brasileiro-trabalha-151-dias-para-pagar-imposto-que- come-414-do-salario.htm>. Acesso em 22 de jul. de 2016.
35SEEANNER, Paulus. Jesus em seu contexto. Revista De Magistro de Filosofia, Ano VIII, n. 16, 2015/2, p.09.
36 Idem.
37 Idem.
38 Idem.
39PAGOLA, José Antonio. Jesus. Op. cit., p. 46.
40 Idem.
Diante da dívida, a grande ameaça se traduzia na perda das terras e, portanto ficar sem recurso para sobreviver. “Quando, forçada pelas dívidas, a família perdia suas terras, começava para seus membros a desagregação e a degradação. Alguns se transformavam em diaristas e iniciavam uma vida penosa em busca de trabalho em propriedades alheias”41. Essa situação de não reconhecimento dos pobres trabalhadores da Galileia refletia em atitudes de humilhação social para a sobrevivência: “Havia os que se vendiam como escravos. Alguns viviam da mendicância e algumas mulheres da prostituição. Não faltava quem se unisse a grupos de bandidos ou salteadores em alguma região inóspita do país”42.
Na região da Galileia, havia duas cidades de referência: Séforis com aproximadamente 8 e 12 mil habitantes e Tiberíades com 8 mil habitantes. Cidades construídas e que refletiam o poder da classe dirigente. As cidades separavam a realidade urbana do campo. Qual a consequência da realidade urbana para os trabalhadores camponeses? O fato é que temos duas populações urbanas que não cultivavam a terra para a sobrevivência. “Famílias camponesas, acostumadas a trabalhar seus campos a fim de assegurar-se o necessário para viver, viram-se obrigadas a incrementar sua produção para manter as classes dirigentes”43.
A agricultura das famílias da Galileia que havia sido na prática diversificada para suprir suas diversas necessidades perderá espaço em vista da monocultura. O interesse da monocultura partia dos grandes proprietários no aumento da produção, para facilitar o pagamento de impostos e negociar com o armazenamento dos produtos44.
Os proprietários de pequenos lotes e os diaristas tornam-se menos protegidos. Não havia reconhecimento das famílias pobres que alimentavam de cevada, feijão, painço, cebolas ou figos por parte da elite dirigente. Nesta mesma época começaram a circular na Galileia moedas de prata cunhadas por Antipas em Tiberíades. “A monetização facilitava a compra de produtos e o pagamento do tributo a Toma. Por outro lado, permitia aos ricos acumular seus ganhos e assegurar-se o futuro para as épocas de escassez”45.
A circulação da moeda estava sob o controle dos dirigentes urbanos e favorecia a classe rica. As moedas de ouro e prata eram empregadas sistematicamente para acumular
“tesouros” ou mamona46, que servia para adquirir honra, reputação pública e poder. O
41Idem.
42 Idem.
43Ibidem, p. 48.
44Ibidem, p. 49.
45 Idem.
46“O termo aramaico mammon (da raiz ‘mn) significa ‘o que está seguro’ ou ‘o que dá segurança’. De acordo com Jesus, acumular mammon é incompatível com o serviço a Deus: ‘Ninguém pode servir a Deus e ao Dinheiro (mammônâs)’”. In: PAGOLA, José Antonio. Jesus. Op. cit., p. 49.
entesouramento era típico apenas das cidades. “As moedas de prata serviam para pagar o tributo imperial por cada pessoa e os diversos impostos. As moedas de bronze eram utilizadas para ‘equilibrar’ o intercâmbio de produtos; era a moeda usada normalmente pelos camponeses”47.
Jesus conheceu ao longo de sua vida o crescimento de uma desigualdade que favorecia a minoria privilegiada de Séforis e Tiberíades e provocava insegurança, pobreza e desintegração de muitas famílias camponesas48. Por consequência, cresceu o endividamento e a perda de terras dos trabalhadores mais fragilizados. Raramente os tribunais das cidades apoiavam os trabalhadores camponeses em suas demandas. A justiça estava a serviço dos interesses da elite governante. Houve o aumento do número de indigentes, diaristas e prostitutas. Assim, cada vez mais, no contexto da Galileia aumentava o número dos pobres e famintos que não podiam desfrutar da terra concedida por Deus a seu povo.