3.3 Algumas classificações das normas jurídicas
3.3.2 Normas jurídicas abstratas e concretas, gerais e individuais
Segundo NORBERTO BOBBIO, a classificação das normas jurídicas quanto à generalidade e à abstração tem suscitado alguma imprecisão, visto que muitos autores não esclarecem se utilizam os termos “geral” e “abstrato” como sinônimos ou com significados diferentes.127
KELSEN, por exemplo, segundo observa LUÍS QUEIROZ128, parece usar os binômios
“geral/abstrato” e “individual/concreto” como necessários, o que se depreende a partir do seguinte trecho: “Este processo, no qual o Direito como que se recria em cada momento, parte do geral (ou abstrato) para o individual (ou concreto). É um processo de individualização ou concretização sempre crescente.”129
Na lição de BOBBIO, que criticou a imprecisão na utilização dos critérios da generalidade e da abstração, a expressão “norma geral” designa as normas que são universais em relação ao destinatário, enquanto a expressão “norma abstrata” é utilizada para classificar as normas universais em relação à ação130:
126 QUEIROZ, Luís Cesar Souza de. Sujeição passiva tributária. 3. ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2017, p. 53.
127 BOBBIO, Norberto. Teoria Geral do Direito. Trad. Denise Agostinetti. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 174.
128 QUEIROZ, Luís Cesar Souza de. Sujeição passiva tributária. 3. ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2017, p. 48.
129 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Trad. João Baptista Machado. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 263.
130 BOBBIO, Norberto. Teoria Geral do Direito. Trad. Denise Agostinetti. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 174.
Sendo assim, aconselhamos falar de normas gerais quando estivermos diante de normas que se destinam a uma classe de pessoas; e de normas abstratas quando estivermos diante de normas que regulam uma ação-tipo (ou uma classe de ações).
Às normas gerais se contrapõem aquelas que têm por destinação um único indivíduo, e sugerimos que sejam chamados normas individuais; às normas abstratas que se contrapõem aquelas que regulam uma ação singular, e sugerimos que sejam chamadas de normas concretas.131
Por conseguinte, aduz o jurista italiano que as normas jurídicas podem ser de quatro tipos: (i) gerais e abstratas, (ii) gerais e concretas; (iii) individuais e abstratas; e (iv) individuais e concretas.132
PAULO DE BARROS CARVALHO observa, por outro lado, que a doutrina tem se limitado à apreciação do antecedente ao classificar as normas jurídicas em gerais e individuais, abstratas e concretas.133
Tem razão PAULO DE BARROS CARVALHO em sua observação, pois o consequente é, por natureza, abstrato, uma vez que a relação jurídica prescrita no consequente da norma pode ocorrer ou não ocorrer, no futuro. Não é concebível a regulação de uma relação jurídica já consolidada no tempo e no espaço. Portanto, não parece adequado afirmar que “norma concreta” é aquela que prescreve uma ação individual, dirigida a um destinatário determinado.
Nesse sentido, LUÍS QUEIROZ134 apresenta a seguinte classificação:
a) quanto ao critério da realização, no tempo e no espaço, do fato descrito no antecedente normativo, a norma jurídica pode ser: (i) abstrata, quando o antecedente descreve um evento de ocorrência possível, isto é, uma suposição ou hipótese; ou (ii) concreta, quando o antecedente descreve um evento ocorrido no tempo e no espaço; e
b) quanto ao critério da individualização do sujeito cuja ação é regulada pelo consequente normativo, a norma jurídica pode ser: (i) geral, quando o consequente regula a conduta de sujeitos de direito indeterminados; ou (ii) individual, quando o consequente regula a conduta de sujeitos de direito determinados, individualizados.
131 BOBBIO, Norberto. Teoria Geral do Direito. Trad. Denise Agostinetti. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 174.
132 BOBBIO, Norberto. Teoria Geral do Direito. Trad. Denise Agostinetti. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 177.
133 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário: fundamentos jurídicos da incidência. 2. ed. São Paulo:
Saraiva, 1999, p. 33.
134 QUEIROZ, Luís Cesar Souza de. Sujeição passiva tributária. 3. ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2017, p. 50-51.
Não obstante perfilhemos a classificação acima de LUÍS QUEIROZ, convém destacar, pela utilidade que se manifestará adiante, a noção de “ação-tipo” (ou simplesmente “tipo”), mencionada por NORBERTO BOBBIO, que corresponde à classe de eventos de ocorrência possível descrita no antecedente de uma norma jurídica. Note-se que a expressão “ação-tipo”
é aqui utilizada em sentido amplo, abrangendo eventos que envolvam ou não uma ação humana.
Ainda quanto à abstração e à generalidade das normas jurídicas, é conveniente mencionar que ALCHOURRÓN e BULYGIN também propõem uma classificação análoga à acima exposta. Recorde-se que, na dicção dos juristas argentinos, “caso” é a situação ou circunstância em que uma conduta é ordenada, permitida ou proibida. Trata-se de noção que corresponde à proposição antecedente da norma jurídica. Advertem os mencionados teóricos, no entanto, que o termo “caso” é ambíguo tanto na linguagem jurídica como na linguagem comum.135 Nas palavras de BULYGIN136,
La palabra “caso” alude aquí, sin embargo, a dos cosas bien distintas. El caso de atentado político está caracterizado por un conjunto de propiedades (un hecho de violencia tendente a causar daños a personas o cosas, producido por razones políticas). El atentado político puede producirse – y, lamentablemente, se produce con bastante frecuencia – en distintos lugares y en diferentes momentos (la explosión de las Torres Gemelas en Nueva York el 11 de septiembre de 2001, un coche bomba colocado por ETA en una calle de Madrid, son todos ejemplos de atentado político).
Em virtude da aludida ambiguidade, ALCHOURRÓN e BULYGIN apresentam as noções de “caso genérico” e “caso individual”.137 A esse respeito, BULYGIN assim se manifesta:
Para despejar esta ambigüedad usaré los términos caso genérico y caso individual.
Un caso individual es un evento concreto ubicado en tiempo y espacio, cuyos protagonistas son individuos; un caso genérico es una propiedad o conjunto de propiedades que pueden ejemplificarse en un número indefinido de casos individuales.
BULYGIN também traça uma distinção entre solução genérica e solução individual.
Soluções genéricas são condutas caracterizadas normativamente, isto é, condutas qualificadas pelos modais deônticos “obrigatório”, “permitido” ou “proibido”, atribuídas a sujeitos
135 ALCHOURRÓN, Carlos Eduardo; BULYGIN, Eugenio. Sistemas normativos: introducción a la metodología de las ciencias jurídicas. 2. ed. rev. Buenos Aires: Astrea, 2015, p. 66.
136 BULYGIN, Eugenio. Creación y aplicación del derecho. In: BELTRÁN, Jordi Ferrer; MORESO, José Juan.
(Dir.). Lagunas en el Derecho. Madrid: Marcial Pons, 2005, p. 32.
137 ALCHOURRÓN, Carlos Eduardo; BULYGIN, Eugenio. Sistemas normativos: introducción a la metodología de las ciencias jurídicas. 2. ed. rev. Buenos Aires: Astrea, 2015, p. 43.
indeterminados. Soluções individuais, por sua vez, são atos ou omissões de indivíduos determinados, também qualificados deonticamente por um dos modais acima referidos.138
Pois bem, note-se que o antecedente das normas jurídicas abstratas e o antecedente das normas jurídicas concretas parece corresponder, por analogia, às noções de caso genérico e caso individual, respectivamente, presentes na lição de ALCHOURRÓN e BULYGIN. Por outro lado, também parece haver uma correspondência entre o consequente da norma jurídica geral e a noção de solução genérica, e uma correspondência entre o consequente da norma jurídica individual e a noção de solução individual.
Observe-se, por fim, que as normas jurídicas de estrutura não são classificáveis como individuais ou gerais. Visto que as normas jurídicas de estrutura não regulam condutas, não é possível atribuir-lhes as qualidades “geral” ou “individual”, que dizem respeito às condutas reguladas pelo consequente normativo.