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Texto, interpretação e norma jurídica

No documento Rodrigo Sales da Rocha Abreu (páginas 32-35)

De acordo com IRVING COPI82, a linguagem ou discurso possui três funções83 ou usos: o informativo, o expressivo e o diretivo (também chamado de discurso prescritivo).

Interessa-nos aqui destacar o discurso prescritivo, “usado com o propósito de causar (ou impedir) uma ação manifesta”, cujos exemplos mais claros são as ordens e os pedidos.84

As normas são exemplos de uso do discurso prescritivo. Aduz HANS KELSEN que

“com o termo ‘norma’ se quer significar que algo deve ser ou acontecer, especialmente que um homem se deve conduzir de determinada maneira”.85 Também NORBERTO BOBBIO leciona que a linguagem normativa assume a função prescritiva, que “consiste em dar

82 COPI, Irving M. Introdução à Lógica. Trad. Álvaro Cabral. 3. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1981, p. 48.

83 Cf. CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. 4. ed. São Paulo: Noeses, 2011, p.

37 et. seq.

84 COPI, Irving M. Introdução à Lógica. Trad. Álvaro Cabral. 3. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1981, p. 50.

85 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Trad. João Baptista Machado. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 5.

comandos, conselhos, recomendações, advertências, de modo a influir no comportamento alheio e modificá-lo e, em suma, levar a fazer”.86

A norma jurídica é uma espécie do gênero norma. A característica específica da norma jurídica, que a distingue das demais espécies de normas, é a coercitividade. Nas palavras de LUÍS QUEIROZ, “coercitividade denota qualidade de coercitivo ou coercivo, ou seja, que é capaz de exercer coerção, que coage, que reprime.”87 Este aspecto diferenciador da norma jurídica foi destacado por importantes teóricos como HANS KELSEN88, ALF ROSS89 e HERBERT HART90.

Um relevante pressuposto deste estudo é o de que norma jurídica não se confunde com texto normativo.

Essa distinção é enfatizada por RICCARDO GUASTINI. Um texto normativo, segundo o jurista italiano, é um “agregado de enunciados do discurso prescritivo”91 e constitui-se, como já destacamos, em “qualquer documento elaborado por uma autoridade normativa e, por isso, identificável prima facie como uma fonte do direito dentro de um sistema jurídico dado.”92 As normas jurídicas, por sua vez, são o produto ou resultado da interpretação dos textos normativos.93

Nesse sentido, HUMBERTO ÁVILA adverte que

Normas não são textos nem o conjunto deles, mas os sentidos construídos a partir da interpretação sistemática de textos normativos. Daí se afirmar que os dispositivos se constituem no objeto da interpretação; e as normas, no seu resultado. O importante é que não existe correspondência entre norma e dispositivo, no sentido de que sempre que houver um dispositivo haverá uma norma, ou sempre que houver uma norma haverá dispositivo que lhe sirva de suporte.94

De modo semelhante, EROS ROBERTO GRAU leciona que

O texto, preceito, enunciado normativo é alográfico. Não se completa no sentido nele impresso pelo legislador. A “completude” do texto somente é realizada quando o sentido por ele expressado é produzido, como nova forma de expressão, pelo

86 BOBBIO, Norberto. Teoria Geral do Direito. Trad. Denise Agostinetti. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 69-70.

87 QUEIROZ, Luís Cesar Souza de. Sujeição passiva tributária. 3. ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2017, p. 14.

88 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Trad. João Baptista Machado. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 37.

89 ROSS, Alf. Direito e justiça. Trad. Edson Bini. 1. ed. São Paulo: Edipro, 2000, p.58.

90 HART, H. L. A. O conceito de direito. Trad. Antônio de Oliveira Sette-Câmara. São Paulo: Martins Fontes, 2009, p. 126-127.

91 GUASTINI, Riccardo. Das fontes às normas. Trad. Edson Bini. São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 24.

92 GUASTINI, Riccardo. Das fontes às normas. Trad. Edson Bini. São Paulo: Quartier Latin, 2005, p. 23-24.

93 GUASTINI, Riccardo. Distinguendo: Estudios de Teoría y Metateoría del Derecho. Traducción: Jordi Ferrer i Beltran. Primera edición. Barcelona: Gedisa, noviembre de 1999, p. 201.

94 ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios. 4 ed. São Paulo: Malheiros, 2004, p. 22-23.

intérprete. Mas o “sentido expressado pelo texto” já é algo novo, distinto do texto. É a norma.95

[...]

As normas, portanto, resultam da interpretação. E o ordenamento, no seu valor histórico-concreto, é um conjunto de interpretações, isto é, conjunto de normas. O conjunto das disposições (textos, enunciados) é apenas ordenamento em potência, um conjunto de possibilidades de interpretação, um conjunto de normas potenciais.

O significado (isto é, a norma) é o resultado da tarefa interpretativa.96

Descartaremos, portanto, neste estudo, a noção de norma jurídica como disposição ou enunciado de um texto normativo. Adotaremos aqui a noção de que norma jurídica é “o conteúdo do significado de um texto normativo, tal como resulta de sua interpretação.”97 Portanto, considerando o que foi exposto, definiremos norma jurídica como a “mensagem prescritiva, dotada de coercitividade, construída a partir da interpretação dos textos jurídicos”.98

Outra questão importante para o deslinde deste estudo diz respeito ao momento em que a norma jurídica é construída. A esse respeito, é conveniente destacar que a interpretação é uma atividade mental, que se desenvolve individualmente, na mente de cada intérprete.

LUÍS QUEIROZ assim se pronuncia no que se refere a essa questão:

Desde que se aceite que norma jurídica é a mensagem, é a significação obtida a partir da interpretação de textos jurídicos, tem-se que para existir norma jurídica é preciso que haja um processo comunicacional, que envolve, necessariamente, um emissor (p. ex. o legislador) e um receptor (pessoas de uma comunidade) e uma mensagem (norma jurídica). A norma jurídica como sentido, significação, somente existe na mente de cada uma das pessoas. É subjetiva, pois produto de interpretação, de atividade de pessoa humana. O texto jurídico (enquanto suporte físico, dotado de materialidade – tinta no papel, p. ex.) é objetivo, é o mesmo para todos. Esse ponto é fundamental. A interpretação como atividade humana é necessariamente uma ação interna, que não significa dizer que seja imune a estímulos externos, muito pelo contrário. Mas é uma atividade processada na mente de cada pessoa, onde a razão e a emoção se combinam, com base em valores jurídicos e extrajurídicos. É, nesse sentido, uma atividade individual. Assim, a norma está sempre na mente de uma pessoa humana, como resultado, como produto de uma atividade mental.99

Desse modo, uma vez produzido o texto normativo, as normas jurídicas nele veiculadas e objetivadas são subjetivadas e construídas na mente de cada indivíduo destinatário da norma. LUÍS QUEIROZ acrescenta, nesse sentido, o seguinte:

Como destinatários da mensagem jurídica (da norma jurídica) compreende-se a comunidade em geral, todos os cidadãos, inclusive aqueles mesmos sujeitos (legisladores, agora na qualidade de cidadãos) que produziram o texto antes de ele

95 GRAU, Eros Roberto. Ensaio e discurso sobre a interpretação/aplicação do Direito. 3. ed. São Paulo:

Malheiros, 2005, p. 78.

96 GRAU, Eros Roberto. Ensaio e discurso sobre a interpretação/aplicação do Direito. 3. ed. São Paulo:

Malheiros, 2005, p. 81.

97 GUASTINI, Riccardo. Distinguendo: Estudios de Teoría y Metateoría del Derecho. Traducción: Jordi Ferrer i Beltran. Primera edición. Barcelona: Gedisa, noviembre de 1999, p. 100.

98 Cf. QUEIROZ, Luís Cesar Souza de. Sujeição passiva tributária. 3. ed. Rio de Janeiro: LMJ Mundo Jurídico, 2017, p. 21.

se tornar jurídico. Logo, cada indivíduo terá a função de intérprete, destacando-se o juiz como intérprete maior, como o que realiza a interpretação que irá prevalecer sobre todas as outras possíveis.100

Firmemos, portanto, que havendo texto normativo, haverá norma jurídica, independentemente da ocorrência dos fatos que ensejam a sua aplicação. Essa conclusão nos parece ser a que melhor se harmoniza com o princípio da irretroatividade, que requer que os destinatários da norma tenham um prévio conhecimento dos efeitos prescritos pelas normas jurídicas em razão da ocorrência das situações de fato nelas descritas.101

Concordamos, por conseguinte, com a distinção feita por GUASTINI entre interpretação “em abstrato” e interpretação “em concreto”. A interpretação “em abstrato” ou

“orientada ao texto” consiste em determinar o sentido do enunciado interpretado. A interpretação “em concreto” ou orientada aos fatos”, por sua vez, consiste em classificar ou subsumir um fato (objeto ou caso) ao campo de aplicação de uma norma jurídica.

Naturalmente, observa GUASTINI, toda interpretação “em concreto” pressupõe logicamente uma interpretação “em abstrato”.102 A distinção entre interpretação “em abstrato” e interpretação “em concreto” é relevante para este estudo em virtude da já aludida polissemia do termo “lacuna”, utilizado, dentre outras acepções, para designar dificuldades relativas à falta de informação fática e dificuldades de interpretação, em virtude do fenômeno da indeterminação semântica.

No documento Rodrigo Sales da Rocha Abreu (páginas 32-35)