Após uma visão panorâmica desse mundo político e jurídico que é o abuso do poder econômico nas eleições, cujo objetivo era deixar aberto, de antemão, o campo de pesquisa, a fim de facilitar o trabalho sobre o foco destacado, adentrar-se-á no tema específico (nas próximas linhas), iniciando pela transcrição do art. 41-A da Lei n. 9.504/1997 para, depois, dar seqüência ao trabalho. Reza o dispositivo:
Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos125, constitui captação de sufrágio, vedada por esta Lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de mil a cinqüenta mil UFIR, e cassação do registro ou do diploma, observado o
125 Art. 26. São considerados gastos eleitorais, sujeitos a registro e aos limites fixados nesta Lei, dentre outros:
I – confecção de material impresso de qualquer natureza e tamanho;
II – propaganda e publicidade direta ou indireta, por qualquer meio de divulgação, destinada a conquistar votos;
III – aluguel de locais para a promoção de atos de campanha eleitoral;
IV – despesas com transporte ou deslocamento de pessoal a serviço das candidaturas;
V – correspondência e despesas postais;
VI – despesas de instalação, organização e funcionamento de Comitês e serviços necessários às eleições;
VII – remuneração ou gratificação de qualquer espécie a pessoal que preste serviços às candidaturas ou aos comitês eleitorais;
VIII – montagem e operação de carros de som, de propaganda e assemelhados;
IX – produção ou patrocínio de espetáculos ou eventos promocionais de candidatura;
X – produção de programas de rádio, televisão ou vídeo, inclusive os destinados à propaganda gratuita;
XI – pagamento de cachê de artistas ou animadores de eventos relacionados à campanha eleitoral;
XII – realização de pesquisas ou testes pré-eleitorais;
XIII – confecção, aquisição e distribuição de camisetas, chaveiros e outros brindes de campanha;
XIV – aluguel de bens particulares para veiculação, por qualquer meio, de propaganda eleitoral;
XV – custos com a criação e inclusão de sítios na Internet;
XVI – multas aplicadas aos partidos ou candidatos por infração do disposto na legislação eleitoral.
procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar n. 64, de 18 de maio de 1990.
São características construtivas da norma:
1. regula “captação proibida de sufrágio”;
2. ressalva as situações dispostas no art. 26 da Lei n. 9.504/1997;
3. define o que venha a ser “captação ilegal de voto”;
4. apresenta a configuração da ação vedada:
a. agente ativo: o candidato;126 b. agente passivo: o eleitor;
c. objeto: o voto;
d. ação: doar, oferecer, prometer, ou entregar, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública;
e. termo inicial: desde o pedido de registro da candidatura;
f. termo final: até o dia da eleição, inclusive;
g. penas:
multa de mil a cinqüenta mil UFIR; e cassação do registro ou do diploma;
h. processamento: rito do art. 22 da Lei Complementar n.
64/1990.127128
126 Admite-se como sujeito ativo terceiro que aja em nome ou com anuência do candidato, não obstante a pena da captação ilícita de sufrágio recaia exclusivamente sobre este. Esse tema será oportunamente apresentado na seqüência do trabalho.
127 A Resolução TSE n. 21.1666, de 1º de agosto de 2002, estabelece a competência do juiz auxiliar para processamento e relatório da representação do art. 41-A, observado o rito do art. 22 da Lei Complementar n. 64/1990, e desmembramento do feito para que infrações ao art. 73 sigam o rito do art. 96, da Lei n. 9.504/1997.
128 Segundo Rodrigo López ZILIÓ (2004, p.23-47) “São legitimados ativos para ajuizar a representação por violação ao art. 41-A da Lei n. 9.504/97 qualquer partido político, coligação, candidato e o Ministério Público Eleitoral. Ao eleitor somente é admitido o direito de petição, não se reconhecendo, pois, a legitimidade ativa. Do mesmo modo, indispensável a presença de advogado, i. e, capacidade postulatória, a teor do art. 133 da CF e do Estatuto da OAB” (in ZILIÓ, Rodrigo López. Captação ilícita de sufrágio: art. 41-A da Lei n. 9.504/97. Revista do TRE/RS, Porto Alegre, n. 18, p. 23-50, jan./jun.2004).
O procedimento utilizado é o do art. 22 da Lei Complementar n.
64/1990 – Lei das Inelegibilidades – que é a lei complementar referida no § 9º, do art. 14, da Constituição Federal.
Dentre vários outros aspectos relevantes da captação ilícita de sufrágio – do art. 41-A da Lei n. 9.504/1997, enfim – chama-se atenção para o embate sobre a sua constitucionalidade, centrada na exigência constitucional de as inelegibilidades serem estabelecidas por lei complementar e não por lei ordinária (Lei n. 9.840/1999 com a Lei n. 9.540/1997).
Mas será que o art. 41-A estabelece nova situação de inelegibilidade?
A exemplo do art. 73 da Lei n. 9.504/1997, que trata das condutas vedadas aos agentes públicos em campanhas eleitorais, e que segue o procedimento previsto no art. 96 da mesma lei, o bem jurídico tutelado não seria outro, vindo a desconfigurar a hipótese de inelegibilidade para, ao contrário, impor pena administrativa em virtude da prática de conduta vedada? Ademais, há, ainda, a ação de impugnação de mandato eletivo (art. 14, § 10 da CRFB).
São vários os instrumentos; cada qual com uma utilidade e uma finalidade; todos complementares; todos buscando, com criatividade, atingir uma demanda social reprimida: igualdade nas eleições por meio do combate ao abuso do poder econômico e à compra de votos.
Adentrar no art. 41-A é imiscuir-se em seara abrangente, envolvente e apaixonante – política, social, cultural e juridicamente. Isso já foi dito e repetido.
Contudo, [...] “se é correto dizer que a compra de votos é expediente reprovável, que merece pronta censura e punição, não é menos correto evitar que a regra seja indevidamente aplicada, isto é, que se puna alguém sem que haja prova suficiente para tanto” e, nessa esteira, imprescindível [...] “investigar a fundo, em
cada caso, se o procedimento ocorrido realmente configura compra de voto, ainda que mediante promessa não concretizada, e quem são ou foram os responsáveis por tal conduta”.129
Outro aspecto relevante é a interligação existente entre a matéria – substantiva e adjetivamente –, para atacar fins diversos, mas vinculados. É o caso da vinculação existente entre registro de candidatura e a representação do art.
41-A, situações diversas tratadas pelo legislador de forma diferenciada, ou seja, no registro de candidatura [...] “o fim perseguido é a demonstração da presença das condições de elegibilidade e a ausência de inelegibilidade, para que se dê o candidato como apto a participar do pleito”, enquanto que a representação com base no 41-A tem como objeto [...] “não a aferição das condições para o deferimento do registro, mas apurar condutas ilegais praticadas pelo já candidato durante sua campanha eleitoral”.130
E sobre esse enfoque, irretorquíveis as palavras do Min. Celso de Mello131, que vê no art. 41-A norma de proteção à vontade do eleitor, estabelecendo expressamente qual a conduta vedada (compra de voto), penalizando o candidato com multa e a cassação do registro ou a cassação do próprio diploma, sem que para isso o beneficiário aja pessoalmente – mas revelando-se imprescindível [...] “que se estabeleça, entre o ilícito eleitoral em
129 BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Ac. 21.264, Relator: Min. Carlos Velloso, 2004.
130 E continua o voto: “O fato de que, na apuração do delito, seja observado o previsto no art. 22 da Lei Complementar n. 64, de 1990, não altera meu entendimento, pois o que deve ser seguido é apenas o procedimento, não as punições lá previstas, entre as quais se encontra a inelegibilidade por três anos. Aliás, as penas próprias do art. 41-A nele estão perfeitamente definidas: multa de mil a cinqüenta mil Ufirs e cassação do registro ou do diploma. Observo que as alterações da Lei n. 9.504/1997, entre as quais consta a introdução do art. 41-A, vieram ao encontro da vontade da sociedade de ver rapidamente apurados e punidos os ilícitos eleitorais, razão pela qual a corrupção, que constitui crime previsto no art. 299 do CE, passou a ser também causa da perda do registro da candidatura ou do diploma, sem que o legislador condicionasse os efeitos da decisão proferida na representação ao seu trânsito em julgado” (BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Ac. 970, Relator: Min. Waldemar Zveiter,2001. Voto do Min. Fernando Neves).
131 BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Ac. 21.264, Relator: Min. Carlos Velloso, 2004.
questão e o candidato, uma dupla vinculação causal, tanto de caráter objetivo, quanto de ordem subjetiva, o que reclama prova consistente, clara e inequívoca de que, se o candidato não foi o autor material e direto de qualquer das condutas vedadas, ao menos a estas aderiu de modo consciente e voluntário”.
Contudo, o art. 41-A não carrega a exceção da unanimidade. Apesar do seu sucesso, inclusive em face do seu histórico – do seu processo legislativo pela via da Iniciativa Popular –, salutarmente não é uma unanimidade.
Mesmo que criticado sob vários aspectos por diversos e respeitados autores, é Joel José Cândido132 que se destaca pela crítica geral e irrestrita, de quem, apenas para ilustrar, se traz o texto que segue:
Na nova lei, a pena prevista ao infrator é somente a de multa. O pobre não a paga; o rico paga rindo e os remediados a pagam em parcelas, mas nenhum deles fica inelegível, podendo concorrer novamente no próximo pleito, apesar do dano social que causarem à normalidade e legitimidade das eleições. O ordenamento anterior previa inelegibilidade ao infrator, sanção moderna, barata e de facílima executariedade, adequada para este tipo de infração. Os condenados ficavam temporariamente afastados da vida política eletiva. Em relação à eventual cassação do registro ou do diploma, a Lei n. 9.840/1999 em nada melhorou o que já constava da lei anterior. Ao contrário, trouxe inconstitucionalidade que naquela não havia, à medida em que a cassação do diploma erege-se em inelegibilidade, sanção política absolutamente incompatível com lei ordinária.
O excerto revela contradições. Ora, se a norma não versa sobre inelegibilidade, apenas penaliza, política e administrativamente, com menos rigor que as normas já existentes quem capta ilegalmente voto, não há que se falar de inconstitucionalidade; muito menos sob o único argumento de que tais situações devam estar/ser estabelecidas na Constituição Federal/em lei complementar.
Outrossim, o art. 41-A não excluiu do mundo jurídico todo o ferramental legislativo
132 CÂNDIDO, Joel José. Direito Eleitoral Brasileiro. 11. ed. rev. e atual. São Paulo: Edipro, 2004. p. 457-458.
até então existente – até hoje vigente (não revogou nenhuma outra norma) –, ao contrário, completou-o, mostrando-se mais eficiente do que os demais em vista da possibilidade de as decisões em si fundadas serem imediatamente executadas.
Cuida-se, como dito, apenas de uma nota para deixar flagrante a complexidade da matéria, a ser vislumbrada em seu todo, e não apenas pontualmente.