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Poema: um caminho

No documento Beijo na Boca (páginas 105-108)

E o segundo escreveu a primeira estrofe de um rap chamado 64 Linhas, do rapper paulista Projota. É uma letra, composta por 64 versos, que fala de diversos temas, entre eles:

humanidade, vida, luta, trabalho, amor, cultura – a estrofe escolhida pelo aluno fala da importância que cada indivíduo tem, fazendo uma metáfora com a importância que cada braço de “um corpo só chamado rap”:

nós fazemos parte de um corpo só chamado rap, então não vem querer julgar. qual dos braços e o melhor cada braço tem sua importância, seu jeito de ajudar cê pode pá que eu vim ser mais um braço e só.

Alguns não conseguiram fazer essa atividade, outros não se interessaram. Os que fizeram não quiseram ler nem cantar para a turma. Mas percebi que entre eles houve momentos em que cantaram em voz baixa.

Um outro aspecto importante a ser destacado é o fato de que, nessas discussões com os estudantes, o professor tem a oportunidade de descobrir, e/ou confirmar, os saberes que seus aprendizes já possuem. Nessa atividade em particular, ficou nítido que muitos já possuíam conceitos formados sobre a poesia. Questionados, a partir do roteiro de perguntas proposto no começo do módulo 3, sobre o que é poesia para eles, surgiram respostas que mereciam estar figurando entre as versões apresentadas nas imagens que inauguram esta atividade. Em meus apontamentos dessa aula, encontramos alunos respondendo que poesia: “É quando fala de amor.”; “Sei lá... essas paradas aí de sentimento.”; “É quando se escreve bonito”; “É um monte de coisa”; “É quando passa a visão”. Nesta última, o aprendiz incorpora a gíria

“passar a visão” que significa “mostrar alguma coisa”.

A resposta que mais me chamou atenção foi: “Poesia é a porra toda!”. Esse aluno reuniu em uma só frase algumas das concepções que levei para a sala de aula, como aquela atribuída a Carlos Drummond: “...gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor... a poesia está contida nisso tudo”; também a de Manoel de Barros:

“...é tudo que eu sei.”; assim como a de um autor desconhecido: “poesia é o mais complexo conjunto de universos”. É evidente que ele resumiu tudo isso a sua maneira, utilizando sua linguagem. E se venho, ao longo de um trabalho, apregoando o respeito aos discursos dos educandos, não posso aqui deixar de defendê-lo. Por outro lado, vale também enfatizar, mais uma vez, que o aluno não vai para escola para aprender o que já sabe. Se ele já consegue formular um conceito estudado utilizando a sua linguagem, a forma linguística que ele aprendeu em seu convívio familiar e social, então, cabe ao professor apresentá-lo a novas formas de comunicação. Neste caso, o professor deve levar o estudante a pensar em outras formas de falar, numa maneira socialmente mais aceita, numa forma que ele possa dizer a um grande número de pessoas sem ser vítima de preconceitos. E assim aconteceu. E o aluno então disse: “Poesia é tudo!”.

Seguindo com a atividade, os estudantes não encontraram dificuldades em relacionar a poesia a expressões subjetivas. Quando indagados sobre para que as pessoas precisam de poesia, a maioria justificou com as palavras dos textos nas imagens apresentadas, com destaque para três alunos, que responderam respectivamente desta maneira: “Para entender a realidade, poesia acalma a alma, tem pessoas que precisam de poesia para se acalmar”;

Para se expressar, se distrair, se divertir e entender melhor a vida de forma diferente”;

“Para não ficar burro”. Considero interessante como as respostas dos alunos – relativizando bem esta última e guardando todas as devidas proporções – coadunam-se com os pressupostos teóricos apresentados nesta dissertação para justificar o trabalho com o texto literário e com o

poema. Se a academia não fosse tão rígida, bastaria perguntarmos para os alunos!

Partindo para a atividade criação, foi pedido para que fizessem desenhos representando tudo o que eles pensam sobre poesia. E, se desejassem, poderiam escrever alguns versos sobre o seu desenho. Imaginei que todos os alunos iriam optar pelos desenhos, evitando a produção escrita. No entanto, alguns preferiram fazer primeiramente o texto e só depois partiram para os desenhos; curiosamente, nestes não se empenharam muito. Houve também quem não se interessou em fazer nenhuma das duas opções. Destaco aqui algumas composições. Na primeira, o desenho produzido foi o de uma carinha com um grande sorriso, o educando põe a poesia como necessária a todos e como condição para sorrir:

Apoesia e a legria que por mim todos deveria te para todos as pessoas poderem da sua poesia e dar seus soriso.

Na segunda composição, o aluno desenhou um rosto com um sorriso discreto. No texto, é feita uma relação entre a humanidade e a poesia e o quanto ela representa:

Eu acho que a poesia representa Bastante porque sem a humanidade Nunca iria existir a poesia

As duas seguintes são de estudantes que fizeram o desenho antes do texto, ambos desenharam um boneco. Um escreveu:

um menino feliz após ter lido uma poesia

E outro compôs uma frase carregada de tristeza e vazio:

Alguem que vive sem alma sem vida

Por fim, temos um estudante que não fez o desenho, mas escreveu:

Fortes são agueles que todo dia conseguem sorrir, em meio de tantos motivos para chorar seguinifica choro e alegria tambem

Visto que o professor precisou intervir pouco nessa atividade, percebemos com ela que os alunos já têm uma ideia do que seja poesia, sabem para que serve e, ainda, são capazes de refletir sobre ela.

Na parte final desse módulo, tratamos de refletir um pouco sobre o poema e poesia.

Abrimos a discussão questionando sobre o que seria um poema e retomamos mais uma vez o vídeo do Jonh Lennon da Silva. Vimos, anteriormente, que havia poesia naquela representação artística, mas precisaríamos saber se também havia poema em sua dança. Então, através da estratégia de andaimagem, os alunos foram estimulados a pensar na diferença formal que existe entre poema e poesia, o que não representou uma dificuldade.

Por último, a proposta foi a leitura de 10 poemas escolhidos. O professor deveria ler para os alunos, sem que lhes fosse exigida qualquer atividade. Eles podiam fazer comentários livremente sobre as leituras. De início, os alunos acharam a ideia um pouco estranha: “O professor lendo pra gente, sem a gente ter que fazer nada? Tem alguma coisa aí... Esperem ele acabar que a gente vai ver!” Essa desconfiança pode ser entendida, pois eles sempre são impelidos a produzir alguma coisa – e, de nossa parte, não temos o hábito de ler para nossos aprendizes. Essa falta de hábito, inclusive, nos deixa sem jeito. Talvez por isso a leitura não tenha sido como eu esperava. Somente alguns alunos se interessaram. Tive várias que vezes pedir para prestarem atenção. Nem mesmo os que ouviram as leituras participaram tecendo qualquer comentário. Certamente, esta atividade de leitura precisa ser mais bem trabalhada, com melhores escolhas de textos e um número menor de poemas, podendo, ainda, ser precedida de uma incentivação.

No documento Beijo na Boca (páginas 105-108)