2.4 Agrotóxicos
2.4.3 Processos e impactos causados pelo uso de agrotóxicos
Nos processos de registro ou renovação de registro de determinado agrotóxico, as empresas devem apresentar um dossiê toxicológico e ecotoxicológico completos. Nesse dossiê devem constar testes de toxicidade aguda, crônica, de metabolismo animal, vias de biodegradação, tipos de resíduos gerados, persistência no meio ambiente, mobilidade no solo, toxicidade para organismos do solo e aquáticos, entre outros. Todas essas
informações possibilitam avaliar seu potencial de periculosidade ao homem e ao meio ambiente. O processo de registro completa-se após as avaliações de eficácia agronômica pelo Ministério da Agricultura, de toxicidade à saúde humana pelo Ministério da Saúde e de periculosidade ao meio ambiente pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), sendo o Ministério da Agricultura o órgão registrante. De acordo com Grisolia (2005), até hoje, nenhuma empresa enviou, em seus dossiês, testes positivos para características mutagenicidade, carcinogenicidade e teratogenicidade que possam comprometer o processo de registro de seus produtos e provavelmente nunca o enviarão. Entretanto, podem-se verificar muitos casos de contradição entre os resultados dos testes contidos nesses dossiês e os dados que se encontram na literatura científica internacional.
2.4.3.1 Impactos no meio ambiente
Os resíduos de agrotóxicos, principalmente organoclorados, estão presentes em todo o mundo, desde as áreas mais remotas, como em amostras de solo, água, gelo e neve na Antártica, em elevadas altitudes nos Andes Chilenos, na atmosfera sobre o Atlântico Sul e Oceano Antártico. a contaminação ainda alcança as águas subterrâneas extraídas para consumo humano e as águas tratadas oferecidas para abastecimento em cidades, ainda que em níveis considerados seguros (CAMPANHOLA; BETTIOL, 2003).
Segundo Campanhola; Bettiol (2006), o comportamento dos agrotóxicos no meio ambiente depende de uma série de fatores relacionados com as propriedades físico- químicas das formulações e dos ingredientes ativos, como: solubilidade em água, coeficiente de partição, hidrólise, ionização, pressão de vapor, reatividade, com a quantidade e frequência de uso, com os métodos de aplicação, com as características bióticas e abióticas do ambiente e com as condições meteorológicas. Isto significa que os agrotóxicos não permanecem intactos após sua aplicação, eles se transformam no meio, muitas vezes o que ocorre é a transformação da molécula original em outras moléculas químicas diferente, podendo ter seu potencial de dano aumentado ao meio ambiente se esta for mais tóxica.
Existem outras propriedades dos agrotóxicos que centralizam problemas, como:
toxicidade seletiva, persistência no ambiente, potencial de bioacumulação e mobilidade. A persistência no ambiente talvez seja o fator mais crucial para a sua aceitabilidade e o valor de persistência representa o tempo necessário para a bioatividade alcançar um nível de 75% a 100% do controle. Os agrotóxicos mais persistentes são os inseticidas hidrocarbonetos clorados, os herbicidas variam muito de acordo com o tipo, os carbamatos e ácidos alifáticos persistem poucas semanas, já certas s-triazinas podem persistir de um
ano a um ano e meio. Os inseticidas organofosforados possuem vida curta no solo, sendo dissipados em poucas semanas (SILVA; FAY, 2004).
A maioria dos organofosforados e carbamatos degrada completamente em oito semanas em água fluviais, no entanto o parationa pode persistir por dois anos em água fluviais e cinco anos no solo (HOLUM, 1997 apud SILVA; FAY, 2004).
Os agrotóxicos foram desenvolvidos para terem ação biocida, sendo potencialmente danosos para todos os organismos vivos. Existe interferência dos agrotóxicos na dinâmica dos ecossistemas, como nos processos de quebra da matéria orgânica e de respiração do solo, erosão, desertificação e devastação, ciclo de nutrientes, eutrofização e poluição de águas (LUNA; SALES; SILVA, 1998 & FERRARI, 1985).
Segundo Ferrari (1985) a poluição dos rios e lagos é uma das principais consequências do uso indiscriminado de agrotóxicos na agricultura, sendo que essas substâncias tóxicas são persistentes no meio ambiente, ficando incorporadas a solos agrícolas e pastagens durante décadas e sofrendo erosão e arrastamento pelas águas das chuvas, continuam contribuindo para a poluição dos corpos d’água. Apesar de existir consenso quanto a poluição dos rios, praticamente não existe ação preventiva do poder público e quando ocorre, é feita sobre os efeitos e não na causa.
De acordo com Campanhola; Bettiol (2003), a contaminação do ambiente por organoclorados possui consequência imediata a acumulação desses resíduos nos organismos, já que são compostos lipofílicos e apresentam tendência em se acumular em material biológico.
Os agrotóxicos aplicados às culturas tem seu destino quase imediato no solo, permanecendo nele e muitas vezes sendo lixiviado, contaminando corpos hídricos, volatizado, contaminando a atmosfera ou sendo adsorvido e acumulado nas plantas e nos seus consumidores. A contaminação da carne bovina pelo consumo de pastagens tratadas com organoclorados e devido às operações sanitárias vem sendo estudadas no Brasil desde 1971. A contaminação das pastagens acaba afetando a carne bovina e a presença de resíduos no leite e seus derivados. O quadro de contaminação das hortaliças por resíduos de fungicidas representa um problema muito sério, pois esses compostos (maconzeb, maneb, propineb, tiram e zineb) apresentam como principal resíduo a etilenotiouréia, um composto carcinogênico muito estável (CAMPANHOLA; BETTIOL, 2003).
Segundo EPAGRI (2002), o uso de agrotóxicos no cultivo de arroz irrigado pode causar muitos impactos no ambiente, pois ocorre aplicação dos produtos sobre a lâmina de
água (benzedura) e esta água deve ser mantida na lavoura, sem circulação, de 15 a 30 dias para a maioria dos herbicidas. Resultados dos primeiros estudos sobre dissipação de agroquímicos realizados em Santa Catarina mostraram que resíduos do herbicida Gamit 360 CS foram detectados na água e no solo até 24 dias após a aplicação em benzedura na cultura do arroz irrigado.
2.4.3.2 Riscos à saúde
A saúde humana pode ser afetada pelos agrotóxicos de forma direta, com o contato direto com o produto ou ambientes contaminados e de forma indireta, através da contaminação da biota de áreas próximas a plantações agrícolas. A principal via de penetração do agrotóxico no corpo do ser humano é por absorção dérmica, seguida pela respiração e por ingestão (PEROSSO; VICENTE, 2007).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (1997) existem três tipos de intoxicação por agrotóxicos: aguda, subaguda e crônica. A intoxicação aguda ocorre por exposição a produtos extremamente ou altamente tóxicos por um curto período e os sintomas surgem algumas horas após a exposição excessiva. Os sintomas são bem nítidos e pode se dar de forma leve, moderada ou grave, dependendo da quantidade de veneno absorvido.
A intoxicação subaguda ocorre no contato com produtos altamente ou medianamente tóxicos por uma exposição moderada ou pequena tendo aparecimento mais lento. Os sintomas são subjetivos e vagos, podendo ser fraqueza, mal-estar, dor de cabeça e de estômago, sonolência, entre outros.
A intoxicação crônica acontece por uma exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, com surgimento tardio dos sintomas, podendo ser após meses ou até anos.
Alguns setores possuem maior exposição a esse tipo de produtos, como o agropecuário, saúde pública, firmas desinsetizadoras, transporte, comercialização e produção de agrotóxicos. Os agricultores e suas famílias estão no topo das principais exposições, mas além da exposição ocupacional, a contaminação alimentar e ambiental coloca em risco a intoxicação de um grupo populacional bem maior (PEROSSO; VICENTE, 1997).
A Tabela 5 abaixo apresenta um resumo dos principais sinais e sintomas agudos e crônicos, considerando apenas uma exposição única ou por curto período e a continuada por longo período.
Tabela 5 - Sinais e sintomas de intoxicação por agrotóxico segundo tipo de exposição.
Sinais e sintomas
Exposição única ou por curto período
Exposição continuada por longo período
Agudos
Cefaléia; tontura; náusea; vômito;
fasciculação muscular; parestesias;
desorientação; dificuldade respiratória;
coma; morte.
Hemorragias; hipersensibilidade;
terafogénese; morte fetal.
Crônicos
Paresia e paralisia reversíveis; ação neurotóxica retardada irreversível;
pancitopenia; distúrbios neuropsicológicos.
Lesão cerebral irreversível; tumores malignos; atrofia testicular;
esterilidade masculina; alterações neurocomportamentais; neurites periféricas; dermatites de contato;
formação de catarata; atrofia do nervo óptico; lesbes hepáticas.
Fonte: Plaguicidas, salud y ambiente, ECO/Oans apud Organização Mundial da Saúde (1997).
A quantidade de resíduos de agrotóxicos ingeridos diariamente pelas pessoas é muito inferior que a dose diária de agrotóxicos naturais produzidos pelas próprias plantas, no entanto, os agrotóxicos sintéticos mesmo em pequenas quantidades são tóxicos.
Estudos confirmam que baixos níveis de exposição a esses produtos podem causar sérias doenças e desordens na saúde, como câncer, dano ao sistema nervoso, sistema reprodutivo e outros órgãos, anormalidades no desenvolvimento e comportamento, disfunção hormonal e disfunção do sistema imunológico (SILVA; FAY, 2004).
Segundo Silva; Fay (2004), alguns organoclorados podem causar danos em hormônios esteroides que controlam o crescimento e o sexo, principalmente o estrógeno (hormônio sexual feminino) e a testosterona (hormônio sexual masculino). O estrógeno é essencial para o desenvolvimento normal dos órgãos reprodutivos femininos e masculinos durante a vida fetal, por isso, não é surpresa que possam causar efeitos devastadores no desenvolvimento do sistema reprodutivo do feto.
O momento da amamentação também pode ser crítico nesta situação, pois a presença de diferentes tipos de agrotóxicos no leite materno, especialmente os derivados de compostos clorados, podem atuar de forma negativa no sistema neurológico da criança sob amamentação, causando prejuízos irreversíveis. A exposição aos agrotóxicos nessa fase
crítica implica no desenvolvimento de doenças neurológicas e o retardo metal irreparáveis (GRISOLIA, 2005).
De acordo com Grisolia (2005), estudos realizados com agricultores em diversas partes do planeta apresentam a associação entre diferentes tipos de câncer e o uso de agrotóxicos. Os tipos de cânceres mais associados aos agricultores são: pulmões, estômago, melanomas, próstata, cérebro, testículos, sarcomas, linfoma de Hodgkin, mieloma múltiplo e leucemias. Os resíduos de agrotóxicos podem ser encontrados no sangue, na urina, no leite, no tecido adiposo e em outros tecidos. Essas contaminações são ocasionadas da deriva durante a aplicação, excesso de aplicação, excesso de resíduo em alimentos, mau uso e destino incorreto das embalagens, uso doméstico em ambientes fechados, práticas agrícolas incorretas, como não respeitar o intervalo de carência do produto (prazo determinado entre a última aplicação e a colheita), entre outros. Cerca de 80% dos casos de câncer de mama são atribuídos a carcinógenos que atuam sobre o epitélio mamário e em muitos casos provem da dieta alimentar, pois muitos desses agentes são lipossolúveis e por isso estão mais sujeitos a eles as pessoas que optam por dietas ricas em gorduras e proteínas animais.