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a comunidade (entendida aqui como falta, despossessão, contrária a lógica do próprio e da propriedade), seria uma fenda, uma brecha, uma cunha que se esforça conceitualmente em liberar-nos [...]” (FERRAZ, 2018, p. 27-28). Dessa maneira, se estrutura uma política com conotação no comunitário.

Logo, comunidade e imunidade estão entrelaçadas, uma precedendo a outra e se alternando com o passar dos dias, sem se saber se existirá um final, uma que se consolide diante da outra.

Parece que a imunidade que protege a vida, também nos rouba-a. “No sentido de que a aprisiona, é uma espécie de jaula ou armadura, pela qual se perde, não apenas nossa liberdade, mas o sentido mesmo de nossa existência individual e coletiva” (BARBOSA, 2018, p. 239). Essa jaula nos isola dos outros e da comunidade.

Barbosa (2018, p. 241) reitera que a comunidade, a imunidade e a biopolítica consistem em “uma original visão sobre as relações de força que movimentam os conflitos humanos mergulhados nas relações de imunização promovidas pelo Estado”.

De alguma forma, como sociedade, estamos inseridos nessa cultura de imunidade, e acabamos agindo automaticamente nesse padrão de comportamento, que se destaca na biopolítica.

Contudo, o ser humano é um ser social e tende ao comunitário. Daí essas tensões acabam por se encontrar no decorrer dos papéis sociais. A biopolítica se propõe a “proteger e promover a vida, uma vez que, assim, a morte é o fora absoluto e radical que a biopolítica, ao menos em sua faceta imunitária, não tem como atingir”

(ESPOSITO, 2009, p. 163).

Quando me refiro ao modelo biopolítico, que envolve a immunitas e esbarra no communitas, quero enfatizar que as “estratégias de proteção pela submissão ao risco, ao confronto desestabilizador, antes que realmente ocorra” (NALLI, 2013, p. 93). É seu objetivo máximo; e é necessário enfatizar o quanto a biopolítica pretende evitar a aniquilação. Por isso, a biopolítica se contrapõe a tanatopolítica, no sentido de uma imunidade que proteja as vidas.

Com isso, Nalli (2013, p. 85) defende que “a dialética da relação sujeito- comunidade revela não apenas a realização do homem como bios politikos – mas, simultaneamente, a possibilidade mesma de sua aniquilação”. O que também é observado nesse momento em que vivemos, como a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, em função da guerra da Rússia e da Ucrânia. Temendo o desfecho trágico, que pode aniquilar a vida no planeta, por armamentos que tem essa

característica. Não menos aniquilador, são os muitos civis que estão sofrendo, morrendo ou sendo punidos pela disputa de poder de poucos. Num cenário que afeta a todos que, infelizmente, vivem esse momento trágico.

Quando nos referimos a biopolítica, preza-se pela proteção da vida, pelo preparo para se proteger de ameaças externas e valorizar a vida. Sendo uma estratégia de proteção, a “submissão ao risco, ao confronto desestabilizador, antes que realmente ocorra” (NALLI, 2013, p. 92). Uma espécie de preparação para agir diante de ameaças reais da vida em comunidade.

Na immunitas e na biopolítica, a ideia é proteger a vida em individualidade. No communitas, a forma de vida está no que é comum, respeitando o que é próprio a cada um. Na biopolítica, em comum com a immunitas, “tanto um como a outra tomam a vida como conteúdo e objeto privilegiado de sua atividade” (NALLI, 2013, p. 87). É de se perguntar se realmente podem proteger a vida de fato, ou se fatores externos, relacionados ao poder, ao capital, aos interesses de poucos em detrimento de muitos, isso é mesmo possível? Fica o questionamento para refletirmos, afinal, a resposta é uma incógnita.

A visão de biopolítica para Esposito passa por essas questões, pelo immunitas em contraposição ao communitas, que por vezes está entrelaçado ao respeitar o que é próprio aos indivíduos na communitas. “Ele relê a biopolítica moderna a partir das categorias conceituais de “comunidade” e “sistema imunitário” (NALLI, 2013, p. 79).

Contudo, o conceito de biopolítica envolve “correlacionar não só a vida e o direito, mas o poder de conservação da vida” (NEVES, 2017, p. 10).

Embora não pretendo nessa tese aprofundar a concepção foucaultiana de biopoder ou biopolítica, se faz necessário abordar brevemente os conceitos de Foucault, pois estes levam ao conceito de Esposito sobre biopolítica.

Foucault define biopoder como: “o conjunto dos mecanismos pelos quais aquilo que, na espécie humana, constitui suas características biológicas fundamentais, podem entrar numa política, numa estratégia política, numa estratégia geral do poder”

(FOUCAULT, 2008, p. 3). Considerando, assim, o que temos de mais humano, biológico, agregado a estruturas de poder. Essa definição nos leva ao conceito de biopolítica.

Percebendo o poder do que nos é biológico, da saúde humana em contraposição à doença e a morte, é que Foucault inaugura o conceito de biopoder e depois de biopolítica, pois percebe que “vivemos num regime em que uma das

finalidades da intervenção estatal é o cuidado do corpo, a saúde corporal, a relação entre as doenças e a saúde, etc.” (FOUCAULT, 2010b, p. 171). A influência que a saúde e a prorrogação da morte causam nos seres humanos, acaba por fundar a biopolítica à medida que os governos também percebem essa relação de saúde ou doença, vida ou morte.

Desse modo, “o direito de morte tenderá a se deslocar ou, pelo menos, a se apoiar nas exigências de um poder que gere a vida e a se ordenar em função dos seus reclames” (FOUCAULT, 2010a, p. 148). Um governo que possibilite acesso à saúde e proteção, vacinação, contra potenciais inimigos biológicos, pode parecer interessante aos governados.

Foucault (1999) destaca que na teoria clássica da soberania, o soberano é aquele cujo poder reside no direito sobre a vida e a morte dos homens. Isso representa muito poder, biopoder, que permite a fundação da biopolítica.

Com uma pseudoproteção da vida, os governos dominam e “o conceito de biopolítica em Foucault pode ser visto como manutenção da ordem e da disciplina por meio do crescimento do Estado” (ANDREOTTI, 2011, p. 74). Um estado que a cada dia fica mais forte e na concepção da biopolítica intenciona a vida das pessoas, que exerça controle e intervenção em questões de taxas de natalidade, longevidade, vacinação x epidemias, fluxos de migração, e outros fatores, é biopolítica da população.

A questão do controle de natalidade, se refere ao homem e sua sexualidade, ao fato de esse ser possuir o poder de se reproduzir, sendo essa questão vista como elemento político e vital, de uma espécie que se reproduz (FOUCAULT, 2010a).

Conforme Foucault (2010a, p. 156), “o homem, durante milênios permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de existência política;

o homem moderno é um animal, em cuja política, sua vida de ser vivo está em questão”. O que o ser tem a perder é sua própria vida e com certeza o que mais lhe é importante em sua existência humana.

O poder sobre a vida estabelece reflexão sobre o entendimento daquilo que teria sido a política predominante na sociedade contemporânea, porém, é necessário observar o liberalismo e o neoliberalismo, conforme destaca o próximo subtítulo.

Assim como o fato de estarmos vivendo uma pandemia mundial, que retoma a preocupação com o biológico, de forma que o Immunitas se fortalece em contraposição ao Communitas. Existe também a possível relação entre Communitas

e Immunitas que nos remete ao contexto daqueles que são os incluídos e dos que são os excluídos à medida que o sistema seleciona.

A relação existente entre o Immunitas e a questão da biopolítica leva ao entendimento necessário do que é o papel do neoliberalismo em termos de sofrimento psíquico, ocasionado nas pessoas e as suas consequências para a educação superior e para a mercantilização, o que abordo no próximo capítulo, iniciando pela educação superior no contexto mercantil.

3 EDUCAÇÃO SUPERIOR NO CONTEXTO MERCANTIL

A educação superior no contexto mercantil não é a mesma educação de antes.

Há cerca de vinte anos, a educação vem se tornando um produto comercializado em nosso país e no mundo, mas no Brasil a preocupação está se tornando necessária, uma vez que, a forma como a mercantilização vem priorizando as instituições privadas de ensino superior, com foco na lucratividade, que propiciam aos principais grupos educativos mundiais e pouco à educação em si.

A educação superior apresenta estrutura voltada para o mercado, com currículo reduzido, professores com menor qualificação, alguns apenas possuem pós- graduação lato sensu, o ensino é mais tecnicista, existe desvínculo com a pesquisa e extensão, e expansão da EaD (Educação à Distância) algumas vezes sem muita qualidade. Essas são as características da educação superior submetida à mercantilização.

O neoliberalismo apresenta a desoneração do governo com as Universidades federais, que se dá pela privatização da educação superior, acompanhada pelo desinteresse em investimento em pesquisas, que não sejam tecnológicas; pela falta de uma população emancipada ao ponto de perceber o que está acontecendo; e, ainda, pelos professores calados por medo de perderem seus postos de trabalho e por estudantes com pouca criticidade. Isso, infelizmente, faz o pior cenário da educação superior se tornar uma realidade.

Compreender a mercantilização da educação superior, o que flexibilizou sua expansão; a tendência a desagregação; e ainda o papel do neoliberalismo nessa situação em que nos encontramos atualmente, é fundamental. Por isso, adentraremos a essas questões neste capítulo.