Em tempos de mercantilização da ES, “as universidades comunitárias têm uma identidade a zelar nessa posição desconfortável: sobreviver sem se entregar à lógica do mercado” (PASSOS, 2008, p. 30), mantendo seu caráter comunitário, sendo que
nos últimos anos, as tensões entre a necessidade de cortes de gastos com vistas à sustentabilidade econômica e as demandas por investimentos para o desenvolvimento da qualidade, bem como por adoção de novos modelos de gestão, vêm se tornando questões centrais nas universidades comunitárias (BERTOLIN; DALMOLIN, 2014, p. 140).
O que está em risco é justamente manter o vínculo com a comunidade, retornar os resultados, quando cortes são realizados, nas ações sociais, investimentos culturais, na extensão e na pesquisa. Dessa forma, como se manter comunitária é a grande questão. E como isso será possível?
Contudo, evidencia-se a necessidade de uma vigilância negociada, cuja negociação aqui empregada associa-se ao sentido original da palavra negócio, do latim, não ócio, como forma de se dedicar ao que é positivo, de trabalhar para, vinculada a um processo de resistência e de persistência em preservar as origens e a identidade de uma universidade comunitária (STECANELA; PICCOLI, 2020, p. 290).
Nesse sentido, Passos (2008) destaca essa influência do mercado ao se referir às instituições comunitárias confessionais quando afirma que
as universidades comunitárias confessionais assentam-se sobre pressupostos filosóficos e teológicos que lhes dão fundamentos e direção. A perda da opção fundamental por esses pressupostos pode empurrá-las para os mecanismos de adaptação da instituição: os disfarces para sobreviver se tornarão inevitáveis na conjuntura atual regida pela lógica de mercado. As universidades confessionais têm o dever de mantervivas suas razões de fé na educação do ser humano e da sociedade, ou seja, de afirmar sua confessionalidade como marca que inclui qualidade acadêmica e dar as razões mais profundas de sua dimensão comunitária (PASSOS, 2008, p. 30).
Por esse diferencial, acredita-se que as ICESs repassam uma concepção fundamental de educação, que oferecem por estarem ideologicamente focadas nesse compromisso social, conforme menciono no próximo subtítulo.
Mas como exercer o compromisso social quando a mercantilização da educação superior se impõe na realidade das Universidades tanto no Brasil como no mundo, causando necessidade de esforços no sentido do compromisso que está subentendido com a comunidade.
Para Pegoraro (2013), esse desafio se estabelece conforme as nuances do terceiro setor na educação superior brasileira, o que nessa pesquisa nomeamos como mercantilização da educação. O autor também destaca que a Universidade foi incumbida de resolver problemas mundiais na contemporaneidade, de onde advém o seu compromisso social.
Em termos de compromisso social é imprescindível que se perceba quais os imperativos da sociedade atual. As mudanças constantes no mundo, faz com que as necessidades sociais sejam a cada momento redefinidas. Pegoraro (2013) destaca diversos fatores que devem ser considerados nesse sentido na atualidade:
[...] mercados globais, acumulação flexível, políticas transnacionais de importação e exportação, velocidade da informação e comunicação, tecnologia, hiperacumulação do capital; e, em contrapartida fome e miséria, desemprego, falta de moradia, analfabetismo, exploração de trabalho infantil, prostituição como condição de sobrevivência, consumo de drogas. Todas essas realidades demarcam este momento e esta sociedade e são mais contundentes nos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, como é o caso dos países latino-americanos. (p.285)
Infelizmente, em especial no Brasil, menciono, além desses fatores, o desemprego é uma política que não cumpre seu papel em relação às necessidades da população, o que se evidencia em 2020 e 2021, com o nefasto efeito da pandemia da COVID-19, que devasta vidas e a economia. O descaso com a vacinação e o desrespeito às vidas perdidas e às vidas que sobrevivem a isso é também uma necessidade que recai na Universidade, afinal, a ela é atribuído o conhecimento científico, em relação às soluções para a saúde, tratamento e até mesmo para a produção de respiradores e suporte de saúde, aonde além do compromisso social, uma cobrança efetiva recai sobre as Universidades.
Com base no contexto em que a Universidade se encontra, em especial as Comunitárias, pode-se compreender o funcionamento percebido nas intervenções universitárias tanto no ensino, como na pesquisa e extensão. Assim, “para exercer a verdadeira responsabilidade social, a Universidade, muitas vezes, necessita assumir posicionamentos críticos, opondo-se ao modelo socioeconômico estabelecido,
especialmente quando este não atende às reais necessidades da sociedade”
(PEGORARO, 2013, p. 288). Esse também é um compromisso social das Universidades, com vistas ao enfrentamento das demandas que recaem na sociedade e comunidade.
Sobre estar comprometida com a sociedade, a Universidade ao formar pessoas, torna-os titulados, o que Pegoraro (2013) considera um grau público concedido pela Universidade em consignação com o Estado. Tal responsabilidade reflete na sociedade e, portanto, a Universidade compreende “[...] um bem que não pode ser propriedade privada de instituições e tampouco de indivíduos. Trabalha com conhecimentos e/ou competências que só encontram seu sentido se disponibilizados para a sociedade” (PEGORARO, 2013, p. 289-290). Percebo esse ponto como o bem/produto subentendido na educação que a mercantilização da educação superior impõe, que equivale ao risco do sucateamento dos conhecimentos e competências comercializadas com sucesso e, por vezes, negligenciadas em desenvolvimento dos formandos, que podem vir a receber o título/bem sem de fato estarem em condições de o serem/exercerem. Sendo que ao compromisso social universitário está implicada a responsabilidade da qualidade da educação que fornece/oferece/vende à comunidade acadêmica.
Na lógica mercantil, a Universidade oferece cursos, currículos e competências do lugar onde se encontra e estes “[..] estão profundamente afetados por essa lógica progressista que incorpora visões de curto prazo e não se dá conta das ameaças que pairam no futuro do homem e da natureza” (PEGORARO, 2013, p. 290). O que reflete na sociedade mesmo que a maioria das pessoas não percebam esse movimento e mudança. Nesse sentido Pegoraro (2013) acresce que: “[...] a Universidade se torna cega e surda aos anseios da comunidade em que está inserida” (p. 290-291), servindo de alerta para uma sociedade também cega e surda, frente às problemáticas sociais, aonde se perde nem tão lentamente o compromisso ético social das Universidades Comunitárias.
Ao papel da Universidade Pegoraro (2013) comenta: “um projeto de inclusão social, visando o desenvolvimento da sociedade à abolição de iniquidades que suprimem a igualdade de condições, de exercício da cidadania (p. 292)”. Perpassando o subjetivo compromisso social da Universidade, destaco a importância e responsabilidade desse compromisso, que necessita ser visto pelos seus atores com seriedade. “Essa relação Universidade-sociedade exige o envolvimento da
Universidade como um todo, repensando através de política institucional de ensino, pesquisa e extensão, o seu verdadeiro sentido social” (p. 293). Assim como pensar em novos projetos, em inovação educacional e em ser motivadora da resistência necessária para que seu objetivo maior não se perda, afinal “uma universidade pode ser um polo mobilizador e aglutinador das forças e dos movimentos por uma sociedade mais equilibrada e justa” (PEGORARO, 2013, p. 295).
E uma sociedade equilibrada requer educação emancipatória, senão na educação básica ao menos na educação superior. Para isso, a Universidade passa por reforma. Isso ocorre da Universidade pública à privada. De acordo com Pegoraro (2013), em relação ao terceiro setor na educação superior brasileira, destacam-se quatro importâncias na elaboração de projetos voltados para a Universidade. A primeira tem foco na gestão da Universidade; a segunda impõe a necessidade de inovação e excelência acadêmica; a terceira destaca a natureza identitária com um vínculo na sociedade; e a quarta enfatiza a relevância da Universidade para o contexto regional e nacional. Todos muito pertinentes na percepção que o estudo apresenta, sobre a realidade das Universidades nesses tempos de mercantilização da educação superior e em relação ao Compromisso Social.
Assim, com políticas sérias e bem estruturadas institucionalmente, é possível que a Universidade retome seu papel social e seja construtora de futuros. Dessa forma, poderíamos dizer que os momentos de crise da Universidade podem ser geradores de espaços de criatividade, permitindo pensar não apenas em circunstâncias especiais, mas no desenvolvimento de projetos sustentáveis através de parcerias com os segmentos públicos e privados, doações voluntárias, etc., que criam condições para o exercício da cidadania.
Para seguir com essa escrita, vamos pensar nas instituições comunitárias no cenário da mercantilização da educação superior e até que ponto é possível manter o compromisso social com as práticas mercantis, instituídas legalmente em nosso país e ainda em competição indireta com as instituições de ensino superior públicas e as privadas.
As instituições comunitárias de ensino superior, em sua definição de serem nem públicas e nem privadas, encontram-se em dificuldades no cenário da mercantilização da educação.
Como manter o compromisso social, do que as constitui enquanto Universidades de qualidade superior às demais, isso desde sua constituição enquanto
fundações, que priorizavam o compromisso de parceria com a sociedade e seu entorno, e que por essa comunidade foram possibilitadas de existir.
Agora em forçada competição com as privadas e em desvantagem em relação às públicas, como manter o vínculo com as comunidades e como podem se manter financeiramente, além de continuar a oferecer uma educação de superior qualidade.
Vou analisar o conceito de comunidade, para depois adentrarmos às outras questões relacionadas ao que são de fato Universidades Comunitárias e suas dificuldades nesse momento fortemente mercantilizado.