Em um processo educativo, o aluno deve ser incentivado a participar, a buscar o conhecimento e a tirar conclusões baseado nos fatos que observa.
Ou seja, o aluno tem que construir seus conhecimentos, em vez de adquiri- los prontos, como acontece geralmente no ensino tradicional (MACHADO et al., 2010, s. p.).
Os jogos têm grande potencial pedagógico para auxiliar na construção do conhecimento, são boas ferramentas a serem utilizadas pelos professores em suas aulas.
Machado et al. Dizem ainda que,
Dentre os diversos tipos de jogos existentes, serão analisados os assim chamados "jogos de interpretação de personagem" (RPG). Nesses, a atividade do jogador não é isolada, mas coordenada com a de outros jogadores ou personagens presentes no jogo. Além disso, a ação se desenrola em um ambiente, o que dá um contexto às atividades e às informações que são passadas ao jogador e aos conhecimentos que são construídos por este.
Em tais jogos, os participantes são personagens de uma história que se desenrola, e suas ações vão modificá-la à medida que ela acontece. Os participantes vêem-se frente a situações que exigem criatividade, pesquisa e conhecimento da estrutura do mundo (cenários, objetos e personagens) no qual a história se desenrola, buscando superar situações de conflito, solucionar problemas, assimilando desta forma novos conhecimentos (Andrade, 1997). Já existem iniciativas neste sentido, por exemplo, para o ensino de história (Dal Pizzo et al, 2001). Dada a sua flexibilidade, porém, o RPG pode ser adaptado para qualquer temática que se escolha, como por exemplo o trabalho desenvolvido por (Zuchi, 2000) no campo da matemática.
O aspecto interação está fortemente vinculado à capacidade do sistema em se comunicar e de demonstrar atividade. Assim sendo, os elementos do jogo, tanto o cenário como os personagens, devem ser concebidos de maneira a ter reações bem específicas e particulares às ações do jogador bem como apresentar um certo nível de "vontade própria". O jogador deve se sentir à vontade com o jogo (MACHADO et al., 2010, s. p.).
Dentre os jogos, o RPG vem sendo utilizado no campo educacional podendo ser empregado nas várias disciplinas. Segundo Zuchi, 2000, s. p.) “O RPG pedagógico é uma ferramenta para a criação de simulações práticas, vivenciais em sala de aula, incentivando a criatividade, a participação, a leitura e a pesquisa. Ele é adaptável a qualquer matéria ou conteúdos didáticos, para crianças, adolescentes ou adultos” .
Por meio de um jogo na modalidade RPG, o docente pode proporcionar aos alunos situações-problema que irão sendo resolvidas com auxílio do conteúdo apresentado em aula ou pedido em uma pesquisa, os alunos serão os personagens e deverão interagir para resolver os problemas que surgem. Somente após a resolução o enredo irá prosseguir. Dessa forma, o conhecimento será construído pelos alunos e não memorizado. A interação com o
conhecimento irá auxiliar na formação de uma representação ativa na memória de longa duração com uma rede de conexões que irão permitir o acesso quando a informação for necessária.
Abaixo serão apresentadas considerações encontradas em artigos e dissertações de autores que desenvolveram sua pesquisa sobre o tema de RPG na educação.
3.3.1 Estudos correlatos
Schmit, em sua dissertação de mestrado, faz alguns apontamentos teóricos como meio de reflexão para educadores e pesquisadores sobre o uso do RPG na educação, apresenta o histórico do RPG nos Estados Unidos da América e no Brasil, mostrando, também, os estudos que são desenvolvidos nos EUA e Europa sobre o Role Playing Game. Com base nos estudos que Schmit fez ele proporciona, então, uma definição de RPG e seus cinco tipos: RPG de mesa, Live Action Role Play (LARP), aventura solo, RPG eletrônico solo e Massively Multiplayer Online Role Playing Games (MMRPG).
Para Schmit,
RPG é como um que complete as seguintes características: Ser uma contação de histórias interativas, quantificada, episódica e participatória, com uma quantificação dos atributos, habilidades e características das personagens onde existem regras para determinar a resolução das interações espontâneas das personagens. Além disso, a história é definida pelo resultado das ações das personagens e as personagens dos jogadores são as protagonistas (SCHMIT, 2008, p. 47).
Sendo assim, o RPG é um jogo caracterizado por uma narrativa interativa, na qual os personagens irão interagir e possuem características, atributos e habilidades que serão usados para resolver as questões que vão surgindo no decorrer da narração. A história será a definição das ações dos personagens principais, que nesse caso serão os jogadores, modificando-se à medida que o jogo prossegue.
Schmit ainda apresenta concepções de Vygotsky, suas contribuições para a educação e uma leitura do RPG a partir de Vygotsky (SCHMIT, 2008, p. 62). Por último faz um mapeamento das produções no Brasil sobre RPG na educação e a facilidade ou dificuldade de acesso ao material.
Rezende e Coelho publicaram um artigo sobre a utilização do RPG no ensino de Biologia. Rezende e Coelho mencionam que “dada à necessidade de novas metodologias de
ensino, principalmente na área da Biologia, o presente artigo destina-se a apresentar uma forma diferenciada de ensino utilizando-se o RPG” (REZENDE; COELHO, 2009, p. 01).
Os autores retratam as novas estratégias de ensino mencionando a ludicidade que vem sendo utilizadas com maior frequência e auxiliam o aluno a aprender de forma criativa.
Segundo Rezende e Coelho, “o RPG vem atuando no campo da educação por possuir características interessantes para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, dentre elas as de socialização, narrativa, interatividade, interdisciplinaridade e cooperação” (REZENDE;
COELHO, 2009, p. 2). Sendo assim o RPG pode auxiliar o aluno na postura investigativa e na cooperação, e ajuda o professor a apresentar o conteúdo “como problemáticas a serem resolvidas pelos alunos” (REZENDE; COELHO, 2009, p. 2). Os autores também falam sobre o RPG por eles desenvolvido sobre o conteúdo de protozoários, a aplicação do jogo e os resultados obtidos.
Oliveira, Pierson e Zuin publicaram um artigo, em 2009, sobre o uso do RPG como uma estratégia de avaliação do Ensino de Química. Apesar de não tratar especificamente da utilização do RPG na Biologia, contém pontos interessantes e relevantes para essa pesquisa.
Um detalhe importante é a diferenciação que estes autores fazem entre jogos normais e jogos de RPG:
[...] cooperação entre os indivíduos se constitui numa característica fundamental presente nos jogos de RPG. Diferentemente dos jogos tradicionais, onde há sempre vencedores e perdedores, o RPG apresenta a vantagem de unir os jogadores em prol de um objetivo em comum.
(OLIVEIRA; PIERSON; ZUIN, 2009, p. 2).
Dessa forma, o RPG pode ser usado para estimular a cooperação entre os jogadores, deixando a rivalidade de lado, esquecendo-se o “eu”, porque somente o conjunto poderá resolver os problemas que irão surgindo no decorrer do jogo. Os autores relatam que “esse recurso apresenta elevado potencial pedagógico, além de servir como instrumento de avaliação” (OLIVEIRA; PIERSON; ZUIN, 2009, p. 3).
Propõem, ainda, a partir de Nunes, que o RPG pode ser usado na avaliação, ferramenta essencial para os professores acompanharem o processo de ensino e aprendizagem:
Por meio do RPG é possível averiguar os conhecimentos dos alunos, pois os mesmos vivenciam, discutem entre si e propõem soluções para determinados problemas. Dessa maneira, tal recurso possibilita apontar metodologias e estratégias que permitem explorar a explicitação dos conhecimentos dos alunos pelo professor, o que contribui de maneira bastante apropriada ao processo de ensino e aprendizagem (OLIVEIRA; PIERSON; ZUIN, 2009, p.
3).
O RPG pode ser utilizado como ferramenta para fazer a avaliação do conhecimento dos alunos. O professor irá então, propor situações-problema nas quais os alunos necessitarão dos conhecimentos aprendidos em sala de aula para resolvê-los. Isso permite ao professor explorar o conhecimento e perceber como os processos de ensino e aprendizagem estão sendo desenvolvidos em suas aulas, se os alunos estão realmente construindo o conhecimento e não apenas decorando os conceitos.
Oliveira, Pierson e Zuin realizaram um minicurso abordando conceitos sobre o álcool, a gasolina e o biodiesel com os alunos de uma escola pública em São Carlos, no interior do Estado de São Paulo. Segundo os autores, “ao final do minicurso, foi proposto o jogo do RPG no intuito de averiguar os conhecimentos adquiridos pelos alunos durante o minicurso, voltado a contextos sociocientíficos controversos da atualidade, criados a partir dos conteúdos abordados no minicurso” (OLIVEIRA; PIERSON; ZUIN, 2009, p. 3-4). Começou-se o jogo apresentando as regras aos alunos e cada um recebeu uma ficha para fazer um personagem.
Então, iniciou-se a atividade, sempre propondo situações-problema para os alunos resolverem fazendo uma articulação com os conhecimentos aprendidos durante a parte teórica do minicurso. Eles fizeram uma abordagem ecológica relacionando o álcool, a gasolina e o biodiesel com a devastação do ambiente. Segundo Oliveira, Pierson e Zuin, “a partir da análise do RPG, foi possível constatar indícios de uma postura reflexiva por parte dos alunos.
Os discentes ficaram sensibilizados com o problema ambiental, reconhecendo sua interface com a questão econômica, científica, tecnológica e social” (OLIVEIRA; PIERSON; ZUIN, 2009, p. 10).
Schaffel e moura afirmam que,
De uma sessão ou encontro de RPG participam o mestre (também chamado narrador) e os jogadores (chamados de players) e os personagens não jogadores (NPCs) que são interpretados pelo mestre, personagens que encontramos pelo caminho, falam alguma coisa e somem, entre outros.
Como ferramenta didática, sugere-se que o professor seja o mestre, mas nem sempre é possível. Os players são os alunos (SCHAFFEL; MOURA, 2011, p. 4).
Segundo os autores, o professor funcionaria como o mestre do jogo de RPG e dessa forma iria apresentar as situações que os alunos deveriam ir resolvendo ao longo do jogo de RPG. No prosseguir do artigo, Schaffel e Moura, apresentam a modalidade de RPG que será desenvolvida, o RPG eletrônico. Citando Ilha e Cruz, os autores afirmam que “o RPG eletrônico, assim como o de mesa, pode ser utilizado na educação, pois os jogos eletrônicos em geral apresentam características lúdicas e atrativas, esses jogos têm aparecido como uma
possibilidade de facilitar a educação dos jovens” (ILHA; CRUZ apud SCHAFFEL; MOURA, 2011, p. 6-7). Esse método de ensino é criativo e irá tornar a aprendizagem divertida, estimulando as descobertas no processo. Os autores utilizaram o programa RPG Maker para o desenvolvimento do jogo, que segundo os mesmos é uma ferramenta conhecida e fácil de utilizar.
Schaffel e Moura desenvolveram o jogo Caça às bactérias, que foi aplicado a 10 educandos de uma escola particular da cidade de Palmeira dos Índios. Segundo os autores, “o objetivo do jogo foi desenvolver ludicamente as competências relacionadas ao ensino voltado para o cotidiano do educando sobre as bactérias, tema escolhido pelos pesquisadores e o professor de Biologia da turma” (SCHAFFEL; MOURA, 2011, p. 8). Para uma coleta de dados, foram aplicados questionários que, posteriormente, foram analisados por Schaffel e Moura.
A última obra a ser analisada nesta pesquisa pertence a Saldanha e Batista. Segundo eles, “o Role-Playing Game (RPG) vem ganhando cada vez mais espaço entre os jovens no Brasil e na área da pedagogia, na qual vem sendo utilizado como ferramenta de aprendizagem nas salas de aula” (SALDANHA; BATISTA, 2009, p. 701). Apresentam-se, dessa forma, ideias semelhantes às dos outros autores apresentados, porém com sua singularidade. Como todos os demais, Batista e Saldanha fazem uma introdução falando sobre a educação lúdica e o histórico do RPG. Esses autores falam o significado da sigla RPG e dizem que “vem do inglês e significa jogo de interpretação de papéis” (SALDANHA; BATISTA, 2009, p. 702).
Informam, ainda que o jogo vem sendo utilizado na sala de aula como ferramenta no processo de ensino e aprendizagem.
De acordo com Saldanha e Batista,
O RPG tradicional requer a presença dos participantes em um ambiente físico, real, e a interação aqui é feita com os jogadores. Já no MMORPG, o contato é completamente feito no campo virtual, o que leva ao isolamento físico dos jogadores, sendo a interação aqui feita com os personagens (SALDANHA; BATISTA, 2009, p. 703-704).
Os autores buscam nesse artigo, fazer uma análise dos jogadores de RPG, tomando como amostra “nove jogadores que praticam o RPG há mais de um ano, entre a faixa etária de 20 a 25 anos” (SALDANHA; BATISTA, 2009, p. 704). São passados questionários e feitas entrevistas para obter o perfil dos jogadores de RPG. Os dados obtidos foram posteriormente analisados pelos autores.
Saldanha e Batista, em suas considerações finais, dizem que
Os jogos de RPG parecem ser compostos por elementos que variam em diferentes níveis de funcionalidade. Ao que tudo indica, tais níveis variam desde uma suposta melhora na aquisição de conhecimentos e formação de grupos sociais, passando por meros comportamentos lúdicos e, em alguns casos, assumindo a forma de viciação dos jogos de azar. Se for usado de forma apropriada, pode se tornar uma ferramenta de auxílio ao ensino, área em que já vem sendo aplicado por alguns educadores (SALDANHA;
BATISTA, 2009, p. 715)
O RPG usado da maneira correta, pode se tornar uma grande ferramenta para os professores, podendo ser utilizado em vários conteúdos priorizando a construção do conhecimento e auxiliando no processo de ensino e aprendizagem.
Embora o RPG já venha sendo utilizado no Ensino de Biologia e em outras disciplinas, não foi encontrado nenhum trabalho relacionado ao tema que se utilizou nesta pesquisa, que seria o jogo como facilitador de motivação e atenção, sendo utilizado para obter uma melhor retenção de conteúdo.
4 PROJETO DO JOGO
O jogo foi desenvolvido com base no estudo do tema água, feito pelos alunos no segundo bimestre nas escolas municipais. Como já mencionado na parte anterior, o enredo é muito importante em um jogo de RPG e os personagens devem estar muito bem caracterizados, afinal, a junção de ambos irá proporcionar a aceitação ou rejeição do jogo. É o enredo que vai cativar e prender a atenção dos jogadores ou desestimular e tornar monótono o RPG de mesa, que é o tipo utilizado nessa pesquisa.
É interessante mencionar que “A falta de jogos [...] que envolvessem conteúdos curriculares foi por muito tempo um grande empecilho para a aplicação dos mesmos no processo educativo” (SCHAFFEL; MOURA, 2011, p. 7). Os jogos eletrônicos auxiliam no raciocínio dedutivo dos alunos, pois estes necessitam usar muitas estratégias e exercitarem o trabalho em equipe.
E o jogo de RPG faz exatamente isso, trabalha com a imaginação dos jogadores, criando situações que deverão ser resolvidas pelos personagens.
Na sequência, serão apresentados os detalhes do jogo desenvolvido.