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6. MÉTODOS

6.1. Parte 1: Validade da escala abreviada de demanda-controle

6.1.1. Validade: conceito

Validade representa a capacidade de um instrumento de aferição em medir um construto1 de interesse para o qual foi proposto (LAST, 2001), de forma que, as diferenças obtidas no escore total deste instrumento expressem graus diferentes da característica que se pretende medir

(STREINER; NORMAN, 2003).

Classicamente, três tipos de validade são considerados na avaliação de instrumentos de aferição: de face (ou conteúdo), de critério e de construto (LANDY, 1986). A validade de face ou conteúdo avalia a extensão em que os itens, as dimensões e as próprias escalas contemplam o conteúdo do construto de interesse, com base em pressupostos teóricos e na avaliação por especialistas. A validade de critério, frequentemente considerada na avaliação de novos testes diagnósticos, mede a concordância entre os resultados obtidos pelo instrumento a ser validado com os obtidos por outro considerado padrão de referência (gold standard). A validade de construto, normalmente considerada quando não há um padrão aceito de referência, baseia-se em hipóteses teóricas específicas, e mede a extensão em que os resultados obtidos pelo instrumento a ser testado se correlaciona com outros instrumentos ou variáveis, (CRONBACH; MEEHL, 1955;

STREINER; NORMAN, 2003).

1 Construto é definido como uma variável latente (não observada diretamente) que representa uma característica ou processo psicológico que contribuiria para diferenças encontradas no comportamento individual ou do grupo (STRAUSS; SMITH, 2009)

Recentemente, o conceito de validade de construto se tornou mais abrangente, compreendendo um conjunto de evidências que confirmam as hipóteses teóricas sobre o padrão de inter-relações itens/dimensões do construto a ser aferido, e entre este e outros construtos.

Dentro desta perspectiva mais ampla, a validade de construto inclui, entre outras, a validade de face ou conteúdo, a avaliação da estrutura dimensional (validade dimensional) e a avaliação sobre o grau em que o instrumento a ser validado se correlaciona com outros construtos (STRAUSS;

SMITH, 2009). Em conjunto, estas evidências permitem assunções sobre a interpretação dos resultados (ou dos escores da escala), particularmente, quando consistentes em diferentes subgrupos da população. Sendo assim, validade de construto se refere a um processo de validação de instrumentos de aferição de construtos e de teorias as quais estes construtos integram (CRONBACH; MEEHL, 1955; STRAUSS; SMITH, 2009).

Com a validade dimensional, avalia-se se a estrutura uni ou multidimensional proposta teoricamente para a escala a ser testada confirma-se empiricamente em um conjunto de dados obtidos de amostras da população-alvo que contenham a característica que se quer medir (SMITH et al., 2009). Para esta tese, a estrutura dimensional da escala demanda e controle foi analisada por meio de análise fatorial exploratória e confirmatória, em amostras de trabalhadores brasileiros e suecos, com o objetivo de avaliar em que medida a estrutura de inter-relações itens-dimensões confirma o modelo teórico proposto para o construto estresse no trabalho, definido segundo o modelo proposto por Karasek e Theorell (1990).

As evidências em favor de hipóteses teóricas sobre a relação entre dimensões e/ou construtos latentes podem ser obtidas por meio de diferentes indicadores, dentre os quais, as validades convergente e discriminante (CAMPBELL; FISKE, 1959). Segundo Campbell e Fiske (1959), a correspondência entre construtos similares ou entre diferentes instrumentos concebidos para avaliar o mesmo construto deveria se comprovar empiricamente (validade convergente). Em contraste, a validade discriminante reflete a extensão em que o instrumento a ser testado, ou o construto a que este se refere, não se correlaciona com (ou diverge de) outros construtos teoricamente não relacionados (STRAUSS; SMITH, 2009).

Segundo Campbell & Fiske (1959), validade convergente e discriminante devem ser avaliadas simultaneamente por meio da “matriz multitraço/multimétodo” (CAMPBELL; FISKE, 1959). Neste contexto, a validade convergente é definida pelas correlações entre medidas de uma mesma característica - “traço” - obtidas por diferentes métodos. Por sua vez, a validade

discriminante se traduz em dois tipos de coeficientes de correlação: as correlações entre medidas de “traços” diferentes que são fornecidas pelo mesmo método de aferição (“heterotrait- monomethod coefficients”), e as correlações entre medidas de diferentes “traços” que são obtidas usando diferentes métodos de aferição (“heterotrait-heteromethod coefficients”). Sendo assim, espera-se que os coeficientes de correlação obtidos na avaliação de validade discriminante sejam consistentemente menores do que os de validade convergente, ou seja, a correlação entre indicadores de diferentes construtos/dimensões devem ser menores do que os propostos para um mesmo construto ou dimensão (RAYKOV, 2010).

Nesta tese, a validade convergente e discriminante engloba dois componentes: 1) o componente interno ao instrumento, referente à estrutura dimensional, diz respeito a

“convergência” entre itens de uma mesma dimensão e a “divergência” entre itens/dimensões supostamente não correlacionados; e 2) o componente externo, relacionado ao processo psicológico subjacente definido teoricamente, consiste da avaliação empírica sobre a relação entre dois construtos teoricamente relacionados, ou seja, o grau em que o instrumento em questão diferencia indivíduos que apresentam diferentes características, sejam estas sociodemográficas, clínicas ou psicológicas.

As hipóteses consideradas nesta tese para avaliação da validade da escala abreviada de demanda controle incluíram:

1) A escala abreviada de demanda e controle deve seguir um padrão de inter-relação itens-dimensões compatível com o proposto no modelo teórico demanda controle;

2) A estrutura de dimensionalidade deve ser semelhante em diferentes contextos socioculturais;

3) A correlação entre itens de uma mesma dimensão deve ser maior do que a correlação entre as dimensões (fatores);

4) Os escores obtidos nas dimensões da escala abreviada de demanda e controle devem permitir discriminar indivíduos de diferentes estratos socio-ocupacionais.

6.1.2 Fontes de dados

As análises constantes dos dois primeiros artigos desta tese utilizaram as seguintes fontes de dados: a) “Estudo de coorte em trabalhadores do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas - Programa de Saúde no IPEC (PROSEC)” (PASSOS et al., 2003), b) a tese de doutorado

“Aspectos Psicossociais do Impedimento Laboral por Motivos de Saúde em Trabalhadores de Cozinhas Industriais” (AGUIAR, 2009) e, c) o Estudo SLOSH 2006 - Swedish Longitudinal Occupational Survey of Health (KINSTEN et al., 2007).

6.1.2.1 O Estudo PROSEC

O Estudo PROSEC foi elaborado com o intuito de subsidiar ações em saúde do trabalhador de unidades hospitalares. Foram utilizados os dados do inquérito aplicado ao censo de trabalhadores em exercício no IPEC/Fiocruz, realizado no período de 2004 a 2005.

a) População de estudo, critérios de inclusão e exclusão

O total de 497 trabalhadores foram considerados elegíveis, entre os quais: servidores com vínculo empregatício com a Fiocruz, cedidos de outras instituições públicas, pesquisadores visitantes ou prestadores de serviço em efetivo exercício no ano de 2003, com permanência mínima prevista de dois anos.

Foram excluídos do estudo os indivíduos com permanência prevista menor do que dois anos. Na primeira etapa do estudo, a cobertura populacional foi de 85,3% para o preenchimento dos questionários e de 80,7% para a aferição de pressão arterial (figura 3).

Figura 3 – Cobertura populacional do Estudo PROSEC, 2004-2005.

b) Etapas da pesquisa, instrumentos de coleta, treinamento e supervisão da equipe, e pré-testes A coleta de dados foi realizada por meio de questionário autoadministrado e incluiu as seguintes informações: dados sociodemográficos; transtornos mentais menores (General Health Questionaire – GHQ-12); eventos estressores psíquicos nos últimos 12 meses (DSM – IV);

atividades, aspectos psicossociais (DCSQ) e práticas de segurança no ambiente de trabalho;

tabagismo (Fägestrom), consumo de álcool (Cage e Audit) e de medicamentos; hábitos alimentares e prática de exercícios físicos; altura e peso autoreferidos; utilização de serviços de saúde; situação vacinal; saúde da mulher; apoio social e qualidade de vida (WHOQOL-bref) (ver anexo A). O pré-teste do questionário contou com a participação de 20 voluntários com características semelhantes à população do estudo, cujo objetivo foi avaliar a compreensão, formatação, suficiência de opções de respostas e aceitação do questionário.

O grupo de nove aplicadores foi constituído por estudantes universitários de Farmácia e de Enfermagem, supervisionados por cinco servidores. O período de treinamento foi de aproximadamente 80 horas e incluiu reuniões de apresentação da pesquisa, do questionário e do termo de consentimento livre e esclarecido, enfatizando o compromisso e a responsabilidade em promover a adesão da população alvo e garantir a qualidade das informações; treinamento para recepção dos participantes, preservação do sigilo, aferição da pressão arteial (SOCIEDADE BRASILEIRA DE HIPERTENSÃO et al., 1999) e entrega do material. Foi elaborado um manual de procedimentos e entregue aos aplicadores e supervisores (ver anexo B). Um estudo piloto foi realizado com a participação de 10 voluntários, com diferentes níveis de escolaridade, para observar o adequado cumprimento de todas as etapas da coleta de dados.

c) Recrutamento, registro, coleta de dados e cobertura populacional

A identificação da população de trabalhadores por setores de trabalho foi obtida no serviço responsável pela gestão de recursos humanos. A cada indivíduo foi associado um número de registro (código) aleatório por outro profissional técnico treinado que não participou da análise dos dados. Este número foi utilizado para identificação dos questionários e dos envelopes que foram lacrados ao final do preenchimento. Os nomes dos participantes foram excluídos do banco utilizado para análise de dados. As informações que relacionavam o número do questionário e nome dos participantes foram armazenadas em banco de dados com senha de segurança que permanece sob a guarda do coordenador da pesquisa. Todos os pesquisadores, colaboradores e técnicos envolvidos na análise do banco de dados assinaram um termo de sigilo (anexo C).

Os supervisores tinham as seguintes atribuições: observação e controle de frequência dos aplicadores, conferência e distribuição do material; conferência e guarda do material devolvido, que incluía os questionários preenchidos em envelopes lacrados e etiquetados, os estetoscópios, os esfigmomanômetros, as fitas métricas e os formulários de frequência dos participantes.

A sala destinada ao preenchimento do questionário ficava fora do setor de trabalho da maioria dos participantes, era reservada e sem acesso a telefone. Os aplicadores não tiveram acesso às informações do questionário que, ao final de cada turno, eram encaminhados aos supervisores. Os questionários foram lidos por meio de scanners utilizando o software TELEform versão 8.0 e, após conferência por um técnico treinado, os dados foram consolidados

em um banco de dados no formato do programa Statistical Package for the Social Sciences SPSS-WIN versão 15.

d) Controle de qualidade

O controle de qualidade dos dados foi feito por dois técnicos treinados, de modo independente, por meio da conferência dos questionários preenchidos com o banco de dados.

Relatórios de consistência foram elaborados com para checar o cumprimento das regras de pulo, o preenchimento de mais de uma opção de resposta para o mesmo item e incoerências das respostas. Estes procedimentos foram realizados no programa Statistical Package for the Social Sciences SPSS-WIN, versão 15.0.

e) Considerações éticas

Os trabalhadores participantes leram e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (anexo C). Todos os participantes receberam as orientações e encaminhamentos necessários aos problemas de saúde detectados. Como dito anteriormente, para preservar a confidencialidade atribuiu-se números aleatórios aos questionários, utilizou-se envelopes lacrados e uma sala reservada para a coleta das informações. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas da Fiocruz, sob o número CAE 0024.0.009.000-03 (anexo D).

6.1.2.2 “Aspectos Psicossociais do Impedimento Laboral por Motivos de Saúde em Trabalhadores de Cozinhas Industriais”

O estudo “Aspectos Psicossociais do Impedimento Laboral por Motivos de Saúde em Trabalhadores de Cozinhas Industriais” teve como principal objetivo estimar a prevalência e identificar os fatores determinantes de impedimento nas atividades laborais por motivos de saúde nos trabalhadores de cozinhas industriais de nove restaurantes populares do Estado do Rio de Janeiro que estavam em funcionamento em 2006. Adicionalmente, avaliou a confiabilidade teste-

reteste da escala abreviada de demanda e controle de Theorell (DCSQ) e descreveu as características sociodemográficas, laborais e de saúde daqueles trabalhadores (AGUIAR, 2009).

Os métodos estão descritos na tese de Aguiar (2009). Resumidamente, trata-se de um estudo seccional, cuja população alvo incluiu o censo dos trabalhadores das empresas concessionárias do governo para a produção de refeições nos restaurantes populares que totalizavam 463 indivíduos. Deste total, 28 foram excluídos porque estavam afastados por motivo de saúde, quatro indivíduos gozavam férias, quatro recusaram participar e um estava ausente.

Entre dezembro de 2006 e março de 2007, os questionários foram aplicados por sete entrevistadores treinados aos 426 trabalhadores que atenderam aos critérios de inclusão e aceitaram participar da pesquisa. A opção por entrevistas foi feita com o intuito de evitar dados faltantes, em virtude da falta de clareza à época sobre o nível de escolaridade dos participantes. O questionário incluiu informações sociodemográficas, como idade, sexo, ocupação e formação profissional; informações sobre uso de álcool e tabaco, acidentes de trabalho, eventos de vida produtores de estresse, perfil de morbidade física e mental menor referida (GHQ-12) e o DCSQ.

Foram realizadas aferições de peso, altura e pressão arterial.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Medicina Social da UERJ e todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido (IMS/UERJ) (AGUIAR, 2009).

6.1.2.3 O Estudo SLOSH 2006

O estudo SLOSH – “Swedish Longitudinal Occupational Survey of Health: a nationally representative psychosocial survey of the Swedish working population”, é um estudo longitudinal coordenado pelo Instituto de Pesquisa em Estresse da Universidade de Estocolmo (Stress Research Institute - Stockholm University) cujo objetivo é investigar as relações entre o modo de organização do trabalho, o ambiente de trabalho e a saúde dos trabalhadores (KINSTEN;

HANSON et al., 2007). Os dados utilizados para esta tese são oriundos do primeiro seguimento realizado entre março e maio de 2006 pelo instituto Statistics Sweden, do inquérito sobre ambientes de trabalho suecos (Swedish Environment Survey – SWES) realizado em 2003.

Em 2006, questionários de autopreenchimento foram enviados por correio aos participantes do inquérito SWES 2003. Duas versões foram enviadas: uma para os respondentes que estavam empregados e outra para os desempregados à época do inquérito. A primeira versão incluiu informações sobre a organização e o ambiente de trabalho, o estilo de vida, a situação de saúde e a situação social fora do trabalho, enquanto a segunda versão incluiu questões consideradas relevantes para os indivíduos que por algum motivo estavam desempregados temporariamente ou permanentemente, tais como, estudantes, idosos, licenciados por motivos de saúde, com licença maternidade, donas de casa, aposentados e pensionistas.

Dos 9.214 participantes do SWES 2003 de 16 a 64 anos de idade, 50 indivíduos foram excluídos por motivo de morte, emigração, endereço não localizado ou porque fizeram parte do estudo piloto e 5.985 (65%) responderam os questionários em 2006, sendo 5.141 empregados e 844 desempregados temporariamente ou permanentemente. Dos 5.141 indivíduos que estavam empregados em 2006, 40,2% eram trabalhadores manuais (blue-collar), 39,2% eram não-manuais (white-collar) e 11,5% ocupavam cargos gerenciais.

Para efeito de comparação, foram selecionados os trabalhadores de setores em saúde que mais se assemelhavam às atividades realizadas pelo IPEC/Fiocruz, a saber: trabalhadores de hospitais, de laboratório e de unidades de atendimento ambulatorial e veterinário. A variável

‘setor de trabalho em 2004’ (ASTSNI2002004) foi utilizada para a seleção dos seguintes setores para compor a amostra: 851119 (unidades de atenção primária - Sluten primärvård), 85112 (policlínicas de atenção especializada - Specialiserad sluten somatisk sjukvård), 85121 (hospitais gerais - Öppen hälso- och sjukvård, på sjukhus), 85141 (laboratórios - medicinsk laboratorieverksamhet.), 85142 (serviços de ambulâncias - Ambulanstransporter och ambulanssjukvård), 85144 (outras unidades de saúde com atendimento médico - Annan öppen hälso- och sjukvård, ej läkare) e 85200 (clínicas veterinárias - Veterinärverksamhet). Dos 426 respondentes, 362 estavam empregados e responderam ao DCSQ em 2006. Os trabalhadores de restaurantes foram excluídos da amostra utilizada no segundo artigo da tese porque tiveram uma participação muito baixa no SLOSH 2006, com apenas 61 respondentes empregados que completaram o DCSQ (ver apêndice A).

O Estudo SLOSH foi financiado pelo Conselho Sueco Swedish Council for Working Life and Social Research (FAS) e aprovado pelo Conselho Regional de Ética em Pesquisa – Regional Research Ethics Board, em Estocolmo, Suécia (KINSTEN et al., 2007).

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