A VI OLÊNCI A I NTRAFAMI LI AR E A JUSTI ÇA
Eliana Mendes de Souza Teix eir a Roque1 Mar ia das Gr aças Car v alho Fer r iani2 Mar t a Angélica I ossi Silv a3
O obj et iv o dest e est udo foi analisar as dim ensões est r ut ur ais, de desenv olv im ent o e funcionais das fam ílias em sit uação de violência, sob int ervenção j udicial, em um m unicípio do Est ado de São Paulo, Brasil. Ut ilizou- se o r ef er en cial t eór ico cen t r ado n a v isão do con t ex t o ecológico do desen v olv im en t o h u m an o. A m et odologia adot ada é de nat ur eza qualit at iv a. A colet a de dados const it uiu- se em análise dos pr ocessos for enses, m apas cen sit ár ios, en t r ev ist a sem i- est r u t u r ada, obser v ação liv r e e f ot ogr af ias pr odu zidas pelos su j eit os. A an álise dos dados inspirou- se na herm enêut ica dialét ica. “ Não t ive” e “ na rua” foram cat egorias em píricas que em ergiram das falas dos suj eit os, evidenciando sit uações de insegurança e desam paro, a inserção em relações perversas, est abelecidas no universo do t ráfico de drogas, a exploração, a violação de direit os e as privações econôm icas. As f am ílias ap r esen t ar am alt er ações d e u m m om en t o h ist ór ico p ar a ou t r o, sob d ist in t as v ar iáv eis e com com plex idade específica, quant o às capacidades de descobr ir , sust ent ar ou alt er ar o seu desenv olv im ent o no am b ien t e.
DESCRI TORES: fam ília; v iolência; dir eit o penal
I NTRAFAMI LY VI OLENCE AND JUSTI CE
This st udy aim ed t o analyze t he st ruct ural, developm ent al and funct ional dim ensions of fam ilies in sit uat ions of v iolence, under j udicial int er v ent ion in t he cit y of São Paulo, SP, Br azil. The t heor et ical r efer ence ut ilized w as cent er ed on t he per spect iv e of t he ecological cont ex t of hum an dev elopm ent . A qualit at iv e m et hodology w as adopt ed. Dat a collect ion w as const it ut ed in t he analysis of t he j udicial law suit s, census m aps, sem i- st r uct ur ed int erviews, free observat ion and phot ographs produced by t he subj ect s. Dat a analysis was inspired by dialect ic herm eneut ics. “ I DI D NOT HAVE” and “ I N THE STREETS” were em pirical cat egories em erging from t he subj ect s’ st at em ent s, ev idencing sit uat ions of insecur it y and despair , t he inser t ion in per v er t ed r elat ions, est ablished in t he universe of drug dealing, exploit at ion, violat ion of right s and econom ic privat ions. Fam ilies showed changes from one hist orical m om ent t o anot her, under dist inct variables and w it h a specific com plexit y, regarding t heir capacit y of discov er ing, m aint aining or alt er ing t heir dev elopm ent in t he env ir onm ent .
DESCRI PTORS: fam ily ; v iolence; cr im inal law
LA VI OLENCI A I NTRAFAMI LI AR Y LA JUSTI CI A
El ob j et iv o d e est e est u d io f u e an alizar las d im en sion es est r u ct u r ales, d e d esar r ollo y f u n cion ales d e las fam ilias en sit uación de violencia, baj o int ervención j udicial, en un m unicipio, en San Pablo, Brasil. Se ut ilizó el m arco t eórico cent rado en la visión del cont ext o ecológico del desarrollo hum ano. La m et odología adopt ada es de nat uraleza cualit at iva. La recolección de dat os se realizó sobre el análisis de los procesos j udiciales, m apas de censos, ent r ev ist a sem iest r uct ur ada, obser v ación libr e y fot ogr afías pr oducidas por los suj et os. El análisis de los dat os se inspiró en la herm enéut ica dialéct ica. “ No t uve” y “ En la calle” fueron cat egorías em píricas que em er gier on de los diálogos de los suj et os, ev idenciando sit uaciones de insegur idad y desam par o, inser ciones en relaciones perversas - est ablecidas en el universo del t ráfico de drogas, explot ación, violación de derechos y p r iv acion es econ óm icas. Las f am ilias p r esen t ar on alt er acion es d e u n m om en t o h ist ór ico p ar a ot r o, b aj o dist int as v ar iables y con com plej idad específica, en lo r elacionado a las capacidades de descubr ir , sust ent ar o alt er ar su desar r ollo en el am bient e.
DESCRI PTORES: fam ília; v iolência; der echo cr im inal
1 Doutor em Enferm agem , e- m ail: j [email protected] .br; 2 Professor Titular, Escola de Enferm agem de Ribeirão Pret o, da Universidade de São Paulo, Centro
Colaborador da OMS para o Desenvolvim ento da Pesquisa em Enferm agem , Brasil, e- m ail: [email protected]; 3 Professor Dout or, Escola de Enferm agem
I NTRODUÇÃO
A
realidade brasileira na contem poraneidade cont a com v ár ios disposit iv os legais em at enção à criança e ao adolescente e m odelos de gestão pública que, no foco da fam ília, obj etivam com prom isso m ais am plo com o desenv olv im ent o hum ano e social do país, j ust ificados na part ilha de ações int erset oriais e governam ent ais, na t ent at iva de enfrent ar e superar a pobr eza, as desigualdades sociais e econôm icas. Tal m oldura cria respost as t eoricam ent e sat isfat órias à s q u e st õ e s co l o ca d a s, a l t e r a n d o t a m b é m a s incum bências de cada poder const it uído, par a que seu s op er ador es e, esp ecif icam en t e, a ciên cia d o Dir eit o b u sq u em au x ílio n as Ciên cias Hu m an as e Sociais, com o obj et ivo de assessorar e subsidiar as decisões e os procedim ent os j urídicos em sit uações n a s q u a i s o co n h e ci m e n t o t é cn i co - ci e n t íf i co é n ecessár io.Assim , se um a dada sit uação de v iolência en t r e a r ealid ad e f am iliar con t r a a cr ian ça ou o a d o l e sce n t e so f r e r i n t e r v e n çã o j u d i ci a l o f a t o transform a- se num processo, sendo que a fam ília em si t u a çã o d e j u st i ça , d i a n t e d e u m a o r g a n i za çã o aut orit ária, cent ralizada, rígida e burocrát ica com o o Tr ib u n al d e Ju st iça, d esloca o f at o v iolen t o, su as conseqüências e suas int erfaces no t em po, t razendo im por t ância a est e est udo que, longit udinalm ent e, acom p an h ou o d esen v olv im en t o d e seu s su j eit os durant e dez anos.
Pode- se esper ar que ex ist am pais or iundos d a s cl a sse s p o p u l a r e s, e co n o m i ca m e n t e desfav or ecidos, que com et er am v iolência cont r a os filhos e seus agravos, e ainda consigam exercer de for m a adequada o papel de pais? Não se t em t ais dados, aqui, e nem a pr et ensão nest e t r abalho de responder à quest ão, m as os result ados com binados indicam que a ex posição a um m eio am bient e não e n r i q u e ci d o co m v a r i á v e i s co m o s t a t u s
socioecon ôm ico, in st it u ição m at er n a en t r e ou t r os det erm inam t endência consist ent e para um t rabalho em pír ico r igor oso nessa dir eção.
A l i t e r a t u r a a p o n t a q u e a e st r u t u r a h ier ár q u ica d a f am ília se f u n d am en t ou n o p od er advindo do patriarca e de seus direitos, até o de usar a violência para m ant er a ordem . Essa est rut ura de dom inação foi se cristalizando tanto na im agem com o na r ealidade.
Os reflexos da aut oridade pat erna sobre os filhos e de adult os sobre as crianças const ruíram - se no padrão de educação de m uitas gerações, inclusive daquelas que hoj e são pais agressores de seus filhos, m ediant e v iolência.
MÉTODO
Par a a r ealização dest e t r abalho, lev ou- se em con t a as d ir et r izes e n or m as r eg u lad or as d e pesquisa env olv endo ser es hum anos, em anadas da Resolução 196/ 96 sobr e pesquisa envolvendo ser es hum anos, e a apr ov ação do Conselho de Ét ica em Pesquisa da Escola de Enferm agem de Ribeirão Pret o da Universidade de São Paulo.
A partir dessa etapa do proj eto de pesquisa, foi solicit ada aut orização às aut oridades responsáveis na esfer a for ense, ou sej a, no Fór um do m unicípio p e sq u i sa d o - Sã o Pa u l o , Co m a r ca d e Pr i m e i r a I n st ân cia, Var a Ún ica, par a ser r ealizada a colet a concer nent e aos pr ocessos j udiciais. Fizer am par t e do proj et o nove fam ílias selecionadas aleat oriam ent e j unt o a 115 processos com hist ória de violência, no per íodo de 1 9 9 5 a 2 0 0 5 , que t iv er am int er v enção j udicial, t ot alizando 66 part icipant es.
Com o parte da docum entação prevista nessa legislação, elabor ou- se o Ter m o de Consent im ent o Livre e Esclarecido, obt endo assim o consent im ent o pós- inform ado dos suj eitos participantes da pesquisa. O acom panham ent o longit udinal deu- se por m eio da análise docum ent al ( processos das fam ílias) e t am b ém f o i r eal i zad o p o r m ei o d e en t r ev i st as p r o g r a m a d a s e o b se r v a çõ e s si st e m á t i ca s p e l a pesquisadora, ao longo de 10 anos.
A m e t o d o l o g i a a d o t a d a é d e n a t u r e za q u a l i t a t i v a( 1 - 2 ), a q u i e n t e n d i d a co m o p r á t i ca s
Modelo Calgary de Avaliação de Fam ília ( MCAF) que consist e num a est r ut ur a m ult idim ensional com t r ês cat egorias principais: est rut ural, de desenvolvim ent o e funcional, baseando- se em fundam ent o t eórico que e n v o l v e si st e m a s, co m u n i ca çã o e m u d a n ça . Tal m odelo foi adapt ado a part ir do m odelo e avaliação de fam ília( 3).
Para analisar os dados e m elhor com preender os sign if icados, u t ilizou - se a pr opost a do m ét odo her m enêut ico- dialét ico( 4- 5)e as bases da Teor ia dos
Sist em as Ecológicos( 6).
A t raj et ória analít ico- int erpret at iva seguiu os seguint es passos: ( i) or denação e classificação dos dados, ( ii) leit ura exaust iva e com preensiva, visando a i m p r e g n a çã o , v i sã o d e co n j u n t o e b u sca d a s est rut uras de relevância, ( iii) const it uição do cor pus
de com unicações, unidades de registro e refinam ento da classificação, ( iv) ident ificação e problem at ização das idéias explícitas e im plícitas no texto, ( v) definição das cat egor ias em pír icas e busca de sent idos m ais am plos ( sociocult urais) que art iculam as explicações dos suj eitos da pesquisa, ( vi) análise final, m ovim ento d o d i á l o g o e n t r e a s i d é i a s p r o b l e m a t i za d a s, infor m ações pr ov enient es de out r os est udos acer ca d o a ssu n t o , o r e f e r e n ci a l t e ó r i co d o e st u d o e elab or ação d e sín t ese in t er p r et at iv a, p r ocu r an d o articular o obj etivo do estudo, a base teórica adotada e os dados em píricos.
RESULTADOS / DI SCUSSÃO
A an ál i se d as d i m en sõ es est r u t u r ai s, d e desenvolvim ento e funcionais das fam ílias de crianças e a d o l e sce n t e s e m si t u a çã o d e v i o l ê n ci a , so b int ervenção j udicial, t raz result ados que a qualificam e n q u a n t o e sp a ço d e d e si n t e g r a çã o so ci a l e m eca n i sm o s d e r i sco d e t o d a s a s esp éci es co m ev ent os negat iv os, fazendo a hist ór ia de v ida das pessoas em experiências focadas em perdas de entes p r ó x i m o s, m e d i a n t e h o m i cíd i o s, p r i sõ e s e condenações por ext ensos períodos de violência int ra e ex t rafam iliar.
Apurou- se que as pessoas são pert encent es a baixo nível social e pobres, incapazes de suprir as n ecessi d ad es m ai s b ási cas d e seu s i n t eg r an t es.
Ap r esen t am r ealçad o r et r aim en t o social, em b or a vivam na rua. Os cont ext os parent al, inst it ucional e so ci a l d o s p a r t i ci p a n t e s n ã o g u a r d a m l ó g i ca s i n cl u si v a s, o q u e p e r m i t e d e scr e v ê - l a s co m o excluídas( 7). Há lacunas nos seus graus de constância
e diferenciação da organização est rut ural do sist em a f am iliar, com u so abu siv o de álcool e su bst ân cias en t or p ecen t es, in st ab ilid ad e p r of ission al e p ar co f u n ci o n a m e n t o i n t e r p e sso a l . D a d o s q u e sã o corroborados na com parat iva quant it at iva dist ribuição de v iolência física, negligência e sex ual no m esm o período( 8).
As cr i a n ça s e o s a d o l e sce n t e s d e f i n e m socialização bastante precarizada, dem onstrando falta de conhecim ent o das nor m as sociais e cult ur ais, o que se obser v a ao pot encializar os conflit os com o m eio f am iliar e su a m aior ex acer bação f or a dele. Assinala- se dificuldades severas e incom pet ência na int egr ação aos sist em as ex t er nos, apur ando- se ser a escola o local on de h á m aior v isibilidade dessa ocorrência. Registra- se que, em bora avancem na série escolar cursada, perm anecem sem alfabetização, pois en co n t r o u - se, n est e est u d o , v á r i a s cr i a n ça s em adian t ada sér ie escolar qu e n ão sabiam ler n em escr ev er.
Verifica- se diluição do processo fam iliar nos sist em as sociais, um a vez observada a t ransferência de funções da fam ília para os serviços sociais.
As f a m íl i a s sã o co m p o st a s p o r 8 0 % d e p essoas d o sex o f em in in o. Com r elação à id ad e, verifica- se que a faixa et ária dos 30 aos 39 anos é aquela que inclui núm ero superior de suj eitos ( 30% ) , seguindo- se ent re 40 e 49 anos ( 16% ) . Const at a- se, t am b ém , au m en t o d o d esem p r eg o , i n st ab i l i d ad e profissional e em prego precário.
Essa s d i m e n sõ e s, co l o ca d a s à l u z d a percepção sobre int ervenção j udicial na perspect iva de seus m em bros, se m ostram inócuas e desprovidas de efet iv idade.
Figura 1 - Const ruct o da violência
Pod e- se, en t ão, ob ser v ar q u e o p eso d os papéis que cabem à fam ília é bast ant e significat ivo n o d e se n v o l v i m e n t o d e se u s m e m b r o s e q u e , dependendo do m odo com o se constitui e se relaciona, pode- se prom over m aior e m elhor desenvolvim ent o de seus m em br os, ou m esm o não pot encializar as suas capacidades. A fam ília pode ser desde font e de su p o r t e e m o ci o n a l e so ci a l , a u x i l i a n d o n o d esen v olv im en t o sau d áv el d e seu s m em b r os, at é f o n t e d e r i sco , co n f l i t o s e e st r e sse . Qu a n t o a o aj ustam ento em ocional e com portam ental de crianças e a d u l t o s, e st á a sso ci a d o co m a q u a l i d a d e d a s r elações fam iliar es( 9).
NA RUA, ca t e g o r i a e m p ír i ca d e sv e l a d a , define desprot eção, solidão, revelando ainda que, no ideário desses suj eitos, o m odelo idealizado de fam ília ( aquele baseado no par ent esco, na fam ília nuclear, onde predom ina a estrutura do pai, m ãe e filhos) é o único capaz de prover as condições necessárias para o desenvolvim ent o de um a criança.
Para com preender o funcionam ent o fam iliar, são n ecessár ias an álises d e am p lo esp ect r o q u e p a sse m p e l a p e r sp e ct i v a so ci o cu l t u r a l , n a q u a l p od er iam ser ob ser v ad as as t r an sf or m ações d as
funções da fam ília ao longo da hist ória( 10). Para t ais
aut ores, o est udo da diversidade cult ural favorece o desenvolvim ento de teorias m ais claras e a construção de conceitos m ais válidos de fam ília, o que a pesquisa em tela traz com vigor bastante interessante, onde a inst it uição fam iliar pode ser ent endida, ao t er seus m em bros NA RUA, com o um princípio de const rução d a r ea l i d a d e co l e t i v a . A f a m íl i a , n a a t u a l i d a d e, enquanto construção social, pode ser entendida com o espaço ao m esm o tem po físico, relacional e sim bólico aparentem ente m ais conhecido e com um , a ponto de ser usado com o m et áfor a par a t odas as sit uações q u e t ê m a v e r co m e sp o n t a n e i d a d e e co m a naturalidade. A fam ília revela- se com o um dos lugares pr iv ilegiados de con st r u ção social da r ealidade, a part ir da const rução social dos acont ecim ent os e das relações aparent em ent e m ais nat urais( 11).
Além de est ar em NA RUA, as f am ílias em e st u d o e st ã o co n t e x t u a l i za d a s e n t r e a s ú l t i m a s d é ca d a s d o sé cu l o XX e i n íci o d o sé cu l o XXI , ressaltando- se que nesse período o Brasil passou por pr of u n das alt er ações econ ôm icas, dem ogr áf icas e so ci a i s q u e m o d i f i ca r a m a e st r u t u r a e t á r i a e a co m p o si ção f am i l i ar co m o u m t o d o . A est r u t u r a f a m i l i a r b r a si l e i r a co n t i n u a p r e d o m i n a n t e m e n t e n u clear, m as o t am an h o d as f am ílias d im in u iu , e cresceu o núm ero de uniões conj ugais sem vínculos l e g a i s e a r r a n j o s m o n o p a r e n t a i s – a q u e l e s caracterizados pela presença do pai ( ou da m ãe) com os f ilh os, con t an d o ou n ão com ou t r os p ar en t es h a b i t a n d o j u n t o( 1 2 ). As m a i o r e s t r a n sf o r m a çõ e s
ocor r em no int er ior da fam ília, dev ido a alt er ações d a p o si çã o d a m u l h e r e p o r n o v o s p a d r õ e s d e relacionam ent o ent re os m em bros da fam ília.
D e v e - se co n si d e r a r q u e , e m t e r m o s operacionais, o m acrossist em a est á m anifest ado nas cont inuidades de for m a e cont eúdo r ev eladas pela an álise de dada cu lt u r a, pois a an álise da f am ília requer algum as inform ações sist em át icas em relação à sua estrutura e ao nível ecológico em que ocorreram os com port am ent os de seus m em bros.
As respost as dest a pesquisa deixam claro a concepção da pessoa e sua relação com as forças da m udança social e econôm ica, com o pr ot agonist a e com o suj eit o conscient e de que nada t eve, e com a percepção sobre a intervenção j udicial na fam ília com o ineficaz e que quer, precisa, ou m ovim enta- se NA RUA, q u e t a m b é m t e m o cé u d a l i b e r d a d e , o u o distanciam ento do Estado com o instituição de proteção e acolhim ent o par a as suas necessidades, com o se pode observar nas Figuras 2 e 3.
Figura 2 - Na rua o céu com o liberdade
Figur a 3 - Por t a do banheir o da casa cober t a pelo sím bolo da Pát ria
A perspect iva ecológica ut ilizada no present e est udo const it uiu- se num a abor dagem t eór ica que aqui auxiliou, não só na com preensão da am plitude e com plex idade do u n iv er so est u dado, m as em su a d e scr i çã o e e x p l i ca çã o q u a n t o a o s e f e i t o s d o ecossistem a em cada pessoa que com põe a fam ília( 6).
Nest e início de século XXI , na realidade do Br a si l , h á u m co n t e x t o b a st a n t e co m p l e x o e esp ecíf ico, ex ig in d o r esp ost as sociais e cu lt u r ais difer enciadas, das pessoas com o um t odo e, m uit o especificam ent e, das fam ílias.
Observa- se que as fam ílias vivem sit uações e m se u co n t e x t o co m co n t o r n o s d e i n t e n sa d i f i cu l d a d e , e st a n d o e m co n st a n t e si t u a çã o d e v u ln er ab ilid ad e, sej a p elo t r af ican t e d o local q u e a m e a ça , se j a p o r si t u a çã o so ci o e co n ô m i ca extrem am ente com prom etida que se sustenta, na sua m a i o r i a , p o r su b síd i o s so ci a i s o r i u n d o s d e a çã o governam ental com o Bolsa Escola e, por isso, não se o b ser v a a cen t u a d a ev a sã o esco l a r, p o st o q u e o b e n e f íci o t e m co m o p a d r ã o d e e l e g i b i l i d a d e a assiduidade escolar. Adem ais, além de t ais subsídios, ap r op r iam - se t am b ém d e aj u d as com u n it ár ias ou i n st i t u ci o n a i s, m u i t a s d a s v e ze s a cr e sci d a s d e produt os de roubo, at ividades ilegais, sendo que as crianças t êm part icipação em rendim ent os de égide obscur a que, em bor a com t ent at iv a de ocult á- los, a f l o r a r a m d e f o r m a b a st a n t e cl a r a n a s f a l a s dem onst r ando pr odução da desint egr ação.
Quando u Tonho era assim di m enor, ele t rabalhô com o
aviãozinho, a senhora sabe? Pru t ráfico de drogas, fiz isso pra
pagá o m eu vício, eu num t ive infância, num m e lem bro nunca de
t er brincado cum nada ( F9) .
Est u d o s p e r t i n e n t e s a f a m íl i a s m ult iproblem át icas dem onst ram est rut uras bast ant e sim ilares a essas, sendo que descrevem e j ust ificam a escassez n a cap aci d ad e d e en f r en t ar cr i ses e r e so l v e r p r o b l e m a s, e m q u e a s t e n t a t i v a s im p lem en t ad as, n o sen t id o d e m elh or ar q u alq u er sit uação m ais est ressant e, t erm inam em conflit os. A falta de apoio m útuo e padrões enviesados de alianças induzem est ados afet ivos negat ivos nos m em bros da f a m íl i a , e m r e l a çõ e s q u e e l e s ch a m a m d e sm e m b r a d a s, n a s q u a i s q u a l q u e r p r o ce sso adapt at ivo com o negociação, resolução de problem as e de conflit os m ost ra- se m enos efet ivo( 11- 12).
no civil há m ais de 30 anos, verifica- se que, em term os leg ais, o est ad o civ il d e am b os é casad o, m as a esposa vive na m esm a casa com out ro com panheiro h á m ai s d e ci n co an o s, n u m a co n v i v ên ci a cu j as circunstâncias coadunam - se com o união estável entre o hom em e a m ulher, confor m e o Ar t 226 § 3º da Const it uição da República Federat iva do Brasil( 13), ou
out r a ocor r ência em que um a senhor a casada v iv e com um senhor há 12 anos, que não o esposo.
Não t ive escola corrobora os dados do survey,
r ealizado em pesqu isa an t er ior j u n t o a pr ocessos f o r e n se s r e l a t i v o s à i n f â n ci a v i t i m i za d a( 1 4 ), q u e
d ecl i n a m u m a p o r cen t a g em o n d e a m a i o r i a d a s pessoas é analfabet a, nunca freqüent ou a escola, ou m esm o t er m in ou a 4 ª sér ie, sen do qu e n ív eis de escolaridade m ais elevados não foram encont rados. O t r a b a l h o i n f a n t i l o co r r eu em t o d a s a s fam ílias pesquisadas, com relat os na vida de 100% d o s a v ó s, 8 5 % d o s g e n i t o r e s e 1 5 % d o s descendentes. O trabalho infantil, realizado em idades a b a i x o d o s d e zo i t o a n o s, e n co n t r a - se b a st a n t e r elacionado com as baix as qualificações escolar es, obser v ando- se ao longo das ger ações, decr éscim o de t al ocor r ência, o que se pode r elacionar com o adv ent o da Lei 8069 de 13/ 7/ 1990, o Est at ut o da Criança e do Adolescente(15), suas garantias à infância e
a proteção, constantes do Art. 60, de tal dispositivo legal: “É proibido qualquer trabalho a menores de 16 (dezesseis anos) de idade, salvo na condição de aprendiz”.
As f a m íl i a s p a r e ce m v i v e r e m cr i se p e r m a n e n t e , co m m ú l t i p l o s p r o b l e m a s q u e se r enov am com as nov as ger ações, guar dando e por v ezes ex cedendo- se em suas especificidades, além do qu e os m ais j ov en s assu m em papéis bast an t e idênt icos aos vividos pelas gerações ant eriores.
Su a s h a b i t a çõ e s b a st a n t e p r e cá r i a s sã o co n ce n t r a d a s e m co r t i ço s, e m cu j o s r e d u zi d o s e sp a ço s m o r a m m u i t a s p e sso a s d e d i f e r e n t e s per t encim ent os.
As ações crim inosas perpassadas no universo d o t r á f i co d e d r o g a s, a ssa l t o s à m ã o a r m a d a , h om icíd ios, lat r ocín ios, e ou t r os at os in f r acion ais com et idos por adolescent es, est abelecem dinâm ica b a st a n t e i n t e r e ssa n t e co m a j u st i ça e su a pr ocessualidade dent r o do am bient e for ense. Todo e sse co n j u n t o ci t a d o p o d e se r a n a l i sa d o co m o si t u a çõ e s d o m i cr o ssi st e m a , co m r a íze s n o m acr ossist em a de or dem m ais elev ada e em suas est rut uras inst it ucionais e ideologias associadas.
Ai n d a , so b o s e i x o s p e sso a / t e m p o e o s difer ent es acont ecim ent os que env olv em a pessoa e m d e se n v o l v i m e n t o , o b se r v o u - se f a m íl i a s q u e
apresent am vários problem as crônicos, onde o ciclo d e m u l t i p r o b l e m a t i ci d a d e se r e n o v a n o n ív e l ger acional, por m ecanism o que se pode denom inar h er edit ar iedade r elacion al, desen v olv ida m edian t e dois eixos, no t em po e no espaço.
Em bora se t enha int erpret ado essa gam a de o co r r ê n ci a s f a m i l i a r e s, e l e g e n d o t e r m o s co m o m ult ipr oblem at icidade e inst abilidade par a com por alg u m as d e su as m u it as car act er íst icas, d ev e- se salient ar, no ent ant o, que t ais m arcas não parecem ser com part ilhadas pelas fam ílias, um a vez que nas ent r ev ist as se m anifest ar am a r espeit o com o algo natural, m esm o quando verificadas no tem po, ao longo das ger ações, com o vivências bast ant e im por t ant es d e in st ab ilid ad e, d esesp er o, ab an d on o, v iolên cia, p e r m e a d a s d e ci r cu n st â n ci a s co m o m e d o e necessidade de aut oprot eção, essas colocadas com o f o r m as d e d i st an ci ar e r et i r ar co esão à f am íl i a, fav or ecen do a con ser v ação de padr ões r elacion ais d isf u n cion ais. Os ach ad os p er m it em , d en t r o d os n ú cl eo s d o si st em a eco l ó g i co p esso a , p r o cesso , contexto e tem po, afirm ar estar- se diante de fam ílias cu j a s p esso a s q u e a s i n t eg r a m f o r a m p er d en d o recursos ao longo das gerações e, por isso, tornaram -se cad a v ez m ai s v u l n er áv ei s, n ão co n -seg u i n d o rom per essa precária heredit ariedade relacional .
As fam ílias em t ela apr esent am m obilidade geográfica int eressant e e const ant es alt erações dos l o ca i s d e m o r a d i a , a sso ci a d a s à e st r a t é g i a p o r m el h o r i a d e v i d a , m a s co m p o u co êx i t o , o q u e cor r obor a os achados de pesquisas ant er ior es( 16). A
an álise d as en t r ev ist as m ost r a q u e a m éd ia d as fam ílias j á t eve algum m om ent o de t rabalho na área agrícola, sej a no corte de cana em safras específicas, ou m esm o nas ent ressafras, arrancando o que eles d en o m i n a m “ co r o n h ã o ”, sem p r e co m t r a j et ó r i a s inst áveis, desprovidas de vínculo em pregat ício, com queixas de problem as de saúde dificultando a inserção no t rabalho.
Na infância eu t rabalhei foi m uit o, agora perdi as força,
num t enho m ais condição de t rabalhá .O m édico falou que eu
t enho ursa, por isso que m eu ist um agu dói t ant o, é t am bém pur
causu da bibida ( F9) .
Panoram a bast ant e am plo de problem as de saúde é const at ado, sendo o alcoolism o aquele que m ais se dest aca, aparecendo em m em bros de t odas as fam ílias t ant o no hom em , quant o na m ulher, nas cr i a n ça s e n o s a d o l e sce n t e s. Fo r a m v e r i f i ca d a s associação do álcool com sit uações de m aus- t r at os no cont ext o da fam ília.
Recebido em : 15.5.2007 Aprovado em : 8.8.2008
en con t r ou - se n as ger ações m ais n ov as su a m aior i n ci d ên ci a , sen d o q u e, n a m a i o r i a d a s f a m íl i a s, obser v a- se u m ou m ais f ilh os t ox icodepen den t es, esses na faixa et ária ent re oit o e 17 anos.
Os casos de t oxicodependência associam - se ainda à prática de ato infracional, a desaparecim entos t em p or ár ios e a r ou b os p r at icad os p or m em b r os adultos, o que resulta em várias prisões. Nas fam ílias, alguns m em bros j á est iveram presos, e out ros est ão presos cum prindo penas de períodos variados.
CONSI DERAÇÕES FI NAI S
Pode- se afirm ar que houve m odificações na est r ut ur a dessas fam ílias com o passar do t em po, considerados os quatro núcleos do sistem a ecológico, p e sso a , a l t e r a çõ e s q u a n t o à s ca r a ct e r íst i ca s biológicas, físicas, psicológicas em int er ação com o a m b i e n t e , p r o ce sso , r e f e r e n t e a o m o d o d e int erpret ação das experiências vividas, oriundas das propriedades m ut ant es dos am bient es im ediat os em que a pessoa em desenvolvim ent o est ava inserida, e ainda pert inent e ao t em po. Nesse últ im o, enquant o cr onossist em a, a pr im eir a alt er ação diz r espeit o ao
m odo r elacion ado à pessoa e aos seu s pr ocessos proxim ais que avançam com o t em po, e o segundo r e f e r e n t e à p a ssa g e m d o t e m p o n o se n t i d o d o cont ext o hist órico.
A definição dos cont ornos que delim it am as fam ílias dest e est udo fala de m udanças de padrões d i f u so s d e r e l a ci o n a m e n t o s, a b a l o s i n t e r n o s, i n t e r f e r ê n ci a s e x t e r n a s q u e d i a l o g a m co m a con t em por an eidade.
A ab or d ag em ecológ ica d o est u d o in sp ir a r eor ient ação no avanço das pesquisas com fam ílias e n a im plem en t ação de polít icas pú blicas em su a dir eção.
Co n cl u i - se q u e a s f a m íl i a s a p r e se n t a m alt erações de um m om ent o hist órico para out ro, sob dist int as v ar iáv eis e com com plex idade específica, quant o às capacidades para descobr ir, sust ent ar ou alt er ar as pr opr iedades de seu desenvolvim ent o no am b ien t e. A in t er v en ção d a j u st iça em casos d e v iolên cia n a fam ília n ecessit a con sider ar os n ov os disposit iv os legais em out r as bases pr ocessuais. A percepção das fam ílias, sobre a intervenção da j ustiça, conform a- se na não- resolubilidade, considerada com o herm ét ica, lent a e arbit rária.
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