A epilepsia, o epilépt ico e o t rabalho:
relações conflit ant es
Ep ile p sy, e p ile p tics, and wo rk:
co nflicting re latio ns
1 Dep artam en to d e Med icin a Clín ica , Un iv ersid a d e Fed era l Flu m in en se. Ru a M a rq u ês d o Pa ra n á 302, N it erói, RJ
24210- 030, Bra sil.
2 Cen tro d e Estu d os d e Saú d e d o Tra b a lh a d or e Ecologia Hu m a n a , Escola N a cion a l d e Sa ú d e Pú b lica . Ru a Leop old o Bu lh ões 1480, M a n gu in h os,
Rio d e Ja n eiro, RJ 21045- 900, Bra sil.
M a ria Rosa Silv a Sa rm en t o 1 Ca rlos M in a yo- Gom ez 2
Abst ract Pa rt icip a t ion in t h e w ork p la ce by p eop le w it h ep ilep sy is con d it ion ed by v a riou s in -t errela-t ed issu es con cern in g ep ilep sy i-t self, -t h e ep ilep -t ic in d iv id u al, an d socie-t y’s im p lici-t cu l-t u r-a l cod es. In ord er t o r-a n r-a lyz e h ow su ch con flict ive p r-a rt icip r-a t ion in t erferes d ecisively in t h e qu r-a li-t y of life of p eop le w ili-t h ep ilep sy, a su rv ey w as con d u cli-t ed w ili-t h 339 p ali-t ien li-t s ali-t li-t h e Un iv ersili-t y Hos-p it a l of Un iv ersid a d e Fed era l Flu m in en se. Pa t ien t s a n sw ered q u est ion n a ires in clu d in g lev el of sch oolin g, p rofession a l q u a lifica t ion s, em p loym en t sit u a t ion , freq u en cy, t yp e, a n d d u ra t ion of seiz u res, a ssocia t ed p h en om en a , a n d p reju d ice t ow a rd s ep ilep sy. W e ob serv ed t h a t sa t isfa ct ory m a n a gem en t of seiz u res is d ecisiv e for t h eir su ccess a t w ork . All p a t ien t s w it h d a ily seiz u res a n d 9.3% of t h ose w it h w eek ly seiz u res h a d n ev er b een em p loyed . W e con clu d e t h a t a n y in t erv en t ion in t h is con t ex t m u st in clu d e t h e im p lem en t a t ion of m u lt ip rofession a l a n d in t ersect oria l t h era -p eu t ic -p rogra m s a n d legisla t ion t o -p rot ect e-p ile-p t ic -p a t ien t s’ righ t s in a b roa d effort a t d em yst i-ficat ion of ep ilep sy.
Key words Ep ilep sy; Labor Relat ion s; Occu p at ion al Healt h
Resumo A in serçã o d os p ort a d ores d e ep ilep sia n o t ra ba lh o v em con d icion a d a p or u m con ju n -t o d e fa -t ores in -t errela cion a d os referen -t es à ep ilep sia , a o in d iv íd u o ep ilép -t ico e a os cód igos cu lt u ra is im p lícilt os n a socied a d e. A fim d e a n a lisa r essa in serçã o con flilt iv a , q u e in lt erfere d ecisiv a -m en t e n a q u a lid a d e d e v id a d o ep ilép t ico, rea liz ou - se u -m a in v est iga çã o co-m 339 p a cien t es d o H o sp i t a l Un i v ersi t á ri o d a Un i v ersi d a d e Fed era l Flu m i n en se. Ap li ca ra m se q u est i o n á ri o s i n -clu in d o: n ív el ed u ca cion a l, q u a lifica çã o p rofission a l, sit u a çã o d e em p rego, freq ü ên cia e t ip o d e crise, d u ra çã o, fen ôm en os a ssocia d os e form a s d e d iscrim in a çã o. Con st a t a - se q u e o con t role d a s crises é fa t or d ecisivo p a ra o in gresso e p erm a n ên cia n o m erca d o d e t ra ba lh o. Tod os os p a cien t es com crises d iá ria s e 9,3% d a q u eles com crises sem a n a is n u n ca ex ercera m a t iv id a d e regu la r rem u n era d a . In t erv i r n esse q u a d ro su p õ e: a i rem p lerem en t a çã o d e p ro gra rem a s t era p êu t i co s rem u lt i p rofission ais e in t erset oriais, u m a legislação qu e p rot eja os d ireit os d o ep ilép t ico e u m am p lo in -vest im en t o n o sen t id o d e d esm ist ificar a ep ilep sia.
Int rodução
O estu d o d a p ro b lem á tica d o s ep ilép tico s n o âm b ito d o trab alh o en volve a an álise d e situ a-çõ es in terliga d a s e in sep a rá veis referen tes à ep ilep sia em si, a o in d ivíd u o ep ilép tico e a o com p ortam en to d o p róp rio m ercad o d e trab a-lh o.
As d iversa s fo rm a s d e ep ilep sia , co m su a s m ú ltip la s etio lo gia s, têm em co m u m a crise ep ilép tica e o estigm a. Em b ora a ep ilep sia p os-sa ser con testad a com o en tid ad e clín ica d efin i-d a – u m a vez q u e algu n s au tores a con sii-d eram u m a sín d rom e (Brown e & Feld m an , 1983; Nie-d erm eyer, 1990) –, seu caráter estigm atizan te é in d u b itavelm en te p or tod os recon h ecid o e ja-m ais question ado (Ryan et al., 1980; Scaja-m bler &aja-mp; Hop kin s, 1980; Scam bler, 1987; Collin gs, 1990b). A crise ep ilép tica to rn a o p a cien te d ep en -d en te -d e terceiros, in cap az -d e geren ciar su a vi-d a e, a p esa r vi-d e tra n sitó ria , gera in segu ra n ça , fa cilita n d o a d o m in a çã o, a lém d e exp licita r o m ed o d a m orte. A im p revisib ilid ad e d as crises d im in u i a au tocon fian ça, a au ton om ia e a sen -sa çã o d e lib erd a d e. Esta s ca ra cterística s d a doen ça alteram a in dividu alidade do ep ilép tico, cau sam -lh e alterações p síqu icas e d ificu ltam o relacion am en to con sigo m esm o e com a socie-dade (Ryan et al., 1980; Pen ry & Devin sky, 1993). Ao ep ilép tico é im p u tad a u m a in cap acid a-d e e, a-d este m o a-d o, o estigm a a-d a ep ilep sia – q u estã o cu ltu ra l tecid a p o r m ito s e cren ça s – red u z su a s a sp ira çõ es d e vid a , a u m en ta n d o tan to su as au to-exigên cias qu an to su a au tod e-p reciação.
Um a visã o h istó rica a cerca d a ep ilep sia p erm ite co n sta ta r a m u ltip licid a d e d e ca u sa s q u e, em seu cern e, co n d u zem a d iversa s fo r-m as d e exclu são e con trole social d os ep ilép ti-cos, in d ican d o o tip o d e socied ad e à q u al p er-ten cem . Nesse sen tid o, a in vestigação d os p ro-cesso s q u e p a u ta m o in gresso d o s ep ilép tico s n o m u n d o d o tra b a lh o e su a m a n u ten çã o n o em p rego rep resen ta ca m p o p rivilegia d o d e p esq u isa p a ra elu cid a r situ a çõ es d e rejeiçã o exp lícitas ou im p lícitas.
O trab alh o ocu p a lu gar cen tral n a d in âm ica d a so cied a d e m o d ern a . Dessa fo rm a , o s co n -tro les cu ltu ra is d esfa vo rá veis a o a ju sta m en to so cia l d o ep ilép tico ( Jo n es, 1965) d ificu lta m lh e o acesso ao m ercad o d e trab alh o e, p ortan -to, a a scen sã o so cia l, co n trib u in d o p a ra seu isolam en to e exacerb an d o ou d esen cad ean d o p atologias p sicossociais.
Se, p or u m lad o, o trab alh o con stitu i fon te gera d o ra d e sa ú d e física e m en ta l – co m fre -q ü ên cia n egad a ao ep ilép tico (Dasgu p ta et al., 1982; Gloag, 1985; Callagh am et al., 1992) –, p or
ou tro, é cap az d e p rod u zir d oen ças, n ão sen d o in com u m q u e a p róp ria ativid ad e p rofission al p o ssa d a r o rigem à ep ilep sia ta n to p o r a gres-são d ireta ao céreb ro (Allister et al., 1981; Litto-rin et al., 1988) qu an to in direta (Ross, 1988), co-m o ta co-m b éco-m p o r ser fa to r d esen ca d ea n te d e crises ep ilép ticas (Win get et al., 1978) em fu n -ção d e d eterm in ad as características d o p roces-so e organ ização d o trab alh o.
No d ia-a-d ia p od e-se ob servar a relevân cia p rática d a qu estão d o trab alh o n o in su cesso te-ra p êu tico d a ep ilep sia , n a b a ixa q u a lid a d e d e vid a d os ep ilép ticos e n os ob stácu los à in tegra-ção social.
No Bra sil, en treta n to, d ep a ra se com a ca -rên cia d e in vestigações a resp eito d os ep ilép ti-co s em su a in terfa ce ti-co m o tra b a lh o. Po rém , m esm o n o p lan o in tern acion al, h á in su ficiên -cia d e in form ações q u an to ao n ú m ero d e ep i-lép ticos em id ad e p rod u tiva e ao d e d esem p re-gad os (Allister et al., 1981; Dasgu p ta, 1992).
O mercado de t rabalho e os epilépt icos
O a cesso a u m m erca d o d e tra b a lh o ca d a vez m ais com p etitivo, agravad o p elo crescen te n í-vel d e d esem p rego, co lo ca a s p esso a s co m a lgu m tip o d e d esab ilid ad e em p osição d esvan -tajosa, m esm o q u e estejam p rofission alm en te ca p a cita d a s p a ra o d esem p en h o d a a tivid a d e p leitea d a e q u e su a s lim ita ções, p or si só, n ã o con stitu am im p ed im en to ao exercício d as fu n -ções p rop ostas.
O tem or d a crise, d e su a im p revisib ilid ad e e d o estigm a tra n sform a m o ep ilép tico em p es-soa m ed rosa, in segu ra e an siosa, con d u zin d o-o à aco-om o-od ação-o q u e o-o in ib e n a lu ta p elo-os seu s d ireitos.
o d e cu rta d u ração é m en or en tre trab alh ad o-res ep ilép ticos, em b ora ten h am en con trad o os afastam en tos m ais lon gos n esse gru p o.
No qu e se refere à cap acid ad e p ara o trab a-lh o, Callagh am et al. (1992) ob servam q u e esta é n orm a l n os p a cien tes cu ja s ú n ica s m a n ifes-tações clín icas d izem resp eito à ep ilep sia, sem q u e h a ja o u tra d o en ça a sso cia d a . Nesse m es-m o sen tid o, Lassow et al. (1997) – ao coes-m p arar ed u ca çã o, d esem p en h o p ro fissio n a l, a b sen -teísm o e salário em trab alh ad ores ep ilép ticos e n ão-ep ilép ticos com ocu p ações sem elh an tes – en co n tra ra m a m en o r rem u n era çã o d o s ep i-lép ticos com o ú n ica d iferen ça estatisticam en te sign ificativa en tre am b os os gru p os. Esp ir et al. (1991), n o en ta n to, reco n h ecem q u e – a p esa r d e n ã o ter sid o p o ssível en co n tra r d iferen ça s, sob esse asp ecto, en tre trab alh ad ores ep ilép tico s e p o rta d o res d e o u tra s d o en ça s – o s p ró -p rios e-p ilé-p ticos se con sid eram em situ ação d e in feriorid ad e n as op ortu n id ad es d e em p rego e n a a scen sã o p ro fissio n a l, d esistin d o d e co m -p etir e lim itan d o su as -p ers-p ectivas d e vid a.
Em relação à acid en tab ilid ad e alegad a, u m
w ork sh oprealizad o n o In tern ation al Bu reau for Ep ilep sy, em 1966, co n clu iu n ã o h a ver m a io r
risco d e acid en tes n o trab alh o em p essoas ep i-lép ticas d o qu e n a p op u lação em geral. Begh i & Co rn a ggia (1997) ten d em a co n clu sã o sem e -lh an te em estu d o d e coorte m u ltin acion al q u e vêm realizan d o em sete p aíses eu rop eu s.
Ao la d o d essa d iscrim in a çã o vela d a e n ã o oficial, existe ou tra, garan tid a p or d isp ositivos lega is q u e p ro íb em o exercício d e d eterm in a -d a s p ro fissõ es, so b a a rgu m en ta çã o -d e q u e a crise ep ilép tica exp õe a riscos d e vid a n ão só os p acien tes com o tam b ém ou tras p essoas. Con -tu d o, a lgu n s a u to res (Fa b in g & Ba rrow, 1960) ch a m a m a a ten çã o p a ra o ca rá ter d iscrim in a-tório d as leis q u e regu lam en tam o trab alh o d o ep ilép tico, p or ju lgá -la s a rca ica s à lu z d os co-n h ecim eco-n tos atu ais e d os avaco-n ços terap êu ticos n o con trole d as crises. Alertam p ara su as con -seq ü ên cia s n ega tiva s já q u e, se a p lica d a s sem d iscern im en to, co n trib u em p a ra d ificu lta r o a ju ste so cia l, a u m en ta r a d iscr im in a çã o e d i-m in u ir a ad erên cia ao tratai-m en to. Dian te d es-se q u a d ro, Beresfo rd (1988) a p o n ta a n ecessi-d a ecessi-d e ecessi-d e revisa r a legisla çã o existen te p a ra ga-ran tir m aior p roteção aos ep ilép ticos con tra a segregação in fu n d ad a. O tem or d as restrições, o ficia is o u n ã o, a ca b a p o r in d u zir o s ep ilép ti-co s a o cu lta r su a ti-co n d içã o n a fa se d e seleçã o p ara o em p rego.
É im p o rta n te ressa lta r q u e, co m o tra ta -m en to -m ed ica -m en toso, 75% d os p a cien tes fi-ca m a ssin to m á tico s e cerfi-ca d e 5% têm crises even tu a is. Po rta n to, a b a rreira d a s crises n a
co n q u ista e m a n u ten çã o d o em p rego vem -se d esm oron an d o, ap esar d e q u e os efeitos cola-terais d as d rogas an tiep ilép ticas (DAE), p rin ci-p alm en te a son olên cia, ci-p ossam con stitu ir res-trição a d eterm in ad as ativid ad es p rofission ais (Ud el, 1960). Tom a n d o em con ta q u e 80% d os ep ilép ticos são estáveis, o acesso ao trab alh o e à m a n u ten çã o d o em p rego d ep en d em , q u a se q u e exclu siva m en te, d o s critério s d o s em p re-ga d o res q u e, em su a m a io ria , vêm p a u ta d o s p elo p recon ceito. A p reocu p a çã o d e m a n ter o em p rego, m esm o p a ra estes p a cien tes, tra n s-form a-se em m otivo d e an sied ad e, geran d o estresse, a n gú stia e d ep ressã o, fa to res d esen ca -d ean tes -d e crises, as q u ais au m en tam , p or su a vez, o m ed o d a d em issão, o q u e ocorre p rin ci-p a lm en te a ci-p ós crise n o loca l d e tra b a lh o. In s-ta u ra -se a ssim u m circu ito a ls-ta m en te n o civo, p erm ead o, em essên cia, p elo estigm a.
A situ a çã o m a is d rá stica co rresp o n d e, p o -rém , à d o s 20% d e ep ilép tico s q u e n ã o têm o co n tro le d e su a s crises e, em co n seq ü ên cia , vêm m u ito m a is red u zid a s a s ch a n ces d e su -cesso n o m u n d o trab alh o.
Algu m as p rofissões – listad as n a Tab ela 1 – d evem ser evitad as p elos ep ilép ticos. Qu an to a b a b á s, Nied erm eyer (1990) ch a m a a a ten çã o p ara a in existên cia d e con seqü ên cias sérias n o trab alh o. Em n ossa p rática p rofission al, con s-ta s-ta m -se situ a çõ es sem elh a n tes en tre en fer-m eiras, vigias e aerofer-m oças sefer-m crises ep ilép ti-cas. Em razão d as p ecu liarid ad es d a ep ilep sia – qu e n ão evolu i d e m an eira lin ear, em qu e a cri-se tem caráter ep isód ico e ap recri-sen tan d o rem is-sões e exacerb ações – é p reciso d istin gu ir en tre o s p a cien tes está veis, p o rém em u so d e DAE, o s a ssin to m á tico s sem u so d e m ed ica çã o e o s
Tab e la 1
O cup açõ e s e ativid ad e s co nsid e rad as imp ró p rias p ara e p ilé p tico s.
Po liciais Bo mb e iro s Vig ias so litário s
Instruto r d e natação e salva-vid as Bab ás
Enfe rmag e m Cirurg ia
Dirig ir ve ículo s mo to rizad o s
Co ntro le d e máq uinas e / o u e q uip ame nto s Se rviço s militare s
Trab alho s e m altitud e o u co m uso d e e scad as
q u e con tin u am a ter crises. Por isso, restrições d evem ser feitas com reservas. Para os p acien -tes cu ja s crises n ã o estã o co n tro la d a s, ca b e a p lica r a s regra s gera is existen tes, en q u a n to, n o s d em a is ca so s, a s lim ita çõ es p ro fissio n a is exigem con stan te reavaliação. As ú n icas restrições d izem resp eito àqu elas ocu p arestrições qu e co -lo ca m em situ a çã o d e risco a su a vid a e a d e ou tras p essoas. Um a vez qu e a terap ia m ed ica-m en to sa resga to u so cia lica-m en te o ep ilép tico, n ão p roced e m an ter a rigid ez d e legislações ca-p a zes d e co n d u zir ca-p revia m en te a u m a d iscri-m in ação n o trab alh o.
O cu sto d o ep ilép tico a o s co fres p ú b lico s tem p rop iciad o estu d os – com o o d e Cockerell et al. (1994), n o Rein o Un id o – qu e d em on stra-ram ser d e £ 1.239 m ilh ões o gasto an u al com o d esem p rego d os ep ilép ticos, o qu e eqü ivale a £ 2.887 p or p acien te. Tal fato tem levad o o Esta-d o a p roib ir, p or m eio Esta-d e leis, a Esta-d iscrim in ação d e trab alh ad ores ep ilép ticos (Beresford , 1988) e a p rom over p rogram as d e reab ilitação p rofis-sio n a l q u e p ro p iciem a d eq u a d a rein tegra çã o n o m ercad o d e trab alh o em fu n ções com p atí-veis com a ep ilep sia. No Brasil, carece-se d e es-tim a tiva s q u a n to a esse cu sto, co m o ta m b ém d e p olítica d e saú d e p ara os ep ilép ticos.
Os ep ilép tico s, em ra zã o d a s restriçõ es d e em p rego – em p articu lar, p ara aq u eles d os ex-tra to s p o p u la res – reco rrem h a b itu a lm en te à econ om ia in form a l e a o su b em p rego, q u a n d o n ão p erm an ecem n a d ep en d ên cia econ ôm ica d a fa m ília , d o s co fres p ú b lico s o u d a m en d i-cân cia, o q u e con trib u i p ara au m en tar o estigm a d a d oen ça e d iestigm in u ir a au toestiestigm a d os p a -cien tes, além d e en grossar a am p la p arcela d e trab alh ad ores m arcad os p ela exclu são social e p ela vu ln erab ilid ad e econ ôm ica.
É p rová vel q u e, em n en h u m a o u tra situ a -çã o, a s ca ra cterística s estigm a tiza n tes d a ep i-lep sia se torn em tão exp lícitas e exerçam ação tã o a va ssa la d o ra n a vid a d o ep ilép tico co m o em seu s con fron tos n o âm b ito d o trab alh o. As restrições n a escolh a d a p rofissão, o sen tim en -to d e isolam en -to e d e d iscrim in ação, exacerb ad o p elas ad ificu lad aad es ad e ob ten ção e ad e m an u -ten ção d o em p rego, d ificu ltam a ad erên cia ao tratam en to e con trib u em p ara o in su cesso te-rap êu tico n o con trole d as crises ep ilép ticas, fe-ch a n d o u m ciclo d a n o so a o p a cien te, o q u a l, a lém d e im p o r-lh e d ep en d ên cia eco n ô m ica , in terfere em su a qu alid ad e d e vid a.
Análise da relação epilepsia-epilépt ico-t rabalho no Hospiico-t al Universiico-t ário Ant ônio Pedro
Neste estu do descritivo a resp eito da in ter-rela-ção ep ilep sia – ep ilép tico – trabalh o – realizado co m p a cien tes d o Seto r d e Ep ilep sia – SE d o Ho sp ita l Un iversitá rio An tô n io Ped ro – HUAP d a Un iversid a d e Fed era l Flu m in en se – UFF – teve-se o p ro p ó sito p rin cip a l d e a n a lisa r a s q u estões im p licad as n a relação con flitu osa d o ep ilép tico co m o tra b a lh o, a fim d e q u e esse p rob lem a – relevan te n o qu otid ian o d o ep ilépt ico – se ja le va d o e m co n sid e ra çã o n o s p ro -gram as d e aten ção à saú d e d os ep ilép ticos qu e p reten d a m a ssegu ra r o esta b elecim en to d e con d u tas voltad as, em seu con ju n to, à m elh o-ria d a qu alid ad e d e vid a d esses p acien tes.
Pacient es e mét odos
Para estu d ar a ação d a ep ilep sia e a in gerên cia d os fatores vin cu lad os à con d ição d e ep ilép ti-co n a vida p rofission al, foi elaborado um roteiro d e en trevista, com qu estões fech ad as e ab ertas, que p erm itisse descrever a relevân cia dessa p ro-b lem á tica so ro-b o p o n to d e vista d o s p a cien tes. Esse ro teiro fo i testa d o p revia m en te, a fim d e evitar a om issão d e qu estões sign ificativas. Para sua elaboParação e validação, n ão foParam en con -tra d o s su b síd io s, n a b ib lio gra fia a q u e se teve acesso, qu e con tem p lassem as distin ções e cor-relações estabelecidas n esta p esqu isa. No rotei-ro, foram ab ord ad os os segu in tes tem as: carac-terísticas da crise – freqüên cia, tip o, duração, fe-n ôm efe-n os associados – e o tem po de recuperação d o p a cien te; n ível ed u ca cio n a l e q u a lifica çã o p rofission al; situ ação lab oral – em p regad o n o m ercado form al ou in form al, desem p regado ou sem ativid ad e rem u n erad a regu lar – e as m an ifestações d e d iscrim in ação – d em itid o em con seq ü ên cia d as crises e/ ou p reterid o n a ascen -são fu n cion al –, bem com o os fatores lim itan tes p ara o acesso ao em p rego e su a m an u ten ção.
Dessa form a, foi p ossível estab elecer a cor-rela çã o en tre a s d iversa s exp eriên cia s vivid a s p elo ep ilép tico n o acesso ao trab alh o ou n a tra-jetória la b ora l com os d a d os ob jetivos d a ep i-lep sia: os even tos d a crise ep ilép tica e os sin to-m as qu e a su ced eto-m an tes d a recu p eração.
Do s 398 p a cien tes q u e co m p a recera m a o SE d o HUAP en tre fevereiro d e 1995 e ju lh o d e 1996, fo ra m selecio n a d o s 339, d e a co rd o co m três critérios b ásicos d e in clu são: o d iagn óstico d e certeza d a ep ilep sia, segu n d o os critérios d a
In t ern a t ion a l Lea gu e Aga in st Ep ilep sy– ILAE
of t h e In t ern a t ion a l Lea gu e Aga in st Ep ilep sy,
1989); a idade igu al ou su p erior a 18 an os; e, p or fim , a p articip ação em m ais d e u m a en trevista. Exclu íram -se os qu e tin h am retardo m en tal, lesões estru tu rais cereb rais con h ecid as ou d oen ça co n co m ita n te. Os 339 p a cien tes fo ra m en -trevistad os in d ivid u alm en te, p elo m en os d u as vezes, d u ra n te a s con su lta s p a ra com p lem en -tar ou con firm ar d eterm in ad as in form ações.
Avaliou -se ob jetivam en te a ep ilep sia, estu-d an estu-d o as crises ep ilép ticas m eestu-d ian te in form açõ es d iá ria s, a n o ta d a s em a gen d a s p elo s p a -cien tes ou seu s fam iliares, com relação ao tip o d e crise, a d u ração, a freq ü ên cia e os fen ôm e-n os associad os. Para id ee-n tificar as crises, ad o-tou -se u m a classificação sim p lificad a d a ILAE (Com ission on Cla ssifica t ion a n d Term in ology of t h e In t ern a t ion a l Lea gu e Aga in st Ep ilep sy,
1989). Na s Crises Pa rcia is (CP), se a con sciên -cia está p reservada: Crise Par-cial Sim p les (CPS); com p erd a d a resp on sivid ad e con scien te: Cri-ses Pa rcia is Co m p lexa s (CPC); criCri-ses p a rcia is segu id as d e p erd a d a con sciên cia, com ou sem co n vu lsã o : Crises Pa rcia is Secu n d a ria m en te Gen era liza d a s (CPSG); crises co m p erd a d a con sciên cia d esd e o in ício d a crise: Crises Gen eralizad as (CG). DeGen tre as CG, coGen sid eraram -se a s crses com a ssocia çã o d e a tivid a d e tôn i-co-clôn ica: Crises Tôn ico-Clôn icas (CTC); com m ioclon ias, Crises Mioclôn icas (CM). Den om i-n ou -se “Ou tras Crises” (OC) os d em ais tip os d e crises gen era liza d a s. As crises n ã o in clu íd a s n essa cla ssifica çã o sã o a s Nã o Cla ssifica d a s (CNC) e a s co m m a is d e u m tip o d e cr ise, a s Crises Mistas (CMi).
No p eríod o im ed iatam en te ap ós a crise até a recu p eração d o p acien te, an alisou -se a sin to-m atologia a p artir d e u to-m a listageto-m qu e foi ela-b o ra d a em o rd em d e freq ü ên cia e relevâ n cia , con ferid as p elos p acien tes, en qu an to cau sa d e au m en to d as d esab ilid ad es p ara o trab alh o.
Fin a lm en te fo ra m id en tifica d o s o s fa to res recon h ecid os p elos p acien tes com o lim itan tes
p a ra o a cesso a o em p rego e su a m a n u ten çã o, estim a d o s co m o p ecu lia res a to d o s o s tra b a -lh ad ores ep ilép ticos.
Result ados
Den tre o s en trevista d o s, 48% era m d o sexo m a scu lin o, 27,6% era m a n a lfa b eto s, 0,6% ti-n h am cu rso su p erior e 98,4% ti-n ão titi-n h am qu al-q u er al-q u a lifica çã o p ro fissio n a l. O n ú m ero d e ep ilép ticos em p regad os foi d e 42,3%, d os qu ais ap en as 15,7% se en con travam n o m ercad o for-m al d e trab alh o.
To d o s o m itira m a co n d içã o d e ep ilép tico com m ed o d e qu e o estigm a d e su a h istória p a-to ló gica tivesse p eso m a io r q u e seu s m ér ia-to s p rofission ais fosse p or exp eriên cia p essoal, em ocasiões an teriores, ou d e terceiros. Dos en trevista d o s, 1,3% o cu lta ra m a ep ilep sia e d esen -volviam ativid ad es p rofission ais con sid erad as in d evid as p ara os ep ilép ticos.
Ao rela cio n a r a freq ü ên cia d a s crises co m a sit u a çã o d e e m p re go ( Ta b e la 2), co n st a t a -se q u e, d o s 52,9% p a cien tes está veis, o u -seja , c o m fre q ü ê n c ia a n u a l d e c r ise , 40,3% e st a -va m em p regad os, em b ora a gran d e m aioria n o m ercad o in form al. Tod os os p acien tes com crises d iárias e sem an ais en con travam se d esem -p regad os, b em com o 94,6% d aq u eles com cr i-ses m en sais. Os p acien tes com crii-ses d iárias e 9,3% d os qu e ap resen tavam crises sem an ais jam ais h aviajam exercid o ativid ad e regu lar rejam u -n erad a.
Den tre o s d esem p rega d o s, 23,6% n u n ca exerceram ativid ad es lu crativas com regu lari-d alari-d e. Do total lari-d e p acien tes, 88,3% já foram lari-d is-crim in a d o s: 38,6% d em itid o s em d eco rrên cia d e crises e 49,7% p reterid o s n a a scen sã o fu n -cion al (Tab ela 3).
Com o se p od e d ed u zir d a Tab ela 4, a m aior p rop orção d e p acien tes d esem p regad os ocor-reu n os p ortad ores d e crises m istas, 84,2%,
se-Tab e la 2
Fre q üê ncia d as crise s e situação d e e mp re g o na p o p ulação e stud ad a.
Freqüência das Pacient es Sit uação de emprego
crises (n = 339) Emp re g o fo rmal Emp re g o info rmal De se mp re g o
n n % n % n %
Diária 6 – – – – 6 1,8
Se manal 42 – – – – 42 12,3
Me nsal 111 3 1,0 3 1,0 105 31,0
gu id os p elos ep ilép ticos com crises p arciais se-cu n d ariam en te gen eralizad as, se-cu jo d esem p re-go atin giu 65,9%. Foi ain d a n os p acien tes com crises m istas q u e se verificou a m aior p ercen -tagem (34,7%) d os qu e n ão h aviam con segu id o in gressar n o m ercad o.
Ao com p arar o n ú m ero ab solu to d e p acien -tes p or tip o d e crise (Tab ela 4) e o d e d iscrim in ad os (Tab ela 5), in otase q u e o m aior p ercein -tu al d e d em itid os em razão d a crise (63,2%) foi ob servad o tam b ém en tre p acien tes com crises m ista s, a o p a sso q u e o s p o r ta d o res d e crises p arciais secu n d ariam en te gen eralizad as foram os m ais p reterid os p or su a con d ição d e ep ilép-ticos (84,6%), segu in d o-se a q u eles com crises m istas (60,5%).
A Tab ela 6 m ostra q u e, d en tre os p acien tes sup ostam en te dem itidos p or causa do tem p o de d u ração d a crise, a m aior p rop orção en con tra-d a foi en tre os qu e tiveram crises com tra-d u ração en tre 30 e 59 segu n d os. As d em issões n os casos d e ab sen teísm o, em virtu d e d a in ten sid ad e d os fen ôm en os associados – listados n a Tabela 7 p or ord em d a relevân cia con ferid a p elos p acien tes – o co rrera m co m m a io r freq ü ên cia q u a n d o a falta ao em p rego foi su p erior a u m d ia.
Não foi p ossível estab elecer correlação en -tre a m a n u ten çã o d o em p rego e o s sin to m a s p ó s-icta is, u m a vez q u e este era m p erceb id o s p elo s ep ilép tico s co m o co m p o n en tes d a p ró -p ria sin tom atologia d a crise qu e m otivou a d e-m issão, ao con trib u íree-m p ara au e-m en tar as d ifi-cu ld ad es n o trab alh o.
Estes d ad os foram d escon sid erad os, já q u e a p en a s 28,6% d o s p a cien tes co n segu ira m es-p ecifica r q u e a d em issã o d eveu -se a o tem es-p o p rolon gad o p ara su a recu p eração.
No en ta n to, m esm o n a a u sên cia d o n exo com o em p rego, p od e-se con clu ir q u e a sin tom atologia ap ós a crise ep ilép tica (Tab ela 7) in flu iu , d e a lgu m m o d o, p a ra a u m en ta r o in su -cesso p rofission a l e o d esa ju ste socia l d os p a-cien tes.
Ca b em a q u i a lgu m a s co n sid era çõ es em a -n ad as d a p rática clí-n ica acerca d esses d ad os. A son olên cia, as alterações d e m em ória e a irrita-b ilid a d e, a p o n ta d a s co m o o s sin to m a s m a is freqü en tes em tod as as crises, ocorreram p rin -cip alm en te n aqu elas em qu e a con sciên cia n ão esta va p reserva d a . Qu a n to m a is p rolon ga d a s, m a io r era a situ a çã o d e d esco n fo r to e co n s-tran gim en to d os p acien tes ao recu p erar-se d a
Tab e la 3
Fre q üê ncia d as crise s e d iscriminação no trab alho na p o p ulação e stud ad a.
Freqüência das Pacient es Formas de discriminação
crises (n = 299) De mitid o s p o r crise s Pre te rid o s p o r se re m e p ilé tico s
n n % n %
Diária 6 – – 6 1,8
Se manal 63 28 8,3 35 10,3
Me nsal 164 83 24,5 81 24,0
Anual 66 20 5,8 46 13,6
Tab e la 4
Tip o d e crise e situação d e e mp re g o na p o p ulação e stud ad a.
Tipo de crise Pacient es Sit uação de emprego
(n = 339) Emp re g o fo rmal Emp re g o info rmal De se mp re g o
n n % n % n %
CP 75 22 6,6 17 5,0 36 10,6
CPSG 91 12 3,5 19 5,8 60 17,8
CG 131 15 4,5 48 14,1 68 20,0
Ñ. Clas. 4 4 1,1 – – – –
CMi 38 – – 6 1,7 32 9,3
crise. Os ú ltim os três sin tom as, ap esar d a m e-n o r fre q ü ê e-n cia , t ra zia m co m p lica çõ e s sige-n i-fica tiva s, p rin cip a lm en te o s a u to m a tism o s d eam b u latórios – h ab itu alm en te con fu n d id os com sin tom atologia d e d oen ça m en tal –, b em co m o o s d istú rb io s d a fa la e a s d ificu ld a d es m otoras, tid os com o m u ito gra ves e ob jeto d e cu id ad os m éd icos im ed iatos.
Fin a lm en te, o s p ró p rio s p a cien tes rela ta -ra m fa to res d e n a tu reza d iversa id en tifica d o s p o r eles co m o p ecu lia res a su a co n d içã o d e ep ilép ticos e con h ecid os com o “ep ilep sia-rela-cion ad os”, qu e d ificu ltam o in gresso n o m erca-d o erca-d e trab alh o, a m an u ten ção erca-d o em p rego e a a scen sã o p ro fissio n a l ( Ta b ela 8). A fa lta d e q u a lifica çã o p ro fissio n a l e o estigm a fo ra m p erceb id os com o os m aiores en traves à ob ten -ção d e em p rego, razão p ela qu al u savam a táti-ca d e om itir su a con d ição. O estigm a foi ain d a ap on tad o com o a p rin cip al cau sa d e p erd a d o em p rego. A in clu são, en tre ou tros fatores d es-crito s, d a d ep en d ên cia d o m éd ico e d o m ed i-cam en to foi ressaltad a sob retu d o p ela d ificu l-d al-d e em con segu ir a DAE, só ob til-d a p or in ter-m éd io d e receitu ário con trolad o, o q u e d eter-m in ou a au sên cia ao trab alh o e a d eeter-m issão.
Discussão e conclusões
In icialm en te, con vém ressaltar qu e os d iversos fatores u tilizad os n este estu d o p ara con figu rar a rela çã o ep ilep sia -ep ilép tico -tra b a lh o estã o im b ricad os, são in terd ep en d en tes e in teragem en tre si. No en tan to, essa con statação d e cará -ter gera l n ã o exclu i a n ecessid a d e d e leva r em con sid eração a in d ivid u alid ad e d o ep ilép tico e a esp ecificid ad e d e cad a caso.
É op ortu n o lem b rar ain d a qu e os p acien tes d o SE d o HUAP p rovêm d e p op u lação d e b aixa ren d a e sem q u alificação p rofission al. Parte con siderável desses p acien tes era an alfabeta. Os
resu ltados obtidos, p ortan to, refletem p redom i-n ai-n tem ei-n te as características d e u m a p op u la-ção sem gran des p ersp ectivas de in tegrar o m er-cado form al de trabalho. A con dição de ep ilép ti-co vem agravar tal qu ad ro, p od en d o ti-con figu rar um a justificativa a m ais de exclusão social. A ca-rên cia d e d ad os estatísticos acerca d a ep ilep sia e da ocup ação n o Brasil, aliada à in existên cia de estu dos afin s n o p aís, im p ede o estabelecim en -to de com p arações. Trata-se, n o en tan -to, de p ro-b lem ática u n iversal; assim , con q u an to cien tes d as d iferen ciações p róp rias d e cad a socied ad e, an alisou-se a p op ulação estudada à luz das p es-qu isas in tern acion ais referen tes ao assu n to.
Pa rtiu -se d o p ressu p o sto q u e o tra b a lh o con fere ao in d ivíd u o u m statu s p essoal e social qu e con trib u i n a estru tu ração d e su a id en tid a-d e. O ep ilép tico, p o r su a rela çã o co n flita n te co m o m u n d o d o tra b a lh o, freq ü en tem en te é levad o a ren u n ciar a esse d ireito, o qu e lh e traz rep ercu ssõ es a d versa s n a vid a co tid ia n a , a fe-tan d o su a saú d e física e m en tal. Nesse sen tid o, é revelad or q u e m aiores ín d ices d e d esem p
re-Tab e la 5
Tip o d e crise e d iscriminação no e mp re g o na p o p ulação e stud ad a.
Tipo de crise Pacient es Formas de discriminação
(n = 299) De mitid o s p o r crise s Pre te rid o s p o r se re m e p ilé tico s
n n % n %
CP 37 27 7,8 10 3,1
CPSG 123 46 13,6 77 22,6
CG 92 34 10,1 58 17,2
Cmi 47 24 7,1 23 6,8
CP: Crise s Parciais; CPSG: Crise s Parciais Se cund ariame nte Ge ne ralizad as; CG: Crise s Ge ne ralizad as; CMi: Crise s Mistas.
Tab e la 6
De missão d o e mp re g o se g und o a d uração d a crise e p ilé p tica e ab se nte ísmo .
Pacient es epilépt icos Tot al Demit idos
n %
Duração da crise epilépt ica (n = 339)
< 30 se g und o s 282 85 30,1
30 a 59 se g und o s 42 35 83,3
60 se g und o s o u mais 15 11 73,3
Absent eísmo no t rabalho (n = 106)
1 d ia 35 21 60,0
go, se com p arad os aos d a p op u lação, em geral, em id a d e p rod u tiva , seja m en con tra d os en tre os ep ilép ticos, con form e ob servad o em d iver-sos estu d os (Rod in , 1972, 1982; Collin gs, 1990a) e p len am en te evid en ciad o n esta in vestigação. Ser ep ilép tico rep resen ta em p ecilh o ad icion al p ara ob ter em p rego, q u an d o estar em p regad o co n stitu iria u m p red ito r d e b o a q u a lid a d e d e vid a (Collin gs, 1990b ).
Algu n s au tores d estacam a p red om in ân cia d o d esem p rego en tre os ep ilép ticos com crises freq ü en tes (Elwes et al., 1991; Dasgu p ta, 1992) e, so b retu d o, n o s d e b a ixa ren d a (Sca m b ler & Ho p kin s, 1980; Glo a g, 1985). Neste estu d o, o d esem p rego atin giu a totalid ad e d os p acien tes com crises d iárias e sem an ais, tal com o 93,9% d aqu eles com crises m en sais.
Tab e la 7
Sinto mas ap ó s as crise s e p ilé p ticas.
Sint oma %
So no 90
Alte raçõ e s d a me mó ria 90
Irritab ilid ad e 90
Alte raçõ e s d o humo r 85
Ce falé ia 80
Do re s Musculare s 75
Distúrb io s d a fala 60
Auto matismo 60
Dé ficit Mo to r 5
Tab e la 8
Fato re s limitante s d o e p ilé p tico e m re lação ao trab alho .
Fat or %
Falta d e q ualificação p ro fissio nal 100
Estig ma 100
Imp re visib ilid ad e d as crise s 95 Me d o d as crise s 95
Inse g urança 90
Baixa d e auto -e stima 85 Dificuld ad e s d e re lacio name nto 80 Ve rg o nha d e se r e p ilé p tico 80 De p e nd ê ncia: família, mé d ico 75 e d a me d icação
Irritab ilid ad e 70
Alte raçõ e s d e Humo r 70
Os resu lta d o s d em o n stra m q u e o tip o d e crise é igu alm en te fator d iferen ciad or em relação ao em p rego, id en tifican d o o m aior p ercen -tu al d e d esem p regad os n o gru p o d os p ortad o-res d e crises m istas.
A con statação d e qu e o p eso d o estigm a re-p resen ta u m a d as m aiores b arreiras ao in gres-so e à p erm an ên cia n o m ercad o d e trab alh o foi u n ân im e n a op in ião d os p acien tes e é con sen -su a l n a litera tu ra . Ja co b y (1962) a firm a q u e o estigm a afetou 32% d e seu s p acien tes, m esm o n ã o ten d o en co n tra d o d iferen ça sign ifica tiva en tre as p essoas com ep ilep sia ativa e as está-veis. Tetten b o rn & Krä m er (1992), em in vesti-ga çã o rea liza d a n o Rein o Un id o, en fa tiza m a s d ificu ld ad es d o ep ilép tico n o acesso ao em p re-go d eco rren tes d e p ro b lem a s so cio cu ltu ra is. Co llin gs (1990b ) é a in d a m a is in cisivo. Pa ra o au tor, em b ora a freqü ên cia d as crises seja rele-va n te, o estereó tip o n ega tivo d a ep ilep sia é o com p on en te m ais restritivo e p erp assa, in clu -sive, o diagn óstico da ep ilep sia. Scam bler (1987) acrescen ta ou tros fatores lim itan tes, referid os, n o a tu a l estu d o, a essa s d esva n ta gen s d o ep i-lép tico: a falta d e q u alificação p rofission al e a b aixa d a au to-estim a.
A d iscrim in ação n o em p rego – q u e n os d a-d os foi ob servaa-d a, em p articu lar, em p acien tes com crises m ais freqü en tes e com crises m istas ou p arciais secu n d ariam en te gen eralizad as – é relatad a em 35% d os p acien tes p or Ch ap lin et a l. (1998), a tin gin d o 59% d a q u eles co m crises n ão con trolad as. Da m esm a form a, Ryan et al. (1980) referem exp eriên cia s d e d iscrim in a çã o em 46% d os ep ilép ticos d e su a am ostra, sen d o q u e 22% tin h a m sid o d em itid o s d o s ú ltim o s q u a tro em p rego s p o r fa to res rela cio n a d o s à ep ilep sia. Elwes et al. (1991) citam q u e 42% d e seu s p acien tes foram vitim ados p elo estigm a da ep ilep sia, em m u itos casos p elo qu e qu alificam de “discrim in ação legitim ada”. Quan to à p reteri-ção d os em p regad os em su as carreiras p or p ro-blem as relacion ados à ep ilep sia – verificada, n a p resen te in vestigação, em 49,7% dos p acien tes – Scam b ler & Hop kin s (1980) revelam ter ocorri-d o em 42% ocorri-d os ep ilép ticos ocorri-d e su a am ostra.
Nesta casu ística, tod os os p acien tes em p re-gad os ocu ltaram a con d ição d e ep ilép tico p elo m ed o d o estigm a , o q u e fo i n o ta d o a in d a p o r vários p esq u isad ores, p orém n ão d e m od o tão con tu n d en te. Jon es (1965) refere q u e 26% d os ep ilép tico s em p rega d o s n a In gla terra o cu lta -ra m su a en fer m id a d e. Sca m b ler & Ho p kin s (1980) d escrevem qu e, d os 53% d e seu s p acien -tes em p regados, 25% tam bém a om itiram e 28% só a revelaram ap ós ter ob tid o o em p rego.
p ossib ilid a d e rea l d e recu sa n o exa m e a d m is-sio n a l, d a d a s a s lim ita d a s ch a n ces q u e u m a p op u lação com sem elh an tes características so-cio eco n ô m ica s tem d e in gressa r em m erca d o d e tra b a lh o a lta m en te com p etitivo. Ca b e, p o-rém , orien ta r os p a cien tes p a ra q u e a va liem a o p o rtu n id a d e d e revela r su a co n d içã o, co n si-d erasi-d as as restrições ocu p acion ais já referisi-d as, ap ós dem on strada sua cap acidade laborativa. O esclarecim en to, em situações favoráveis à con ti-n u id ad e ti-n o em p rego, coti-n trib u i p ara au m eti-n tar a segu ran ça e a au to-estim a, ao m esm o tem p o em q u e d im in u i o estresse e a an sied ad e, fato-res p reju d icia is a o ren d im en to p ro fissio n a l e p oten cialm en te d eflagrad ores d e crises.
O con trole d as crises é fator d ecisivo à ob ten ção e m an u ten ção do em p rego, com o ap on -tado em outros trabalhos (McLellan , 1987; Floyd et al., 1992; Perrin e, 1993; Jacoby, 1995). Este fa-to tam b ém foi d etectad o n este estu d o. Ap esar d a ca u sa lid a d e m ú ltip la , a d iscrim in a çã o d o s e p ilé p t ic o s n o t r a b a lh o gu a rd a ín t im a re la -çã o com a freq ü ên cia d as crises. Neste estu d o, 95,3% d os p a cien tes está veis en con tra va m -se em p regad os, ain d a q u e a m aioria n o m ercad o in form al.
A falta d e orien tação p rofission al e, p rin ci-p a lm en te, d e q u a lifica çã o ci-p ro fissio n a l – fa to r lim itan te recon h ecid o p or tod os os p acien tes – gera p rob lem as p sicossociais, agravan d o o d e-sem p rego e d ificu ltan d o o aju ste social (Olsson & Cam p en h au sen , 1993). Os ob stácu los d o ep i-lép tico n o acesso ao m ercad o d e trab alh o e n a m an u ten ção d o em p rego rep resen tam en trave a m ais n a ad erên cia ao tratam en to.
Tal situ ação rem ete à n ecessid ad e d e escla-recer o p acien te acerca d a escolh a d a p rofissão – tom an d o em con ta h ab ilid ad es, cap acid ad es e lim ita çõ es – e, a in d a , d e a lertá -lo q u a n to a o exercício d e algu n s tip os d e trab alh o q u e p os-sam p ôr em risco su a vida e a de ou tras p essoas. Dessa form a, evita-se criar exp ectativas fora d a rea lid a d e d o ep ilép tico q u e ven h a m a co n tri-b u ir p a ra a u m en ta r su a s fr u stra çõ es. Ca tri-b eria aos p rogram as d e aten ção à saú d e d o trab alh a-dor, govern am en tais ou n ão, in cu m birem -se d a im p ortan te tarefa d e acom p an h ar o d esem p e-n h o p rofissioe-n al d esses p aciee-n tes, oriee-n tae-n d o-os d e m od o a torn ar m ais efetivo o con trole d as crises e tam b ém p ossib ilitar q u e sejam in seri-d os em fu n ções com p atíveis com su as p ecu lia-rid ad es. Collin gs (1990b ) ch am a a aten ção p ara o fato d e q u e as d esab ilid ad es p od em ser p re-ven idas, se as p ercep ções dos ep ilép ticos e su as circu n stân cias forem valorizad as. O d iagn ósti-co, m ed ia n te exa m es m éd ico s e p sico ló gico s, efetu ad o sob essas p rem issas, p erm ite in clu si-ve corrigir deficiên cias p assísi-veis de tratam en to.
Nessa p ersp ectiva, Bald win (1960) e, p oste-riorm en te, Esp ir et al. (1991) d estacam o p ap el d o s cen tro s d e sa ú d e o cu p a cio n a l n o d esem -p en h o d o trab alh ad or e-p ilé-p tico, orien tan d o-o q u a n t o a o co n t ro le d a s cr ise s e à p ro cu ra d e a lt e r n a t iva s d e re gim e e co n d içõ e s d e t ra b a -lh o. Esp ir et a l. (1991) referem a in d a q u e, d o s 50.000 n ovo s e m p re ga d o s a n u a lm e n t e, 20% fo ra m en ca m in h a d o s a o Civ il Occu p a t ion a l Health Serv ice, em Lon d res, p ara a em issão d e
p areceres relativos a qu estões correlatas às cri-ses ep ilép ticas e ao em p rego.
Con sid erou se q u e u m p rogram a terap êu -tico eficien te d eve ter com o cen tro o ep ilép tico e, a p artir d ele, a ep ilep sia. Dad a a am p litu -d e -d as qu estões en volvi-d as, u m p rogram a -d es-sa n a t u re za re q u e r a in co rp o ra çã o d e p ro fis-sio n a is d e d iversa s fo rm a çõ es e a a rticu la çã o com vários ou tros setores, d esd e os serviços d e sa ú d e o cu p a cio n a l, d e a ssistên cia m éd ica es-p e cia liza d a e d e re a b ilit a çã o a t é a a sse sso ria ju ríd ica.
Assim co m o o u tro s a u to res ( Jo n es, 1965; Lon g & Moore, 1979; Kettle, 1984), acred ita-se q u e esse p rop ósito só p od e ser alcan çad o com a im p lem en tação d e u m a p olítica d e saú d e p a-ra os ep ilép ticos con solid ad a a p artir d e am p lo esp ectro d e con d u tas cap azes d e d irim ir d ú vid as e vid esm istificar a ep ilep sia, ao m esm o tem p o em qu e vise p rep arar o ep ilép tico p ara o in -gresso e p erm an ên cia n o m ercad o d e trab alh o, p o ten cia liza n d o su a s a p tid õ es e resp eita n d o seu s lim ites. Nessa d ireção, é ilu strativo o estu -d o -d e Hicks & Hicks (1991) q u e -d escrevem o s avan ços ob tid os n a con qu ista e p reservação d o em p rego d o s ep ilép tico s p o r m eio d e in vesti-m en to p ed agógico realizad o evesti-m São Fran cisco, ao lon go d e 30 an os, ju n to aos em p regad ores e a d iversos setores sociais.
Em sín tese, à lu z d os d ad os ob tid os, p od e-se in ferir q u e o in su cesso p ro fissio n a l d o ep i-lép t ico d e co rre d a co n ju ga çã o d e co n d içõ e s in eren tes à ep ilep sia, ao ep ilép tico e d os cód i-gos cu ltu rais im p lícitos n a socied ad e em m er-ca d o d e t ra b a lh o a lt a m e n t e co m p e t it ivo. No en tan to, ap esar d a im p ortân cia, d a com p lexid alexid e e lexid as con seqü ên cias lexid essas relações con -flita n tes, o s p ro fissio n a is d e sa ú d e, o s gover-n agover-n tes e os legislad ores vêm gover-n egligegover-n ciagover-n d o a qu estão.
A au sên cia, n o Brasil, d e legislação qu e p ro-teja os ep ilép ticos e regu lam en te seu s d ireitos, o s exp õ e a d iscrim in a çã o p révia. No â m b ito
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