Arquitetura industrial. Patrimônio edificado, preservação e requalificação: o caso...

Texto

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Arquitetura Industrial

Pat rim ônio edificado, preservação e requalificação:

O caso do M oinho M at arazzo e Tecelagem M ariângela

Dissert ação apresent ada à Faculdade de Arquit et ura e Urbanism o da Universidade de São Paulo (FAUUSP) para obtenção do t ít ulo de M est re em Arquit et ura e Urbanism o.

Área de Concent ração:

Hist ória e Fundam ent os da Arquit et ura e do Urbanism o

Orient adora:

Professora Dra. Beatriz M ugayar Kühl

SÃO PAULO

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CRISTIANE IKEDO BARDESE

Arquitetura Industrial

Pat rim ônio edificado, preservação e requalificação:

O caso do M oinho M at arazzo e Tecelagem M ariângela

Dissert ação apresent ada à Faculdade de Arquit et ura e Urbanism o da Universidade de São Paulo (FAUUSP) para obtenção do t ít ulo de M est re em Arquit et ura e Urbanism o.

Área de Concent ração:

Hist ória e Fundam ent os da Arquit et ura e do Urbanism o

Orient adora:

Professora Dra. Beatriz M ugayar Kühl

SÃO PAULO

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3

AGRADECIM ENTOS

Gost aria de expressar meus agradeciment os:

À FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Est ado de São Paulo, cujo apoio

financeiro foi fundament al para o desenvolviment o dessa pesquisa.

À Professora Dra. Beat riz M ugayar Kühl, por t odo apoio e orient ação no

decorrer de t odos os t rabalhos, desde a Iniciação Cient ífica, t ambém com apoio da

FAPESP.

Aos professores Dr. Ant onio Soukef Júnior e Dra. M arly Rodrigues, pelos

coment ários e sugest ões que me guiaram desde o exame de qualificação.

Aos amigos Thais Bort olat o e Pablo Padin, pelo int eresse e incent ivo, aos meus

pais, por compreender minhas ausências e especialment e a Wayne Sousa, por t odo

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4

SUM ÁRIO

INTRODUÇÃO .

09

CAPÍTULO 1 .

13

Est abelecim ent o da at ividade indust rial no bairro do Brás

1.1 A at ividade indust rial no Brás: surgiment o, expansão e consolidação – final do século XIX e início do século XX .13 1.2 O espaço urbano e a at ividade indust rial .23 1.3 Bens de int eresse e os mapas da cidade .36 1.4 Os edifícios da Família M at arazzo: repercussões da imigração .52 CAPÍTULO 2 .

67

Est udo e Análise dos objet os selecionados

2.1 O M oinho M at arazzo .75 2.2 A Tecelagem M ariângela .105 CAPÍTULO 3 .

142

Not as sobre a Preservação do Pat rim ônio Indust rial e o bairro do Brás

3.1 Int rodução .142 3.2 O Pat rimônio Indust rial em São Paulo .148

3.3 Os crit érios de preservação .153 3.4 Análise dos conjunt os M oinho M at arazzo e Tecelagem M ariângela a part ir das t eorias de preservação .158 3.5 Propostas para o est udo e int ervenção em bens indust riais .172

CONSIDERAÇÕES FINAIS .

174

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5

LISTA DE IM AGENS

Título Pág.

01 Brás do início do século XX. 32

02 Vist a panorâm ica do Brás s.d. 32

03 Plant a da Cidade de São Paulo levant ada pela Com panhia Cant areira de Esgot o em 1881

42

04 Plant a da Cidade de São Paulo – 1895 43

05 Plant a Geral da Cidade de São Paulo – 1905 44

06 Plant a Geral da Cidade de São Paulo – 1913 45

07 Plant a Geral da Cidade de São Paulo – 1916 46

08 Plant a da Cidade de São Paulo. M ost rando t odos os arrabaldes e terrenos arruados em 1924

47

09 M apa Topográfico do M unicípio de São Paulo. Sara – Brasil S.A. – Folha 51 48

10 Plant a da Cidade de São Paulo e M unicípios Circunvizinhos – 1943 49

11 São Paulo, Projeção hiperboloid com rêde kilomét rica em 1951 50

12 São Paulo, Projeção hiperboloid com rêde kilomét rica em 1952 51

13 Região do Brás 67

14 Área de est udo 68

15 Det alhe das alvenarias de t ijolos do M oinho M at arazzo 79

16 Esquem a dos aparelhos ut ilizados nas alvenarias de t ijolos 79

17 OPA/ 1899-245 – Fot os e Prospect os Principal e Lateral do M oinho M at arazzo

82

18 OPA/ 1899-245 – Projet o do M oinho M at arazzo 83

19 OPA/ 1899-245 – Prospect o e Plant a esc. 1:200 de ant igos arm azéns 85

20 M oinho M at arazzo no início de 1900 86

21A 21B

OP/ 1908/ 001.356 – Projet o de acqueduct o subt errâneo entre a Fábrica M ariângela e o M oinho M at arazzo

OP/ 1913/ 0003.698 – Pedido de levant am ent o de calçam ento na Rua M onsenhor Andrade para subst it uição de tubo

89

22A 22B 22C

Localização do conjunt o

OP/ 1909/ 001.648 – Projet o de depósit os anexo ao M oinho M at arazzo

91--92

23 OP/ 1913/ 003.699 – Projet o para aum ent o do m oinho 93

24 OP/ 1907/ 001.095 – Arm azém para arroz em casca e beneficiado 94

25 Vist a do conjunt o do M oinho M at arazzo volt ado para a Rua M onsenhor Andrade

99

26 Det alhe do antigo galpão do fim do século XIX 99

27 Cont inuação do galpão at é o M oinho M at arazzo 99

28 Det alhe das int ervenções do M oinho M at arazzo 100

29 Det alhe dos guarda-corpos em ferro e o vandalism o na região 100

30 Fachada para a Rua do Bucolism o 100

31 Ent rada do conjunt o pela Rua do Bucolism o 100

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6

33 M esm a fachada com Tecelagem M ariângela ao fundo 101

34 Det alhe da fachada 101

35 Det alhe da fachada 101

36 Rest aurante Sant a Rosa 102

37 Det alhe da escada de t ijolos 102

38 Det alhe da entrada do Rest aurant e 102

39 Det alhe da est rut ura da cobert ura 103

40 Det alhe do fecham ent o de ant igo vão 103

41 Det alhe da cobert ura do M oinho M at arazzo 104

42 Vist a da Rua do Bucolism o 104

43 Det alhe das novas descidas de água pluvial aparent es 105

44 Det alhe das novas esquadrias e grades 105

45 Fábrica de Fiação e Tecelagem d’algodão – Det alhe da cobert ura e est rut ura – 1904

109

46 Plant a Geral das Transmissões da Fábrica de Fiação e Tecelagem d’algodão – 1904

110

47 OP/ 1906/ 001.112 – Im agens referent es à expansão da Tecelagem M ariângela

111

48 OP/ 1907/ 001.095 – Im agens referent es à extensão da Fábrica de t ecidos 112

49 Elevações da Ext ensão da Fábrica 113

50 Im agem da Fábrica de Tecidos M ariângela no início do século XX 114

51 Fábrica M ariângela no início do século XX 114

52 Vist a superior da Tecelagem M ariângela 114

53 Esquina entre as ruas M onsenhor Andrade e Fernandes Silva 115

54 Det alhe das novas abert uras na fachada 115

55 Det alhe do revest im ent o cerâm ico nas fachadas 115

56 Vist a para Rua Fernandes Silva 116

57 Cont inuação da fachada – Rua Fernandes Silva 116

58 Cont inuação da fachada – Rua Fernandes Silva 116

59 Cont inuação da fachada – Rua Fernandes Silva 116

60 OP/ 1907/ 000.013 – Plant a para o assent am ent o de duas caldeiras para fazer sabão

117

61 OP/ 1907/ 000.111 – Im agens do projeto de Ext ensão da Fábrica de Tecidos 118

62A 62B

OP/ 1909/ 001.647 – Projet o de expansão 119-120

63 OP/ 1909/ 000.045 – Projet o de expansão da Fábrica M ariângela 121

64 Plant a da ext ensão da Fábrica de Tecidos – 1910 122

65 OP/ 1910/ 000.236 – Ext ensão da Fábrica de Tecidos M ariângela 123

66 Esquina entre as ruas M onsenhor Andrade e Assunção 124

67 Vist a do antigo conjunt o de residências, junt o a t ecelagem 124

68 Fachada volt ada para Rua Assunção 124

69 Cont inuação da fachada – Rua Assunção 124

70 Det alhe da nova abert ura para veículos 124

71 Det alhe do est acionam ent o 125

72 Cont inuação da fachada – Rua Assunção 125

(7)

7

74 Det alhe da t ela m et álica 129

75 Ent rada do conjunt o pela Rua da Alfândega 129

76 Det alhe da entrada e ruas int ernas do com plexo 129

77 Det alhe da entrada de veículos 130

78 Readequação das abert uras e espaços int ernos 130

79 Vist a aérea da região 132

80 Vist a da Rua M onsenhor Andrade 133

81 Fachada principal do SENAI 133

82 Plant a da região de est udo 134

83 Vist as 01 e 02 135

84 Vist as 03, 04 e 05 136

85 Vist as 06, 07 e 08 137

86 Vist as 09 e 10 138

87 Vist as 11 e 12 139

88 Resolução nº 38/ 92 - Planta nº 1: Ident ificação dos im óveis e respectivos níveis de proteção

141

89 Exem plo dos levant am entos para recuperação do com plexo do Gasôm etro 162

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8

RESUM O

A pesquisa versa sobre a preservação do pat rimônio arquit et ônico indust rial na

cidade de São Paulo, at ravés do est udo de caso de dois conjunt os, M oinho M at arazzo

e Tecelagem M ariângela, import ant es exemplares da arquit et ura indust rial dat ados do fim do século XIX e início do século XX, localizados no bairro do Brás. Esses conjunt os

se dest acam por sua qualidade arquit et ônica, im port ância hist órica, soluções t écnicas,

organização e int eração dos espaços, inserção no t ecido urbano e sua condi ção de

referência para a memória local. M esmo com um debat e complexo, a pesquisa busca

discut ir quest ões ligadas ao pat rim ônio indust rial, propondo diret rizes para sua

preservação, a part ir da análise desses conjunt os, pret endendo dem onst rar que é

possível aliar ações cont emporâneas à sua salvaguarda, levant ando t ambém , novos

t emas para discussão.

Palavras chave: M oinho M at arazzo, Tecelagem M ariângela, Pat rimônio Cult ural,

Arquit et ura Indust rial, Preservação, Rest auração.

ABSTRACT

This research deals w it h t he preservat ion of indust rial archit ect ure in t he cit y of

São Paulo, t hrough t w o st udy cases, M at arazzo M ill and M ariangela Text ile Indust ry,

import ant examples of indust rial archit ect ure of t he end of 19t h Cent ury and t he

beginning of 20t h Cent ury, in t he Bras dist rict . Those complexes st and out because of

t heir archit ect ural qualit y, hist orical import ance, t echnical solut ions, organizat ion and

int egrat ion of t he spaces, t heir insert ion in t he urban space and t heir reference for t he

local memory. Even w it h a com plex debat e, t his research w ill discuss quest ions relat ed

t o indust rial herit age, proposing guidelines for t heir preservat ion, t hrough t he analysis

of t hose cases, show ing t hat it is possible t o ally present act ions and t heir preservat ion,

and proposing new subject s for discussion.

Keyw ords: M at arazzo M ill, M ariangela Text ile Indust ry, Cult ural Herit age, Indust rial

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INTRODUÇÃO

Est e projet o de pesquisa t rat a da preservação e reut ilização do pat rimônio

arquit et ônico indust rial na área cent ral da cidade de São Paulo, at ravés do est udo de

dois conjunt os edificados durant e o período que compreende o final do século XIX e

início do século XX. O t rabalho se concent rará em uma área do bairro do Brás – que

presenciou um dest acado desenvolviment o indust rial, pela sua import ância hist órica

na configuração do t ecido urbano da cidade e, t ambém, por ainda apresent ar

import ant es exemplares da arquit et ura indust rial.

M esmo que o int eresse pela preservação do pat rimônio indust rial no Brasil seja

relat ivament e recent e, ganhando maior import ância nas últ imas décadas do século XX,

podemos not ar uma crescent e discussão e int eresse por sua preservação, com a

realização de alguns est udos e levant ament os específicos.

Com grande part e localizada ao longo das ferrovias e próximas às áreas

cent rais, incidem sobre esses conjunt os uma grande especulação econômica e

imobiliária, t ornando-se urgent e a realização de levant ament os sist emat izados,

est udos e análises para a ident ificação dos exemplares mais significat ivos.

Como seqüência às pesquisas de Iniciação Cient ífica, no ano de 2003,

financiada pela FAPESP e ao Trabalho Final de Graduação, a part ir da análise

arquit et ônica, sua inserção no espaço urbano da região e as modificações sofridas

at ravés dos anos, dos dois conjunt os selecionados, o t rabalho visa a discussão da

possibilidade/ necessidade de preservação e reut ilização desses conjunt os indust riais

at ravés de novos usos, compat íveis com seus element os caract erizadores e que

possibilit em a t ransmissão de conheciment o e est udo fut uro, sem a agressão física e

memorial dos objet os em quest ão. São ainda abordados aspect os t eóricos sobre a

preservação do pat rimônio indust rial, at ravés da discussão da aplicabilidade, nos

objet os de est udo, desses preceit os na prát ica cont emporânea, inserindo-os em um

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10

A escolha desses dois conjunt os: M oinho M at arazzo e Fábrica de Tecelagem

M ariângela, deu-se a part ir da relação dos conjunt os já levant ados em out ros

t rabalhos1 e pesquisas de campo na região do bairro do Brás. Esses exemplares foram

escolhidos por apresent arem element os const rut ivos caract erizadores, represent at ivos

do início da indust rialização paulist a e de moviment os operários. Eles t ambém est ão

localizados na região cent ral da cidade, próxim os à malha ferroviária e a um grande

cent ro comercial e est ão sob grande pressão da especulação im obiliária, fazendo com

que a import ância de seu est udo, evidenciando seus element os caract erizadores, e a

propost a de diret rizes para int ervenções fundament adas t ornem -se imprescindíveis.

A pesquisa seguirá as várias fases dos conjunt os selecionados, iniciando -se no

final do século XIX, mais especificament e 1899, dat a do p rimeiro regist ro do conjunt o

do M oinho M at arazzo2, primeira década do século XX, 1904, primeiro regist ro da

Tecelagem M ariângela3, at é os dias de hoje, quando podemos observar seus at uais

est ado de conservação.

Essas const ruções foram selecionadas, para que sejam est udadas suas

especificidades – soluções t écnico-const rut ivas e arquit et ônicas, mat eriais,

organização dos espaços, import ância document al e como refer ência para a memória

da região e sua inserção no espaço urbano at ual da região. At ravés do regist ro de seu

est ado, evidenciando suas qualidades e necessidades, a pesquisa pret ende m ost rar

que muit os dos conjunt os exist ent es no local, ainda são dignos de preservação e

principalment e, merecedores de est udo.

1

Ver: RUFINONI, M anoela Rossinet ti. Preservação do pat rimônio indust rial na cidade de São Paulo. São Paulo, FAUUSP, Dissert ação de M est rado, 2004.

SAIA, Helena. Arquit et ura e Indúst ria: fábricas de t ecidos de algodão em São Paulo. São Paulo, FAUUSP, Dissert ação de M est rado, 1989.

Galpões indust riais significativos. São Paulo, Em urb, s.d.

2

Arquivo M unicipal Washingt on Luis. Obras Particulares – Papéis Avulsos 1899 O PA 245 – pp. 82-88.

3

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11

Pret ende-se assim, t ambém discut ir os preceit os t eóricos de rest auração e sua

aplicabilidade para o pat rim ônio indust rial em São Paulo, ut ilizando -se desses est udos

de caso, abrindo caminho para discussões mais profundas, visando ampliar e

enriquecer o seu conheciment o para fut uras int ervenções.

O primeiro capít ulo: Est abeleciment o da at ividade indust rial no bairro do Brás -

1.1 Brás: surgim ent o, expansão e consolidação – final do século XIX e início do século

XX; 1.2 O espaço urbano e a at ividade indúst ria; 1.3 Bens de int eresse e a expansão indust rial at ravés dos m apas da Cidade; 1.4 Os edifícios da Fam ília M at arazzo: repercussões da im igração; se det ém aos processos de indust rialização do bairro do Brás, apresent ando o rápido cresciment o e t ransformações pelos quais a região

passou, a part ir de m eados do século XIX e primeiras décadas do século XX. São

apresent ados os principais fat ores para sua expansão, com o a chegada da est rada de

ferro, enriqueciment o gerado pela cult ura do café, a im igração européia, ent re out ros.

Também são relat ados t emas relat ivos ao surt o indust rial ligado a essa

t ransformação, como a formação dos bairros operários, a inst alação de grandes

conjunt os indust riais e armazéns próximos às ferrovias, presença da imigração na

const rução civil e cost umes, relações ent re o espaço urbano e a at ividade indust rial,

et c., e como influenciaram a região.

O final do capít ulo é dedicado à chegada dos imigrant es que se est abeleceram

no bairro do Brás, principalment e os it alianos, com ênfase à Família M at arazzo,

propriet ários originais dos dois est udos de caso e referência das t ransformações pelas

quais a região passou.

O segundo capít ulo: Est udo e Análise dos objet os selecionados; 2.1 O M oinho

M at arazzo; 2.2 A Tecelagem M ariângela; inicia-se com a apresent ação da seqüência de t rabalho e mat erial obt ido durant e as pesquisas de campo e document al realizada

nos arquivos municipais disponíveis. São t ambém realizadas uma descrição e análise

pormenorizadas das const ruções do conjunt o do M oinho M at arazzo e Tecelagem

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12

caract eríst icas, organização espacial e seu at ual est ado de conservação, incluindo

int ervenções realizadas para adapt á-los a novos usos.

No t erceiro capít ulo: Not as sobre a Preservação do Pat rimônio Indust rial e o

bairro do Brás; 3.1 Int rodução; 3.2 O Pat rim ônio Indust rial em São Paulo; 3.3 Os

crit érios de preservação; 3.4 Análise dos conjunt os M oinho M at arazzo e Tecelagem M ariângela a part ir das t eorias de preservação; 3.5 Propost as para o est udo e int ervenção em bens indust riais; são apresent ados as principais t eorias relat ivas ao pat rimônio indust rial e as quest ões ligadas à sua preservação, com o a inserção no

t ecido urbano e requalificação aos novos usos.

E com base nas t eorias e crit érios de preservação discut idos e na análise dos

conjunt os est udados, foram levant adas algumas quest ões e propost as básicas que

poderão auxiliar e orient ar o caminho da preservação e int ervenção do pat rimônio

indust rial, possibilit ando novas at uações que respeit em seus element os e

caract eríst icas, sem t er a pret ensão de descrever procediment os det alhados ou

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13

CAPÍTULO 1

Est abeleciment o da at ividade indust rial no bairro do Brás

Para o melhor ent endiment o dos est udos de caso, assim como sua análise e

relações com a malha urbana at ual, serão abordados o surgiment o, expansão e

consolidação da at ividade indust rial na região do at ual bairro do Brás.

Foram diversos os fat ores que possibilit aram e acabaram por acelerar esse

processo, como o enriqueciment o proporcionado pela cafeicult ura, a chegada da

est rada de ferro, im igração européia, ent re out ros. A fisionom ia da cidade mudava

drast icament e a cada ano, em especial as áreas de várzea, próximas às ferrovias, onde

se inst alou a maior part e das nascent es indúst rias. E na t ent at iva de elucid ar alguns

desses fat ores, o capít ulo a seguir descreve de forma cronológica essas t ransformações

que a região do bairro do Brás passou.

1.1 A at ividade indust rial no Brás: surgimento, expansão e consolidação – final do século XIX e início do século XX

Ainda no início do século XIX, a região do Brás4 foi marcada pelas chácaras e um

pequeno aglomerado de modest as casas de t aipa beirando os escassos arruament os.

Sempre marcada pelas cheias do Rio Tiet ê e Tamanduat eí, foi durant e muit o t empo

apenas ligação ent re São Paulo e Penha.

O bairro do Brás foi o primeiro foco expressivo de povoament o a lest e do

Tamanduat eí e t eve sua origem relacionada a est abeleciment os comerciais ao longo da

4

Segundo Nut o Sant ana, a região era conhecida por diversos nom es, sendo que o que absorveu os dem ais foi o de José Brás, reconst rut or da capelinha do lugar.

BRUNO, Ernani Silva. História e t radições da Cidade de São Paulo. Volume 2 – Burgo de Est udant es

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14

est rada São Paulo – Rio de Janeiro, sendo o prim eiro inst alado em 1730, pert encent e

ao port uguês José Brás, compost o de casa de com ércio e albergue.5

“ Em 1860 Zaluar escrevia na sua Peregrinação pela Província de São Paulo: ‘Ent ramos em São Paulo pelo lugar chamado Brás. É um dos arrabaldes mais belos e concorridos, not ável pelas suas chácaras onde residem muit as famílias abast adas’. Com casas-grandes abarracadas ‘ao gost o paulist a’, como escreveu José de Alencar em um de seus romances (Sonhos d’Ouro), descrevendo uma chácara ext ensa que ficava ‘em um dos mais pit orescos arrabaldes da capit al de São Paulo’: o Brás.”6

Soment e em meados do século XIX que o bairro começou , aos poucos, a se

desenvolver. As ruas foram se abrindo de forma irregular, apresent ado larguras

variáveis, at é mesmo em uma mesma rua e algumas das ant igas chácaras foram aos

poucos desaparecendo, dando lugar à inevit ável expansão da cidade e urbanização das

zonas de subúrbio.

As ant igas plant as most ram que a ext ensão da cidade, nessa época, ainda era

reduzida, rest ringindo-se à ext remidade do esporão que const it ui o int erflúvio

Tamanduat eí – Anhangabaú, e o “ Brás apresent ava-se ainda em desenvolviment o

embrionário, separado da cidade pela várzea do Tamanduat eí”7. Um plano de

arruament o soment e foi apresent ado em agost o de 1831 e divulgado no ano seguint e,

o que aos poucos at raiu a at enção de novos int eressados em seus t errenos8. A part ir

de 1836, a Freguesia do Brás t em o maior número de t errenos solicit ados dent re os

5

RUFINONI, M anoela Rossinet t i. Preservação do pat rimônio indust rial na cidade de São Paulo. São Paulo, Dissert ação de M est rado, FAUUSP, 2004, p.12.

6

BRUNO, 1954, p.572.

7

LANGENBUCH, Juergen Richard. A est ruturação da Grande São Paulo – Est udo de Geografia Urbana. Rio de Janeiro, Fundação IBGE, 1971, p.9.

8

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15

bairros de São Paulo, o que pode ser, em part e, explicado por sua localização –

passagem que fazia a ligação com a Cort e, at ravés da Penha. O cam inho que ligava a

cidade de São Paulo e o Rio de Janeiro est eve int eirament e relacionado com a origem

do bairro do Brás, que se expandiu de forma linear, acompanhando as est radas de

ligação. M as mesmo com a crescent e procura por novos t errenos, o bairro não

apresent ava ainda um aspect o propriament e urbano.

Em 1836, foi realizado um recenseament o por Daniel Pedro M üller, para t oda

cidade de São Paulo, que regist ra 4068 fogos, compreendendo 21 933 habit ant es, num

t ot al de dez freguesias, das quais Sé, Sant a Ifigênia e Brás pert enciam ao cent ro

urbano, com um t ot al de 9 391 habit ant es, dist ribuídos em:

- Freguesia da Sé: 2 557 brancos; 1 035 pret os; 1 085 pardos e 1 índio

- Freguesia de Sant a Ifigênia: 1 196 brancos; 739 pret os; 1 067 pardos e 62 índios

- Freguesia do Brás: 328 brancos; 156 pret os e 175 índios9

As t erras além do rio Tamanduat eí foram ocupadas vagarosament e, pelo

menos at é meados do século XIX, e apesar da Câmara M unicipal cont inuar cedendo

cart as de dat as de t erras na região do Brás, as freqüent es inundações da várzea

ret ardaram um pouco a expansão da cidade para essa direção.

At é meados do século XIX, a cidade de São Paulo ainda era pequena, com

pouco significado econôm ico e sua econom ia era principalment e de subsist ência. O

mesmo acont ecia com o panorama indust rial da cidade que pouco se modificou nesse

período. “ Aliás em t odo Brasil – como observou Von Eschw ege no começo do

oit ocent ismo – o est abeleciment o de empresas e a realização de planos indust riais de

cert o vult o esbarrariam com obst áculos muit o difíceis de vencer. (...) O produt o

manufat urado no país acabava ficando dez vezes mais caro que o sim ilar europeu. Em

São Paulo foram se est abelecendo na época apenas indúst rias rudiment ares e

9

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16

pequenas oficinas art esanais.”10

Em meados de 1850, novas fábricas inst alaram -se na região, como a primeira

grande fábrica de t ijolos no Bom Ret iro.11 A part ir da segunda met ade do século XIX, a

fisionomia da cidade de São Paulo sofreu profundas t ransformações, principalment e

com a expansão da cult ura cafeeira, que result ou na realização de uma série de

empreendiment os. Houve t ambém out ros fat ores decisivos que lhe deram novo

aspect o e papel – a imigração européia e a inst alação das ferrovias. De ordem

econômica, social ou simplesment e t écnica, de carát er regional ou nacional, esses

fat ores cont ribuíram para que, principalment e a part ir de 1870, se marcasse uma nova

fase na hist ória de São Paulo.

São Paulo presenciou um novo rit mo de cresciment o, como podemos observar

na relação abaixo12, a população aument ou na região do cent ro urbano, mas not amos

que foi no Brás que houve um rit mo mais acelerado; foi crescent e t ambém, o

moviment o de veículos na cidade, exigências que modificaram a fisionom ia da ant iga

est rada da Penha.

População nos Dist rit os 1836 1855 1872

- Sé 5 568 7 484 9 213

- Sant a Ifigênia 3 064 3 646 4 459

- Brás 659 974 2 308

- Penha 1 206 1 337 1 883

- N. Senhora do Ó 1 759 2 000 2 023

- Consolação --- --- 3 357

Tot al 12 256 15 471 23 243

A ocupação indust rial era, como mencionado, pont ual, rudiment ar e pouco

represent at iva nos primeiros anos do século XIX, como descreve José Joaquim

10

BRUNO, 1954, p.710.

11

BRUNO, 1954, p.716.

12

(17)

17

M achado d’Oliveira, em 1856:

“ Não se pode qualificar como indúst ria fabril essas pequenas fábricas de chapéus, charut os, licores, et c., algumas das quais duram pouco ou são como apêndice de casas comerciais.”13

Essa ocupação assume maior dest aque na economia paulist ana, sobret udo a

part ir da últ ima década daquele século, int ensificando-se nas primeiras do século XX,

devido a uma série de fat ores, como uma nova polít ica alfandegária de carát er

prot ecionist a, a repercussão da Guerra Civil nort e-americana, que cont ribuiu para a

expansão da indúst ria t êxt il e t ambém pelas est radas de ferro.

Segundo Langenbuch, durant e t odo o final do século XIX e a primeira década do

século XX, pelo menos, as t ransformações que ocorreram nos arredores paulist anos

ainda não encerram fenômenos de expansão met ropo lit ana, mas est abeleceram

import ant es e decisivas diret rizes – eixos e pólos, que condicionarão esse processo.14

A crescent e indust rialização cont ribuiu para a urbanização de ext ensas áreas e

a compart iment ação e t ransformação das chácaras suburbanas nos bairros indust riais

e operários, principalment e a part ir de 1867 com a inst alação da est rada de ferro

Sant os-Jundiai. Os fat ores que impulsionaram essa rápida t ransformação na paisagem,

t ambém demarcaram a t ransformação da própria sociedade paulist ana, como as

relações de t rabalho, convívio social, desenho urbano, et c.

“ No fim da década do Romant ismo, o President e Saraiva, em relat ório enviado à Assembléia, abordou em t ermos prát icos o surt o do café na Província e o seu fut uro econômico. Um mês depois, em março de 1855, aquela Câmara aut orizou-o a garant ir 2% de lucro (t endo, mais t arde, o governo imperial garant ido por lei mais 5%) a qualquer companhia que, com um capit al máximo de 2 000 000 de libras, const ruísse uma est rada de

13

TORRES, 1985, p.106.

14

(18)

18 ferro “ de Sant os para est a capit al e int erior” . No ano seguint e o Visconde

(ent ão Barão) de M auá e seus sócios receberam uma concessão por 90 anos, e em 1860 haviam conseguido formar em Londres a empresa “ The São Paulo Railw ay Company, Lt d.” . Em novembro começou a const rução do leit o da est rada part indo do port o de Sant os at é Jundiaí, via São Paulo. (...) A 16 de fevereiro de 1867 os 139 quilômet ros da linha de Sant os a Jundiaí foram abert os ao t ráfego”15

A inauguração da est rada de ferro São Paulo Railw ay, que ligou zonas cafeeiras

do oest e paulist a ao port o de Sant os, seguida pela est rada de ferro do Nort e, ligando a

capit al ao Rio de Janeiro, foram responsáveis por grandes mudanças a part ir da

segunda met ade do século XIX, principalment e no sist ema de t ransport e. Houve um a

visível alt eração da paisagem pela formação de novas est rut uras urbanas t razidas pela

ferrovia e indúst ria. A implant ação das ferrovias iniciou um processo de com plet a

reest rut uração das vias de t ransport e, definindo novos t rajet os que redirecionaram os

eixos de ocupação, circulação e expansão da cidade.16

A implant ação das ferrovias foi possível, principalment e, devido ao dinheir o

provindo da cafeicult ura. A riqueza proporcionada pela cult ura do café t rouxe grandes

mudanças na economia do Est ado e no próprio país, result ando no deslocament o do

eixo econômico em direção do sudest e, t ornando-se t ambém o principal produt o

comercial de export ação.

Essa riqueza t ambém gerou condições para o surt o indust rial da cidade,

cust eou boa part e da infra-est rut ura necessária para que a manufat ura nacional

pudesse se estabelecer e a formação de uma nova ordem econôm ica, polít ica e social,

principalment e visível no início do século XX.

O final do século XIX foi marcado pelas sucessivas implant ações de novos

15

M ORSE, Richard. Formação histórica de São Paulo. São Paulo, Difusão européia do Livro, 1970, pp. 205-206.

16

(19)

19

t rechos ferroviárias: Sorocabana em 1875, Nort e – Cent ral do Brasil em 1877.

“ Oit o anos depois de completada a linha Sant os-Jundiaí, já est avam em funcionament o as quat ro principais ferrovias que serviam o int erior. Eram elas: 1) Cia. Paulista (ext ensão do eixo Sant os-Jundiaí; abert a na direção nort e-noroest e, de Jundiaí a Campinas em 1872, a Limeira de Rio Claro em 1876, a Descalvado em 1881); 2) Cia. It uana (aberta na direção oest e de Jundiaí a It u em 1873, a Piracicaba em 1879); 3) Cia. Sorocabana (abert a na direção oest e, de São Paulo a Sorocaba em 1875, a Ipanema em 1875, a Tiet ê em 1883; 4) Cia. M ojiana (abert a na direção nort e, de Campinas a M oji M irim e Amparo em 1875, a Casa Branca em 1878, a Ribeirão Pret o em 1883, a Poços de Caldas em 1886, t razendo assim uma região do Sul de M inas para a esfera econômica de São Paulo). A últ ima linha import ant e dessa rede (...) era a Cia. São Paulo e Rio de Janeiro (mais t arde Cent ral do Brasil), ligando São Paulo à Capit al do país.”17

Esses novos t rechos possibilit aram a reest rut uração das ligações ent re diversas

regiões, a definição de novos t rajet os e o redirecionament o da ocupação, circulação e

expansão das cidades.18

O auge ferroviário na cidade de São Paulo foi simbolizado pela const rução da

Est ação da Luz, um edifício ímpar de proporções monument ais. A est ação const ruída

em uma área de 7.520 met ros quadrados t eve muit o de seu mat erial import ado da

17

Idem, pp.228-229.

18

Sobre o est abelecim ent o das linhas ferroviárias no Est ado de São Paulo, ver: PINTO, Adolpho August o.

Hist ória da Viação Pública de S. Paulo. São Paulo, Vanorden, 1903 e M ATOS, Odilon Nogueira. Café e

Ferrovias: a Evolução Ferroviária de São Paulo e o Desenvolviment o da Cultura Cafeeira. São Paulo, Alfa-Ôm ega, 1974.

Especificament e sobre a Ferrovia São Paulo Railway, ver: M AZZOCO, M aria Inês Dias; SANTOS, Cecília Rodrigues dos. De Sant os a Jundiai: Nos Trilhos do Café com a São Paulo Railway. São Paulo, M agma, 2005; CYRINO, Fábio R. Pedro. Ferro e Argila. A História da Implantação e Consolidação da Empresa The

San Paulo Railway Company Lt d. At ravés da Análise de sua Arquit etura. São Paulo, Landm ark, 2004. Bibliografia com plem ent ar, ver: KÜHL, Beat riz M ugayar. Arquit et ura do Ferro e Arquit et ura Ferroviária

(20)

20

Inglat erra, inclusive os ingleses est iveram ligados à const rução e direção das primeiras

ferrovias em São Paulo.

A ferrovia t eve papel decisivo com o element o indut or na localização de

diversos conjunt os indust riais, orient ando e organizando os cam inhos da

indust rialização. A ferrovia funcionou como inst rument o de reorganização dos

arredores paulist anos em seu benefício; a São Paulo Railw ay det erminou a formação

de uma faixa indust rial, formando um arco a lest e e ao nort e do cent ro. Da mesma

forma, os t errenos planos, desocupados e a baixo cust o, que ladeavam a ferrovia,

cont ribuíam para a ocupação das indúst rias, pois possibilit avam am pliações fut uras e

desvios ferroviários para dent ro dos conjunt os ajudando no escoament o da produção.

As est ações ferroviárias, com o pont os de convergência de produt os e pessoas,

t iveram repercussão no povoament o e na valorização dessas regiões, onde se

inst alaram grande part e dos t rabalhadores at raídos pelas recent es indúst rias. Com a

vinda crescent e de mão de obra, houve a fixação do operariado nas imediações das

regiões indust riais e a formação dos bairros operários19, principalment e na região do

Brás. As est radas de ferro influenciaram a formação e localização do parque indust rial,

além de valorizarem as áreas de várzea, fazendo com que suas t erras se edificassem

bairros operários que mais t arde, se int egraram no corpo urbano.

“ Ao cont rário de muitas das est radas históricas que convergiam para São Paulo, as est radas de ferro ficavam ao nível dos rios. A São Paulo Railway chegava de Sant os margeando o Tamanduat eí, cont ornava a colina cent ral e ent ão seguia o Tiet ê ant es de dobrar para o nort e. A bacia do Tiet ê era

19

Bandeira Júnior ao fazer o levant ament o dos est abeleciment os fabris em São Paulo, cita o número de operários em pregados, na maioria dos objet os de seu estudo, discriminando-os ent re est rangeiros e brasileiros, dest acando a grande participação dos est rangeiros com o m ão-de-obra.

“ é cont rist adora a desproporção do pessoal brazileiro para o est rangeiro, assinalada no mappa que t emos em frent e: 9 nacionaes, 301 est rangeiros” , dest acou Bandeira Júnior a respeito da Fábrica de Tecidos Fiação Anhaia.

(21)

21 t ambém seguida pela Sorocabana que vinha de oest e; e pela Cent ral do

Brasil, vinda do Rio, a est e. A São Paulo Railw ay, em part e pela sua vast a quant idade de desvios, veio det erminar a formação de uma faixa indust rial que se ent endeu por um amplo arco a est e ao nort e do cent ro, e do qual muit os t errenos já eram indesejáveis por serem baixos e úmidos. Nest e arco, principalment e no Brás e na M ooca, foi morar a maioria dos t rabalhadores.”20

As est ações de t rem t ambém t iveram papel import ant e na orient ação da

urbanização local, pois facilit avam o acesso e fixação de grande número de imigrant es

vindos do port o e do Rio de Janeiro, nas regiões próximas. Sit uação acent uada com a

inst alação da Hospedaria dos Imigrant es ent re as est ações do Brás e M ooca, ent re

1886 e 1888. A ligação com a Cort e, t ambém favoreceu para o desenvolviment o e

mudança do aspect o do bairro, part icularment e em t orno do largo da Concórdia e nas

ruas de Pirat ininga e Carneiro Leão.21

A int ensificação do comércio import ador e export ador aument ou a necessidade

de uma melhor infra-est rut ura de t ransport es para ligação dos port os com o mercado

int erno, principalment e após a expansão do café. Ent re 1870 e 1890, t ambém

quarent a e uma indúst rias se inst alaram na cidade, à margem das ferrovias.22

Em 1881, no bairro do Brás, a urbanização já t inha ult rapassado as áreas das

est ações do Brás (Sant os-Jundiai) e do Nort e (Cent ral do Brasil)23 e cada vez mais, era

20

Idem, p.250.

21

TORRES, 1985, p.108.

22

“ O levantament o parcial feito por Antônio Bandeira das indúst rias da Capit al em 1901, t raz o ano em

que foram fundados 94 dos 108 est abelecimentos enumerados. Dos 94, apenas 4 eram ant eriores a 1870, sendo que 41 foram fundados ent re os anos de 1870 e 1890.”

JUNIOR, Ant onio Francisco Bandeira. A Indúst ria no Est ado de São Paulo, São Paulo, 1901, in M ORSE, 1970, pp. 235-236.

23

LANGENBUCH, 1971, p.79.

(22)

22

evident e a cent ralização econômica na Capit al da província, com o dest acado no

est udo de Richard M orse:

“ A concent ração indust rial de São Paulo começou a efet ivar-se pouco ant es de 1890, na época precisa em que pela primeira vez assumiram carát er agudo o cresciment o da população e expansão física da cidade.”24

A part ir da primeira década do século XX, com a int ensificação da

indust rialização, a região presencia, não apenas uma mudança do espaço físico, mas

t ambém a t ransformação do t empo, pensament o e condição de vida dessa ‘nova

sociedade’. “ A indust rialização, num processo m uit o rápido, dest rói os rit m os e as

at ividades de conot ação rural que perm eavam a cidade, porque est a se t orna locus da produção e reprodução dent ro da lógica capit alist a.”25

Essa nova realidade da cidade possibilit ou a diversificação de invest iment os

pelo capit al provenient e da cafeicult ura. M uit os fazendeiros e famílias abast adas viam

a necessidade de expandir a nascent e indúst ria em São Paulo, desviando part e do

capit al privado e a mão de obra est rangeira, cada vez mais freqüent e, para que

pudessem desenvolver “ o progresso, baseado na ordem e caract erizado na

indúst ria”26. Esses fazendeiros quase sempre invest iam em indúst rias relacionadas às

necessidades de sua própria produção agrícola27, e dessa forma o capit al adquirido

com o comércio do café cust eou grande part e da infra-est rut ura necessária para que a

primeiro, para dar lugar a um bairro com fisionomia própria – numa época em que em que o Brás propriament e acabava na estação do Nort e.”

BRUNO, 1954, p.1032.

24

M ORSE, 1970, p.?.

25

LAURENTINO, Fernando de Pádua. Várzea do Tamanduat eí: indust rialização e desindust rialização. São Paulo, Dissert ação de M est rado FFLCHUSP, 2002, p.83.

26

LEITE, Nicolau França. Conferência sobre o progresso mat erial da Província de São Paulo, Rio de Janeiro, 1874, pp.3-15.

27

VITORINO, Bruno Bonesso. Pat rimônio ameaçado: os grupos residenciais const ruídos até 1930 no

(23)

23

manufat ura nacional pudesse se est abelecer28.

Os imigrant es t ambém cont ribuíram de forma cont undent e para o

desenvolviment o das indúst rias paulist as, primeirament e como mão de obra e

mercado consumidor, e mais t arde, invest indo e colaborando com o foment o da

indúst ria. Segundo Nest or Goulart , o final do século XIX, foi marcado pelo

apareciment o dos primeiros e import ant es imigrant es, como a família M at arazzo,

Crespi, Scarpa e Siciliano.29

1.2 O espaço urbano e a at ividade indust rial

Ant es mesmo de a ferrovia se inst alar na região, já se observava a abert ura de

pequenas indúst rias familiares no bairro do Brás30, que aos poucos foram t omando

maior proporção, com a chegada das vias férreas. Segundo descrição de Alfredo

M oreira Pint o dos est abeleciment os indust riais – grandes ou familiares, que haviam se

est abelecidos no bairro do Brás at é 1900, podemos cit ar “ duas de fum os, quat ro de

m óveis, um a de m assas, um a de chocolat e, duas de cerveja, seis de café, fubá, et c., um a de velas e sabão, t rês de bebidas, t rês de ferro e bronze, duas de ferro, um a de peneiras, um a de m achinas para lavoura, um a de carruagens, um a de funileiro, um a de assucar e álcool, um a de cat oeiros, um a officina m echanica e um a serraria” .31

Durant e as últ imas décadas do século XIX, a at ividade indust rial ainda não

ocupava papel de dest aque ent re as preocupações das aut oridades governament ais,

mesmo com algumas manifest ações posit ivas do Est ado, não houve ações efet ivas de

28

RUFINONI, 2004, p.33.

29

REIS FILHO, Nest or Goulart. São Paulo e out ras cidades. São Paulo, Hucit ec, 1994, p.109.

30

ANDRADE, M aria M argarida de. Bairros além Tamanduat eí: o imigrant e e a fábrica no Brás, M ooca e

Belenzinho. São Paulo, FFLCHUSP, Tese de Dout orado, 1991.

31

(24)

24

impulso à indust rialização.32 E apesar das crescent es t ransformações pelas quais

passou a cidade de São Paulo, ainda havia o out ro lado desse desenvolviment o. “ O das

ruas desprot egidas dos primeiros bairros fabris de São Paulo. Bandeira Júnior, em seu

est udo sobre as indúst rias paulist anas em 1901, falava do que observara no Brás, no

Bom Ret iro, na Água Branca, na Lapa, no Ipiranga: ruas sem confort o quase nenhum. O

Brás, ‘imenso bairro popular e laborioso’ – no depoiment o de Gaffre em 1912 – est ava

ainda com suas ruas, nesse t empo, sem luz e sem paviment ação.”33

M esmo com as adversidades, a cidade cresceu rapidament e de 65 m il

habit ant es para 240 mil, ent re 1890 e 190034:

Dist rit os 1872 1886 1890 1893

- Sé 9 213 12 821 16 395 29 518

- Sant a Ifigênia 4 459 11 909 14 025 42 715

- Brás 2 308 5 998 16 807 32 387

- Penha 1 883 2 283 2 209 1 128

- N. Senhora do Ó 2 023 2 750 2 161 2 350

- Consolação 3 357 8 269 13 337 21 311

Total 23 243 44 030 64 234 129 409

Após a abolição da escravat ura e proclamação da República, a alt eração

significat iva do quadro polít ico nacional e as novas medidas econôm icas adot adas pelo

governo repercut iram enormement e sobre o set or indust rial, perm it indo maior

compet it ividade da indúst ria nacional com os produt os est rangeiros que, aliados ao

amadureciment o dos fat ores que delinearam o cresciment o urbano de São Paulo,

t ransformavam a cidade no espaço ideal para receber os novos empreendiment os

32

Cf.: Nicia Vilela Luz. A luta pela indust rialização do Brasil (1808-1930). São Paulo, Difel, 1960, p.198-200.

33

BRUNO, 1954, p.984.

34

“ Uma comparação dos censos de 1872 e 1890 revela: o aparecimento de uma classe capit alist a; o

influxo de fazendeiros para a cidade; maior número de mulheres nas profissões liberais; e, em geral, um abandono das ocupações rurais pelas comerciais, indust riais, burocrát icas e int elect uais.”

(25)

25

indust riais.35

At ravés desse grande “ surt o indust rial” , em 1890, São Paulo já apresent ava

diversos est abeleciment os fabris com cert o port e, e a maioria deles foram implant ados

nos novos bairros em formação, at raídos pela ferrovia às suas margens. Segundo

Langenbuch, uma t endência que se consolidaria e se revelaria da máxima import ância

para a post erior est rut uração do grande organism o urbano.

“ Const ruíram organicament e seus impérios, part indo de indúst rias nucleares básicas, seguindo apenas direções onde eram efet ivas as necessidades do consumidor, os recursos exist ent es e suas próprias capacidades. Ao improvisarem organizações indust riais e financeiras não ort odoxas cont aram com a própria perícia; t iveram sempre o cuidado de não depender e agent es, no Brasil ou no ext erior, para o capit al básico ou para os passos essenciais no processo indust rial.”36

O cresciment o da cidade, para M orse, “ durant e e muit o depois do período de

1870 a 1890, reflet ia vivament e o cego, descoordenado e t um ult uoso desejo de

poderio, do qual out ros reflexos já foram not ados, e que t ant o dist inguia a met rópole

da fechada e t radicional cidadezinha pós-colonial.”37

A consolidação da rede ferroviária, o acúm ulo de capit ais provindo da

cafeicult ura, o aument o da população e a formação de um crescent e mercado

consum idor, condicionaram e impulsionaram a urbanização e o desenvolviment o do

set or indust rial em São Paulo. Da mesma forma, a expansão das import ações e a

crescent e import ância adquirida pelo Port o de Sant os como principal escoadouro da

produção, impulsionaram melhorias e ampliações das inst alações port uárias e

35

RUFINONI, 2004, p.31.

36

M ORSE, 1970, p.305.

37

(26)

26

est rut uras necessárias para que a manufat ura nacional pudesse se est abelecer.38

“ De modo específico, a região que da cidade de São Paulo se est ende at é Sorocaba, Campinas e M oji das Cruzes, veio a cont er os seguint es component es indust riais: 1) Uma rede de est radas de ferro e de rodagem com acesso, via São Paulo, ao porto de Sant os. 2) Um mercado acessível e populoso, gozando de vida superior ao da maior part e do Brasil. (...) 3) M at érias-primas. Exist em localment e as mat érias-primas para as indúst rias básicas como t ecidos, cerâmica, móveis, e aliment os. (...) 4) Capit al. Est e foi inicialment e um subproduto do surt o do café, depois complet ado pelas fort unas a princípio modest as e pelo alto senso de negócios de muit os imigrant es, principalment e it alianos, sírios e libaneses. 5) M ão-de-obra. Os europeus originalment e subvencionados para o t rabalho nas fazendas const it uíram o primeiro núcleo do pot encial de mão-de-obra.”39

Em 1900, Bandeira Júnior fez um levant ament o parcial das indúst rias da região

do Brás e imediações, em seu conhecido est udo sobre a indúst ria no est ado de São

Paulo, afirmando “ ele ser o único que m at em est abelecim ent os fabris em t odos os

ram os, sendo que alguns deles só aqui exist em (...)”40:

DENOM INAÇÃO ENDEREÇO DATA DE FUNDAÇÃO

Nº DE OPERÁRIOS

NACIONALIDADE PRODUÇÃO PROPRIETÁRIO

Grande Fábrica a Vapor de Águas M inerais e out ras

bebidas, Christ offel St upakof f

Rua Pirat ininga 1719

1871 100 Est rangeira August o Tolle

Fábrica de M assas Christ ofani

Rua M onsenhor Andrade 82

1878 10 Est rangeira 500kg/ dia João Christ ofani

Premiada Dest ilação It aliana

Rua Visconde de Parnaíba 146

1886 21 Est rangeira Luiz Trevisan & Irmãos

38

DEAN, Warren. A indust rialização de São Paulo (1880-1945). São Paulo, Rio de Janeiro, Difel, s/ d, p.14.

39

M ORSE, 1970, pp.300-301.

40

BANDEIRA JÚNIOR, A.F. A indúst ria no est ado de São Paulo em 1901. São Paulo, Tipografia do Diário Oficial, 1901 in Depart am ent o de Inform ação e Docum ent ação Art íst ica. Casa das Ret ortas, Brás espaço

(27)

27

M óveis Ir mãos Rafinet t e

Rua Pirat ininga 10, 12, 14

1888 50 Est rangeira Irmãos Rafinet t e Fábrica de Tecidos

“ Alvares Pent eado”

Rua Flórida 1889 950 Ant onio Alvares Pent eado

Companhia M ecânica Im p. de São

Paulo

Rua M onsenhor

Andrade

1890 600 Nac. e Est rangeiro 6.000 cont os réis A. Siciliano, F. Camargo, Cândido F. Lacerda Crist aleira Germânica

Av. Int endência (Celso Garcia)

1890 Est rangeira Conrado Sorgenicht &

Cia. Fábrica de Cerveja

Bavária

M ooca 1890 200

Fábrica de Carros Rua da M ooca 1891 Rodovalhos Fábrica de M assas

Alim. “ A Indust rial”

Rua do Gasôm et ro 33 e

35

1892 30.000/ ano José Pint o da Fonseca

Grande Fundição do Brás

Rua Correia de Andrade 14

1892 100 Est rangeira

Funilaria M ecânica

Rua Almirant e Wandenkolk 17

1893 20 Nac. e Est rangeira Odorico M ichele Fundição de Ferro

e Bronze

Rua M onsenhor Andrade 92

1895 100 Est rangeira Craig E. M art ins

A Suissa – Fábrica de Doces –

Vermout h

Rua Paula Souza 7

1895 30

Fábrica de Const ruções de

Ferro

Rua do Gasôm et ro 156

1895 Lenira M erat i

Fábrica a vapor de M assas Aliment ícias

Rua do Gasôm et ro

1896 Romali & Cia.

Fábrica de M assas Aliment ícias

Rua M iller 4 1896 90 Est rangeira 70.000 kg/ ano

Frat elli Secchi

Fábrica de M assas Picirrillo

Rua General Carneiro

1896 53.000

kg/ ano Fábrica de Pr egos

Ipirange

Rua M art im Buchard 11

1897 50 Nac. e Est rangeira 1.200 t on./ ano

Herman St ole & Cia. Fábrica a Vapor

de Tecidos

Belenzinho 1897 Est rangeira Alexandre Ranzini Fábrica de

M at erial Ant issépt ico

Av. Int endência 1900 Est rangeira Giacom o M at t ia

Fábrica a vapor de graxa para

calçados

Rua M art im Afonso

Alexandre Skm er

Regoli, Crespi & Cia.

M ooca 300 Est rangeira

Segundo Pasquale Pet rone, em t rabalho desenvolvido com base na obra de

Bandeira Júnior41, das aproximadament e 100 fábricas pesquisadas, muit as delas eram

pert encent es a est rangeiros, assim como os operários, que apresent avam um número

represent at ivo de imigrant es, cerca de 90% dos t rabalhadores.

41

PETRONE Pasquale, As indúst rias paulist anas e os fat ores de sua expansão. In: Bolet im Paulist a de

(28)

28

Como descreve Rufinoni em seu t rabalho, “ a dist ribuição espacial das indúst rias

em 1901, além de evidenciar o aum ent o de est abelecim ent os n o cent ro da cidade, apont a o avanço pelas t erras ao longo das ferrovias (...). os novos bairros formados nas proxim idades das ferrovias são escolhidos para abrigar a expansão da indúst ria: Brás M ooca e Belenzinho, na região Lest e; Bom Ret iro, barra Funda e Água Branca, para nort e e nordest e. Nest e m om ent o, port ant o, observam os o início da grande t ransform ação desses arredores em bairros m arcadament e indust riais e operários; ext ensas áreas ainda não urbanizadas com eçam a ser ocupadas dando prosseguim ent o a com part im ent ação das propriedades rurais que já se observava desde finais do século XIX.”42

No final do século XIX, a região do bairro do Brás já possuía caract eríst icas dos

bairros indust riais e operários, assim com o Bom Ret iro, Barra Funda e Ipiranga.43

A cidade de São Paulo se expandiu radialment e, em que as residências e

indúst rias se espalharam at ravés de uma ocupação desordenada do solo, deixando

diversas áreas sem aproveit ament o. O Brás, a lest e, com a Hospedaria de Imigrant es44

e as est ações de t rem, rapidament e se t ransformou em um bairro de pequeno

comércio, indúst rias e redut o do operariado. Temos t ambém a ausência de

regulament ações de zoneament o e a falt a de planejament o das linhas de t ransport e

visando às principais configurações de locomoção dos operários.

M esmo com a t ransformação de suas ant igas caract eríst icas, nenhum a

fisionomia bem definida se consolidou e muit as vezes sem a solução dos problemas

42

RUFINONI, 2004, p.35.

43

CARELLI, M ario. Carcamanos e Comendadores. São Paulo, Ed. Àtica, 1975, p. 35.

44

A Hospedaria dos Imigrant es abrigou grande part e dos im igrant es europeus recém chegados ao país. O rápido aum ent o da população deveu-se principalment e, devido à imigração, prim eiram ent e subvencionada pelo governo para at ender o t rabalho nas lavouras de café, em subst it uição ao t rabalho escravo, e depois atraída pelas possibilidades do novo m undo.

A cidade absorveu grande part e dessa m ão de obra, que pôde desenvolver ofícios que já t inham conheciment o em seu país de origem , com o: const rut ores, ferreiros, sapateiros, et c.

(29)

29

que se colocavam, t amanha rapidez com que se processava o cresciment o da cidade.

“ Começou ent ão uma fase de progresso mat erial incont rolado, sem coordenação e

sem planejament o.”45 Nasceram assim muit os bairros, ao acaso e sem plano de

conjunt o, frut o de especulações dos t errenos, o que conseqüent ement e, criou ou

agravou problemas de urbanismo, t ransport e e salubridade.

Era evident e o despreparo da cidade para t amanho cresciment o e assim, aos

t rabalhadores ou imigrant es pobres rest aram as áreas menos favorecidas, periféricas e

alagadiças.

Os chamados bairros ou vilas operárias eram periféricos ao cent ro e formaram

-se em áreas pouco valorizadas da cidade, como descrit o no próprio código sanit ário de

2/ 3/ 1894, que t rat a da higiene das habit ações e, mais t arde, a lei m unicipal 498, de

14/ 12/ 1900, onde dizem t ext ualment e que as vilas operárias deverão ser

est abelecidas fora da aglomeração urbana.46

“ Em 1912: “ Poucos são os indust riaes que se preocupam com o problema das habitações operárias. Desses mesmos nenhum o faz com int uit o humanit ário ou alt ruísta.” Fazia exceção a vila operária M aria Zélia, de Jorge St reet , onde se dist ribuíam anualment e lucros aos operários e se proporcionava inst rução obrigatória para seus filhos.”47

As vilas operárias est abeleceram -se assim, nos t errenos mais ingrat os, próximo

às baixadas dos rios Tiet ê e Tamanduat eí, principalment e nas primeiras décadas do

século XX. Eram dest inados às indúst rias e habit ações prolet árias e caract erizados,

principalment e, por uma população de im igrant es.

“ No Brás, a Fábrica Santana de Tecido e Aniagem, no início do século XX, já

45

BRUNO, 1954, p.912.

46

LEM OS, 1989, p.58.

47

(30)

30 cont ava com moradias para operários; há indicações de que em 1912, sob a

direção de Jorge St reet , sua vila operária t eria sido ampliada com a const rução de cem casas.”48

Os t errenos desse t ipo de lot eament o, próximos à várzea e a preços baixos, foram

t ambém ut ilizados para a const rução de modest as moradias, alugadas principalment e

para os operários das crescent es indúst rias na região. Como descreve Pasquale

Pet rone:

“ Dent ro de perímet ro urbano em zonas como o Brás, a M ooca e o Belenzinho quase sempre t érreas e sem nenhum jardim à frent e, geralment e geminadas (duas a duas, quat ro a quat ro), t odas mais ou menos iguais, de est ilo pobre ou indefinível. Est endem-se assim, em sua monot onia e em sai humildade, em filas int ermináveis, que chegam a ocupar quart eirões int eiros. No meio delas, porém, surgem de quando em vez a pesada e caract erística fachada de uma fábrica ou, ent ão, pequenas oficinas ou fabriquet as, Est as são muit o numerosas aparecendo inst aladas numa casa igual às demais em ant igas garagens, em barracões ou simples t elheiros, no fundo de quintais. Já as fábricas maiores se dest acam, quando não por suas chaminés, pelo menos pela grande ext ensão de suas fachadas e seu amplo port ão de ent rada.”49

Essas const ruções, para Gunn e Correia50, divergindo um pouco de Pet rone,

adot aram diferent es formas espaciais e diversos est ilos arquit et ônicos, que vão do

neoclássico ao moderno e t ambém eclét ico e neocolonial. E mesmo com a inst alação

de grandes indúst rias, a região nunca concent rou a riqueza nem recebeu moradores

que fizeram part e da elit e paulist ana; sempre abrigou uma população que era, em sua

48

GUNN; CORREIA, 2006, p. 147.

49

PETRONE, Pasquale. A cidade de São Paulo no século XX. Revist a de Hist ória, 1955 (ano VI), n.21-22.

50

GUNN, Philip; CORREIA, Telm a de Barros. Ascensão e Declínio de um modo de morar: Vilas Operárias e

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31

maioria, const it uída por operários das indúst rias da própria região.

As Indúst rias R. F. M at arazzo se dest acaram em t odo est ado pela ação na

criação de casas para seus funcionários. “ A const rução de habit ações para seus

operários foi uma prát ica cult ivada pela empresa por várias décadas.”51 As I.R.F.M .

possuíram várias vilas operárias, const ruídas ou adquiridas com o t empo e no Brás, a

empresa possuía uma vila na Rua Rodrigues dos Sant os e casas dest inadas a

funcionários da Tecelagem Brasileira de Seda e da Fábrica M ariângela52. At ualment e,

poucos núcleos fabris e vilas operárias ainda pert encem à fábrica de origem ou

preservam caract eríst icas relevant es, e o que podemos presenciar é o desmont e

crescent e desses conjunt os.

Os bairros que se desenvolveram nessa região do Brás e M ooca, presenciaram

a mudança crescent e da paisagem, uma mist ura de comércio, residências operárias,

armazéns e fábricas cort ados pela ferrovia. At ravés de uma descrição realizada por

Raul de Andrada e Silva, podemos vislumbrar a paisagem que seguia pelos t rilhos da

est rada de ferro Sant os-Jundiaí, em seu t rabalho publicado em 1941:

“ O viajant e que part e de S. Paulo no rumo de Sant os, pela “ São Paulo Railw ay” , observa em ambos os lados da est rada de ferro aspect os de vida indust rial já muit o desenvolvida. À direit a e à esquerda sucedem-se os grandes armazéns e depósit os, erguem-se muros de fábricas junt o ao limit e da linha férrea, e quando a perspect iva se amplia percebem-se ao longe os vultos das chaminés dos bairros indust riais: Braz, M ooca, Ipiranga. Além da est ação dest e nome, vai desaparecendo o panorama indust rial, subst it uído por ext ensão de t errenos ainda vazios, à espera de ocupação. Vêem-se

51

GUNN; CORREIA, 2006, p. 149.

52

Segundo Blay, há registros de um a creche criada pela I.R.F.M ., na Rua Flórida, junt o à Fábrica M ariângela, e de post os de abast eciment o que vendiam aliment os e produt os produzidos principalment e pelas próprias fábricas M at arazzo.

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32 apenas, manchas mais ou menos afast adas e casas isoladas ou em grupos

reduzidos, localizados nos bairros ext remos da Capit al.”53

Imagem 01: Brás do início do séc. XX: fábricas e casas m ist uram-se, criando um a paisagem , paralelam ent e suburbana e indust rial, da m etrópole paulist ana.

Font e: Divisão Iconográfica/ PM SP - CUT

Imagem 02: Vist a panorâm ica do Brás s.d. Fot o: Arquivo Edgard Leuenroth

Font e: Depart ament o de Infor mação e Document ação Art íst ica. Casa das Ret ort as, Brás espaço e uso. São Paulo, Idart , 1980.

As at ividades financeiras, no fim do século XIX e início do XX, passaram por

diversas crises. A febre de especulação foi t ambém uma das responsáveis pela crise do

café no início do século XX.

“ Em 1905 exist ia um excesso de 11 milhões de sacas, ou 70% do consumo mundial anual (...) os fazendeiros, at ingidos pela queda dos preços e endividados com a manut enção de empreendimentos demasiado vast os, com o t rabalho assalariado e com seu est ilo de vida mais pródigo, perderam a segurança.”54

De acordo com M orse, a condição principal da indúst ria paulist ana é de t er

surgido recent ement e num país agrícola e pouco desenvolvido, em grande part e como

reação a fat ores ext ernos e int ernacionais.

A part ir de 1900, not ou-se um im pulso fabril, criando-se novas indúst rias e

53

SILVA, Raul de Andrada e. A Cidade de Santo André e Sua Função Indust rial, in Revist a do Arquivo M unicipal, volum e 79, 1941, p.211.

54

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33

modernizando-se diversas out ras. As crises e guerras int ernacionais est imularam o

processo de indust rialização do país, sobret udo na cidade de São Paulo. Com a

Primeira Grande Guerra e somada a ela a inst alação de sist emas de energia elét rica, a

indúst ria em São Paulo t em um grande impulso, o que t ambém provocou uma grande

expansão da cidade, quando novas indúst rias, bairros e lot eament os são criados. Foi

t ambém a Primeira Grande Guerra que cont ribuiu para firmar a função indust rial como

caract eríst ica de alguns subúrbios paulist anos.

O início do século XX marcou São Paulo com rápidas mudanças, sem cont ar

com os benefícios de um planejament o em longo prazo e cujo governo não orient ava

seu cresciment o. De acordo com Langenbuch, ent re 1915 e 1940, “ os arredor es

paulist anos são sujeit os a uma série de processos evolut ivos, alguns dos quais já se

manifest avam no período ant erior e que agora ganham corpo e se consolidam ; out ros

agora se inst it uem. É nest e período que se inicia a verdadeira met ropolização.”55

As áreas na faixa de várzeas e t erraços fluviais, margeados pela ferrovia,

cont inuaram a const it uir a área mais procurada pelos est abeleciment os comerciais,

que queriam t er sua sede na capit al de São Paulo. Ant eriorment e, at raídos pelas

est ações ferroviárias, agora ocupam int ensament e t ambém, os t rechos int ermediários,

que além das indúst rias, grandes armazéns ou galpões t ambém opt aram por essas

áreas.

Em 1920, a população da cidade alcançava quinhent os e set ent a e nove mil e

t rint a e t rês habit ant es, e começava a se t ransformar em met rópole56 e o aument o da

produção indust rial alcançou cifra que quase se equiparavam à produção agrícola57. O

cresciment o da cidade, em menos de 50 anos, const it uiu um import ant e fenômeno e

det erminou uma expansão do espaço urbano sobre as áreas rurais cont íguas, que

passaram a int egrar a cidade. De acordo com Richard M orse, a rapidez com que a

55

LANGENBUCH, 1971, p.131.

56

M ORSE, 1970, p. 238.

57

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Referências