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Crime e ideologia: do Terceiro Reich ao assassinato de Moisés.

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Academic year: 2017

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RES UMO:Objetiva-se considerar em quais condições o hom icídio se torna m oralm ente aceitável com o form a de restauração social. Ade-m ais, trata do funcionaAde-m ento de certos grupos que legitiAde-m aAde-m o Ade-m al e o crim e. Para tanto, recorre-se ao m odelo fornecido pelo nazism o. A Alem anha de Hitler estabeleceu novos laços sociais, possibilitando a legitim ação de um a lei de gozo. Considera-se, aqui, o nazism o,

sobretudo, com o instr um ento para um a leitura do Moisés e o

monoteís-mo. O texto freudiano aborda a origem do judaísm o, articulando as

noções de “estrangeiro” e “assassinato”. Freud evidencia, então, que os ideais, o que há de m ais nobre em nós, tam bém em puxam ao crim e.

Palavras - chave : Psicanálise, ideal, grupo, crim e, m al.

ABSTRACT: Crim e and ideology: from the Third Reich to the m ur-der of Moses. This article refers to the conditions that m ake hom i-cide m orally acceptable as an instrum ent for social restoration. It also considers the way certain groups that legitim ate evil and crim e work. In order to reach these goals, it resorts to the m odel that Na-zism provides. The Hitler Adm inistration in Germ any created new social ties that perm itted to legitim ate a Law of enjoym ent. However, in this article Nazism is essentially a m eans to draw a particular

ap-proach to Moses and Monotheism, by Freud. The Freudian text articulates

the notions of “foreigner” and “m urder” to deal w ith the origins of Judaism . Then, Freud evidences that ideals, the noblest objectives we have, favor crim e.

Ke y w ords : Psychoanalysis, ideal, group, crim e, evil. Doutora em teoria

psicanalítica pelo Program a de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro; desenvolve atividade de pós-doutoram ento no m esm o Program a Ve rôn ica Ma rtin e lli

*Agradeço a Sérgio Paulo Benevides pela revisão do texto e a Anna

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questão do m al no século XX adquiriu, nos cam pos de exterm ínio nazistas, a face do horror. O Terceiro Reich se transform ou num m arco do declínio m oral. No entanto, “a m aioria das tentativas de afirm ar um tipo de assassinato em m assa com o pior do que os dem ais é m otivada por preocupações políticas” ( NEIMAN, 2003, p.272) . Apresentar o Holocausto com o o terror único e m aior pode servir, por exem plo, para assegurar que qualquer coisa diferente de colocar crianças em câm aras de gás seja relativam ente benigna. A dificuldade para gra-duar atrocidades deriva da falta de um instrum ento capaz de m edir o sofrim ento e a m aldade.

Contudo, o Terceiro Reich evidencia aspectos relevantes sobre o m al e o cri-m e, articulando o problecri-m a à noção de ideologia e à forcri-m ação dos grupos. Por isso, será o in str u m en to para a an álise de u m dever m oralm en te per vertido. O Holocausto m ostra as condições nas quais faz sentido recuperar a questão recusada por Lacan ( 1963/ 1998, p.780) a respeito de Sade: “Não perguntare-m os se é necessário neperguntare-m suficiente uperguntare-m a sociedade sancionar uperguntare-m direito ao gozo, perm itindo a todos valer-se dele, para que a partir daí sua m áxim a pretexte o im perativo da lei m oral.” Para alcançar nosso intuito, recorrerem os ao trabalho de Hannah Arendt. Obviam ente, não pretendem os um a discussão exaustiva do tem a. Vam os considerar apenas alguns elem entos centrais para o debate a que nos propom os.

Segundo Arendt ( 2000) , um dos pré-requisitos para que se estabeleça um Estado totalitário é o desenraizam ento das m assas. A ideologia de tal form a de Estado ganha força nos m om entos históricos nos quais tanto as posições quanto as funções das nações e dos sujeitos já não encontram um a ilusão de garantia no Outro. Num cenário com o esse, onde havia desestruturação e insegurança, os judeus transform aram -se em catalisadores da intranqüilidade — até “a socieda-de socieda-desintegrada recristalizar-se isocieda-deologicam ente em torno socieda-de um possível m as-sacre” ( ARENDT, 2000, p. 75) .

O crim e parece, à prim eira vista, essencialm ente desagregador. Freud, entre-tanto, percebeu a capacidade do hom icídio para construir, ao seu redor, a frater-nidade. Tal idéia foi expressa em Totem e tabu ( FREUD, 1913/ 1996) . Afinal, a ir-m andade originária resultou de uir-m acordo para viabilizar o assassinato do Pai prim evo. Partindo desse ponto, a cultura se estabilizou sobre a m arca da m orte, perpetuada por m eio da identificação com o Tirano destituído. Em bora a escolha do hom icídio com o m aneira de restauração social não seja surpreendente, pode-m os nos perguntar epode-m que condições ela se tornou pode-m oralpode-m ente aceitável.

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onipo-tência se justifica, pois os funcionários não são apenas designados, encarnam o desejo do Chefe — fonte de qualquer ordem .

A função do Líder totalitário, e de sua Lei, é servir de ponto de articulação para o lugar de cada pessoa num a organização orientada por determ inada ideo-logia. Segundo a estrutura apresentada por Freud em “A psicologia de grupo e a análise do ego” ( 1921/ 1996) , tal m ecanism o perm anece sim ilar ao dos dem ais grupos. No entanto, em geral, um hom em transm ite o Mandam ento, em vez de se espelhar nele. Além disso, Hitler pretendeu fundar um a nova sociedade apoia-da num Im perativo siderante: façam do outro a coisa disponível para qualquer ato livre de pudor e culpa.

Exem plarm ente, Eichm ann, em seu julgam ento em Jerusalém , declarou que seus atos eram crim es apenas do ponto de vista retrospectivo. Fora um inabalável respeitador das leis, pois as ordens assassinas de Hitler “possuíam força de lei no Terceiro Reich” ( ARENDT, 2001, p.35) . Então, o acusado só cum pria suas obri-gações. Tal questão surgiu no interrogatório, quando ele asseverou ter vivido de acordo com o preceito m oral kantiano: “Quis dizer que o princípio de m inha vontade deve ser sem pre tal que possa se transform ar no princípio de leis gerais” ( ARENDT, 2001, p.153) . A fala de Eichm ann provoca estranheza porque a filoso-fia m oral de Kant está ligada à faculdade do juízo, elim inando a obediência cega. Todavia o nazism o distorceu o Mandam ento ético para: “Aja com o se o princípio de suas ações fosse o m esm o do legislador ou da legislação local. [ ...] O Im pera-tivo categórico do Terceiro Reich: aja de m odo que o Führer, se souber da sua ação, a aprove” ( ARENDT, 2001, p.153) .

Segundo Kant, todo hom em legisla ao agir, e a fonte da Lei é a razão prática. Para Eichm ann, tal fonte era o desejo do Führer. Entretanto, o acusado ultrapassou a sim ples obediência, identificou sua vontade com a de Hitler e fez do Manda-m ento algo suficienteManda-m ente absoluto para não coManda-m portar exceções. Por isso, ficou constrangido ao confessar o pecado com etido ao condescender com suas obrigações para ajudar um prim o m eio-judeu, evitando um assassinato. A ques-tão incôm oda era perceber com o fora não um fanatism o hom icida, m as a cons-ciência escrupulosa a responsável pela atitude de Eichm ann perante suas tarefas na execução da Solução Final: “Na apologia do crim e [ ...] o Ser suprem o é res-taurado no Malefício” ( LACAN, 1963/ 1998, p. 802) . Então, o Terceiro Reich nos m ostra que não basta um Im perativo buscado com o um dever, para a assunção do sujeito faltoso e capaz de assum ir o desejo com o se fosse seu.

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costum es e às leis existentes. [ ...] A psicanálise afirm a que sua grande determ ina-ção é a concepina-ção de responsabilidade recebida pelo sujeito da cultura em que vive” ( LACAN, 1950/ 2003, p.130) .

Eichm ann, de certo m odo, notou com o o próprio Mandam ento o transfor-m ou nutransfor-m facínora. Na transfor-m aior parte dos países, a voz da consciência dita “não m atarás”, m esm o que o desejo de alguns seja assassino. Na terra de Hitler, o dever era “m atarás”, em bora o hom icida pudesse ter anseios m ais nobres. Dessa m aneira, no Terceiro Reich o m al perdeu a qualidade pela qual m uitos o reco-nhecem : a tentação. Vários nazistas provavelm ente se sentiram tentados a renegar o papel de cúm plices da carnificina, porém aprenderam a resistir ( ARENDT, 2001) . A Lei totalitária estava intrinsecam ente articulada a um discurso ideológico. Esse discurso arrum ava os fatos sob a form a de um processo absolutam ente lógi-co, que se inicia com um a prem issa aceita axiom aticam ente, tudo sendo deduzi-do dela. Age-se, então, “com um a coerência inexistente no terreno da realidade” ( ARENDT, 2000, p.523) . Graças ao pavor da contradição, tal m ecanism o foi irresistível, subjugou a m uitos inteiram ente. Assim , quem concordasse que o direito de viver tinha relação com a raça, concluiria sobre a necessidade de m atar os povos ditos inferiores.

O discurso ideológico pressupõe a suficiência de um a idéia para gerar um a com preensão coerente e abrangente do m undo. Logo, contém em si elem entos totalitários prontos para se m anifestar, para revelar sua estrutura, através de um a ação totalitária. Eichm ann se descrevia com o um hom em capaz de viver para um ideal, sacrificando qualquer coisa em seu favor. Para salientar essa perfeita devo-ção, disse que m ataria o próprio pai se isso lhe fosse exigido. Em outras palavras, ser idealista não significa deixar de vender a alm a ao diabo; significa som ente a possibilidade de um a venda absoluta.

Apesar de desafiar as leis positivas, a ideologia nazista não é arbitrária, pois obedece a um suposto princípio natural e histórico que estaria na base de todos os im perativos.1 O regim e totalitário alegou recorrer à fonte das leis, de onde receberia sua legitim idade. Assim , o Führer sacrificou interesses vitais e im ediatos à execução de um preceito prim ordial, esperando, dessa form a, engendrar a hu-m anidade ideal cohu-m o produto derradeiro. Portanto, ehu-m bora Hitler exercesse o poder, perm aneceu subm etido à lógica do Mandam ento a ele identificado.

As leis positivas são m utáveis. Entretanto, se com paradas à transform ação cons-tante das ações, indicam estabilidade. Porém , no totalitarism o, o Im perativo

dei-1 Legitim ar a prática legislativa de um governo apoiando-a em um term o pretensam ente

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xa de ter tal caráter estabilizador, porqu e se iden tifica ao própr io m ovim en to. A história, assim ilada à natureza, progrediria infinitam ente. Então, a idéia de sobrevivência dos m ais aptos — apoiada sobre a noção darw inista de evolução — foi usada pelos racistas: o exterm ínio seria necessário para se atingir um estágio superior.

Com o esse m ovim ento de superação seria intrínseco à natureza histórica, não pode ter fim . Se os nazistas conseguissem elim inar tudo o que fosse nocivo e indigno da vida, exterm inariam tam bém a lógica do suposto Im perativo prim or-dial: é preciso perpetuar a m orte com o form a de garantir o poder. Por isso, no Terceiro Reich, o terror — destinado a converter em realidade o ideal da história — tom a o lugar das leis positivas. O crim e não significa sim plesm ente o m eio para oprim ir a oposição; representa a essência de um Estado que nega a perm a-nência e se afirm a pela transform ação.

Em tal regim e, os culpados são os entraves ao cam inho do progresso, que já em itiu sua sentença a respeito das raças. No julgam ento da história, todos os dem ais atores seriam inocentes: os m ortos não agrediram o sistem a; os assassi-nos, por outro lado, só executam o m andado de um tribunal superior.

Assim , o horror im plica um a sociedade criada a partir do Mandam ento da m udança. Para produzir tal m odelo, precisa-se expulsar da realidade justam ente o elem ento responsável, segundo Freud, por fundá-la: a perda, presente com o um a ausência sem pre m esm a. Esse term o originário alicerça a dim ensão histó-rica e, sim ultaneam ente, está excluído dela. No entanto, o projeto ideal nazista é tão m oralm ente contundente quanto irrealizável. O perm anente retorna através de um a negação, pois o próprio m ovim ento deve insistir infindavelm ente na busca da com unidade alm ejada.

Então, no nazism o, o crim e se escreve com o execução de um Im perativo absoluto cujo fim últim o não indica o bem com um , nem o interesse individual, m as a fabricação do m undo ideal através da elim inação do sujeito em favor da transform ação evolutiva da espécie. Prom ete-se libertar o dever do desejo — fazendo da hum anidade a encarnação de um a Lei que, supostam ente, não pro-duz falta algum a. Há, dessa form a, a queda de qualquer valor singular, em prol da unificação — da ilusão de m ilhares serem um . Em vez de diversas pessoas, existe um a espécie.

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Outra característica do m ovim ento era que os nazistas não se detinham pe-rante a prova de realidade. Logo, Hitler conseguiu desprezar a m iséria presente e local em favor de um a ilusão paradisíaca a se concretizar num futuro indefinido e distante. Dessa m aneira, coloca-se a im agem de um destino pleno sobre a au-sência inassim ilável e im óvel — o objeto perdido assim com o o Pai m orto — que, segundo Freud, funda a história do sujeito e da cultura: o porvir destitui a origem . A realidade construída por m eio de tal m ecanism o tem certa sim ilarida-de com o ilarida-delírio. Por isso o assom bro e a falta ilarida-de reconhecim ento das ilarida-dem ais nações ao olhar para a Alem anha do Terceiro Reich.

O nazism o cai no abism o entre a realidade, socialm ente legitim ada, e os ide-ais que exigem sua transform ação. A ideologia, m esm o pervertida, contém efeti-vam ente um protesto contra a existência atual, pois introduz m odelos na cultura e, então, reclam a a perfeição em nom e deles. Seu m étodo é inscrever, através de um a ficção, um significado novo para a vida, ao desvincular o hom em dos signi-ficantes produtores das referências antes com partilhadas. O séqüito do Führercriou, por exem plo, “regras de linguagem ” que não deixavam as pessoas ignorantes quanto a seus atos, porém as im pediam de equacioná-los com suas antigas no-ções de m entira e crim e. No lugar do velho m undo, constrói-se outro, escondido sob o presente e capaz de dom iná-lo.

Segundo Arendt ( 2000) , o projeto totalitário atua na esfera onde se anuncia: “tudo é possível”. Os cam pos de exterm ínio foram os laboratórios destinados a dem onstrar tal crença. Entretanto, apenas se afastando de um a realidade estabele-cida, alguém consegue afirm ar algo assim . Esse princípio representa um a das m aiores rupturas do Terceiro Reich com o resto da hum anidade, porque quase sem pre recuam os perante determ inadas fronteiras e recebem os com horror o gozo m onstruoso produzido pela pretensão de subjugar o im possível. Os parti-dários de Hitler, dispostos a desconhecer qualquer barreira em nom e de um a Lei total, só podem despertar o pavor bestial. Nós os vem os com o Lázaro ressuscitado. Para os nazistas se afastarem de seus valores tradicionais, foi preciso destruir os claudicantes laços sociais preexistentes e substituí-los por um a nova organiza-ção. O grupo reinventado objetivava garantir a verdade da ideologia que suposta-m ente coloca as coisas onde deveriasuposta-m estar ao exigir a igualdade entre a realida-de e os m orealida-delos.

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Estados, o Holocausto foi devastador. Na Rom ênia, por exem plo, até a SS ficou perplexa com os horrores provocados pela população. Os nazistas chegaram a in-tervir para salvar judeus da barbárie, em favor de um assassinato “civilizado”.

Por outro lado, na Dinam arca, não som ente os habitantes do local se negaram a participar do program a de exterm ínio, com o os próprios m em bros da SS des-locados para o país m udaram de posição. Assim , inclusive hom ens da elite da Gestapo — envolvidos antes na efetivação da Solução Final em nações diferentes — passaram a se recusar a atender as ordens do Führer. Tal exem plo evidencia que o jogo de identificações e ideais constrói e determ ina o sujeito. Quando se viram num a cultura em que o crim e continuava ilegítim o, nazistas recuperaram pa-drões m orais tradicionais — o “não m atarás” converteu-se, novam ente, num a Lei vigente e num a força oposta ao Im perativo hom icida.

Antes de encerrarm os esta rápida apresentação das características do Terceiro Reich, resta-nos fazer algum as considerações sobre o lugar ocupado pelos judeus na sociedade européia. Desde o início, os anti-sem itas da Alem anha de Hitler assu m iram u m discu rso su pran acion al. Visavam a u m govern o in tereu ropeu . O fato de o “povo eleito” constituir, num continente dividido em países, o ele-m ento aléele-m das fronteiras indicava a íntiele-m a relação entre a sua condição e a ideologia nazista. Unificando as nações através de um projeto racista, pretendia-se elim inar os pretensos m anipuladores do destino dos Estados, apoderando-pretendia-se de seus segredos e arm as ( ARENDT, 2000) .

Ainda que os judeus habitassem a Europa há vários séculos, nunca deixaram de representar um a “nação dentro de outra nação” ( ARENDT, 2000, p.54) . Tratava-se de um grupo sem governo próprio, sem terra, disperso pelos Estados, estranho e estrangeiro em toda parte. Para um m ovim ento com a pretensão de elim inar qual-quer diferença em favor de um a raça internacional unificada, o “povo eleito” encarnava o alvo, não exclusivo, m as privilegiado: o visitante indesejável comum aos países do velho continente. Essa posição das vítim as era tão im portante que, em geral, os judeus oficialm ente estrangeiros foram os prim eiros a serem perseguidos. Adem ais, m uito freqüentem ente, o exterm ínio era precedido por m edidas legais para transform ar em apátridas os futuros objetos do sacrifício.

Assim , o Holocausto estava relacionado à noção de estrangeiro. Porém , curio-sam ente, a discrim inação tam bém foi potencializada pelo crescim ento das idéias igualitárias — dissem inadas desde a Revolução Francesa. Afinal, a afirm ação da igualdade dos hom ens converteu as diversidades em paradoxo.

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( ARENDT, 2000, p.104) . A im agem incom um vinculada ao “ povo eleito” aju-dou a tem perar o racism o com o fanatism o capaz de conduzir as m assas na direção dos hom icídios. Quando prom ulgaram as leis anti-sem itas, foi com o se os nazistas expurgassem o m undo de um a depravação, um estigm a podero-so pelo qual cidadãos decentes haviam sentido grande atração: “ a podero-sociedade [ ...] estaria agora pronta a purificar-se do m al, reconhecendo abertam ente os cr im in osos para pu blicam en te com eter os cr im es” ( ARENDT, 2 0 0 0 , p.1 1 0 ) . O curioso é que encontram os a m aior proporção de assassinos nos grupos antes íntim os dos judeus — aqueles que avidam ente desejaram o desigual pro-curaram com pertinácia excluí-lo.

O nazism o foi um m om ento particular do século XX que evidenciou as difi-culdades e os im passes da apreensão m oral. O extrem o da crueldade e a presença excessiva da m orte fazem toda busca de sentido parecer perigosa e inútil. Não existe um a significação pertinente para o horror desm edido. Porém , com o apre-ender, a partir dos conceitos da psicanálise, o funcionam ento de determ inados grupos que legitim am o m al e o crim e?

O Sim bólico perm ite o laço social através de um a Lei ao m esm o tem po interditora e gozosa. No Terceiro Reich, o caráter proibitivo do Im perativo se m anteve sob a form a de obediência incondicional ao desejo do Líder hum ano e pretensam ente onipotente, estabelecendo-se, assim , um vínculo orientado pela m assiva assim ilação da palavra do Chefe. Contudo, o Mandam ento da sociedade nazista era governado pelo gozo. Até a interdição guiava o sujeito em sua direção. Quando o significante se estrutura de m aneira a exacerbar a incidência do Real, o Im aginário tam bém se torna desm edido; por isso, no Terceiro Reich a identifi-cação dos integrantes do grupo está m arcada pela ilusão de um a radical unifica-ção dos sujeitos m utuam ente refletidos. Afinal, se a Lei já não cum pre seu papel de contenção, im põe-se ainda m ais a necessidade de tam ponar o im possível. Tal enodam ento do Sim bólico com o Im aginário, dom inado pelo gozo, assum e fei-ções diversas ao longo da história. Todavia, é um a ocorrência tão antiga quanto a vocação do m al e do crim e para se transform arem em núcleo de um a ideologia capaz de apoiar um m odo de laço social totalizante e, logo, excessivo, que desti-tui as barreiras construídas pela m oral tradicional e pelas leis reconhecidas pela com unidade de Estados.

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sujei-tos há m uito se unem ao redor da violência — em bora seja diferente idealizar a vítim a ou o assassino.

No entanto, com o foi dito, o nazism o constitui um fenôm eno privilegiado para apresentarm os certos aspectos do m al articulado à estrutura de um gr upo. O Terceiro Reich, obviam ente, não nos m ostra todos os ângulos da questão. Mas alguns dilem as m orais — dos quais falarem os agora — foram especialm ente prem entes nesse caso.

O prim eiro problem a diz respeito à produção do m al com o efeito de um a engrenagem na qual as pessoas funcionam com o peças de um a m áquina m ortal. Todas as instituições públicas da Alem anha, pelo m enos durante os anos de guer-ra, estavam envolvidas em ações crim inosas. Tal absorção da burocracia por de-sígnios assassinos justifica a expressão escolhida por Arendt ( 2001, p.311) para se referir à Solução Final: “m assacre adm inistrativo”.

Essa estrutura estatal sofria de um curioso am orfism o. As organizações eram incessantem ente m ultiplicadas e o poder transladado sem interrupções. As cons-tantes m udanças atingiam os departam entos, m as tam bém as pessoas. Existia um a infindável transferência de postos e desestim ulava-se o contato duradouro entre integrantes do partido: “O isolam ento de indivíduos atom izados constitui a base para o dom ínio totalitário” ( ARENDT, 2000, p.457) . Dessa form a, a ilusó-ria unificação do m ovim ento se apoiava na im possibilidade de cada sujeito defi-nir seu lugar particular. Com o quase ninguém sabia exatam ente qual era sua posição, sua m issão e o valor de seus atos na m áquina, dissem inava-se a cum pli-cidade pela população e, ao m esm o tem po, diluía-se a responsabilidade. Assim , na m áquina de hom icídios o crim inoso transform a hom ens em cadáveres nu-m erados, porénu-m ele próprio está ausente.

Um a curiosa im agem da destituição do sujeito, produzida no exercício de certa função, é fornecida por Herm an Melville ( 1986) num a pequena novela intituladaBartleby, o escriturário. O livro narra a história de um rapaz contratado por um advogado. A princípio, o novo funcionário cum pria sua tarefa incansavel-m ente. No entanto, depois de alguincansavel-m teincansavel-m po, coincansavel-m eçou a se negar a prestar uincansavel-m a série de serviços, até que, por fim , nada realizava. Ficava, então, longas horas atrás de seu biom bo, calado, olhando pela janela, para a cinzenta parede fronteiriça. Era um a perpétua alm a penada, cercada por um a indiferença cadavérica. Nessa insólita situação, o patrão afirm ou: “Tivesse sentido qualquer coisa de norm al-m ente hual-m ana eal-m Bartleby, que seal-m dúvida o teria escorraçado do al-m eu escritó-rio. Porém em tais circunstâncias, m ais depressa pensaria em atirar pela porta o m eu busto de Cícero em gesso branco” ( MELVILLLE, 1986, p.33) .

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dificuldades práticas geradas por aquela insólita presença, o patrão retirou-se — vendeu a propriedade. O funcionário “ali ficou, o im óvel ocupante na sala vazia” ( MELVILLE, 1986, p.83) . Entretanto, o novo dono, para livrar-se do incôm odo e estranho ser, cham ou a polícia. Bartleby m orreu na cadeia, olhando para um a parede cinzenta.

Alguns m eses após a m orte, o advogado conseguiu um a vaga inform ação sobre seu antigo escriturário. Ele teria exercido um cargo subalterno na seção de cartas extraviadas, de onde fora dispensado de repente, por causa de um a refor-m a adrefor-m inistrativa:

“Concebam um hom em propenso a um a pálida desesperança: haverá m elhor

ativida-de para ativida-desesperá-lo do que o contínuo m anuseio ativida-dessas cartas extraviadas, m ortas, e

com elas alim entar o fogo? Porque são queim adas todos os anos, às carradas. Por

vezes, dentre as folhas dobradas de um a carta, o pálido escriturário retirava um anel

— o dedo ao qual estivera destinado estava talvez apodrecendo no túm ulo; um a nota

de banco retirada rem etida com solícita caridade — e aquele a quem se destinava a

socorrer já não com e, já nem tem m ais fom e [ ...] . Nas m ensagens da vida, tais cartas

apressam a m orte.” ( MELVILLE, 1986, p.100)

Bartleby carecia de desejo. O rapaz é a peça do escritório. Parado diante da janela, ele perturba por sua perversa ausência perm anentem ente presente. Vivendo m aquinicam ente, desconhecia sua m issão na sala fria que, no entanto, abarcava sua vida de form a total. O funcionário associado à m orte, ao cadavérico, assom bra.

No Sem inário sobre “A cart a roubada”, Lacan u sa o co n to d e Ed gar Allan Po e. O estatuto do “verdadeiro sujeito” da história, a carta, é plural. Todavia, vou pensá-la com o o “significante”. Boa parte do artigo de Lacan ( 1956/ 1998) de-dica-se a evidenciar a suprem acia desse elem ento na estrutura da narrativa. Ao longo das cenas, conform e a m issiva se desloca, os personagens tam bém ocupam diferentes lugares. Enquanto se m ovem , vão se m odificando suas visões, suas falas... Essa translação enfatiza com o nenhum dos atores preexiste a suas posi-ções. Eles estão lá pela força do percurso de um a carta que os com anda: “o des-locam ento do significante determ ina os sujeitos em seus atos, seu destino, suas recusas, suas cegueiras, seu sucesso e sua sorte” ( LACAN, 1956/ 1998, p. 34) .

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O segundo dilem a m oral evidenciado por m eio do Holocausto indica os im -passes da idéia de intenção. Com o dissem os antes, a engrenagem chefiada por Hitler dissem inou a cum plicidade, m inim izando a incidência da culpa. Porém , para produzir esse efeito, precisou diluir a força da noção de intenção. Dessa m aneira, de acordo com a ideologia nazista, os carrascos representavam apenas objetos a serviço das onipotentes leis naturais. Por isso “em vez de dizer ‘Que coisas horríveis eu fiz!’, os assassinos podiam dizer ‘Que coisas horríveis tive de ver na execução de m eus deveres!’” ( ARENDT, 2001, p.122) . Então, o governo do Führer levou as pessoas a abdicar de suas objeções m orais por acreditarem que ações m ás exigem m á vontade. Afinal, os crim es do regim e do qual participavam justificavam -se por m otivos supostam ente aceitáveis. A eficácia de tal m étodo m ostra com o o sentim ento de culpa constitui um critério pouco confiável para avaliar problem as éticos.

Eichm ann, por exem plo, declarou até gostar dos judeus. Todavia, enquanto ajudava a efetuar a Solução Final, “só ficava com a consciência pesada quando descum pria suas ordens — em barcar m ilhões de hom ens, m ulheres e crianças para a m orte, com grande aplicação e o m ais m eticuloso cuidado” ( ARENDT, 2001, p.37) . Os arautos do horror foram salvos da culpa pela subm issão à Lei do gozo. Tal destruição dos preceitos m orais e legais instituiu a eficácia m aléfica do Holocausto.

A psicanálise nunca se orientou pelo conceito de intenção. Na m edida que considera o inconsciente, sua questão aponta para um a direção diferente. Se lem -brarm os a tragédia de Édipo — m odelar no quadro da teoria freudiana — vere-m os uvere-m hovere-m evere-m cujos esforços se exauriravere-m na tentativa de evitar seu destino. Assim , o crim e por ele com etido não foi deliberado. A vontade repudiava o orá-culo. No entanto, ao contrário de Eichm ann, a personagem de Sófocles fica soter-rada pela culpa, preço pago pela realização de um desejo inacessível e inaudito. Justam ente por indicarm os o m al além do duvidoso jogo das intenções, pode-m os reafirpode-m ar, epode-m outro nível, a exigência de responsabilidade: “Porque a verda-de buscada pela psicanálise é a verdaverda-de verda-de um sujeito, ela tem que m anter a idéia de responsabilidade” ( LACAN, 1950/ 2003, p.131) . Afinal, adem ais de serm os efeitos da linguagem , nós a produzim os. Os im perativos não são unicam ente entidades lógicas, são dizeres constantem ente atualizados. Cada sujeito, desejante e dividido, ao afirm ar a legislação vigente em sua cultura, dem arca sua posição e sim ultaneam ente reinstaura o princípio regulador de certo grupo. Dessa form a, a responsabilidade indica que o poder de um preceito im plica sua enunciação.

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deslize na execução do dever identificado à vontade do Líder. Então, a culpa se torna pouco confiável com o critério para julgam entos m orais, pois não está vin-culada ao Bem , m as à contraditória Lei paterna: “goza!” e “jam ais podes gozar!”. Por isso, Freud ( 1930/ 1996) insistia na incidência desm edida, injusta da culpa — capaz de, às vezes, assolar os santos e se desviar dos hom icidas. Logo, num a m áquina regida pelo Im perativo do gozo, carrascos cum prem a penitência por algum a eventual piedade.

O últim o dilem a m oral que discutirem os, a partir dos eventos ocorridos du-rante o Terceiro Reich, é a banalidade do m al. Seria côm odo descrever os nazistas com o m onstros terríveis. Eichm ann, entretanto, nos revela algo diferente. Ele não era especialm ente sádico ou violento, e sim um a pessoa assustadoram ente vulgar. Com o dissem os, m uitos hom ens responsáveis pela Solução Final com ete-ram seus crim es por estarem num am biente onde foi possível esquecer a distin-ção entre o certo e o errado — em outras circunstâncias, talvez não entrassem para a história com o hom icidas: “Se isso é banal e até engraçado, se nem com a m aior boa vontade se extrai qualquer profundidade diabólica ou dem oníaca de Eichm ann, isso está longe de ser lugar-com um ” ( ARENDT, 2001, p.311) . Real-m ente, nada há de coReal-muReal-m eReal-m jogar seres huReal-m anos nos fornos. O nazisReal-m o nos m ostrou com o um evento excepcional conseguiu conduzir ao extrem o da m al-dade: sua banalização.

Esse projeto cultural celerado não teria atingido tam anha proporção no Ter-ceiro Reich, se estivesse restrito a um núm ero lim itado de m ilitantes do partido nazista. No entanto, a desvalorização da vida alcançou a m aioria da população alem ã. A banalidade do m al em ergiu do tecido social cotidiano. Arendt ( 2001) nos fornece com o exem plo a história de um m édico perseguido por certa m u-lher decidida a tratar de um a veia varicosa. Tentaram convencer a senhora de que o im portante, naquele m om ento, seria fugir, porque os russos estavam prestes a invadir a região. Todavia, a enferm a respondeu sem se alterar: “Nunca vão nos pegar. O Führer nunca vai perm itir. Antes disso nos põem na câm ara de gás” ( ARENDT, 2001, p.127) . O m édico olhou em volta, porém ninguém parecia achar a declaração anorm al. Esse aspecto banal, indiferente, transform a o gozo em horror. Lacan ( 1963/ 1998) apontou o problem a ao im aginar a vítim a de algum carrasco criado por Sade reagindo assim à tortura: observa sua perna e diz, calm a-m ente, “Tu a quebraste”. Tal a-m iséria assusta a-m ais do que o próprio ato sádico.

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m esquinhos do que terríveis. Mefistófeles sequer entra no escritório de Fausto sem cum prir determ inadas exigências, tam anha a sua subm issão à regra. Cada palavra e gesto seu circunscreve a im potência. O pobre-diabo de Goethe não está entre os grandes. O anjo decaído de Ivan Karam azov, por sua vez, encarna o fracasso: um serviçal, um palhaço. Tais Príncipes das Trevas, m ovidos por anseios reles, indicam apenas a som a das fraquezas hum anas ( NEIMAN, 2003) .

A banalidade do dem ônio provoca desconforto. Sade conquistou nossa im a-ginação porque alm ejam os tanto os heróis quanto o tipo certo de vilão. Goethe e Dostoievski, todavia, resistiram à tentação de descrever o m al atribuindo-lhe “gran-deza satânica”. Eichm ann espanta, pois se esperava encontrar um a personagem sádica, m as se vê um idiota. Horrível é saber que alguém tão desprovido de ferocidade infernal participou da produção em m assa de cadáveres — participou da produção de tam anho m al.

O ESTRANGEIRO

Em 1938, Freud escrevia um texto sobre a origem do judaísm o e as característi-cas do “povo eleito”. No preâm bulo da segunda parte de Moisés e o monoteísmo ( 1939/ 1996, p.71) lem os: “Estam os vivendo num período especialm ente m ar-cante. Descobrim os, para nosso espanto, que o progresso aliou-se à barbárie.” Se um judeu, vivendo em Viena, na época de ascensão do nazism o resolve falar de seu povo, decerto o anti-sem itism o aparece com o questão prem ente. No entan-to, o problem a não foi abordado de acordo com a lógica do Terceiro Reich — ou seja, a partir da noção de raça. Em vez disso, produziu-se um a leitura a respeito da construção do m onoteísm o.

A hipótese de Freud ( 1939/ 1996) se apóia sobre o m ito da horda. Nos tem pos prim evos existiu um só Senhor TodoPoderoso m orto pelos filhos. A lem -brança desse ato se desvaneceu na m em ória consciente dos sujeitos. Entretanto, deixou traços perm anentes. Quando o egípcio Moisés trouxe a idéia de um Deus único, reviveu a m arca do m om ento inicial da cultura, da religião e da m oral. Ao reencontrar o Ser ansiado, os fiéis responderam com tem or e subm issão à vonta-de Divina. Contudo, a essência da relação com o Pai é a am bivalência. A hostilida-de tam bém hostilida-despertou: repetiu-se o parricídio. Todavia, no judaísm o não havia possibilidade de se voltar o ódio diretam ente contra o Eterno. Assim , Moisés, o fundador do m onoteísm o, foi a vítim a do crim e. O Líder teve um final violento no levante de seu povo, que então rejeitou a nova religião. Porém , depois, os judeus recuperaram a crença e recalcaram m ais um a vez o hom icídio.2

2 Em Moisés e o monoteísmo, Freud ( 1939/ 1996) usa duas palavras diferentes para tratar da falta de

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Quando tratam os da construção do judaísm o, apresentase o m odelo de em -bate de forças próprio ao discurso da Psicanálise. Afinal, o m onoteísm o indica o cam po social no qual esse saber se produziu, m arcando a form a com o a ética, o desejo e a culpa incidem sobre o sujeito. Por isso, Freud sem pre retorna às ques-tões despertadas pela religião nos seus textos a respeito da cultura. O nazism o, por sua vez, convoca um a lógica até certo ponto diversa — de m aneira que o Holocausto e a adm itida antipatia dos partidários de Hitler pelo cristianism o significaram , além da destruição de hom ens, o ataque a um princípio. Buscando a realização total do desejo identificado com a vontade do Líder, os arautos do exterm ínio im aginaram tam ponar a lacuna gerada pela renúncia pulsional e pelo recalcam ento. Assim , destituíram o Bem encarnado nas doutrinas m orais tradicio-nais — o ato recusado em tais doutrinas passa para o prim eiro plano na ideolo-gia que legaliza o crim e. Podem os recuperar a fórm ula de Lacan em Kant com Sade ( 1963/ 1998) : sobrepondo-se dois Im perativos, relativam ente opostos, revela-se a verdade de am bos. Em qualquer caso, o Mal e o Bem coabitam .

Em Moisés e o monoteísmo ( FREUD, 1939/ 1996) , procura-se justam ente a verda-de esquecida do judaísm o. O início daquele artigo verda-dedica-se a provar um a hipó-tese oculta na história oficial da religião: o fundador do m onoteísm o era um egípcio, um estrangeiro. No m ínim o, é interessante retom ar essa idéia conside-rando a descrição feita por Arendt ( 2001) da posição dos judeus na Europa.

Freud ( 1939/ 1996, p.127) estava bastante consciente do traço distintivo que envolvia essa posição: “Os judeus têm um a opinião particularm ente elevada de si m esm os [ ...] , são inspirados por um a confiança singular na vida, com o a que deriva da posse secreta de algum bem precioso — pessoas piedosas cham á-lo-iam de confiança em Deus.” Esse grande am or-próprio não chega a causar espan-to. Afinal, trata-se do “povo eleito” pelo Criador, especialm ente próxim o d’Ele. Um a parte significativa dos habitantes do velho continente “reagiu com o se acre-ditasse em tal superioridade [ ...] . Quando se é o favorito declarado do pai tem i-do, não se precisa ficar surpreso com o ciúm e dos irm ãos” ( FREUD, 1939/ 1996, p.127) . De Caim e Abel até José, as fraternidades do texto sagrado atestam isto.

Moisés, ao criar os judeus, ofertou-lhes a santidade junto com um a conse-qüente m arca m isteriosa, capaz de m antê-los superiores e separados dos dem ais hom ens. Obviam ente outros grupos tam bém possuíam um a auto-estim a eleva-da, m as o valor atribuído ao “povo eleito” recebeu um arrim o religioso. “Devido

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à relação particularm ente íntim a com seu Deus, adquiriu um a parcela da grande-za dele” ( FREUD, 1939/ 1996, p.127) . De acordo com Freud, os judeus identifi-caram -se com o egípcio excepcional que fundou a dignidade da fé m onoteísta. Desse m odo, perm aneceram , com o diz Arendt ( 2001) , estrangeiros enigm áticos em todos os lugares.

Todavia, Freud ( 1939/ 1996) fala ainda de um a segunda verdade, citada an-tes, recusada pelo judaísm o: o assassinato de Moisés. Portanto, a fórm ula geral proposta é a seguinte: m ata-se o estrangeiro. Na história recalcada da religião surge o preceito prom ovido pelo nazism o.

Prom ulgou-se o “não m atarás” para im pedir o sujeito de realizar um dos seus desejos m ais caros — punindo qualquer infração. Assim , a doutrina religiosa pretende im por lim ites ao Mandam ento do gozo. No entanto, a renúncia pulsio-nal nunca pode ser absoluta — é preciso um espaço de expressão. Por isso a fraternidade exige a segregação. Freud ( 1930/ 1996) cham a tal m ecanism o de “narcisism o das pequenas diferenças”: a união de um grupo se solidifica por m eio da exacerbação da agressividade para com as pessoas excluídas dessa co-m unidade, transforco-m adas então na encarnação do co-m al que deve ser apartado.

A aversão pela diferença traduz um a afirm ação narcísica. O am or-próprio trabalha para a preservação do sujeito, com o se a diversidade hum ana im plicasse incom patibilidade e concorrência. Adem ais, a satisfação obtida através da opres-são contra os estrangeiros com pensa a m uitos pelas injustiças sofridas entre os seus sem elhantes: “um plebeu infeliz [ ...] não deixava de ser um cidadão rom a-no, com sua quota na tarefa de governar outras nações e ditar suas leis” ( FREUD, 1927/ 1996, p.24) .

A agressividade se volta preferencialm ente para os porm enores de diferenci-ação. É com um , por exem plo, a rivalidade dos m oradores de cidades vizinhas. Nesse sentido “os judeus, espalhados por toda parte, prestavam um útil serviço às civilizações dos que os acolheram ” ( FREUD, 1930/ 1996, p.136) . Afinal, eles se distinguiam de seus países “hospedeiros” de form a pouco óbvia. Com o em vários lugares dom inados pelo anti-sem itism o o “povo eleito” estava entre os grupos m ais antigos da população, sua desigualdade era até certo ponto indefinível, vinculada a um a tradição “m ãe” do cristianism o hegem ônico, porém m isteriosa diante do olhar europeu.

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A ideologia descreve a sociedade com o um todo harm ônico e com plem entar, no qual cada integrante contribui de acordo com sua função. O discurso nazista produziu novos vínculos para sujeitos desenraizados m ediante a tentativa de suturar a ruptura irredutível entre a com unidade e o sonhado equilíbrio natural. Todavia, um a pergunta insistia: com o lidar com as incessantes lutas antagônicas, fruto da indelével agressividade? Para forjar um a resposta, o judeu assum iu o lugar do corpo estranho que instauraria a corrupção no tecido social hipotetica-m ente sadio. O “povo eleito” encarnou a ihipotetica-m possibilidade estrutural do grupo, ofertando um a existência palpável e im aginariam ente elim inável para o resto engendrado pela cultura. Por isso, dem arcou o ponto de irrupção do gozo no Terceiro Reich. Exercitando sua hostilidade contra o estrangeiro íntim o, os car-rascos visavam com pensar a identificação ideal m alograda ( ZIZEK, 1992) . Ou seja, m atando hom ens pretendeu-se exorcizar as faltas da fraternidade — suas pequenas diferenças — em favor da constituição da perfeição. Contudo, ao afo-gar a Lei no gozo, Hitler gerou só horror e crim es.

Assim , a ficção ideológica se organiza por m eio do com bate ao elem ento que circunscreve sua im possibilidade. Entretanto, os desvios e as degenerações do funcionam ento social são produtos necessários ao sistem a. O conceito de “narci-sism o das pequenas diferenças” evidencia justam ente o quanto a fraternidade precisa de um term o externo e heterogêneo para se sustentar. Por conseguinte as falhas no projeto igualitário indicam a verdade da cultura: seu caráter antagônico e hostil. Devem os reconhecer nos traços atribuídos aos judeus pelos nazistas o efeito indelével, porém ideologicam ente renegado, da vida no grupo.

CONCLUSÃO

As paixões que devoravam a Europa no fim da década de 1930 m ostram o quan-to os ideais em puxam ao crim e. Cada ideologia constrói o nó do gozo com a Lei de um a m aneira particular. Afinal, ainda que a legitim idade do horror não repre-sente um fenôm eno global, a am bivalência dos Im perativos é partilhada pela hum anidade. Moisés e o monoteísmo ( FREUD, 1939/ 1996) foi escrito sob o im pacto do anti-sem itism o. Todavia, o texto não vincula o “m ata-se o estrangeiro” apenas aos nazistas; faz a fórm ula intervir na própria tradição judaica.

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nossa culpa, contudo jam ais para trabalharm os com a verdade. Com o com enta Zizek ( 1992) , a atração de Freud ( 1914/ 1996) pelo Moisés de Michelangelo está em vislum brar a im agem de um hom em prestes a ceder à fúria destrutiva, m as com força para se dom inar e não quebrar as Tábuas da Lei. Em bora nin-guém se isente do desejo celerado, qualquer um tem a chance de abdicar de sua consum ação em ato.

Recebido em 3/ 4/ 2005. Aprovado em 28/ 9/ 2005.

REFERÊNCIAS

ARENDT, H. ( 2 0 0 0 ) . Origens do totalitarism o. São Pau lo: Com pan h ia das Letras.

. ( 2001) Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal.São Paulo: Com panhia das Letras.

FREUD, S. ( 1996) Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Im ago.

( 1913) “Totem e tabu”, v.XIII, p.13-163.

( 1914) “O Moisés de Michelangelo”, v.XIII, p.213-241.

( 1921) “A psicologia de gr upo e a análise do ego”, v.XVIII, p.89-179. ( 1927) “O futuro de um a ilusão”, v.XXI, p.13-71.

( 1930) “Mal-estar na civilização”, v.XXI, p.75-171. ( 1939) “Moisés e o m onoteísm o”, v.XXIII, p.13-161.

LACAN, J. ( 1950/ 2003) . “Prem issas a todo desenvolvim ento possível da crim inologia” in: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

. ( 1956/ 1998) “Sem inário sobre ‘A carta roubada’”, in Escritos,

Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

. ( 1963/ 1998) “Kant com Sade” in: Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

LEMÉRER, B. ( 1998) Les deux Moïse de Freud, Toulouse: Érès.

MELMAN, C. ( 1999) “ La croyance” , in Bulletin de la Association freudienne internationale, n. 84, Paris: Clim ats, p. 16-23.

MELVILLE, H. ( 1986) Bartleby, o escriturário, Rio de Janeiro: Rocco.

NEIMAN, S. ( 2003) O mal no pensamento moderno: Uma história alternativa da filoso-fia, Rio de Janeiro: Difel.

ZIZEK, S. ( 1992) Eles não sabem o que fazem, Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Verônica Martinelli

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