ARTE E MITO: A PERSPECTIVA LÚDICA
Calo KgwUULoK FERNANDES*
"0 que a linguagem poética faz é essencialmente j o gar com as palavras. Ordena-as de maneira harmoniosa, e i n jeta mistério em cada uma delas, de modo t a l que cada ima gem passa a encerrar a solução de um enigma".
Johan Huizinga
" ( . . . ) escrever é colocar-se naquilo a que se chama agora um imenso ' i n t e r t e x t o1
, quer dizer: colocar a sua própria linguagem, a sua própria produção de linguagem, no próprio i n i f i n i t o da linguagem".
Roland Barthes
O m i t o , enquanto forma de condensação de elementos da c u l t u r a de d e t e r m i n a d o s grupos numa nos na história, se c a r a c t e r i z a p o r uma 'técni ca' em sua manifestação: a narração o r a l . Essa experiência, a da narração o r a l , i m p l i c a , neces
s a r i a i t i e n t e , num n a r r a d o r e numa comunidade de o u v i n t e s ; além do que a q u i l o que é n a r r a d o está i n t i m a m e n t e l i g a d o ã própria experiência v i v i d a , ou s e n t i d a , ou p r i n c i p a l m e n t e pensada, p e l o g r u po ( 7 , p. 7-19), ( 6 , p. 1 5 9 ) * .
P o r t a n t o , a narração de um m i t o é uma expe riência c o l e t i v a , r e p a r t i d a , no r i t u a l , e n t r e n a r r a d o r e o u v i n t e s e construída, no nível da ex periência c o t i d i a n a , p e l o próprio grupo. Por ou t r o l a d o , aquele que e s c u t a uma história é, p o r conseqüência, um possível f u t u r o n a r r a d o r , que, juntamente com o u t r o s possíveis n a r r a d o r e s , f a zem da n a r r a t i v a mítica um depositário de suas experiências, a ponto de o m i t o , quando r e c o n t a do, v i r a c r e s c i d o de novas s e n s i b i l i d a d e s ( 6 , p.
" E l hombre de l a s sociedades en que e l m i t o es a l g o v i v o v i v e en um mundo ' a b i e r t o ' , aunque
' c i f r a d o ' y m i s t e r i o s o . E l mundo 'habla' a l hombre y, p a r a comprender e s t e lenguage, ba£ t a conocer l o s m i t o s y d e c i f r a r l o s símbolos.
163-165) que a passagem do tempo imprime, p e r f a zendo assim a dialética do novo no sempre i g u a l : histórias p r i m o r d i a i s , sempre r e c o n t a d a s , e sem p r e d i f e r e n t e s : histórias sem f i m , p o i s os m i t o s
'conversam' e n t r e s i ( 6 , p. 157-165), ( 8 , p. 21) *
As n a r r a t i v a s o r a i s demostração, nesse sen t i d o , p o r um l a r g o período da história, como a p r i n c i p a l forma de transmissão da c u l t u r a e, p o r c o n s e g u i n t e , da experiência humana; e n t r e t a n t o , em função da p r o g r e s s i v a complexidade que assu mem as forças p r o d u t i v a s - acentuando cada vez mais, p o r t a n t o , a divisão do t r a b a l h o - ( 9 , p.
135-139) notar-se-á uma r u p t u r a nessa forma de transmissão (uma r u p t u r a - p r o c e s s o ) ** , c u j o ' áp_i ce crítico' se dará ao longo do d e s e n v o l v i m e n t o
* " ( . . . ) p r e s c i n d i e n d o de t o d o s u j e t o (...) de c i e r t a manera, l o s m i t o s se piensam e n t r e e l l o s "
** "Na r e a l i d a d e , esse p r o c e s s o , que e x p u l s a g r a dualmente a n a r r a t i v a da e s f e r a do d i s c u r s o v i v o e ao mesmo tempo dá uma nova b e l e z a ao que está desaparecendo, tem se d e s e n v o l v i d o concomitantemente com t o d a uma evolução secu
do modo de produção c a p i t a l i s t a . Esse 'ápice c r i t i c o ' pode s e r c a r a c t e r i z a d o p o r três e l e m e n t o s , de c e r t a forma conjugados: a invenção da impren sa, o a p a r e c i m e n t o do l i v r o enquanto o b j e t o de consumo e conseqüentemente a formalização do r o mance enquanto gênero literário.
O l i v r o , enquanto o b j e t o de consumo, possi. b i l i t a d o p e l a invenção da imprensa, nos c o l o c a uma série de 'quebras' em relação ã n a r r a t i v a o r a l . Em p r i m e i r o l u g a r , e s t a b e l e c e a disjunção completa (espaço-temporal) e n t r e o p r o d u t o (es c r i t o r ) e o consumidor ( l e i t o r ) : p o i s o romance, p a r a s e r consumido, i m p l i c a numa prática solitá r i a : a l e i t u r a , cada vez mais solitária, em f u n ção dos elementos do próprio gênero romanesco. E mais: no romance, assim como no l i v r o , nos é da da uma história com f i m : s e j a o f i m metafórico,
da morte do personagem, s e j a o f i m imanente, ob j e t u a l , dado p e l o término das páginas: acaba-se um romance: experiência f i n i t a e c o n c l u s i v a .
Ainda e, p o r o u t r o l a d o , o l i v r o e o roman ce são manifestações de uma e r a que se c a r a c t e r i ^ za p o r um grande d e s e n v o l v i m e n t o tecnológico on de, em função de uma a l t a especialização do t r a b a l h o , o r o m a n c i s t a , ao contrário do n a r r a d o r do m i t o , não pode mais r e p r e s e n t a r a sua comunida de: r e s t a - l h e , d e n t r o do espaço do l i v r o , ence nar o s e n t i d o de uma v i d a - p a r t i c u l a r e i n d i v j L d u a l - já que, f o r a do romance, a ' v i d a ' não f a z
lá m u i t o s e n t i d o : p o i s as correspondências, as
seguradas , p o r exemplo, na própria forma de ma nifestação do m i t o ( n a r r a t i v a a r t e s a n a l e c o l e t i va, c o r r e s p o n d i d a nas relações com o mundo) já não e x i s t e m mais ( 3 , p. 219-221). Como propõe W. Benjamin,
" ( . . . ) o romance não ê s i g n i f i c a t i v o p o r d e s c r e v e r
pedagogicamente um d e s t i n o a l h e i o , mas porque e s s e d e s t i .
no a l h e i o , graças a chama que o consome, pode d a r - n o s o
c a l o r que não podemos e n c o n t r a r em n o s s o próprio d e s t i n o .
0 que s e d u z o l e i t o r no romance é a esperança de a q u e c e r
s u a v i d a g e l a d a com a morte d e s c r i t a no l i v r o " . (3, p.
Ora, a p a r t i r do f i n a l do século XIX e iní c i o do século XX, são e s t a b e l e c i d a s , d e n t r o dos processos de criação literária, d e t e r m i n a d a s f o r mas de manifestação poética c a r a c t e r i z a d a s p e l a
necessidade de uma interferência p r o f u n d a do l e _ i t o r na o b r a p a r a e f e t i v a r sua fruição, levando a a g r u p a r , num h o r i z o n t e não m u i t o longínquo, au t o r e l e i t o r , numa espécie de c o - a u t o r i a ; s e r i a m as obras ' a b e r t a s ' ou 'escriptíveis' ( 5 ) * , ( 2 , p. 1 2 ) * * , onde são p r o p o s t a s t e n t a t i v a s de supe r a r - d e n t r o do espaço do l i v r o , ou quase f o r a d e l e - a cisão e n t r e a u t o r e l e i t o r , onde cada l e i t u r a possa se c a r a c t e r i z a r , de forma o r i g i _ n a l , como r e e s c r i t u r a da o b r a (que c o n t i n u a , em
* E s p e c i a l m e n t e o capítulo: A b e r t u r a , i n f o r m a ção, comunicação.
** Roland B a r t h e s , S/Z: " ( . . . ) o que h o j e pode s e r e s c r i t o ( r e - e s r i t o ) : o escrevível. Por que razão é o escrevível o nosso v a l o r ? Por que o que está em j o g o no t r a b a l h o literário
s i , sendo e l a mesma), e, d e n t r o da i n c o m p l e t u d e do t e x t o , o l e i t o r , de forma a t i v a , i n t e r f i r a com sua experiência (ou não) manipulando o o b j e t o poético desordenando-o ou reordenando-o, mas p r i n c i p a l m e n t e estando c e n t r a d o numa relação, a i n d a que v i r t u a l (ou mesmo, se quiserem a l g u n s , a l i e n a d a ) com o e s c r i t o r , onde a i n c o m p l e t u d e de t r a n s f o r m e em p o s s i b i l i d a d e e a u n i v o c i d a d e do l i v r o s e j a , senão destruída, ao menos r e l a t i , v i z a d a ; menos que obras i n f i n i t a s , obras sem
f i m : p e l a sua a b e r t u r a .
Um exemplo ' c o n c r e t o * dessa tendência (que abrange i n c l u s i v e o u t r a s formas de manifestação artística como p i n t u r a , e s c u l t u r a , cinema, músd. .ca, e t c . ) * s e r i a o poema "Tudo Está D i t o " , de
Augusto de Campos ( 1 9 7 4 ) ; poema onde o i n t e r t e x t u a l se a p r e s e n t a como componente g l o b a l i z a n t e , compÕe-se de s e i s ' v e r s o s ' , como um cubo de s e i s l a d o s (ou um dado: e lembremo-nos de que 'um I a n ce de dados j a m a i s abolirá o a c a s o ' ) , p e r m i t i n d o q u a l q u e r combinação em relação à sua ordem, o que r e p r e s e n t a c e r c a de 720 poemas d i f e r e n t e s
(onde, é c l a r o , algumas combinações poderão s e r c o n s i d e r a d a s 'melhores' que o u t r a s ) :
Tudo está d i t o
Tudo está v i s t o
Nada é p e r d i d o
Nadá é p e r f e i t o
E i s o i m p r e v i s t o
Tudo é i n f i n i t o (4)
E a q u i encontramos uma p e r s p e c t i v a onde o 'mítico' se p r o j e t a sobre o 'histórico': não ape nas como referência (citação) , mas como procedi-mento: o começar de novo, o j o g a r com as p a l a v r a s , o c o n t i n u a r : a l g o que a i n d a é negado p e l a própria e s t r u t u r a m a t e r i a l dos veículos da p r o d u ção estética contemporânea. Obviamente, t a l t e n dência â ' a b e r t u r a ' se c a r a c t e r i z a menos p o r uma completa reinvenção m a t e r i a l dos veículos que
por uma modificação de a t i t u d e em relação a es
t e s ; i s t o , p r e f i g u r a d o p o r uma estética do proce d i m e n t o , que em termos o b j e t i v o s , também se
apoia no d e s e n v o l v i m e n t o técnico ou nas ciências físicas (pense-se no caráter de 'indeterminação' dos o b j e t o s estéticos).
m a l i z a r , t a l v e z , três (não)-conclusões: em p r _ i m e i r o l u g a r , que o i n t e r t e x t o c u l t u r a l no q u a l
se movimentam as realizações poéticas ( e n t r e as q u a i s o m i t o e a l i t e r a t u r a ) é bem mais v a s t o e i n t e g r a d o do que queiramos i m a g i n a r , onde noções como tempo c i r c u l a r ou tempo cronolõgico-linear são apenas c o n c e i t o s operatórios sempre p o s t o s em questão p o r essas mesmas realizações; que as realizações de vanguarda (a d e s p e i t o do que pos
sam d i z e r seus a u t o r e s ) inúmeras vezes, ao nos p r o j e t a r 'para a f r e n t e1
(e p a r a que i s s o mesmo aconteça) p r e c i s a m e n t e nos colocam na melhor s i n t o n i a com a tradição: é o ' s a l t o de t i g r e em di_ reção ao passado' ( 3 , p. 2 3 0 ) , que r e c r i a a h i s tória, ou a l i t e r a t u r a ; e que, f i n a l m e n t e , mais do que sempre é p r e c i s o r e s s a l t a r a importância de Oswald de Andrade, que há tempos nos vem lem brando d i s s o t u d o quando d i z , p o r exemplo,
" ( . . . ) que só a restauração t e c n i z a d a duma c u l t u r a antropofãgica, r e s o l v e r i a os problemas a t u a i s do homem e da F i l o s o f i a " ( 1 ) , onde um passado
(mítico) é c i t a d o p e l o p r e s e n t e , não apenas como sonho ou referência, mas como crítica a esse tem po, podendo c r i s t a l i z a r - s e assim como p r o j e t o e p o s s i b i l i d a d e . *
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