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VALDENICE PEREIRA DE LIMA

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULA

LICENCIATURA PLENA EM LETRAS HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

VALDENICE PEREIRA DE LIMA

A CONSTRUÇÃO DOS GESTOS EMBLEMÁTICOS NA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

JOÃO PESSOA - PB OUTUBRO DE 2012

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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULA

LICENCIATURA PLENA EM LETRAS HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA

VALDENICE PEREIRA DE LIMA

A CONSTRUÇÃO DOS GESTOS EMBLEMÁTICOS NA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Trabalho apresentado ao curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa.

Orientadora: Profª. Drª. Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante

JOÃO PESSOA - PB OUTUBRO DE 2012

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VALDENICE PEREIRA DE LIMA

A CONSTRUÇÃO DOS GESTOS EMBLEMÁTICOS NA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Trabalho apresentado ao curso de licenciatura em letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de licenciado em letras, habilitação em Língua Portuguesa.

Data de aprovação: _____/_____/____ Banca examinadora

Profª. Drª. Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante – DLCV/UFPB Orientadora

Ms. José Temistocles Ferreira Júnior Examinador (a)

Paulo Vinícius Ávila Nobrega Examinador (a)

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Catalogação da Publicação na Fonte. Universidade Federal da Paraíba.

Biblioteca Setorial do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA).

Lima, Valdenice Pereira de.

A construção dos gestos emblemáticos na aquisição da linguagem . / Valdenice Pereira de Lima. - João Pessoa, 2013.

31 f.:il.

Monografia (Graduação em Letrs) – Universidade Federal da Paraíba - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes.

Orientadora: Profª. Drª. Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante.

1. Aquisição da linguagem. 2. Gestos emblemáticos . 3.

Multimodalidade. I. Título.

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AGRADECIMENTOS

A Deus, Todo Poderoso, que nos momentos mais difíceis da minha vida mostrou-me o melhor caminho a seguir.

A meus pais, Antonio Duvirgens e Ivanilda Vieira, pessoas enviadas por Deus, para guiar-me nos grandes desafios; obrigada por todo carinho e dedicação. A você, minha mãe, agradeço-te por todas as orações feitas para que esse momento fosse possível; obrigada pela compreensão e, principalmente, seu colo nos momentos em que tudo me parecia não mais valer a pena.

A meus irmãos, Isabel, João Francisco, Iure, Cosme, Damião, Caroline, Manoel; a vocês, meus sinceros agradecimentos, principalmente em acreditar na minha capacidade. Vocês, meus irmãos, foram um dos motivos de fortaleza nos mais árduos momentos de todo percurso da vida acadêmica. Às grandes amigas de infância: Madalena, Egisloédna, Fabiana, Mayara, Aurilane. Obrigada, por acreditar na realização desse momento.

A Jobson, Nilton, Joseane, Carlos França, Danielle, Manoel, Dayane, Ana Paula, Juliana, Kátia, Nara, Kátia, Laila, Rute, Demetro; meus grandes amigos conquistados ao longo do curso; principalmente minhas eternas amigas, Lívia, Paula e Tamires, que nas horas mais difíceis estávamos dando gargalhadas com a finalidade de todo sofrimento dissipar. A vocês, minhas amigas, meus eternos agradecimentos por todo companheirismo e ajuda; jamais esquecerei a atuação de cada uma na minha vida.

Ás minhas tias: Damiana, Aparecida, Iracy, Francisca, Maria Luiza, meus agradecimentos pela ajuda ao longo do meu curso; sem vocês esse sonho jamais seria possível.

Á Terezinha, Isabel e Iracy, que no início do curso fizeram o possível pela minha permanência na Universidade. Vocês são responsáveis por essa vitória.

A Sousa (Imemorial), obrigada pelas palavras de apoio e sabedoria diante dos obstáculos vividos no início da minha adaptação à vida acadêmica.

Aos meus avós, Maria Ducarmo (Imemorial) e Francisco Vieira, sempre tão presentes na minha trajetória. A você minha avó, obrigada pelas palavras de apoio e otimismo, mesmo diante das dificuldades; a você, meu avô, te agradeço pela sabedoria perpassada através de suas conversas, teus conhecimentos jamais aprenderei em Universidade alguma.

Á Marianne Cavalcante, minha orientadora, agradeço pela confiança depositada, ao fazer parte de seu grupo de pesquisa.

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Aos meus eternos professores: Francerly, Madinha, Adenildo, Reginaldo, Milton, Raimundo, vocês são responsáveis pelo o que sou hoje como pessoa, como aluna. A você, Raimundo, que além de professor, foi e será também um grande amigo. Obrigada!

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RESUMO

Dentre os variados estudos em aquisição da linguagem, uma das investigações que vem ganhando impulso é a que se propõe observar o aspecto multimodal da língua; tais trabalhos têm enriquecido as pesquisas no campo da aquisição da linguagem de forma significativa. É partindo dessa perspectiva, que McNeil (1985) propõe que gesto e fala encontram-se numa mesma matriz de significação, ou seja, considera-se os gestos e as produções verbais como componentes da multimodalidade em aquisição da linguagem. Assim, o presente trabalho tem por objetivo analisar a presença dos gestos emblemáticos e sua relação com as produções verbais nas primeiras interações entre mãe e bebê, possibilitando à compreensão da construção desse gesto. Para tanto, além de nos pautarmos em McNeil (1985) no que diz respeito à relação entre gesto e fala, também levamos em consideração as contribuições de Laver (2000) e Kendon (1982) em relação á observação dos gestos no processo de interação. Ao que concerne aos estudos da gestualidade, Kendon (1982) desempenha um significativo papel ao classificar os movimentos gestuais a partir de um contínuo, chamado "Contínuo de Kendon". Através desse contínuo, os gestos emblemáticos são classificados como um tipo de gesto que são culturalmente determinados. Para o desenvolvimento do referido trabalho, utilizamos principalmente, as discussões teóricas mencionadas anteriormente e analisaremos dados em vídeo em que mãe e bebê interagem em contexto o mais naturalístico possível. Análises preliminares apontam que a utilização dos gestos emblemáticos pela díade é um processo de extrema relevância para os contextos nos quais surgem as primeiras produções verbais do bebê. Dessa forma, buscamos identificar em que situações surgem os gestos emblemáticos e qual sua contribuição no desenvolvimento linguístico da criança, e se esses gestos estão relacionados ao não à produção de fala. Análises apontam que a utilização dos gestos emblemáticos pela criança é um processo de extrema relevância para os contextos nos quais surgem as primeiras manifestações de linguagem na criança.

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Abstract

Among the various studies on language acquisition, one of the research that is gaining momentum is that it proposes to observe the multimodal aspect of language, such works have enriched the research in the field of language acquisition significantly. It is from this perspective that Mc Neil (1985) proposes that gesture and speech are in the same matrix of meaning, in other word, it is the gestures and verbal productions as components of multimodality in language acquisition. Thus, this study aims to analyze the presence of iconic gestures and its relationship with the verbal productions in the early interactions between mother and baby, enabling the understanding of the construction of this gesture. Therefore, in addition to we base in Mc Neil (1985) with regard to the relationship between gesture and speech, we also consider the contributions of Laver (2000) and Kendon (1982) in thier observation of gestures in the process of interaction . In regard to the studies of gestures, Kendon (1982) plays a significant role in classifying gestural motions from a continuous called "Continuous Kendon". Through this continuous emblematic gestures are classified as a type of gesture that is culturally determined. For the development of this work, we use mainly the aforementioned theoretical discussions and analyze data in a video in which mother and child interact in a more naturalistic context possible. Preliminary analyzes indicate that the use of emblematic gestures by dyad is a process of extreme relevance to the contexts in which arise the first productions verbal baby. Thus we seek to identify situations that arise in gestures emblematic and what their contribution to the child's linguistic development, and these gestures are not related to speech production. Preliminary analyzes indicate that the use of emblematic gestures by the child process is of extreme relevance to the contexts in which the first manifestations arise in child language.

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Sumário

INTRODUÇÃO CAPÍTULO I

1. Aquisição da linguagem ... 9

1.1 A multimodalidade na aquisição: relação gesto e fala... 12

1.2 Caracterizando os gestos emblemáticos ...14

CAPÍTULO II 2. Metodologia ... 16

2.1 O corpus ... 17

2.2 Transcrição e análise ... 18

3. Compreendendo os emblemas nas primeiras interações mãe-bebê... 19

3.1 Análise quantitativa dos gestos emblemáticos ... 26

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... .30

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INTRODUÇÃO

Na interação entre os sujeitos, a linguagem humana manifesta-se de variadas formas, seja por meio da fala ou por meio de outros aspectos multimodais, como olhar, gestos, expressões faciais. Tais aspectos auxiliam na interação dialógica, assim como também na aquisição da linguagem da criança.

Partindo do pressuposto de que a língua se manifesta de variadas formas, corroboramos neste trabalho com a proposta da multimodalidade de McNeill (1982), o qual concebe gesto e fala como componentes de um conjunto que não podem dissociar-se, dando um caráter multimodal à linguagem. Além de McNeill (1982), nos pautamos em Kendon (2000) quanto ao estudo e classificação dos gestos, enquanto entidades relevantes na construção das primeiras interações infantis.

No presente trabalho analisamos a construção dos gestos emblemáticos na aquisição da linguagem, por considerarmos um tipo gestual relevante nos primeiros anos de vida da criança. Esse tipo de gesto é usado com grande frequência pelos adultos, assim como também está muito presente nas interações infantis.

Classificando o gesto emblemático, em seu Contínuo, Kendon (2000) mostra que o emblema se trata de um gesto usado convencionalmente na sociedade e é também usado pela criança quando a mesma ainda não produz enunciados SVO. Observamos em nossas análises como é usado esse gesto e suas implicações para interação com os sujeitos adultos, principalmente a mãe, que aparece com mais frequência nas transcrições utilizadas; as análises também nos mostram que o gesto emblemático é usado como meio de inserção da criança no meio linguístico.

Para a investigação e compreensão do objeto de estudo: A construção dos gestos emblemáticos na aquisição da linguagem, nosso trabalho está estruturado em três capítulos. No primeiro, focalizamos o percurso da área de Aquisição da Linguagem. Para isso, inicialmente, delineamos o surgimento dessa área e sua ligação com outros ramos de conhecimento, como a psicologia, trazendo trabalhos como o de Scarpa (2001) e Del Ré (2006); prosseguimos com teorizações de caráter multimodal, no qual situamos a relação entre os aspectos multimodais, como gesto e fala, citando autores, como McNeill (1982). Por fim, ainda discorrendo sobre a relação gesto-fala, classificamos os tipos gestuais, definindo o gesto emblemático segundo Kendon (2000).

O segundo capítulo de nosso trabalho refere-se a nossa metodologia. Explicitamos nesse capítulo a natureza de nossa pesquisa de base qualitativa, detalhando que o corpus utilizado se trata

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de gravações de momentos interativos entre criança e seus acompanhantes (no caso desse trabalho, a mãe) nas diversas situações comunicativas dos infantes.

Centramos o terceiro capítulo nas observações e análises dos gestos emblemáticos, utilizando dados em que a presença desses tipos gestuais estava presentes nos diversos momentos de interação entre mãe e bebê. Vale acrescentar que a análise utilizada tem uma perspectiva multimodal da linguagem (McNiell, 1982), privilegiando sempre a interação como fator primordial nas relações comunicativas.

Nosso objetivo é averiguar como o gesto emblemático é usado pela criança nos primeiros anos de vida, assim como, observar se tal gesto encontra-se relacionado ou não a fragmentos de fala do bebê, levando em consideração a interação que o infante estabelece com o adulto nos contextos interativos.

CAPÍTULO I

1. AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Os estudos sobre aquisição da linguagem têm aumentado significantemente nos últimos tempos; tal elevado interesse por parte dos estudiosos da área deve-se a vários fatores, dentre eles está a curiosidade na questão primordial da aquisição: inato ou adquirido? Além disso, o campo de tal estudo envolve variadas disciplinas, dando um caráter interdisciplinar à questão. Scarpa (2001), a esse respeito coloca que a Aquisição se vê em meio a questionamentos advindos tanto de teorias linguística como psicológicas. A autora ainda acrescenta que tal relevância dada à Aquisição por essas áreas possibilitou a renovação de suas teorias em relação ao processo de aquisição.

Tal área nasce da psicolinguística, ramo de conhecimento que se volta para o estudo da linguagem e os processos a ela implicados. A Psicolinguística surge por volta de 1950 com a junção da psicologia e da linguística. Del Ré (2006) esclarece que tanto os psicólogos quanto os linguistas estavam interessados em saber sobre a linguagem humana e sua relação com o pensamento.

A muito tempo que o enigma envolvendo a aquisição da linguagem vem sendo motivos de diversos estudos. Segundo Scarpa (2001), uma das primeiras investigações sobre o processo de aquisição remota o século VII (a.c) com o rei do Egito Psamético, o qual pretendia saber a respeito das primeiras línguas faladas. Tal experiência consistiu no isolamento de duas crianças, retirando-as

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do convívio social, a fim de se saber quais seriam suas primeiras palavras. Com isso, pretendia-se concluir que os primeiros vocábulos falados pelas duas crianças, pertenceriam à língua mais antiga do mundo. Com tal experiência, após dois anos de confinação, as crianças emitiram uma palavra correspondente à língua do povo frígio, sendo essa língua, portanto, considerada pelos Egípcios como a mais antiga do mundo.

Mais tarde, outros estudos envolvendo a linguagem infantil foram feitos. No século XIX, alguns linguistas se veem interessados em investigar como ocorre o processo da linguagem através de experiências com seus próprios filhos. Esses pesquisadores elaboraram suas investigações através de registros da fala infantil de suas crianças, fazendo uma espécie de diários. Segundo Del Ré (2006), esse foi um dos primeiros registros que se tem a respeito da investigação da aquisição da linguagem.

A partir do século XX, com os estudos de Saussure, a Linguística é reconhecida como um estudo científico, deixando de ser histórica e passando a ser descritiva. Como consequência, os estudos envolvendo aquisição da fala infantil passam a usar um método descritivo, naturalista e longitudinal (DEL RÉ, 2006).

Para tanto, é a partir das pesquisas de base gerativa do linguista Noam Chomsky que há um impulso nos estudos de aquisição; a linguagem segundo esse teórico é orientada por um dispositivo inato depositado na mente do falante, tal dispositivo é denominado Dispositivo de Aquisição da Linguagem (DAL).

Segundo Scarpa (2001), a partir de Chomsky há um maior interesse pelos aspectos e mecanismos de aquisição da linguagem. Vale ressaltar que tais estudos surgiram em reação ao pensamento behaviorista dominante da época. Segundo a corrente behaviorista, a linguagem seria aprendida através de mecanismos comportamentais de reforço, estímulo, resposta.

Concebendo a linguagem como sendo resultante de um disparo chamado Dispositivo da Aquisição da Linguagem (DAL), os gerativistas desconsideram um aspecto importante na realização da linguagem: o papel da interação social. É por esse motivo que muitos estudos posteriores suscitam em oposição às ideias de Chomsky.

É pelo fato do Gerativismo não abordar o conhecimento adquirido pela criança em contato com o social, que surgem as teorias cognitivistas e interacionistas para dar conta da relevância do aprendizado da criança. (DEL RÉ, 2006). Tais investigações surgem com Jean Piaget. Segundo esse estudioso, o desenvolvimento da linguagem dependia do desenvolvimento do raciocínio da criança. Dessa forma, a ideia de que a linguagem teria um mecanismo autônomo é contestada (SCARPA,

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2001), uma vez que a linguagem, segundo os estudos de Piaget, dependeria do desenvolvimento da inteligência, estabelecendo, assim, uma relação de interdependência com esse sistema cognitivo.

Dessa forma, a teoria construtiva de Piaget vê a aquisição não como resultado do desencadear de um gatilho, mas seu surgimento se dava após vários estágios que a criança passaria no seu desenvolvimento cognitivo. Tendo tal pensamento, essa corrente teórica desconsidera a existência da gramática universal (GU), presente em todo ser humano, segundo os gerativistas. Para os construtivistas, a linguagem estaria relacionada com o contato que a criança estabelece com o meio, ou seja, a partir da relação com o meio, a criança construía a linguagem.

Apesar de muito contribuir para os estudos sobre a linguagem, as teorizações de Piaget, assim como as atribuições dos gerativistas, falharam é um aspecto relevante: a questão da interação como meio essencial no desenvolvimento da linguagem. É esse aspecto que Vygotsky contribui para melhor explicitar a linguagem infantil. Lembrando que esse teórico não era linguista e sim psicólogo. Segundo tais estudos, o social tem papel fundamental no desenvolvimento da linguagem e do pensamento.

A criança, de acordo com tais estudos é vista como construtora de sua linguagem a partir das trocas sociais. Quanto a isso Scarpa (2006) argumenta:

Os trabalhos de inspiração Vygotskyana entendem a aquisição da linguagem como um processo pelo qual a criança se firma como sujeito da linguagem (e não como aprendiz passivo) e pela qual constrói ao mesmo tempo seu conhecimento de mundo, passando pelo outro (p.214).

Assim, a aquisição da linguagem é concebida como sendo resultante da relação da criança com o outro, através do contato social; nessa acepção, os fatores comunicativos, sociais e culturais se fazem relevantes para construção da linguagem na criança.

É bom salientar que os estudos envolvendo o campo da interação nas teorias de aquisição não se encerram com as contribuições de Vygostky, vários trabalhos surgiram e surgem privilegiando o papel do outro no processo de aquisição.

É exatamente esse aspecto da interação que levamos em consideração nesse trabalho. A interação é vista como fator primordial para o desenvolvimento da linguagem. Além da interação, outro aspecto que privilegiamos neste trabalho é a questão da multimodalidade em aquisição, que se trata de uma teorização que concebe a língua como sendo realizável de múltiplas formas, não somente através da fala. Portanto, segundo os estudos multimodais em aquisição, os aspectos não verbais, como gesto, olhar, expressões faciais são constitutivos da linguagem.

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1.1 A multimodalidade na aquisição da linguagem: Relação gesto e fala

Os estudos sobre aquisição e desenvolvimento da linguagem contam com trabalhos advindos de várias áreas de conhecimento, possibilitando um trabalho interdisciplinar com desenvolvimento de pesquisas que integram linguística, psicologia, educação, fonoaudiologia, entre outros. Dessa forma, a investigação sobre a aquisição da linguagem torna-se um campo cada vez mais propício à curiosidade sobre como se dá a linguagem. Ainda a respeito dessa perspectiva de estudo, é relevante salientar que tais pesquisas não são recentes, desde meados da década de 80, a literatura em aquisição da linguagem vem se dedicando ao estudo de aspectos multimodais.

Ao que concerne às teorizações de viés multimodais, diversos são os trabalhos acerca dos estudos de Aquisição de Linguagem, dentre eles, podemos citar os estudos que se baseiam no funcionamento multimodal da língua (MCNEILL, 1985), concebendo gesto e fala como sendo indissociáveis. Na multimodalidade em aquisição, verificamos ainda variados estudos acerca da prosódia, atenção conjunta, olhar, face a face, gesto emblemático (foco de observação do referido trabalho); portanto, se trata de um estudo que envolve variadas formas de linguagem, que é concebida neste trabalho como uma prática discursiva multimodal.

Para tanto, partindo do pressuposto de que gesto e fala fazem parte de uma mesma matriz de significação e, concebendo a natureza da língua como multimodal, McNeill (1985) ressalta que língua e fala estão situados em uma mesmo plano de produção e significação, formando, dessa maneira, um conjunto que não pode dissociar. Portanto, a teoria de McNeill (1985) parte da premissa da inegável relação estabelecida entre gesto e fala.

Autores como Bruner (1975, 1983) tem contribuido de forma muito relevante para os estudos de Aquisição da Linguagem, no sentido de que o mesmo destaca-se como pioneiro do aquisicionismo independente. O referido autor recusa tanto o comportamentalismo quanto o gerativismo, correntes que se debruçaram, na época, acerca da aquisição da linguagem; além de enfatizar a fase de transição levando em conta o papel da interação afetiva entre a mãe e o bebê.

Outro teórico que se debruça sobre a questão da multimodalidade é Kendon (2000), o mesmo questiona a carência acerca da investigação sobre gesto numa perspectiva linguística. O referido teórico afirma que o estudo da gestualidade somente ganhou força após os estudos gerativistas, que concebia os gestos sob um olhar cognitivo de atividade. Isso porque a gestualidade

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está intimamente ligada à língua, que por sinal é compreendida como um mecanismo cognitivo. Ainda ressaltando a cerca da intrínseca relação entre gesto e fala, Kendon (2000) acrescenta que, por apresentar funções que, juntamente com a fala, permitem uma melhor compreensão da mensagem transmitida, os gestos têm como função realizar uma significação mais precisa através da contextualização interacional, com isso, a significação é atingida mediante a interface entre gesto e fala num contexto interativo.

É interessante mencionar que a relevância sobre os gestos nas primeiras interações mãe-criança consiste nas primeiras estratégias de trocas interativas entre mãe e bebê, constituindo o núcleo dialógico primordial, possibilitando a inserção do bebê no campo da linguagem.

Além de Kendon (1982), outro estudioso que analisa a questão dos gestos enquanto ato interacional é Laver (2000 apud CAVALCANTE, 2008). O referido autor, argumentando sobre a relevância dos gestos no processo de interação, evidencia que há “diferença entre o que foi idealizado pra a comunicação e o que realmente acontece” (CAVALCANTE, 2008). Assim, gesto e fala formaria, de fato, um conjunto inseparável, já que ambos contribuem para eficácia da interação. Esse autor ainda observa que há variação nos gestos, embora sejam alguns comuns a uma comunidade falante (CAVALCANTE, 2008). Essas variações gestuais dependem de cada indivíduo, tendo também, a contribuição de fatores intrapessoais que ocorrem em cada ser, em situações de interação.

Ainda sobre a relação multimodal entre gesto e fala, aspectos como prosódia, qualidade de voz, olhar e atenção conjunta são trabalhados em estudos sobre a aquisição da linguagem numa concepção multimodal. Laver (2000), por exemplo, defende que os gestos, a postura, a qualidade de voz são fatores importantes para uma comunicação bem sucedida. O autor reforça a ideia de que o comportamento não-verbal também é determinante para o uso da linguagem.

Neste sentido, na busca pelo estatuto dos gestos como aspectos da multimodalidade, percebemos que esses movimentos gestuais implicam necessariamente em uma manifestação de interação linguística, fazendo nítida sua relação com a fala. Partilhando da ideia que ambos se constroem em um mesmo patamar de significação, concebemos toda teorização deste trabalho voltado para a perspectiva multimodal da língua.

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Além de se voltar para a questão da relação gesto e fala, McNeill (2000) adentra no estudo dos gestos e conceitua o termo gestualidade de forma, que, segundo o referido autor, o termo gesto deve ser posto no plural. Dessa forma, devem-se chamar gestos, uma vez que há vários tipos dos mesmos (CAVALCANTE, 2008). Um dos tipos gestuais mostrado por McNeill (2000) se trata dos emblemas, gesto relevante para aquisição da linguagem e que será mais detalhado neste trabalho.

McNiell (2000) classifica os gestos através de um contínuo elaborado por Kendon (1982), tendo como um dos integrantes desse conjunto, o gesto emblemático, foco de observação desse trabalho. Além do gesto emblemático, McNeill (2000) coloca como integrante desse contínuo, a gesticulação, a pantomima, e as línguas de sinais. A gesticulação é concebida como um tipo gestual presente em toda interação de aspecto oral. Segundo Cavalcante (2008), a gesticulação é definida por apresentar, traços, tanto de uma comunidade linguística, quanto de caracteres individuais. É relevante ressaltar que esse tipo gestual envolve movimentos corporais que acompanham o fluxo de fala. Já o segundo tipo de gesto é classificado no contínuo de Kendon, como um tipo de gesto que indica simulação de ações, a pantomima tem caráter de narrativa, não exigindo obrigatoriedade de fala na sua construção. O outro tipo de gesto, por sua vez, trata-se das línguas de sinais, no nosso caso a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Estes gestos são entendidos como um sistema linguístico de uma comunidade específica.

E, por último, temos os gesto emblemático. Os emblemas são aqueles determinados culturalmente, esse tipo gestual é caracterizado em nossa cultura como gesto, por exemplo, que envolve a mão fechada e polegar levantado significando aprovação ou o balançar da cabeça negando ou afirmando algo.

É relevante mencionar que os gestos acima expostos, inclusive os gestos emblemáticos, são definidos através de um contínuo, chamado Contínuo de Kendon. Neste contínuo, Kendon (1982) classifica todos os gestos, evidenciando sua relação com a produção de fala. Vejamos:

Gesticulação Pantomima Emblemáticos Língua de sinais Contínuo 1 Presença obrigatória

da fala

Ausência de fala

Fala opcional Ausência de fala

Contínuo 2 Presença de fala Presença de fala

Fala segmentada e analítica

Fala segmentada e analítica.

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O contínuo de Kendon (1982) além de caracterizar os tipos de gestos, revela que há sim, relações existentes entre gesto e fala, e essas relações dizem respeitam à frequência das produções gestuais nas atividades interativas. Apesar de se observar a constância dos tipos gestuais em cada período de vida da criança, é interessante enfatizar que os gestos não desaparecem logo após o aparecimento da fala, esses elementos multimodais continuam a permanecer mesmo na fase adulta, o que corrobora a ideia da forte ligação entre gesto e fala, um não se sobrepondo ao outro, mas se completando em um mesmo contínuo de significação. A frequência de cada tipo de gesto dependerá da etapa de aquisição que o sujeito está inserido. Portanto, nos primeiros anos de vida do infante, há uma intensificação da presença dos pantomímicos, devido a sua ausência de fala. A gesticulação por ser caracterizada como um tipo de gesto que necessariamente acompanha a fala estará presente de forma mais constantes nos anos subsequentes do infante.

Quanto ao gesto emblemático, através do Contínuo, percebemos que o mesmo não pede obrigatoriedade de fala como a gesticulação, podendo ocorrer com ou sem produção de fala. O contínuo ainda nos mostra que os emblemas estão presentes desde os primeiros dias de vida do infante e, apesar, de ser um gesto visto desde o início de vida do bebê, ele não desaparece por completo posteriormente.

De forma abrangente, o Contínuo de Kendon (1982) evidencia que os gestos desde muito cedo acompanham as crianças, já que essas ainda não tem maturação suficiente para desenvolver a enunciados SVO, sendo os emblemas um dos recursos multimodais utilizados pela criança para realizar a interação com os adultos.

Ainda sobre os gestos emblemáticos, é interessante mencionar que há estudos que se detém a melhor explicitar esse tipo gestual. Tal investigação se volta ao estudo do gesto de apontar, tipo de gesto emblemático. Kendon (1982) revela através de seu Contínuo, que os gestos emblemáticos, aqueles convencionalizados pela sociedade, não exigem obrigatoriamente a prevalência da fala. O apontar e o movimento realizado ao se despedir de alguém são exemplos de emblemas, sendo o gesto emblemático de apontar classificado como um dos gestos emblemáticos mais significativos dentro do processo de aquisição da linguagem. Observamos que esses gestos se destacam dentro da aquisição da linguagem devido a sua funcionalidade. O apontar, ou melhor, o ato de identificar carrega consigo uma noção de transmissão de informação sobre o objeto apontado. Segundo Cavalcante (1994), o processo de referência dentro da aquisição da linguagem se apresenta com dois objetivos, o de declarar e o de identificar. Porém, nem sempre podemos identificar,

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especificamente, qual dos dois estará sendo usado pela criança ao apontar para algo. Portanto consideramos que o ato de apontar se posiciona dentro da aquisição da linguagem como um ato social no qual o individuo chama o outro a interagir com ele através do objeto em questão

Ainda caracterizando esse tipo de gesto sob uma perspectiva de aquisição de linguagem, Cavalcante (1994) esclarece que o gesto de apontar é um elemento usado pela criança com o desejo de transmitir algo sobre determinado objeto. A autora ainda chama atenção para os desajustes dos gestos na fase dos nove meses e cita como os mais comuns, o apontar com a mão toda, o apontar exploratório (tocando no objeto) e o semi-estendido.

Dentro da discussão da autora, destacamos o apontar convencional: “Extensão do braço e dedo indicador em direção a um objeto” (CAVALCANTE, 1994, p.34). É importante ressaltar que esse gesto é condicionado tanto por fatores biológicos quanto influências externas, pois é somente através do desenvolvimento sensório motor e do incentivo da mãe no estabelecimento da interação da criança que há a presença do apontar convencional.

Portanto, os gestos emblemáticos se configuram como sendo uma investigação relevante dentro da multimodalidade em aquisição da linguagem, visto que é um tipo de gesto que, assim como outros recursos multimodais, marcam a entrada da criança na língua.

CAPÍTULO II

2. METODOLOGIA

A metodologia do referido trabalho consiste principalmente na utilização de discussões teóricas voltadas para multimodalidade em aquisição da linguagem, bem como análises de dados gravados em vídeo (sessões de vinte minutos em média), em que mãe e bebê interagem em contexto o mais naturalístico possível.

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Esses dados fazem parte do LAFE (Laboratório da Aquisição da Fala e da Escrita) 1. A partir destes dados, analisaremos os aspectos gestuais relacionados às manifestações verbais produzidas pelos infantes num contexto interativo.

Em relação aos dados utilizados, passam por várias etapas: são gravados na casa das díades, depois são transcritos e, logo em seguida, são analisados de acordo com o foco de pesquisa trabalhado.

2.1 - O corpus

Para realização deste trabalho utilizamos o corpus do laboratório do qual fazemos parte, o LAFE - Laboratório de Aquisição da Fala e da Escrita – que dispõe de nove díades mãe-bebê. O período analisado das díades compreende a faixa etária que vai de 0 (zero) a 36 (trinta e seis) meses. Apresentamos estes dados através da tabela a seguir:

Criança

Situação atual da díade

Díade Sessões Sexo Idade na 1ª sessão Idade na última sessão Filmagens e transcrições A 12 M 13m 23 d 21m 03 d Concluídas B 48 M 02m 00d 24m 00 d Concluídas C 48 F 00m 15d 24m 00 d Concluídas D 04 F 24m 24d 31m 00 d Concluídas 1

O LAFE encontra-se sob coordenação das professoras Dra. Marianne Carvalho Bezerra Cavalcante (Coordenadora) e Dra. Evangelina M. B. de Faria (Vice-coordenadora). É vinculado à Pós-Graduação em Linguística da UFPB (Proling) e ao DLCV/UFPB. Nossos dados correspondem a gravações em vídeo feitas na casa da díade em que mãe e bebê interagem em contexto naturalístico. Cada sessão tem em média vinte minutos de duração.

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25 E 11 M 11m 05 d 20m 28 d Concluídas F 05 F 24m 11d 29m 11 d Concluída G 05 M 28m 12d 32m 08 d Concluída H 02 M 04m24d Concluída I 04 M 09m 28d Em andamento

Os dados correspondem a sessões quinzenais gravadas em vídeo-cassete, com duração média de vinte minutos cada, gravados em contexto o mais naturalístico possível na casa da díade. No intuito de dar mais visibilidade ao funcionamento multimodal ao longo da primeira infância, período que corresponde os três primeiros anos de vida da criança, organizamos os dados em grupos.

Grupo 1- Díades B; C; H Faixa etária 0 a 24 meses Grupo 2 – Díades A; E; I Faixa etária 11 a 21 meses Grupo 3 – Díades D; F; G Faixa etária 24 a 32 meses

Para este trabalho utilizaremos dados pertencentes às díades F (grupo 3) e E (grupo 2). 2.2 - Transcrição e Análise

A transcrição é ordenada por colunas, a da esquerda corresponde à linguagem materna e a da direita a linguagem do bebê. Utilizamos dois tipos de transcrição: uma transcrição segmental seguindo o IPA (Alfabeto Fonético Internacional) e uma transcrição ortográfica, abaixo da fonética, como forma de facilitar a leitura dos dados. As marcas suprassegmentais, descrição da qualidade vocal, registro, velocidade de fala, etc, aparecem em parênteses logo acima da transcrição fonética; as pausas vêm com seu tempo colocado em parêntese, por exemplo, (2s), representando uma pausa de dois segundos; as curvas entonacionais são delineadas na linha abaixo da transcrição fonética. A descrição gestual e outros recursos (expressões faciais, postura corporal olhar) são colocados em parêntese, na mesma linha da transcrição fonética.

A seguir, a tabela utilizada para fazer as transcrições:

DÍADE: IDADE: SESSÃO: TRANSCRITOR (A): Contexto:

(21)

26

Após tecermos variadas considerações a cerca da gestualidade, em especial do gesto emblemático e de explicitar a natureza do corpus aqui utilizado, passaremos às análises para melhor compreender como os emblemas se constituem como relevantes nos primeiros anos de vida do infante

3. COMPREENDENDO OS EMBLEMAS NAS PRIMEIRAS INTERAÇÕES MÃE-BEBÊ

Ao analisar os dados transcritos, selecionamos alguns fragmentos em que o gesto emblemático é usado pela díade como um recurso multimodal. Quanto à natureza das díades utilizadas (F e E), a díade F se trata de uma criança do sexo feminino; já a díade E, trata-se de uma criança do sexo masculino.

A partir das análises, vamos perceber como se dá a construção dos gestos emblemáticos pela criança, que utiliza desses aspectos para inserir-se nos contextos interativos. Vejamos os exemplos:

Exemplo1

Neste exemplo, a díade utilizada foi E, que estava com 11 meses. Contexto: Mãe brinca com o bebê e cantam parabéns.

T Olhar Gesto FALA/PROSÓDIA

(MÃE)

FALA/PROSÓDIA (BEBÊ)

Gesto Olhar

(22)

27

Esteexemplo,retirado da díade E, mostra um momento em que mãe e filho estão brincando. No primeiro turno, percebemos que a mãe começa cantando parabéns e o filho logo interage na cena, correspondendo à ação da mãe com sorrisos e gestos. Ao ouvir a mãe cantar “parabéns pra você”, a criança produz um gesto emblemático, sendo a mãe a propulsora da ação do bebê. Quanto a esse tipo de gesto, configura-se por ter um caráter convencional, ou seja, é um gesto determinado culturalmente, segundo o Contínuo de Kendon (1982).

Neste fragmento, o gesto emblemático não veio acompanhado de produção verbal, uma vez, que, segundo a classificação dada por Kendon (1982) em seu contínuo, o emblema não exige produção verbal, sendo um aspecto opcional. Portanto, o emblema pode ou não vir acompanhado e fala, como no caso do exemplo acima descrito.

Nesta cena, o emblema veio acompanhado de sorrisos do bebê, ou seja, o gesto não veio sozinho, veio acompanhado de outro aspecto multimodal. Tal observação corrobora com um dos pressupostos deste trabalho, no que se refere à multimodalidade da linguagem (McNiel, 1985); a criança utilizou de variados aspectos multimodais para interagir na cena.

No próximo exemplo, novamente, temos a utilização pelo bebê de um gesto emblemático. Igualmente à cena anterior, neste fragmento, mãe e bebê brincam de forma descontraída, utilizando brinquedos. Vejamos o exemplo:

MÃE BEBÊ

1. A mãe bate palma, olhando para o bebê

Parabeins pra você, desta data querida Sorrir e bate palma

2. A mãe pede um beijo ao bebê: dá um beju

3. veim dar um beijo im mamãi, vem Veim, dar um beiju im mamãi Bebê olha para mãe, sorrir e

dá um beijo e um abraço na mãe

3. volta a realizar o gesto pantomímico

como se estivesse faxinando

(23)

28

Exemplo2

Exemplo retirado novamente da díade E, com 11 meses. Contexto: Mãe bebê brinca com um carrinho no chão da sala.

A cena descrita acima mostra o momento em

O fragmento acima, também pertencente à díade anterior, traz à cena brinquedos usados pela mãe para chamar atenção do filho. No primeiro turno, a mãe imita o barulho do carrinho, mostrando para o filho como se brinca. O bebê, neste mesmo turno, brinca com o carrinho e sorrir.

Apesar da nítida atuação do bebê notada no turno 1, é no turno 3, que voltamos nossos olhares de observação, pois é nele que o bebê realiza um gesto emblemático. No turno 3, vendo o bebê se afastar para longe, a mãe diz: “veim Guga prá cá” ; é a partir desse chamamento que o bebê, correspondendo negativamente, balançando a cabeça e continua brincando longe da mãe.

O gesto de balançar a cabeça para dizer que não vai obedecer a mãe, mostra o gesto emblemático como sendo um recurso usado pelo infante para demonstrar não somente uma resposta ao chamamento da mãe, mas, com tal gesto, o bebê se configura como sujeito da ação da cena.

No fragmento seguinte, temos um exemplo de gesto emblemático de apontar, o qual tem como função a referenciação. Vejamos melhor a construção desse gesto dentro da aquisição da linguagem.

Exemplo3

MÃE BEBÊ

1. Mãe brinca com o carrinho mostrando brinca com o carrinho e rir como se brinca e imita o barulho do

carrinho: brum, veim Lucas olha!

2. Mãe com outro brinquedo chama o bb bebê brincando com outro carrinho, afastado da mãe

3. veim Guga prá cá Ao ser chamado pela mãe, o bebê balança a cabeça negativamente

e continua a brincar com seu carrinho

3. volta a realizar o gesto pantomímico

como se estivesse faxinando

(24)

29

Exemplo pertencente à díade E, com 12 meses.

Contexto: Mãe tenta chamar atenção do bebê para os brinquedos na cama

Neste fragmento, a mãe chama a atenção do bebê para um brinquedo que ela segura; porém, a criança não dá nenhuma importância e, logo em seguida, desce da cama. A mãe, no turno 2, tenta evitar que o filho desça para o chão tentando atrair a atenção do mesmo com o brinquedo que está segurando, mas, o bebê vê um carrinho no chão e tenta pegá-lo.

Usados vários recursos em vão, a mãe, no terceiro turno utiliza a música do brinquedo como um atrativo para apreender a atenção da criança, impedindo que a mesma permaneça no chão. Para tanto, como resposta à ação da mãe, o gesto emblemático de apontar é utilizado pela criança para, ao nosso vê, mostrar a música do brinquedo.

O apontar, nesse contexto, se configura, segundo Cavalcante (1994) como o apontar convencional, o qual se estende o braço e dedo indicador em direção a um objeto. Nesse exemplo, a criança estende o braço e aponta para o brinquedo que canta.

O próximo dado a analisar também se trata de um gesto emblemático de apontar, porém, ao contrário dos anteriores, nesse exemplo o gesto veio acompanhado de produção de fala. Passemos ao fragmento:

Exemplo 4

MÃE BEBÊ

1. Mostrando um brinquedo Não dá atenção à mãe e desce da

u outu bichinho aqui cama

2. Nu chãu não, pega essi brinquedo bebê tenta pegar um carrinho que tá no chão

aqui

3. Coloca o brinquedo pra tocar Ao vê o brinquedo que está com a mãe tocar, o bebê apon-

ta para o brinquedo.

3. volta a realizar o gesto pantomímico

como se estivesse faxinando

(25)

30

Exemplo da díade E

Contexto: Mãe arrumando o bebê no quarto após o banho; o bebê estava com 14 meses.

A cena descrita acima mostra o momento em que a ocorrência do gesto se dá acompanhada de produção de fala, o que até então não havia ocorrido nos exemplos anteriores.

Analisando tal cena, a primeira produção de fala produzida pelo infante estabelece uma ligação com a fala da mãe que antecede essa produção. O bebê produz “chuva, chuva”, ao ouvir primeiro da mãe tal palavra. É a partir dessa produção que o infante realiza o gesto de apontar, no turno 3 e mais uma vez realiza uma produção verbal.

É interessante mencionar que o gesto de apontar juntamente com a produção “aga”, no turno 3, foram consequências da atuação da mãe nesse contexto. Quando a mãe, no turno 2, produz:

“ é água sim, é água”, a mesma dá sentido à produção do infante, como também a seu gesto.

Parece-nos que o gesto de apontar, nesse caso, aparece no momento em que o bebê mostra a chuva pela janela, identificando-a. Tal observação vem melhor explicitar a ideia de referenciação do apontar, que, segundo Cavalcante (1994), esse processo de referência dentro da aquisição da linguagem se apresenta com dois objetivos, o de declarar e o de identificar, porém não podemos identificar, especificamente, qual dos dois estará sendo usado pela criança ao apontar para algo.

A partir dessas cenas percebemos que o bebê através de seu gesto emblemático (apontar) já é capaz de junto com a mãe, participar de um momento de interação. Outro ponto a ser destacado é o fato de o bebê já estar produzindo o gesto emblemático de apontar de forma consolidada, ou seja,

MÃE BEBÊ

1. Penteia o cabelo do bebê, diz: Olhando pela janela, diz: chuva, chuva chuva, chuva.

2. A mãe olha para o bb e fala: é água sim, O bebê olha para mãe e chupa é água o dedo

3. O bb aponta para a janela e diz:

aga e olha para mãe

3. volta a realizar o gesto pantomímico

como se estivesse faxinando

(26)

31

o bebê produz nos exemplos analisados, um apontar que se aproxima do apontar usado por adultos, com o braço estendido e o dedo indicador esticado.

Através dos exemplos até então analisados, percebemos que os gestos emblemáticos, diferentemente de outros gestos como a gesticulação, por exemplo, que depende diretamente do fluxo de fala, o apontar já se mostra consolidado aos 11 meses devido ao fato de que a sua produção se inicia muito cedo, pois não depende diretamente do fluxo de fala.

No fragmento abaixo, temos no turno 1, a presença de um emblema produzido pelo infante. Quanto ao uso desse gesto, percebemos que ele é produzido em resposta, por parte da criança, a ser acusada pela mãe de bagunçar os brinquedos. Ao balançar a cabeça negativamente diante da acusação da mãe, parece-nos que a criança utiliza o gesto com mesma finalidade que usam os adultos para negar algo.

Vejamos o fragmento do qual nos referimos:

Exemplo 5

Pertencente à díade E, com 12 meses.

Contexto: Mãe brigando com o bebê por bagunçar os brinquedos do quarto.

Quanto à ocorrência do gesto de apontar, também realizado nesse fragmento, sua produção está associada á referenciação de um objeto. A criança, nos turnos 2 e 3 aponta para o berço. Parece-nos que nesse caso, o apontar é usado para chamar a atenção da mãe para um brinquedo que se encontra no berço. Apesar de insistir em apontar para o objeto, a mãe não dá atenção à criança, a levando para outro lugar da casa.

MÃE BEBÊ

1. Venhá cá, Lucas, vou mostra a teu pai Bebê balança a cabeça negati-

Foi você que fez isso?ui papai vai brigar vamente ui, ui, vai apanhar nu bum bum..

2. Bebê aponta para o berço, on- de está um brinquedo

3. A mãe bate de leve no bum bum

do bebê e o leva do quarto e diz: O bebê aponta para o berço

ui, ui, ui, vai apanhar no bum no momento que é levado bum pela mãe.

(27)

32

No fragmento a seguir, temos novamente a construção do gesto emblemático junto a uma produção de fala. Esse exemplo pertence á díade F.

Exemplo 6

Pertencente à díade F, com 29 meses.

Contexto: Mãe e criança (29m) na sala brincando com o celular.

O fragmento acima se trata de um momento em que mãe interage com o bebê através de um brinquedo de celular. Ao observarmos essa cena, percebemos que no turno 2 há uma produção gestual do bebê na interação. A criança de 24 meses já produz um gesto emblemático (KENDON, 1982), ao colocar, no turno 1 e no turno7, o telefone no ouvido.

MÃE BEBÊ

1. Fala, já ligô, já ligô, já ligô, fala agora (Bb coloca o celular no ouvido) (Bb mexendo no celular)

2. Já ligô, fali agora Prontu

3. Prontu. .

Ligô? Intãu fali. Deixa eu vê

Tá chamandu olha. Alô: cacau:

tudu bem? A gabriela que falá (Bb dá o celular para mãe)

cum você, um momentsinhu,

(entrega o celular para bb) fala

4. (Mãe ri e fala) disligô naum,

disligô naum, ela é esperta, ela Agô (Bb olha para a câmara)

sabi qui quandu tá ligadu tá acessu

5. Ligô, agora ligo (balança a cabeça (Bb mexe no celular e diz)

afirmativamente) Ligô

6. Agora aqui, si você ficá liganu e

(28)

33

Além de ser considerado como um gesto emblemático, o ato de colocar o telefone ao ouvido é definido como um gesto pantomímico, classificado segundo o Contínuo de Kendon (1982) como um gesto que simula ação, pois o bebê simula que está falando ao telefone com alguém. O bebê brinca, simula a ação dentro de um contexto em que a mãe propulsiona a interação, uma vez que ela chama no tuno1a atenção do bebê para simular uma conversa ao telefone. É a partir desse chamamento que a criança produz o gesto, levando ao ouvido o telefone, simulando uma conversa. É notório perceber a mãe estabelece a interação com o bebê, sempre perguntando sobre a ação praticada pelo infante, de modo que a mãe não deixa cair no vácuo qualquer ação da criança, pelo contrário, dá sempre significação a atitude da mesma. Essa observação é comprovada no turno seguinte, no qual a mãe pergunta se a criança telefonou para alguém e “inventa” uma conversa que o bebê teria falado ao telefone, instigando o mesmo a interagir cada vez mais.

Portanto, a mãe reconhece a criança como sujeita da ação, inserindo-a no contexto linguístico através da interação.

3.1 Análise quantitativa dos gestos emblemáticos

A análise abaixo se refere à quantidade de gestos emblemáticos ocorridos nas díades analisadas; são análises de ordem quantitativa. Além de apresentar, através dos gráficos, a quantidade de emblemas produzidos em cada sessão das duas díades utilizadas neste trabalho, as figuras também nos mostram a quantidade de gestos ocorridos com presença ou ausência de fala.

 Díade F; Grupo 3; Faixa etária de 24 á 29 meses.

Sessão Idade Gestos

Emblemáticos Ausência de fala Presença de fala 1 24m 11d 11 6 5 2 25m 06d 2 - 2

(29)

34

3 26m 25d 5 2 3

4 29m 11d

7 - 7

 Díade E; Grupo 2; Faixa etária de 11 à 20 meses.

Sessão Idade Gestos

Emblemáticos Ausência de fala Presença de fala 1 11m 05d 6 5 2 2 12m 17d 7 5 2 3 13m 21d 7 4 3 4 14m 06d 4 2 2

Acima estão expostos os quadros que representam a distribuição os gestos emblemáticos ocorridos com ou sem produção de fala. Na díade F, podemos perceber que há grande ocorrência de gestos emblemáticos com presença de fala, já que na díade E, os gestos emblemáticos ocorrem em muitas vezes sem a presença de produção verbal.

(30)

35

Graficamente, os gestos emblemáticos com ou sem presença de fala podem ser representados dessa forma:

 Díade F - Grupo 3 - Faixa etária de 24 à 29 meses.

Gráfico 1

Através do gráfico 1, podemos notar que os gestos emblemáticos na díade analisada, ocorrem com mais freqüência na presença de produção verbal. Isso implica que, além do gesto, o bebê fez uso várias vezes da fala para inserir-se no contexto interativo com a mãe.

Como mencionado anteriormente, notamos também que a díade F produz maior quantidade de gestos emblemáticos na presença de fala, se comparar ao bebê da díade E, representado logo abaixo pelo gráfico 2; perceberemos que a construção dos emblemas dessa díade se dá,em grande maioria, na ausência de fala.

 Díade E- Grupo 2 - Faixa etária de 11 à 20 meses.

0 1 2 3 4 5 6 7 8 24m e11d 25m e 06d 26m e 25d 29m e 11d Aus. Fala Pres. Fala

(31)

36

Gráfico 2

Quantitativamente, todos os gestos emblemáticos das díades analisadas estão representados dessa forma:

 Díade F - Grupo 3 - Faixa etária de 24 à 29 meses.

Gráfico 3

 Díade E - Grupo 2 - Faixa etária de 11 à 20 meses.

0 1 2 3 4 5 6 11m e 05d 12m e 17d 13m e 21d 14m e 06d Aus. Fala Pres. Fala 0 2 4 6 8 10 12

24m e 11 dias 25m e 06 dias 26m e 25dias 29m e 05 dias

Gestos emblemáticos

(32)

37

Gráfico 4

Através dos gráficos expostos, podemos visualizar melhor a produção dos gestos emblemáticos pela díade em cada faixa etária.

A díade F (gráfico 3) teve maior produção de emblemas na faixa etária dos 24 meses e a menor nos mês posterior, 25 meses de idade. Percebe-se uma diminuição dos gestos emblemáticos de acordo com a progressão de idade do bebê.

Já na díade E (gráfico 4), os emblemas não diminuem com o aumento da idade. Porém, temos que levar em consideração que a criança da díade E se trata de um bebê mais novo do que o da díade F, com isso, provavelmente, utilizará com mais frequência os gestos em suas interações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As investigações que envolvem a fala da criança a muito que é estudado e tem despertado interesse de várias áreas de estudo. É nesse sentido que o referido trabalho é justificado, uma vez que através de pistas dadas pela criança no momento de interação nos possibilita entender melhor como se dá a aquisição na primeira infância.

Através das discussões e análises expostas ao longo deste trabalho, constatamos a grande relevância que os gestos exercem no processo de aquisição de linguagem. Tais ferramentas gestuais auxiliam na comunicação dos bebês, que ainda não dominam plenamente as estruturas linguísticas, com os adultos a sua volta.

Vimos com os fragmentos trazidos que os gestos emblemáticos podem ser vistas como um recurso que o bebê e a mãe utilizam para atingirem objetivos. Nos fragmentos utilizados,

0 1 2 3 4 5 6 7 8

11m e 05 dias 12m e 17 dias 13m e 21 dias 14m e 06 dias

Gestos emblemáticos

(33)

38

verificamos que vários tipos de emblemas foram utilizados, principalmente, o gesto de apontar, considerado bastante relevante para aquisição. Na construção dos emblemas, em certos fragmentos, pudemos notar que os mesmos estabeleciam relação com produção de fala, em outros, a ocorrência de produção vocal era ausente. Porém, na maioria dos exemplos, os gestos emblemáticos vinham acompanhados de outros recursos multimodais, estabelecendo relação com os mesmos.

Após verificarmos a influência da mãe dentro do contexto das cenas, torna-se possível considerar que o papel do outro na interação se configura relevante, uma vez que, na maioria das ocorrências dos emblemas, anteriormente, havia a atuação da mãe na construção dialógica dos fragmentos. Pudemos notar que a mãe, frequentemente, atribuía sentido á ação da criança, tornando possível a interação entre ambos.

Constatamos também, através dos fragmentos destacadas, que essa relação entre gesto e fluxo de fala também se faz presente durante o processo de aquisição da linguagem, não sendo uma marca apenas dos falantes adultos.

Por fim, consideramos muito importante a presença do gesto emblemático no desenvolvimento da linguagem infantil, uma vez que o mesmo exerce importante papel na comunicação entre mãe e bebê; assim como também, ressaltamos a importância dos estudos acerca da multimodalidade em aquisição da linguagem, pois entendemos que gesto e fala se cruzam indissociavelmente dentro deste processo de aquisição.

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