!"#
"$
&
'(' )*+'(',-).))/0+(/.'1(2+).0)35/'6 7(9:);'-/+.'9<,:9)(=)-)(;.),9>'+(9.).' '.'+)? ./ )+),@; :/6/ +'A09(9-/ *)+:9)? B /D-',35/./-7-0?/.'/0-/+)'67(9:)E
+9',-)./++/FE+E9:)+./09G9),)E
H
!"#$%&'$(
)*$+#$!(-%'! $&!&$%.($/!$&&01(11!#24!&/(0!1-$'/$!%$16'%!1#$%
&'$( !78*$'$#"9:;7 9907<$7/!!7=:/(7
1>%$1$&&&&!%?"'!&$@%/$16'1"!-(&A1>&*24!(
+1$/"9:;7
$%'&!<$/&!*$BC$%7
7)*$+#$!797'*#24!&!)*$+#$!77$% 1&/(0!(-%D'$/!7E7 1 (-%D'$/17F72G1&!$%/D77%$1$&&&&!%?77C$%"$/&!*$B7 7+'*!7
<F7F $#$!'/?$<!($&%'!1>>H9E
“A ciˆencia, meu rapaz, ´e feita de erros, mas erros bons de cometer, pois levam aos poucos `a verdade”.
Julio Verne - Viagem ao Centro da Terra.
Agradecimentos
• Ao Prof. Dr. Ricardo Luiz Viana pela orienta¸c˜ao e sugest˜ao do projeto.
• A minha fam´ılia.`
• Aos amigos e amigas: Bruno, Crislaine, Fabiano, Luana, Marlon, Taline e Talita pelo apoio, conselhos e amizade.
• Aos meus colegas de p´os-gradua¸c˜ao.
• Aos membros da banca.
• A CAPES pelo suporte financeiro.`
• Ao grupo FISUX pelo c´odigo de formata¸c˜ao dessa tese.
RESUMO
Nesta tese apresentamos uma formula¸c˜ao generalizada para o equil´ıbrio MHD na pre- sen¸ca de um campo gravitacional externo em sistemas sim´etricos com uma coordenada ignor´avel. Esta descri¸c˜ao foi feita considerando processos isot´ermicos e adi´abaticos. So- lu¸c˜oes anal´ıticas exatas s˜ao apresentadas para coordenadas retangulares, cil´ındricas e es- f´ericas. Adicionamos uma perturba¸c˜ao no equil´ıbrio MHD cil´ındrico, para um processo isot´ermico, por meio de campos magn´eticos externos peri´odicos, afim de visualizar a for- ma¸c˜ao de ilhas magn´eticas. Considerando a superposi¸c˜ao dos campos magn´eticos de equi- l´ıbrio e perturbativo, obtemos se¸c˜oes de Poincar´e do espa¸co fase do sistema, por integra¸c˜ao num´erica das equa¸c˜oes das linhas de campo. Empregando uma formula¸c˜ao hamiltoniana
`
as linhas de campo magn´etico e, por meio de um tratamento perturbativo do problema, obtemos uma express˜ao anal´ıtica para a largura das ilhas magn´eticas. Tal express˜ao foi obtida considerando que as ilhas magn´eticas que surgem devido `a perturba¸c˜ao podem ser descritas pela aproxima¸c˜ao do pˆendulo. Por fim, comparamos resultados num´ericos e ana- l´ıticos dos pontos fixos el´ıpticos, que surgem quando uma superf´ıcie magn´etica ressonante
´e destru´ıda devido `a perturba¸c˜ao. Comparamos tamb´em as larguras das ilhas magn´eticas obtidas pelas se¸c˜oes de Poincar´e, com as larguras dadas pela express˜ao anal´ıtica na apro- xima¸c˜ao do pˆendulo.
Palavras-chave: equil´ıbrio MHD, perturba¸c˜ao do equil´ıbrio MHD, linhas de campo mag- n´etico, ilhas magn´eticas, se¸c˜oes de Poincar´e.
ABSTRACT
In this work we present a general formulation for MHD equilibrium in the presence of an external gravitational field in simmetric systems with one ignorable coordinate. Such description was made considering both adiabatic and isotherm process. Exact analytic solutions are presented for rectangular, cilindrical and espherical coordinates. By add an external and periodic perturbation field on MHD cilindrical equilibrium, for isotherm process, we visualize the magnetic islands in Poincar´e’s sections. The Poincar´e’s sections was obtained by numeric integration of the magnetic field lines, considering the superpo- sition of both equilibrium and perturbation fileds. By using a hamiltonian formulation for the magnetic field lines with a peturbation treatment of the problem, we obtained an analytical expression for magnetic islands widths. Such expression was obtained by pen- dulum’s approximation, which is an assumption that the magnetic islands resembles the pendulum phase space trajectories, if the perturbation is weak. We compared numerical and analytical results for the eliptic fixed points that arises when a ressonant magnetic surface is destroyed. At last we compared the numerical (Poincar´e’s sections) and analy- tical results for the magnetic islands widths.
Keywords: MHD equilibrium, magnetic field lines, perturbation of MHD equilibrium, magnetic islands, Poincar´e’s sections.
LISTA DE FIGURAS
2.1 Varia¸c˜ao da grandeza f no tempo e no espa¸co.. . . 19 2.2 Elemento de ´area da superf´ıcieS0. . . 20 2.3 For¸cas de press˜ao sobre um fluido. . . 22 2.4 ReferencialKno qual o fluido est´a em repouso relativo e se movendo em rela¸c˜ao
a K. . . 27 2.5 Deslocamento de uma superf´ıcie devido aos movimentos do plasma. Figura re-
tirada de [9]. . . 30 2.6 Ilustra¸c˜ao do congelamento de fluxo magn´etico. Figura retirada de [9]. . . 31 3.1 Elemento de superf´ıcie poloidal dSp em corte. Figura adaptada de [53]. . . 34 3.2 Linhas de campo e corrente sobre superf´ıcies isob´aricas. Figura adaptada de [2]. 41 3.3 Campo gravitacional em coordenadas retangulares, ondey´e a coordenada igno-
r´avel. . . 44 3.4 Fun¸c˜ao de fluxo Ψ para trˆes valores do parˆametro τ, definido como a raz˜ao da
energia potencial gravitacional pela energia t´ermica do plasma em coordenadas retangulares, para um processo isot´ermico.. . . 46 3.5 Componente Bz do campo magn´etico magn´etico em (a) e componente Jy da
densidade de corrente em (b), no sistema de coordenadas retangulares, para um processo isot´ermico. . . 47 3.6 Linhas de campo magn´etico no plano y= constante, em coordenadas retangu-
lares, para um processo isot´ermico.. . . 48 3.7 Fun¸c˜ao de fluxo Ψ para trˆes valores do parˆametro Γ, definido como a raz˜ao da
energia potencial gravitacional pela energia t´ermica do plasma, para um processo adiab´atico em coordenadas retangulares. . . 50 3.8 Componente Bz do campo magn´etico em (a) e componente Jy da densidade de
corrente em (b), para um processo adiab´atico em coordenadas retangulares. . . 51 3.9 Linhas de campo magn´etico para diferentes valores de z0, para um processo
adiab´atico em coordenadas retangulares. . . 52 3.10 Campo gravitacional em coordenadas cil´ındricas, ondez´e a coordenada ignor´avel. 53 3.11 Fun¸c˜ao de fluxo Ψ para trˆes valores do parˆametro ξ definido como a raz˜ao da
energia potencial gravitacional pela energia t´ermica do plasma, para um processo isot´ermico em coordenadas cil´ındricas. . . 54
3.12 Componente Bθ do campo magn´etico em (a) e componente Jz da densidade de
corrente em (b), em coordenadas cil´ındricas para um processo isot´ermico. . . 55
3.13 Linhas de campo magn´etico para o equil´ıbrio MHD isot´ermico com geometria cil´ındrica, para trˆes valores deξ. . . 56
3.14 Fun¸c˜ao de fluxo magn´etico para trˆes valores do parˆametro Λ, definido como a raz˜ao da energia potencial gravitacional pela energia t´ermica, para um processo adiab´atico em coordenadas cil´ındricas. . . 58
3.15 Componente Bθ do campo magn´etico em (a) e componente Jz da densidade de corrente em (b) para trˆes valores do parˆametro Λ. . . 59
3.16 Linhas de campo magn´etico para o equil´ıbrio MHD adiab´atico com geometria cil´ındrica, para trˆes valores de Λ.. . . 60
3.17 Representa¸c˜ao do campo gravitacional em geometria esf´erica, onde o ˆangulo φ´e a coordenada ignor´avel. . . 61
3.18 Fun¸c˜ao de fluxo Ψ para o equil´ıbrio MHD isot´ermico esf´erico, para trˆes valores do parˆametro definido como a raz˜ao da energia potencial gravitacional pela energia t´ermica do plasma: (a)= 0,5; (b)= 1,0 e (c)= 1,5.. . . 63
3.19 ComponenteBr do campo magn´etico para o equil´ıbrio MHD isot´ermico na geo- metria esf´erica, para trˆes valores do parˆametro . . . 64
3.20 ComponenteBθ do campo magn´etico para o equil´ıbrio MHD isot´ermico na geo- metria esf´erica, para trˆes valores de.. . . 65
3.21 Componente Bφ do campo magn´etico para o equil´ıbrio MHD isot´ermico na ge- ometria esf´erica. . . 65
3.22 Superf´ıcies magn´eticas para o equil´ıbrio MHD isot´ermico no sistema de coorde- nadas esf´ericas, para trˆes valores de , (a)= 0,5; (b)= 1,0 e (c)= 1,5. . 67
4.1 Inclina¸c˜ao local de uma linha de campo magn´etico representada bidimensional- mente. Figura adaptada de [38]. . . 69
4.2 Intersec¸c˜ao de pontos discretos nas superf´ıcies magn´eticas racionais. . . 70
4.3 Intersec¸c˜oes cont´ınuas de pontos sobre superf´ıcies magn´eticas irracionais. . . 72
4.4 Sequˆencia de pulsos quadrados do campo perturbativo. . . 76
4.5 Espa¸co de fase ΔJ×θˆdo pˆendulo . . . 80
4.6 Varia¸c˜ao derm/ncom o expoenteξ(raz˜ao entre a energia potencial gravitacional e t´ermica do plasma) para m= 4 en= 3; 4 e 5. . . 81
4.7 Varia¸c˜ao de ΔJm/n em fun¸c˜ao do parˆametroξ para m= 4, com intensidade de perturba¸c˜ao ε= 0,0025 en= 3; 4 e 5. . . 82
4.8 Varia¸c˜ao derm/n com npara trˆes valores do expoente ξ. . . 82
4.9 Varia¸c˜ao de ΔJm/n em fun¸c˜ao den para trˆes valores do expoenteξ, com inten- sidade de perturba¸c˜ao ε= 0,0025. . . 83
4.10 Varia¸c˜ao de ΔJm/n com a intensidade de perturba¸c˜ao ε, para trˆes valores do expoente ξ, quando n= 1. . . 84
4.11 Varia¸c˜ao de ΔJm/n com a intensidade de perturba¸c˜ao ε, para trˆes valores do expoente ξ, paran= 2. . . 84 4.12 Intersec¸c˜ao de pontos em superf´ıcies racionais e irracionais. . . 85 4.13 Se¸c˜ao de Poincar´e em um cilindro. Figura adaptada de [52]. . . 85 4.14 Superf´ıcies magn´eticas na ausˆencia de perturba¸c˜ao externa no plano (x×y). . . 86 4.15 Superf´ıcies magn´eticas na ausˆencia de perturba¸c˜ao externa no plano (r×θ). . . 87 4.16 Espa¸co de faser×θ, param = 4 eξ = 0,5, com intensidade de perturba¸c˜ao
ε = 0,0025. . . 88 4.17 Espa¸co de fase r ×θ, para m = 4 e ξ = 1,0, com intensidade de perturba¸c˜ao
ε= 0,0025. . . 88 4.18 Espa¸co de fase r ×θ, para m = 4 e ξ = 1,5, com intensidade de perturba¸c˜ao
ε= 0,0025. . . 89 4.19 Esquema de medida num´erica do centro de uma ilha magn´etica, a figura repre-
senta uma magnifica¸c˜ao da figura4.16.. . . 90 4.20 Esquema de medi¸c˜ao da largura de uma ilha magn´etica, a figura representa a
magnifica¸c˜ao da figura4.16. . . 91 A.1 Coordenadas covariantes e contravariantes. Figura adaptada de [54]. . . 99 A.2 Coordenadas covariantes e contravariantes num sistema de trˆes eixos.Figura re-
tirada de [55]. . . 100 A.3 Superf´ıcies coordenadas. Figura retirada de [55] . . . 100
LISTA DE TABELAS
4.1 Valores num´ericos e anal´ıticos de rm/n paraξ= 0,5.. . . 90
4.2 Valores num´ericos e anal´ıticos de rm/n paraξ= 1,0.. . . 90
4.3 Valores num´ericos e anal´ıticos de rm/n paraξ= 1,5.. . . 90
4.4 Valores num´ericos e anal´ıticos de ΔJm/n paraξ = 0,5 e ξ= 1,5. . . 91
SUM ´ ARIO
1 Introdu¸c˜ao 14
2 Equa¸c˜oes da MHD ideal 19
2.1 Equa¸c˜oes da Hidrodinˆamica Cl´assica . . . 19
2.1.1 Derivada convectiva . . . 19
2.1.2 Equa¸c˜ao da Continuidade . . . 20
2.1.3 Fluidos ideais: equa¸c˜ao de Euler . . . 21
2.1.4 Fluidos ideais: fluxo de energia . . . 23
2.2 Equa¸c˜oes do eletromagnetismo . . . 23
2.2.1 Equa¸c˜oes de Maxwell no v´acuo . . . 23
2.2.2 Equa¸c˜ao de conserva¸c˜ao da carga . . . 25
2.2.3 For¸ca de Lorentz e Potenciais . . . 25
2.2.4 Lei de Ohm generalizada . . . 26
2.3 Equa¸c˜oes da MHD ideal . . . 27
2.4 Teorema de Alfv´en . . . 29
3 Equil´ıbrio MHD em plasmas sim´etricos com campo gravi- tacional externo 32 3.1 Condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico . . . 32
3.1.1 Fun¸c˜ao de fluxo magn´etico transversal . . . 33
3.1.2 Fun¸c˜ao de fluxo de corrente . . . 36
3.2 Equa¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico na presen¸ca de campo gravi- tacional . . . 38
3.2.1 Equa¸c˜ao para um processo isot´ermico . . . 42
3.2.2 Equa¸c˜ao para um processo adiab´atico . . . 42
3.3 Solu¸c˜oes anal´ıticas para processos isot´ermicos e adiab´aticos . . . . 43
3.3.1 Solu¸c˜oes em coordenadas retangulares . . . 44
3.3.2 Solu¸c˜ao em coordenadas cil´ındricas . . . 52
3.3.3 Solu¸c˜ao em coordenadas esf´ericas . . . 60
4 Perturba¸c˜ao do equil´ıbrio MHD 68 4.1 Fator de seguran¸ca e superf´ıcies ressonantes . . . 69
4.1.1 Superf´ıcies invariantes - Teorema KAM . . . 71
4.2 Formalismo Hamiltoniano das linhas de campo magn´etico . . . 73
4.2.1 Parte integr´avel . . . 73
4.2.2 Parte n˜ao-integr´avel . . . 74
4.3 Forma¸c˜ao de ilhas magn´eticas . . . 78
4.4 Se¸c˜oes de Poincar´e . . . 85
4.4.1 Mapeamento na ausˆencia de perturba¸c˜ao . . . 85
4.4.2 Mapeamento na presen¸ca de perturba¸c˜ao . . . 87
5 Considera¸c˜oes Finais e Perspectivas Futuras 93 Referˆencias 95 A Coordendas curvil´ıneas generalizadas 99 A.1 Coordenadas e vetores de base . . . 99
A.2 Elementos de linha, ´area e volume . . . 103
A.3 O tensor m´etrico . . . 103
A.4 Componentes vetoriais . . . 104
A.5 Operadores diferenciais . . . 107 B Formalismo hamiltoniano para as linhas de campo magn´e-
tico em coordenadas curvil´ıneas generalizadas 108
C Artigo publicado 112
Cap´ıtulo 1
Introdu¸ c˜ ao
A descri¸c˜ao de fluidos condutores sob a a¸c˜ao de campos magn´eticos pode ser feita conciliando equa¸c˜oes da hidrodinˆamica cl´assica com as equa¸c˜oes do eletromagnetismo, re- sultando nas equa¸c˜oes magnetohidrodinˆamicas (MHD). Se considerarmos um fluido con- dutor ideal, podemos ent˜ao obter um conjunto de equa¸c˜oes da MHD ideal [1]. Um fluido condutor pode ser um g´as aquecido a uma temperatura muito elevada afim de provocar a dissocia¸c˜ao das suas mol´eculas atˆomicas, fazendo com que este fique ionizado. Designamos por plasma um g´as ionizado que apresenta: comportamento coletivo, o que possibilita que ele possa ser adequadamente descrito como um fluido cont´ınuo, e a quase-neutralidade [2, 3]. No contexto astrof´ısico existem diversas aplica¸c˜oes da MHD ideal, em particular na descri¸c˜ao de v´arias estruturas da atmosfera solar, onde a condutividade el´etrica do plasma ´e muito alta e sua viscosidade suficientemente baixa [4–6].
O plasma possui habilidade em blindar campos el´etricos externos. Quando o plasma ´e sujeito a um potencial el´etrico externo rapidamente forma-se uma nuvem de blindagem eletrˆonica no seu interior [2,3]. Contudo, essa blindagem eletrˆonica n˜ao ´e perfeita devido ao seu movimento t´ermico [2]. Nas regi˜oes da nuvem de blindagem eletrˆonica em que a energia potencial el´etrica ´e da ordem da energia t´ermica do plasma, algumas part´ıculas escapam do potencial el´etrico e carregam campos el´etricos para o interior do mesmo [2].
Dizemos que o plasma ´e quase-neutro, isto ´e, neutro o suficiente para tomarmos o n´umero de el´etrons aproximadamente igual ao n´umero de ´ıons em seu interior, por´em n˜ao neutro o suficiente para que todas as for¸cas eletromagn´eticas de interesse desapare¸cam [2]. Al´em disso, em um plasma a frequˆencia das suas oscila¸c˜oes eletromagn´eticas deve ser maior que a sua frequˆencia colisional com ´atomos neutros. Deste modo, o movimento ser´a governado predominantemente por for¸cas eletromagn´eticas e n˜ao por for¸cas hidrodinˆamicas [2, 7].
Embora a transi¸c˜ao de um g´as para um plasma n˜ao seja considerada uma transi¸c˜ao de fase no sentido termodinˆamico [3], uma vez que, n˜ao ocorre `a temperatura constante,
´e frequente nos depararmos com a designa¸c˜ao de plasma como o quarto estado da ma- t´eria. Isto se deve a sua ocorrˆencia espontˆanea na natureza. A maior parte da mat´eria no universo existe no estado de plasma [2, 3, 8]. Os gases no interior das estrelas est˜ao
14
15 ionizados devido a sua alta temperatura [9]. A camada mais externa da atmosfera solar, a corona solar, tem uma alta temperatura, da ordem de T ∼3×106K e baixa densidade, n∼1020m−3 [9–11]. Deste modo, todo o Hidrogˆenio e H´elio l´a existentes est˜ao completa- mente ionizados, formando um plasma [9–12]. Como a corona solar constitui a parte mais externa da atmosfera solar, ´e nela que s˜ao observadas as proeminˆencias solares, as quais s˜ao estruturas na forma de al¸cas, que surgem devido ao campo magn´etico solar [10–12].
Quando essas estruturas solares se rompem formam o vento solar [9,10,12]. Sendo assim, a composi¸c˜ao de estrelas, nebulosas, o vento solar, s˜ao formas de plasmas [2,12].
No n´ucleo de estrelas, como o Sol, ocorrem constantemente processos de fus˜ao nuclear, com temperaturas da ordem de 106K, sendo as rea¸c˜oes com is´otopos de hidrogˆenio,2H, as mais comuns, na qual o principal produto gerado ´e o is´otopo de H´elio,4He[3,13]. Devido a enorme quantidade de energia liberada em um processo de fus˜ao nuclear, ocorre a expans˜ao t´ermica da estrela. A densidade no centro da estrela torna-se muito elevada, gerando um campo gravitacional intenso. Este campo gravitacional contrabalan¸ca a expans˜ao t´ermica mantendo a estabilidade da estrela. Portanto, na descri¸c˜ao de problemas astrof´ısicos em que ´e poss´ıvel tratar o plasma como um fluido condutor ideal, al´em das equa¸c˜oes usuais da MHD ideal ´e necess´ario adicionar uma equa¸c˜ao para o campo gravitacional. De modo geral, o problema em acoplar equa¸c˜oes hidromagn´eticas e gravitacionais consiste na dificuldade em resolvˆe-las, ainda que numericamente. Contudo, uma simplifica¸c˜ao ´util surge quando o campo gravitacional n˜ao depende do plasma em si, ou seja, quando ele
´e externo [14]. Esta ´e uma considera¸c˜ao razo´avel se a densidade da regi˜ao de plasma considerada no problema for muito pequena [15]. Deste modo, a influˆencia da densidade do plasma sobre o pr´oprio campo gravitacional deve ser desprez´ıvel quando comparada com a influˆencia do campo gravitacional externo.
O equil´ıbrio hidromagn´etico de plasmas em um campo gravitacional uniforme foi consi- derado no trabalho de Kippenhahn e Schl¨uter de 1957, descrevendo proeminˆencias solares quiescentes em coordenadas retangulares [16]. Solu¸c˜oes anal´ıticas para coordenadas retan- gulares foram estudadas por Khater et al., utilizando o m´etodo de an´alise de Painlev´e [17].
Outros tipos de fenˆomenos astrof´ısicos, como jatos extragal´acticos, podem ser descritos fazendo o uso de coordenadas cil´ındricas [18]. As coordenadas esf´ericas, que s˜ao escolhas naturais para investigar o plasma coronal solar, foram tratadas por Hundhausen et al.
[19, 20], Tsinganos et al. [21], e Neukirch [22], que obtiveram solu¸c˜oes anal´ıticas para as equa¸c˜oes MHD ideais. Vlahakis e Tsinganos propuseram um m´etodo sistem´atico para a obten¸c˜ao de classes gerais de equil´ıbrio MHD com simetria azimutal [23]. A estabilidade de plasmas gravitantes em repouso em um campo magn´etico foi discutida em [24] para plasmas ideais e em [25] para plasmas dissipativos.
As equa¸c˜oes da MHD ideal podem ser escritas de forma geral usando um sistema de coordenadas curvil´ıneas arbitr´arias, desde que o sistema tenha uma coordenada ignor´avel, ou seja, uma assimetria de eixo generalizada [26]. Uma formula¸c˜ao relacionada foi dada
16 por Kucinski e Caldas [27]. Nestes casos, o equil´ıbrio do plasma ´e descrito por duas fun¸c˜oes de superf´ıcie, denominadas como o fluxo magn´etico transversal e as fun¸c˜oes de corrente transversal, obedecendo a uma vers˜ao generalizada da equa¸c˜ao de Grad-Shafranov [28,29].
Na literatura n˜ao ´e conhecida uma descri¸c˜ao geral do equil´ıbrio MHD (est´atico) na presen¸ca de um campo gravitacional externo, para sistemas axissim´etricos, em fun¸c˜ao de uma fun¸c˜ao de fluxo magn´etico transversal. Portanto, um dos objetivos deste trabalho consiste em: obter uma equa¸c˜ao em um sistema de coordenadas curvil´ıneas generaliza- das que descreva o equil´ıbrio MHD ideal est´atico na presen¸ca de um campo gravitacional externo, em sistemas com simetria axial. Para isso, utilizaremos o formalismo geral para equil´ıbrio MHD est´atico ideal descrito em [27] para sistemas com simetria axial, adicio- nando o campo gravitacional produzido por uma fonte externa. Isso equivale a incluir uma terceira fun¸c˜ao, ou seja, o potencial gravitacional (ou a fun¸c˜ao equivalente para uma for¸ca externa geral). Para fechar o sistema de equa¸c˜oes, ´e necess´ario ter alguma informa¸c˜ao termodinˆamica para determinar a densidade do plasma. Portanto, para seguir na dedu-
¸c˜ao da equa¸c˜ao consideramos, apenas como modelos, processos isot´ermicos e adiab´aticos.
Com a obten¸c˜ao das equa¸c˜oes para processos isot´ermicos e adiab´aticos o pr´oximo objetivo consistem em: obter solu¸c˜oes anal´ıticas em alguns sistemas de coordenadas. Considera- mos as geometrias retangulares, cil´ındricas e esf´ericas, tanto para casos isot´ermicos como adiab´aticos. Em alguns desses processos, existem solu¸c˜oes anal´ıticas para a fun¸c˜ao de fluxo transversal, utilizando perfis espec´ıficos para as fun¸c˜oes de superf´ıcie restantes.
O terceiro e ´ultimo objetivo deste trabalho ´e observar a quebra de simetria no equil´ıbrio MHD cil´ındrico em um processo isot´ermico, sob a influˆencia de uma perturba¸c˜ao externa e peri´odica. Fisicamente uma perturba¸c˜ao do equil´ıbrio MHD ´e respons´avel pela quebra de simetria do sistema [11,30,31], de modo que, torna-se imposs´ıvel definir superf´ıcies mag- n´eticas. Perturba¸c˜oes podem ser originadas por instabilidades que ocorrem no interior do plasma [9,11], ou por meio de campos magn´eticos externos que dependam explicitamente da coordenada que hav´ıamos considerado ignor´avel [11].
Muitos matem´aticos pensavam que uma ligeira perturba¸c˜ao em um sistema integr´a- vel destruiria sua integrabilidade e consequentemente este passaria a ser n˜ao-integr´avel [30–32]. Contudo, o espa¸co de fase de um sistema perturbado mostra que a maioria dos toros invariantes sobrevivem a uma perturba¸c˜ao, ainda que tenham uma forma distorcida [30–32]. Em 1962-1963 foi demonstrado rigorosamente por Vladimir I. Arnold e J¨urgen Moser, de acordo com sugest˜oes de Kolmogorov em 1954, que para uma perturba¸c˜ao de intensidade suficientemente baixa os toros que apenas tˆem suas formas modificadas de- vido a perturba¸c˜ao, preenchem a maior parte do espa¸co de fase. J´a os toros destru´ıdos distribuem-se de maneira irregular no espa¸co de fase entre os toros preservados, e seus vo- lumes tendem a zero [30]. Essa demonstra¸c˜ao ficou conhecida como teorema Kolmogorov- Arnold-Moser, o bem conhecido teorema KAM [31,32]. Os toros que s˜ao destru´ıdos com a perturba¸c˜ao possuem uma rela¸c˜ao de comensurabilidade entre suas frequˆencias, sendo
17 portanto chamados de toros racionais. Os toros destru´ıdos s˜ao tamb´em mencionados como superf´ıcies ressonantes, pois s˜ao destru´ıdos devido a uma ressonˆancia entre sua frequˆencia com os modos da perturba¸c˜ao.
E poss´ıvel utilizar uma representa¸c˜´ ao hamiltoniana das linhas de campo magn´etico de modo que, a conserva¸c˜ao do fluxo magn´etico ao longo da coordenada ignor´avel x3 (a qual faz o papel do tempo) implique em uma conserva¸c˜ao das ´areas no espa¸co de fase do sistema. Uma formula¸c˜ao hamiltoniana para a equa¸c˜ao das linhas de campo magn´etico em coordenadas curvil´ıneas generalizadas foi encontrada nos trabalhos de Janaki e Ghosn (1987) [33], Pina e Ortiz (1988)[34], Cary e Littlejohn (1983) [35]. No caso de pertur- ba¸c˜oes suficientemente pequenas o emprego de tal formalismo para as linhas de campo magn´etico possibilita tratar o problema sim´etrico como exatamente sol´uvel, atrav´es de um tratamento perturbativo do mesmo. Uma representa¸c˜ao hamiltoniana das linhas de campo magn´etico perturbativo em plasmas de fus˜ao foi realizada em [36–39]. De acordo com o teorema de Poincar´e-Birckhoff [31] toros racionais d˜ao lugar `a pontos fixos el´ıpticos e hiperb´olicos na regi˜ao de destrui¸c˜ao da superf´ıcie ressonante. Ao redor desses pontos el´ıpticos formam-se estruturas na forma de ilhas.
Aplicamos uma perturba¸c˜ao no equil´ıbrio MHD cil´ındrico, para um processo isot´er- mico, por meio de campos externos perturbativos com dependˆencia nas trˆes coordenadas cil´ındricas. Do ponto de vista te´orico abordamos esse problema por meio do formalismo hamiltoniano das linhas de campo magn´etico e adotamos um tratamento perturbativo para a hamiltoniana do sistema. O objetivo dessa abordagem te´orica ´e obter uma expres- s˜ao aproximada para a largura das ilhas magn´eticas, conforme descrito em [40], afim de visualizar como a largura das mesmas s˜ao modificadas em um sistema sob a¸c˜ao de um campo gravitacional. Quando o sistema ´e n˜ao-degenerado e a intensidade da perturba¸c˜ao
´e suficientemente fraca o teorema KAM ´e v´alido, nesse caso uma descri¸c˜ao qualitativa das superf´ıcies magn´eticas ressonantes e irracionais pode ser feita. Deste modo, as ilhas magn´eticas possuir˜ao formas que lembram o espa¸co de fase de um pˆendulo. Obtemos se¸c˜oes de Poincar´e, por meio da integra¸c˜ao num´erica da equa¸c˜ao das linhas de campo, com a superposi¸c˜ao dos campos magn´eticos de equil´ıbrio e perturbativos. Comparamos o resultado te´orico da largura das ilhas magn´eticas com uma estimativa feita atrav´es dos retratos de fase obtidos num´ericamente.
Esta tese est´a organizada da seguinte maneira: no cap´ıtulo 2 apresentamos as equa-
¸c˜oes b´asicas da hidrodinˆamica e do eletromagnetismo e em seguida chegamos `as equa¸c˜oes da magnetohidrodinˆamica ideal. No cap´ıtulo 3 apresentamos a dedu¸c˜ao de equa¸c˜oes que descrevem o equil´ıbrio MHD em processos adiab´aticos e isot´ermicos, para sistemas axissi- m´etricos, na presen¸ca de um campo gravitacional externo. No cap´ıtulo 4 apresentamos o emprego do formalismo hamiltoniano em um sistema descrito pela equa¸c˜ao de equil´ıbrio MHD isot´ermica em geometria cil´ındrica, de acordo com o cap´ıtulo 3, quando o mesmo est´a sob a¸c˜ao de uma perturba¸c˜ao peri´odica externa. O cap´ıtulo 4 tamb´em apresenta
18 se¸c˜oes de Poincar´e para este sistema na ausˆencia e na presen¸ca de uma perturba¸c˜ao.
Por fim, o cap´ıtulo 5 apresenta as conclus˜oes obtidas deste trabalho e as perspectivas de futuros trabalhos.
Cap´ıtulo 2
Equa¸ c˜ oes da MHD ideal
A magnetohidrodinˆamica (MHD) ´e o estudo da dinˆamica de fluidos condutores sob a a¸c˜ao de campos magn´eticos, em particular em plasmas [11]. ´E poss´ıvel obter um conjunto de equa¸c˜oes magnetohidrodinˆamicas que descrevem o plasma, atrav´es das equa¸c˜oes da hidrodinˆamica cl´assica e das equa¸c˜oes de Maxwell. Se considerarmos um fluido condutor perfeito e que a sua viscosidade ´e desprez´ıvel podemos obter um conjunto de equa¸c˜oes da MHD ideal [10]. O objetivo deste cap´ıtulo ´e mostrar a dedu¸c˜ao de tais equa¸c˜oes.
Primeiramente ser˜ao apresentadas as equa¸c˜oes da hidrodinˆamica cl´assica, em seguida do eletromagnetismo e, por fim, a uni˜ao da hidrodinˆamica com as equa¸c˜oes de Maxwell resultando nas equa¸c˜oes da MHD ideal.
2.1 Equa¸c˜ oes da Hidrodinˆ amica Cl´ assica
2.1.1 Derivada convectiva
Sejaf(r, t) uma grandeza f´ısica qualquer (como press˜ao, entropia, velocidade, etc) em um ponto r =r(x, y, z) e instante de tempo t. Sendo f(r+dr, t+dt) o valor da mesma grandeza f na posi¸c˜aor+dr e no tempo t+dt, a varia¸c˜ao totaldf ´e dada por,
Figura 2.1: Varia¸c˜ao da grandeza f no tempo e no espa¸co.
19
2.1. Equa¸c˜oes da Hidrodinˆamica Cl´assica 20
df =f(r +dr, t+dt)−f(r, t), df = ∂f
∂xdx+ ∂f
∂ydy+∂f
∂zdz+∂f
∂tdt.
Tomando a derivada temporal:
df dt = ∂f
∂x dx
dt +∂f
∂y dy dt +∂f
∂z dz dt +∂f
∂t, df
dt = ∂f
∂xvx+∂f
∂yvy +∂f
∂zvz+ ∂f
∂t, df
dt = (vx+vy +vz)· ∂f
∂xxˆ+ ∂f
∂yyˆ+∂f
∂zzˆ
+ ∂f
∂t, df
dt = (v· ∇)f +∂f
∂t, (2.1)
onde v =dr/dt ´e a velocidade do elemento de volume ao se deslocar de dr. Portanto, o operador que d´a a varia¸c˜ao total por unidade de tempo de uma grandeza qualquer ´e:
d
dt =v· ∇+ ∂
∂t, (2.2)
que ´e chamado de derivada convectiva [10,41].
2.1.2 Equa¸c˜ ao da Continuidade
Denotando por μ= f /V a densidade de uma grandeza f´ısica qualquer em um fluido e considerando uma superf´ıcie fixa S0 no interior do fluido, essa superf´ıcie envolve um volume V0 do mesmo. em um instante de tempo t temos uma quantidade
V0μdV da grandeza f no volume V0. Seja μv·dA o fluxo def atrav´es de um elemento de ´area dA da superf´ıcie S0, conforme mostra a figura 2.2.
V0
dA S0 v
Figura 2.2: Elemento de ´area da superf´ıcieS0.
Se no interior de V0, a quantidade f ´e criada ou destru´ıda em uma raz˜ao: Q=f /V.t, devemos ter, admitindo que haja conserva¸c˜ao de f,
∂
∂t
V0
μdV =−
μv·dA+
V0
QdV.
2.1. Equa¸c˜oes da Hidrodinˆamica Cl´assica 21 Usando o teorema do divergente e sendoV0 fixo no tempo,
V0
∂μ
∂tdV =−
V0
∇ ·(μv)dV +
V0
QdV,
V0
∂μ
∂t +∇ ·(μv)−Q
dV = 0.
SendoV0 arbitr´ario, temos a equa¸c˜ao de conserva¸c˜ao da grandeza f gen´erica:
∂μ
∂t +∇ ·(μv) =Q. (2.3)
No caso particular em que a grandeza f representa a massa, μ ´e a densidade de massa volum´etricaρdo fluido. Admitindo que a massa n˜ao seja criada nem destru´ıda (no ˆambito n˜ao relativ´ıstico) temos Q= 0, o que resulta na equa¸c˜ao da continuidade,
∂ρ
∂t +∇ ·(ρv) = 0. (2.4)
Um fluido incompress´ıvel ´e caracterizado por uma densidade constante ∂ρ/∂t = 0 e uni- forme ∇ρ= 0 (ρ n˜ao depende da posi¸c˜ao nem do tempo). De (2.4),
∂ρ
∂t +ρ(∇ ·v) +v· ∇ρ= 0, resulta que para fluidos incompress´ıveis:
∇ ·v= 0. (2.5)
De acordo com (2.5) para qualquer superf´ıcie fechadaS, o fluxo total da velocidade atrav´es da superf´ıcie deve ser zero:
S
v·dA= 0 (2.6)
2.1.3 Fluidos ideais: equa¸c˜ ao de Euler
Um fluido ideal ´e caracterizado pela ausˆencia de dissipa¸c˜ao de energia, e pela ausˆencia de trocas de calor. Vamos deduzir a equa¸c˜ao de movimento de um fluido ideal, considerando um elemento de volume δV imerso no fluido, figura 2.3. Em fluidos ideais identificamos dois tipos de for¸cas envolvidas:
• for¸cas de press˜ao ,
• for¸cas externasF =fδV ,
ondef ´e a for¸ca externa por unidade de volume.
2.1. Equa¸c˜oes da Hidrodinˆamica Cl´assica 22
Z(Z + Z)
Z( )Z z
x
y
x
y
Z
0
Figura 2.3: For¸cas de press˜ao sobre um fluido.
No caso da MHD as for¸cas externas podem ser de natureza eletromagn´etica (for¸cas de Lorentz) e gravitacional. Se Φ ´e o potencial gravitacional agindo sobre δV a for¸ca correspondente ´e Fg = −ρδV∇Φ. As for¸cas de press˜ao s˜ao perpendiculares `as faces do cubo, como mostra a figura3.3. As resultantes dessas for¸cas ao longo dex, yez s˜ao dadas respectivamente por: δx, δy e δz [41].
δx=x(x)− x(x+δx) =p(x)δyδz−p(x+δx)δyδz,
δy =y(y)− y(y+δy) =p(y)δxδz−p(y+δy)δxδz, δz =z(z)− z(z+δz) =p(z)δxδy−p(z+δz)δxδy.
Onde p ´e a press˜ao do fluido, igual `a for¸ca normal por unidade de ´area da superf´ıcie na qual ´e aplicada. Negligenciando as for¸cas de cisalhamento (fluido isotr´opico) podemos expandir as componentes das for¸cas de press˜ao em s´erie de Taylor. Retendo os termos de primeira ordem, temos:
δx = p(x)−p(x)− ∂p
∂x
y,z
δyδz =−∂p
∂xδV,
δy = p(y)−p(y)− ∂p
∂y
x,z
δxδz=−∂p
∂yδV, δz = p(z)−p(z)−
∂p
∂z
x,y
δxδy =−∂p
∂zδV, sendoδV= δxδyδz o elemento de volume. Vetorialmente temos:
δ=δxxˆ+δyyˆ+δzzˆ=− ∂p
∂xxˆ+ ∂p
∂yyˆ+∂p
∂zzˆ
δV,
δ=−∇pδV. (2.7)
2.2. Equa¸c˜oes do eletromagnetismo 23 Pela segunda lei de Newton, a for¸ca resultante que age sobre um elemento de volume de massa δm=ρdV ´e,
δma=δmdv
dt =δ+F −ρδV∇Φ,
com a for¸ca externa por unidade de volume f = F/δv, a equa¸c˜ao (2.7) e a derivada convectiva de v resulta na equa¸c˜ao de movimento, a equa¸c˜ao de Euler,
dv dt = ∂v
∂t + (v· ∇)v =−∇p ρ +f
ρ − ∇Φ. (2.8)
2.1.4 Fluidos ideais: fluxo de energia
Uma vez que n˜ao h´a trocas de calor para fluidos ideais em um elemento de volumeδV, a entropia do elemento de volume permanece constante (δS = constante). Definindo a entropiaS por unidade de massa, s=δS/δm, a condi¸c˜ao de adiabaticidade ´e dada por:
ds dt = ∂s
∂t +v· ∇s= 0. (2.9)
Como a entropia total do fluido ´e conservada, neste caso podemos usar a equa¸c˜ao (2.3) de conserva¸c˜ao gen´erica com μ→ρs e Q= 0, que resulta em:
∂(ρs)
∂t +∇ ·(ρsv) = 0. (2.10)
A eq. (2.10) leva `a condi¸c˜ao de fluido adiab´atico,
pρ−γ =constante, (2.11)
onde γ ´e a raz˜ao entre os calores espec´ıficos do fluido `a press˜ao e volume constantes. A constanteγ pode ser expressa como,
γ= 2 +N
N , (2.12)
onde N ´e o n´umero de graus de liberdade do g´as. Para um g´as monoatˆomico, N = 3 e γ = 5/3.
2.2 Equa¸c˜ oes do eletromagnetismo
2.2.1 Equa¸c˜ oes de Maxwell no v´ acuo
Considerando que o plasma ´e um g´as muito rarefeito podemos desprezar sua mag- netiza¸c˜ao e assumir que ´e um meio n˜ao magn´etico. Portanto utilizamos as equa¸c˜oes de Maxwell no v´acuo para sua descri¸c˜ao.
• Lei de Gauss el´etrica
∇ ·E= ρc
ε0 (2.13)
2.2. Equa¸c˜oes do eletromagnetismo 24 onde E ´e o campo el´etrico e ρc ´e a densidade de carga el´etrica e ε0 ´e a permissividade el´etrica no v´acuo. Para um sistema de cargas puntiformes ea, nas posi¸c˜oes ra sobre uma superf´ıcie S,
ρc =
a
eaδ(r−ra).
Integrando em um volume V e utilizando o teorema do divergente em seguida,
V
∇ ·EdV = 1 ε0
ρcdV =
a
ea
dV δ(r−ra),
E·dA= 1 ε0
a
ea, (2.14)
onde
E · dA ´e o fluxo de campo el´etrico e
aea, ´e a carga l´ıquida envolvida pela superf´ıcie S. Portanto, de acordo com (2.14) a lei de Gauss el´etrica nos diz que o fluxo do campo el´etrico em uma dada superf´ıcie ´e proporcional `a quantidade de cargas el´etricas presentes na superf´ıcie.
• Lei de Gauss Magn´etica
∇ ·B= 0, (2.15)
B ´e o campo magn´etico. Integrando em um volume V e utilizando o teorema da diver-
gˆencia temos:
v
∇ ·BdV =
B·dA= 0,
o fluxo do campo magn´etico ´e nulo sobre uma superf´ıcie fechada. Portanto o campo magn´etico ´e solenoidal e n˜ao h´a na natureza “cargas magn´eticas isoladas”, as linhas de campo magn´etico nunca come¸cam ou terminam e sim circulam.
• Lei de Faraday
∇ ×E =−∂B
∂t . (2.16)
Integrando em uma superf´ıcie aberta S, limitada pela curva C e usando o teorema de
Stokes:
s
(∇ ×E)·dA=
c
E·dl=−
∂B
∂t ·dA,
comoS ´e fixa,
c
E·dl=−∂
∂t
s
B·dA, (2.17)
onde
cE·dl ´e a circula¸c˜ao do campo el´etrico, a for¸ca eletromotriz ao longo da curva C e
sB·dA´e o fluxo do campo magn´etico pela superf´ıcie S. A equa¸c˜ao (2.17) ´e a forma integral da lei da indu¸c˜ao de Faraday. De acordo com (2.17) a varia¸c˜ao do fluxo magn´etico d´a origem a uma for¸ca eletromotriz, tal que, se op˜oe `a varia¸c˜ao do fluxo magn´etico.
• Lei de Amp`ere-Maxwell
2.2. Equa¸c˜oes do eletromagnetismo 25
∇ ×B=μ0J +μ0ε0∂E
∂t , (2.18)
onde μ0 ´e a permeabilidade magn´etica no v´acuo, J ´e a densidade superficial de corrente el´etrica e ε0∂E∂t ´e a corrente de deslocamento. Integrando na superf´ıcie S e utilizando o teorema de Stokes:
s
(∇ ×B)·dA=
c
B·dl=μ0
s
J ·dA+μ0ε0
s
∂E
∂t ·dA.
Para um sistema de cargas puntuais:
J =
a
eavδ(r−ra), (2.19)
c
B·dl=μ0
s
∂D
∂t +μ0J
·dA. (2.20)
cB·dl ´e a circula¸c˜ao do campo magn´etico, D ´e o vetor deslocamento el´etrico e Jt =
s
∂D
∂t +J
·dA´e a corrente el´etrica l´ıquida atrav´es da superf´ıcieS. Deste modo, campos magn´eticos podem ser gerados atrav´es de correntes el´etricas e pela varia¸c˜ao de um campo el´etrico.
2.2.2 Equa¸c˜ ao de conserva¸c˜ ao da carga
Tomando o divergente de ambos os membros da Lei de Amp`ere-Maxwell, temos:
∇ ·(∇ ×B) =μ0∇ ·
ε0∂E
∂t +J
,
como o divergente de um rotacional ´e identicamente nulo, substituindo a lei de Gauss re- sulta na equa¸c˜ao da continuidade de carga, representando a conserva¸c˜ao da carga el´etrica:
∂ρc
∂t +∇ ·J = 0. (2.21)
Integrando em um volume V temos:
v
∂ρc
∂t dV = ∂
∂t
v
ρcdV =−
v
∇ ·JdV =−
s
J ·dA, onde
vρcdV ´e a carga total l´ıquida em um volumeV.
∂q
∂t =−
s
J ·dA (2.22)
2.2.3 For¸ca de Lorentz e Potenciais
A for¸ca eletromagn´etica sobre uma part´ıcula de carga e ´e dita for¸ca de Lorentz,
F =e(E+v×B), (2.23)
2.2. Equa¸c˜oes do eletromagnetismo 26 de forma que a equa¸c˜ao do movimento para uma carga de massa m´e:
mdv dt = dp
dt =eE+e(v×B), (2.24)
onde p =mv ´e o momentum linear da carga. Podemos expressar os campos E e B em termos dos potenciais escalar e vetor,E =∇Φ−∂∂tA;B = (∇ ×A). Podemos generalizar a for¸ca de Lorentz para uma distribui¸c˜ao de correntes caracterizada pela densidade super- ficialJ. Considerando um sistema de cargas puntuais (distribui¸c˜ao singular de correntes) temos que:
J =
a
eavaδ(r−ra). (2.25)
Para uma distribui¸c˜ao cont´ınua de correntes a for¸ca de Lorentz ´e:
dF =dq(E+v×B), (2.26)
ondedF ´e a for¸ca sobre um elemento de carga dq. Dividindo pelo volume do mesmo, com dq=ρcdV,
dF dV = dq
dV (E+v×B), portanto a for¸ca de Lorentz por unidade de volume ´e:
f =ρc(E+v×B). (2.27)
Supondo que todas as cargas tenham a mesma velocidade va=v, temos de (2.25):
J =v
a
eaδ(r−ra) =ρcv. (2.28)
A qual vale tamb´em para uma distribui¸c˜ao cont´ınua de carga, f =ρcE+ρcv×B
f =ρcE+J ×B, (2.29)
e a for¸ca de Lorentz sobre toda a distribui¸c˜ao ´e:
F =
fdV =
dV (ρcE+J ×B). (2.30)
2.2.4 Lei de Ohm generalizada
A lei de Ohm ´e uma rela¸c˜ao constitutiva entre a densidade de corrente J e o campo el´etricoE para condutores lineares. Se o condutor ´e anisotr´opico a condutividade el´etrica do material ser´a n˜ao uniforme, de modo que, a melhor maneira de descrevermos a con- dutividade do material ser´a atrav´es do tensor de condutividade el´etrica ¯σ∗, a lei de Ohm
2.3. Equa¸c˜oes da MHD ideal 27 nesse caso ´e dada por:
j = ¯σ∗E. (2.31)
E se o material for isotr´opico a condutividade el´etrica ´e um escalar, teremos:
J =σE. (2.32)
Em um fluido condutor em movimento a lei de Ohm vale para o campo el´etrico no refe- rencial de Lorentz do fluido K (o referencial no qual o fluido est´a em repouso relativo).
j = E
x y
Z
K
0
x y
Z
K
0 I I
I I
I
I
v = vx
Figura 2.4: Referencial K no qual o fluido est´a em repouso relativo e se movendo em rela¸c˜ao aK.
As equa¸c˜oes de transforma¸c˜ao dos campos eletromagn´eticos s˜ao obtidas da Teoria da Relatividade Especial. Para um deslocamento ao longo da dire¸c˜ao x com velocidade v constante (no caso de baixas velocidades v << c) temos [42]:
E =E+B×v, (2.33)
B=B−E×v, (2.34)
as transforma¸c˜oes inversas s˜ao obtidas trocando v por−v:
E =E−B×v (2.35)
B =B+E×v (2.36)
logo a lei de Ohm, para o referencial do laborat´orioK (onde o fluido est´a em movimento relativo) ´e:
J =σ(E−B×v), (2.37)
que ´e a lei de Ohm generalizada.
2.3 Equa¸c˜ oes da MHD ideal
Conforme exposto anteriormente podemos obter um conjunto de equa¸c˜oes da MHD ideal que descrevem o plasma atrav´es das equa¸c˜oes da hidrodinˆamica e das equa¸c˜oes de Maxwell. Considerando um fluido condutor ideal, as equa¸c˜oes da MHD ideal s˜ao:
2.3. Equa¸c˜oes da MHD ideal 28
• Equa¸c˜ao da continuidade
∂ρ
∂t +∇ ·(ρv) = 0. (2.38)
• Equa¸c˜ao de Euler (desconsiderando viscosidade e condu¸c˜ao t´ermica)
∂v
∂t + (v· ∇)v=−∇p ρ +f
ρ − ∇Φ (2.39)
onde:
f =ρcE+J ×B (2.40)
´e a for¸ca de Lorentz. Substituindo (2.40) em (2.39), temos,
∂v
∂t + (v· ∇)v=−∇p ρ + 1
ρ(ρcE+J ×B)− ∇Φ. (2.41)
• Condi¸c˜ao de adiabaticidade ds dt = ∂s
∂t +v· ∇s= 0. (2.42)
• Equa¸c˜ao de estado (por exemplo do g´as ideal)
p=p(ρ, T). (2.43)
• Lei de Ohm generalizada
J =σ(E−B×v), (2.44)
para um condutor ideal n˜ao h´a efeito Joule e a condutividade σ→ ∞, logo a lei de Ohm generalizada assume a seguinte forma [43]:
E+v×B= J σ →0,
E =−v×B. (2.45)
Sendo o plasma um condutor ideal, n˜ao h´a cargas livres no seu interior, ent˜ao supomos ρc = 0, portanto a lei de Gauss el´etrica ´e desnecess´aria para a descri¸c˜ao do plasma. Os campos el´etricos, se forem provenientes de ondas eletromagn´eticas de frequˆencia ω, s˜ao da forma:
E(r, t) =E(r)e−iωt. (2.46) Logo,
∂D
∂t = ∂
∂t[ε0E(r)e−iωt],
∂D
∂t =−iωε0E,
se considerarmos fenomˆenos de baixas frequˆencias (ω << ωc), ou seja, frequˆencia das ondas eletromagn´eticas muito menor que a frequˆencia ciclotrˆonica ωc, temos [2]:
∂D
∂t =−iωD →0. (2.47)
2.4. Teorema de Alfv´en 29 De acordo com (2.47) a lei de Amp`ere-Maxwell torna-se simplesmente:
∇ ×B =μ0J. (2.48)
• Substituindo (2.45) na Lei de Faraday (2.16) temos:
∇ ×E=−∇ ×(v×B) =−∂B
∂t ,
∂B
∂t =∇ ×(v×B). (2.49)
Substituindo (2.48) na equa¸c˜ao de Euler (2.41) (comρc = 0) temos:
∂v
∂t + (v· ∇)v =−∇p ρ + 1
ρμ0 (∇ ×B)×B− ∇Φ. (2.50) Deste modo chegamos nas equa¸c˜oes da MHD ideal:
∇ ·B= 0, (2.51)
∂B
∂t =∇ ×(v×B), (2.52)
∂ρ
∂t +∇ ·(ρv) = 0, (2.53)
∂v
∂t + (v· ∇)v =−∇p ρ − 1
ρμ0B×(∇ ×B)− ∇Φ, (2.54) ds
dt = ∂s
∂t +v· ∇s = 0 ⇒ pρ−γ=constante, (2.55)
p=p(ρ, T). (2.56)
2.4 Teorema de Alfv´en
Ao considerarmos que o plasma ´e um condutor ideal, a equa¸c˜ao da indu¸c˜ao magn´etica (2.52) leva a um importante resultado conhecido como teorema de Alfv´en, ou congela- mento do fluxo magn´etico. Considerando uma superf´ıcie S1 dentro de um plasma, em um tempot1, o fluxo do campo magn´etico relacionado a esta superf´ıcie ´e:
S1B·dS. Em um tempo t2 a por¸c˜ao de plasma que estava em S1 se move e estar´a agora em S2. O fluxo magn´etico relacionado a esta superf´ıcie ser´a
S2B ·dS. O teorema Alfv´en afirma que
[3, 9]:
S1
B·dS =
S2
B·dS, (2.57)
d dt
S
B·dS = 0. (2.58)
2.4. Teorema de Alfv´en 30 A varia¸c˜ao do fluxo magn´etico sobre uma superf´ıcie S pode ocorrer devido `a varia¸c˜ao de B, ou devido ao movimento da superf´ıcie S, assim escrevemos (2.58) como,
d dt
S
B·dS =
S
∂B
∂t ·dS+
S
B· ∂
∂t(dS). (2.59)
A figura2.5 mostra os elementos de ´area dS e dS, que formam as bases de um cilindro.
De acordo com 2.5 um elemento de ´area variou de dS em um tempo t para dS em um tempot+δt. O vetor da ´area lateral desse cilindro ´e−δt v×δ, ondeδ´e um elemento de comprimento sobre a curva que cerca o elemento de ´areadS.
Figura 2.5: Deslocamento de uma superf´ıcie devido aos movimentos do plasma. Figura retirada de [9].
Uma vez que, a ´area vetorial de uma superf´ıcie fechada ´e zero, as superf´ıcies do cilindro satisfazem a equa¸c˜ao [9],
dS =dS−dS −δt
v×δ = 0, (2.60)
onde a integral de linha ´e realizada ao redor do elemento de ´area dS. De acordo com (2.60), segue que,
d
dt(dS) = lim
δt→0
dS−dS
δt =
v×δ= 0. (2.61)
Portato, o ´ultimo termo de (2.59) pode ser escrito como,
S
B· d
dt(dS) =
B·(v×δ) =
(B×v)·δ, (2.62)
utilizando o teorema de Stokes, (2.62) torna-se,
S
B· d
dt(dS) =
C
(B×v)·δ =
S
[∇ ×(B×v)]·dS, (2.63)
2.4. Teorema de Alfv´en 31 ondeC ´e um contorno fechado da superf´ıcie S. Substituindo (2.63) em (2.59), temos:
d dt
S
B·dS =
S
dS· ∂B
∂t − ∇ ×(v×B)
. (2.64)
Logo, de acordo com a suposi¸c˜ao de que o plasma ´e fluido condutor perfeito, a equa¸c˜ao (2.52),
∂B
∂t =∇ ×(v×B), implica que:
d dt
S
B·dS = 0, (2.65)
o fluxo magn´etico ´e constante.
O resultado (2.65) exprime o fato de que na ausˆencia de resistividade, o plasma no interior de um tubo de fluxo magn´etico permanece sempre dentro do mesmo, na medida em que o tubo se move. Dizemos que o plasma no interior do tubo est´a “congelado”com o pr´oprio fluxo magn´etico. Isso significa que se o plasma se move, as linhas de campo magn´etico se movem junto com o plasma e vice-versa [11]. A figura 2.6 ilustra esse comportamento.
Figura 2.6: Ilustra¸c˜ao do congelamento de fluxo magn´etico. Figura retirada de [9].
De acordo com a figura 2.6(a), as linhas retas de campo magn´etico est˜ao atravessando uma coluna de plasma. Se a coluna de plasma ´e dobrada, ent˜ao de acordo com o teorema de Alfv´en, as linhas de campo tamb´em s˜ao, conforme mostra 2.6(b). Se a coluna de plasma ´e torcida, como na figura 2.6(c), as linhas de campo magn´etico tamb´em o ser˜ao [9]. Portanto, na presen¸ca de uma for¸ca externa, como em um campo gravitacional, por exemplo, as linhas de campo magn´etico ser˜ao deformadas junto com o plasma, de modo a manter o fluxo magn´etico constante.
Cap´ıtulo 3
Equil´ıbrio MHD em plasmas sim´ etricos com campo gravitacional externo
Considerando o plasma um fluido de condutividade infinita e ausente de trocas de calor nos seus processos termodinˆamicos, ou seja, um g´as adiab´atico, podemos estudar a condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD (quando todas as grandezas f´ısicas n˜ao dependem do tempo).
Este cap´ıtulo apresenta a descri¸c˜ao matem´atica do equil´ıbrio MHD est´atico em plasmas com simetria axial na presen¸ca de um campo gravitacional externo. Os resultados desse cap´ıtulo, como a dedu¸c˜ao de uma equa¸c˜ao de equil´ıbrio em coordenadas curvil´ıneas ge- neralizadas na presen¸ca de um campo gravitacional externo, para modelos de processos isot´ermicos e adiab´aticos, bem como as solu¸c˜oes anal´ıticas dessas equa¸c˜oes para algumas geometrias particulares podem ser encontradas no artigo publicado resultante dessa tese [45]1.
3.1 Condi¸c˜ ao de equil´ıbrio MHD est´ atico
Aplicando a condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico, v =0, no conjunto de equa¸c˜oes da MHD ideal, a equa¸c˜ao de Euler torna-se:
∇p ρ = 1
ρμ0 [B×(∇ ×B)]− ∇Φ, (3.1)
assim temos o seguinte conjunto de equa¸c˜oes da MHD ideal para o equil´ıbrio est´atico:
∇ ·B= 0, (3.2)
∇ ×B =μ0J, (3.3)
∇p ρ = 1
ρμ0 [B×(∇ ×B)]− ∇Φ. (3.4)
1vide apˆendice C
32
3.1. Condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico 33 Substituindo (3.3) em (3.4) temos a condi¸c˜ao b´asica de equil´ıbrio,
∇p=J ×B−ρ∇Φ, (3.5)
a for¸ca de Lorentz e a for¸ca gravitacional devem contrabalancear o gradiente de press˜ao.
Considerando uma formula¸c˜ao geral para descrever plasmas em sistemas que possuem uma coordenada ignor´avel, todas as fun¸c˜oes de equil´ıbrio, que possuem significado f´ısico, depender˜ao apenas de duas vari´aveis, sendo chamadas de grandezas de superf´ıcie [27].
Introduzindo coordenadas curvil´ıneasx1, x2ex3, para um sistema de coordenadas gen´erico temos:
• xi =constante s˜ao superf´ıcies coordenadas;
• Uma curva coordenadaxk ´e uma curva ao longo da qualxi e xj s˜ao constantes.
• As coordenadas x1 e x2 s˜ao escolhidas a fim de que o eixo magn´etico do sistema coincida com uma curva coordenada x3 e que x2 seja uma coordenada transversal.
• x3 ser´a uma coordenada ignor´avel e est´a relacionada a um comprimento caracter´ıs- tico do sistema, como a comprimento de uma coluna de plasma por exemplo;
• dire¸c˜oes longitudinais ser˜ao dadas pela curva coordenada x1.
3.1.1 Fun¸c˜ ao de fluxo magn´ etico transversal
E conveniente introduzir uma fun¸c˜´ ao de fluxo magn´etico transversal, que ´e o fluxo mag- n´etico por unidade de comprimento que atravessa a superf´ıcie coordenadax2 =constante, tamb´em chamada de superf´ıcie poloidal, como mostra a figura 3.1,
Ψ = 1 L
S2
B·dS(2). (3.6)
Em coordenadas curvil´ıneas generalizadas, de acordo com a equa¸c˜ao (A.37) do apˆendice, dSp =dS(2) =√gdx1dx3eˆ2, sendo g o determinante do tensor m´etrico de um sistema de coordenadas gen´erico, L ´e um comprimento caracter´ıstico na dire¸c˜ao x3 e B ´e o campo magn´etico.
3.1. Condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico 34
Figura 3.1: Elemento de superf´ıcie poloidal dSp em corte. Figura adaptada de [53].
Reescrevendo a fun¸c˜ao Ψ, temos:
Ψ = 1 L
x1 0
dx1 L
0
√gB2dx3, (3.7)
onde B2 ´e o campo magn´etico transversal e x1 = 0 ´e o eixo magn´etico. Derivando (3.7) em rela¸c˜aox1 obtemos:
∂Ψ
∂x1 = 1 L
L
0
√gB2dx3. (3.8)
Escrevendo a lei de Gauss magn´etica, de acordo com (A.75) temos:
∇ ·B = ∂
∂x1(√
gB1) + ∂
∂x2(√
gB2) = 0,
onde a derivada de B3 em rela¸c˜ao a x3 foi omitida, uma vez que x3 ´e a coordenada ignor´avel. Portanto, temos,
∂
∂x1(√
gB1) =− ∂
∂x2(√
gB2). (3.9)
Derivando a fun¸c˜ao de fluxo agora em rela¸c˜ao a x2 obtemos,
∂Ψ
∂x2 = 1 L
x1
0
dx1 L
0
∂
∂x2(√
gB2)dx3, (3.10)
susbtituindo (3.9) em (3.10),
∂Ψ
∂x2 =−1 L
L 0
dx3 x1
0
∂
∂x1(√
gB1)dx1. (3.11)
3.1. Condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico 35 Como o integrando da integral em rela¸c˜ao a x1 torna-se a diferencial d(√
gB2), temos:
∂Ψ
∂x2 =−1 L
L 0
dx3 x1
0
d(√
gB1), (3.12)
supondo que B1 ´e zero sobre o eixo magn´etico,
∂Ψ
∂x2 =−1 L
L 0
(√
gB1)dx3. (3.13)
Podemos tirar os integrandos de (3.8) e (3.13) para fora das integrais, uma vez que ne- nhuma grandeza depende da coordenada ignor´avelx3. Fazendo isso chegamos aos seguin- tes resultados:
∂Ψ
∂x1 =√
gB2, (3.14)
∂Ψ
∂x2 =−√
gB1. (3.15)
Tomando o produto escalar entre o campo B e ∇Ψ, de acordo com os resultados acima resulta em,
B· ∇Ψ = 0, (3.16)
essa equa¸c˜ao nos diz que as linhas de campo magn´etico s˜ao perpendiculares ao gradiente do fluxo magn´etico. Portanto, n˜ao h´a varia¸c˜ao do fluxo magn´etico sobre uma dada super- f´ıcie magn´etica e Ψ ´e uma constante para cada superf´ıcie, sendo ent˜ao uma grandeza de superf´ıcie. As linhas de campo magn´etico jazem sobre as superf´ıcies magn´eticas.
Das equa¸c˜oes (3.14) e (3.15) vemos que ´e poss´ıvel determinar as componentes transversal e longitudinal do campo magn´etico se conhecermos a fun¸c˜ao de fluxo Ψ. Uma express˜ao para o vetor B tamb´em pode ser derivada em termos da fun¸c˜ao de fluxo Ψ. Fazendo o produto vetorial entre o vetor de base covarianteeˆ3 com o gradiente ∇Ψ, de acordo com (A.15) temos:
ˆ
e3× ∇Ψ =eˆ3×(∂1Ψˆe1+∂2Ψˆe2) (3.17) ˆ
e3× ∇Ψ = −eˆ1×eˆ3∂1Ψ−eˆ2×eˆ3∂2Ψ, (3.18) Utilizando as equa¸c˜oes (A.63) e (A.64) do apˆendice A,
ˆ
e1×eˆ3 = 1
√g(g32eˆ3−g33eˆ2), (3.19)
ˆ
e2×eˆ3 = 1
√g(−g31eˆ3−g33eˆ1), (3.20) substituindo-as em (3.18) e multiplicando termo a termo, chegamos ao seguinte resultado:
ˆ
e3× ∇Ψ =B2eˆ2+B1eˆ1− g31
g33B1+ g32 g33B2
ˆ
e3. (3.21)
3.1. Condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico 36 Da conven¸c˜ao de soma (A.61),
Ai =gijAj, (3.22)
a componente B3 fica,
B3 =g31B1+g32B2+g33B3, (3.23) dividindo a equa¸c˜ao acima por g33, o termo entre parˆenteses de (3.21) pode ser escrito
como,
g31
g33B1+g32 g33B2
= B3
g33 −B3. (3.24)
Substituindo esse resultado em (3.21) e observando que B = B1eˆ1+B2eˆ2 +B3eˆ3, che- gamos `a seguinte express˜ao para o campo magn´etico:
B= eˆ3
g33 × ∇Ψ + B3
g33eˆ3. (3.25)
A fun¸c˜ao de fluxo Ψ pode ser expressa em termos do potencial vetor magn´etico. Sendo B = ∇ × A e utilizando a f´ormula (A.76) do rotacional em coordenas curvil´ıneas, a componente transversal B2 do campo magn´etico ser´a dada por,
B2 = 1
√g
∂A1
∂x3 −∂A3
∂x1
, (3.26)
o primeiro termo de (3.26) se anula devido a x3 ser a coordenada ignor´avel, portanto a componente B2 ser´a:
B2 =− 1
√g ∂A3
∂x1
. (3.27)
Substituindo (3.27) em (3.7) temos:
Ψ =−1 L
L 0
dx3 x1
0
∂A3
∂x1dx1, (3.28)
Ψ =−1 L
L 0
dx3 x1
0
d(A3), (3.29)
sendoA3 zero no eixo magn´etico, Ψ ser´a:
Ψ =−A3(x1, x2). (3.30)
3.1.2 Fun¸c˜ ao de fluxo de corrente
Analogamente, define-se uma fun¸c˜ao de fluxo de corrente, que ´e a menos de uma constante a corrente total, de acordo com [27] dada por:
I = (It−Ieixo) = 1 L
S2
J ·dS(2), (3.31)
3.1. Condi¸c˜ao de equil´ıbrio MHD est´atico 37 ondeIt´e a corrente total,Ieixo´e a corrente no eixo magn´etico,dSp=dS(2)=√
gdx1dx3eˆ2, g o determinante do tensor m´etrico de um sistema de coordenadas gen´erico e L´e o com- primento caracter´ıstico da coordenada ignor´avel x3. Reescrevendo a fun¸c˜ao de corrente,
I = 1 L
x1 0
dx1 L
0
J2dx3, (3.32)
derivando a equa¸c˜ao acima em rela¸c˜ao a x1, sabendo que J satisfaz ∇ ·J = 0, teremos:
∂I
∂x1 = 1 L
L 0
x1 0
J2dx3, (3.33)
de∇ ·J = 0,
∂
∂x1(√
gJ1) =− ∂
∂x2(√
gJ2). (3.34)
Substituindo esse resultado na defini¸c˜ao da fun¸c˜ao de fluxo de corrente, an´alogamente como foi procedido para a fun¸c˜ao de fluxo magn´etico, obt´em-se resultados correspondentes:
∂I
∂x1 =√
gJ2, (3.35)
∂I
∂x2 =−√
gJ1. (3.36)
Deste modo, podemos determinar as componentes das densidades de corrente longitudinal e transversal a partir da fun¸c˜ao de fluxo de corrente. Tomando o produto escalar, de J por∇I, de acordo com os resultados acima temos,
J · ∇I = 0, (3.37)
exprimindo o fato de que a fun¸c˜ao de corrente transversal ´e uma constante de superf´ıcie.
A fun¸c˜ao de fluxo de corrente satisfaz:
μ0J =∇ ×B. (3.38)
Deste modo, integrando ambos os lados de (3.38) em rela¸c˜ao a um elemento de ´area poloidaldSp =dS(2) =√
gdx1dx3eˆ2 tem-se:
μ0
S2
J ·dS(2) =
S2
(∇ ×B)·dS(2), (3.39) fazendo o produto escalar, a equa¸c˜ao acima torna-se:
μ0 x1
0
dx1 L
0
J2dx3 =− L
0
dx3 x1
0
√g 1
√g
∂B3
∂x1
dx1, (3.40)