Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz
Jean Cristtus Portela
SEMIÓTICA E MÍDIA
textos, práticas, estratégias
Bauru, São Paulo, Brasil Reitor
Marcos Macari Vice-Reitor
Herman Jacobus Cornelis Voorwald Diretor
Antônio Carlos de Jesus Vice-Diretor
Roberto Deganutti
Organizadores
Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Jean Cristtus Portela
Comissão editorial Jean Cristtus Portela Loredana Limoli
Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Mariza Bianconcini Teixeira Mendes Matheus Nogueira Schwartzmann Revisão
Adriane Ribeiro Andaló Tenuta Fouad Camargo Abboud Matuck Mariza Bianconcini Teixeira Mendes Matheus Nogueira Schwartzmann Normalização
Dimas Alexandre Soldi
Fouad Camargo Abboud Matuck Luiz Augusto Seguin Dias e Silva Tânia Ferrarin Olivatti
SEMIÓTICA E MÍDIA
textos, práticas, estratégias
Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Jean Cristtus Portela
Unesp/FAAC 2008
DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO UNESP – Campus de Bauru
Semiótica e mídia: textos, práticas, estratégias / Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz e Jean Cristtus Portela (organizadores). -- Bauru: UNESP/FAAC, 2008.
269 p.
ISBN 978-85-99679-11-1
1. Semiótica. 2. Comunicação. 3. Mídia. 4. Práticas semióti-cas. I. Diniz, Maria Lúcia Vissotto Paiva. II. Portela, Jean Cristtus. III. Título.
302.2 S474
Ficha catalográfi ca elaborada por Maristela Brichi Cintra – CRB/8 5046 Projeto gráfi co e capa Diego Pontoglio Meneghetti
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação
Departamento de Ciências Humanas
Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação (GESCom)
http://www.faac.unesp.br/pesquisa/gescom/ [email protected]
Av. Eng. Luiz Edmundo C. Coube, 14-01 Bauru, SP, CEP 17033-360
textos, práticas, estratégias
Semiótica e mídia: a proposta de integração do GESCom 7 Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz
PARTE I – NOVOS DESENVOLVIMENTOS EM SEMIÓTICA E MÍDIA
Práticas semióticas: imanência e pertinência, efi ciência e otimização 15 Jacques Fontanille
Semiótica e comunicação 75
José Luiz Fiorin
Semiótica midiática e níveis de pertinência 93 Jean Cristtus Portela
PARTE II – JORNALISMO IMPRESSO E TELEVISADO
Cartas na mídia impressa: uma prática semiótica entre leitores e editores 117 Matheus Nogueira Schwartzmann e Mariza Bianconcini Teixeira Mendes
Práticas de direcionamento do fl uxo de atenção no telejornalismo 131 Juliano José de Araújo
PARTE III – VINHETAS
Break comercial: estratégia e efi ciência 155
Jaqueline Esther Schiavoni
Figuralidade e semi-simbolismo na abertura da telenovela Belíssima 169 Loredana Limoli
O Nu de Boubat e a Globeleza 183
Adriane Ribeiro Andaló Tenuta
PARTE IV – REALITY SHOW E PROGRAMAS DE COMPORTAMENTO
Práticas enunciativas como estratégias de interação: Big Brother Brasil 201 Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz e Sarah Caramaschi Degelo
Práticas passionais na mídia televisiva: programas de comportamento 215 Dimas Alexandre Soldi
237 Tânia Ferrarin Olivatti
Rádio e podcast: intersecção das práticas 251 Djaine Damiati Rezende e Matheus Nogueira Schwartzmann
Os organizadores 265
SEMIÓTICA E MÍDIA
A proposta de integração do GESCom
Realizar a integração entre semiótica e mídia foi sempre o desafi o, nos dez anos de atividade ininterrupta, do GESCom – Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação. Um trabalho difícil no princípio, quando parte da academia e dos órgãos de fomento olhava ainda com desconfi ança a semiótica, sobretudo a greimasiana ou francesa (SF). No entanto, nossa insistência nessa corrente tem dupla fundamentação, como veremos.
De um lado, a SF tem como alicerce o projeto pioneiro da teoria científi ca de Ferdinand de Saussure, a Lingüística, redescoberta, de início, pela Antro-pologia, e depois utilizada pela epistemologia geral das ciências humanas. No entanto, tanto a SF standard, preconizada por Greimas, quanto a SF mais re-cente, sustentada por seus sucessores, relegam a pura descrição lingüística aos seus limites, pois nem a morfologia nem a sintaxe nem a gramática nem a le-xicologia, que embasava os estudos inaugurais de Greimas, são tratadas como tais na semiótica narrativa (ou da ação), na semiótica discursiva, na semiótica das paixões ou, ainda, na vertente tensiva. E isso realmente não é apenas uma impressão sobre a evolução da semiótica, pois o próprio Greimas, depois de ter defendido duas teses valendo-se de estudos em lexicologia, confessa “eu vi, depois de trabalhar cinco ou seis anos, que a lexicologia não leva a nada – que as unidades, lexemas ou signos não levam a nenhuma análise, não permitem a estruturação, a compreensão global dos fenômenos” e fi naliza dizendo: “uma
semiótica é um ‘sistema de signos’ desde que ultrapasse esses signos e olhe o que acontece sob os signos”1.
O que resta, portanto, como a espinha dorsal da SF, é a refl exão epistemoló-gica da lingüística saussuriana, pois desde o artigo “L’actualité du saussurisme” (1956)2, concebido para a comemoração do 40° aniversário da publicação do Curso de lingüística geral, até Semiótica das paixões (1991), Greimas faz diversas
referências àquela ciência demonstrando que os conceitos básicos de seu proje-to semiótico estão enraizados, certamente, em Saussure e Hjelmslev.
Por outro lado, Greimas teve também um papel importante na fundação das ciências da informação e comunicação na França, desempenho até hoje pouco conhecido e pouco difundido. Como pesquisador de renome, foi um dos treze membros escolhidos para compor o comitê francês para o reconhecimento des-sa área de estudo pelo Ministério da Educação. E ainda participou, em outubro de 1970, em Milão, do Congresso Nacional do Instituto Gemelli, que tinha por tema, já naquela época, “Estado e tendências atuais da pesquisa em comunica-ção de massa”, discussão que resultou no livro Semiótica e ciências sociais, publi-cado em 1976, com tradução brasileira em 1981. Relendo esse livro, trinta anos depois, é notável a acuidade intelectual de Greimas ao afi rmar que “a teoria da comunicação social generalizada deve colocar-se sob a égide não da informação, mas da signifi cação”. Nas observações fi nais do capítulo II, descreve os atributos do que chamou de “uma disciplina difícil de nomear, de objeto vago e meto-dologia embrionária, aparece, cresce, alastra-se em todos os sentidos, quase se impõe”, evidenciando sua abrangência então crescente e hoje certamente confi r-mada. Porém, Greimas indica também a fragilidade de tal teoria que, segundo suas palavras, “recobre um campo de curiosidade científi ca inexplorado”. Diante disso, considera que é o momento da disciplina interrogar-se sobre si mesma e de colocar em causa seus postulados e seu próprio fazer, e aponta a necessidade precípua de que se instaure “uma investigação semiótica sobre as dimensões e as articulações signifi cativas das macrossociedades atuais”3.
Para melhor compreender as considerações de Greimas, é importante revermos o contexto em que a semiótica surgiu. Sua pretensão era construir uma semiótica da significação, um projeto científico que permitisse chegar à
1 Resposta de Greimas ao ser interrogado por Michel Arrivé no colóquio de Cérisy-la-Salle (1983) sobre o papel da lexicologia estrutural em sua obra. A. J. Greimas, “Algirdas Julien Greimas mis à la question”, em Michel Arrivé e Jean-Claude Coquet (orgs.), Sémiotique en jeu. A partir et autour de l’œuvre d’A. J. Greimas, Paris/ Amsterdam, Hadès/Benjamins, 1987, p. 302-303.
2 Publicado em Le Français moderne, n. 24, 1956, p. 191-203, e republicado em A. J. Greimas, La mode en 1830,
Paris, PUF, 2000, p. 371-382.
3 Todas as citações desse parágrafo foram extraídas de A. J. Greimas, Semiótica e Ciências Sociais, São Paulo, Cultrix, 1981, p. 48.
significação do texto, opondo-se radicalmente às teorias literárias de cunho psicossociológico da época. O que fez a semiótica ter sucesso em outros campos, além das ciências da linguagem, foi sua noção de texto, conside-rado não como substância, mas como um todo formal de significação não importando qual fosse sua forma de manifestação. Em seu projeto semiótico há lugar tanto para a semiótica geral quanto para as semióticas específicas. De um lado, estabelece-se uma perspectiva teórica englobante que dá a cada conceito um valor universal, seja qual for o campo das práticas humanas a que esteja vinculado. De outro, temos várias perspectivas teóricas engloba-das, um vasto campo de pesquisas que se efetuam por empréstimos concei-tuais. Tomando este ou aquele conceito da semiótica geral, cada semiótica específica modela-o e o redefine de acordo com seus princípios de pertinên-cia. Assim aconteceu com as semióticas visual, musical, da arquitetura, ou mesmo com a semiótica das paixões, do gosto e do olfato. E o mesmo vem acontecendo com a semiótica das mídias, que hoje é a vedete nos eventos científicos que reúnem semioticistas e especialistas da comunicação.
Como vemos, a relação entre semiótica e mídia é bastante antiga: os estu-dos comunicacionais avançam e os semioticistas vêm dando sua contribuição. Entretanto, a relação entre essas áreas parece ainda autista, pois uns e outros não se entendem entre si, resultando em uma convivência difícil. Se tentarmos descrever essas duas áreas, chegamos a um paradoxo: uma infi nidade de con-tatos íntimos, acompanhados de quase total desconhecimento recíproco. Mas os congressos nacionais e regionais de comunicação vêm abrindo espaço para os estudos semióticos, chegando mesmo a um fato inusitado: reunir os semio-ticistas dos três maiores ramos da semiótica (semiótica peirceana, semiótica francesa e semiótica da cultura) num mesmo espaço, em mesas de discussão e sessões temáticas, o que aponta, evidentemente, para um convívio necessário e produtivo. Assim, a investigação das semióticas das mídias, projeto que ainda apresenta pontos de vistas discordantes, revelam prismas que se encontram e, muitas vezes acabam por cooperar entre si.
A herança estruturalista da semiótica francesa (SF) perde força nos anos 1980, diante de novas concepções fi losófi cas e científi cas (ciências cognitivas, teorias das catástrofes, auto-organização de sistemas etc.), levando-a a buscar novas questões e novos centros de interesse. Tais mudanças de perspectivas não prevêem um recomeçar do zero, ao contrário, o que era proibido volta a ser questionado, o que foi excluído, é reintegrado de acordo com a necessidade da teoria. A enunciação, a percepção, que antes eram vistas como uma saída do
texto em direção à referência e à representação do mundo, são agora retomadas e, com o tempo, a SF percebe que o texto não contém apenas os níveis enuncivo e enunciativo, mas abarca também os processos que acionam e “formatam” o enunciado e a enunciação, pois para a apreensão da signifi cação é preciso con-siderar os processos que atuam ali, processos instáveis, considerados ainda em seu devir. Dessa forma, a SF traçou seu próprio caminho nas veredas sinuosas das paixões e nas precondições da signifi cação, identifi cando, antes da signifi ca-ção e da comunicaca-ção, um universo indiferenciado, que hoje é objeto de estudo da pesquisa semiótica que a distancia da autonomia do texto.
A partir de Semiótica das paixões de Greimas e Fontanille, traduzido para o português em 1993, a SF abriu o texto para o “mundo natural”, sustentando que a signifi cação articula-se em duas direções, uma manifestada e realizada, outra manifestante e realizante. Se, para a primeira, os esquemas actanciais ou os programas narrativos são efi cazes, para a segunda, os elementos pertinentes são a percepção, as sensações, o sensível, a intencionalidade, a cognição, o con-texto social. Se alguns criticam ainda o imanentismo ou o percurso gerativo do sentido, demonstram com isso total desconhecimento sobre a evolução da SF, pois ela agora considera a signifi cação não como dependente apenas do texto, do enunciado, mas decorrente de dados extralingüísticos, tais como as noções de precondições da signifi cação, valências, estesia, protensividade e devir, afeto, andamento, espaço tensivo, práxis enunciativa, modos de presença, interações e níveis de pertinência, que incluem as práticas, as estratégias, as formas de vida e a cultura, aquisições e desdobramentos introduzidos a partir dos anos 1990.
Sobre esses patamares, pouco explorados nos estudos comunicacionais, é que se inscrevem os textos aqui apresentados, que refl etem certa heterogenei-dade nas abordagens empreendidas pelos autores, decorrente tanto da perspec-tiva priorizada pelo analista quanto da natureza intrínseca do objeto analisado. Os textos reunidos na presente coletânea foram distribuídos em cinco partes: I – Novos desenvolvimentos em semiótica e mídia; II – Jornalismo impresso e televisado; III – Vinhetas; IV – Reality show e programas de comportamento, e fi nalmente, V – Novas Mídias.
A primeira parte inicia-se com um texto inédito em língua portuguesa de Jacques Fontanille, intitulado “Práticas semióticas: imanência e pertinência, efi -ciência e otimização”, uma das leituras que embasaram os seminários do GES-Com em 2007 e 2008 e que fomentaram muitas das pesquisas dos membros do grupo. Na seqüência, ainda na primeira parte temos a reedição de um texto de José Luiz Fiorin, “Semiótica e Comunicação”, um clássico da área, que defende
a semiótica como proposta metodológica para o estudo da comunicação midiá-tica. Para fechar essa primeira parte, há o texto de Jean Cristtus Portela, “Semi-ótica midiática e níveis de pertinência”, que empreende uma refl exão sobre os níveis de pertinência semiótica propostos por J. Fontanille e sua aplicação do campo da análise das mídias.
As demais partes do livro trazem os textos dos membros do grupo selecio-nados para publicação e organizados segundo os objetos analisados. A parte II apresenta dois textos. O primeiro, intitulado “Cartas na mídia impressa: uma prática semiótica entre leitores e editores”, de Matheus Nogueira Schwartzmann e Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, analisa a troca epistolar presente na mí-dia impressa como uma prática semiótica interativa, ressaltando a sua efi ciên-cia. O segundo, “Práticas de direcionamento do fl uxo de atenção no telejorna-lismo”, de Juliano José de Araújo, apresenta a análise de um telejornal que, sob o enfoque do sensível, busca mostrar como esse gênero faz para captar e manter a adesão do telespectador durante a sua transmissão. A parte III reúne três arti-gos, “Break comercial: estratégia e efi ciência”, de Jaqueline Esther Schiavoni, que trata de um estudo sobre a composição e o ordenamento do break comercial na programação televisiva, e dois textos sobre semiótica visual, “Figuralidade e semi-simbolismo na abertura da telenovela Belíssima” de Loredana Limoli, em que a abertura da telenovela é tomada como um objeto estético de natureza sincrética, e “O Nu de Boubat e a Globeleza”, de Adriane Ribeiro Andaló Tenuta, em que uma análise de Jean-Marie Floch é retomada a fi m de analisar o “nu artístico” da mulata brasileira na televisão. Na parte IV temos dois trabalhos também sobre televisão: “Práticas enunciativas como estratégias de interação:
Big Brother Brasil”, de Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz e Sarah Caramaschi
Degelo, no qual as autoras buscam identifi car como se dá a adesão do teles-pectador a esse tipo de programa, elegendo a enunciação e suas práticas como estratégias de interação, e “Práticas passionais na mídia televisiva: programas de comportamento”, de Dimas Alexandre Soldi, que analisa os programas Silvia
Poppovic e Casos de Família, explicitando e comparando o envolvimento
emo-cional dos atores e actantes. Finalmente, temos a parte V, que reúne os trabalhos sobre o YouTube e o Podcast, respectivamente “Internet, YouTube e semiótica: novas práticas do usuário/produtor”, de Tânia Ferrarin Olivatti, e “Rádio e
pod-cast: intersecção das práticas”, de Djaine Damiati Rezende e Matheus Nogueira
Schwartzmann, que tentam evidenciar a pertinência e a efi ciência das práticas e estratégias propostas pelos avanços midiáticos.
GES-Com (2007-2008) que tiveram como tema as “Práticas na mídia”, tomando como eixo teórico o texto de Jacques Fontanille, que, como já dissemos, inicia este livro. A discussão desse texto inovador e de outras leituras, abordadas como desdobramentos da SF, fomentou a produção de análises de objetos midiáticos pelos membros do grupo que, conseqüentemente, redundaram na concepção deste nosso projeto. Desse modo, os textos ora apresentados foram reunidos, e mesmo concebidos, com a intenção de demonstrar ao leitor que o estudo de um determinado caso pode elucidar uma série de práticas recorrentes em diferen-tes manifestações midiáticas de natureza multimodal, sobretudo verbo-visual e audiovisual, sendo que o próprio Greimas dizia-se persuadido de que esses objetos possuem “uma linguagem comum de que se valem para nos ‘falar’, mas também – e sobretudo – de que é possível construir uma linguagem que nos permita ‘falar’ deles...”4.
Os agradecimentos são sempre muitos no GESCom, pois foi graças à cola-boração constante de todos os membros que o grupo pôde ser continuamente impulsionado, chegando a esta primeira publicação. Entre aqueles que nos aju-daram a efetivá-la, agradeço aos membros que se apresentaram como autores dos capítulos, aceitando o desafi o de investigar seus objetos na perspectiva da SF, desdobrando-se, muitas vezes, para os níveis de pertinência semiótica pro-postos por Fontanille. Agradeço aos pareceristas, aos membros que participa-ram da tradução, da normalização, da revisão e diagparticipa-ramação, num verdadeiro trabalho de equipe. E também à direção e vice-direção da FAAC, que fi nancia-ram esta publicação via verba departamental e projeto de extensão. Agradeço, principalmente, ao co-organizador desta obra, pelo empenho em resolver as questões técnicas e o cuidado com a excelência dos trabalhos.
Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz Líder do GESCom-UNESP Bauru, setembro de 2008
4 Embora nesse artigo Greimas refi ra-se à linguagem plástica, não há dúvida de que tal fundamento teórico possa ser estendido a toda forma signifi cante. A. J. Greimas, “Semiótica fi gurativa e semiótica plástica”, em
NOVOS DESENVOLVIMENTOS
EM SEMIÓTICA E MÍDIA
PRÁTICAS SEMIÓTICAS
Imanência e pertinência, efi ciência e otimização
1Jacques Fontanille
1. IMANÊNCIA E PERTINÊNCIA
1.1. Introdução
“Fora do texto não há salvação!” é um slogan que marcou uma época, quan-do era preciso resistir aos cantos de sereia quan-do contexto e às tentações de práticas hermenêuticas, especialmente no domínio literário, que procuravam “explica-ções” num conjunto de dados extratextuais e extralingüísticos. “FDTNHS!” era o slogan de uma ascese metodológica fecunda, que permitiu levar o mais longe possível a pesquisa dos modelos necessários a uma análise imanente e delimitar o campo de investigação de uma disciplina e de uma teoria, a semiótica do texto e do discurso.
Mas se tais tentações permanecem atuais, hoje a questão é colocada de ma-neira diferente.
De um lado, as pesquisas cognitivas convidam a semiótica a tomar uma posição sobre o estatuto das operações de “produção de sentido” que ela iden-tifi ca em suas análises de discurso: são operações cognitivas dos produtores ou dos intérpretes? São rotinas desenvolvidas coletivamente no interior de cada cultura? São atividades das próprias semióticas-objeto, consideradas como “má-quinas signifi cantes” e dinâmicas?
1 Este texto foi originalmente publicado na revista Nouveaux Actes Sémiotiques, n. 104 -105-106 (Pulim, 2006). A presente tradução é de Maria Lúcia Vissotto Paiva Diniz, Adriane Ribeiro Andaló Tenuta, Mariza Biancon-cini Teixeira Mendes, Jean Cristtus Portela e Matheus Nogueira Schwartzmann. (N.T.)
De outro lado, a própria prática semiótica ultrapassou amplamente os li-mites textuais, interessando-se, há mais de vinte anos, pela arquitetura, pelo urbanismo, pelo design de objetos, por estratégias de mercado (Floch, 1990) ou ainda pela degustação de um charuto ou de um vinho e, de um modo mais geral, pela construção de uma semiótica das situações (Landowski, 1992) e até mesmo, hoje em dia, segundo as proposições de Landowski, de uma semiótica da experiência – a partir da problemática do contágio – do ajustamento estésico e do aleatório (Idem, 2004; 2005).
Parece que chegou a hora de redefi nir a natureza daquilo de que a semiótica se ocupa (as “semióticas-objeto”), para, ao mesmo tempo, responder às ques-tões que lhe são colocadas a partir do exterior (às vezes também do interior) e assumir teoricamente essas múltiplas e necessárias pesquisas conduzidas fora do texto, pesquisas que se justifi cam na medida em que se submetem à coerção mínima de uma solidariedade entre expressão e conteúdo e não constituem es-capadas “fora da semiose”.
Entretanto, o princípio da imanência revelou-se como portador de um grande potencial teórico, pois a restrição que impõe à análise é uma das condi-ções da modelização e, conseqüentemente, do enriquecimento da proposição teórica global: sem o princípio da imanência, não haveria teoria narrativa, mas uma mera lógica da ação aplicada a motivos narrativos; sem o princípio da ima-nência, não haveria a teoria das paixões, mas uma mera importação de modelos psicanalíticos; sem o princípio da imanência, não haveria a semiótica do sensí-vel, mas somente uma reprodução ou um arranjo de análises fenomenológicas. Por trás do princípio da imanência perfi la-se uma hipótese forte e produtiva, segundo a qual a própria práxis semiótica (a enunciação “em ato”) desenvolve uma atividade de esquematização, uma “metassemiótica interna”, pela qual po-demos “apreender” o sentido, e que a análise tem por tarefa inventariar e expli-citar em sua metalinguagem.
Todas as lingüísticas e semióticas que renunciaram ao princípio da ima-nência encontram-se hoje divididas em dois ramos: um ramo forte, quando encaram diretamente seu objeto, e um ramo fraco e difuso, quando solicitam o que chamam de “contexto” de seu objeto. Em suma, tratar-se-ia não de inserir o objeto de análise em seu contexto, mas, ao contrário, de integrar o contexto ao objeto de análise, assumindo como conseqüência o fato de que, semioticamente falando, o contexto não se situa “nem antes, nem depois, mas no âmago da lin-guagem” (Landowski, 1992: 147; 170-172).
(1983: 409-416), que as semióticas-objeto analisadas não coincidem obrigato-riamente com as semióticas construídas que resultam da análise: estas revelam-se mais restritas ou mais amplas que aquelas. Em suma, com relação a uma dada semiótica-objeto, a semiótica construída pode ser “intensa” (concentrada e focalizada), ou “extensa” (expandida e englobante). No que concerne à semi-ótica dos objetos, por exemplo, encontramos tanto a versão “intensa” (o objeto como suporte de inscrições ou de vestígios) quanto a versão “extensa” (o objeto como um ator entre os demais de uma prática semiótica). A versão “intensa” diz respeito ao nível de pertinência inferior, pois focaliza as condições de inscrição do texto, enquanto a versão “extensa” diz respeito ao nível de pertinência supe-rior, o da prática englobante. Portanto é preciso se esforçar para dar conta da relação entre as semióticas construídas “intensas” e “extensas”, identifi cando e articulando seus respectivos níveis de pertinência.
Sobre a análise imanente, devemos hoje distinguir cuidadosamente (1) o próprio princípio de imanência e (2) a fi xação dos limites da imanência. Essa questão tornou-se defi nitivamente confusa pela maneira como esses limites, provisórios e arbitrários, foram recentemente fi xados no texto-enunciado. Se é verdade, como diz Hjelmslev, que os dados do lingüista apresentam-se como sendo os do “texto”, isso não é mais uma verdade para o semioticista, que tra-balha também com “objetos”, com “práticas” ou com “formas de vida” que es-truturam áreas inteiras da cultura. Assim, o slogan greimasiano deveria ser hoje reformulado: “Fora das semióticas-objeto não há salvação!”, cabendo a nós de-fi nir o que são essas “semióticas-objeto”. Quanto ao recurso ao contexto, nessas condições, trata-se apenas da confi ssão de uma delimitação não pertinente da semiótica-objeto analisada e, mais precisamente, de uma inadequação entre o tipo de estruturação buscada e o nível de pertinência em questão.
1.2. O “NÍVEL DE PERTINÊNCIA” DAS PRÁTICAS
NO PERCURSO DA EXPRESSÃO
1.2.1. Notas sobre a hierarquia dos níveis
A hierarquia – (1) signos e figuras, (2) textos-enunciados, (3) objetos e suportes, (4) práticas e cenas, (5) situações e estratégias, (6) formas de vida – foi apresentada e justificada em outras publicações (Fontanille, 2005: 36),
como segue2:
Essa hierarquia dos níveis de pertinência semiótica, previamente defi nida como constitutiva do percurso gerativo do plano da expressão, leva-nos a algu-mas observações complementares.
De início, e na falta de um inventário mais exaustivo, essa estruturação do mundo da expressão semiótica em seis planos de imanência3 e de pertinência
diferentes apresenta-se como uma descrição da estrutura semiótica das cultu-ras. Entre os signos e as formas de vida, ela propõe de fato que se considere o conjunto dos níveis pertinentes nos quais as signifi cações culturais podem se exprimir.
Para defi nir seu objeto, na verdade, a semiótica da cultura deve organizar-se ao mesmo tempo em intensão e em extensão. Em intensão, para dar uma defi -nição formal e operatória do que é uma cultura do ponto de vista semiótico e, em extensão, para especifi car seus elementos e níveis pertinentes. Quando um semioticista como Iuri Lotman descreve, ao longo de sua obra, a cultura russa, ele não age de modo diferente: por um lado, começa por colocar a defi nição intensiva da cultura, graças ao modelo da semiosfera(Lotman, 1999), de outro,
2 No texto original, o autor faz referência a Fontanille (2007b). Optamos por apresentar ao leitor uma publica-ção equivalente em português e inserimos no corpo do texto deste trabalho o quadro dos níveis de pertinên-cia. (N.T.)
não cessa de ir e vir entre textos (em geral literários), formas de vida (coletivas e individuais, tiradas da história russa), entre signos (arquitetônicos ou verbais, por exemplo) e estratégias (políticas ou militares). É preciso esclarecer ainda que, se para Lotman a semiosfera é objeto de uma organização precisa e siste-mática sobre as bases de uma epistemologia cibernética, os níveis de pertinência não estão explicitados e só podem ser identifi cados pela diversidade de seus objetos de análise e de seus exemplos.
O objeto deste estudo é mais especifi camente o nível das práticas, mas sem jamais perder de vista os demais níveis com os quais elas mantêm relações sem-pre signifi cantes, segundo um princípio já defi nido por Émile Benveniste(1995: 127-140), o princípio de integração. É verdade que Benveniste limita volunta-riamente o estudo desse princípio ao domínio das línguas verbais (fonemas, morfemas, sintagmas, frases), mas o problema do qual ele trata é exatamente da mesma natureza daquele tratado pela semiótica das culturas, guardadas as devidas proporções.
Um exemplo permitirá ilustrar concretamente como acontece a integração semiótica entre os diferentes planos de imanência. É o exemplo banal da corres-pondência postal. Um texto (o da carta) é inscrito em folhas de papel, que são colocadas dentro de um envelope, sobre o qual está o endereço do destinatário, às vezes o do destinador, assim como algumas fi guras e marcas (timbre, selos etc.) pelas quais o intermediário marca sua presença e seu papel.
As mesmas indicações (o nome e o endereço do destinatário) podem ser encontradas ao mesmo tempo na carta e no envelope. Mas sua inscrição em duas partes diferentes do objeto de escrita lhe confere papéis actanciais diversos: (1) na carta, o nome e o endereço do destinatário participam de uma estrutura de enunciação, um “endereço” que manifesta a relação enunciativa, eventual-mente implícita, do texto da carta, e determinam sua leitura; (2) no envelope, o nome e o endereço do destinatário participam de duas práticas diferentes: por um lado, constituem uma instrução para os intermediários postais, no mo-mento das operações de classifi cação, de encaminhamo-mento, de transporte e de distribuição fi nal, por outro, permitem triar, entre todos os receptores possíveis da carta, o destinatário legítimo, ou seja, quem tem o direito de abrir o envelope e ler a carta.
A fronteira entre as duas confi gurações é o estado do envelope: se ele está fechado, somente a primeira prática está ativa; se está aberto, a segunda prá-tica pode ser realizada. Assim, encontramos aqui associados a uma morfolo-gia particular do objeto de escrita, dois tipos de prática, uma instaurada pelo
gênero epistolar e outra, pelo gênero “comunicação e circulação dos objetos em sociedade”, encaixadas uma à outra. Cada uma corresponde a uma parte e a um estado do objeto, assim como a inscrições específi cas, que permitem administrar a confrontação com outras práticas eventualmente concorrentes, provenientes de outros gêneros. Se o envelope chega aberto, por exemplo, o correio deve colocar uma outra inscrição para indicar que a “prática concor-rente” já fazia parte do processo corriqueiro de distribuição, e não de uma prá-tica externa ilegítima. Ou ainda, em uma empresa, é a própria formulação do nome do destinatário que decide o modo de abertura: se o nome é um título ou uma função, o envelope será aberto antes de chegar a seu destinatário, se é um nome próprio, ela chegará fechada.
Desse modo, vemos formar-se aqui um outro nível de pertinência, que está a meio caminho entre o dos objetos e o das situações em geral: o das práticas, aqui práticas de escrita, práticas de comunicação social e práticas de manipula-ção de objetos. Os dois modos de inscrimanipula-ção dos mesmos elementos textuais só aparecem no nível textual sob a forma de propriedades materiais acessórias e só têm sentido no nível superior, o das práticas. Essa condição evoca diretamente a regra defi nida por Benveniste:
Um signo é materialmente função dos seus elementos constitutivos, mas o único meio de defi nir esses elementos como constitutivos consiste em identifi cá-los no interior de uma unidade determinada onde pre-enchem uma função integrativa. Uma unidade será reconhecida como distintiva num determinado nível se puder identifi car-se como “parte integrante” da unidade de nível superior, da qual se torna o integrante (Benveniste, 1995: 133).
E ele continua a sistematizar a distinção entre “constituintes” e “integran-tes”, para chegar a uma conclusão maior, que coincide exatamente com nosso projeto:
Qual é fi nalmente a função que se pode determinar para essa distinção entre constituinte e integrante? É uma função de importância funda-mental. Pensamos encontrar aqui o princípio racional que governa, nas unidades dos diferentes níveis, as relações entre Forma e Sentido. [...]
A forma de uma unidade lingüística defi ne-se como a sua capacidade de dissociar-se em constituintes de nível inferior.
O sentido de uma unidade lingüística defi ne-se como a sua capacidade de integrar uma unidade de nível superior.
Forma e sentido aparecem assim como propriedades conjuntas, dadas necessária e simultaneamente, inseparáveis no funcionamento da língua. As suas relações mútuas revelam-se na estrutura dos níveis lingüísticos, percorridos pelas operações descendentes e ascendentes da análise e gra-ças à natureza articulada da linguagem (Ibidem: 134-136).
1.2.2. A cena predicativa das práticas
É chegado o momento de especifi car a defi nição do nível de pertinência das práticas, que deve obedecer ao princípio anteriormente formulado. As práticas recebem uma “forma” (constituintes) de sua confrontação com as outras práti-cas e, por isso, de um lado, integram os elementos materiais dos níveis inferiores (signos, textos, objetos) para torná-los elementos distintivos e pertinentes e lhes dar “sentido”, e de outro lado, recebem um “sentido” de sua própria participação nos níveis superiores (estratégias e formas de vida).
A forma das práticas está ligada a sua dimensão predicativa, que designare-mos, daqui por diante, como cena predicativa (no sentido em que, na lingüística dos anos 1960, falávamos da predicação verbal como de uma “pequena cena”)4.
Sob esse aspecto, uma prática pode comportar um ou vários processos (um ou vários predicados), atos de enunciação que implicam papéis actanciais de-sempenhados, entre outros, pelos próprios textos ou imagens, por seus obje-tos-suportes, por elementos do ambiente, pelo transeunte, pelo usuário ou pelo observador, tudo o que forma a “cena” típica de uma prática. Do mesmo modo, ela é composta pelas relações entre esses diferentes papéis, essencialmente re-lações modais, mas também passionais. Enfi m, a prática comporta geralmente uma modifi cação dos corpos e das fi guras, que implica uma sintaxe fi gurativa. O conjunto (papéis, atos, modalizações, paixões e sintaxe fi gurativa) constitui esse primeiro dispositivo. Ele é centrado (sobre o predicado) e delimitado (pe-las “valências” actanciais e modais necessárias à atualização desse predicado) e essas duas propriedades caracterizam a forma da cena.
As ferramentas e as práticas técnicas fornecem o exemplo mais simples desse tipo de cena predicativa prática: um objeto, confi gurado de acordo com um uso determinado, vai desempenhar um papel actancial no interior de uma prática técnica (cujo uso é a atualização enunciativa), que consiste em uma ação
4 Tratar a predicação como uma “cena”, assim como faziam Tesnière, Fillmore, e como fazem muitos outros hoje em dia, consiste justamente em restituir, no momento de defi nir um nível de análise pertinente (o do enuncia-do frástico), uma dimensão de experiência perceptiva: a sintaxe frástica é uma forma pertinente enuncia-do plano da expressão, obtida por conversão formal da experiência de uma “cena”.
sobre um segmento fi gurativo do mundo natural (o “substrato” da prática). Nes-se Nes-segmento-substrato, a ferramenta e o usuário estão associados no interior de uma mesma cena predicativa, em que o conteúdo semântico do predicado é for-necido pela natureza fi gurativa do substrato e pela temática da própria prática (cortar, raspar, aplainar etc.), e na qual esses diferentes atores desempenham os principais papéis actanciais (Floch, 1995: 181-213).
A integração das práticas ao nível superior, o das estratégias5, será feita sob
outras formas sintagmáticas, já que se trata, em suma, nesse caso, de geren-ciar as conjunturas e intersecções entre práticas: encadeamentos canônicos ou idiossincráticos, sobreposições e ajustamentos em tempo real, concorrências e alianças estratégicas entre práticas concomitantes ou paralelas.
Enfi m, para falar como Benveniste, a forma das práticas é predicativa (mais precisamente processual) e seu sentido é estratégico.
1.3. Contextos, instâncias pressupostas e propriedades
sensíveis e materiais
1.3.1. Contextos
Na perspectiva da integração, o que aparece como “contexto”, a um nível inferior ao das práticas, forma seu arcabouço predicativo, actancial, modal e te-mático em seu próprio nível e o que aparece como propriedades sensíveis e mate-riais não pertinentes, no nível inferior, forma a dimensão fi gurativa da prática.
O contexto e a substância não são, portanto, pertinentes no nível “n-1”, e os elementos que comportam, reconfi gurados em constituintes pertinentes do nível “n”, não são mais, desse modo, nem “contextuais” nem “substanciais”.
1.3.2. Instâncias pressupostas
Em outro contexto, o estatuto da enunciação e das instâncias enunciantes, intensamente discutidas por Jean-Claude Coquet (1994), obedece à mesma dis-tinção: no nível de pertinência do texto, a enunciação só é pertinente se está ali representada (enunciação enunciada), enquanto a enunciação dita
“pressupos-5 Sobre a questão da estratégia em semiótica, ver especialmente o prólogo de Eric Landowski em Erik Bertin (2003) e Landowski (2006). Sobre o “ajustamento” propriamente dito, ver desenvolvimentos mais específi cos em Landowski (2004: 27-32).
ta” é um puro artefato que não pode ser observado. Mas no nível de pertinência dos objetos-suportes, e até mesmo no das práticas que os integram, a enuncia-ção encontra toda sua pertinência: os atores então ganham um corpo e uma identidade, o espaço e o tempo da enunciação lhes dão uma ancoragem dêitica e os próprios atos da enunciação podem inscrever-se fi gurativamente na própria materialidade dos objetos de inscrição (conforme já dissemos anteriormente sobre a carta e seu envelope colado ou rasgado).
1.3.3. Propriedades materiais
O nível do objeto-suporte, em seu movimento de integração às práticas, é um caso exemplar do tratamento das propriedades materiais. Enquanto corpo material, na verdade, o objeto entra nas práticas e os usos dessas práticas são em si mesmos “enunciações” do objeto. Sob esse aspecto, o objeto em si só pode conter traços desses usos (inscrições, desgaste, pátina etc.), ou seja, “vestígios enunciativos”. Para dar conta de sua “enunciação-uso” global, para além desses “traços” inscritos, será preciso passar ao nível superior, o da estrutura semiótica das práticas, em que encontraremos manifestações observáveis dessas enuncia-ções, elas mesmas analisáveis em conteúdos de signifi cação.
Todavia, o caráter “material” do suporte não signifi ca que ele deva ser obri-gatoriamente tangível. “Material” deve ser entendido aqui no sentido de Hjel-mslev, ou seja, como substrato sensível das semióticas-objeto. Ao comparar, por exemplo, as práticas divinatórias dos romanos e dos dogons, vemos que elas obedecem claramente ao mesmo princípio: defi nir no espaço natural um su-porte de inscrição, limites e direções, e interpretar as trajetórias de animais (o pássaro para os romanos, a raposa para os dogons) no “modelo de leitura” assim constituído. No entanto, o modelo romano (o templum) é projetado no céu, enquanto o dos dogons é traçado no solo. A diferença entre os dois suportes “materiais”, um terrestre e sólido e o outro aéreo e intangível, pertence à ordem do sensível e substancial e induz até mesmo diferenças nas potencialidades ex-pressivas dos dois suportes formais: de um lado, o templum pode explorar uma terceira dimensão do espaço, a profundidade, ou ainda a velocidade e a duração da passagem, sem poder, no entanto, conservar o rastro dessas fi guras, a não ser na memória visual; de outro, o modelo dos dogons só pode explorar pegadas sobre o solo, mas, nesse caso, o suporte as conserva na memória sob a forma de um vestígio durável.
Entretanto, esses dois “objetos” de escrita têm direito ao mesmo estatuto de objeto-suporte, embora suas propriedades sensíveis sejam muito diferentes.
1.3.4. Propriedades sensíveis e passionais
No tratamento das propriedades sensíveis, podemos tomar como exemplo o caso das paixões induzidas pelos textos-enunciados, os únicos, aliás, que cha-maram a atenção de Aristóteles, em seu tempo. Na verdade, a semiótica teve alguma difi culdade para levar em consideração as paixões e as emoções do des-tinatário. Certamente, elas podem estar inscritas no próprio texto, graças a um simulacro proposto no enunciado, mas esse caso é muito restrito, se considerar-mos a amplitude do problema a ser tratado. Realmente, as paixões e as emoções do destinatário surgem numa prática ou situação semiótica em que o texto é um dos actantes e, por suas fi guras e sua organização, pode produzir ou inspirar esta ou aquela paixão, esta ou aquela emoção.
Mais tecnicamente, por exemplo, podemos dizer que o ritmo e a construção de uma frase são um meio de proporcionar ao leitor a experiência de uma emo-ção ou um percurso somático, sem afi rmar, entretanto, que esse mesmo ritmo e essa mesma construção sintáxica “representam” a emoção e o percurso em ques-tão. É preciso, então, passar ao nível de pertinência da prática interpretativa, em que o texto é um vetor de manipulação passional e, entre os esquemas motores e emocionais “vividos” e “experimentados” pelo leitor, encontra-se aquele que é induzido pelo ritmo e pela construção sintáxica em questão.
De um modo mais geral, a introdução do sensível e do corpo na análise semiótica tem ocasionado algumas difi culdades que não foram inteiramente re-solvidas até o presente momento, e que se atêm ao fato de que esse “sensível” e esse “corpo” não estão necessariamente representados no texto ou na imagem para serem pertinentes, especialmente quando se trata de articular a enunciação em uma experiência sensível e em uma corporeidade profunda.
Não basta, por exemplo, remeter as noções provenientes da “foria” e da “tensividade”, a uma camada “protossemiótica” para lhes conferir um estatuto claro e operatório. As valências perceptivas da tensividade, entre outras, foram freqüentemente criticadas em razão da ausência de qualquer ancoragem, au-sência que dá a sua utilização imprudente um caráter particularmente especu-lativo. A “percepção” semântica e axiológica de que tratam faz parte do entorno substancial (e não pertinente) da enunciação textual. Todavia, no nível superior,
o das práticas semióticas (as práticas de produção de sentido, as práticas inter-pretativas, especialmente), elas encontram toda sua pertinência: um universo sensível é dado à apreensão no interior de tal prática, pelas fi guras de um texto, e é então que as valências desempenham seu papel, como “fi ltro” práxico da construção axiológica.
A partir dessa constatação, não é mais sufi ciente dizer que a enunciação de um discurso fundamenta-se sobre uma ou várias experiências, mesmo que o objeto de análise seja a experiência enquanto tal (o sentido experimentado). Essas mesmas experiências devem ser, por sua vez, confi guradas em “práticas” ou em “situações semióticas” para se tornarem semióticas-objeto analisáveis. De fato, cada nível de pertinência está associado a um tipo de experiência que pode ser reconfi gurado em constituintes pertinentes de um nível hierarquicamente superior. A experiência perceptiva e sensorial conduz às “fi guras”, a experiência interpretativa conduz aos “textos-enunciados”, a experiência prática conduz às “cenas predicativas”, a experiência das conjunturas conduz às “estratégias” etc. Mas esse esboço de tipologia das experiências é por si mesmo enganoso, porque antes de sua declinação em “semióticas-objeto” e em níveis de pertinência, a própria experiência é indivisível e holística e, assim, é a hierarquia dos planos de imanência que induz retroativamente a uma hierarquização e a uma segmen-tação da experiência.
A proposta que fazemos coloca em questão diversas estratégias teóricas que consistem em atribuir a conceitos e operações, necessários à construção teórica, estatutos epistemológicos ambíguos e pouco operatórios, como “pressuposição”, “contexto”, “protossemiótica”, “experiência subjacente” etc. Ela consiste em atri-buir a esses conceitos e a essas operações um nível de pertinência hierarquica-mente superior, em que são constituintes de uma semiótica-objeto cujo plano da expressão tem um modo diferente, ou pelo menos é multimodal e polis-sensorial. Certamente, não estamos ainda querendo identifi car e inventariar os aspectos “observáveis” desses constituintes, mas estamos construindo os meios para fazê-lo e instalando a restrição que nos incitará a fazê-lo.
1.3.5. Sincretismos e sinestesias
Os sincretismos (conjuntos às vezes denominados “pluricódigos” ou “mul-timodais”) ou as sinestesias (conjuntos ditos “polissensoriais”) serão submeti-dos à mesma regra de integração: no nível inferior, aparecem como dispositivos
formais, que só fazem sentido nas práticas. De fato, seus constituintes (modos semióticos diferentes, modos sensoriais distintos), no momento de sua redistri-buição nas diferentes composições predicativas, temáticas e fi gurativas da práti-ca, aí encontram um lugar, um papel, ambos interdefi nidos.
Por exemplo, no funcionamento de um pictograma como “texto-enuncia-do”, poderemos apenas observar que coexistem semióticas verbais, icônicas e objetais, e que estamos lidando com uma semiótica-objeto multimodal. Toda-via, redistribuídos em uma prática cotidiana ou técnica, cada um dos elemen-tos dessas semióticas multimodais (compreendidas aí as fi guras do pictograma) desempenha um dos papéis que constituem a cena predicativa (instrumentos, objetos, agentes etc.), ou incorpora uma das modalizações (dêiticas, espaço-temporais, factuais) desses papéis.
Outro exemplo: no funcionamento de um “prato” culinário, as diferentes percepções sensoriais (visuais, táteis, olfativas e gustativas, até mesmo auditivas) formarão associações polissensoriais se tratamos o “prato” como um “texto” (por uma espécie de detalhamento de todas as propriedades fi gurativas e sensoriais). Se esse detalhamento faz aparecer equivalências entre as ordens sensoriais, po-deríamos até mesmo chegar a uma “sinestesia”, no sentido tradicional do termo. Mas, se elevamos a análise a um nível superior, o da prática da degustação, cada um dos modos do sensível encontrará seu lugar nesse conjunto de operações colocadas em seqüência (anunciar, prometer, verifi car, validar, provar etc.), de maneira que eles estabeleçam, então, não apenas relações paradigmáticas (equi-valência e diferença), mas sintagmáticas e predicativas (uns anunciam, prome-tem ou verifi cam os outros).
Em suma, e mais particularmente na passagem dos “textos-enunciados” às “práticas” (pelo nível intermediário dos “objetos” e dos “suportes”), a hierarqui-zação dos níveis de pertinência permite opor dois modos de análise: (1) o
deta-lhamento, que consiste em uma análise de tipo “distribucional” e formal, que se
restringe à análise de um único nível por vez; (2) o realçamento que se apresenta como “gerativo”, (conforme o “percurso gerativo do plano da expressão”), graças à integração entre dois ou mais níveis.
Essa distinção (detalhamento/realçamento) exprime, entretanto, o fato de que, a cada passagem ao nível superior, acrescentamos uma dimensão ao plano da expressão. Do signo ao texto-enunciado, acrescentamos a dimensão “tabular” e a consideração da superfície (ou do volume) de inscrição: essa superfície ou volume de inscrição é dotada de regras sintagmáticas para dispor as fi guras (um tipo de modelo virtual).
Do texto-enunciado ao objeto (sobretudo objeto-suporte), acrescentamos a dimensão da espessura (portanto, do volume) e da complexidade morfológica do próprio objeto (envelope/estrutura material). Essa nova dimensão (a “espessu-ra” e complexidade materiais) implica principalmente, do ponto de vista semi-ótico, propriedades de “resistência” ao uso e ao tempo e, de forma mais geral, a “corporeidade” das fi guras semióticas.
Do texto-enunciado e do objeto à prática, acrescentamos a dimensão do es-paço tridimensional de uma cena, assim como outras propriedades temporais (“aspecto” e “ritmo” da prática, sobretudo) etc. Nesse caso, são estruturas espa-ciais e temporais independentes do texto e do objeto que acolhem, localizam e modalizam as interações entre os participantes da prática: podemos então, com propriedade, falar aqui de uma dimensão “topocronológica” da cena predicativa. Essa progressiva autonomização das propriedades espaço-temporais em relação às fi guras pertinentes (atores, objetos etc.) conduz às estratégias, no sentido em que, nesse caso, são regimes temporais e dispositivos espaciais igualmente “abs-tratos” que determinam tipos de ajustamento entre práticas.
1.4. Retóricas ascendentes e descendentes
Até o presente momento, vimos as operações de integração na estrita ob-servância do princípio defi nido por Benveniste, que apenas se interessava pela análise e pela articulação das linguagens. Consideremos agora esse princípio como um modo de integração progressiva canônica e um modo de referência: os textos integram as fi guras, os objetos integram os textos, as práticas integram os objetos, etc. É assim que funciona o percurso gerativo da expressão, contanto que ninguém tente modifi cá-lo ou desorganizá-lo.
Entretanto, como todo percurso canônico, ele está sujeito a numerosas va-riações, decorrentes das enunciações e dos usuários, sendo preciso agora, conse-qüentemente, levar em consideração a dimensão retórica desse percurso. Desse ponto de vista, a integração canônica será defi nida como integração ascendente. Mas encontraremos também movimentos inversos (integração descendente) e integrações irregulares, entre níveis disjuntos, que designaremos como integra-ções sincopadas ou, simplesmente, como síncopes ascendentes ou descendentes.
1.4.1. Integrações e síncopes ascendentes
As síncopes ascendentes consistem em “saltar” um ou mais níveis no per-curso de integração canônico. Por exemplo, a “desmaterialização” do suporte da escrita, que suprime o nível do objeto e nos faz passar diretamente do texto à prática. Sabemos que é preciso desconfi ar dos discursos sobre a “desmateria-lização” de nossa vida cotidiana, mas as formas de pagamento eletrônico, por exemplo, se não suprimem o objeto próprio à prática (o cartão magnético, por exemplo), oferecem, no entanto, uma alternativa aos suportes de inscrição das unidades do valor monetário (dinheiro em espécie). Por outro lado, como a lingüística estrutural ignorou sistematicamente o estatuto material do discurso verbal oral, a maior parte das análises das interações orais baseia-se nessa mes-ma síncope “desmes-materializante”, que “desencarna” as práticas linguageiras, e que deve evidentemente ser recolocada em questão.
A síncope ascendente pode ser ainda mais radical. Ignorando todos os ní-veis anteriores, ela permite a um dos níní-veis do percurso assumir sua autonomia e parecer “originário”: assim, encontraremos objetos sem fi guras-signos nem textos aparentes, como a maioria das ferramentas ou das máquinas. Essa última possibilidade leva-nos, aparentemente, aos limites do domínio tradicionalmen-te atribuído à semiótica, já que confere um estatuto semiótico a manifestações sociais e culturais que, no limite, podem não comportar nenhuma “fi gura-sig-no”, nenhum “texto-enunciado” e, a fortiori, não têm relação com nenhuma ma-nifestação verbal.
Do mesmo modo, poderíamos tentar reconhecer práticas sem objeto mate-rial, diretamente ancoradas em uma “topocronologia”, como a dança ou a mími-ca. Mas, além do fato de que a dança implica um texto musical, não poderíamos esquecer que essa topocronologia é uma estrutura de apoio que dá signifi cado aos corpos. Certamente, não são “objetos” no sentido corrente, mas verdadeiros “sujeitos” que, entretanto, são suportes de inscrição: a expressão coreográfi ca consiste justamente em inscrever fi guras nos corpos dos dançarinos, como se fossem, aliás, corpos-objeto.
Enfi m, tais síncopes ascendentes não invalidam a hierarquia dos níveis de pertinência na medida em que, no sentido da integração descendente (como demonstraremos a seguir), essas ferramentas ou essas práticas podem ser objeto de uma notação ou de uma representação textual, seja anterior (um texto ou uma imagens de prefi guração, o esquema gráfi co de uma ferramenta, por exem-plo) ou posterior (textos e imagens de representação, por exemplo, a foto de um
móvel pré-fabricado em um manual de instrução). Na verdade, às vezes é bem difícil, na ausência de uma investigação genética, saber se estamos diante de “prefi gurações” ou “representações”, considerando que aquilo que para alguns parece uma representação a posteriori, seria para outros apenas uma prefi gura-ção a priori. No entanto, ainda que seja problemática, a distingura-ção entre inscri-ções de prefi guração e inscriinscri-ções de representação conduz a uma tipologia dos
modos retóricos da integração entre níveis.
1.4.2. Integrações e síncopes descendentes
Cada nível superior pode manifestar-se nos níveis inferiores, segundo o percurso de integração descendente. A integração ascendente atua por comple-xão e por acréscimo de dimensões suplementares, enquanto a integração des-cendente atua por redução do número de dimensões. Mas os dois percursos não são contrários um ao outro: na integração ascendente, um texto estará inscrito num objeto e manipulado em uma prática; na integração descendente, uma prá-tica estará emblematizada por um objeto, ou encenada num texto. A diferença entre os dois percursos baseia-se na reciprocidade dos percursos de integração: a prática integra um texto (direção hierárquica ascendente), o texto integra uma prática (direção hierárquica descendente).
O caso da dança é particularmente interessante porque, de um lado, corres-ponde perfeitamente aos critérios de uma prática, esquematizável como “cena predicativa” e, de outro lado, integra evidentemente, como insiste Landowski (2004: 155), os “ajustamentos” entre os corpos em movimento. Ora, os ajusta-mentos espaço-temporais decorrem das estratégias, e quando falamos de ajus-tamento entre corpos em movimento, seria preciso, para sermos mais claros, falarmos de ajustamento entre práticas que implicam corpos em movimento (que é o caso da maioria das situações da vida cotidiana). De fato, a dança é uma prática (de deslocamento) mais ou menos codifi cada que integra (na di-reção descendente) formas de ajustamento estratégico e que, a partir do que se apresenta na vida cotidiana como ajustamentos entre práticas autônomas e concorrentes, constrói uma só prática para dois ou mais corpos. Portanto, assim como as práticas podem ser “textualizadas” em tipos de textos específi cos, as estratégias podem ser “praticadas”, em tipos de práticas específi cas.
1.4.3. Integrações intensivas e extensivas
1.4.3.1. Condensações e desdobramentos
O caso das prefi gurações e representações textuais das práticas convida-nos a levar em consideração uma outra dimensão dos procedimentos de integração. A integração descendente, de fato, apresenta-se como uma condensação, devido à perda de um certo número de propriedades. De modo inverso, a integração ascen-dente produz um desdobramento, devido ao aumento do número de dimensões.
Além disso, se admitimos que do ponto de vista retórico, que é o nosso, os movimentos de integração não respeitam necessariamente um procedimento canônico, então é possível considerar que essas duas operações sejam graduais, segundo a importância da perda ou do ganho. Em outras palavras, a
condensa-ção e o desdobramento são modos operatórios respectivamente de integracondensa-ção
descendente e de integração ascendente, mas, tanto numa direção como na ou-tra, o modo operatório varia entre um mínimo e um máximo. Por exemplo, na direção da integração descendente, a “prefi guração” benefi cia em geral um grau de condensação superior à “representação”, como mostramos anteriormente.
1.4.3.2. Otimização e simbolização
A integração descendente não condensa portanto, necessariamente, as for-mas de vida, as estratégias e as práticas. Ela pode ter, por exemplo, uma seg-mentação canônica, como num manual de instrução, que gerencia em extensão a textualização de uma prática; ela pode também visar uma extensão sincrética (multimodal, compreendendo texto verbal, imagens, emblemas, esquemas) com valor didático, como nos manuais. Ela pode até ter uma extensão “explicativa”, com comentários e análises (como num relatório de uma observação etnográfi -ca ou de uma experiência científi -ca).
Nesses casos de integração descendente extensiva (especialmente quando uma estratégia ou uma prática são assumidas em um texto), “gêneros” espe-cífi cos impõem suas regras de enunciação e de composição (ou seja, regras de integração descendente): esses gêneros são, por exemplo, receitas de cozinha, indicações de uso, manuais de instrução, discursos eruditos ou técnicos que funcionam, em relação às próprias situações, como discursos de instrução – so-bre a receita de cozinha, Greimas falava, mais especifi camente, de “discursos de
programação” (1973). Todos esses casos de integração descendente extensiva visam globalmente um mesmo objetivo: a otimização da representação. A
oti-mização (sobretudo textual) é a versão mínima da condensação das práticas (na
integração descendente), a ponto de tanger o desdobramento.
Por outro lado, as síncopes aumentam a perda ou o ganho e participam dessa variação gradual. Ademais, elas suscitam uma tensão que reclama por si mesma uma compensação: esse mecanismo interpretativo revela, de fato, a soli-dariedade entre condensação e desdobramento.
Por exemplo, no caso de síncope descendente, uma forma de vida (ideologia, crença, narrativas, mitos etc.) pode ser condensada e representada (ou prefi gu-rada) em um só rito (uma prática particular), ou ainda, em uma só fi gura. De certo modo, é a essa síncope e a essa condensação que Pascal recorre, quando preconiza: colocai-vos de joelhos, rezai e crereis. Uma forma de vida completa encontra-se aí ao mesmo tempo condensada fi gurativamente em uma prática cotidiana, a prece – talvez mesmo no texto e seu suporte corporal –, pois essa prática pode engendrar, por si mesma, uma reorganização completa da forma de vida. Em suma, o conjunto do processo só é “efi caz” se a síncope descendente (a condensação da forma de vida em prática ou em texto) provocar uma tensão semiótica que se resolva em uma reorganização ascendente (da prática para a forma de vida).
Guardadas as devidas proporções, o logotipo de uma marca obedece for-malmente aos mesmos princípios da síncope descendente e de condensação. No entanto, como se trata de um “texto”, ou até mesmo de uma simples “fi gura”, essa condensação é produzida por uma síncope de maior amplitude, que produz dessa vez um efeito de simbolização: o logotipo manifesta então, sem media-ção, tanto uma cena fi gurativa típica (um texto), uma prática (a missão da mar-ca), quanto uma forma de vida (valores, um estilo estratégico etc.). Da mesma maneira, a efi cácia estratégica dessa condensação depende de sua capacidade de produzir uma tensão problemática, que leva à reorganização interpretativa ascendente. A simbolização é, portanto, a versão mais radical da condensação, com síncope descendente.
1.4.4. Movimentos combinados
O próprio princípio da integração faz com que os textos inscritos nos obje-tos, eles mesmos implicados nas práticas, não tenham o mesmo estatuto, nem
tenham todos o mesmo “sentido”. O texto literário, inscrito em um livro, em ge-ral não diz nada sobre a maneira como é preciso organizar a prática na qual ele funcionará como texto, em contrapartida, o manual de instrução, de um kit de montar, descreve e organiza a prática da montagem. O primeiro texto está inte-grado somente na direção ascendente, de maneira canônica, enquanto o segun-do é objeto de um duplo movimento: (1) a prática está integrada ao texto como prefi guração discursiva (na direção descendente), e (2) o texto obtido integra-se ao objeto e à prática que o constrói, como inscrição (na direção ascendente).
Podemos perceber então que, além do valor metodológico e teórico da hie-rarquia dos níveis de pertinência, esse percurso do plano da expressão oferece grandes oportunidades heurísticas, graças à combinação e ao seqüenciamento dos diferentes percursos de integração ascendente e descendente.
A etnologia médica explora muito freqüentemente práticas terapêuticas africanas que combinam, de fato, várias operações. A perturbação patológica de um indivíduo, manifestada por signos (nível 1, o das fi guras), é considerada coletivamente, ao longo de uma cena codifi cada e quase-ritual (nível 4, o das práticas). Um dos momentos-chave dessa cena é a produção de um objeto (nível 3, objetos) que condensa ao mesmo tempo a perturbação psíquica e/ou corpo-ral e a busca coletiva de uma solução. O próprio objeto suscitará verbalizações (nível 2, textos), e outras fases rituais (nível 4, práticas) etc. Enfi m, a efi cácia do conjunto depende de crenças partilhadas, de uma maneira de ser conjunta, de interações habituais que se baseiam em uma mesma forma de vida (nível 6). Os movimentos de integração invertem-se e as síncopes sucedem-se nas duas dire-ções: o nível de análise pertinente é a terapia, enquanto estratégia (nível 5), mas essa terapia percorre e relaciona todos os níveis de pertinência, representando no eixo sintagmático diversos agenciamentos sincréticos.
Conforme o caso, a integração é mais ou menos fi gurativa, mais ou menos intensiva ou extensiva, e combinada ou não a síncopes de maior ou menor am-plitude. Em certas combinações, essas integrações descendentes têm uma di-mensão incitativa ou prescritiva, em outras, simbólica ou mesmo mágica, mas em todos os casos, elas participam dos efeitos didáticos, persuasivos, conotati-vos e/ou metassemióticos.
1.4.5. O caso das Ligações Perigosas (Laclos)
inte-gração descendente, tomado da literatura6. O romance epistolar de Choderlos de
Laclos (2008), As Ligações Perigosas, inicia-se de fato antes da apresentação das próprias cartas, por uma “Advertência do editor” e por um “Prefácio do redator”.
A Advertência do editor questiona a “autenticidade” da coletânea de cartas e, sobretudo, na forma de uma evidente antífrase, a verossimilhança dos costu-mes que ali estão encenados.
Já o Prefácio do redator detém-se longamente sobre os processos de com-posição da coletânea: a seleção e a ordenação das Cartas, das proposições e das tentativas de abreviação ou de modifi cação estilística de algumas delas (recu-sadas por seus autores, dizem). Em seguida aborda os objetivos e as possíveis recepções dessa publicação: prevenir os leitores contra pessoas de má reputação, apresentar as estratégias de corrupção para suscitar resistências e contra-estra-tégias. Além disso, o “redator” lança-se a um curioso exame dos antileitores (aqueles a quem o livro desagradará): os depravados, os puritanos, os céticos, os sensíveis etc.
Em suma, esse dispositivo mostra a hierarquia concreta (actorial) que re-cobre o que convém chamar de “enunciação pressuposta” do romance: autores que produzem as cartas, um redator que as escolhe, retoca e ordena, e um editor que publica o conjunto. E, ao fazer isso, integra vários níveis de pertinência: (1)
enunciadores dirigem-se a enunciatários por via epistolar; (2) o redator
apresen-ta as carapresen-tas no interior de uma prática literária (escolha, reescriapresen-ta, composição etc.) cujos parceiros são predefi nidos: (a) autores que ainda têm direito sobre seus enunciados, (b) um redator, que apresenta seu ethos, revela as razões de suas escolhas e defi ne a temática da manipulação principal e (c) uma série de tipos de leitores, que resistem a essa manipulação por razões que lhes são pró-prias; (3) o editor instala também um jogo de papéis: diante dele, não encontra-mos “leitores” (que são os parceiros habituais do redator), mas um público, ou seja, um ator coletivo suscetível de comprar a obra e de confrontá-la com outras informações e experiências, de outra natureza que não a da leitura. Seu discur-so trata essencialmente da não-concordância entre essas experiências e aquela que será proporcionada pela leitura da obra: o redator teria reunido as cartas, expressando costumes de outro lugar e/ou de outra época, para fazê-los passar por costumes atuais e franceses. Desse modo, seu discurso diz respeito ao “ajus-tamento” entre práticas distintas e entre as experiências que lhes correspondem: o argumento da inautenticidade e do descompasso supõe que aqui mudamos de
6 Esse exemplo nos foi fornecido por Yasuhiro Matsushita (2005), doutor pela Universidade de Limoges, em sua tese consagrada aos paradoxos da enunciação e da perspectiva na literatura e na pintura.
nível de pertinência e que nos referimos à congruência e ao ajustamento estra-tégicos. Em suma, denunciando a incongruência do quadro dos costumes que se constituirá quando da leitura do livro, em relação às observações e às práticas cotidianas e contemporâneas dos leitores, o Editor nos faz passar para o nível das “conjunturas” e das “estratégias”.
A integração descendente, que permite “textualizar” ao mesmo tempo a
es-tratégia (editorial e comercial), a prática (redacional) e a troca epistolar, vem
acompanhada de vários efeitos importantes.
A primeira conseqüência disso é uma segmentação do texto do romance em três “gêneros” de discurso diferentes, a advertência, o prefácio e as cartas, o que coloca grandes problemas àqueles que quiserem discernir quais os limites do “texto”. Essa diferença de gêneros permite também compensar o detalhamento do dispositivo semiótico: inseridos no interior de um mesmo texto, as diferentes instâncias, que são a estratégia, a prática e o texto-enunciado, ainda são reconhe-cíveis e hierarquizáveis por seu gênero (advertência, prefácio e cartas).
Formalmente, segundo a concepção tradicional dos “planos de enunciação”, esses três gêneros fazem parte de três enunciações que se encaixam uma na ou-tra. Entretanto, as coisas parecem um pouco mais complexas, quando observa-mos que esses planos de enunciação não são “estanques” e que certo número de interações é admitido: (1) o redator propõe aos autores das cartas algumas mo-difi cações, que são recusadas; (2) o redator julga o comportamento dos autores das cartas enquanto atores dos costumes relatados; (3) o redator procura per-suadir com sua boa fé e sua sinceridade o conjunto de seus leitores potenciais, inclusive o editor; (4) o editor julga inautêntico o texto proposto pelo redator e não se deixa, portanto, persuadir.
Desse modo, não podemos considerar que esses diferentes planos de enun-ciação são simples “camadas” autônomas. Sob certas condições, todas essas enunciações interagem entre si: essa condição é a da integração ascendente ou descendente. É assim que, por exemplo, o redator e os autores podem corres-ponder-se, porque, nesse momento, fazem parte da mesma prática (a da revi-são/composição da coletânea). E mais, o editor e o redator só podem corres-ponder-se de maneira unilateral, na medida em que o primeiro não admitiu o segundo como parceiro no dispositivo estratégico que avalia.
Em suma, somos levados a considerar que o mesmo ator pode desempenhar papéis temáticos e actanciais diferentes segundo o nível de pertinência no qual os apreendemos. Assim, os “autores” das cartas são: (1) nas cartas, enunciadores para enunciatários e protagonistas; (2) no prefácio, autores responsáveis para o
redator e os leitores e (3) na advertência, pessoas que testemunham os costumes para o editor e o Público.
Essa integração descendente produz, entretanto, uma confrontação que per-manece indeterminável, entre a “verossimilhança” e a “verdade” dessas cartas. O redator confessa ter sacrifi cado, contra sua vontade, a verossimilhança (compo-sicional, estilística) em prol da verdade: ele teve que conservar as “verdadeiras” cartas escritas por seus autores. O editor denuncia a “autenticidade” (a verdade) a partir de um erro de verossimilhança (a não-congruência entre os costumes da atualidade e aqueles encenados). Esse confronto só se resolve (quem tem razão?) devido à integração descendente, que os situa no mesmo texto, mas se reorganizamos todos esses papéis nos níveis de pertinência superiores, não nos surpreendemos mais com o fato de que, na perspectiva ética (a do redator), a verossimilhança e a verdade confrontem-se e que, na perspectiva da estratégia editorial e comercial, a primeira determine a segunda.
Essa encenação é, por si mesma, própria de uma época e de uma cultura, em que as mises en abîme e as enunciações encaixadas são particularmente preza-das, tudo o que uma crise da representação literária envolve. Ela desenvolve uma espécie de “metassemiótica” do texto de fi cção, em que podemos reconhecer ao mesmo tempo uma estética, uma ética e uma ideologia da produção literária.
Enfi m, fazendo eco aos diversos papéis dos atores enunciadores, ela oferece ao leitor-usuário um percurso de manipulação-identifi cação particularmente sofi sticado, encenando-lhe, em três estratos sucessivos, sua “apresentação do as-sunto”: público da edição, leitor da obra redigida e narratário indiscreto da fi cção epistolar. Esse percurso é em si mesmo inevitável, mas sua inscrição no texto problematiza-o e permite, pelo confronto indecifrável das posições, submetê-lo a uma avaliação crítica.
1.4.6. A retórica dos níveis de pertinência
Essas inversões e síncopes do percurso de integração dos níveis de perti-nência constituem, assim, operações retóricas, que agem sobre expressões para induzir conteúdos e valores problemáticos e para suscitar tensões que deman-dam resolução.
As inversões do movimento de integração e as síncopes que o afetam pro-duzem substituições, tensões e competições entre os diferentes níveis da expres-são e variações dos modos de existência (virtualização, potencialização,