A nudez feminina sempre foi tema recorrente em artes plásticas, e algumas esculturas e telas tornaram-se famosas, sendo copiadas e reproduzidas através dos séculos. Por exemplo: Vênus de Milo e O nascimento de Vênus, de Botticelli, a Vênus de Urbino, de Ticiano, a Vênus do espelho, de Velazquez, La Maja Desnu-
da, de Goya, Olímpia, de Manet, Les Demoiselles d’Avignon, de Picasso, Nu Azul 4, de Matisse1 e muitas outras. Mas o que diferencia alguns nus femininos, acei-
tos como prática artística, de outros tantos, considerados como simplesmente eróticos e imorais?
Conforme Antonio Vicente Pietroforte (2004: 24-36), a apresentação do corpo humano em sua nudez, tanto o masculino como o feminino, aparece de forma diferente conforme o discurso: se for conotado teremos beleza estética,
misticismo e erotismo, se for denotado teremos nus vazios de conteúdos morais e estéticos, como estão nos livros de Medicina e de Ciências para o ensino de anatomia. Contudo, o mais comum é encontrarmos o corpo humano em poses eróticas que exploram a sexualidade, principalmente em “outdoors” e em fotos que ilustram revistas para adultos ou são exibidas pela televisão e internet.
Recentemente, conforme notícias em jornais, o Ministério da Justiça deci- diu subir a classifi cação da censura de 12 para 14 anos, da novela Duas Caras da Rede Globo, por ter exibido cenas de nudez, consideradas de apelo sexual, envolvendo a personagem da atriz Flávia Alessandra, na apresentação da pole
dancing, dança usualmente realizada por strippers. Mas, de que modo os leito-
res-enunciatários de uma imagem interpretam um nu como fora dos padrões morais de uma dada sociedade de um nu reconhecido e festejado como arte por essa mesma sociedade?
A resposta a essa questão pode estar na análise semiótica que Floch fez da foto de Edouard Boubat2, reproduzida abaixo:
Figura 1
Trata-se de uma jovem vista quase de costas (não se vê o rosto), com o busto e os braços nus, os cabelos negros cortados bem curtos e, da cintura para baixo, envolta por uma saia de tecido estampado com fl ores. Observamos que com a
2 Essa foto foi e ainda continua a ser publicada na França. Podemos encontrá-la em Boubat (1972; 1974) e, no Brasil, em Pietroforte (2004: 25).
mão direita a jovem segura uma parte do tecido, que poderia ser a blusa que cobriria o busto. Mas o que faz com que essa fotografi a seja vista como prática artística?
Inicialmente, poderíamos dizer que esse tipo de fotografi a foge ao conven- cional, que seria a modelo completamente nua, posando para uma foto eróti- ca ou completamente vestida, como se fosse apresentar-se na passarela de um desfi le de modas. O que signifi ca esse momento entre estar vestida e ao mesmo tempo despida? Como podemos descobrir as camadas de sentido que são ima- nentes e pertinentes a ela, ou seja, de que modo o plano da expressão estrutura o plano de conteúdo e diferencia essa fotografi a de tantas outras?
Em seu texto3, Floch inicia a análise separando, em diferentes tipos, o que
ele chama de unidades do discurso plástico ou “contrastes”. São contrastes sim- ples, que fazem parte do paradigma do sistema fotográfi co, como a oposição entre nítido e não-nítido (fl ou) ou claro e escuro, elementos de base das lingua- gens plásticas. Porém, em sua proposta, o autor encontra outras oposições, que resultam em contrastes complexos, como o modelado vs achatado4.
O semioticista francês trabalha, então, com camadas de signifi cação que ressaltam contrastes sobre contrastes, ou seja, a partir do contraste simples claro vs escuro, o analista acrescenta o contraste modelado vs achatado, ambos do plano da expressão, para dividir a fotografi a em quatro espaços, conforme suas características picturais e topológicas: (1) o fundo escuro; (2) o espaço negro dos cabelos; (3) o espaço claro do busto e dos braços e 4) o espaço que apresenta a textura do tecido estampado.
Assim a fi gura total da jovem aparece iluminada contra um fundo de nu- anças entre o cinza e o preto, mais escuro à direita (sombra da própria jovem, causada pela iluminação da esquerda para a direta), sendo que as costas, o pes- coço, os braços e o seio direito aparecem modelados, isto é, com volume. Já os cabelos curtos e negros e a saia de tecido estampado aparecem sem volume, sem nuanças, ou seja, achatados (chapados), “recortados” contra o fundo.
Defi nida a análise do plano da expressão, apresentada aqui de maneira mui- to resumida, Floch começa sua argumentação a fi m de construir ou constituir relações semióticas com o plano do conteúdo. Para tanto, busca estabelecer uma categoria semântica que dê conta de justifi car o contraste modelado vs achatado, do plano da expressão, agora no plano do conteúdo:
3 Os comentários sobre o texto de Jean-Marie Floch estão em português, traduzidos para este trabalho. 4 A tradução de modelé/aplat (Floch, 1985: 26-29) como modelado/achatado segue o uso de tais vocábulos no
Ao fazer a análise do plano do conteúdo desse texto, J.M.Floch propõe a categoria semântica mínima natureza vs. cultura para sua semântica fun- damental. Justifi ca-se demonstrando que no busto nu da modelo é fi gura- tivizada a natureza, e em seus adereços, que são os arranjos dos cabelos e o tecido que envolve sua cintura, a cultura. Nesse ponto de vista, a análise de Floch não se restringe apenas ao conteúdo do nu de Boubat, mas a todo texto que pode ser reconhecido como tal. Em sua concepção, há um termo complexo formado pela categoria semântica natureza vs cultura na defi nição desse tipo de texto. Assim sendo, o nu deixa de ser simplesmen- te o despido, a natureza, e passa a ser o despido articulado com outros valores culturais, de modo que o estatuto semiótico do nu não se estabe- lece como uma simples referência ao corpo humano sem roupas. Há no chamado nu artístico a construção de uma estética que realiza a nudez em meio a valores culturais, e é entre eles que o corpo que se despe adquire seu estatuto semiótico (Pietroforte, 2004: 25).
Portanto, quando Floch propõe, como análise da foto de Boubat, a cate- goria semântica natureza vs cultura, para o plano do conteúdo, homologável ao plano de expressão modelado vs achatado, observamos que a coerência discursiva apóia-se na criação de um sistema particular de valores, utilizan- do o que a semiótica chama de linguagem semi-simbólica. Ou seja, ao usar o esquema modelado: natureza :: achatado: cultura, o autor estabelece cone- xões que colocam em ligação duas figuras e duas funções, tais como a nudez como figurativização do que é natural e os adereços como figurativização do que é cultural.
Estamos considerando como adereços, a saia ampla (franzida, com pregas?), de tecido estampado e os cabelos negros e curtos, pois eles funcionam como “ornamentos” que enfeitam a jovem, mas não chegam a cobri-la. Ainda o corte curto (quase masculino) dos cabelos e a saia ampla e estampada lembram o que estava em moda nos anos 1960.
Com esse tipo de análise, Floch penetra o âmago da signifi cação da foto, mostrando sua poeticidade, através do chamado sistema semi-simbólico da lin- guagem. Segundo Jacques Fontanille “o semi-simbólico é um código semiótico estritamente ligado ao exercício de uma enunciação particular, individual ou coletiva, ele é o único meio de ir até a estrutura de uma linguagem, quando essa última não possui “língua” ou “gramática” generalizável, como é o caso da ima- gem” (Fontanille, 2007:138-140).
Diferente da linguagem simbólica, que estabelece uma conexão coerente entre isotopias conhecidas no universo cultural humano, como, por exemplo, o que está no alto é o céu ou o celeste, o que está embaixo é a terra ou o terrestre, a análise da
chamada linguagem semi-simbólica estabelece novas conexões, agora entre siste- mas de valores particulares, criados em uma práxis enunciativa, ou seja, nos tex- tos não-verbais e verbais produzidos pela cultura. Em uma relação semi-simbólica possível, o que está no alto é o celeste e o sagrado; o que está embaixo é o terrestre e o
profano, o que, de forma abreviada, dizemos: alto : baixo :: sagrado : profano.
No caso de Floch, a “gramaticalidade” da imagem é defi nida pela oposição semi-simbólica defi nida como nu : com adereços :: natural : cultura, o que resul- ta em uma interpretação do nu artístico, ou seja, aquele que opõe a fi gurativi- zação de uma mulher nua como algo próprio da natureza e a mulher “coberta” com alguns adereços, como uma saia estampada e os cabelos negros, cortados curtos, como algo próprio da cultura e, diga-se de passagem, de uma época (anos 1960) em que as mulheres usavam cabelos curtos e vestidos com saias amplas, de tecidos estampados.
Na foto de Boubat, a jovem quase nua representa ao mesmo tempo o natu- ral e o cultural, numa ambigüidade que chama a atenção do observador-enun- ciatário, que “gosta” do que vê e procura compreender ou interpretar o que está diante de seus olhos, pois sente que há nela certo estranhamento ou mistério, o que é próprio de uma foto artística. Assim, como vimos fazendo, tal estranha- mento pode ser descoberto por uma observação mais acurada, própria do pes- quisador-analista, através de procedimentos teóricos encontrados na semiótica de linha francesa, inaugurada por A. J. Greimas.