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OS PROFESSORES E A CONSTITUIÇÃO DE SUA IDENTIDADE PROFISSIONAL

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(1)

OS PROFESSORES E A CONSTITUIÇÃO

DE SUA IDENTIDADE PROFISSIONAL

CLÁUDIA LOPES BARBOSA

(2)
(3)

COMISSÃO EXAMINADORA

Prof.Dr. Rogério de Andrade Córdova Orientador – UnB/DF

Profa. Dra. Altair Macedo Lahud Loureiro Membro Titular – UCB/DF

Profa. Dra. Tereza Cristina Siqueira Cerqueira Membro Titular – UnB/DF

(4)

AGRADECIMENTOS

À minha família, em especial aos meus pais que me

proporcionaram viver este

momento.

Ao Professor Rogério Córdova, sempre presente. Orientador e

também criador deste trabalho.

À minha mãe Maria das Graças, por estimular e considerar o

conhecimento alimento em nossas

vidas.

À banca examinadora, que tanto contribuiu para a conclusão deste

trabalho.

Ao meu filho André e ao meu companheiro Gerson, por agüentarem os momentos de

estresse e de mau-humor, sempre

incentivando este trabalho.

Às amigas Gícia Falcão, Rosana Carneiro e Lúcia H.P. Medeiros, pela força e disponibilidade sempre

(5)

RESUMO

A pesquisa trata da constituição dos professores de sua identidade

profissional, com enfoque nos professores da rede pública do Distrito Federal.

Teve por objetivo levantar os processos de constituição da identidade

profissional, a partir das representações dos professores sobre si, sobre seus

colegas e sobre a profissão.

As concepções de identidade, subjetividade, instituições e organizações

foram enfocadas mais diretamente, por estas proporcionarem sustentação teórica

para o estudo em questão.

A preocupação em trazer as visões dos professores sobre si, sobre o outro

e sobre a profissão foi central no trabalho. Sendo assim, a opção de levantamento

dos dados foi pela utilização do questionário aberto como instrumento de pesquisa.

A pesquisa não pretendeu generalizar o processo de constituição da

identidade profissional dos professores. A intenção foi de realizar uma pesquisa

exploratória, preservando a subjetividade presente nas reflexões dos professores

pesquisados.

Os professores demonstraram engajamento com a profissão, apesar de

tantos conflitos e frustrações vivenciados no cotidiano da organização educativa.

O sentimento de incompletude e de um trabalho inacabado estão

presentes ao final da pesquisa já que não é possível, e nem foi esta a intenção,

esgotar o assunto. Várias possibilidades de continuidade demonstraram que não é

(6)

ABSTRACT

The research is about formation teachers and their professional identity, to

focus in the public network teachers of the Federal District.

It had the aim to discover the process of the formation of the professional

identity, starting from the teachers’ representations, about themselves, their

colleagues and about their profession.

The conception of the identity, subjectivity, institutions and organizations, were

clearly more directly by them to offertheoric suport for that research.

The concern to bring teachers’ vision about themselves, about the other

and the profession was central in the work. So like this the option to assembler data

was by utilisation the open quest as research tool.

The research had no idea to generalise the formation of the professional

identity of teachers. The porpouse was to carry out an exploratory research, keeping

the subjectivity present in the reflections of researcher teachers.

Teachers shown adjustment with the profession dispit so many conflicts

and frustations lived day by day in the educative organization.

The feeling of the incomplete work are present at the end of the research,

althoug it is not possible eather was that the intention to finish the subject.

Many possibilities in other to carry on show that is not possible in the

(7)

SUMÁRIO

RESUMO ...

ABSTRACT ...

INTRODUÇÃO ...

05

06

09

Um pouco da minha história 12

I – PROFESSORES: ATORES/AUTORES/SUJEITOS DE SUA PRÁXIS?... 15

1.1 – A investigação pedagógica 15 1.2 – Identidade ou identidades? A constituição do processo identitário ... 17

1.2.1 – A relação entre representações e identidades ... 17

1.2.2 – A constituição histórica do sujeito ... 19

1.2.3 – A constituição da identidade pessoal e social ... 23

1.2.4 – A constituição da identidade profissional ... 35

1.2.5 – A constituição da identidade profissional do professor ... 38

1.3 – O professor na teia das organizações: entre a práxis, a palavra e o silêncio .. 42

1.4 – Professor, um caleidoscópio em movimento ... 54

II – QUESTÕES CENTRAIS ... 64

(8)

IV – REFERENCIAL METODOLÓGICO ... 65

V - A VOZ DOS PROFESSORES: O QUE PENSAM, O QUE SENTEM? ... 72

VI - OS PROFESSORES E SEU ENGAJAMENTO NA PROFISSÃO... 90

6.1 – A decisão pela profissão de professor ... 90

6.2 – As representações que o professor tem de si, dos demais professores e da profissão ... 92 6.3 – A busca dos professores, no interior da escola e na sua profissão, para desenvolver e preservar o sentimento de identidade profissional ... 94 6.4 – O olhar do professor sobre a organização educativa ... 97

6.5 – Os professores e seus processos de engajamento com a profissão ... 99

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 101

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 105

(9)

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa teve por objetivo fazer uma reflexão sobre o professor1,

profissional no sistema público de ensino do Distrito Federal, a partir do seu olhar,

isto é, identificar e analisar as concepções dos professores sobre si e sobre os

demais colegas atuantes na organização educativa, enfocando o processo de

constituição da(s) identidade(s) desse profissional.

Geralmente, estudos na área falam sobre professores, mas não dão o

devido espaço para que estes falem sobre si, do porquê da escolha da profissão, de

sua visão sobre o que é a profissão, de suas ações e estratégias dentro da

organização educativa, da maneira como vai se identificando com ela, fazendo dela

sua “segunda natureza”.

A intenção de desenvolver uma dissertação de mestrado teve início com a

minha participação em curso de Pedagogia2, na qualidade de mediadora e

coordenadora, na Universidade de Brasília, entre 2001 e 2005. A dinâmica do curso

revelou a necessidade e o desejo de aprofundar estudos referentes à escola como

instituição, com seus valores e crenças presentes nas concepções, ações e

estratégias desenvolvidas pelos diversos atores sociais ali presentes. Ter iniciado

discussões no sentido de conceber a escola como uma organização, de

compreender que para além das normas prescritas que devem ser seguidas, há uma

margem de resistência e criatividade desenvolvidas pelos atores que ali vivem suas

certezas, seus conflitos e suas contradições, trouxe a vontade de queres saber um

pouco mais sobre tais atores, em especial os professores.

Ter sido apresentada às idéias de instituição, imaginário e complexidade

abriu novas possibilidades de entendimento da dinâmica das relações sociais. Com

o ingresso no mestrado, foi-me apresentada dissertação desenvolvida por

Sarmento(1992)3 , que teve por objetivo levantar as concepções, as “vozes” de

1

Utilizarei, ao longo deste trabalho, a palavra “professor” no gênero masculino devido à convenção estabelecida na língua portuguesa, mas deixando claro que esta não é uma ação discriminatória.

2

Pedagogia para professores em exercício no início de escolarização – PIE. Destinado a professores com formação em nível médio da rede pública de ensino do DF, oferecido pela Universidade de Brasília, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação do DF. O curso teve início no ano de 2001 e encerramento em 2006, tendo formado cerca de 1800 professores.

3

(10)

professores primários sobre como estes se vêem e vêem a organização. Um

trabalho muito interessante, que me inspirou a tentar também perceber essas

“vozes” nos professores do Distrito Federal.

Importante ressaltar que eu já havia desenvolvido trabalho parecido em

curso de especialização4, na busca da percepção dos professores participantes do

curso de Pedagogia – PIE – sobre o mesmo. Foi um trabalho gratificante, no sentido

de ter dado atenção àquelas vozes sobre o sentido da formação para elas. E, de

fato, vários aspectos, tanto favoráveis quanto desfavoráveis foram abordados,

contribuindo para a avaliação do próprio curso PIE.

O meu interesse, ao desenvolver este trabalho foi identificar o processo de

constituição da(s) identidade(s) do professor, a partir de suas concepções e

representações sobre si, sobre os demais colegas e sobre a organização educativa.

E por que considero este assunto relevante? Acredito que, ao reconhecermos nas

organizações os diversos atores sociais, com suas ações, conflitos, estratégias,

estaremos reconhecendo o fato de estas serem feitas de pessoas que têm valores,

crenças, culturas, enfim, não são fantoches à espera de regras e normas para serem

cumpridas e seguidas, sem contestação. É compreender que as organizações são

espaços de conflitos, como é a própria sociedade, e conceber que as organizações

são o “espelho” da sociedade, são a nossa forma de enxergar as relações sociais.

Mas, por que enfocar a pesquisa especificamente em professores, quando

há tantos outros sujeitos envolvidos em sua dinâmica? Porque são estes que estão

no cotidiano das escolas desenvolvendo ações pedagógicas. São estes que são a

todo momento avaliados pela sociedade de maneira geral como os principais

responsáveis pela forma como a educação se encontra. Ao mesmo tempo, não são

ouvidos, não são considerados na formulação de políticas educacionais, na

definição de currículos e programas, dentre outros aspectos. Ao participarem de

processos de formação, normalmente não são levados em conta sobre os reais

interesses para aperfeiçoamento ou mesmo mudança de sua prática pedagógica.

Em suma, a imagem que se tem da escola atualmente é a de que ela é um fracasso

e que o grande culpado é o professor, o principal responsável pela formação dos

4

(11)

alunos. Mas o que eles têm a dizer sobre isso? Que identidade foi e é construída por

ele para si, para sua profissão, para seus colegas e para a educação?

É este o interesse: ouvir de dentro da organização educativa o que

professor tem a dizer sobre o seu cotidiano, e não passar a fala para aquele que não

compartilha das relações vivenciadas no interior da escola. É também uma tentativa

de enxergar a escola em sua complexidade e subjetividade, e não baseada na

burocracia dos procedimentos e ações ali adotados, trabalhando no sentido de

revelar as especificidades da organização educativa em relação a outras

organizações presentes na sociedade.

Sendo assim, as questões centrais buscaram levantar as representações

que os professores têm de si e dos demais professores atuantes na escola; entender

como estes vêem a escola e que estratégias de adaptação e resistência utilizam no

cotidiano, compreendendo a escola como um espaço complexo, de conflitos, de

relações sociais, com as pessoas que ali vivem suas histórias, em um contexto

social/histórico, também com sua complexidade.

Enfim, entender ou explicitar as ações implementadas nas organizações

educativas do DF bem como a sua dinâmica é de suma importância para a

compreensão do projeto de sociedade que estamos construindo, visto que “um

projeto de sociedade será viabilizado pela educação e a educação será

profundamente marcada por esse projeto de sociedade, de que ela será, a um só

tempo, elucidação e realização”.(Córdova, 2003:7). Isto é, a concepção de educação

presente na escola é perceptível na própria concepção de organização educativa

vivenciada pelos sujeitos que dela participam, ao mesmo tempo em que a

constroem. E essa organização traduz o projeto social que se pretende construir, já

que as organizações são a materialização das instituições, ou seja, das crenças,

normas e valores construídos social e historicamente. E na escola “[...] ser professor

obriga a opções constantes, que cruzam a nossa maneira de ser com a nossa

maneira de ensinar, e que desvendam na nossa maneira de ensinar a nossa

maneira de ser”. (Nóvoa, 1995:10)

É pertinente ressaltar que este tipo de pesquisa pode comportar várias

abordagens sobre a(s) identidade(s) dos professores, a partir de diversas

possibilidades de comparação: entre modalidades de ensino, gênero, instituições

(12)

optou-se por fazer uma pesquisa sobre a constituição da identidade profissional dos

professores da rede pública do Distrito Federal, tendo como enfoques a escolha pela

profissão, os aspectos de pertencimento e de isolamento no grupo de profissionais,

e a imagem dessa profissão, individualmente e socialmente constituídas.

Um pouco da minha história

Pretender estudar o processo de constituição da(s) identidade(s) dos

professores da rede pública de ensino do Distrito Federal faz com que eu, como

professora, sinta a necessidade de refletir um pouco sobre a minha própria vida

pessoal e em relação à escolha profissional.

Não consigo lembrar-me dos professores que tive no hoje chamado

Ensino Fundamental. Sei que era considerada uma boa aluna. Entrei na 1ª série

com cinco anos e meio de idade. As lembranças desse tempo foram esquecidas,

principalmente em relação aos professores. Meu 2º grau foi feito em uma escola

particular de Brasília. Chorava a cada nota baixa do 1º ano. Sentia vergonha da

minha atitude. Era a mais nova do colégio. Com o tempo fui me adaptando e

também colocando os estudos para segundo plano. Nesse período, duas

professoras foram marcantes para mim, tanto pela forma como encaminhavam as

aulas como pela força política que demonstravam nos debates que ocorriam na

escola. Seus componentes curriculares eram História e Língua Portuguesa/

Literatura Brasileira. Gostava das matérias. Acabou o 2° grau, fiz cursinho

pré-vestibular, entrei para a UnB no curso de Pedagogia – mas cursando disciplinas do

Departamento de História –, e para a AEUDF no curso de Administração. Abandonei

os dois e fiz História em uma outra instituição, particular. Nesse período, trabalhava

na Fundação Projeto Rondon, no acompanhamento do Programa Nacional do Leite

para Crianças Carentes – PNLCC. A minha opção por fazer o curso de História

deveu-se ao fato de gostar desta área de conhecimento, e nunca com a intenção de

ser professora. Retornei à UnB para complementar as disciplinas e obter o diploma

de bacharel em História, já que meu título referia-se à licenciatura plena. Mais uma

vez abandonei o curso, devido a questões particulares.

Mesmo sem um interesse maior na profissão de professor, fiz o concurso

para a então Fundação Educacional do Distrito Federal e fui admitida em março de

1993. Nem gosto de lembrar do medo ao entrar em uma sala de aula na cidade de

(13)

professores, auxiliares de educação e direção como as mais problemáticas,

gerando, de fato, turmas de exclusão, de marginalização dentro da escola.

Estava com um filho de quatro meses, e como tinha o direito de ficar perto

de minha residência (Remoção Nutriz), fui removida para a sede da FEDF, no setor

de Licença-prêmio, no 2º semestre de 2003. Não agüentei ficar ali por muito tempo e

solicitei minha devolução para Ceilândia, no início de 2004. Por diversas razões, fui

lotada na própria Regional de Ensino, na seção de coordenação pedagógica. Nesse

período, comecei de fato a estudar, a ler sobre educação e a me comprometer mais

com esse processo. Os encontros com os professores de diversas áreas clarearam

muito a minha visão sobre a realidade da educação naquela cidade e no DF.

Em 1995, com a mudança do governo do DF, fui convidada a trabalhar no

IDR, Instituto de Desenvolvimento de Recursos Humanos do DF, a escola de

formação dos funcionários públicos do Governo do Distrito Federal. Foi um trabalho

maravilhoso, já que discutíamos o processo de formação dos profissionais vinculado

às políticas públicas de cada setor, com enfoque na gestão, na participação dos

profissionais nos processos decisórios das instituições. Muita coisa foi desenvolvida,

muita coisa ficou pelo caminho, mas todas elas demonstraram a possibilidade de

uma gestão diferenciada, participativa e democrática. Os estudos e metodologias

utilizados nos trabalhos, cursos e oficinas desenvolvidas deram embasamento para,

ao retornar à Secretaria de Educação, em 1999, alterar um pouco a minha prática e

a minha maneira de ver a educação. Não posso negar a minha frustração ao

retornar à escola e perceber o alto nível de controle e centralização das ações. De

qualquer forma, por onde passei tive a possibilidade de colaborar um pouco, devido

ao fato de ter vivenciado uma outra possibilidade de formação e gestão no IDR.

Ao final do ano de 2000, após um processo seletivo, comecei a trabalhar

na Universidade de Brasília, no curso PIE – Pedagogia para professores em

exercício no início de escolarização, destinado a professores da Secretaria de

Educação do DF, da Educação Infantil e Anos Iniciais, que tinham formação em

nível médio.

Atuei nas funções de mediadora e coordenadora, e acredito que, como eu,

aqueles que passaram por esse processo vivenciaram de fato uma formação

continuada, baseada na realidade das escolas, comprometida tanto com o cotidiano

(14)

problemas existentes no campo educacional. É evidente que houve vários

equívocos, mas o que importa aqui é que o PIE proporcionou um espaço de

discussão entre a universidade pública e os profissionais que atuam na rede de

ensino, que estão no dia a dia das escolas e são os que mais podem dar “pistas”

sobre o que fazer, já que estão inseridos nas comunidades, com os alunos e os pais.

Naquele momento, acredito que a Universidade teve de fato uma ação de extensão,

esteve presente no cotidiano das comunidades locais.

O PIE obrigou-me a estudar mais, a ouvir mais, a partir da realidade dos

professores, alunos do curso. Infelizmente, não conseguimos, a partir dele, gerar

grupos no Distrito Federal para continuidade das reflexões e socialização das ações

desenvolvidas, exitosas ou não, para a constituição de um espaço de pesquisa

permanente e real.

De qualquer forma, o curso me fez querer aprofundar mais na Educação.

O PIE acabou, retornei a uma escola da Secretaria de Educação no 2º

semestre de 2005. Entrei para o mestrado em educação e estou aqui, justamente,

tentando identificar e compreender como se dá a constituição da identidade dos

professores. Por que a escolha? Como se compreendem? Conseguem se ver como

professores?

Eu deveria tentar responder a essas perguntas. E como é difícil para mim.

Às vezes me sinto realizada pelo fato de ser professora; outras vezes não gosto de

lembrar que estou nesta profissão. Este estudo fez com que eu também buscasse

respostas para meus anseios, angústias e opções, sabendo que estas não são

(15)

I - PROFESSORES: ATORES/AUTORES/SUJEITOS DE SUA PRÁXIS?

A sociedade humana comporta, mesmo sob a soberania absoluta de um Estado totalitário, uma parte de desordem, inseparável da parte organizadora espontânea que nasce e renasce, incessantemente, a partir das interações entre indivíduos e grupos, em suas atividades, deslocamentos e relações econômicas e afetivas da vida cotidiana. (Morïn, 2005:192)

1.1 - A investigação pedagógica

Para além do esforço por parte dos especialistas em educação no sentido

de racionalizar o ensino, sabe-se hoje que o cotidiano das escolas e as relações

sociais ali constituídas extrapolam a racionalidade pretendida no campo educativo.

Nóvoa(1995) faz referências a três grandes fases da investigação

pedagógica, em seu percurso histórico. A primeira refere-se à busca de

características do “bom professor”; a segunda, à busca do melhor método de ensino;

a terceira, à análise do ensino no contexto da sala de aula. Isto é, o enfoque é dado

a um conjunto de competências e habilidades técnicas necessárias à profissão

docente, ocasionando uma separação entre o eu pessoal e o eu profissional,

culminando assim numa crise de identidade sobre quem é o professor.

A reflexão que Fontana (2003) faz acerca das produções desenvolvidas no

campo educacional ressalta que as mesmas contribuíram para a crise de identidade

profissional dos professores, na medida em que

Entre o muito que tem sido escrito sobre nós e o muito que se tem planejado e proposto a nós, têm-se revelado muitas faces de nossa atividade profissional. Faces nem sempre harmônicas. Faces nem sempre agradáveis de encarar. Faces em que, muitas vezes, não nos reconhecemos [...], ora nos defrontamos com aspectos das professoras que temos sido e temos produzido que nos ajudam a interpretar o vivido; ora nos deparamos com uma professora fictícia, idealizada, à qual nos procuram ajustar, convertendo-nos em uma máscara, o que torna impossível ver a convertendo-nossa face; ora o reflexo da nossa própria fisionomia ao espelho é-nos negado. (p.17-18)

Importante ressaltar o fato de que os professores, no seu processo de

profissionalização, pela sua própria constituição têm sido vistos como

semi-profissionais. Essa concepção é conseqüência de uma visão funcionalista das

(16)

especializado, com organizações profissionais além dos sindicatos, com código de

conduta próprio e jargão específico.

Os professores, a partir dessa visão, são considerados semi-profissionais,

já que

[...] a sua formação é mais reduzida, o seu status está menos legitimado, o seu direito a uma comunicação privilegiada menos estabelecida, têm menor autonomia da supervisão e do controle social do que as verdadeiras profissões. (Etzionni, 1969 apud Sarmento, 1992: p 39)

Vários estudos apontam para o fato de que é o próprio conceito de

profissionalismo que está questionado, já que este carrega valores de grupos

dominantes, como forma de legitimar um processo de dominação e de exclusão

social. Dessa forma, o profissionalismo docente visaria a submeter os professores a

uma tecnicização de seu trabalho “[...] que em última análise determina uma perda

de autonomia e desvia os professores da consciência crítica sobre as condições de

produção social do trabalho docente”. (Sarmento: p.40)

A crescente precarização das condições de trabalho dos professores, que

faz com que os tempos e espaços sejam reduzidos no que se refere aos processos

de formação, construção e criação – com estagnação ou redução de salários, sem

acesso a espaços culturais, reforça a ação reificada do professor: suas atividades

passam a ser relacionadas a preenchimento de formulários, cursos para repasse e

posterior cumprimento de normas, currículos e programas definidos em nível central,

com a crescente escassez de tempo para estudos e aperfeiçoamento e enfoque

cada vez maior na técnica e na disciplina que na educação como prática social.

Esta tendência à homogeneização das organizações educativas,

independente de seu contexto social, materializada pelos currículos, programas,

projetos, avaliações e outros, concebidos igualmente para o sistema de ensino,

independente de sua modalidade, faz com que se desconsidere as especificidades

de espaços, de tempos, de pessoas e de relações sociais, enfim, dos contextos.

A partir da década de 80 do século XX, vários estudos têm sido

desenvolvidos sobre a problemática da profissão docente, na tentativa de dar ao

professor lugar no centro nos debates educativos, como contraponto aos trabalhos

(17)

[...] não só reduziu a atividade docente a suas competências técnicas como abriu caminho para utopias que pretendiam (e pretendem) substituir os professores por máquinas, ampaçando nossa própria continuidade como profissionais. (Fontana: 2003: p.18-19)

Esses estudos têm como ponto comum devolver ao professor seu lugar no

centro dos debates acerca da ação educativa, inserindo toda a complexidade

existente no cotidiano das escolas. Compreende o professor não apenas como

executor de políticas, normas e regras definidas a priori, mas também como autor de

sua história a partir das relações vivenciadas, um tanto conflituosas. Dessa forma, é

dado o espaço à voz do professor sobre como vê a si, seus pares e o processo

educativo.

1.2 - Identidade ou identidades? A constituição do processo identitário

1.2.1 – A relação entre representações e identidades

O indivíduo humano não pode, certo, escapar da sua sorte paradoxal: é uma pequena partícula de vida, um momento efêmero, uma formiga, mas, ao mesmo tempo, carrega a plenitude da realidade viva – a existência, o ser, a atividade – e, assim, contém o todo da vida sem deixar de ser uma unidade elementar da vida. Ao mesmo tempo, carrega a plenitude da realidade humana, com a consciência, o pensamento, o amor, a amizade. Comporta o todo da humanidade sem deixar de ser a unidade elementar da humanidade. (Morïn, 2005: p.73)

Os outros moram em nós; nós moramos nos outros. (Morïn, 2005: p.95)

Partindo dessa ótica, dois conceitos entram em cena com bastante

propriedade: representações e identidades.

O estudo das representações sociais dos professores abre possibilidades

para a concepção que estes têm de sua identidade profissional, um olhar de dentro

para fora e de fora para dentro daqueles que exercem a profissão docente, já que

“as representações sociais dos professores são construídas a partir da apropriação

que eles fazem da prática de suas relações e dos saberes históricos e sociais”.

(Dotta, 2006: p.7)

As representações sociais são aqui entendidas como

(18)

Isto é, o seu cotidiano. E, ao abordar o cotidiano, há de se considerar os

diversos contextos dos indivíduos:

[...] as normas, regras, nortes de orientação, bússolas cognitivas, mapas de significação e representações sociais que regulam distintos estilos de ações, distintas condutas comportamentais. As condutas são os textos a que se reportam os contextos (tanto os dos indivíduos como os sociológicos), a sua textura, a sua substância feita de inscrições e traços.(Pais, 2003: p.123)

Ainda,

Olhando a realidade social na perspectiva do cotidiano, podemos observar como as representações sociais aparecem, entre os indivíduos, como fios sociais que por eles passam e que eles tecem, mas que não nasceram neles nem podem ser considerados sua propriedade. Mas é também na vida cotidiana que os indivíduos, através de suas condutas comportamentais, se conformam ou não às representações sociais, gerindo ou rejeitando, alimento, no dia a dia, a sua vigência [...] (Idem: p.126)

Castoriadis (2000), em seu trabalho intitulado Instituição Imaginária da

Sociedade, também traz o conceito de representações, entendidas como algo

intrínseco, isto é, a origem da representação está na própria representação:

Não há nenhuma possibilidade de compreender a problemática da representação se procuramos a origem da representação fora da própria representação. A psique é, certamente, ‘receptividade de impressões’, capacidade de ser-afetada-por...; mas ela é também [...] emergência da representação, enquanto modo de ser irredutível e único e organização de alguma coisa em e por sua figuração, sua ‘colocação em imagem’. A psique é um formante que só existe em e por aquilo que ele forma e como aquilo que ele forma; ela Bildung e Einbildung – formação e imaginação – ela é imaginação radical que faz surgir já uma ‘primeira’ representação a partir de um nada de representação, isto é, a partir de nada. (p.325).

Cabe ressaltar a estreita ligação entre as representações sociais e a

constituição das identidades:

A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece

identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se

baseia fornecem possíveis respostas às questões: Quem sou eu? O que eu

poderia ser? Quem eu quero ser? (Woodward, 2000: p.17)

Sendo assim, é necessária, neste momento, uma reflexão sobre a

(19)

1.2.2 - A constituição histórica do sujeito

Hall (2005) fez um estudo de grande relevância, analisando a constituição

histórica do sujeito e de sua identidade. Ele inicia sua reflexão a partir de três

concepções, a seu ver, muito diferentes: sujeito do iluminismo, sujeito sociológico e

sujeito pós-moderno.

No que se refere ao sujeito do iluminismo, o autor aponta para a

“concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado,

dotado de capacidades de razão, de consciência e de ação”. (p.10)

Historicamente, o nascimento do sujeito do iluminismo se deu a partir de

grandes movimentos, como a reforma religiosa e o protestantismo, o movimento

renascentista, as revoluções científicas e o iluminismo. Aponta para a importância do

pensamento de René Descartes (1596-1650), que “[...] foi atingido pela profunda

dúvida que se seguiu ao deslocamento de Deus do centro do universo”. (Idem:

p.26). Descartes enfocou a capacidade do sujeito de raciocinar e pensar.

O século XVIII estava centrado no indivíduo, no sujeito da razão, mas a

partir do momento em que as sociedades modernas tornaram-se mais complexas,

adquirindo uma forma mais coletiva e social, e as teorias clássicas tiveram que

lançar seu olhar para essa sociedade complexa:

As teorias clássicas liberais de governo, baseadas nos direitos e consentimentos individuais, foram obrigadas a dar conta das estruturas do estado-nação e das grandes massas que fazem uma democracia moderna. As leis clássicas da economia política, da propriedade, do contrato e da troca tinham de atuar, depois da industrialização, entre as grandes formações de classe do capitalismo moderno [...] O cidadão individual tornou-se enredado nas maquinarias burocráticas e administrativas do estado moderno. (Ibidem: p.29-30)

O sujeito sociológico, tendo como referência os séculos XIX e XX, reflete a

complexidade do mundo moderno. Há uma relação entre o interior do indivíduo e o

mundo exterior. “A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço

entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ – entre o mundo pessoal e o mundo público.” (Ibidem:

p.11)

Ainda, “[...] o indivíduo passou a ser visto como mais localizado e ‘definido’

no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade

(20)

Hall (2005) remete a concepção do sujeito sociológico a dois eventos que

contribuíram para a fundamentação conceitual do sujeito moderno. São eles a

biologia darwiniana e o surgimento das ciências sociais, ainda que com uma

contradição entre a psicologia e as demais ciências sociais. Caberia à psicologia o

estudo do indivíduo em seus processos mentais. Como contraponto, a sociologia

forneceu a crítica ao individualismo racional do sujeito cartesiano. Esta, segundo o

autor:

[...] localizou o indivíduo em processos de grupo e nas normas coletivas, as quais, argumentava, subjaziam a qualquer contrato entre sujeitos individuais. Em conseqüência, desenvolveu uma explicação alternativa do modo como os indivíduos são formados subjetivamente através de sua participação em relações sociais mais amplas; e, inversamente, do modo como os processos e as estruturas são sustentadas pelos papéis que os indivíduos neles desempenham. Essa ‘internalização’ do exterior no sujeito, e essa ‘externalização’ do interior, através da ação no mundo social [...] constituem a descrição sociológica primária do sujeito moderno e estão compreendidas na teoria da socialização.(Ibidem:p.31)

A modernidade trouxe consigo um deslocamento do sujeito. Agora não há

uma, mas várias identidades, várias “posições de sujeito”. Esse deslocamento tem

suas características positivas, porque “[...] desarticula as identidades estáveis do

passado, mas também abre a possibilidade de novas articulações: a criação de

novas identidades, a produção de novos sujeitos [...]”.(Ibidem:p.18)

O modelo sociológico interativo é um produto da primeira metade do

século XX, “quando as ciências sociais assumem sua forma disciplinar atual.”

(Ibidem: p.32)

Nesse contexto, várias leituras do indivíduo e da identidade estão em

andamento, entendendo o indivíduo como um ser isolado, alienado frente às

grandes cidades, cada vez mais impessoais.

O autor remete o descentramento do sujeito não somente à sua

desagregação, à sua fragmentação, mas ao seu deslocamento devido a rupturas

nos discursos do pensamento moderno.

Dentre os avanços na teoria social e das ciências humanas, há aqueles

que no entender do autor geraram um impacto na concepção de sujeito, e por

conseqüência o descentramento desse mesmo sujeito, a partir da segunda metade

(21)

Com a pós-modernidade esse sujeito, vivido como tendo uma identidade

estável, se fragmenta, e se compõe agora de várias identidades, muitas vezes

contraditórias, não tendo, dessa forma, uma identidade fixa ou permanente. Hall

(2005) afirma que é pura ilusão se acreditar que a identidade é plenamente

unificada, segura e coerente:

O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. (Ibidem: p.:13)

Retomando os avanços na teoria social e nas ciências humanas, o

primeiro descentramento considerado pelo autor refere-se às tradições do

pensamento marxista, a partir de sua reinterpretação na década de sessenta do

século passado, segundo a qual

[...] os indivíduos não poderiam de nenhuma forma ser os ‘autores’ ou os agentes da história, uma vez que eles podiam agir apenas com base em condições históricas criadas por outros e sob as quais eles nasceram, utilizando os recursos materiais e de cultura que lhes foram fornecidos por gerações anteriores.” (Ibidem: p.35)

O segundo descentramento refere-se aos estudos de Freud sobre o

inconsciente.

A teoria de Freud de que nossas identidades, nossa sexualidade e a estrutura de nossos desejos são formadas com base em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, que funciona de acordo com uma ‘lógica’ muito diferente daquela da Razão, arrasa com o conceito de sujeito cognoscente e racional, provido de uma identidade fixa e unificada – o ‘penso, logo existo’, do sujeito de Descartes.(Ibidem:p.36)

Isto é, a identidade está sempre incompleta, em processo de formação, ao

longo do tempo, através de processos inconscientes. A identidade surge da falta de

inteireza, que é preenchida a partir do nosso exterior.

Psicanaliticamente, nós continuamos buscando a ‘identidade’ e construindo biografias que tecem as diferentes partes de nossos eus divididos numa unidade porque procuramos recapturar esse prazer fantasiado de plenitude.(Ibidem:p.38)

O terceiro descentramento analisado pelo autor está associado ao

trabalho de Ferdinand Saussure, sobre a linguagem. Este autor aponta para o fato

de que não somos os autores do que afirmamos ou do que expressamos na língua.

Isto é, a língua incorpora tanto os nossos significados interiores como também

(22)

O quarto descentramento refere-se ao trabalho de Michel Foucault sobre o

‘poder disciplinar’, ao enfocar a existência de um poder disciplinar com o objetivo de

garantir o controle tanto social quanto individual. A materialização desse poder se dá

através das instituições, que mesmo coletivas têm a capacidade de individualizar

ainda mais a pessoa.

O quinto descentramento é o feminismo, como crítica teórica e como

movimento social, e com ele tantos outros movimentos. Trouxe uma nova leitura

sobre identidade, associando uma identidade para cada movimento. Trouxe também

a discussão entre o ‘público’ e o ‘privado’ e inseriu a questão da diferença sexual.

Enfim, hoje não se fala mais em uma identidade, mas em várias

identidades, de acordo com o contexto em questão. A pessoa não tem a sua

identidade estável, mas em processo de constituição, sempre inacabada.

E assim também é, certamente, com os professores, que têm conceitos

construídos por outros e apropriados por eles, têm os seus conceitos a partir de sua

leitura do contexto e têm a dinâmica de, a todo momento, revê-los, alterá-los,

mantê-los em função de sua vivência, de sua relação com a profissão, com os demais

profissionais, com os seus alunos, com a comunidade, com a sociedade. A

identidade profissional do professor releva diversas interações na sua esfera de

trabalho: chefias, colegas professores, alunos, pais, Estado.

1.2.3 - A constituição da identidade pessoal e social – A subjetividade inerente ao

sujeito

O sujeito surge para o mundo integrando-se na intersubjetividade, no seu meio de existência, sem o qual perece. 5

Ao tratar da concepção de identidade cabe, inicialmente, conceituar a idéia

de sujeito. Segundo Touraine (2004), “o sujeito é o sentido encontrado dentro do

indivíduo, o que permite a esse indivíduo ser ator. O sujeito é a consciência do

desejo, do trabalho do indivíduo para ser um ator, para viver a sua vida”. (p.114)

5

(23)

Ainda, “o sujeito não é um indivíduo concreto. Um indivíduo pode ou não

se comportar como sujeito. No centro, deve-se situar o vazio, não as normas;

portanto, o ser humano na condição de sujeito em face de si mesmo”. (Idem: p.97)

O autor segue afirmando que quando trata do sujeito “[...] é do ponto de

vista exatamente contrário ao da transcendência. Recorro ao que resiste à

sociedade, isto é, ao singular, à consciência individual, ao desejo de ser um ator

individual”. (Ibidem: p.104)

No que se refere à concepção de ator, Touraine (2004) faz uma reflexão

sobre seus estudos. Considera que, antes de se falar em ator, há que se falar em

sujeito, pois só pode ser ator aquele que tem a consciência de si como sujeito.

Lutei durante trinta anos para defender a idéia de ator, mas hoje me parece muito mais pertinente insistir na idéia de sujeito, pois só é ator quem se constitui como sujeito de sua própria vida e de seus atos. É importante ir ao coração das coisas, à noção central – a de sujeito. (Ibidem:p.107)

Já Ardoino (1998) considera que não há que se falar em ator, mas sim

em autor, aquele que tem a autoria, aquele que se autoriza, isto é, que tem a

capacidade e a consciência de ser capaz de criar.

O conceito de ator trazido pela sociologia das organizações, segundo

Ardoino (2004), não é suficiente para caracterizar o sujeito. Segundo ele, para

alcançar o status de sujeito, é preciso falar de autor. O autor é aquele que é

reconhecido e se reconhece como estando “na origem de...”, e só quem se

reconhece na “origem de...” pode ser considerado “responsável por...”. E só quando

alguém se considera “responsável por...” pode ter um comportamento moral e ético.

Morïn(2005) também dá sua contribuição na discussão acerca do sujeito, e afirma que

Ser sujeito supõe um indivíduo, mas a noção de indivíduo só ganha sentido ao comportar a noção de sujeito. A definição primeira do sujeito deve ser bio-lógica. Trata-se de uma lógica de auto-afirmação do indivíduo vivo, pela ocupação do dentro do seu mundo, o que corresponde literalmente à noção de egocentrismo. Ser sujeito implica situar-se no centro do mundo para conhecer e agir. (p.74-75)

Enfoca a singularidade do sujeito como inerente aos seres humanos, ou

seja, “como cada indivíduo vive e experimenta-se como sujeito, essa unicidade

singular é a coisa humana mais universalmente partilhada. Ser sujeito faz de nós

(24)

E na singularidade está presente a capacidade criativa/criadora, a que

Cornelius Castoriadis chama de imaginação criadora do indivíduo, ou seja, o

imaginário radical, a capacidade de cada indivíduo de desejar e criar. Córdova

(2004) traz uma fundamentação sobre imaginário radical, trabalhada por Castoriadis:

Fundamental é reter firmemente a idéia de que se trata, aqui, não de imagens, mas de capacidade de criar, de produzir, de ser o que não é e o que nunca foi. Falar de imaginário radical é falar na capacidade de invenção [...] Esta criação, portanto, é a criação imaginária, não no sentido da ficção, de engano, de faz-de-conta. Mas no sentido que emerge desta capacidade inventiva que é inalienável dos seres humanos, individual ou coletivamente considerados. (p.27)

Ainda,

[...] O imaginário desempenha originariamente uma função do racional, a racionalidade já é uma forma sua, os dois estão contidos um no outro, numa indistinção primária, infinitamente fecunda. E é desse ‘caos’ que emerge, pouco a pouco, a razão. A história da humanidade, então, é como a história do ser humano individual, uma emergência possível da racionalidade a partir do imaginário, a própria racionalidade sendo uma criação imaginária, uma criação social-histórica. A história e a sociedade se constituem como emergência de significação e de sentido, a partir do qual se constituem os esquemas de ‘organização’ e de ‘interpretação’ iniciais, que transformam o caos em cosmos. (Ibidem: p.30)

Na subjetividade, a idéia de instabilidade está presente por ser uma

característica própria do sujeito, a partir de desejos não conscientes, mas que à

medida que o sujeito se situa, ele passa a ter mais conhecimento desses desejos,

mas não na sua totalidade, já que o sujeito nunca estará pronto, acabado;

fazemos-nos sujeitos a todo momento, pois “[...] o sujeito é a consciência do desejo, do

trabalho do indivíduo para ser um ator, para viver a sua vida”. (Touraine, 2004:

p.114).

A subjetivação supõe instabilidade, sendo a utopia o contrário da

constituição do sujeito, pois esta cria um espaço acabado, pleno, perfeitamente

estável. “Deve-se ver o sujeito como o ponto extremo do individualismo, isto é, o

limite extremo do tempo e do espaço”. (Idem: p.100)

Lança a idéia do negativo, quando afirma que a idéia de sujeito existe

porque está presente na sociedade a idéia de não-sujeito. Os contrários se

complementam; o cuidado de si está presente em todas as situações, para o bem ou

para o mal. O sujeito é a versão positiva, sendo a versão negativa a subordinação

(25)

Se não houvesse a idéia de sujeito, não haveria as idéias de dessubjetivação, de massificação ou de comunitarização. O positivo e o negativo sempre se misturam. Se o homem perfeito existisse, não haveria mais sujeito, ou distância entre si. O olhar que constitui o sujeito é carregado de dramas, de esperanças e de cólera, o que faz com que nenhum de nós possa dizer: sou o que sou. (Ibidem: 110)

Touraine (2004) complementa seu pensamento ao trazer a dimensão do

sofrimento presente no cotidiano do ser humano, a partir de sua luta por se constituir

em sujeito, uma luta que não tem um tempo de acabar, porque não há o sujeito

ideal, aquele a ser buscado, conquistado; ele se constitui no cotidiano. Afirma que o

grande sofrimento é não conseguir ser um sujeito. A cada dia ele se define na

capacidade de lutar para não ser esmagado. O sujeito é uma constituição diária, não

é um fim.

As definições tratadas pelos autores citados acima não se contrapõem, ao

contrário, elas abordam o mesmo tema de maneiras diferentes, mas com o intuito de

abordar o sujeito, ator e autor, a partir da consciência de si, de se compreender na

origem de, de perceber as instituições como normas e regras social e historicamente

produzidas pelas pessoas e não como algo divino e perene, enfim, na compreensão

do sujeito como um processo sempre em constituição, e não como um fim ideal.

Partindo da conceituação assumida para “sujeito”, é possível, agora,

enfocar as concepções de identidades, pessoal e social:

A noção de identidade é multiforme. [...] Não é mais considerada pelos pesquisadores como uma substância, um atributo imutável do indivíduo ou das coletividades. Todos lembram com insistência que a imagem e a estima de si, as identidades comunitárias ou políticas se elaboram, se constroem, se atualizam sem cessar nas interações entre os indivíduos, os grupos e as ideologias.(Halpern e Ruano: 2004, p.1-2)

Marc (2004), ao tratar de identidade pessoal, afirma que esta pode

parecer uma noção simples e evidente, mas trata-se da análise de um fenômeno

complexo e multidimensional, com significações tanto objetiva – cada indivíduo é

único e diferente de todos os outros, por uma questão genética –, quanto, e

principalmente, subjetiva – o sentimento de individualidade, de singularidade que

cada um carrega, e de continuidade no espaço e no tempo. Segundo ele, esse

sentimento é do sujeito, mas também daqueles que o cercam, na medida em que

esperamos de nós e dos outros uma certa coerência na maneira de ser, nas atitudes

(26)

O autor remete a uma multiplicidade de componentes da identidade:

identidade para si e identidade para o outro, sentimento de si (a maneira pela qual a

gente se sente), imagem de si (a maneira como a gente se vê, como a gente se

imagina), a representação de si (a maneira como a gente pode se descrever), a

estima de si (a maneira pela qual a gente se avalia), a continuidade de si (a maneira

pela qual a gente se sente semelhante ou transformando-se), o seu íntimo (aquilo

que a gente é interiormente), o social (aquilo que a gente mostra aos outros), si ideal

(aquilo que a gente gostaria de ser) e o si vivido (aquele que a gente sente que é).

Da mesma forma que os outros autores pesquisados, Marc (2004) traz a

oscilação da identidade entre a semelhança e a diferença, o que nos torna singular e

o que nos torna semelhante aos outros, num movimento de assimilação e de

diferença.

Em entrevista de Halpern e Ruano-Borbalan(2004) feita com Pierre Tap6,

o tema identidade é levantado com bastante propriedade.

A primeira pergunta que Pierre Tap responde é sobre quais são os

elementos constitutivos da identidade pessoal:

[...] uma maneira de precisar os elementos que constituem a identidade pessoal seria defini-la como o conjunto das representações e dos sentimentos que uma pessoa desenvolve a propósito de si mesma. Uma outra maneira seria dizer que a identidade pessoal é aquilo que permite permanecer o mesmo, realizar-se a si mesmo e tornar-se si mesmo, numa sociedade e numa cultura dadas, e em relação com os outros. (p.57)

O entrevistado enumera seis características implicadas na constituição e

na dinâmica das identidades, a saber: continuidade – sentimento de permanecer o

mesmo ao longo do tempo, semelhante a si mesmo; unidade e coerência do eu –

representação mais ou menos estável que faço de mim e que os outros fazem de

mim; unicidade – sentimento de ser original, diferente, percebendo-se como único;

diversidade – somos múltiplas personagens em uma mesma pessoa, podendo ser

uma riqueza na diversidade de papéis quanto uma dispersão de si; realização de si

pela ação – somos aquilo que fazemos, tornando-se a si mesmo pelas atividades, a

mudança de si na continuidade; e estima de si – sentimento de valor pessoal, em si,

aos seus olhos e aos olhos do outro.

6

(27)

O autor explicita, então, o que é para si a representação ideal, bem como

seus efeitos se suas dimensões não forem percebidas:

[...] é representação ideal a realidade cotidiana em seus diversos sentimentos: continuidade, positividade, coerência, etc. Muitas vezes são mal administrados os nossos fracassos e nossas rupturas pela desvalorização que nos remetem os outros ou que nós mesmos nos atribuímos. Como se pode constatar, certos aspectos da identidade podem se encontrar em conflito com outros, o que obriga ao indivíduo a melhor administrar a sua vida para evitar mesmo oposições de desejos, de valores contraditórios, ou no melhor dos casos, articular condutas, crenças e sentimentos muito diferentes. Dessa forma, a identidade constitui um esforço constante para gerir a continuidade na mudança, o que nem sempre é fácil. Da mesma forma, ancorar-se no passado pode entrar em contradição com os projetos que eu posso querer desenvolver (Tap: 2004: p.,58)

Ruano-Borbalan (2004) afirma que a constituição da identidade do

indivíduo, bem como a sua socialização é feita por etapas, num longo processo que

vai do nascimento à idade adulta. A imagem que ele constrói de si mesmo, suas

crenças, suas representações de si lhe permitem selecionar suas ações e suas

relações sociais.

Neste mesmo sentido, Marc(2004) afirma que:

O processo de constituição da identidade é um processo de múltiplas etapas que vai se abrindo para a afirmação; é a percepção de si como sujeito autônomo. A identidade se constrói num duplo movimento relacional: de um lado, a aproximação, e de outro a oposição; de abertura e de fechamento; de assimilação e de diferenciação. Nesse processo de afirmação de si como sujeito autônomo, a identificação tem um papel central. (p. 36)

Ou seja, a identidade se modifica ao longo da existência. Ela resulta

menos de uma adição sucessiva e mais de remanejamento e de tentativas de

integração mais ou menos bem sucedidas.

Em psicologia existe uma longa tradição de reflexão sobre o

desenvolvimento da criança e a constituição da sua identidade. “O corpo constitui

para o bebê a base de sua identificação. Ele se descobre a si mesmo através das

suas percepções e de suas ações, mas também nas suas relações com os outros e

no olhar do outro”. (Ruano-Borbalan:2004, p.02)

O autor se reporta a Edmond Marc para afirmar que mesmo antes do seu

nascimento, a criança já existe no imaginário e no discurso dos seus pais.

(28)

Segundo Marc(2004), as reflexões sobre a identidade individual giram

atualmente em torno do estudo da noção de si – a imagem que o indivíduo tem se si,

a representação de si, a construção de si, o controle de si, etc. O autor compreende

o si como um conjunto de características – gostos, interesses, qualidades, defeitos;

de traços pessoais – incluindo características corporais, de papéis e de valores, que

a pessoa se atribui como fazendo parte dela mesma.

Ruano-Borbalan (2004) ressalta que os estudos de psicologia, a partir

das décadas de 50 e 60 do século XX, colocam em destaque a existência de um

sentimento de diferenciação individual e de uma tendência à conformação social por

todos os indivíduos.

Segue afirmando que a partir dos anos 70 do século passado

multiplicaram-se os estudos sobre os impactos das relações sociais no psiquismo do

indivíduo, trazendo a comunicação interpessoal como maneira de constituição da

identidade, não dissociando os aspectos afetivos e sociais. Ressalta, ainda, que o

conceito-chave é o da auto-representação, ou seja, o conjunto das atividades, dos

comportamentos e dos objetos que o indivíduo utiliza para ser julgado positivamente

pelo outro, tendo como objetivo fundamental parecer “[...] amigável, gentil,

inteligente, a fim de obter dos outros aquilo que deseja”. (p. 03)

Os estudos de psicologia apontados pelo autor mostram que há o

componente afetivo de identidade pessoal (a estima de si) caracterizado pela

tendência sistemática à auto-valorização.

Nós deformamos nossas lembranças e adaptamos nossos julgamentos para que eles nos sejam favoráveis. Organizamos o mundo para ter nele um belo lugar. Esse egoísmo atávico é uma espécie de mecanismo geral de defesa para cada indivíduo, sem o quê o seu psiquismo se sentiria perturbado. (Ibidem: p. 04)

De uns dez anos para cá, assiste-se ao desenvolvimento de uma visão

cognitivista do estudo do si e da identidade individual. Ruano-Borbalan (2004) traz a

visão de Delphine Martinot, que enfoca que a componente cognitiva é construída em

torno de memórias, informações e representações sobre si.

(29)

Ao tratar dos processos identificatórios, Marc (2004) ressalta que estes

são ativados desde a existência do indivíduo, a partir da identificação com as

imagens dos pais, dos irmãos, das irmãs, dos companheiros, com os modelos da

família e da cultura, com as estrelas de cinema, com os heróis, com as personagens

míticas. Mas a identificação não se faz somente a partir do sujeito com as pessoas e

os modelos que o cercam.

Marc(2004) segue em sua reflexão, afirmando que o indivíduo, em seu

processo de desenvolvimento, impõe para si normas e modelos, apropriados do

social, aos quais se vê obrigado a aceitar e se enquadrar:

Ao longo de seu desenvolvimento, ele impõe para si normas e modelos aos quais é obrigado a se conformar. Esse processo se desenvolve inicialmente no quadro familiar, e à medida em que a criança cresce o seu ambiente não cessa de se ampliar. Com a entrada na escola, com a penetração dos meios de comunicação, especialmente a televisão, a identificação vai tendo como suportes os grupos mais amplos, o meio local, o grupo de idade, a classe social, o pertencimento profissional, clubes esportivos de identidade nacional e pessoal. (p. 37)

Por outro lado, as identificações não procedem apenas dos grupos de

pertencimento, mas também dos grupos de referência, nos quais o sujeito lança

seus modelos, com os quais ele procura se integrar. Entendido por grupo de

referência aquele com o qual me identifico, mas que posso ou não fazer parte dele.

Eu almejo estar nele. Essas identificações não traduzem unicamente a posição do

indivíduo determinado por sua história e pelo seu estatuto social, mas também por

antecipações e suas aspirações. De acordo com George H. Mead7 (1963),

[...] se o indivíduo se reconhece uma identidade é, em larga medida, adotando o ponto de vista dos outros, do grupo social a que ele pertence e dos outros grupos: o si é essencialmente uma estrutura cultural e social, que nasce das interações cotidianas. (Mead apud Marc(2004), p.37)

Marc(2004) refere-se a Eric Erikson8 (1993) para afirmar que

[...] a identidade surge do repúdio seletivo e da assimilação mútua das identificações da infância bem como da sua absorção numa nova configuração, que por sua vez depende do processo graças ao qual uma sociedade, frequentemente por intermédio de sub-sociedades, ‘identifica o jovem indivíduo, reconhecendo-o como alguém que deveria vir a ser o que ele é’. Esse movimento não acontece sem rupturas e sem crises, mesmo sem falar em problemas patológicos.

Ao tratar da constituição social da identidade, Ruano-Borbalan (2004)

afirma que “o si constitui a vertente interna da identidade individual, e se constrói na

7

G.H. Mead. L’Esprit, le soi et la société, Puf, 1963 [1934].

8

(30)

relação com o ambiente e com os outros, no seio de grupos, restritos ou ampliados,

contratuais ou impostos”. (p. 04)

Ainda, segundo o autor, as sociedades contemporâneas se caracterizam

pela multiplicidade sempre acrescida de grupos de pertencimento, reais ou

simbólicos, aos quais os indivíduos se afiliam, tendo, numa primeira esfera a família,

círculo profissional e de amizades restritas, e numa segunda esfera as instituições

culturais, religiosas e políticas. A constituição identitária se efetua na relação,

conflitual ou não, com essas instituições.

A identidade é fundada sobre as relações passionais do sujeito e do

outro. E ela é essencialmente conflitual: “compreender a identidade é, portanto,

trazer à luz do dia os processos que organizam a sua construção histórica, o seu

questionamento, sua perda ou sua reapropriação”. (Tap apud Ruano-Borbalan:

2004, p. 02)

Na análise da constituição identitária, a autor enfoca a função do grupo

como um elemento socializador e catalisador privilegiado da identificação individual,

permitindo ao indivíduo se socializar a partir da identificação com o outro e também

se diferenciar dos outros neste mesmo grupo. A identidade não aparece como a

justaposição simples de papéis e de pertencimento sociais. Ela deve ser concebida

como uma totalidade dinâmica onde esses diversos elementos interagem na

complementaridade ou no conflito. Essas interações de complementaridade e/ou

conflito permitem ao sujeito defender sua visibilidade social, sua integração à

comunidade, bem como se valorizar e buscar sua própria coerência. Ou seja, o

indivíduo, ao mesmo tempo em que busca se identificar com o grupo para dele fazer

parte – pertencimento, busca também de diferenciar deste mesmo grupo para ser

único, singular.

Ruano-Borbalan (2004) reflete sobre os grupos, afirmando que no seio

de destes, do grupo de futebol, à nação, passando pela empresa em que trabalha,

uma tensão forte existe de vontade de pertencimento total e independência. Essas

tensões não são forçosamente sempre vividas de uma maneira negativa. Elas

constituem mesmo contradições com as quais os indivíduos podem jogar para

realizar um equilíbrio satisfatório entre as suas diversas identidades, podendo em

vários momentos uma se sobressair em relação a outra(s), de acordo com o domínio

(31)

Nas sociedades contemporâneas, a constituição da identidade se efetua

para o indivíduo na relação de adesão ou de rejeição que ele funda com seu grupo

de pertencimento. “O indivíduo se encontra envolto numa malha, voluntária ou não,

de ligações ou de pertencimentos que lhe impõem seus comportamentos e lhe

fornecem uma ancoragem identitária”. (Ibidem, p. 06)

A família contribui (como também os círculos de amizade, ou os grupos

de trabalho restritos) para a constituição das identidades pessoais de cada um dos

seus membros.

Ruano-Borbalan (2004) reforça que, em relação aos grupos,

[...] o grau de integração e de pertencimento varia, mas as práticas são similares e os processos de identificação são comuns. Afirma que cada identificação é específica, marcada pela história, pela existência ou não de comunidades profissionais, partidárias ou associativas, de referência, pela existência dos meios de comunicação que estruturam uma “ideologia” comum. (Ibidem, p.06)

O autor faz referência a ‘bricolagens’ identitárias, isto é, a multiplicidade

dos pertencimentos, algumas extremamente frouxas, outras, ao contrário, muito

fortes, como uma novidade das sociedades contemporâneas.

Ao tratar da identidade cultural, o autor ressalta os rituais de memória, a

cultura e as crenças como vetores privilegiados da socialização e da identificação

dos indivíduos. Segundo ele, para a sociologia e a antropologia as narrativas

míticas, as cerimônias, os rituais de pertencimento cultural, religioso ou político

permitem a articulação das funções psicológicas individuais com os valores e a

moral social.

Marc (2004), também se refere aos ritos de passagem existentes em

todas as culturas, como facilitadores e realizadores do salto que conduz ao estágio

adulto, “[...] porque depois de ter ocupado o lugar da criança, o jovem vai ocupar o

do pai ou da mãe, com acesso à sexualidade genital, à procriação, ao mundo do

trabalho”. (p.38)

Continua afirmando que atualmente percebe-se uma grave crise de

identidade atravessada frequentemente pelas pessoas idosas, especialmente no

(32)

[...] O envelhecimento é acompanhado de mudanças na aparência física, nas capacidades do indivíduo e no seu status social, que agem sobre o sentimento que ele tem de si mesmo, mas também sobre a imagem que os outros fazem dele. (Ibidem: p.38)

Marc (2004) enfoca outros fatores de natureza social, que podem

propiciar modificações importantes na consciência de si. Cita, dentre eles, a escolha

do exercício de uma profissão, o grau de sucesso no estatuto socioeconômico que

dela decorre, o casamento, a maternidade ou a paternidade, os papéis sociais

assumidos, como sindicalista, militante político, animador social, as afiliações

ideológicas e religiosas, o estado de saúde, acontecimentos diversos como o luto,

desemprego, a conversão, o divórcio. Afirma que

[...] todos esses fatores podem afetar mais ou menos profundamente a identidade corporal e sexual, a imagem e a estima de si. Esses fatores provocam algumas vezes uma verdadeira crise de identidade, até se subverter totalmente a percepção que o sujeito tem de si. Assim, a constituição identitária aparece como um processo dinâmico marcado por rupturas e por crises inacabadas e sempre retomadas. (Ibidem: p.39)

A identidade, entendida como um processo conflitual, de contradição, se

situa na tensão entre o “[...] já dado da identidade e o ‘ainda não’, que habita em

cada sujeito”. (Jiménez, 2003:62)9

Ao tratar do tema ‘identidade’, Jiménez (2003) se reporta a Sigmund

Freud, no que se refere ao sentimento de si, afirmando que este está ligado ao

desenvolvimento do eu, isto é, ligado com um processo e não com um estado.

O sentimento de si não é alguma coisa que remonte a uma identidade atingida ou a uma essência. Trata-se, na realidade, de alguma coisa que responde antes, de fato, a um processo, àquilo que está sempre em vias de se fazer, e que tem por referência aquilo que está feito e aquilo que vai se fazer. (Idem:63)10

A autora também busca em Piera Aulagnier (1994) contribuições acerca

da natureza do eu, quando esta diz que o eu

[...] é um compromisso que nos permite reconhecermos como elementos de um conjunto e como ser singular, como efeito de uma história que nos precedeu anteriormente e como autor daquela que conta nossa vida, como morte futura e como ser vivo capaz de não levar demasiadamente em conta aquilo que sabe sobre esse final. (p.439 apud Jiménez,2003:64)11

9

“[...] entre le ‘déjà donné’ de l’identité et lê ‘pas encore’ qui habite chaque sujet”. Tradução de Rogério de Andrade Córdova, 2006.

10

“Le sentiment de soi n’est pas quelque chose qui remonte à une identité atteinte ou à une essence. Il s’agit em réalité de quelque chose qui répond davantage, effectivement, à um processus, à ce qui est toujours em train de se faire et qui a pour référence ce qui est fait et ce qui va se faire”. Tradução de Rogério de Andrade Córdova, 2006.

11

(33)

A importância desta citação é que nela podem-se perceber os princípios

que regem o projeto identificatório do eu, segundo Jiménez: princípio de

permanência e princípio de mudança, o mesmo e o diferente. E é um projeto

conflituoso. Para Piera Aulagnier, “[...] a identidade que opera como referência ao

projeto identificatório do eu é sempre uma identidade sustentada na permanência,

mas comprometida por aquilo que foi perdido e por aquilo que está por vir”. (Idem:

p.64)12

Dubar (1997), ao tratar do tema identidades, também remete à dimensão

da incerteza implícita no ser humano, na medida em que:

“[...] todas as nossas comunicações com os outros são marcadas pela incerteza: posso tentar pôr-me no lugar dos outros, tentar advinhar o que pensam sobre mim, até imaginar o que pensam que eu penso deles, etc.não posso colocar-me na sua pele. Eu nunca posso ter certeza que a minha identidade para mim coincide com a minha identidade para o Outro. A identidade nunca é dada, é sempre construída e a (re)construir numa incerteza maior ou menor e mais ou menos durável.” (1997:104)

O autor aponta para a possibilidade de se compreender a noção de

identidade numa perspectiva sociológica “[...] se restituirmos esta relação identidade

para si/identidade para o outro ao interior do processo comum que a torna possível e

que constitui o processo de socialização”. (Idem: p. 105)

Sendo assim, continua o autor, a identidade é o “[...] resultado

simultaneamente estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo,

biográfico e estrutural, dos diversos processos de socialização que, em conjunto,

constroem os indivíduos e definem as instituições”. (Ibidem: p.105). É, segundo ele,

uma tentativa de se compreender as identidades como fruto de uma tensão interna

ao mundo social.

Importante a reflexão sobre a articulação entre dois processos

identitários heterogêneos, isto é, a identidade para o outro e a identidade para si. À

identidade para o outro, que tipo de pessoa você é, o autor denomina atos de

atribuição. A identidade para si, que tipo de pessoa você quer ser, denomina atos de

pertença, de pertencimento.

conte notre vie, comme mort future et comme vivante capable de ne pas tenir trop compte de ce qu’elle sait sur ce final”. Tradução de Rogério de Andrade Córdova.

12

(34)

A identidade para o outro diz respeito “[...] à atribuição da identidade

pelas instituições e pelos agentes diretamente em interação com o indivíduo”.

(ibidem: p.107)

A identidade para si diz respeito “[...] à interiorização ativa, à

incorporação da identidade pelos próprios indivíduos”. (Ibidem: p.107). Ressalta que

não é possível fazer esta análise fora das trajetórias sociais nas quais os indivíduos

constroem as ‘identidades para si’. Ainda, afirma não ser possível falar em

‘identidade para si’ sem partir de categorias que são legítimas para o indivíduo e

grupo e ressalta que este grupo de referência pode não ser necessariamente o

grupo ao qual o indivíduo pertence objetivamente, isto é, “[...] sem esta legitimidade

subjetiva, não se pode falar de identidade-para-si”. (Ibidem: 107)

Mas adverte que esses processos não coincidem obrigatoriamente. E

traz a reflexão de E. Goffman13 (1963) de que “[...] quando seus resultados diferem,

há ‘desacordo’ entre a identidade social ‘virtual’ emprestada a uma pessoa e a

identidade social ‘real’ que ela atribui a si própria”. (Ibidem: p.107). Ressalta que a

conseqüência desse desacordo são as estratégias identitárias:

As ‘estratégias identitárias’ destinadas a reduzir o desvio entre as duas identidades [...] podem assumir duas formas: ou a de transações ‘externas’ entre o indivíduo e os outros significativos que visam acomodar a identidade para si à identidade para o outro (transação chamada objetiva), ou de transações ‘internas’ ao indivíduo, entre a necessidade de salvaguardar uma parte das suas identificações anteriores (identidades herdadas) e o desejo de construir para si novas identidades no futuro (identidades visadas) procurando assimilar a identidade-para-o-outro à id entidade. Esta transação subjetiva constitui um segundo mecanismo central do processo de socialização concebido como produtor de identidades sociais. (Ibidem: 107-108)

O autor segue afirmando que a constituição da identidade se faz a partir

da articulação entre essas duas transações, na continuidade entre a identidade

herdada e a identidade visada.

Cabe, então, abordar sua concepção sobre o processo identitário

biográfico e o processo identitário relacional.

Inicialmente, ele remete à legitimidade adquirida pelas categorias sociais

construídas a partir dos campos escolar e profissional, já que o trabalho e emprego,

bem como a formação – escolar e profissional –, são “domínios pertinentes das

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