Teologia
MARIA JOSÉ KOPPKE
CATEQUESE EVANGELIZADORA
Um pleonasmo necessário
Petrópolis
2021
MARIA JOSÉ KOPPKE – R.A. 007201942361
CATEQUESE EVANGELIZADORA
Um pleonasmo necessário
TCC apresentado ao Curso de Teologia da Universidade São Francisco, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Teologia.
Orientador metodológico e temático: Prof.
Dr. Welder Lancieri Marchini
Petrópolis
2021
RESUMO
O presente artigo propõe uma reflexão sobre a importância de uma catequese que contribua para a formação de verdadeiros discípulos missionários. Uma catequese que não termine com a celebração da Primeira Eucaristia, mas que seja um itinerário de escuta permanente da Palavra de Deus, de adesão a Jesus Ressuscitado e compromisso com a missão evangelizadora. Através da perspectiva bíblica do texto de Lucas 24.12-36, obteve-se um importante contributo para o modelo de discípulo missionário que se põe a caminho após um encontro pessoal com Jesus, o Cristo. O texto de Emaús relata a mudança de rumo que tomou conta da vida dos discípulos.
Para alcançar argumentos para esse artigo, fez-se uma pesquisa bibliográfica, correlacionando estudos de alguns autores sobre esse tema, que seguem essa linha de pensamento. Buscou-se dialogar com a história do pensamento teológico afim de oferecer os resultados desse estudo como elementos para uma vivência eclesial. Pela pesquisa percebeu-se que é possível desenvolver uma catequese que realize uma mudança de vida, contribuindo para a formação de verdadeiros discípulos missionários, comprometidos em anunciar o Reino de Deus e não tão somente catequizandos formados na Iniciação da Vida Cristã.
Palavras-chave: Catequese. Caminho de Emaús. Missão. Comunidade de fé.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 05
1 JESUS APROXIMOU-SE E PÔS-SE A CAMINHAR COM ELES... 06
1.1 A EXPERIÊNCIA DO CAMINHO ... 07
1.1.1 DE VOLTA A JERUSALÉM ... 07
2. JESUSEXPLICAVA-LHESAESCRITURA... 08
2.1 O CAMINHO PARA O DISCIPULADO... 09
2.2 O DISCIPULADO COMO NÚCLEO DA CATEQUESE... 09
2.3 O FRUTO DA CATEQUESE É O DE FAZER DISCÍPULOS... 10
3. LEVANTARAM-SENAMESMAHORAEFORAMAJERUSALÉM... 10
3.1 MOTU PROPRIO, ANTIQUUM MINISTERIUM ... 11
3.2 O LEIGO COMO PROTAGONISTA DA NOVA EVANGELIZAÇÃO... 12
CONCLUSÃO ... 13
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 14
INTRODUÇÃO
Assim como em todos os tempos, homens e mulheres procuram viver com retidão em meio a conflitos e contradições, acertos e erros, lutas e trabalhos. Cada vez mais vem configurando-se um desafio viver de maneira digna como ser humano.
A religião apresenta-se como um caminho, que completa a realidade humana, assim como traz um sentido para a vida, ao buscar respostas para os problemas existenciais, superar a angústia da consciência frente à finitude da vida, dando assim um sentido a existência humana.
A crise existencial é vivida em todos os espaços cotidianos, principalmente os relacionados à formação humana. Somando-se a ela temos a “crise de Deus” ou
“ausência de Deus”.(PAGOLA, 2020, p.20) e a catequese vem enfrentando cada vez mais o desafio de levar nossos jovens a um encontro pessoal com Jesus, pois é a partir dessa experiência que se educa a fé, formando discípulos missionários.
Nesse escopo, o catequista, muitas vezes em busca de respostas, toma pra si a responsabilidade e a culpa de uma formação catequética deficitária, mas na verdade são muitos os fatores que contribuem para esse cenário. Destacamos que, oportunamente, relacionar esses fatores numa reflexão mais detalhada poderia servir como tema para futuras pesquisas.
Considerando o supracitado, este artigo visa desenvolver uma reflexão acerca da contribuição do fazer catequético na formação do discípulo missionário.
Partindo das bases teóricas apresentadas durante o curso de Teologia, da discussão e análises de autores em pesquisas bibliográficas que dialogam com o tema, buscou-se desenvolver um pensamento contextualizado na perspectiva bíblica, teológica e pastoral.
O tema escolhido Catequese Evangelizadora – Um pleonasmo necessário encontra sua relevância a partir da busca por um fazer catequético que leve a um encontro pessoal com Jesus na formação do discípulo missionário.
Nesta ótica, a passagem bíblica dos Discípulos de Emaús será utilizada como roteiro catequético, contribuindo na reflexão de como dar respostas para as novas demandas e anseios trazidos pelos nossos jovens.
O presente trabalho é de cunho bibliográfico, analisando pontos, discutindo-os à luz da passagem bíblica de Lucas 24,13-35 e dos principais documentos da Igreja sobre a Iniciação a Vida Cristã. Buscou-se, também, ao longo da pesquisa responder a hipótese: A formação do Discípulo Missionário se faz a partir do encontro pessoal
com Jesus. Dessa forma, pretende-se com as reflexões aqui desenvolvidas contribuir com a Pastoral da catequese e sua missão evangelizadora/missionária.
Como objetivo principal destaca-se a pedagogia utilizada por Jesus na passagem dos Discípulos de Emaús na formação do Discípulo Missionário: o encontro, o diálogo amoroso e paciente, a partilha e a comunhão fraterna. E como objetivos específicos, contextualizar-se-á a importância do serviço pastoral da catequese, o protagonismo dos leigos e leigas na Igreja através dos principais documentos da Igreja relacionados à Iniciação da Vida Cristã e novas perspectivas da catequese como agente formador de discípulos missionários.
Justifica-se esse artigo por sua importância em destacar o papel do catequista, inserido nas diversas realidades das comunidades de fé, sua contribuição, e seu protagonismo na ação evangelizadora e missionária da Igreja Católica.
Como metodologia para o presente artigo, será realizada uma pesquisa bibliográfica com autores que dialoguem com a perspectiva aqui apresentada.
1. “JESUS APROXIMOU-SE E PÔS-SE A CAMINHAR COM ELES” ( Lc 24,15) Com a experiência que tiveram em Emaús, os discípulos sentiram a necessidade de anunciar e testemunhar Jesus, com verdadeiro ardor missionário..
Jesus desaparece da vista deles, mas fica no seu coração. “Não estava ardendo o nosso coração, quando ele nos explicava as Escrituras?”(Lc 24,32) A experiência é tão extraordinária, que os discípulos precisam levar à notícia, naquela mesma noite, a Jerusalém. No momento em que Jesus parte o pão, os discípulos de Emaús se tornam missionários, mensageiros da Boa Nova. “Na mesma hora eles se levantaram e voltaram para Jerusalém… e contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão. ( Lc 24,35)
Ao partir o pão, eles o reconhecem e retornam ao Caminho. A fé foi renovada a partir do encontro pessoal com Jesus. Não se trata apenas de crer em alguma coisa que é transmitida como um ensinamento secular. E por isso que o discípulo se compromete com a missão, torna-se evangelizador. A missão nasce sempre de um encontro com Jesus vivo, com o Cristo pascal.
Através desse recorte adaptado da passagem bíblica Lucas 24, 13-35, que narra o episódio dos Discípulos de Emaús, é possível constatar que todo aquele que tem um encontro pessoal com Jesus Ressuscitado tem sua vida transformada.
1.1 A EXPERIÊNCIA DO CAMINHO
Qual a mensagem que o episódio dos Discípulos de Emaús traz para o cristão atual? Para nossas comunidades de fé? É no caminho que os catecúmenos, os catequizandos vão aprendendo a caminhar na fé, ouvir e agir com o Mestre. O discípulo missionário se põe a caminho. O texto de Emaús relata a mudança de rumo que tomou conta da vida dos discípulos. Aqui está o ponto essencial para a catequese - fazer com que os seus interlocutores não passem apenas pela catequese, mas que neste processo realizem uma mudança de vida, busquem um novo rumo de amadurecimento na fé, e através de uma transformação significativa, tornando-se discípulos missionários.
1.1.1 O ENCONTRO COM JESUS
É no caminhar, na persistência, na busca, nas motivações, nas descobertas que a pessoa vai se encontrando com Jesus Cristo, com a comunidade e com a missão. É importante o primeiro passo: o Kerigma, o encontro entusiasmado com Mestre, que por um instante pensava-se morto, esquecido na História da humanidade.
Mas é preciso caminhar dar mais passo em companhia do estrangeiro: a conversão, o seguimento, a persistência, o aprofundamento. Mas como é um processo, não é possível ficar à margem dos acontecimentos. É preciso contar, confiar e deixar arder o coração ao ouvir suas palavras.
Segundo Pagola, precisamos aprender a evangelizar como testemunhas de Jesus Cristo, impulsionados pelo Espírito Santo, que vem inspirando até hoje os discípulos do Mestre pelo Projeto do Reino de Deus. Foi através desse encontro que os primeiros discípulos viram suas vidas transformadas, dando nova direção e sentido às suas existências. (PAGOLA, 2020, p. 28-29)
Discípulo Missionário, apesar de ser uma expressão comum na missão de Jesus, da Igreja primitiva, precisa ainda hoje ser assimilada nas pastorais, dentro de muitas Igrejas, pois é uma palavra com muitas implicações e prática, ainda não foram incorporadas pela experiência dos cristãos de nossas comunidades.
1.1.2. DE VOLTA A JERUSALÉM
Ainda hoje podemos ver pessoas deixando Jerusalém e caminhando para Emaús, tristes, desiludidos, abatidos, sofridos, machucados, desencantados, perdidos, quer entre adultos, jovens, crianças, idosos, nas periferias, nos centros urbanos, nos
condomínios e prédios, no campo, na universidade. Poucos têm possibilidade de encontrar um caminhante, um catequista, um/a evangelizador/a que se aproxima, escuta, explica, aquece o coração e a mente, sinaliza para o rito gestual de Jesus de partir o pão e o reconhecer no caminho e ajudar a fazer a mesma experiência dos discípulos de Emaús.
“Neste momento, seus olhos se abriram, e eles o reconheceram. Ele, porém, desapareceu da vista deles. Então um disse ao outro: Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras? Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze e os outros discípulos. E confirmaram: Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como otinham reconhecido ao partir o pão.”(Lc 24,33-35).
A catequese, portanto, é um caminho privilegiado de encontro com o Ressuscitado, que envolve aqueles que aderem a Jesus Cristo. Catequese é o ensinamento essencial da fé, não apenas da doutrina como também da vida, levando a uma consciente e ativa participação do mistério litúrgico e irradiando uma ação evangelizadora:
“Um grande instrumento para introduzir o Povo de Deus no mistério de Cristo é a catequese. Nela, transmite-se de forma simples e substancial a mensagem de Cristo. Portanto, convirá intensificar a catequese e a formação na fé, tanto das crianças como dos jovens e dos adultos. A reflexão madura da fé é luz para o caminho da vida e força para sermos testemunhas de Cristo. Para isto, dispõe-se de instrumentos realmente preciosos, como o Catecismo da Igreja Católica e a sua versão mais breve, o Compêndio do Catecismo da Igreja Catolica.” (Bento XVI)
2 .“JESUSEXPLICAVA-LHESAESCRITURA”(LC 24,27)
Não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro pessoal com um ACONTECIMENTO, com uma PESSOA, Jesus Cristo, que nos dá um novo horizonte. Esse encontro transforma nossa vida de forma decisiva. O caminho de fé e conversão nos faz mais íntimos com o Senhor que, em sua misericórdia, vai conduzindo e, na docilidade do Espírito, transformando e levando a descobrir e assumir uma nova identidade centrada em Cristo.
Nesta perspectiva, é imprescindível para nossa reflexão ter em mente que o conceito nuclear em toda ação evangelizadora é o do encontro pessoal com Jesus, que leva a uma mudança de pensamento, de atitudes. Tocar o mistério de Cristo é tocar o mistério da vida. Tocar significa experimentar. Implica ter percepção, isto é, ter
uma compreensão que nasce dos sentidos impactados pela experiência concreta.
(CARVALHO; GiL, 2019, p. 7)
A compreensão da missão faz “arder o coração”. A evangelização vem como resposta do discípulo ao chamado pessoal e intransferível de seu mestre. Segundo Pagola, Jesus dá uma ordem que não é para transmitir uma doutrina ou desenvolver uma organização religiosa, mas para que seus discípulos sejam “testemunhas de uma nova experiência, de uma vida transformada pelo seu Espírito”. (PAGOLA, 2020, p.
30) .
2.1 O CAMINHO PARA O DISCIPULADO
A comunidade vem a ser o lugar da experiência do discipulado, tendo os jovens como objetivo principal na tarefa de evangelização, mas os adultos são os primeiros interlocutores e a preocupação básica do cuidado pastoral – são os batizados que precisam receber a Boa-Nova que é o próprio Jesus.
Nossa reflexão sobre o discipulado é levada para o Antigo Testamento, pois foi dentro do judaísmo que Jesus precisou direcionar maiores esforços para transmitir o projeto salvífico de Deus. Não é diferente para nós, hoje. Evangelizar os já batizados na fé católica. Eis aí um grande desafio!
A novidade em Jesus Cristo reside no fato de que não é o discípulo que escolhe o mestre, mas o Mestre que escolhe os discípulos e ainda mais, os discípulos não são escolhidos para seguir uma doutrina, uma filosofia de vida, mas para seguir alguém,Jesus Cristo. É o encontro do caminho, a volta da Igreja primitiva, que viveu intensamente a experiência dos seguidores de Jesus Cristo como discípulos.
Com o Concílio Vaticano II houve uma renovação sobre a dinâmica evangelizadora da Igreja, que pode ser identificada na Luúmen Gentium: a Igreja recebeu a missão de “iluminar todos os homens com a claridade de Cristo que resplandece na face da Igreja” (LG 1); na a Gaudium et Spes: “é preciso melhorar as relações entre a Igreja Católica e o mundo onde ela está e atua.” (GS 1).
Para a catequese o tema do discipulado retomou com toda a força a partir do Diretório Geral de Catequese, que afirma que “a fé é um encontro pessoal com Jesus Cristo, é tornar-se seu discípulo. Assim, o crente se une à comunidade dos discípulos e assume, como sua, a fé da igreja” (DNC 53).
Por ocasião da aprovação do Diretório Nacional de Catequese já estava em andamento a preparação da V Conferência de Aparecida e as tendências apontavam
para o discipulado. A III Semana Brasileira de catequese brotou da junção de três inspirações que se resumem no tema: “Catequese, caminho para o discipulado” e no lema: “Nosso coração arde quando Ele fala, explica as Escrituras e parte o pão” (cf Lc 24,32-35).
2.2 O DISCIPULADO COMO NÚCLEO DA CATEQUESE
O Diretório Nacional de Catequese acentuou o discipulado como núcleo da catequese: “O fruto da evangelização e catequese é o fazer discípulos: acolher a palavra, aceitar Deus na própria vida, como dom da fé, levando à proximidade e intimidade com Jesus Cristo, ao compromisso com a comunidade e com a missão”
(34). Essa afirmação torna-se inspiração para todo texto do Diretório Nacional de Catequese.
Em Jesus o “discípulo experimenta que a vinculação íntima com Jesus nos grupos dos seus é a participação da Vida saída das entranhas do Pai, é formar- se para assumir seu estilo de vida e suas motivações, correr sua mesma sorte e assumir a sua missão de fazer novas todas as coisas” (DAp 131). Em Atos dos Apóstolos encontramos os frutos do envio missionário de Jesus; “E cada dia, o Senhor acrescentava a seu número mais pessoas que estavam sendo salvas” (At 2,47).
O acontecimento de Cristo, portanto, é o início desse sujeito novo que surge na história e a quem chamamos discípulo. Não se começa a ser cristão por uma ideia que surge do nada, ou como uma ideologia, que vem a ser fruto de ação puramente humana, mas através de uma experiência única, que dá um novo sentido à vida, resultando em novas perspectivas de ação pastoral e missionária.
2.3 O FRUTO DA CATEQUESE É O DE FAZER DISCÍPULOS
Na elaboração do Diretório da Catequese ficou marcado o consenso de que o fruto da catequese deve ser o de fazer discípulos missionários. Mais do que catequese de etapas, mais do que preparar para algum sacramento, mais do que informar sobre a fé, a Igreja e os sacramentos é preciso assumir um novo modo de catequese em nossa realidade. O mundo mudou, há uma mudança de época e épocas de mudanças profundas que atingem e questionam a fé e o nosso agir como cristão (DA 36 - 44).
Catequese é um dos caminhos da ação evangelizadora da Igreja. Mas um caminho interligado com outros caminhos, como a liturgia, a dimensão social da fé, ecumenismo, dimensão missionária. Porém a catequese não é qualquer caminho. O
DNC afirma “que a catequese é um ato essencialmente eclesial” (DNC 233). Não é uma ação particular. A igreja se edifica a partir da pregação do Evangelho, da Catequese e da Liturgia tendo como centro a celebração da eucaristia. “A catequese de iniciação lança asbases da vida cristã naqueles que seguem Jesus” (DGC 69).
3 “LEVANTARAM-SENAMESMAHORAEFORAMAJERUSALÉM(LC 24,33)”
Dentre as considerações feitas neste artigo, numa perspectiva Pastoral enfatiza-se o importante papel do catequista enquanto mestre e mistagogo.
De acordo com o Diretório para a Catequese (2020), toda a comunidade de fé é responsável pela catequese, mas é na pessoa do catequista que este processo de evangelização se concretiza de maneira sistemática e orgânica. O catequista é membro da comunidade cristã, compreende e vive o chamado de Deus e exerce sua missão de conduzir a caminhada de Iniciação à Vida Cristã dos irmãos. Ensina não somente ao anunciar a Boa notícia, mas sobretudo, com seu testemunho, da rica experiência de encontro com Jesus Cristo, Mestre e Senhor, dentro de sua caminhada pessoal e na comunidade de fé.
O Diretório para a Catequese explicita em seus pressupostos que conduzir ao Mistério requer do catequista, além de vocação, o necessário conhecimento da fé que anuncia, professa e, acima de tudo, testemunha em seu cotidiano. Trata-se de uma catequese “mistagógica”, que tem como missão levar o catecúmeno e/ou catequizando a conhecer e fazer a experiência desse Mistério revelado.
3.1. MOTU PROPRIO, ANTIQUUM MINISTERIUM
Na recente carta apostólica do Papa Francisco, sob forma de Motu Proprio, Antiquum Ministerium (AM) afirma que o catequista é ao mesmo tempo testemunha da fé, mestre e mistagogo, acompanhante e pedagogo que instrui em nome da igreja.
Mas, o Santo Padre exorta que para o catequista desenvolver uma identidade coerente e de responsabilidade é necessário que ele tenha vida de oração, estudo e participação direta na vida da comunidade(AM 6)
O próprio serviço pastoral dos leigos, conforme a vocação de cada um, em si já é uma forma de dar testemunho e evangelização no seguimento a Jesus. Desta maneira, estaremos respondendo à vocação a que todos nós somos chamados: “Ide pelo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15).
Os discípulos de Jesus tiveram a experiência fundamental da Páscoa, que é a verdadeira identidade cristã, onde iremos ativar a iniciação querigmática e, consequentemente, mistagógica.
E esse Mistério deve ser o centro da nossa fé cristã, nos chamando a refletir e direcionar o nosso olhar a Jesus Cristo e onde percebemos que a Palavra de Deus age na intimidade de cada pessoa e faz acontecer a plenitude da Revelação.
É desafio do nosso tempo, principalmente neste período pandêmico, evangelizar a pessoa para que ela tenha essa experiência pessoal e mistagógica. O processo de inspiração catecumenal ajudará tanto os catequistas como os catecúmenos e catequizandos, bem como toda a comunidade eclesial, a participar dessa experiência, mistagogia e vida, que nos levará para dentro do Mistério de Cristo, o centro de toda a catequese.
3..2. O LEIGO COMO PROTAGONISTA DA NOVA EVANGELIZAÇÃO
O concílio Vaticano II vem buscando novos métodos de um fazer catequético, afastando-se do modelo de “catecismo” e de “escolarização”, que dialoguem com o mundo moderno. Após o Concílio, o leigo é o visto como protagonista da Nova Evangelização. Evangeliza-se no mundo, adentrando-se nas realidades das comunidades de fé. Essa tarefa não é fácil. Falar de Jesus na e para a Igreja é fácil, mas testemunhar o Cristo no cotidiano configura um desafio constante.
A atuação dos leigos após Vaticano II não agradou a todos, mas cada vez mais ela vem sendo imprescindível. Os sacerdotes não podem estar em todos os lugares, há muitas tarefas a serem cumpridas numa paróquia, lugares de difícil acesso, onde apenas os paroquianos conseguem chegar.
Porém, ainda há muito ainda que se fazer acerca dos desafios apresentados para os cristãos leigos e leigas na Igreja no Brasil. Atualmente, é a realidade da pandemia e suas consequências crise sanitária, econômica, ética, social, política.
Segundo documento nº 105 da CNBB. no âmbito do laicato, a questão da formação dos cristãos leigos e a sua organização apresentam-se como dois desafios que a Igreja no Brasil precisa perseguir sempre para garantir a existência de um laicato maduro na fé, com sentimento de pertença e protagonista na Igreja e na sociedade.
Porém, não se faz protagonismo sem uma clara consciência da vocação, da missão e da necessária atualização do próprio laicato, principalmente no que diz respeito a uma formação teológica e pedagógica mais consistente.
Faz-se necessário, então, compreender a catequese com uma dimensão evangelizadora, querigmática e mistagógica, para aqueles que não conhecem o evangelho de Jesus, apesar de já serem batizados. assumindo uma perspectiva de espírito missionário. A Eucaristia vem a ser a centralidade dessa catequese voltada para a missão – o encontro pessoal com Jesus Eucarístico, que vem ao nosso encontro, acolhe nossas tristezas, tem interesse real por cada um de nós, fala através da Leitura das Escrituras, é doação na Eucaristia, faz arder nosso coração, transformando-nos em discípulos missionários.
Portanto, a antiga aula de catequese transfigura-se em encontro com o mistério de Deus em Jesus Cristo pela ação de seu Espírito presente entre nós.
CONCLUSÃO
A partir da perspectiva bíblica da aparição de Jesus Ressuscitado aos discípulos de Emaús, relatada em Lucas 24, 13 -35 buscou-se com o presente artigo um novo olhar para a evangelização na atualidade. Jesus leva esses discípulos que perderam a fé em decorrência do evento traumático da crucifixão a desenvolver um novo olhar, uma nova perspectiva mediante a pedagogia amorosa- dialógica, que leva a um amadurecimento da fé na convivência pastoral e comunitária.
Os discípulos de Emaús só foram capazes de reconhecer no forasteiro a pessoa de Jesus quando Ele, através da explicação das Escrituras, revelou o significado do mistério de Sua morte e ressurreição – catequese mistagógica.
Lucas emprega no seu relato um vocabulário eucarístico, mostrando aos leitores que a fração do pão, a partilha, ação missionária e comunitária são resultado do encontro pessoal com o Ressuscitado.
Na perspectiva e eclesial, a pedagogia de Jesus observada na passagem dos Discípulos de Emaús é centrada na convivência, no diálogo, no amor fraterno, no respeito, na dignidade e cuidado aos seres humanos e toda a Criação de Deus. Estes são desafios que toda comunidade de fé precisa enfrentar com coragem e perseverança.
Portanto, conclui-se com este artigo que se faz necessário buscar por um fazer catequético que não tenha somente a missão de aprofundar a fé ou de mantê-la, mas
que seja também um caminho de evangelização, exigido pelo contexto de descristianização da pós-modernidade.
É urgente que a Igreja como um todo busque por um novo paradigma de catequese na perspectiva de formação de discípulos missionários, caso contrário corremos o risco de perder todos os ganhos obtidos com a renovação catequética dos últimos cinquenta anos.
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