COBRANÇA. CONSUMIDOR. CONTRATO. SEGURO DE VIDA. RESSARCIMENTO/COMPLEMENTAÇÃO DE AUXILIO FUNERAL. DEVOLUÇÃO EM DOBRO DAS PRESTAÇÕES COBRADAS/PAGAS APÓS A MORTE DO SEGURADO.
1. Restou incontroversa a contratação do plano de seguro que abrangia o auxílio funeral, devendo ser ressarcidos os valores comprovadamente pagos.
2. As parcelas do seguro contratado cobradas - e pagas - após a morte do segurado devem ser restituídas em dobro. Aplicação do art. 42, § único, CDC.
RECURSO PROVIDO. UNÂNIME.
RECURSO INOMINADO TERCEIRA TURMA RECURSAL
CÍVEL
Nº 71002427482 COMARCA DE PORTO ALEGRE
MARIA VANDA VARGAS DE VARGAS
RECORRENTE
BRADESCO VIDA E PREVIDENCIA S.A
RECORRIDO
A C Ó R D Ã O
Vistos, relatados e discutidos os autos.
Acordam os Juízes de Direito integrantes da Terceira Turma Recursal Cível dos Juizados Especiais Cíveis do Estado do Rio Grande do Sul, à unanimidade, em dar provimento ao recurso.
Participaram do julgamento, além do signatário, os eminentes Senhores DR. EDUARDO KRAEMER (PRESIDENTE) E DR. JOÃO PEDRO CAVALLI JÚNIOR.
Porto Alegre, 25 de fevereiro de 2010.
R E L A T Ó R I O
MARIA VANDA VARGAS DE VARGAS interpôs recurso inominado contra sentença de fls. 81/84, que julgou parcialmente procedente a ação de cobrança movida contra BRADESCO VIDA E PREVIDENCIA S.A.
A decisão condenou a ré ao pagamento de R$ 223,08, a título de restituição simples das parcelas do seguro, descontadas na conta corrente do segurado após a sua morte.
Inconformada, a recorrente pugnou pela reforma da decisão, requerendo a procedência do pedido, em especial, que a ré seja condenada a restituir as despesas do funeral do segurado.
Apresentadas as contra-razões, vieram os autos conclusos para inclusão em pauta de julgamento.
É o relatório.
V O T O S
DR. JERSON MOACIR GUBERT (RELATOR) Eminentes colegas.
Merece provimento o recurso da autora. Explico.
A autora postula a cobrança do seguro de auxílio funeral em decorrência do falecimento de seu esposo/segurado, que mantinha com a ré um contrato de seguro que contempla cobertura de assistência pós-vida, bem como a devolução em dobro dos valores descontados diretamente na conta corrente do segurado, após a sua morte.
Restou incontroversa a ocorrência do evento morte (fls. 19), bem como a contratação do plano de seguro que abrangia o auxílio funeral.
A empresa ré já alcançou à autora R$ 1.500,00, referente ao reembolso com as despesas do funeral. Não obstante, a autora reclama que a contratação era no sentido de que a reparação seria no montante de até 10% do valor do seguro (o que gera, neste caso, uma diferença de R$ 5.616,50 – valor resultante do que foi comprovadamente gasto, subtraído do valor já disponibilizado pela ré).
Então, o objeto do litígio cinge-se à viabilidade, ou não, do reembolso do valor total despendido com o funeral do segurado.
Tratando-se de contrato de seguro, que consubstancia relação de consumo, aplicável o art. 6º, VIII, do CDC, mormente em se tratando de contrato de adesão.
Discordo, com a devida vênia, do julgador singular (quando entendeu que o valor postulado pela autora a título de auxílio funeral já havia sido ressarcido integralmente pela ré, e ainda, por entender que a devolução dos valores cobrados indevidamente deveria ser restituída na forma simples).
O que na realidade ocorreu foi o pagamento parcial de R$ 1.500,00, sendo que restaram comprovadas as despesas no montante de R$ 7.116,50 (sendo devido, portanto, o complemento no valor de R$ 5.616,50).
Para julgar quitado o valor devido pela ré, seria necessário o acesso às cláusulas e condições gerais da contratação entabulada para, de posse dessas, poder-se declarar, com convicção, o que efetivamente restou ajustado entre os litigantes. Não obstante, a requerida deixou de anexar aos autos a cópia do ajuste, ônus que lhe incumbia (art. 333, II, CPC). E essa providência era de fácil realização pela ré.
Então, cabia a ré a demonstração de que do contrato de seguro constava cláusula expressa no sentido de que o valor referente ao
auxílio funeral era de R$ 1.500,00, e não de 10% do valor total do prêmio, como alegado pela autora.
As cópias das “Condições Gerais” - que sequer são assinadas pelas partes - não se prestam a tal fim, já que não têm o condão de demonstrar que foram aquelas as condições contratadas com o segurado.
Além disso, há que se ponderar a delicadeza da situação atravessada pelos familiares do segurado, que, diante da perda de um ente querido, certamente se preocuparam em tomar todas as medidas necessárias à realização de seu funeral, esquecendo-se das exigências da seguradora, mas certos de que, após, seriam ressarcidos.
Nesse sentido:
AÇÃO DE COBRANÇA. SEGURO. AUXÍLIO
FUNERAL. NEGATIVA DE COBERTURA.
DESCABIMENTO. Apesar de a seguradora alegar uma série de condicionantes ao recebimento da indenização relativa ao auxílio funeral, forçoso reconhecer que deveria, para tanto, permitir o acesso às cláusulas e condições gerais da contratação. Hipótese em que a ré deixou de anexar aos autos a contratação, ônus que lhe incumbia nos termos do art. 333, II, do CPC. Relação das partes que está sob a tutela do CDC. Manutenção da sentença que reconheceu a obrigação da ré ao pagamento da respectiva indenização a título de auxílio funeral. APELO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70022351639, Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: José Aquino Flores de Camargo, Julgado em 10/07/2008).
O cotejo das provas acostadas aos autos revela ausência de clareza sobre a cobertura. Inexistem condições de verificar qual o limite da assistência funeral prometida na apólice. E, na dúvida, se deve optar pela interpretação mais favorável ao consumidor (art. 47, CDC).
Quanto ao montante pleiteado, nos autos há prova de que os valores gastos com o funeral somam R$ 7.161,50, e sequer foi objeto de
impugnação pela ré. Tampouco o valor se afigura demasiadamente alto ao fim a que se destina. Parece-me, pelo contrário, bastante razoável.
Assim, entendo que a autora faz jus ao pagamento relativo à cobertura do auxilio funeral no montante de R$ 7.116,50 (subtraído, por óbvio, o que já foi pago), porquanto o valor devidamente comprovado com o funeral (fl. 29/37) não ultrapassa o valor capital segurado (10% do valor do seguro de vida).
O reembolso do valor total despendido com o funeral do falecido, é, pois, plenamente viável, ensejando a procedência do pedido.
Por derradeiro, com razão também a recorrente ao postular a devolução em dobro dos valores descontados diretamente da conta corrente do falecido após a sua morte, em atenção ao art. 42, § único, CDC (sendo que a sentença condenou apenas a restituição simples).
É o voto, dando parcial provimento ao recurso, para condenar a ré ao pagamento de R$ 5.616,50, referente a complementação do valor segurado a título de auxílio funeral, bem como para determinar a devolução em dobro das parcelas do seguro contratado cobradas após a morte do segurado. Ambos os valores devem ser corrigidos monetariamente pelo IGP-M, desde o desembolso, e juros de 1% ao mês desde a citação. Mantenho a decisão de primeiro grau nos demais pontos.
Sem sucumbência.
DR. EDUARDO KRAEMER (PRESIDENTE) - De acordo com o(a) Relator(a).
DR. EDUARDO KRAEMER - Presidente - Recurso Inominado nº 71002427482, Comarca de Porto Alegre: "DERAM PROVIMENTO AO RECUSO. UNÂNIME"
Juízo de Origem: 4.JUIZADO ESPECIAL CIVEL PORTO ALEGRE - Comarca de Porto Alegre