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Rev. Bras. Enferm. vol.32 número4

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ENFERMAGEM - PROFISSAO HUMANITARIA?

*

**

Maria Jose Arleo Barbosa Amorim

RBEn/OI

MOM, M.J.AB. - Enfermagem - profissao humanitaria? ev. Bs. Enf.; DF, 32: 359-368, 1979.

INTRODUQAO

As experiencias de vida profissional da autora, quer em Servi;os de Saide, em cursos de forma;ao e preparo de pes­ soal de enfermagem, em Associa;ao de classe e sobretudo no Conselho de Enfer­ magem permitiram 0 surgimento de uma preccupa;ao constante que se acentua de ffjrma sensivel no decorrer de cada dia. Sente-se, de certa forma, engajada numa parcel a de responsabllldade no sentido de alertar 0 maior nimero pos­ sivel de enfermeiros de to do 0 pais para os perigos que corre a profissao de enfer­ magem diante do processo devastador de desumaniza;.o ja tao difundido e im­ pregnado no mundo contemoraneo.

Estas preocupa;6es prendem-se prin­ cipalmente ao fato de ser 0 paciente se­ vera e injustamente prejudicado no aten­ dimento de suas necessidades bio-psico­ socio-espirituais.

Neste trabalho, a autora aborda 0-bre 0 valor da vida e do ser humano,

sobre a importancia do relacionamento terapeutico paciente-enfermeiro e ques­ tiona sobre as causas da recusa ao com­ promisso profissional.

Finalmente, procura refletir sobre a forma de conciliar a pratica de a pro­ fissao essencialmente humanitaria com a problematic a do mundo e de cada um em particular.

1 . A VIDA E 0 SER HUMANO

"Se somente a enfase cientifica fose considerada, a filsofia de enfermagem seria impesoal e pragmatica. Os aspectos cientificos de enfermagem sao importan­ tes, porem muito mais importantes sao o paciente e 0 relacionamento pessoa­ pessoa, inerente ao cuidado profissional de enfermagem". Estas palavras de FER­ LIe (27) traduzem a importancia da sen­ sibilidade como caracteristica imprescin­ divel ao enfermeiro para que haja uma intera;.o humana efetiva com 0 pa­ ciente.

• Trabalho apresentado e premiado no XXI CBEn - Fortaleza - CE - 1979. •• nfrmeira - Asistente de Chefia do Hospital Ana Nery - e Diretora da Escola

(2)

o

enfermeiro e aquele profisional que nao pode tender apenas para as agoes que requerem conhecimento das causas proximas. A reflexao sobre as causas supremas the encaminha a uma filosofia, estabelecendo um modo de vida e colocando 0 saber

a

dlsosigao do seu semelhante.

EPSTEIN (25) considera 0 compro­ metimento com as relagoes humanas mals predominante e intenso na enfer­ magem do que nas demais profissoes. No seculo XVII ja se falava no envolvimen­ o de determinados profisionais com a humanidade, resaltando a importancia da observagao de suas les (39) .

ABIVEN no seu livro "Humanizer L'Hospial" (1) diz que 0 enfermeiro e um pro fissional que ten uma fungao es­ pecifica na equipe de saude, trazendo­ lhe, ao mesmo tempo uma competencia de alto nivel e uma observancia acentua­ da ao aspecto humanistico do hospital. Sem duvida, a formagao do enfer­ meiro requer posantes caracteristlcs humanitarias capazes de abater as mais temiveis resistencias porque ele esta in­ . tensamente envolvido com a vida e com

o ser humano.

Vida

Desde que e anunciada, a vida, em qualquer circunstancia, merece un su­ blime e incomensuravel respeio. Este e o ponto comum em que se completam to­ das as opinioes de pesquisadores do as­ sunto, considerando a abordagem oficial cat6Uca, filosofica ou humanizagao pro­ gressiva, antropologico-fenomenologica e

biologica.

Para que exista de fato esta defe--rencia pela vida de outrem, e necesario

que 0 ser humane ane e reverencie sua propria vida porque ela e acima de tudo o instrumento do ben utilizado recipro­ camente por todos os homens.

o

dire ito

a

vida e 0 mais funda­ mental dos direitos do homem, sendo inalienavel. Por sua vez, 0 dever e

obvia-mente enaltecldo; com muito entusiasmo, LUCAZ ratifica a expressao: "a vida e sempre bela para quem a compreende no seu dever e poe a feUcidade acima do seu sentido vulgar" (39) .

"A vida se apresenta como um dever continuo, como um desdobrar-se de den­ tro para fora inesgotavelmente multl­ forme, em oposigao

a

rigidez e unifor­ midade dos corpos inanimados" <CA­ MARGO) ( 15) .

Ser humane

o

homem e un ser vivo, racional, social, espirltual e membro duma especie. Em conseqiencia, 0 respeito, a conser­ vagao, a manutengao e a Uberdade sao observados. Ele e chamado a viver em sociedade ou comunidade, surgindo ele­ mentos como a socializagao e 0 trabalho.

Para 0 humanista, 0 homem e uma entidade unica no Universo, que toma decisoes e e moralmente responsavel.

Cada ser humano e uma substancia individual completa, dai a conservagao da sua individualidade, mesmo vivendo em constante interagao com outras pes­ soas.

Sendo composto de materia e espiri­ to, 0 homem est a submetido a determi­ nadas leis como espacialidade, tempora­ Udade, opacidade, pluralidade, nao obs­ tante ten muitos prlvllegios . Nao ha hiao entre os dois mundos: no homem, a materia se espiritualiza e 0 espirito se materializa.

"Pessoa e 0 ser que subsiste distinto na natureza racional" (S. TOMAS) (48). E pela racionalidade que a pesoa se constitui valor. 0 fato de ser fim e nao instrumento coloca 0 homem nao so como valor, mas como valor absoluto; portan­ to ele nunca pode ser considerado como melo para outro fim.

Paciente

(3)

neces-sldades bslcs, geralmente torna-se frustrado porque suas lnlclativas flcam canceladas, havendo uma interru�ao ns suas realldades socIals e proflsslonals. Dlante desta clrcunstancla, ele � mais sensivel, mais impressionavel, mais emotlvo, mals preocupado, menos loglco, menos seguro, menos volitlvo. Limitado em sua vIda, utlllza como recurso de con­ -testa;ao as mals dIvers as formas de ati­ tude: agressividade, ttmidez, indtferen�a, regressio, depressio, exctta�ao, rebeldia, ironia e etc.

Mults vezes, 0 sfrimento e 0 temor lhe levam a profundas reflexoes, anulan­ do sua hlerarqula de valores, quando os qualltatlvos passam a superar os quan­ titativos e a sede dos prazeres sensuals desaparece ou se reduz. LACAZ (39) lem­ bra a clta;ao de Trstao de Ataide: "a perda da saude predispoe 0 ser hu­ mano a compreender 0 mlsterio da vida". Em conseiiencia, ona-se fragil e ne­ eesitado de apoio, tendendo a perder seu orgulho natural, suas vaidades e suas llusoes de insubstituivel.

A doen;a e, muitas vezes, um pro­ cesso de depura;ao espiritual, levando 0

paciene a uma compreensao mais pro­ funda de si mesmo cmo finitude. Ofe­ rece a oportunidade para 0 auto encontro ou seja para a anUse da propria perso­ nalldade. E em conseqiencia, muitas ve­ zes esta ali uma pessoa melanc6lica, preocupada e tntrovertida.

A fuga de pensamentos e outro meio ·utilizado pelo paciente e que 0 torna, por conseguinte, confuso, ansioso e inquieto.

2 . RELACIONAMENTO ENFERMEIRO-PACIENTE

Em relatOrio elaborado por um grupo de trabalho nomeado pelo Ministerio da Saude Publica e da Seguran;a Social da Fran;a em 1971 (4) diz que a humani­ za;ao dos hospitals requer a aplica;ao de cuidados e medidas especials concer­ nentes as condi;oes morais da permanen­ cia do paciente no hspital. Considera de

grande importancia as rela;oes com a equipe de saude. E faz 0 seguinte comen­ tario: "0 paciente quer e precisa ter m relacionamento pessoal com aqueles que o tratam e sto nem sempre aconece. Muitas vezes, 0 paciene nao sabe nem mesmo distinguir s pessoas que se ocupam dele e quais sao sua fun;oes. Nao sabe 0 nome de ninguem e ninguem sabe o seu. Eo anonimato total".

Esta e uma reaUdade que se observa em todas as partes do Mundo. Publica­ ;oes diverss sobre 0 ass unto sugerem a necessidade premente de um relaciona_ mento mats humane entre 0 enfermetro e 0 paciente.

Representa uma tecnica influente e insubstltuivel para 0 enfermeiro 0 uso terap�utico de st mesmo na assls�cia o paciente. s resultados dependerao de sua habilidade na apUca;ao desta tec­ nlca.

''Para haver uma comunica;ao eficaz com os pacientes necessitamos saber como e quando scutar, reconhecer e va­ lorizar seus sentimentos, dar apoio, per­ guntar e contestar, conduzir a conversa atraves dos temas desejados pelo pacien­ te e reconhecer 0 grande valor da comu­ nica;ao que e 0 tato, cortesia, a expres­ sao e a atitude" (OGASAWARA) (49) .

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"sen-ti que podia confiar em alguem", "me senti gente", "mudou a ma impressio que tinha dos enfermeiros", etc.

Com muita razio, VIEIRA lisse: "A funtao terapeutica da comunicatio e es­ tabelecida quando 0 paciente comparti­ lha com 0 profissional da area de saude algum conhecimento de si mesmo, que tenha significado. Isto permite ao profls­ sional conhecer seus pensamentos e sen­ timentos, acerca da doenta, de si mes­ mo ,de um problema especifico, do stress que ele experimenta; e o profissional ser­ ve de auxilio quando usa suas habilida­

des de ouvir, falar e perceber" (69). Numa situatao conflitiva, qualquer ser humano necessita de assstencia de apoio. A palavra serena e persuasiva do enfermeiro e a sua atentio tem n sig­ nificado gratificante para 0 paciente; muitas vezes a sua simples presenta ja e terapeutica porque, como disse VIEI­ RA (68), seus sentimentos sio percebidos tambem por meio de seus movimentos e expressoes facials. 0 paciente precisa de alguem para expor seus problemas, suas preocupates e seus conflitos e e 0 en­ fermeiro que esta mas apto para ouvi-Io, compreende-Io e incentiva-Io.

Observa-se uma situatao muito seria em torno do relacionameno com 0 pa­ ciente; muitas vezes, cada proflssional da area de saude 0 consider a como uma par­ te fragmentada e nao como um todo. A atao imediata e a preocupatao de mui­ tos. Alguem deve sentir-se mais envol­ vido e ser capaz de empatizar com 0 pa­ ciente; a formatao pro fissional do enfer­ meiro posibilita 0 amadurecimento e ele se dispoe a assumir livremente a respon­ sabilidade de fazer n enfoque integral do paciente, em seus aspectos biologicos, psi colo gicos, sociais e espirituais.

3. POSI!VEIS CAUSAS DO

ALHEAMTO DO ENFERMEIRO

Na sociedade contemporanea, de ra­ pidas mudantas ,parece que as pessoas estio perdendo suas caracteristicas

hu-mans. A comunicatao interpessoal tem­ se tornado cada vez mais reduzida. s pessoas sao nneradas, sao catalogadas e as lnforma(oes sao transmitidas por computadores. 0 numero tem merecido maior destaque que 0 nome, como e 0 caso dos cartOes de credito. Numa visao extremamente pesimista, UEY (37) percebe 0 homem do futuro surgindo de um tubo de ensaio de laboratorio, pas­ sando aos bratos de un 'robot" para ser alimentado; 0 corpo sera controlado pelo Estado e a mente pelo computador.

Muitos pensam que 0 homem sera dono do ambiente e da natureza, capaz de fertilizar deseros, determlnar 0 sexo dos proprios filhos, de determinar 0 cli­ ma, a temperatura e a chuva. E alguns acham que existe a possibilidade de sur­ girem as pilulas do aperfeitoamento bio­ logico e do aumento da inteligencia ou da formatao do genio.

No seu contexto geral, a sociedade torna-se a cada dia mais materialista e as profisoes acompanham os mesmos pasos. Por sua vez, a enfermagem mais lentamente, porem gradativamente, tem assumido a mesma positio, ferindo de forma constrangedora 0 seu ideal.

Qual a origem do absentismo, da in­ diferenta, da insensibilidade, da aliena­ tao observados algumas vezes em deter­ minados profissionais de enfermagem no

desenvolvimento de suas atividades?

o

paciente nao se separa de sua es­ sencia humana para ser admitido num hospital; traz consigo sua lnteligencia, sua cultura ambiental, sua educatio, seus sentimentos e toda a sua experiencia de vida.

(5)

tra-balha, como deixou sua familia e quais os problemas surgldos com a sua hospi­ tallza;ao. Observam-se s ressts va­ zias que s enfermelros dirlgirem 0S pa­ cienes, manifestando nao s6 lndlferen­ tismo e InsenslblUdade, ms tamMm uma recusa como se suprlmsse as suas er­ cep;oes. E 0 exemplo do paciente que com uma expressao suplicante, z que tem multo medo da anestesla e 0 �enfermelro simplesmente responde: "nao se prea­ cupe" . . . E valido lembrar que quando se nega 0 apol0, nega-se a sua humanidade. E comum tamMm ouvlr dizer que 0 pa­ ciente nao aceita 0

t

ratamento; ms as vezes observa-se que ele esta multo re­ ceioso e inseguro e nao recebeu a mini­ ma expllca;ao no sentido de dlminuir sua ansiedade.

E deprlmente saber-se que em deer­ minadas situa;es, 0 individuo como ser humane e despercebido a tal ponto que sua presen;a torna-se ignorada. E 0 exemplo do paciente que ouve comena­ dos a seu respeito por pssoas que lhe tratam chegando mesmo

.

decisoes lm­ portantes sem ao menos the dirigirem a palavra ou um olhar. Nao ha duvida que a sensa;ao de menosprezo e de falta de respeito

.

sua dlgnidade e angustiante. Outro aspecto muito negativo ao es­ tado emocional do paciente e a presa no atendlmento de suas necesldades. "Mais lmportante de que 0 temo dis­ pensado ao paciene, talvez seja a e,u­ sen cia de pressa e a maneira tranqiil. da enfermeira na sua presen;a" (BAR­ RETT) (9) .

Uma preocupa;ao da enfermagem e favorecer a participa;ao do paciente no cuidado pr6prio, tao logo sua situa;ao 0 permita. Entretanto, como disse IEI­ RA (68) , "e precise cautela, para que isto nao seja feito com 0 objetlvo unico de dimlnuir 0 trabalho da equipe de enfer­ magem. Se isto acontece, 0 paciene per­ ceber. ,com certeza, e pder. sentir-se s6 e desamprado, ferido em sua auto­ estima".

Este alheamento do enfermelro terla como causa 0 avan;o acelerado da

tec-nologia? Ou sera a ensao causaa pe­ las diflculddes decorrentes da propria existncla? Nao estala havendo proble­ mas relacionads

a

forma;ao do enfer­ melro? A sociedade mercantll iolenta teria alguma nf1u�ncla sofre 0 fato?

Indiscutivelmene, atlngiu-se a maI�r eficiencia industrial, artistica e lntelec­ tual de tods os tempos, ms e evidente a redu;ao da solidariedade human a e de espiritualldade tao necessarias a uma ci­ viliza;ao. s mudan;as tecnol6gicas ocor­ rids durante a Hist6ria da humanidade tem transformado nao somente Ideias, cren;as e valores, como tamMm a pr6-pria organiza;ao social. 0 exagero do tecnicismo faz perder a lmagem do h

..

mem como um ser gregario e afetlvo, le­ vando muitas vezes 0 profissional a ana­ lisa-Io de maneira fria, objetiva e cal­ culsta. Pode-se constatar que a epoca e muito dificil porque a evolu�ao do pro­ gresso tem apresentado tamMm efelos paradoxais.

A Tecnologia e a Clencia como ele­ mentos dominadores a civlliza�ao con­ temporanea tem abalado profundamente as ideologias. A sua hlpertrofla tem pre­ judicado os aspectos humanistlcos em ­ dos os setores.

Em momentos de medita;ao odos question am sobre 0 homem do futuro.

o

homem tecnizado tera algum senti­ mento? Dlspensar. algum tempo para os pensamentos abstratos, as cria;oes da arte, da muslca, da poesia? Que serao dos la;os fam1l1ares? Como seno vistos e praticados 0 amor, a amlzade, a cola­ bora;ao?

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en-elhada da humanidade: de uma par­ te, a c.@ncia oferecendo o homem pos­ sibiUd�des" extraordinaris, de outra, amea�ando-o mortalmente, quer pela pretensao de explica-Io totalmente, quer pela tndencia de fazer dele um simples apndice de carne da enorme maquiaria que 0 homem vai construindo pela ecni­ ca elevada e valor supremo".

"Em nome da tecnologia e da eficien­ cia, tambem 0 paciente e muitas vezes desumnizado, reduzido a um conjunto de pares que necessitam de reparo e reajuse" (EPSTEIN) (25).

Os problems existenciais gerados no dia-a-dia permitem tambem que 0 pro­ fssional viva em estado de tensao per­ manene, chegando quase a angUstia. s

dificuldades na conciUa(ao da vida f­ miliar e profissional resultanes de in­ compreensao conjugais e ausencia de ele­ mentos auxiliares que asumam s pro­ vldencias domsticas tem levado 0 pro­ fssionl de enfermagem, sobretudo do sexo feminino a um menor envolvimento com 0 paciente. Em conseqiencia, 0 en­ femeiro concentra sua aen�ao na pro­ pria problematica, esquecendo-se de que

i e encontra alguem precisando de aten�ao. 0 descaso po de chegar as vezes a tal ponto, que 0 paciente passa a ser considerado como um cso banal.

t de consideravel importancia que nas scols de Enfermagem, cada pro­ fessor esteja consciente do seu potencial de influenciar; nao que possa ensinar sensibilidade, ,as que procure usar cor­ retamente s oportunidades para fazer o aluno entender que exste um envolvi­ mento muito real entre enfermeiro e 0 paciente. Para que iso· ocorra, e neces­ sario que 0 corpo docente das escols es­ teja preparado de fato e consciente de sua profunda responsabilidade.

Por sua vez, a sociedade de consumo que vlolentamente arrebata a renda fa­ miiar, obriga as vezes 0 enfermeiro a ter mats de dois emprego, 0 que representa penosa situa(ao, porque cansado com a sobrecarga de atividades e sempre

preo-cupado com 0 aendimento dos horarios, o profissional ve-se impossib1tado de dedicar mais aten�ao ao paciente.

Em decorrencia de todas estas gra­ ves situ�Oes, ha alguem quee severa­ mene prejudicado: 0 paciente.

CMARGO (14) fala da crise a co­ munica�ao com outrem: "obrigado a ina­ tividade, incapaz de satisfazer suas ne­ cessidades, 0 paciente encontra-se brus­ camente como jogado num deserto; 0 so­ frimento 0 concentra em si mesmo. A percep�ao desta solidao aumenta, quan­ do coiss, consideradas essencias pelo doene, nao sao asim percebidas pelos outros".

4 . NECESSIDADE DE A FlLOSOFIA DE COPROMISSO

Como conciliar a pratica de uma pro­ fisao essencialmente etica com a pro­ blematica do mundo contemporaneo?

sta e a dUicil incumbncia que toca a gera�ao atual: reajustar a pratica as condi�Oes do meio; aperfei�oar a enfer­ magem como ciencia-tecnologia e a en­ fermagem como arte-humanidade, ou

seja, desenvolver 0 humanismo dentro

da tecnologia.

DLLE NOGARE (48) lembrando que

a toda MaO segue uma rea�ao, acha que e bem possivel que a invasao da tecnica deermine a' necesidade e a busca de antidotos de ordem espiritual.

Acredita-se que tenha sido este 0 pensamento de FELDMANN (26) quando dsse: "nao existe incompatibilidade ou antagonismo entre ciencia e ideal, entre humaniza�ao e racionalidade. Portanto, deve-se procurar crescente adequa�ao da ciencia ou racionalidade como meio para se atingir um mundo cada vez mais hu­ mano".

Se caia enfermeiro tornar-se cons­ ciente de suas cren�s, modo de conduta e atitudes para com a enfermagem, po­ dera unificar eses componentes em uma

filosofia de enfermagem que devera ser

(7)

VALLOT (67) baseando-se num sen­ tido exstencialista disse: "0 homem nao e; ele esta em perpetuo processo de for­ ma�ao. E esta auo-forma�ao supera as

simples mudan�s dentro da personali­ dade. � a sua pessoa, sua pr6pria essen­ cia, que esta em jogo. A escolha e dele: ou pagar 0 pre�o de ser uma pessoa au­ tentica - disposta a usar sua llberdade e aceitar sua responsabllidade diante da existencia - ou seguir 0 caminho facH do homem massa".

A llberdade de escolha, ou sej a, 0 poder de autodeterminar-se entre duas ou mais altenativas representa 0 spec­ to criativo do homem que empolgou s humanistas desde a Renascen�a, levan­ do-os

a

conclusao de que 0 homem nao e um simples espectador do universo, orque 0 pode modificar, melhorar e recriar.

Esta llberdade psicologica e 0 gran­ de problema dos filosofs e psicologos.

o

animal e espontaneo em seus movi­ mentos instintivos, ms nao tem condi­ ;oes de controle porque nao tem poder de op�ao. 0 homem pode dominar seus instintos pela liberdade e e por ela que tem 0 extraordinario e temido privHegio, negado a todos os outros seres: decidir de sua existencia e de seu valor e deter­ minar seu destino.

Logo, va-se que 0 homem e respon­

savel pela forma�ao de seu verdadeiro ser. E no momeno que ele passa da exs­

tencia passivamente recebida, ao ser, que

a sua llberdade deve conqustar, assume um compromisso.

No existencialismo, 0 compromsso significa "a disposi�ao de viver plena­ mente a propria vida, de dar-lhe sentido, aceitando, em vez de rejeitar, tudo 0 que ela possa conter, tanto de alegria quanto de dor".

No momento que alguem resolve ser enfermeiro, assume um compromiso por que se torna envolvido: sentir-se-a parte de odas as coiss que a enfermagem lhe traz: seus problems, suas frustra�oes, seu futuro.

o

descompromisso e uma rejei�ao, e uma nega�ao da liberdade de o�ao, 0 que levara 0 enfermeiro a a vida de acomoda;ao e conformismo e sem ao menos um toque de sensibllidade.

o

enfermeiro comprometido nao se­ ria capaz de minimizar as dificuldades que prejudicam 0 relacionamento com 0 paciente? Nao e justo que se encare a tecnologia como 0 principal resonsavel por todos os males sociais. Nao seria oportuno usa-Ia para favorecer a enfer­ magem, reduzindo atividades puramente tecnicas? Por sua vez, s motivos par­ ticulares nao teriam consistencia ao pon­ to de impedirem a boa assistencia ao pa­ ciente porque a potencia do envolvimen­ to nao permitiria tal ocorrencia.

SUAVET (66) no seu livro "A espi­ ritualldade em plena vida" dise: "e pre­ ciso starmos persuadidos de que tudo esta em evolu�ao, mais ou menos rapida, mas ou menos visivel. � preciso estar­ mos continuamente atentos a fim de cap­ tarmos possiveis mudan�as e encarar­ mos seriamente os problems que vao aparecendo. S6 entao saberemos 0 que e preciso fazer e como faze-Io".

Ol.nte destas considera�oes, cada enfermeiro podera sentir que, em nome de um atendimento mais humane tao clamado no mundo contempor.neo, a (mica solu;ao encontra-se ao alcance de todos: assumir uma filosofia de compro­ misso.

"A Filosofia da ao individuo princi­ pios diretores de pensamentos corretos, imutaveis e universais. D. uma concep­ ;ao de vida, orienta;ao para a conduta, interesse pels valores supra-sensiveis e desenvolve 0 gosto pelo estudo de ques­ toes vitais para 0 ser humano (COS­ TA)

«19).

s palavrs de DALLE NOGRE (48) podem expressar sabiamente a se­ riedade e importlncia do assunto: "e­

(8)

CONCLUSAO

o

enfermeiro que e cascio do valor do ser humano, encarando 0 paciene como uma substancia individual comple­ ta mas limitado em sua vida, e capaz de atravessar s barreiras que frustram um relacionamento solidario.

o tecnlcism; exagerado e outros pro­

blemas insldiosos sao vencidos pela for­ ma�io integra do enfermelro. Para sto ssume um serio compromsso com a so­ ciedade.

A Filosofia de enfermagem oferece ao profissional condlyoes de dirigir-se sensatmente, fazendo de sua liberdade o instrumento de satisfayao decorrente de uma existencla humanitarla.

CONSDERAQOES E RECOMENDAQOES

Conslderando

Que 0 relacionamento enfermeiro­ paclente nem sempre tem atendido aos aspecs humanos e etlcos.

Recomenda aos enfermeir08

Que procurem refietir acerca ds principios humanos e eticos e que aso­ clem sempre no exercicio de sus fun­ yOes, 0 elemento esplritual e 0 respeito

.

dignldade. humana e

.

justiya social.

Considerando

Q

ue as mudanys acelerads e pro­ funds da sciedade contemporanea re­ percutem diretamente sobre a vida do homem.

Recomenda as Escolas ou Cursos de En­ fermagem de todos os niveis

Que a Etica e a Deontologia sejam assoclads e integradas em odo 0 con­ teudo curricular, possibilitando uma

6-lida formayao etico-moral as futuros profissionals e ocupacionais de enfer­ magem.

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