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Como Escrever Versos

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Academic year: 2022

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(1)

Poemas

Apócrifos

(2)

Poesia é trabalho informal Uma válvula de escape

Uma tábua de salvação Um porto seguro

E eu acredito piamente E eu acredito cegamente E eu acredito até a loucura Que

A poesia é a infância da Humanidade

Como Escrever Versos Tempestade de neve

Tempestade de areia Tempestade interior Moinho

Moendo água Redemoinho Remoendo a alma Pingo de gelo Estalactite Estalagmite Dinamite

Cratera na gruta Chuva de diamantes

Predestinação Uma estrela que cai

É uma pena

Mais um poeta que sai De cena

Set de Filmagem 7 pragas do Egito 7 chagas de Cristo

7 cores do arco-íris 7 pecados capitais 7 maravilhas do mundo

7 anjos 7 demônios 7 trombetas 7 cabeças do dragão

vídeo k7 fita k7 desce o cacete

e tranca a 7 chaves a 7 palmos do chão

O Tempo e o Vento para uma cantora brasileira O vento veeem

O vento vaaai

O vento também pode sambar [3x]

Só pra mim sopra você [sopro do vento com a boca]

(3)

Se você vem Eu vou também Vamos de trem Uai

Tá tudo bem Tô tao tão zen Te amo amém Ai ai

O meu seu gen Vira neném Quando alguém Me sai

Eu sou de quem Sou de ninguém E o quê que tem Meu pai

Me leva além Quem vai aquém Só vou a cem Bye bye

Não Sou Apenas Uma Mulher Eu sou mulher Eu sou negra Eu sou pobre Eu sou nordestina Eu sou gordaraquíticalésbicasoropositiva

Eu sou América Eu sou Europa Eu sou África Eu sou Ásia Eu sou Oceania Eu sou Terra E estou aquém de todos os lugares

E não tenho lugar no Mundo

Eu sou mãefilhaavóirmãesposaamante Eu sou dona de casa

Eu sou branca negra mulata

Européiaaborígeneíndiaorientalasiáticaafricanaesquimólatina Eu sou velha sou jovem não sei ler e nem escrever

Eu não sei o que falar Nem pensar Eu não sei de nada e nem quero saber

Eu sou fruto do estupro Eu sou a maçã Eu sou o Mundo Eu sou um Universo

Eu sou puta Eu sou santa Eu sou escrava Eu gero uma ninhada

E vivo como bicho dentro de uma caixa fechada Eu não vivo Sobrevivo

Eu não estou só Eu sou só

Me dão passagem mas eu não tenho vez Eu não tenho voz Sou várias vozes embabeladas

Eu respiro transpiro inspiro e piro Pelo simples fato de silenciar

Eu grito gaguejo canto e assovio para pairar

(4)

Eu não existo

Eu insisto persisto e resisto

Porque cada passada traça o meu caminhar Eu não sou nada de nada

Sou poeira cósmica

Todas e nenhuma Tudo e ninguém

Eu sou católicaprotestantemuçulmanabudistaumbandistaagnósticaatéia Eu sou uma livre pensadora

E sou L I V R E Eu não sou deste mundo

Eu tenho fé no outro mundo E tendo fé no outro mundo

Eu renasço da rejeição à redenção

Eu sou delicada Eu sou forte Eu sou uma bênção Eu sou uma grande executiva de uma multinacional Eu sou doméstica Moradora de rua Viciada

Sou andrógina então porque trabalho Sou travesti Não tenho sexo

Eu sou a menor mulher do mundo e a menor mulher do mundo é a melhor [mulher do mundo E eu sou y eu sou i eu sou & eu soul

E somos muitas e somos

Muito e somos todas e somamos mais E antes de tudo e de mais nada

Somos Humanas

Hoje Eu Quero Encher a Cara Encher a sua cara de bolacha

Essa sua lua cheia nua e rosada Até a alta noite amanhecer Hoje eu quero encher a cara De chapadas

De picos montanhas Cascavéis e cascatas

Hoje eu quero encher a cara Da dor dessa delícia

Que se chama e tem a chama Da poesia

Essa alegria triste

Hoje eu quero encher a cara E dançar a dança da chuva Até dançar na chuva

E cantar desafinado e de improviso E sapatear sobre a sombra

Do meu cadáver sujo

Hoje eu quero encher a cara Mas vamos conversar direito Hoje eu tô com tudo

E não tô prosa

Hoje é um dia que é só meu

(5)

Mais que o do meu aniversário Que não mais comemoro há tempos Rock'n'roll o escambau

Hoje é um épico Hoje é Wagner

Hoje é o belo o sublime e o grotesco Tudo junto e menstruado

Deixa eu Deixa eu Eu tô legal

Você que tá bem louco

Puta que o pariu caralho vai se foder porra Hoje eu quero encher a cara

POEMAS DA GREVE GERAL AO DIA DO TRABALHADOR 1.

GREVE GERAL SALVE GERAL

Os incendiários é que movem o mundo pois incendeiam corações e mentes.

No Brasil profundo há uma luta diária

para a quebra das correntes.

À luz incendiária dos mais levados todos serão elevados.

Todos

sem exceção.

Os quadrados, certinhos, cheios de modos, ah, esses, não passarão.

2.

Black Bloc

Tropa de choque Frente popular

O grito que não quer calar Black bloc

Ou tropa de choque ? Black bloc

Ou tropa de choque ? Bater no povo

Ou na polícia ?

Bater no trabalhador ?

Policial também é trabalhador ? Polícia que espanca

Professor

Merece o quê, Banksy ? Uma flor ?

(6)

A polícia representa O Estado

O Estado

Nos representa ? Representantes Do Estado Matam menores E minorias

Vamos condecorá-los ? Quantas questões!

3.

O QUE É UMA PICHAÇÃO QUANDO O QUE SE QUER É DERRUBAR OS MUROS ? 4.

Picharam no muro na maior Fora Temer Volta Belchior Na moral demorou é de admirar Viver é melhor que sonhar Por isso vamos à luta Na batalha e na labuta Todo coração selvagem Age reage e pede passagem Não é alucinação não

É a poesia que emana da canção É a verdade de um poeta-mor O latino-americano Belchior 5.

Vâmo

Vem com a gente Vâmo lá

Quebra as correntes Quebra quebra Quebra os bancos Vâmo lá gente

Depois chama o marceneiro Vâmo

Vem com a gente Vâmo lá

Um mar de marceneiros Mar de marceneiros Marceneiros

Vâmo lá gente

Tragam madeira pau e todos Todos seremos compensados

(7)

6.

Maquiavel Maquiavélico

Sade Sádico

Masoch Masoquista

Kafka Kafkiano

Temer Todas as anteriores 7.

Marx está coberto de razão:

na Luta de Classes

ou você está com o trabalhador ou está com o patrão.

Sinto! É assim sim! Sumemo!

Não existe meio-termo.

E HOJE É O DIA DO TRABALHADOR ! NÃO É O DIA DO EMPRESÁRIO

OU DO LATIFUNDIÁRIO, SEU DOUTOR.

8.

NEM GREGOS NEM TROIANOS.

NEM MARVEL NEM DC.

BLACK BLOCS! BLACK BLOCS! BLACK BLOCS!

POWER TO THE PEOPLE RIGHT ON!

FIGHT!

VIOLENTO E MASCARADO É ESSE DESGOVERNO!

9.

ESPÍRITO VOLUNTÁRIO CORAÇÃO

REVOLUCIONÁRIO O QUE MOVE ME COMOVE A POESIA ME DIZIA PARE FUJA JÁ HOJE ELA URRA CORRA INSURJA B U R N I N G A A A A A A A H H H H H H

! ! ! ! ! ! ! !

(8)

10.

Sinal vermelho Vermelho sangue Sangue quente Fervendo de fogo Sinal amarelo Amarelo de medo De temer

Amarelo na mão Amarelão

Quando o sinal estiver verde Vai ficar tudo azul

Por enquanto o sinal está fechado A coisa tá preta

Buraco negro Mas eu luto De luto

Silêncio Música Ruído Poluição Sonora Eu quero é

+ Cresça E apareça D e s o b e d e ç a

Dúvida Metade de tudo que existe

é falso

e a outra parte, são meias verdades.

A única verdade absoluta é a Dúvida.

Esfinge A máscara

não mostra nenhum monstro.

A múmia é o enigma da pirâmide.

A novidade

não é o desconhecido : é a descoberta.

(9)

Eu Por Mim Eu não combino comigo

Eu não pertenço a mim Eu não vejo nada em mim Eu sou o meu maior inimigo Eu não caso comigo

Eu não preciso de mim Eu não caibo mais em mim Eu sou o meu próprio castigo Eu não colaboro comigo Eu não choro por mim Eu não sou páreo para mim Eu sou um modernista antigo Eu não pareço comigo

Eu não me esqueço de mim Eu não transito em mim

Eu sou do tamanho do meu umbigo Eu não sonho comigo

Eu não me escondo de mim Eu não vivo sem mim

Eu sou um fantasma com vitiligo Eu não durmo comigo

Eu não estou preso a mim Eu não separo meu eu de mim Eu sou o medo e o perigo Eu não encaixo comigo Eu não sou tarado por mim Eu não piso em mim

Eu sou a sombra que sigo Eu não misturo comigo Eu não fujo de mim

Eu não me espelho em mim Eu sou o que sou e nem ligo Eu não convivo comigo Eu não me sustento em mim Eu não me perco de mim Eu sou tudo o que eu digo Eu não aprendo comigo Eu não sou o oposto de mim Eu não estou acima de mim Eu sou o joio e o trigo

(10)

Geração Espontânea Provo

o novo ovo do povo Reprovo o novo ovo do povo Provo e reprovo o ovo

E desaprovo o ovo

de novo

Lavando a Alma Cheiro de terra.

Cheiro de chuva.

Cheiro de terra batida de chuva.

Terra vermelha.

Chuva assentando poeira.

Narciso O outro

é o espelho de mim mesmo.

O outro me espelha.

O outro sou eu.

O outro é o eu duplicado.

O outro é o meu

próprio reflexo.

O outro eu sou.

(11)

O outro se repete em mim.

O outro é o reflexo de mim mesmo.

Eu sou o outro.

O Duplo as sombras das nuvens nas montanhas o reflexo das árvores no riacho

o homem sem reflexo no espelho o primata sem sombra no chão puro espírito a beleza é terrível

Goteira Gota a gota pinga

água no banheiro.

Gota a gota pinga água do chuveiro.

Gota a gota pinga e cai no bueiro.

Pinga gota a gota pinga

água da torneira.

Pinga gota a gota pinga

e cai na banheira.

Gota a gota pinga água vaza do vaso.

Gota a gota pinga água alaga o raso.

Gota a gota pinga e cai por acaso.

Pinga gota a gota pinga

água mal-cheirosa.

Pinga gota a gota pinga

e cai prazerosa.

(12)

Só na Multidão Somos muitos e sós

- sós e mal acompanhados.

Ovelhas desgarradas formam rebanhos de ovelhas desgarradas.

Entrega De peito aberto

a plenos pulmões De ponta cabeça a teus pés

De mãos dadas ao deus-dará De vento em popa ao léu

Essa chuva caiu do céu

Réquiem Quando eu morrer

quero que queimem todos os meus escritos em praça pública, caso eu for mais um.

Morto não sente mais dores.

Quando eu morrer

não quero flores e nem quero velas,

não em minhas roupas ou no meu caminho.

Morto não enxerga cores.

Quando eu morrer

quero que queimem todos os manuscritos em casa mesmo, caso me torne imortal.

Morto não derrama lágrimas.

Quando eu morrer

não quero caixão e nem ser sepultado:

quero apenas o meu corpo atirado ao mar.

Morto não respira mais.

Quando eu morrer

não quero que paguem as minhas contas, pois quem paga deve ser sempre o devedor.

Morto não deve um tostão.

Quando eu morrer

não quero que chorem no meu velório, pois só se chora por dor ou por culpa.

Morto não pede perdão.

(13)

Sal na Lesma A lesma passeia

construindo sua estrada de diamantes,

enquanto o encanto inicial se esvai

no ralo sujo da memória.

Silêncio Primal palavra chave

é palavra mágica palavra de escoteiro é palavra de honra palavra branca é palavra de paz palavra negra é palavra final palavra ao vento eco

palavrão é palavreado palavrório minha lavra

na palavra silêncio o verso é o verbo

SOS Eu estou sem eira na beira de um rio que corre, enquanto você me socorre

na outra margem.

Eu estou

sem eira na beira de um rio que passa, enquanto você me ultrapassa

agora.

Nem sempre a ocasião propícia vem na hora certa.

Nem sempre navios chegam à outra margem.

O mundo gira

e você prende a respiração.

Um dia o mundo pára e você perde a respiração.

Todas as Cores amarelo com vermelho

uma fruta

vermelho com azul uma flor

azul com amarelo uma folha

(14)

a pomba na teoria o luto na prática

vermelho com preto a terra

vermelho com branco outra flor

preto no branco restos mortais

ALERTA VERMELHO A L E R T A V E R M E L H O

evacuar área

BUZINAS E APITOS / ASSOVIOS E GRITOS ALERTA V E R M E L H O

ALERTA VERMELHO

alarme falso DESARME / O ALARME CRÍTICA

CRI CRI CRÍTICA TI

TICA CRÍTICA CRI A

CRÍTICA CRI CA CRÍTICA c r i t i c a

Uma estrela de cinco dentes

c a

i doente no vale verde

e cava

(15)

sua cova )dentro(

do mar NEGRO

e crava suas presas

numa estrela vermelha a

idade revida à brevidade da vida vira e volta volta e vira revolta vira e volta volta e vira reviravolta CADA DEDO QUAS ECOL ADOD OLAD ODOO UTRO

A lágrima que desce com o olho O olho que desce com a lágrima que desce com o olho que desce com a lágrima

que desce que desce

E que cai a cara e come o corpo E que vai a cara e move o corpo E que sai a cara e some o

(16)

E que a sede que ainda insiste E que a fome que nunca desiste que acabe

que cesse

sem porém porém sem a pedra e o podre

E que a sede

e que a fome Rachesequerachesequeracheseque

o verme vê o ve lho e o ve lho vê o vermelho

A FLOR O BAILE DA FLOR O VENTO BALANÇA A FLOR O MIOLO AMARELO É O OLHO DA FLOR A ABELHA ABELHUDA ZUNE SOBRE A FLOR O OLHO QUE EXALA O OLOR DA FLOR O TEMPO QUE ACABA COM A FLOR O BALÉ DA FLOR A FLOR A ABELHA

A ABELHA É A FERA

A ABELHA FERE QUEM FOR

A ABELHA FICA BRAVA E DÁ FERROADA A ABELHA ROUBA DA FLOR QUE DÁ ADEUS A ABELHA COM FERRÃO PICA SEM PECAR A ABELHA GUARDA A FLOR

A ABELHA QUER CERA A ABELHA

A FLOR BAILA E A ABELHA FERE

l

lu AR lug

(17)

duas só o sol luas

a m anhã monta n a montanha

dois bois ri o rio Manifesto O modelo é Brecht

Argamassa Odebrecht O modelo é Maiakovski E do dog do quiosque Poesia verborrágica Periférica

Filosofia de banheiro Placa de caminhoneiro Poesia panfletária Proletária

Poesia cartaz Em guerra pela paz O chiste e o palavrão Ou sim ou não

Aqui o teu talvez Não tem mais vez Canto gutural Grito primal Poesia no cone Feito megafone Poesia do povo Na boca do povo E de novo

De volta pro ovo Página em branco Aviãozinho no tranco Poesia é risco

É pixo e rabisco O silêncio é covarde Pois agora é tarde Temos muita saudade Da liberdade

Poesia da luta

Da batalha e da labuta Poesia de luto

Por isso eu luto

Poesia que diz o que quer Dizer

Frase de efeito

(18)

Verso perfeito Defeito desfeito Cantada de feira Dando bandeira Pois é poesia Desatada sangria Poema problema Fora do esquema Poema problema Contra o sistema Poesia punk De baile funk Ocupando a rua Poética crua E cruel

Fora do papel

Canibais Almoço com o cão

faminto a meus pés.

Almoço com crianças e mendigos dormindo nos bancos duros da vida roubada.

Almoço com o gato sem botas com as patinhas sangrando sobre o muro de vidro intencionado aos ladrões.

Almoço com a mulher de vida fácil? vida difícil!

comer o pão que o país amassou!

Almoço e não penso

que o fio condutor das guerras

só congestiona meu pequeno mundo já pardo, cinza, sujo, podre, triste, submundo da fumaça e do entulho, repleto de ratos, insetos,

vermes e humanóides em geral.

Almoço com a secretária sendo estuprada pelo patrão em seu escritório, cheirando a chantagem e perfume barato.

- Beijos e lágrimas!

Almoço com as centenas

de novas doenças dos cientistas.

Almoço com tudo, tudo lá fora, tudo do lado de lá

das portas particulares.

Almoço com o pálido silêncio.

Almoço com o espião na janela.

Almoço com um espinho de peixe

(19)

entalado na minha garganta - meu único pequeno caos.

Almoço e não lembro.

Almoço tranqüilo e adormeço macio quando o sono vem.

E sonho gostoso...

Almoço cego com os canibais!

Em Memória de Yorick O palhaço do palácio tem que

fazer o Rei rir! chorar de rir!

mijar de rir! morrer de rir!

cair de rir! rir até cair!

O palhaço do palácio tem que fazê-lo, pois, caso não o fizer...

“Deixe-o comer o quanto quiser!

Deixe-o comer até estourar!

Quero vê-lo bem gordo e forte!

Quero aplaudi-lo ao se juntar aos leões na arena para lutar, lutar e lutar até a morte!...”

O palhaço do palácio tem que levantar a peteca do Rei, pois, para Ele, rir ali é lei!

O palhaço do palácio tem que ser um péssimo malabarista;

ser cauteloso, mas sarrista;

tomar cuidado com a piada...

- Não pode dar mancada.

O palhaço do palácio tem que tocar banjo e inventar versos dos mais hilariantes e perversos.

Mas sem ofender a algum ente querido de Sua Majestade. Creio que o centurião o partirá ao meio caso o Rei fique descontente.

O palhaço do palácio tem que ter, na escolha, o direito,

mesmo que seja muito estreito.

“Mas o quê foi que eu fiz?”

E só então o centurião diz

: "Prefere no calabouço, calado?

Prefere na guilhotina, degolado?

Prefere a forca, após a farinha?

(20)

Ou jantar com os leões à tardinha?

- Vamos! responda covarde!

Sua hora chegará às 5 da tarde!”

O palhaço do palácio tem que se sentir culpado por ter deixado o reinado do Rei, arruinado!

O palhaço do palácio tem que respeitar o centurião carrancudo : a farda, a lança, as ordens, tudo!

E agüentar toda a humilhação por um punhado de moedas e pão.

O palhaço do palácio só almeja

que seja

o palácio do palhaço.

Espírito Periférico Vende-se aluga-se troca-se

vende-se à vista vende-se a prazo a perder de vista ou a longo prazo a alma por uma pataca

aluga-se um cômodo tão incômodo

quanto um parto aluga-se um quarto da alma

porque a carne é fraca

troca-se troca-troca troca-se

a alma por uma maca compre grátis

e preste atenção na prestação

aceita ticket tique nervoso aceita cheque xeque-mate aceita vale vale encantado aceita cartão

(21)

cartão descrédito aceita passe passe bem

vende-se aluga-se troca-se a alma não vale nhaca.

Favela S.A.

naquela vila naquela viela no fim da fila lá na favela nos becos botecos

nas quebradas bocadas

aos trancos e barrancos barracos nos buracos das enxurradas das enchentes cheias de gentes soterradas

é a vida

fecharam a entrada da boca de fumo do beco sem saída não moro

no morro me escondo

onde Judas perdeu as botas no raio que o parta

na ponte que partiu na casa do baralho na casa do chapéu no fim do túnel no fim do mundo no (*) do mundo no fundo no fundo

logo ali ao lado lá longe

do outro lado de lá nos cus de Judas

(22)

mundo perdido tudo fodido na fossa no fosso na poça no poço

no fundo do poço

beltranos sicranos caetanos fulanos de tais

entre coliformes fetais dejetos humanos e restos mortais sem destino na multidão sem sentido na solidão em meio ao devaneio mera

quimera doce ilusão sem rumo me arrumo penico no pires

no ponto final do arco-íris sem pote de ouro nem anão pra lá de Bagdá

pra lá de Bangladesh pra lá de Shangrilá pra lá de Marrakesh última partida

ai de mim fim da linha dor sem fim

Foda-se!

Muitos têm pouco e poucos têm muito.

Eu não estou aqui por brincadeira.

Eu não estou brincando.

Eu não estou não.

Eu não estou.

Eu não estou aqui.

(23)

Foda-se que se foda o mundo!

Eu não tenho chance, meu grito não tem alcance.

Foda-se que se foda tudo!

Eu não tenho chance, meu grito não tem alcance.

Foda-se que se foda!

Muitos têm pouco e poucos têm muito.

E eu não estou aqui por brincadeira.

Geração X guardei o rolex

no marmitex passei lubrax no jontex enfiei tampax no rex

cheguei ao clímax no box

passei um fax depois ajax achei o max o denorex colei durepox no duralex passei durex no sax tirei xerox do tex jantei inox com pirex passei látex no gálax espirrei antrax no fedex

e ganhei um tórax mais sexy

Globanalização orientação oriental

acidente ocidental

fundo monetário internacional nova ordem mundial

greve geral

desigual = desigual aldeia globaldeia global

(24)

Índio Galdino vestiram o índio

destruíram sua aldeia índio vestido

índio favelado ensinaram o índio comer de garfo e faca sentar a mesa

ensinaram português do Brasil índio da cidade

índio urbano

arrumaram trabalho na fábrica do branco

trataram o índio como negro e o negro como bicho

bicho do mato do mato queimado arrumaram um trampo na plantação de marijuana pro índio índio ilegal

aculturaram o índio o índio não é negro o índio não é branco o índio não é amarelo o índio não é índio espancaram o índio até o desmaio o índio numa cela escória da sociedade civilização selvagem queimaram o índio enterro humilde enterro cristão

“A Televisão Matou a Janela” Nelson Rodrigues Saio da janela e ligo a tevê

Novela rural Mudo de canal Comercial Mudo de canal Programa musical Mudo de canal Entrevista banal Mudo de canal

(25)

Infantil fecal Mudo de canal Mapa astral Mudo de canal Telejornal Mudo de canal Hino Nacional Mudo de canal Mundo animal

Desligo a tevê e volto à janela

Made in Paraguay charuto cubano

filosofia alemã cinema americano e a música brasileira Nobel sueco

chocolate suíço banho tcheco e a festa brasileira literatura irlandesa educação britânica tolerância holandesa e a natureza brasileira whisky escocês

tapete persa perfume francês e a seleção brasileira porcelana chinesa balé russo

tecnologia japonesa e a mulher brasileira

O Mendigo Bêbado Pombas, pulgas e folhas secas!

Cães, chuvas e moleques sapecas!

O mendigo era médico.

O bêbado, bem de vida.

O mendigo bêbado, que foi rico, não passa de uma ferida.

O mendigo tinha família.

O bêbado teve um lar.

O mendigo bêbado tem uma filha que está para se casar.

(26)

O mendigo não tem sol.

O bêbado está cercado.

O mendigo bêbado preso no anzol da sociedade do soldado.

Pombas, pulgas e folhas secas!

Cães, chuvas e moleques sapecas!

Nocaute em Saco de Pancada Leve é um soco / fora de foco

Nenhuma norma / fora de forma Longe daqui / fora de si

De papo pro ar / fora do lugar Roubando esmola

Fugindo à luta Não me amola Filho da fruta

Fodido da vida / beco sem saída De sangue quente a sangue-frio No meio do jogo / a prova de fogo Perdendo a fala / a prova de bala Guardando mágoa / a prova d'água Bagulho do bom / a prova de som Guia de cego

Chutando o balde Faltando fôlego Segundo round

Valendo a pena / sair de cena De sangue quente a sangue-frio Chuva de vaia / tiro que faia Direto de direita / tiro que deita Já pro chuveiro / tiro certeiro Passa amanhã / tiro na maçã Pedindo aplauso

Todo à vontade Contando causo Só na saudade

Macaco ou Adão / parece armação De sangue quente a sangue-frio Preso na rede / morra de sede Sem sobrenome / morra de fome Faltando à fé / morra em pé Dia de sorte / morra por esporte Caindo no R$

Correndo atrás Passando mal Descanse em paz

(27)

Fazendo figa / comendo formiga De sangue quente a sangue-frio.

O Pôr do Sol Nascente Num braço bem forte

uma âncora tatuada.

E no outro, um corte sob mulher pelada.

“Meu navio não navega (vaga-lume) num nevoeiro, cujo murmúrio do vento me chama de lixo indigente.

Eu sou um sujeito sujo, mas ainda sou gente.”

Mais de mês no mar limpando o convés.

Gaivotas d'além mar, a mais de mil pés.

“Mesmo na prancha (olhos vendados) eu não fujo.

Não posso esquecer de lembrar do assunto pendente.

Eu sou um sujeito sujo, mas ainda sou gente."

É um saco de batata por hora no porão.

Descascar não mata, mas haja colhão!

"Terra à vista (1ª viagem) é miragem de marujo.

No ar, no mar, na farda - tudo azul me deixa doente.

Eu sou um sujeito sujo, mas ainda sou gente."

Otários e Gatunos

A violência escala muros altos com cacos de vidro e arames farpados, invade o quintal,

pisa nas flores dos jardins,

engana os cães com carne envenenada, pula a janela,

revira os armários,

sobe as escadas e se for preciso...

O gato preto ronrona ao nosso lado na cama com unhas e olhos acesos

enquanto o sonho não se cansa...

Um bafo quente no cangote...

O galo cantou, é hora de acordar!

(28)

Pixote Canivete

ou caixote, pivete ou Pixote.

Fernando Ramos da Silva na pedra, finado ramo na selva de pedra!

A rua é o refúgio do barraco!

Foi encontrado dentro de um saco e maltratado em qualquer buraco.

Tinha o sonho de tocar cavaco, mas seu negócio era jogar taco.

Num dia de frio afanou um jaco e na favela é chamado de macaco.

Fuma um bagulho do balacobaco que torna o dia-a-dia menos opaco.

Pixote - essa é a lei do mais fraco e vai muito além do mais fraco!

A rua é o refúgio do barraco!

Essa é a lei do mais fraco, Pixote, e vai muito além do mais fraco : traga a graxa e o caixote,

mano sem money no pote não dá.

Nada não dá nada não dá não dá.

Não dá em nada.

A rua é o refúgio!

Da favela pra FEBEM

o que é que tem? (não sei se tem) se a periferia

é maioria!

O refúgio do barraco!

Laranja pé de chinelo só manja

do mercado paralelo.

A RU A RU A RU A RU A

(29)

Quem matou Pixote foi o Hector Babenco!

Quem matou Pixote foi a Marília Pêra!

Quem matou Pixote foi todo o elenco

da sociedade brasileira!

Mundo Cão beco sem saída

casa abandonada terreno baldio

depósitos de carros e corpos

Xeque-Mate O mundo é um tabuleiro

A vida é um jogo Em casa você é o Rei No trabalho Peão Na rua um Cavalo

Em casa para a mulher você é o Rei Ou um Cavalo

Para os filhos o Bispo Ou uma Torre

No trabalho para o patrão Peão

Para os subordinados você é o Rei Ou um Cavalo

Na rua é o Rei No trânsito Cavalo

Na multidão só mais um Peão Em si a Torre

Para seus familiares a Torre Às vezes é o Rei

Outras Peão Às vezes o Bispo Ou Cavalo

Para seus amigos a Torre Também é Rei

Às vezes Peão Outras o Bispo Ou Cavalo

Todo mundo quer comer a Rainha

(30)

A mulher pede o divórcio

Você é um Cavalo o Bispo a Torre Foi demitido

Você é o Bispo a Torre Vai parar no xadrez Você é a Torre

Você é ceifado pela Rainha Negra E substituído por novas peças Você é a Torre

No lar

Outro Rei outro Bispo outro Cavalo No serviço

Outro Rei outro Peão outro Cavalo Lá fora

Outro Peão outra Torre outro Cavalo Cavalo Cavalo Cavalo

Todas as peças se deslocam lentamente Mas sempre se encaixam perfeitamente

Um Sol Para Cada Montanha Eu não queria precisar

de moedas e medalhas.

Eu só queria precisar de uma vida sem migalhas.

Eu só queria precisar de uma vida

devida-

mente dividida

: uma árvore como casa (da madeira faz-se a brasa!), ossos como ferramentas, folhas e gravetos como teto,

couro de animais como vestimentas e um filho que me destinasse um neto.

Animal, mineral, vegetal nunca iam faltar.

Eu só queria um lugar!

Eu só queria precisar de mais nada.

Eu não queria precisar.

Eu só queria precisar...

Além do mundo, de uma sacada, além de tudo e mais nada.

Referências

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— Mas se você decidir que não quer mais ficar com ele, minha porta está aberta..

Suspiro uma, duas, centenas de vezes… Levo as mãos à cabeça…Bagunço cabelo,  escorre uma lágrima… arrumo o cabelo e o travesseiro leva um tapa.. Estalo os dedos  mordisco

8. Depois encha com água o caldeirão até cobrir a buchada, mas não exagere, coloque mais cheiro verde e colorau na água junto com mais um pouco de vinagre e sal a seu gosto,