Poemas
Apócrifos
Poesia é trabalho informal Uma válvula de escape
Uma tábua de salvação Um porto seguro
E eu acredito piamente E eu acredito cegamente E eu acredito até a loucura Que
A poesia é a infância da Humanidade
Como Escrever Versos Tempestade de neve
Tempestade de areia Tempestade interior Moinho
Moendo água Redemoinho Remoendo a alma Pingo de gelo Estalactite Estalagmite Dinamite
Cratera na gruta Chuva de diamantes
Predestinação Uma estrela que cai
É uma pena
Mais um poeta que sai De cena
Set de Filmagem 7 pragas do Egito 7 chagas de Cristo
7 cores do arco-íris 7 pecados capitais 7 maravilhas do mundo
7 anjos 7 demônios 7 trombetas 7 cabeças do dragão
vídeo k7 fita k7 desce o cacete
e tranca a 7 chaves a 7 palmos do chão
O Tempo e o Vento para uma cantora brasileira O vento veeem
O vento vaaai
O vento também pode sambar [3x]
Só pra mim sopra você [sopro do vento com a boca]
Se você vem Eu vou também Vamos de trem Uai
Tá tudo bem Tô tao tão zen Te amo amém Ai ai
O meu seu gen Vira neném Quando alguém Me sai
Eu sou de quem Sou de ninguém E o quê que tem Meu pai
Me leva além Quem vai aquém Só vou a cem Bye bye
Não Sou Apenas Uma Mulher Eu sou mulher Eu sou negra Eu sou pobre Eu sou nordestina Eu sou gordaraquíticalésbicasoropositiva
Eu sou América Eu sou Europa Eu sou África Eu sou Ásia Eu sou Oceania Eu sou Terra E estou aquém de todos os lugares
E não tenho lugar no Mundo
Eu sou mãefilhaavóirmãesposaamante Eu sou dona de casa
Eu sou branca negra mulata
Européiaaborígeneíndiaorientalasiáticaafricanaesquimólatina Eu sou velha sou jovem não sei ler e nem escrever
Eu não sei o que falar Nem pensar Eu não sei de nada e nem quero saber
Eu sou fruto do estupro Eu sou a maçã Eu sou o Mundo Eu sou um Universo
Eu sou puta Eu sou santa Eu sou escrava Eu gero uma ninhada
E vivo como bicho dentro de uma caixa fechada Eu não vivo Sobrevivo
Eu não estou só Eu sou só
Me dão passagem mas eu não tenho vez Eu não tenho voz Sou várias vozes embabeladas
Eu respiro transpiro inspiro e piro Pelo simples fato de silenciar
Eu grito gaguejo canto e assovio para pairar
Eu não existo
Eu insisto persisto e resisto
Porque cada passada traça o meu caminhar Eu não sou nada de nada
Sou poeira cósmica
Todas e nenhuma Tudo e ninguém
Eu sou católicaprotestantemuçulmanabudistaumbandistaagnósticaatéia Eu sou uma livre pensadora
E sou L I V R E Eu não sou deste mundo
Eu tenho fé no outro mundo E tendo fé no outro mundo
Eu renasço da rejeição à redenção
Eu sou delicada Eu sou forte Eu sou uma bênção Eu sou uma grande executiva de uma multinacional Eu sou doméstica Moradora de rua Viciada
Sou andrógina então porque trabalho Sou travesti Não tenho sexo
Eu sou a menor mulher do mundo e a menor mulher do mundo é a melhor [mulher do mundo E eu sou y eu sou i eu sou & eu soul
E somos muitas e somos
Muito e somos todas e somamos mais E antes de tudo e de mais nada
Somos Humanas
Hoje Eu Quero Encher a Cara Encher a sua cara de bolacha
Essa sua lua cheia nua e rosada Até a alta noite amanhecer Hoje eu quero encher a cara De chapadas
De picos montanhas Cascavéis e cascatas
Hoje eu quero encher a cara Da dor dessa delícia
Que se chama e tem a chama Da poesia
Essa alegria triste
Hoje eu quero encher a cara E dançar a dança da chuva Até dançar na chuva
E cantar desafinado e de improviso E sapatear sobre a sombra
Do meu cadáver sujo
Hoje eu quero encher a cara Mas vamos conversar direito Hoje eu tô com tudo
E não tô prosa
Hoje é um dia que é só meu
Mais que o do meu aniversário Que não mais comemoro há tempos Rock'n'roll o escambau
Hoje é um épico Hoje é Wagner
Hoje é o belo o sublime e o grotesco Tudo junto e menstruado
Deixa eu Deixa eu Eu tô legal
Você que tá bem louco
Puta que o pariu caralho vai se foder porra Hoje eu quero encher a cara
POEMAS DA GREVE GERAL AO DIA DO TRABALHADOR 1.
GREVE GERAL SALVE GERAL
Os incendiários é que movem o mundo pois incendeiam corações e mentes.
No Brasil profundo há uma luta diária
para a quebra das correntes.
À luz incendiária dos mais levados todos serão elevados.
Todos
sem exceção.
Os quadrados, certinhos, cheios de modos, ah, esses, não passarão.
2.
Black Bloc
Tropa de choque Frente popular
O grito que não quer calar Black bloc
Ou tropa de choque ? Black bloc
Ou tropa de choque ? Bater no povo
Ou na polícia ?
Bater no trabalhador ?
Policial também é trabalhador ? Polícia que espanca
Professor
Merece o quê, Banksy ? Uma flor ?
A polícia representa O Estado
O Estado
Nos representa ? Representantes Do Estado Matam menores E minorias
Vamos condecorá-los ? Quantas questões!
3.
O QUE É UMA PICHAÇÃO QUANDO O QUE SE QUER É DERRUBAR OS MUROS ? 4.
Picharam no muro na maior Fora Temer Volta Belchior Na moral demorou é de admirar Viver é melhor que sonhar Por isso vamos à luta Na batalha e na labuta Todo coração selvagem Age reage e pede passagem Não é alucinação não
É a poesia que emana da canção É a verdade de um poeta-mor O latino-americano Belchior 5.
Vâmo
Vem com a gente Vâmo lá
Quebra as correntes Quebra quebra Quebra os bancos Vâmo lá gente
Depois chama o marceneiro Vâmo
Vem com a gente Vâmo lá
Um mar de marceneiros Mar de marceneiros Marceneiros
Vâmo lá gente
Tragam madeira pau e todos Todos seremos compensados
6.
Maquiavel Maquiavélico
Sade Sádico
Masoch Masoquista
Kafka Kafkiano
Temer Todas as anteriores 7.
Marx está coberto de razão:
na Luta de Classes
ou você está com o trabalhador ou está com o patrão.
Sinto! É assim sim! Sumemo!
Não existe meio-termo.
E HOJE É O DIA DO TRABALHADOR ! NÃO É O DIA DO EMPRESÁRIO
OU DO LATIFUNDIÁRIO, SEU DOUTOR.
8.
NEM GREGOS NEM TROIANOS.
NEM MARVEL NEM DC.
BLACK BLOCS! BLACK BLOCS! BLACK BLOCS!
POWER TO THE PEOPLE RIGHT ON!
FIGHT!
VIOLENTO E MASCARADO É ESSE DESGOVERNO!
9.
ESPÍRITO VOLUNTÁRIO CORAÇÃO
REVOLUCIONÁRIO O QUE MOVE ME COMOVE A POESIA ME DIZIA PARE FUJA JÁ HOJE ELA URRA CORRA INSURJA B U R N I N G A A A A A A A H H H H H H
! ! ! ! ! ! ! !
10.
Sinal vermelho Vermelho sangue Sangue quente Fervendo de fogo Sinal amarelo Amarelo de medo De temer
Amarelo na mão Amarelão
Quando o sinal estiver verde Vai ficar tudo azul
Por enquanto o sinal está fechado A coisa tá preta
Buraco negro Mas eu luto De luto
Silêncio Música Ruído Poluição Sonora Eu quero é
+ Cresça E apareça D e s o b e d e ç a
Dúvida Metade de tudo que existe
é falso
e a outra parte, são meias verdades.
A única verdade absoluta é a Dúvida.
Esfinge A máscara
não mostra nenhum monstro.
A múmia é o enigma da pirâmide.
A novidade
não é o desconhecido : é a descoberta.
Eu Por Mim Eu não combino comigo
Eu não pertenço a mim Eu não vejo nada em mim Eu sou o meu maior inimigo Eu não caso comigo
Eu não preciso de mim Eu não caibo mais em mim Eu sou o meu próprio castigo Eu não colaboro comigo Eu não choro por mim Eu não sou páreo para mim Eu sou um modernista antigo Eu não pareço comigo
Eu não me esqueço de mim Eu não transito em mim
Eu sou do tamanho do meu umbigo Eu não sonho comigo
Eu não me escondo de mim Eu não vivo sem mim
Eu sou um fantasma com vitiligo Eu não durmo comigo
Eu não estou preso a mim Eu não separo meu eu de mim Eu sou o medo e o perigo Eu não encaixo comigo Eu não sou tarado por mim Eu não piso em mim
Eu sou a sombra que sigo Eu não misturo comigo Eu não fujo de mim
Eu não me espelho em mim Eu sou o que sou e nem ligo Eu não convivo comigo Eu não me sustento em mim Eu não me perco de mim Eu sou tudo o que eu digo Eu não aprendo comigo Eu não sou o oposto de mim Eu não estou acima de mim Eu sou o joio e o trigo
Geração Espontânea Provo
o novo ovo do povo Reprovo o novo ovo do povo Provo e reprovo o ovo
E desaprovo o ovo
de novo
Lavando a Alma Cheiro de terra.
Cheiro de chuva.
Cheiro de terra batida de chuva.
Terra vermelha.
Chuva assentando poeira.
Narciso O outro
é o espelho de mim mesmo.
O outro me espelha.
O outro sou eu.
O outro é o eu duplicado.
O outro é o meu
próprio reflexo.
O outro eu sou.
O outro se repete em mim.
O outro é o reflexo de mim mesmo.
Eu sou o outro.
O Duplo as sombras das nuvens nas montanhas o reflexo das árvores no riacho
o homem sem reflexo no espelho o primata sem sombra no chão puro espírito a beleza é terrível
Goteira Gota a gota pinga
água no banheiro.
Gota a gota pinga água do chuveiro.
Gota a gota pinga e cai no bueiro.
Pinga gota a gota pinga
água da torneira.
Pinga gota a gota pinga
e cai na banheira.
Gota a gota pinga água vaza do vaso.
Gota a gota pinga água alaga o raso.
Gota a gota pinga e cai por acaso.
Pinga gota a gota pinga
água mal-cheirosa.
Pinga gota a gota pinga
e cai prazerosa.
Só na Multidão Somos muitos e sós
- sós e mal acompanhados.
Ovelhas desgarradas formam rebanhos de ovelhas desgarradas.
Entrega De peito aberto
a plenos pulmões De ponta cabeça a teus pés
De mãos dadas ao deus-dará De vento em popa ao léu
Essa chuva caiu do céu
Réquiem Quando eu morrer
quero que queimem todos os meus escritos em praça pública, caso eu for mais um.
Morto não sente mais dores.
Quando eu morrer
não quero flores e nem quero velas,
não em minhas roupas ou no meu caminho.
Morto não enxerga cores.
Quando eu morrer
quero que queimem todos os manuscritos em casa mesmo, caso me torne imortal.
Morto não derrama lágrimas.
Quando eu morrer
não quero caixão e nem ser sepultado:
quero apenas o meu corpo atirado ao mar.
Morto não respira mais.
Quando eu morrer
não quero que paguem as minhas contas, pois quem paga deve ser sempre o devedor.
Morto não deve um tostão.
Quando eu morrer
não quero que chorem no meu velório, pois só se chora por dor ou por culpa.
Morto não pede perdão.
Sal na Lesma A lesma passeia
construindo sua estrada de diamantes,
enquanto o encanto inicial se esvai
no ralo sujo da memória.
Silêncio Primal palavra chave
é palavra mágica palavra de escoteiro é palavra de honra palavra branca é palavra de paz palavra negra é palavra final palavra ao vento eco
palavrão é palavreado palavrório minha lavra
na palavra silêncio o verso é o verbo
SOS Eu estou sem eira na beira de um rio que corre, enquanto você me socorre
na outra margem.
Eu estou
sem eira na beira de um rio que passa, enquanto você me ultrapassa
agora.
Nem sempre a ocasião propícia vem na hora certa.
Nem sempre navios chegam à outra margem.
O mundo gira
e você prende a respiração.
Um dia o mundo pára e você perde a respiração.
Todas as Cores amarelo com vermelho
uma fruta
vermelho com azul uma flor
azul com amarelo uma folha
a pomba na teoria o luto na prática
vermelho com preto a terra
vermelho com branco outra flor
preto no branco restos mortais
ALERTA VERMELHO A L E R T A V E R M E L H O
evacuar área
BUZINAS E APITOS / ASSOVIOS E GRITOS ALERTA V E R M E L H O
ALERTA VERMELHO
alarme falso DESARME / O ALARME CRÍTICA
CRI CRI CRÍTICA TI
TICA CRÍTICA CRI A
CRÍTICA CRI CA CRÍTICA c r i t i c a
Uma estrela de cinco dentes
c a
i doente no vale verde
e cava
sua cova )dentro(
do mar NEGRO
e crava suas presas
numa estrela vermelha a
idade revida à brevidade da vida vira e volta volta e vira revolta vira e volta volta e vira reviravolta CADA DEDO QUAS ECOL ADOD OLAD ODOO UTRO
A lágrima que desce com o olho O olho que desce com a lágrima que desce com o olho que desce com a lágrima
que desce que desce
E que cai a cara e come o corpo E que vai a cara e move o corpo E que sai a cara e some o
E que a sede que ainda insiste E que a fome que nunca desiste que acabe
que cesse
sem porém porém sem a pedra e o podre
E que a sede
e que a fome Rachesequerachesequeracheseque
o verme vê o ve lho e o ve lho vê o vermelho
A FLOR O BAILE DA FLOR O VENTO BALANÇA A FLOR O MIOLO AMARELO É O OLHO DA FLOR A ABELHA ABELHUDA ZUNE SOBRE A FLOR O OLHO QUE EXALA O OLOR DA FLOR O TEMPO QUE ACABA COM A FLOR O BALÉ DA FLOR A FLOR A ABELHA
A ABELHA É A FERA
A ABELHA FERE QUEM FOR
A ABELHA FICA BRAVA E DÁ FERROADA A ABELHA ROUBA DA FLOR QUE DÁ ADEUS A ABELHA COM FERRÃO PICA SEM PECAR A ABELHA GUARDA A FLOR
A ABELHA QUER CERA A ABELHA
A FLOR BAILA E A ABELHA FERE
l
lu AR lug
duas só o sol luas
a m anhã monta n a montanha
dois bois ri o rio Manifesto O modelo é Brecht
Argamassa Odebrecht O modelo é Maiakovski E do dog do quiosque Poesia verborrágica Periférica
Filosofia de banheiro Placa de caminhoneiro Poesia panfletária Proletária
Poesia cartaz Em guerra pela paz O chiste e o palavrão Ou sim ou não
Aqui o teu talvez Não tem mais vez Canto gutural Grito primal Poesia no cone Feito megafone Poesia do povo Na boca do povo E de novo
De volta pro ovo Página em branco Aviãozinho no tranco Poesia é risco
É pixo e rabisco O silêncio é covarde Pois agora é tarde Temos muita saudade Da liberdade
Poesia da luta
Da batalha e da labuta Poesia de luto
Por isso eu luto
Poesia que diz o que quer Dizer
Frase de efeito
Verso perfeito Defeito desfeito Cantada de feira Dando bandeira Pois é poesia Desatada sangria Poema problema Fora do esquema Poema problema Contra o sistema Poesia punk De baile funk Ocupando a rua Poética crua E cruel
Fora do papel
Canibais Almoço com o cão
faminto a meus pés.
Almoço com crianças e mendigos dormindo nos bancos duros da vida roubada.
Almoço com o gato sem botas com as patinhas sangrando sobre o muro de vidro intencionado aos ladrões.
Almoço com a mulher de vida fácil? vida difícil!
comer o pão que o país amassou!
Almoço e não penso
que o fio condutor das guerras
só congestiona meu pequeno mundo já pardo, cinza, sujo, podre, triste, submundo da fumaça e do entulho, repleto de ratos, insetos,
vermes e humanóides em geral.
Almoço com a secretária sendo estuprada pelo patrão em seu escritório, cheirando a chantagem e perfume barato.
- Beijos e lágrimas!
Almoço com as centenas
de novas doenças dos cientistas.
Almoço com tudo, tudo lá fora, tudo do lado de lá
das portas particulares.
Almoço com o pálido silêncio.
Almoço com o espião na janela.
Almoço com um espinho de peixe
entalado na minha garganta - meu único pequeno caos.
Almoço e não lembro.
Almoço tranqüilo e adormeço macio quando o sono vem.
E sonho gostoso...
Almoço cego com os canibais!
Em Memória de Yorick O palhaço do palácio tem que
fazer o Rei rir! chorar de rir!
mijar de rir! morrer de rir!
cair de rir! rir até cair!
O palhaço do palácio tem que fazê-lo, pois, caso não o fizer...
“Deixe-o comer o quanto quiser!
Deixe-o comer até estourar!
Quero vê-lo bem gordo e forte!
Quero aplaudi-lo ao se juntar aos leões na arena para lutar, lutar e lutar até a morte!...”
O palhaço do palácio tem que levantar a peteca do Rei, pois, para Ele, rir ali é lei!
O palhaço do palácio tem que ser um péssimo malabarista;
ser cauteloso, mas sarrista;
tomar cuidado com a piada...
- Não pode dar mancada.
O palhaço do palácio tem que tocar banjo e inventar versos dos mais hilariantes e perversos.
Mas sem ofender a algum ente querido de Sua Majestade. Creio que o centurião o partirá ao meio caso o Rei fique descontente.
O palhaço do palácio tem que ter, na escolha, o direito,
mesmo que seja muito estreito.
“Mas o quê foi que eu fiz?”
E só então o centurião diz
: "Prefere no calabouço, calado?
Prefere na guilhotina, degolado?
Prefere a forca, após a farinha?
Ou jantar com os leões à tardinha?
- Vamos! responda covarde!
Sua hora chegará às 5 da tarde!”
O palhaço do palácio tem que se sentir culpado por ter deixado o reinado do Rei, arruinado!
O palhaço do palácio tem que respeitar o centurião carrancudo : a farda, a lança, as ordens, tudo!
E agüentar toda a humilhação por um punhado de moedas e pão.
O palhaço do palácio só almeja
que seja
o palácio do palhaço.
Espírito Periférico Vende-se aluga-se troca-se
vende-se à vista vende-se a prazo a perder de vista ou a longo prazo a alma por uma pataca
aluga-se um cômodo tão incômodo
quanto um parto aluga-se um quarto da alma
porque a carne é fraca
troca-se troca-troca troca-se
a alma por uma maca compre grátis
e preste atenção na prestação
aceita ticket tique nervoso aceita cheque xeque-mate aceita vale vale encantado aceita cartão
cartão descrédito aceita passe passe bem
vende-se aluga-se troca-se a alma não vale nhaca.
Favela S.A.
naquela vila naquela viela no fim da fila lá na favela nos becos botecos
nas quebradas bocadas
aos trancos e barrancos barracos nos buracos das enxurradas das enchentes cheias de gentes soterradas
é a vida
fecharam a entrada da boca de fumo do beco sem saída não moro
no morro me escondo
onde Judas perdeu as botas no raio que o parta
na ponte que partiu na casa do baralho na casa do chapéu no fim do túnel no fim do mundo no (*) do mundo no fundo no fundo
logo ali ao lado lá longe
do outro lado de lá nos cus de Judas
mundo perdido tudo fodido na fossa no fosso na poça no poço
no fundo do poço
beltranos sicranos caetanos fulanos de tais
entre coliformes fetais dejetos humanos e restos mortais sem destino na multidão sem sentido na solidão em meio ao devaneio mera
quimera doce ilusão sem rumo me arrumo penico no pires
no ponto final do arco-íris sem pote de ouro nem anão pra lá de Bagdá
pra lá de Bangladesh pra lá de Shangrilá pra lá de Marrakesh última partida
ai de mim fim da linha dor sem fim
Foda-se!
Muitos têm pouco e poucos têm muito.
Eu não estou aqui por brincadeira.
Eu não estou brincando.
Eu não estou não.
Eu não estou.
Eu não estou aqui.
Foda-se que se foda o mundo!
Eu não tenho chance, meu grito não tem alcance.
Foda-se que se foda tudo!
Eu não tenho chance, meu grito não tem alcance.
Foda-se que se foda!
Muitos têm pouco e poucos têm muito.
E eu não estou aqui por brincadeira.
Geração X guardei o rolex
no marmitex passei lubrax no jontex enfiei tampax no rex
cheguei ao clímax no box
passei um fax depois ajax achei o max o denorex colei durepox no duralex passei durex no sax tirei xerox do tex jantei inox com pirex passei látex no gálax espirrei antrax no fedex
e ganhei um tórax mais sexy
Globanalização orientação oriental
acidente ocidental
fundo monetário internacional nova ordem mundial
greve geral
desigual = desigual aldeia globaldeia global
Índio Galdino vestiram o índio
destruíram sua aldeia índio vestido
índio favelado ensinaram o índio comer de garfo e faca sentar a mesa
ensinaram português do Brasil índio da cidade
índio urbano
arrumaram trabalho na fábrica do branco
trataram o índio como negro e o negro como bicho
bicho do mato do mato queimado arrumaram um trampo na plantação de marijuana pro índio índio ilegal
aculturaram o índio o índio não é negro o índio não é branco o índio não é amarelo o índio não é índio espancaram o índio até o desmaio o índio numa cela escória da sociedade civilização selvagem queimaram o índio enterro humilde enterro cristão
“A Televisão Matou a Janela” Nelson Rodrigues Saio da janela e ligo a tevê
Novela rural Mudo de canal Comercial Mudo de canal Programa musical Mudo de canal Entrevista banal Mudo de canal
Infantil fecal Mudo de canal Mapa astral Mudo de canal Telejornal Mudo de canal Hino Nacional Mudo de canal Mundo animal
Desligo a tevê e volto à janela
Made in Paraguay charuto cubano
filosofia alemã cinema americano e a música brasileira Nobel sueco
chocolate suíço banho tcheco e a festa brasileira literatura irlandesa educação britânica tolerância holandesa e a natureza brasileira whisky escocês
tapete persa perfume francês e a seleção brasileira porcelana chinesa balé russo
tecnologia japonesa e a mulher brasileira
O Mendigo Bêbado Pombas, pulgas e folhas secas!
Cães, chuvas e moleques sapecas!
O mendigo era médico.
O bêbado, bem de vida.
O mendigo bêbado, que foi rico, não passa de uma ferida.
O mendigo tinha família.
O bêbado teve um lar.
O mendigo bêbado tem uma filha que está para se casar.
O mendigo não tem sol.
O bêbado está cercado.
O mendigo bêbado preso no anzol da sociedade do soldado.
Pombas, pulgas e folhas secas!
Cães, chuvas e moleques sapecas!
Nocaute em Saco de Pancada Leve é um soco / fora de foco
Nenhuma norma / fora de forma Longe daqui / fora de si
De papo pro ar / fora do lugar Roubando esmola
Fugindo à luta Não me amola Filho da fruta
Fodido da vida / beco sem saída De sangue quente a sangue-frio No meio do jogo / a prova de fogo Perdendo a fala / a prova de bala Guardando mágoa / a prova d'água Bagulho do bom / a prova de som Guia de cego
Chutando o balde Faltando fôlego Segundo round
Valendo a pena / sair de cena De sangue quente a sangue-frio Chuva de vaia / tiro que faia Direto de direita / tiro que deita Já pro chuveiro / tiro certeiro Passa amanhã / tiro na maçã Pedindo aplauso
Todo à vontade Contando causo Só na saudade
Macaco ou Adão / parece armação De sangue quente a sangue-frio Preso na rede / morra de sede Sem sobrenome / morra de fome Faltando à fé / morra em pé Dia de sorte / morra por esporte Caindo no R$
Correndo atrás Passando mal Descanse em paz
Fazendo figa / comendo formiga De sangue quente a sangue-frio.
O Pôr do Sol Nascente Num braço bem forte
uma âncora tatuada.
E no outro, um corte sob mulher pelada.
“Meu navio não navega (vaga-lume) num nevoeiro, cujo murmúrio do vento me chama de lixo indigente.
Eu sou um sujeito sujo, mas ainda sou gente.”
Mais de mês no mar limpando o convés.
Gaivotas d'além mar, a mais de mil pés.
“Mesmo na prancha (olhos vendados) eu não fujo.
Não posso esquecer de lembrar do assunto pendente.
Eu sou um sujeito sujo, mas ainda sou gente."
É um saco de batata por hora no porão.
Descascar não mata, mas haja colhão!
"Terra à vista (1ª viagem) é miragem de marujo.
No ar, no mar, na farda - tudo azul me deixa doente.
Eu sou um sujeito sujo, mas ainda sou gente."
Otários e Gatunos
A violência escala muros altos com cacos de vidro e arames farpados, invade o quintal,
pisa nas flores dos jardins,
engana os cães com carne envenenada, pula a janela,
revira os armários,
sobe as escadas e se for preciso...
O gato preto ronrona ao nosso lado na cama com unhas e olhos acesos
enquanto o sonho não se cansa...
Um bafo quente no cangote...
O galo cantou, é hora de acordar!
Pixote Canivete
ou caixote, pivete ou Pixote.
Fernando Ramos da Silva na pedra, finado ramo na selva de pedra!
A rua é o refúgio do barraco!
Foi encontrado dentro de um saco e maltratado em qualquer buraco.
Tinha o sonho de tocar cavaco, mas seu negócio era jogar taco.
Num dia de frio afanou um jaco e na favela é chamado de macaco.
Fuma um bagulho do balacobaco que torna o dia-a-dia menos opaco.
Pixote - essa é a lei do mais fraco e vai muito além do mais fraco!
A rua é o refúgio do barraco!
Essa é a lei do mais fraco, Pixote, e vai muito além do mais fraco : traga a graxa e o caixote,
mano sem money no pote não dá.
Nada não dá nada não dá não dá.
Não dá em nada.
A rua é o refúgio!
Da favela pra FEBEM
o que é que tem? (não sei se tem) se a periferia
é maioria!
O refúgio do barraco!
Laranja pé de chinelo só manja
do mercado paralelo.
A RU A RU A RU A RU A
Quem matou Pixote foi o Hector Babenco!
Quem matou Pixote foi a Marília Pêra!
Quem matou Pixote foi todo o elenco
da sociedade brasileira!
Mundo Cão beco sem saída
casa abandonada terreno baldio
depósitos de carros e corpos
Xeque-Mate O mundo é um tabuleiro
A vida é um jogo Em casa você é o Rei No trabalho Peão Na rua um Cavalo
Em casa para a mulher você é o Rei Ou um Cavalo
Para os filhos o Bispo Ou uma Torre
No trabalho para o patrão Peão
Para os subordinados você é o Rei Ou um Cavalo
Na rua é o Rei No trânsito Cavalo
Na multidão só mais um Peão Em si a Torre
Para seus familiares a Torre Às vezes é o Rei
Outras Peão Às vezes o Bispo Ou Cavalo
Para seus amigos a Torre Também é Rei
Às vezes Peão Outras o Bispo Ou Cavalo
Todo mundo quer comer a Rainha
A mulher pede o divórcio
Você é um Cavalo o Bispo a Torre Foi demitido
Você é o Bispo a Torre Vai parar no xadrez Você é a Torre
Você é ceifado pela Rainha Negra E substituído por novas peças Você é a Torre
No lar
Outro Rei outro Bispo outro Cavalo No serviço
Outro Rei outro Peão outro Cavalo Lá fora
Outro Peão outra Torre outro Cavalo Cavalo Cavalo Cavalo
Todas as peças se deslocam lentamente Mas sempre se encaixam perfeitamente
Um Sol Para Cada Montanha Eu não queria precisar
de moedas e medalhas.
Eu só queria precisar de uma vida sem migalhas.
Eu só queria precisar de uma vida
devida-
mente dividida
: uma árvore como casa (da madeira faz-se a brasa!), ossos como ferramentas, folhas e gravetos como teto,
couro de animais como vestimentas e um filho que me destinasse um neto.
Animal, mineral, vegetal nunca iam faltar.
Eu só queria um lugar!
Eu só queria precisar de mais nada.
Eu não queria precisar.
Eu só queria precisar...
Além do mundo, de uma sacada, além de tudo e mais nada.