Relatório Final
do Estágio
Profissionalizante
Ricardo Pinheiro
Turma 3
a2013390
Mestrado Integrado em
Medicina
2018/2019
Nova Medical School:
Índice
1. Introdução e Objectivos
2. Síntese das Actividades Desenvolvidas 2.1 Estágio Profissionalizante (EP)
2.1.1 Cirurgia 2.1.2 Medicina 2.1.3 Saúde Mental
2.1.4 Medicina Geral e Familiar 2.1.5 Pediatria
2.1.6 Ginecologia e Obstetrícia 2.2 Estágio Clínico Opcional: Psiquiatria 3. Elementos Valorativos
4. Reflexão crítica 5. Bibliografia 6. Anexos
Este relatório encontra-se escrito de acordo com as normas do antigo Acordo Ortográfico (1990).
“Quando entrardes de noite num hospital e ouvirdes algum doente gemer, aproximai-vos do seu leito, vede o que precisa o pobre enfermo e, se não tiverdes mais nada para lhe dar, dai-lhe um sorriso” – José Tomás de Sousa Martins (1843-1897)
1. Introdução e Objectivos
O Mestrado Integrado em Medicina (MIM) da Nova Medical School/ Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa divide-se em dois ciclos de estudo, sendo constituído por 35 unidades curriculares até ao 5º ano, além de oferecer a escolha de uma opcional anualmente. O último ano do MIM oferece o Estágio Profissionalizante (EP) dividido nas áreas de Cirurgia, Medicina, Saúde Mental, Medicina Geral e Familiar, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia, bem como a Unidade Curricular Integradora de Preparação para a Prática Clínica e uma opcional, no meu caso, desenvolvida no âmbito de um estágio clínico.
O nascimento da Medicina remonta quiçá ao momento da origem do ser humano! No entanto, tal como na óptica de Lewis Thomas, proeminente médico norte-americano do século XX, a Medicina moderna, aquela que é ensinada e praticada nos hospitais contemporâneos, é porventura a ciência mais jovem de todas, tendo sofrido tantas metamorfoses, avanços e retrocessos desde a sua génese. Caminha consubstanciada à história geral e de outras ciências e disciplinas, influenciando-as e sendo por si influenciada. Diria que a Medicina do século XXI dedica-se à percepção da globalidade do ser humano doente, mas também do ser humano em estado pré-mórbido, na sua dimensão pessoal, física, psíquica, social e familiar.
Deste modo, a complexidade da Medicina tem vindo a aumentar, abrangendo um cada vez mais vasto espectro de contextos e realidades, o que a torna mais exigente, mas também mais desafiante. Longe estão as visões mais redutoras onde a aprendizagem se cingia a uma repetição mecânica de gestos e atitudes profissionais. Tal como nos relembra Daniel Serrão (1928-2017), “os profissionais de saúde que, durante séculos e na boa tradição hipocrática, foram vistos como cientistas e tecnicistas já não são um instrumento do processo terapêutico mas antes um intermediário entre a ciência e a intervenção médica sobre cada pessoa em particular”, na tão prolífera época da medicina baseada na evidência, por um lado, e na medicina centrada na pessoa, por outro. Atente-se ainda ao advento das medicinas alternativas, ao recurso omnipresente às tecnologias e à informação de que os doentes dispõem. Por outro lado, num momento em que as ciências puras e duras como a química, a física, a matemática ou as engenharias irrompem no campo das competências médicas, impondo as suas regras de rigor e de exigência de qualidade, e o domínio da ética e do direito em Saúde é cada vez mais substancial e impressivo, reflictamos sobre esta realidade: “Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se invente cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão” - João Lobo Antunes (1944-2016).
Por todas as razões supracitadas, entre tantas outras, assistiu-se a uma reformulação do método de ensino e foi assumido um carácter mais prático, interactivo e integrativo do curso de Medicina, sendo
actualmente regulado pela União Europeia (Council Vocational Directives from the European Union), na sequência da Declaração de Bolonha e do Tuning Project.
Atendendo a toda esta parafernália de contingências, no início do 6º e último ano de Medicina propus-me a cumprir uma série de objectivos gerais:
Conduzir com segurança e eficiência uma consulta médica, respeitando os seus 7 passos;
Conhecer os diagnósticos e semiologias compatíveis mais comuns na população portuguesa;
Eleger criteriosamente meios complementares de diagnóstico e terapêutica;
Prescrever fármacos e medidas não farmacológicas de modo racional e personalizado;
Estipular e apresentar um plano terapêutico, discutindo-o com o doente;
Dominar a comunicação médica e não-médica, garantindo empatia e efectividade;
Reconhecer e aplicar princípios médicos e legais no quotidiano hospitalar;
Encarar o doente e a doença de modo holístico, estando ciente do modelo biopsicossocial;
Apostar na prevenção e na promoção da saúde pública e do indivíduo;
Moldar os atributos, carácter e competências profissionais. E outros pessoais, mais específicos:
Aprender a gerir o tempo de consulta, respeitando os tempos de escuta activa, bem como os momentos ideais para intervir e direccionar a mesma, numa tentativa difícil mas necessária de respeitar os tempos de espera e os tempos de consulta;
Saber reconhecer os meus limites e as minhas lacunas tendo a capacidade de saber pedir ajuda sempre que necessário e aceitar a crítica de modo construtivo, respeitando todas as opiniões e conseguindo lidar com as personalidades mais complicadas quer de colegas, quer de doentes, relembrando que todos trabalhamos para um objectivo comum;
Ganhar traquejo e experiência no uso de software e recursos informáticos de cada estabelecimento de prestação de cuidados de saúde, conseguindo conciliar o seu uso com o contacto com o doente, tirando o melhor proveito dos mesmos e minimizando as potenciais consequências negativas;
Aumentar o meu conhecimento na área da Saúde Mental, por ser uma área que me é especialmente querida e pela prevalência de doença mental existente em Portugal e no Mundo e pela extrema estigmatização que continua a existir e deve ser travada por qualquer profissional de saúde.
No contexto do final de curso é elaborado então este relatório que pretende expor o que de mais relevante sucedeu este ano, dividindo-se na introdução aqui exposta e definição dos principais objectivos; uma síntese das actividades desenvolvidas, percorrendo os aspectos mais importantes e dignos de registo dos diferentes estágios parcelares, demonstração de elementos valorativos, seguindo-se uma reflexão
crítica onde se faz o ponto da situação, se disserta sobre os aspectos positivos e negativos do EP, terminando
2. Síntese das Actividades Desenvolvidas
2.1 Estágio Profissionalizante (EP)
O EP do 6º ano do MIM integra um conjunto de 6 estágios parcelares. Apresento aqui uma síntese das actividades desenvolvidas em cada um desses estágios por ordem temporal (cronograma: vide anexos).
2.1.1 Cirurgia
O estágio parcelar de Cirurgia decorreu no Hospital Beatriz Ângelo sob a tutela do Dr. Pedro Amado, durante um período de 8 semanas, visando a aplicação prática de conhecimentos teóricos adquiridos ao longo do curso, com especial enfoque nos conceitos adquiridos em Cirurgia Geral (3º ano) e Especialidades Médico-Cirúrgicas I, II e III (4º e 5ºanos). Ao longo do estágio tive oportunidade de percorrer várias vertentes da Cirurgia Geral: Consultas, Enfermaria, Bloco Operatório, Serviço de Urgência, bem como a área opcional de Anestesiologia. Deste modo, aprofundei conhecimento sobre as principais síndromes cirúrgicas e a fundamental distinção entre situações clínicas com indicação cirúrgica electiva ou urgente. Tive oportunidade de assistir a uma panóplia de sessões teóricas e teórico-práticas da área cirúrgica, mas também de áreas não classicamente médicas, como Gestão, Psicologia e Comunicação, que considero bastante enriquecedoras do currículo. Assisti e participei também em várias cirurgias como segundo ajudante, por via laparoscópica e aberta, nomeadamente colecistectomias, hemicolectomias, laparotomia exploradora, hepatectomia, lobectomia hepática, apendicectomia e hernioplastias inguinal, incisional e umbilical. No decorrer do estágio realizou-se ainda o curso TEAM (Trauma Evaluation and Management), organizado pela ATLS (Advanced Trauma Life Support) Portugal e pela Sociedade Portuguesa de Cirurgia. No final apresentei ainda, no mini-congresso, um caso clínico raríssimo de um doente do sexo masculino de 24 anos com adenomas hepáticos múltiplos, intitulado de “Um incidentaloma raro potencialmente maligno” (vide anexos).
Como aspectos contributivos para a relevância deste estágio clínico destaco toda a dinâmica inovadora do Hospital Beatriz Ângelo, a estruturação atípica dos serviços, a aplicação pioneira do programa ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) e a experiência dos cirurgiões na abordagem laparoscópica.
2.1.2 Medicina
O estágio parcelar de Medicina decorreu no Hospital de São José, sob a tutela do Dr. António Godinho, durante um período de 8 semanas, tendo contemplado uma miríade de actividades clínicas e não clínicas, nomeadamente, na unidade de Internamento, nas Consultas Externas, no Serviço de Urgência, em sessões formativas, reuniões de serviço e seminários. A Medicina Interna é indubitavelmente uma especialidade basilar no escopo dos cuidados de saúde, representando um elenco muito alargado de patologias, diagnósticos e abordagens terapêuticas. Nesta especialidade, todo o raciocínio é multissistémico, devendo ter em mente uma visão holística e verdadeiramente global e integradora do doente.
A relação com o doente foi sempre valorizada e, de certo modo, aprofundada, uma vez que ficava encarregue do mesmo doente várias vezes, o que considero um aspecto positivo, podendo acompanhar o seu progresso. A revisão da anamnese, consulta e requisição de métodos complementares de diagnóstico foi outro aspecto que desenvolvi. A destacar ainda, a possibilidade de ter observado e/ou cooperado em alguns procedimentos médicos como paracentese, punções lombares, zaragatoas da gripe, colheita de sangue venoso da veia femoral, entre outros. Assisti também presencialmente a três óbitos, bem como à elaboração da nota de óbito. A participação nas consultas de Medicina/I, dedicadas a doentes com HIV+/SIDA, foi também um dos pontos altos, tendo desmistificado a ideia do doente-tipo que tinha anteriormente.
Para além de ter apresentado quatro seminários ao longo do estágio (vide anexos), ainda fiz uma comunicação oral subordinada ao tema: “O doente difícil”, descrevendo algumas tipologias, formas de lidar com os mesmos e técnicas de descalonamento em situações críticas.
2.1.3 Saúde Mental
O estágio parcelar de Saúde Mental decorreu no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, sob a tutela do Dr. Pedro Rodrigues, durante um período de 4 semanas, onde estive maioritariamente no Serviço de Internamento, mas também nas Consultas Externas, Serviço de Urgência, Visitas Domiciliárias e Reuniões de Serviço. Tive a oportunidade de lidar com as patologias psiquiátricas mais frequentes (episódios depressivos, perturbações bipolar, esquizoafectiva, de ansiedade ou de abuso de substâncias, esquizofrenia e demência) e familiarizar-me com os principais psicofármacos e instrumentos psicométricos. Algumas das capacidades aprofundadas foram também a identificação de sintomas cardinais de perturbação psiquiátrica; diferenciação do funcionamento psicológico normal do patológico; rastreio de traços de personalidade, comportamentos e padrões de relacionamento interpessoal mais desadaptativos; e estudo de contextos sociais, laborais e familiares. No internamento tive a oportunidade de observar e intervir na realização de entrevistas clinicas aos doentes, discutindo o exame do estado mental, hipóteses diagnósticas e ajustes terapêuticos. Paulatinamente fui ganhando mais autonomia, podendo abordar os doentes de modo mais autónomo e convicto. Assisti também a entrevistas com familiares, fundamentais para perceber o estado basal do doente, a relação entre os familiares e avaliar a existência de emoção expressa. Foi também no internamento que realizei a colheita de uma história clínica, o que me chamou a atenção para o facto de que na maioria das vezes os diagnósticos em psiquiatria serem longitudinais. De referir ainda que os seminários iniciais foram um excelente ponto de partida, constituindo uma importante revisão e consolidação de conhecimentos tanto para o estágio em si, como para a prática clínica futura.
2.1.4 Medicina Geral e Familiar
O estágio parcelar de Medicina Geral e Familiar (MGF) decorreu na USF Cova da Piedade, sob a tutela da Dra. Luísa Rocha, durante um período de 4 semanas, onde assisti e participei em 5 diferentes tipos de
A Consulta de Saúde de Adultos ocupou grande parte do tempo e requeria uma dinâmica muito própria, sendo maioritariamente para seguimento de patologias crónicas e muito prevalentes na nossa sociedade, nomeadamente hipertensão arterial, diabetes tipo II, patologia osteoarticular, excesso de peso, perturbações depressivas ou de ansiedade, entre tantas outras. No âmbito destas consultas, pude ainda observar e participar na implementação de rastreios oncológicos, emissão e prorrogação de certificados de incapacidade temporária para o trabalho, referenciação para consultas de especialidade e renovação de receituário.
Sendo a MGF uma área tão vasta, tão transversal a todas as especialidades e que acompanha o paciente ao longo da sua vida, a sua acção acaba por ser tão ampla quanto as particularidades do ser humano, em cada momento da sua vida, fornecendo a oportunidade única de ver a evolução dos doentes e das suas famílias, encarando-os como seres unos, em todas as suas dimensões e contextos. Deste modo, este estágio constituiu uma excelente oportunidade de contacto com o dia-a-dia da MGF, tal como com as patologias mais frequentes agudas e crónicas que mais afectam a população portuguesa. Por fim, realizei ainda uma comunicação oral aos profissionais de saúde da USF fazendo uma revisão das normas da Direcção Geral de Saúde relativamente ao diagnóstico, rastreio e profilaxia da infecção pelo VIH (vide anexos), bem como a apresentação de uma situação, caso clínico e uma lista de várias consultas com o seu motivo, problemas activos, passivos e antecedentes pessoais de 15 doentes no Diário de Exercício Orientado (DEO).
2.1.5 Pediatria
O estágio parcelar de Pediatria, decorreu no Serviço de Infecciologia do Hospital Dona Estefânia, sob a tutela da Dra. Flora Candeias, durante um período de 4 semanas, apresentando-se como a terceira oportunidade de contactar com esta especialidade, após a Unidade Curricular de Introdução à Pediatria e Saúde na Adolescência (UC IPSA, 4ºano) e do estágio de Pediatria no ano passado (UC Pediatria, 5ºano). Geralmente dedicava cerca de 3 dias semanais à enfermaria da Unidade de Infecciologia, onde realizei diversas histórias clínicas, notas de entrada, notas de alta, prática de técnicas e procedimentos, o que permitiu sedimentar e reforçar conhecimentos adquiridos, com especial ênfase em aspetos de diagnóstico diferencial e terapêutica das patologias pediátricas mais frequentes. Nos outros dois dias da semana tínhamos consultas externas de Imunodeficiência, adquirida ou congénita, onde se assegurava o cumprimento terapêutico, nomeadamente a instituição meticulosa de anti-retrovirais, sendo que a maioria dos doentes se encontrava estabilizado e com o plano nacional de vacinação actualizado. Semanalmente, tinha também a oportunidade de assistir à reunião clínica com todos os médicos da Unidade onde eram discutidos os casos mais complexos por todos. Por outro lado, a ida ao Serviço de Urgência foi uma mais-valia, conferindo a possibilidade de observar maior diversidade de patologias e maior riqueza semiológica. A par da reunião que ocorria diariamente no auditório do Hospital Dona Estefânia para discussão dos casos mais relevantes do dia, pude ainda assistir a outras sessões clínicas e às Sessões SOFIA. Este estágio contou
ainda com um complemento na unidade de Imunoalergologia, onde assisti a diversas consultas, à realização de testes cutâneos e provas de função respiratória e a uma aula teórico-prática sobre anafilaxias. Por fim, no último dia de estágio deu-se a apresentação dos seminários, onde abordei o tema das complicações da varicela (vide anexos), uma doença geralmente benigna mas que requer atenção e cuidados específicos.
2.1.6 Ginecologia e Obstetrícia
O estágio parcelar de Ginecologia e Obstetrícia, decorreu na Maternidade Alfredo da Costa, sob a tutela da Dra. Carla Leitão, na área da Ginecologia, e Dra Sara Coelho, na área da Obstetrícia, durante um período de 4 semanas, visando a aplicação prática e consolidação dos conhecimentos e competências adquiridos no estágio da mesma área no 4º ano. Durante a rotação de Ginecologia pude assistir a uma panóplia de consultas, gerais e de infeciologia (doentes infectadas com VIH), onde acompanhei casos de doentes com as patologias mais prevalentes, nomeadamente prolapsos, hemorragias uterinas anómalas, neoplasias e infecções urinárias e ginecológicas. Tive oportunidade de treinar o exame objectivo mamário e ginecológico, familiarizar-me com os meios complementares de diagnóstico mais requisitados e as suas aplicações na prática clínica, bem como contactar com os principais métodos contraceptivos. Assisti a várias histeroscopias e cirurgias, bem como a sessões clínicas e journal-clubs falando-se do estado da arte de diversas temáticas da especialidade. Na área da Obstetrícia, acompanhei as consultas de gravidez de alto risco, onde pude aprofundar o exame objectivo da grávida e proceder à auscultação do foco fetal. Grande parte do estágio foi passado no Serviço de Medicina Materno-Fetal, onde observava diariamente um largo número de grávidas, com uma grande heterogeneidade de idades, motivos de internamento, idades gestacionais e índices obstétricos. Assisti e participei igualmente em diversos tipos de parto, eutócicos e distócicos, bem como a sessões clínicas e apresentações de revisões sistemáticas da área. A passagem pelo Serviço de Urgência pautou-se pela heterogeneidade significativa de casos clínicos, semiologia obstétrica e ginecológica e execução de métodos complementares de diagnóstico e terapêutica.
No final do estágio procedi ainda à apresentação de um seminário subordinado ao tema da depressão pós-parto (vide anexos), atendendo à sua preponderância, dado o subdiagnóstico desta patologia e as graves consequências que podem surgir para a mãe, o bebé e toda a constelação da maternidade.
2.2 Estágio Clínico Opcional: Psiquiatria
O estágio clínico opcional decorreu durante duas semanas no Hospital de Santa Maria, sob a tutela da Dra. Manuela Abreu. Sendo a última hipótese de contactar com uma das nossas especialidades de eleição, optei por realizar este estágio e conhecer mais um serviço de Saúde Mental em Portugal. Apesar da curta duração do estágio, além do internamento e do serviço de Urgências onde estive presente, assisti ainda a diversas consultas externas, sessões clínicas e reuniões de serviço. A destacar duas situações particulares e especialmente marcantes: lidar com o convite de ida ao cinema de uma doente com perturbação bipolar no internamento e com um caso de folie a deux, com fortes e inabaláveis delírios persecutórios e de infestação.
3. Elementos valorativos
Ao longo deste último ano lectivo estive presente em mais de uma dezena de congressos desde Outubro a Junho (vide anexos), com diversos temas, dos quais destaco aqueles dedicados à Saúde Mental (Comportamentos aditivos, Psiquiatria Forense, Psiquiatria Geriátrica, História da Psiquiatria, Saúde Mental Infantil), bem como os que se debruçaram sobre assuntos gerais de saúde, política e economia (APIFARMA, Administradores Hospitalares e Convenção Nacional de Saúde). Gostaria de sublinhar a possibilidade única que me foi conferida de realizar uma comunicação oral, no dia 21 de Junho, no I CONGRESSO INTERNACIONAL DE QUALIDADE DE VIDA, CIDADANIA E SAÚDE MENTAL/ V Congresso de Educação para a Saúde, com o tema: “Estigma e Saúde Mental: Uma Viagem no Tempo”, na Escola Superior de Saúde de Viseu (vide anexos).
4. Reflexão crítica
Após o findar deste ano lectivo são suscitados vários sentimentos, emoções e estados de espírito. Ainda assim, entre a nostalgia e a ambição, proponho-me a apresentar o meu posicionamento crítico relativo ao 6º e último ano do MIM, no geral, e ao EP, no particular.
Começo por constatar que cumpri a generalidade dos objectivos pessoais e gerais a que me propus, tendo desenvolvido novas skills, adquirido e aprofundado uma série de conhecimentos e crescido pessoal e profissionalmente, sentindo-me agora mais capaz, mais confiante e mais preparado para o futuro que é almejado. Talvez a capacidade que ainda esteja menos aprimorada seja a gestão do tempo de consulta, mas julgo que seja uma lacuna apenas possível de colmatar com a prática e a experiência. Por outro lado, a maior dificuldade encontrada este ano foi a dicotomia Prova Nacional de Seriação vs Estágio Profissionalizante. A crescente pressão exercida sobre os futuros médicos, derivada da conjuntura actual, remete-nos inexoravelmente para uma realidade imprevisível. Ainda assim, tentei privilegiar o EP sempre que possível, reconhecendo que, por vezes, a experiência efectiva e a troca directa de conhecimentos entre alunos e tutores pode ser uma fonte de riqueza inestimável que perpetua para a vida.
Relativamente aos diversos estágios parcelares especificamente, irei tecer alguns comentários, optando igualmente por representar graficamente, numa hipotética “escala da dor adaptada”, os níveis de exigência de cada um, por parte dos tutores, da carga horária ou da dinâmica do estágio em si, bem como o nível de retribuição que senti de cada um, isto é, o quão enriquecido e satisfeito saí dos mesmos. (vide anexos). O estágio de Cirurgia foi o mais desafiante e descrevê-lo-ia com a palavra INOVAÇÃO, sublinhando o programa ERAS do Hospital Beatriz Ângelo, o meu aperfeiçoamento em termos de aplicação de linguagem e terminologia cirúrgicas e o treino de técnicas fundamentais na formação de um médico como desinfecção, assépsia, suturas, desbridamento, enfim, gestão de doentes com patologia eminentemente cirúrgica. O
estágio de Medicina foi o mais trabalhoso, com uma extensa carga horária, pelo que o associaria com o
são os nossos hospitais, do tão propalado subfinanciamento dos serviços de saúde, da carência de recursos, mas essencialmente do tanto que se faz com pouco. Destacaria ainda a procrastinação diária da data efectiva de alta de vários doentes, relacionada com a existência de casos de natureza social, além da figura do especialista em Medicina Interna como alguém que, no universo da polimedicação e multimorbilidade, associada à realidade demográfica, mantém o foco no sentido da “homeostasia” do doente, promovendo o aumento da esperança média de vida com qualidade. O estágio de Saúde Mental e o estágio opcional de Psiquiatria contribuíram para fomentar o meu interesse nesta especialidade “onde os diagnósticos se escrevem a lápis”, tendo sido o mais estimulante, podendo salientar a palavra EMPATIA, sendo fundamental combater o estigma que pulula por este mundo fora no que concerne às perturbações psiquiátricas, já que qualquer médico lidará com estes doentes independentemente da sua especialidade, dada a prevalência de doenças mentais e o seu impacto nos anos vividos com incapacidade (DALYs). O estágio de Medicina Geral
e Familiar foi o mais complexo, pela preparação diária exigida, pela localização da USF e pela própria
metodologia da avaliação, mas acabou por ser positivo, pelo que o resumiria com a palavra ESTUDO, tendo contribuído indefectivelmente para uma autonomização crescente no sentido do domínio do conceito de biopsicossocial e de promoção da saúde individual e pública. O estágio de Pediatria foi o mais tocante, permitindo que valorizasse a importância do agregado familiar na saúde da criança e do adolescente, pelo que escolheria a palavra FAMÍLIA. Tendo contactado com uma área particularmente delicada como a da Infecciologia e lidado com doentes pediátricos com imunodeficiências e patologia crónica, tornou-se ainda mais claro o papel do pediatra na educação da criança e da família para a promoção da saúde e prevenção de doença. O estágio de Ginecologia e Obstetrícia foi o mais gratificante, na medida em que a abordagem da Mulher nesta especialidade é diferente pela idiossincrasia de patologia e semiologia que nela surgem. Representado pela palavra MULHER, este estágio destacou-se ainda pelo caso insólito que conheci numa consulta de uma senhora de 38 anos que engravidou com um Implanon (taxa de sucesso do contraceptivo é superior a 99,9%) bem implantado e dentro do prazo de validade, tendo apenas descoberto às 20 semanas.
Termino este relatório e, por conseguinte, esta etapa da minha formação, sublinhando a mais-valia que o novo currículo trouxe à Faculdade de Ciências Médicas e aos seus alunos, permitindo-lhes uma evolução sólida e consistente, com uma forte e primordial componente prática, culminando com este EP. Foi um curso longo, onde algumas actividades extracurriculares como o estudo de Sueco até ao nível C1.1 (vide anexos), permitindo um investimento pessoal e linguístico e aumentando as possibilidades profissionais futuras, ou mesmo a participação em telenovelas, séries ou anúncios publicitários e a frequência de um clube de teatro, garantiram a manutenção do meu equilíbrio mental, o meu crescimento enquanto pessoa e confluência com horizontes mais artísticos, pois afinal, “Quem só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”, como nos relembra o grande médico Abel Salazar.
5. Bibliografia
Victorino, R., C. Jollie, and J. McKimm. "O licenciado médico em Portugal. Core graduates learning outcomes project." Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (2005).
Cumming, Allan, Allan Cumming, and Michael Ross. "The Tuning Project for Medicine–learning outcomes for undergraduate medical education in Europe." Medical teacher29.7 (2007): 636-641.
Serrão, D. (n.d.). Daniel Serrão - O adeus a Hipócrates - ou talvez não!. [online] Danielserrao.com. Disponível: http://www.danielserrao.com/gca/index.php?id=84 [Acesso 12 Jun. 2019].
6. Anexos
6.1 “Escala da dor adaptada”: Exigência e Retribuição
Exigência Cirurgia X Medicina Interna X Saúde Mental X Medicina Geral e Familiar X Pediatria X Ginecologia e Obstetrícia X Retribuição Cirurgia X Medicina Interna X Saúde Mental X Medicina Geral e Familiar X Pediatria X Ginecologia e Obstetrícia X
6.2 Cronograma do EP
Estágio Local Período Regência e Tutores Trabalhos Cirurgia Hospital
Beatriz Ângelo
10/09/2018 a 02/11/2018
Professor Doutor Rui Maio
Dr. Pedro Amado
Apresentação do caso clínico: “Um incidentaloma raro e potencialmente maligno” Medicina Hospital de São José – Serviço de Medicina 1.4 05/11/2018 a 11/01/2019 Prof. Doutor Fernando Nolasco Dr. António Godinho Apresentação de histórias clínicas e seminários sugeridos pelo programa da UC: “Anticoagulação oral”, “Infecções respiratórias: Pneumonia”, “Diagnóstico diferencial de diarreias”, “Reacções adversas a medicamentos e interacções medicamentosas frequentes” Apresentação de seminário final: “O doente difícil”
Saúde Mental Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (Clínica 5, Pavilhão 21) 21-01-2019 a 15-02-2019 Professor Doutor Miguel Talina Dr. Pedro Rodrigues
Apresentação de história clínica
Medicina Geral e Familiar USF Cova da Piedade - ARSLVT 18-02-2019 a 15-03-2019 Professora Doutora Maria Isabel Santos Dra. Luísa Rocha
Apresentação de seminários sobre Revisão de Normas DGS: Diagnóstico, Rastreio e Profilaxia da Infecção pelo VIH: Norma DGS 28/12/2011, 10/12/2014 (act.) e Diagnóstico e Rastreio Laboratorial da Infecção pelo VIH e Norma DGS 28/11/2017, 16/05/2018 (act.) – Profilaxia de Pré-exposição da Infecção por VIH
Pediatria Hospital Dona Estefânia – Serviço de Infecciologia 18-03-2019 a 12-04-2019 Professor Doutor Luís Varandas Dra. Flora Candeias
Realização de 3 notas de entrada e de alta e de história clínica. Apresentação de seminário: “Complicações da Varicela” Ginecologia e Obstetrícia Maternidade Alfredo da Costa 22-04-2019 a 17-05-2019 Professora Doutora Teresinha Simões Dra. Carla Leitão Dra. Sara Coelho
Apresentação de seminário: “Depressão pós-parto: Quando nem tudo são rosas”
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