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Processo 625/18.8T8AGH.L1-6 Data do documento 8 de outubro de 2020 Relator Anabela Calafate

TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL

Acórdão

DESCRITORES

Acidente de viação > Atropelamento > Menor > Presunção de culpa > Culpa in vigilando > Perda do direito à vida > Danos não patrimoniais

SUMÁRIO

I - O art. 491º do Código Civil estabelece uma presunção de culpa sobre o obrigado a vigiar o incapaz, mas não estabelece uma presunção de que o incapaz praticou acto ilícito.

II - A presunção de culpa (in vigilando) estabelecida no artigo 491º apenas se refere aos danos causados a terceiro, já não aos danos causados à pessoa que deve ser vigiada.

III - Não tendo a ré logrado provar a sua alegação de que a criança atravessou a estrada em violação das regras estradais, não pode agora o tribunal tirar a ilação - ao abrigo do disposto nos art. 349º e 351º do Código Civil - de que foi atropelada porque o pai a deixou sozinha na berma da estrada.

IV - Considerando a idade da vítima (7 anos), ausência de problemas de saúde e temperamento alegre e dinâmico, mostra-se adequado valorar o dano pela perda da vida em100.000 €.

TEXTO INTEGRAL

Acordam na 6ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa

I - Relatório

R…… e M…. instauraram acção declarativa comum contra Caravela - Companhia de Seguros, Sa, pedindo que a ré seja condenada a pagar-lhes a quantia total de 216.000,82 € acrescida de juros legais, a título de indemnização por danos patrimoniais e danos não patrimoniais.

Alegaram, em síntese:

- no dia 07/07/2013 a filha dos autores, B…, foi atropelada mortalmente pelo veículo automóvel segurado na ré, conduzido por MF…;

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- as vidas dos autores estão marcadas para sempre com o grande sofrimento causado pela morte da sua única filha, nascida em 06/07/2006;

- a ré deve ser condenada a indemnizar os autores por danos patrimoniais e danos não patrimoniais, pagando: 130.00 € pelo direito à vida da vítima e 5.000 € pelos danos que sofreu antes de morrer; 35.000 € pelos danos sofridos pelo autor R..; 35.000 € pelos danos sofridos pela autora L..; e 1.261,82 € pelas despesas de funeral.

*

A ré contestou, pugnando pela improcedência total da acção, invocando, em resumo: - a condutora seguia cumprindo as regras estradais;

- o acidente deu-se por culpa exclusiva do autor, que deixou a filha menor de 7 anos sozinha na berma de uma estrada, tendo esta atravessado a estrada inesperadamente, não dando tempo nem espaço para a condutora desviar o veículo;

- os pedidos referentes a danos não patrimoniais são manifestamente exagerados *

Realizada a audiência final, foi proferida sentença que decretou:

«Em face do exposto, julgo a presente acção totalmente procedente, por provada e, em consequência, decido:

a) Condenar a Ré CARAVELA – Companhia de Seguros, S.A. a pagar aos Autores :

- A quantia, em conjunto, de €45.000,00 (quarenta e cinco mil euros), pelo dano morte de B, acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da sentença e até integral e efectivo cumprimento;

- A quantia, em conjunto, de €3.000,00 (três mil euros), pelos danos sofridos pela B no momento que antecedeu a sua morte, acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da sentença e até integral e efectivo cumprimento;

- A quantia de €24.000,00 (vinte e quatro mil euros), a cada um dos AA., a título de indemnização por danos não patrimoniais atinentes ao sofrimento por si sentido com a morte de B…, acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da sentença e até integral e efectivo cumprimento.

- A quantia, em conjunto, de €1.261,82 (mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos), a título de indemnização por danos patrimoniais, acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da sentença e até integral e efectivo cumprimento.».

*

Inconformada, apelou a ré, terminando a alegação com as seguintes conclusões:

1. No âmbito dos presentes autos, o Juízo Central Cível e Criminal de Angra do Heroísmo – Juiz 3 do Tribunal Judicial da Comarca dos Açores proferiu, em 9 de Dezembro de 2019, Sentença, através da qual condenou a Ré, ora Recorrente, ao pagamento aos Autores, ora Recorridos, enquanto progenitores da Menor falecida, no acidente de viação (atropelamento) objecto dos mesmos, das seguintes quantias, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais:

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a. A quantia, em conjunto, de €: 45.000,00 (quarenta e cinco mil euros), pelo dano morte da Menor, , acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da Sentença e até integral e efectivo cumprimento;

b. A quantia, em conjunto, de €: 3.000,00 (três mil euros), pelos danos sofridos pela Menor falecida, o momento que antecedeu a sua morte, acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da Sentença e até integral e efectivo cumprimento; c. A quantia de €: 24.000,00 (vinte e quatro mil euros), a cada 1 (um) dos Autores, ora Recorridos, a título de indemnização por danos não patrimoniais atinentes ao sofrimento pelos mesmos sentido com a morte da sua Filha Menor, , acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da Sentença e até integral e efectivo cumprimento;

d. A quantia, em conjunto, de €: 1.261,82 (mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos), a título de indemnização por danos patrimoniais (despesas com o funeral da Menor, ), acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da Sentença e até integral e efectivo cumprimento;

e. Custas pelos Autores, ora Recorridos, e pela Ré, ora Recorrente, na proporção do respectivo decaimento, nos termos do artigo 527.º, n.ºs 1 e 2 do Código de Processo Civil).

2. O que perfaz, assim, a quantia global de €: 97.261,82 (noventa e sete mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos), acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da Sentença e até integral e efectivo cumprimento.

3. O Tribunal “a quo” chegou àquela condenação, plasmada na Sentença recorrida, através da divisão de responsabilidades na produção do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos, que vitimou, mortalmente, a Menor , entre a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF.., e 1 (um) dos Autores, R… (Pai da Menor falecida), ora Recorrido, na proporção de 60% (sessenta por cento) para aquela e de 40% (quarenta por cento) para este último.

4. Responsabilizando e condenando, assim e nessa sequência, a Ré, ora Recorrente, enquanto seguradora daquele veículo automóvel (ligeiro de mercadorias), com a matrícula xx-xx-xx, conduzido por MF no pagamento aos Autores, ora Recorridos, das indemnizações supra referidas, correspondentes àquela proporção de 60% (sessenta por cento) dos valores dos danos patrimoniais e dos danos não patrimoniais arbitrados pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, em virtude do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos.

5. No entanto, ao proferir tal decisão, o Tribunal “a quo” errou totalmente.

6. Com efeito, mal andou o Tribunal “a quo” a proferir aquela Decisão nos termos em que o fez, pelo que a mesma deve ser alvo de censura.

7. A Sentença ora proferida pelo Tribunal “a quo” agride e viola a prova produzida nos presentes autos, sendo, pois, vários os erros – formais e materiais – de que a mesma enferma.

8. Assim, não se conformando com a Sentença proferida pelo Tribunal “a quo”, vem a Ré, ora Recorrente, da mesma recorrer, pugnando pela sua revogação e, consequente, modificação e/ou alteração em conformidade.

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9. O presente Recurso de Apelação incidirá, assim, sobre 4 (quatro) questões: sobre o erro do Tribunal “a quo” no cálculo da quantia fixada na Sentença recorrida, a título de danos patrimoniais (€: 1.261,82), em que a Ré, ora Recorrente, foi condenada a pagar aos Autores, ora Recorridos (1); sobre o erro notório do Tribunal “a quo” na apreciação da prova – impugnação da matéria de facto dada como provada, com a consequente reapreciação da prova gravada – produzida nos presentes autos (2); sobre as percentagens de responsabilidade – 60% (sessenta por cento) e 40% (quarenta por cento) –, arbitradas pelo Tribunal “a quo”, pela ocorrência do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos (3); e sobre as indemnizações globais arbitradas pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais (4).

A.) Quanto ao erro do Tribunal “a quo” no cálculo da quantia fixada na Sentença recorrida, a título de danos patrimoniais (€: 1.261,82), em que a Ré, ora Recorrente, foi condenada a pagar aos Autores, ora Recorridos

10. Na Sentença recorrida, o Tribunal “a quo” errou, desde logo, no cálculo da indemnização que fixou, a título de danos patrimoniais.

11. Ora, o Tribunal “a quo” condenou a Ré, ora Recorrente, a pagar aos Autores, ora Recorridos, a esse título de danos patrimoniais, a quantia de €: 1.261,82 (mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos), como resulta do último item da alínea a) do dispositivo da Sentença recorrida.

12. O que está errado.

13. Os Autores, ora Recorridos, peticionaram, nesta Acção, aquela quantia (€: 1.261,82), a título do reembolso de despesas que tiveram com o funeral da sua Filha Menor, (danos patrimoniais).

14. Na Sentença recorrida, o Tribunal “a quo” dividiu a responsabilidade na produção do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos, que vitimou, mortalmente, a Menor , entre a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, e 1 (um) dos Autores, R… (Pai da Menor falecida), ora Recorrido, na proporção de 60% (sessenta por cento) para aquela e de 40% (quarenta por cento) para este último.

15. E foi, através dessas percentagens (60% e 40%), que o Tribunal “a quo” calculou, na Sentença recorrida, todas as indemnizações, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais.

16. Sucede que, ao contrário do que fez com o cálculo das indemnizações a título de danos não patrimoniais, o Tribunal “a quo” não aplicou aquelas mesmas percentagens (60% e 40%), no dispositivo da Sentença recorrida, quando aí fixou a indemnização, a título de danos patrimoniais.

17. Condenando a Ré, ora Recorrente, ao pagamento de tudo o quanto foi peticionado pelos Autores, ora Recorridos, nos presentes autos, a título de danos patrimoniais (€: 1.261,82).

18. Ou seja, condenou a Ré, ora Recorrente, na percentagem de 100% (cem por cento) do peticionado pelos Autores, ora Recorridos, nos presentes autos, a título de danos patrimoniais.

19. O que jamais podia suceder.

20. O Tribunal “a quo”, no dispositivo da Sentença recorrida, teria que efectuar, obrigatoriamente, para os danos patrimoniais, o mesmo cálculo que fez para fixar as indemnizações, nos presentes autos, a título de danos não patrimoniais, como, aliás, consta no 1.º (primeiro) parágrafo da página 40 (quarenta) da mesma. 21. A este propósito e contexto, a Sentença recorrida é, até, contraditória em si, uma vez que faz bem tal

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cálculo no seu corpo – 1.º (primeiro) parágrafo da sua página 40 (quarenta) –, mas, surpreendentemente, já não o faz no seu dispositivo.

22. Assim, o valor que deveria constar no dispositivo da Sentença recorrida, a título de indemnização por danos patrimoniais, seria, indubitavelmente, aquele que consta no 1.º (primeiro) parágrafo da página 40 (quarenta) da mesma, ou seja, o valor de €: 757,09 (setecentos e cinquenta e sete euros e nove cêntimos), e nenhum outro!

23. Uma vez que ao valor peticionado, nos presentes autos, pelos Autores, ora Recorridos, a título de indemnização por danos patrimoniais (€: 1.261,82), o Tribunal “a quo”, segundo o seu raciocínio e a sua decisão quanto à responsabilidade da produção do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos, teria, necessariamente, que apurar a percentagem (60%) que cabia à Ré, ora Recorrente. 24. Ou seja, 60% (sessenta por cento) de €: 1.261,82 (mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos), o que dá, assim, aquela quantia de €: 757,09 (setecentos e cinquenta e sete euros e nove cêntimos).

25. Pelo que, e desde logo, deve ser alterado e modificado, em conformidade, o constante, a este propósito, no dispositivo da Sentença recorrida.

26. Devendo o último item da alínea a) do mesmo a passar a ter a seguinte redacção: “(…)

a) Condenar a Ré CARAVELA – Companhia de Seguros, S.A. a pagar aos Autores R.. e L…: (…)

• A quantia, em conjunto, de 757,09 (setecentos e cinquenta e sete euros e nove cêntimos), a título de indemnização por danos patrimoniais, acrescida dos juros de mora vincendos à taxa supletiva legal em cada momento em vigor, contados desde a data da sentença e até integral e efectivo cumprimento. (…)” B.) Quanto ao erro notório do Tribunal “a quo” na apreciação da prova – impugnação da matéria de facto dada como provada, com a consequente reapreciação da prova gravada – produzida nos presentes autos 27. Embora a Ré, ora Recorrente, defenda a rectificação do dispositivo da Sentença recorrida, por manifesto erro do Tribunal “a quo”, na sua elaboração, o certo é que jamais poderia o mesmo ter proferido, nos presentes autos, tal Decisão da forma como o fez.

28. O Tribunal “a quo” não poderia, atenta a prova produzida, no âmbito dos presentes autos, condenar a Ré, ora Recorrente, ao pagamento de qualquer quantia, quer seja a título de danos patrimoniais, quer seja a título de danos não patrimoniais, aos Autores, ora Recorridos, decorrente do sinistro (atropelamento), aqui, em discussão.

29. Atenta a prova, nestes autos, produzida, não restava outra solução ao Tribunal “a quo” senão a de absolver a Ré, ora Recorrente, dos mesmos e, consequentemente, absolvê-la de todos os pedidos formulados pelos Autores, ora Recorridos, neles constantes, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais.

30. Para tomar a Decisão que tomou, constante da Sentença recorrida, o Tribunal “a quo” errou na apreciação da prova, efectivamente, produzida nos presentes autos.

31. E, por isso, vem, agora, nesta sede, a Ré, ora Recorrente, pugnar pela revogação da Sentença recorrida, invocando e suscitando, para o efeito, o erro notório cometido pelo Tribunal “a quo” na

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apreciação da prova – impugnação da matéria de facto dada como provada com a consequente reapreciação da prova gravada – produzida nos presentes autos.

32. Não pode, no entanto, a Ré, ora Recorrente, deixar de, antes, aqui, referir, tal como o fez aquando da apresentação da sua Contestação, que lamenta muito que, no âmbito dos mesmos, se esteja a discutir a responsabilidade de 1 (um) acidente de viação (atropelamento) que levou ao falecimento de 1 (uma) criança, de, apenas, 7 (sete) anos de idade.

33. É, com toda a certeza, 1 (uma) fatalidade, 1 (um) trágico acontecimento, que não deixa – nem poderia deixar, naturalmente! – ninguém indiferente e que causou, causa e causará, sempre, 1 (uma) profunda dor e 1 (uma) enorme tristeza aos seus progenitores, familiares e amigos.

34. E, por isso, desde logo, com a apresentação da sua Contestação, junta a fls., a Ré, ora Recorrente, afirmou que tal factualidade não podia deixar que, nos presentes autos, os intervenientes – ambas as partes e o próprio Tribunal “a quo” – discutissem e decidissem a questão central da presente Acção, conformados com a emoção, a comoção e a dor que este tipo de acontecimento sempre gera.

35. Antes de mais e de tudo, e por mais que custasse – o que, naturalmente, se percebe –, todos os intervenientes processuais teriam que analisar a factualidade em discussão nos presentes autos, de acordo com a prova existente e a produzir no âmbito dos mesmos, de 1 (uma) forma clara, objectiva e rigorosa. 36. No entanto, salvo o devido respeito – e que é muito, sublinhe-se –, o Tribunal “a quo”, ao longo da Audiência de Discussão e Julgamento que se realizou nos presentes autos, e na consequente prova que lá se produziu, não conseguiu ficar indiferente a tal factualidade, diferenciando – e muito – a forma como inquiriu e valorou as provas oferecidas por casa 1 (uma) das partes, ou seja, pela Ré, ora Recorrente, e pelos Autores, ora Recorridos.

37. Como se pode verificar pela audição da Gravação-Áudio da Audiência de Discussão e Julgamento, designadamente, das declarações dos Autores, ora Recorridos, e dos depoimentos de toda a prova testemunhal oferecida, nos presentes autos, por aqueles e pela Ré, ora Recorrente.

38. Com efeito, através das suas audições, é, absolutamente, claro e inequívoco, a diferenciação que o Tribunal “a quo” fez entre uns e outros, bastando, para isso, que se ouça, por exemplo, as declarações dos Autores, ora Recorridos, e designadamente, do Autor, ora Recorrido, – (…)–, e o depoimento da condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF – (…)–, quanto à dinâmica do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos. 39. Que demonstra – muito bem – a forma como o Tribunal “a quo” inquiriu cada 1 (um) deles, bem como o porquê de ter valorado, tais declarações de parte e tal depoimento testemunhal, na Sentença recorrida, de forma tão diferente.

40. Não pode, assim, a Ré, ora Recorrente, deixar, aqui e desde já, de lamentar, e muito, tal factualidade e tal materialidade.

41. E que faz, desse modo, com que a Ré, ora Recorrente, não possa, também, deixar de o, aqui, frontalmente, dizer e, consequentemente, pedir, a V. Excelências, Exmos. Senhores Juízes Desembargadores, e a esse Venerando Tribunal da Relação de Lisboa, que, como “último reduto” depositário da lei e da justiça, revoguem a Decisão do Tribunal “a quo” e alterem ou modifiquem por outra que retracte, com rigor, detalhe e exactidão, toda a prova produzida – ou não – no âmbito dos presentes

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autos.

42. Na verdade, jamais o Tribunal “a quo” poderia proferir a Decisão que proferiu, na Sentença recorrida, atenta a prova produzida quanto à dinâmica do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos.

43. Com efeito, o Tribunal “a quo”, para tomar a Decisão que tomou ao dividir a responsabilidade na produção de tal sinistro rodoviário (atropelamento), na percentagem de 60% (sessenta por cento) para a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, e na percentagem de 40% (quarente por cento) para o Autor R.. (Pai da Menor falecida,), ora Recorrido, dá como provados determinados factos que jamais o poderiam ser, dada a prova que – não – se produziu nos presentes autos.

44. Ora, na Sentença recorrida, o Tribunal “a quo” deu como provados, de entre muitos outos, os seguintes Factos (Factos C, E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida):

“C. Como o motociclo não tinha suporte para estacionar, e daquele lado onde pararam não havia qualquer muro, barreira, passeio ou estacionamento, o A. disse à criança para ficar junto à berma, mas na estrada, enquanto o mesmo ia colocar o motociclo do outro lado da faixa de rodagem, encostado ao muro que aí existe.”;

“E. Sucede que quando o A. já estava do lado contrário da faixa de rodagem (àquele onde deixou a criança) a encostar o motociclo ao muro, B

iniciou o atravessamento da via.”;

“G. Sendo que 83 metros após desfazer a curva aberta da Ribeira Joana Pires e quando a B.. já tinha atravessado a hemi-faixa de rodagem contrária ao sentido de circulação do veículo xx-xx-xx, a condutora do mesmo embateu na criança, atropelando-a, causando-lhe a morte.”;

“K. A condutora do veículo xx-xx-xx exercia a condução do mesmo de modo desatento e descuidado.”; “L. O local do acidente é uma recta com cerca de 200 metros, antecedida de uma curva aberta no sentido Ribeira Funda – Cedros, a qual após desfeita permite total visibilidade em toda a sua extensão, em ambos os sentidos, bermas e passeios.”.

45. Sucede, no entanto, que o Tribunal “a quo”, atenta a prova produzida nos presentes autos, jamais poderia dar como provados estes Factos (Factos C, E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida) tal como estão descritos, na Sentença recorrida.

46. Desde logo, jamais poderia dar como provado o Facto C dos Factos Provados da Sentença recorrida. 47. Com efeito, é, totalmente, falso que do lado daquela estrada onde o Autor, ora Recorrido, R.., e a sua Filha, a Menor falecida, circulavam, não houvesse a possibilidade de aí colocar/encostar o motociclo que os transportava.

48. Isso mesmo resulta do Facto O dos Factos Provados da Sentença recorrida, que diz o seguinte: “Do lado contrário (sentido Cedros/Ribeira Funda) não há passeio. Há apenas berma com relva e 2 postes de madeira para suporte de linhas telefónicas.” – sublinhado da Ré, ora Recorrente.

49. 2 (dois) postes de madeira, sublinhe-se.

50. O que significa que o Autor, ora Recorrido, poderia ter encostado, imobilizado, o seu motociclo no lado da estrada onde circulava, com a sua Filha Menor .

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51. Não tendo necessidade de se deslocar para o outro lado (sentido) da estrada em que circulava para encostar o seu veículo motociclo.

52. Não se vislumbra, pois, da prova produzida nos presentes autos, porque razão o Autor, ora Recorrido, foi colocar o seu motociclo do outro lado da estrada em que circulava.

53. Daí resulta que, desde já, deve ser alterado o Facto C dos Factos Provados da Sentença recorrida, passando, o mesmo, a ter a seguinte redacção:

“C. Por razões não concretamente apuradas, o A. deslocou-se, com o seu motociclo, para o outro lado da faixa de rodagem.”

54. A mesma sorte – alteração – merecerão os supra referidos e citados Factos E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida.

55. Ora, com tais Factos (E, G, K e L) dados como provados, na mesma, o Tribunal “a quo” descreve como, na sua óptica, de desenrolou a dinâmica do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos e que levou ao falecimento da Menor,

56. E, consequentemente, divide a responsabilidade na produção do mesmo entre a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, e o Autor, (Pai da Menor falecida), ora Recorrido, na proporção de 60% (sessenta por cento) para aquela e de 40% (quarenta por cento) para este último.

57. É, pois, através desses referidos Factos (E, G, K e L), constantes dos Factos Provados da Sentença recorrida, que o Tribunal “a quo” suporta a mencionada divisão de responsabilidades no mencionado acidente de viação (atropelamento).

58. Ou seja, alicerça, resumidamente, a sua tese, constante da Decisão de que ora se recorre, no facto da vítima, a Menor falecida, para além de ter sido exposta ao abandono por parte do Autor, ora Recorrido, seu Pai, ter sido atropelada, mortalmente, pela condutora do condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, quando já tinha atravessado mais de metade da hemi-faixa de rodagem contrária, ou seja, mais de metade da via, encontrando-se, no concreto momento do embate, na faixa onde circulava aquela referida e identificada condutora. 59. E que esta tinha toda a visibilidade para ver a Menor falecida, a atravessar aquela sua faixa de rodagem, o que lhe permitia, assim, ter evitado, se tivesse a conduzir com a atenção e com o cuidado adequados, o acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos.

60. No entanto, a verdade é que o Tribunal “a quo” não poderia, de forma alguma, ter dado como provado tais Factos (E, G, K e L), uma vez que os mesmos não resultaram de nenhuma prova produzida nos presentes autos, designadamente, das declarações de parte do Autor, ora Recorrido, pai da Menor falecida), e dos depoimentos das diversas Testemunhas (prova testemunhal) inquiridas em Audiência de Discussão e Julgamento.

61. E isto, porque ninguém viu o acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos.

62. Como resulta, respectivamente, das declarações e dos depoimentos das 3 (três) pessoas que se encontravam, no momento e no local, de tal sinistro rodoviário (atropelamento), que vitimou, mortalmente, a Menor , ou seja, do Autor, ora Recorrido, da condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, , e do seu marido, que a acompanhava,

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enquanto passageiro daquela identificada viatura, com a matrícula xx-xx-xx.

63. A este propósito, refere o Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida), nas suas declarações de parte, em Audiência de Discussão e Julgamento – (…) –, o seguinte: (…).

64. E a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF refere, também a este propósito, no seu depoimento, enquanto Testemunha, em Audiência de Discussão e Julgamento – (…)

65. E o seu marido, que a acompanhava, naquele dia, naquele momento e naquele local, enquanto passageiro daquela identificada viatura, com a matrícula xx-xx-xx, refere, ainda a este propósito, no seu depoimento, enquanto Testemunha, em Audiência de Discussão e Julgamento – (…) –, o seguinte: (…) 66. Ora, através da reprodução destes excertos – das declarações de parte e dos 2 (dois) depoimentos testemunhais – da Gravação-Áudio da Audiência de Discussão e Julgamento, verifica-se, pois, que o Tribunal “a quo” não poderia, nem pode, ter qualquer certeza acerca do modo e da dinâmica do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos.

67. Não podia, assim, o descrever da forma como o fez naqueles Factos E, G, K e L, constantes dos Factos Provados da Sentença recorrida, porque tal factualidade não resulta de nenhuma prova produzida nos presentes autos, quer seja testemunhal, quer seja documental.

68. Porque, repete-se, ninguém viu, ninguém assistiu, ao mencionado acidente de viação (atropelamento). 69. Nos presentes autos, não há 1 (uma) única prova sequer comprovativa de como ocorreu, efectivamente, tal sinistro rodoviário (atropelamento).

70. Pelo que não se percebe, de forma alguma, como é que o Tribunal “a quo” chegou àquelas conclusões, plasmadas nos Factos E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida.

71. Não podia, assim, o Tribunal “a quo” dizer, naqueles Factos E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida, que a Menor falecida, já tinha atravessado grande parte da via e já se encontrava na faixa de rodagem onde circulava a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, e que esta, por ter total visibilidade, ia desatenta, ocorrendo, assim, tal embate mortal.

72. Efectivamente, pela prova produzida nos presentes autos, não se pode afirmar o que o Tribunal “a quo” afirmou naqueles Factos E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida, até porque, acresce, nem se sabe, em concreto, qual o local do embate (atropelamento) em questão nos presentes autos, uma vez que o corpo da Menor falecida,

após o atropelamento, estava a 1 (uma) longa distância da zona onde se suspeita ter ocorrido o mesmo. 73. Porventura, não terá a Menor, atravessado aquele local, repentinamente, no exacto momento em que passava o veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, conduzido por M F?

74. É o mais provável, mas, também, não há qualquer certeza.

75. Por outro lado, também, não resulta de qualquer prova – 1 (uma) única sequer – produzida nos presentes autos, que a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, circulava, naquele dia, naquele momento e naquele local, de modo desatento e descuidado.

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76. Da mesma forma, também não resulta de qualquer prova constante dos presentes autos, que, na estrada onde ocorreu o acidente de viação (atropelamento) em questão, haja visibilidade, para quem conduz, em toda a sua extensão, em ambos os sentidos, bermas ou passeios

77. Toda essa prova – quer fosse documental, testemunhal ou pericial – caberia aos Autores, ora Recorridos, o que, como se predisse, jamais lograram fazer, até porque a dinâmica de tal sinistro rodoviário (atropelamento) por eles defendida, na sua Petição Inicial, era, totalmente, diferente daquela que está, agora, consagrada na Sentença recorrida.

78. Ora, não havendo prova – documental ou testemunhal – da tal factualidade, constante daqueles Factos E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida, terão, necessariamente, os mesmos que ser ou, devidamente, alterados e, consequentemente, rectificados, ou passarem a ser considerados como Factos Não Provados da referida Decisão.

79. Nesses termos, os Factos E, G e L dos Factos Provados da Sentença recorrida deverão passar a ter a seguinte redacção:

“E. Sucede que quando o A. já estava do lado contrário da faixa de rodagem, B atravessou a via.”;

“G. Sendo que 83 metros após desfazer a curva aberta da Ribeira Joana Pires, a condutora do veículo xx-xx-xx embateu na criança, quando esta atravessou a via onde circulava, atropelando-a, causando-lhe a morte.”;

“L. O local do acidente é uma recta com cerca de 200 metros, antecedida de uma curva aberta no sentido Ribeira Funda – Cedros.”.

80. Por seu turno, o Facto K dos Factos Provados da Sentença Recorrida – “K. A condutora do veículo xx-xx-xx exercia a condução do mesmo de modo desatento e descuidado.” – deverá passar a constar dos Factos Não Provados da mesma Decisão.

81. Nesse contexto, alterando-se, totalmente, aquela factualidade dada como provada nos Factos E, G, K e L dos Factos Provados da Sentença recorrida, e passando o Facto K dos mesmos a constar dos Factos Não Provados de tal Decisão, terá, obrigatoriamente, que improceder todo o raciocínio do Tribunal “a quo” exposto na Sentença recorrida.

82. Tendo, nesses termos, que ser revogada a Sentença recorrida e substituída por outra que absolva a Ré, ora Recorrente, desta Acção, e, consequentemente, dos pedidos formulados pelo Autores, ora Recorridos, na mesma, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais, com as necessárias consequências legais.

83. Na verdade, decorre de toda a prova produzida nos presentes autos, que a condutora do veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, MF, não teve culpa, nem qualquer responsabilidade, na ocorrência do referido acidente de viação (atropelamento) e que levou ao falecimento da filha dos Autores, ora Recorridos, a Menor .

84. Ora, no dia 7 de Julho de 2013, pelas 11h10m, a condutora do veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, M F, acompanhada pelo seu marido, que se encontrava no banco do passageiro dianteiro, vulgo “lugar do pendura”, daquela viatura, circulava, naturalmente, na referida via (Estrada Regional), na localidade de Cedros, concelho da Horta.

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(um) veículo motociclo na berma da mesma hemi-faixa de rodagem de circulação da sua viatura, com a matrícula xx-xx-xx.

86. Tendo, de imediato e sem que nada o fizesse prever, verificado, à sua frente, a existência de 1 (uma) sombra/mancha de cor verde na via, roupa que alguém vestia, não tendo tido tempo, nem espaço, para se desviar, dada a sua imprevisibilidade.

87. Embatendo, assim, na filha dos Autores, ora Recorridos, a Menor atropelando-a, tendo como consequência o seu falecimento.

88. Verifica-se, pois, que jamais a condutora do veículo automóvel junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, no modo e nas circunstâncias referidas, ter evitado o embate contra a Menor , dada a imprevisibilidade e a rapidez com que a mesma atravessou, naquele dia e naquele local, aquela já referida Estrada Regional.

89. Ou seja, a Menor, atenta a sua tenra idade – 7 (sete) anos –, atravessou aquela estrada no exacto momento em que a condutora do veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, , circulava naquela artéria.

90. Invadiu a faixa rodagem no exacto momento em que esta procedia à sua travessia e sem que a mesma pudesse reagir, atempadamente e prontamente, àquele súbito e inesperado atravessamento da via. 91. O acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos tem, apenas, 1 (um) único culpado: o Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida), que deixou a sua filha Menor, sozinha, na berma de 1 (uma) estrada.

92. Como se verifica pela confissão do Autores, ora Recorridos, constante do artigo 20.º da Petição Inicial, a qual se acha junta a fls. dos presentes autos, e conforme, também, expressamente, confessa o Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida), nas suas declarações de parte, em Audiência de Discussão e Julgamento –(…) –, quando diz o seguinte: (…)

93. Deixou, pois, o Autor, ora Recorrido, naquele dia, naquele local e naquele momento, a sua Filha Menor, sozinha junto à berma, mas na estrada, de 1 (uma) Estrada Regional.

94. Completamente abandonada, à mercê da sua “sorte”.

95. E foi este facto – o abandono de 1 (uma) criança de 7 (sete) anos junto à berma de 1 (uma) estrada – que fez com que ocorresse o sinistro rodoviário (atropelamento) objecto dos presentes autos, que a levou a que atravessasse aquela via para ir ter com o seu progenitor, o ora Autor, ora Recorrido, que se encontrava do outro lado da via, na berma oposta.

96. Se o Autor, ora Recorrido, não tivesse deixado a sua Filha, sozinha no outro lado da via, ter-se-ia verificado tal atropelamento?

97. É claro que não.

98. Quando o local da estrada em questão (Estrada Regional), também, não permite a passagem, o atravessamento, de peões.

99. E quando se trata de 1 (uma) criança de tenra idade, que não tem qualquer noção do risco ou do perigo em atravessar 1 (uma) qualquer via.

100. E foi esse atravessamento repentino, súbito e inesperado, daquela via por parte da Menor, que fez com que a mesma fosse atropelada pela condutora do veículo seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a

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matrícula xx-xx-xx,

101. Não tendo a mesma qualquer possibilidade de evitar o embate. 102. Ora, foi isto que o Tribunal “a quo” não valorou na Sentença recorrida.

103. Na verdade, o Tribunal “a quo” deveria ter percebido e percepcionado que, efectivamente, a referida condutora da viatura seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, nada podia mais podia fazer, perante a imprevisibilidade de tal atravessamento da Menor.

104. Bastava que o Julgador se metesse no “lugar” daquela. 105. Conseguiria fazer algo diferente do que aquela fez? 106. É claro que não.

107. Aliás, dada a imprevisibilidade e a rapidez de tal situação (atravessamento da via), a condutora do veículo seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, não teve, sequer, a possibilidade de fazer qualquer manobra que evitasse ou que, por qualquer modo, limitasse as consequências do sinistro (atropelamento) em questão.

108. Foi tudo, muito, rápido.

109. Não tendo a mesma qualquer hipótese de reacção.

110. Sendo que tal factualidade, dada a sua imprevisibilidade, não demonstra que a condutora do veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, seguisse, naquela via, desatenta e não observando as regras estradais, antes pelo contrário, uma vez que, no concreto momento do embate (atropelamento), esta parou, repentina e subitamente, a sua viatura.

111. Acresce, ainda, referir, aqui, que o acidente de viação (atropelamento), aqui, em discussão, foi, também, objecto de investigação, averiguação e decisão por parte do Ministério Público junto do Tribunal Judicial da Comarca dos Açores, designadamente da Procuradoria da Instância Local da Horta, tendo aí corrido termos o respectivo Inquérito, sob o número de Processo 183/13.0PBHRT, em que era denunciada a condutora do veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, e cujos factos ilícitos, ali, em análise integravam o tipo legal de crime de homicídio por negligência, previsto e punido pelo n.º 1 do artigo 137.º do Código Penal.

112. No âmbito desses mesmos autos de Processo-Crime, o Ministério Público, proferiu, em 16 de Janeiro de 2015, Despacho de Arquivamento, o qual se acha junto como Documento n.º 4 da Contestação, a fls. dos presentes autos.

113. Tais autos foram arquivados – e cita-se o dispositivo do referido Despacho de Arquivamento (página 3 do mesmo) – “(…) por se ter recolhido prova bastante da inexistência do crime de homicídio por negligência (…)”.

114. Aliás, em tal Despacho de Arquivamento é afirmado e defendido tudo o quanto, neste Recurso de Apelação, já se expandiu e se defendeu acerca da dinâmica do acidente de viação (atropelamento), agora, objecto dos presentes autos.

115. Com efeito, segundo aquele referido e mencionado Despacho de Arquivamento, resulta das diversas diligências de investigação realizadas no âmbito de tal Inquérito que, e cita-se – 2.º (segundo) parágrafo da página 2 (dois) do mesmo –, “(…) foi possível apurar que a menor, atenta a sua tenra idade, atravessou a estrada no exacto momento em que a denunciada circulava naquela artéria.(…)” – sublinhado e negrito da

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Ré, ora Recorrente.

116. Concluindo, assim – 3.º (terceiro) parágrafo da sua página 2 (dois) –, que “(…) não podem ser assacadas responsabilidades à denunciada, pela morte da menor faria (…) – sublinhado e negrito da Ré, ora Recorrente.

117. Isto, porque o Ministério Público, na análise factual e jurídica que fez ao acidente de viação (atropelamento) em questão, naqueles autos, considera que, aqui, se está perante a figura da auto-colocação em perigo da ofendida.

Em virtude da Menor, ter invadido a faixa de rodagem em questão (Estrada Regional, na localidade de Cedros, concelho da Horta) no exacto momento em que o veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, conduzido por MF procedia à travessia da mesma.

118. A condutora do veículo automóvel seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, não teve qualquer responsabilidade na produção do acidente de viação (atropelamento) em questão, que levou ao falecimento da Menor, mas, sim, o seu Pai, o Autor, ora Recorrido, .

119. Nesses termos, não recai sobre a Ré, ora Recorrente, enquanto seguradora daquele veículo automóvel, com a matrícula xx-xx-xx, conduzido por MF qualquer obrigação de indemnizar os Autores, ora Recorridos, em consequência de tal acidente de viação (atropelamento).

120. Pelo que, atentas estas razões, alicerçadas na prova, aqui, produzida, deve a Sentença recorrida ser revogada e substituída/alterada/modificada por outra que absolva a Ré, ora Recorrente, da presente Acção, e, consequentemente, que a absolva dos pedidos, nela, formulados pelo Autores, ora Recorridos, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais, com as necessárias consequências legais.

C.) Quanto à questão das percentagens de responsabilidade – 60% (sessenta por cento) e 40% (quarenta por cento) –, arbitradas pelo Tribunal “a quo”, pela ocorrência do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos

121. Não obstante o que se concluiu quanto à responsabilidade do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos, e sem conceder, o que só por mero dever de patrocínio jurídico se faz, importa, ainda, que a Ré, ora Recorrente, refira que, caso V. Excelências, Exmos Senhores Juízes Desembargadores, e esse Venerando Tribunal da Relação de Lisboa, decidissem manter – o que não se admite – a divisão de responsabilidades, na produção do mesmo, entre a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) por si seguro, com a matrícula xx-xx-xx, e o Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida), as percentagens a atribuir a cada 1 (um) deles deveriam ser diferentes daquelas – 60% (sessenta por cento) e 40% (quarenta por cento) –, estabelecidas pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida. 122. Pelo que, assim, a Ré, ora Recorrente, pugna pela revogação da mesma, com a consequente alteração das percentagens de responsabilidade a atribuir a cada 1 (um) daqueles intervenientes.

123. Com efeito, atenta a factualidade dada como provada no âmbito dos presentes autos, não é justo, não é correcto, não é razoável, nem é adequado, que àquela condutora seja atribuída 1 (uma) percentagem de responsabilidade na produção do acidente (atropelamento) em questão de 60% (sessenta por cento), e que ao Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida) seja atribuída, apenas e tão só, 1 (uma) percentagem de responsabilidade de 40% (quarenta por cento).

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estrada contribuiu, decisivamente, para a ocorrência de tal acidente de viação (atropelamento).

125. Sendo que aquela pouco ou nada podia ou pôde fazer, atenta a imprevisibilidade e o repentismo daquele atravessamento da via, por parte da Menor falecida, .

126. Contribui, pois, aquele outro, de 1 (uma) forma superior – muito superior – à da condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, para a produção de tal atropelamento mortal da Menor falecida,

127. Tem, indubitavelmente, o Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida) 1 (uma) maior – muito maior – responsabilidade na ocorrência daquele atropelamento, do que aquela condutora.

128. Caso contrário, nos presentes autos, está-se a beneficiar quem contribuiu decisivamente para a produção do atropelamento em questão.

129. Pelo que, caso V. Excelências, Exmos. Senhores Juízes Desembargadores, e esse Venerando Tribunal da Relação de Lisboa, concluíssem pela, efectiva, repartição de responsabilidades daqueles intervenientes na produção do sinistro rodoviário (atropelamento) objecto dos presentes autos, a percentagem relativa ao Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida) deveria ser, conforme se predisse, numa outra ordem de grandeza.

130. Numa percentagem entre 70% (setenta por cento) a 80% (oitenta por cento).

131. Sendo, assim e consequentemente, atribuída à condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, 1 (uma) percentagem de responsabilidade de 20% (vinte por cento) a 30% (trinta por cento).

132. E, desse modo, a Ré, ora Recorrente, condenada, enquanto seguradora daquela, a pagar aos Autores, ora Recorridos, as respectivas indemnizações, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais, nessas mesmas percentagens de responsabilidade – 20% (vinte por cento) a 30% (trinta por cento) –, atribuídas àquela condutora.

133. Caso V. Excelências, Exmos. Senhores Juízes Desembargadores, e esse Venerando Tribunal da Relação de Lisboa, também, assim, não o entendam, deverão, no entanto, ser fixadas outras percentagens de responsabilidade – que não as constantes na Sentença recorrida – na produção do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos entre a condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, e o Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida, ), ora Recorrido.

134. Numa maior percentagem de responsabilidade a atribuir a este do que àquela.

135. E, desse modo, a Ré, ora Recorrente, condenada, a pagar aos Autores, ora Recorridos, as respectivas indemnizações, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais, nessas percentagens de responsabilidade da condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) por si seguro, com a matrícula xx-xx-xx, a fixar no Acórdão a proferir por V. Excelências, Exmos. Senhores Juízes.

136. Pelo que, nesses termos, deve a Sentença recorrida ser revogada e ser, assim, consequentemente, substituída/alterada por outra que consagre o, aqui, peticionado.

D.) Quanto às indemnizações globais arbitradas pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais

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patrocínio jurídico se faz, importa, ainda, que a Ré, ora Recorrente, caso não se desse provimento ao que se peticionou, se pronuncie sobre outra questão que, no seu entendimento, sempre mereceria a revogação da Sentença recorrida e a sua, consequente, alteração ou modificação.

138. A qual incide sobre os concretos valores arbitrados pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais.

139. Com efeito, e independentemente das percentagens de responsabilidade atribuídas na produção do acidente de viação (atropelamento) objecto dos presentes autos, à condutora do veículo automóvel (ligeiro de mercadorias) seguro junto da Ré, ora Recorrente, com a matrícula xx-xx-xx, – 60% (sessenta por cento) –, e ao Autor, ora Recorrido, Faria (Pai da Menor falecida, ) – 40% (quarenta por cento) –, o Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, arbitrou, as seguintes indemnizações globais, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais: €: 75.000,00 (setenta e cinco mil euros), a título de indemnização pelo dano morte da Menor, (danos não patrimoniais); €: 5.000,00 (três mil euros), a título de indemnização pelos danos sofridos pela Menor falecida, no momento que antecedeu a sua morte (danos não patrimoniais); €: 40.00.000,00 (quarenta mil euros), ao Autor, ora Recorrido, a título de indemnização por danos não patrimoniais atinentes ao sofrimento pelo mesmo sentido com a morte da sua Filha Menor, (danos não patrimoniais); €: 40.00.000,00 (quarenta mil euros), à Autora, ora Recorrida, a título de indemnização por danos não patrimoniais atinentes ao sofrimento pelo mesmo sentido com a morte da sua Filha Menor, danos não patrimoniais); €: 1.261,82 (mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos), a título de indemnização por danos patrimoniais, ou seja, com as despesas com o funeral da Menor, (danos patrimoniais).

140. À excepção daqueles €: 75.000,00 (setenta e cinco mil euros), fixados, pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, a título de indemnização pelo dano morte da Menor, (danos não patrimoniais), todos os outros – €: 5.000,00 (três mil euros) + 40.00.000,00 (quarenta mil euros) + €: 40.000,00 (quarenta mil euros) + €: 1.261,82 (mil duzentos e sessenta e um euros e oitenta e dois cêntimos) – são os pedidos formulados, pelos Autores, ora Recorridos, nos presentes autos.

141. O Tribunal “a quo” arbitra, pois, na Sentença recorrida, a título de danos patrimoniais e de danos não patrimoniais, naqueles 4 (quatro) “ítems”, tudo aquilo que é peticionado, nos presentes autos, pelos Autores, ora Recorridos, ou seja, decidiu julgar, totalmente, procedentes, todos os seus pedidos.

142. O que não deixa de ser, muito, estranho, atenta a prova produzida, quanto aos mesmos.

143. Sucede, no entanto, que tais indemnizações, arbitradas pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, a título de danos não patrimoniais, são, na verdade, manifestamente, desajustadas, exageradas, desmedidas, desmesuradas, exorbitantes, imoderadas e desproporcionais.

144. Com efeito, a Jurisprudência tem fixado, para casos similares ao que se discute nos presentes autos, valores muito inferiores àqueles que foram arbitrados, agora, pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, designadamente os que respeitam aos danos não patrimoniais (danos morais) de cada 1 (um) dos Autores, ora Recorridos – €: 40.00.000,00 (quarenta mil euros) + €: 40.00.000,00 (quarenta mil euros).

145. Veja-se, por exemplo, o Acórdão do Venerando Tribunal da Relação de Évora, proferido em 19 de Novembro de 2019, no âmbito do Processo n.º 216/13.0GTSTB.E1, em que foi Relator o Exmo. Senhor Juiz Desembargador, José Maria Martins Simão, e o Acórdão do Venerando Tribunal da Relação do Porto,

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proferido em 6 de Novembro de 2019, no âmbito do Processo n.º 1231/16.7GAMAI.P1, em que foi Relator o Exmo. Senhor Juiz Desembargador, Moreira Ramos, ambos disponíveis em www.dgsi.pt.

146. Pelo que as referidas indemnizações arbitradas, na Sentença recorrida, pelo Tribunal “a quo”, a título de danos não patrimoniais, designadamente aquelas fixadas a cada 1 (um) dos Autores, ora Recorridos – €: 40.000,00 + €: 40.000,00 –, devem ser ajustadas, diminuindo-se tais montantes, por juízos de equidade, tendo em conta o que os Tribunais superiores têm decidido em casos semelhantes.

147. Se, assim, também, não se entender, deve ser efectuada 1 (uma) discriminação positiva nas quantias fixadas, na Sentença, pelo Tribunal “a quo”, a cada 1 (um) dos Autores, ora Recorridos – €: 40.000,00 + €: 40.000,00 –, a título de danos não patrimoniais, devendo a indemnização fixada à Autora, ora Recorrida, (Mãe da Menor falecida), ser maior do que a atribuída ao Autor, ora Recorrido, (Pai da Menor falecida). 148. Descendo-se, assim, aquela quantia – €: 40.000,00 (quarenta mil euros) – arbitrada ao mesmo, pelo Tribunal “a quo”, na Sentença recorrida, a título de danos não patrimoniais, uma vez que, dada a sua responsabilidade na produção de tal sinistro (atropelamento), não é justo que o mesmo tenha 1 (uma) indemnização, àquele título, igual à da Autora, ora Recorrida, (Mãe da Menor falecida), que nada contribuiu para a sua ocorrência

149. Estaria, assim, o mesmo a ser beneficiado em relação àquela, em virtude do seu culposo comportamento em tal sinistro rodoviário (atropelamento).

150. Nesses termos, deve ser julgado, totalmente, procedente o presente Recurso de Apelação, nos termos e com os fundamentos ora invocados e peticionados pela Ré, ora Recorrente, em sede de Alegações. Termos em que, deve ser dado provimento ao presente Recurso de Apelação, revogando-se a Sentença recorrida, como é de Lei e de Justiça.

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Também inconformados, apelaram os autores, terminando a alegação com estas conclusões: A - Da impugnação da matéria de facto provada na sentença:

1. Os Apelantes impugnam, nos termos do art.º 640º do CPC, a decisão que recaiu sobre a matéria de facto constante dos pontos B, D e I dos Factos provados e a constante do ponto 1. dos Factos não provados. 2. Os Factos Provados B e D deverão ter a seguinte redacção:

“B. Circularam na Estrada Regional no sentido Cedros – Ribeira Funda e, entre as 10h00 e as 11h10m, pararam ao Km29 da referida estrada, junto à berma do lado direito atento o sentido de marcha em que seguiam, para conversar com H.., padrinho da B.. e amigo do A, que lhe pediu ajuda para segurar um vitelo.

D. Nesse instante, já H.. não se encontrava junto a este e à criança e não havia qualquer veículo a circular nem estacionado ao longo de uma extensão de cerca 200 metros daquela estrada, nem qualquer outro obstáculo à visibilidade sobre aquela estrada”.

3. Tal fundamenta-se no depoimento do Apelante e da testemunha H.. (depoimento deste ao minuto 03:00), sendo relevante esta precisão para demonstrar, ainda mais, que H.. não só não tinha a carrinha estacionada na via, como também ele não estaria nem na carrinha nem na via onde circulava a condutora do veículo SS.

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“I. A condutora do veículo xx-xx-xx não travou nem desviou o seu sentido de marcha, tendo B… sido arrastada por 32,8 metros, após o que saiu por baixo do veículo xx-xx-xx e tendo B… ficado, inanimada, no meio da faixa de rodagem e em cima da linha divisória das duas hemi-faixas, tendo então a condutora imobilizado a sua marcha a 7,7 metros do local onde ficou imobilizado o corpo da criança”.

5. Pelo depoimento do Apelante Rúben, e das testemunhas H… (…) M.F. e o agente da PSP Ildo Pereira (…), não restam dúvidas que a posição final do corpo da B…, após o embate, foi no ponto A (inspecção ao local), ou seja, mesmo em cima da linha divisória das duas faixas de rodagem.

6. O Ponto 1. dos Factos Não Provados deverá ser considerado como provado e ter a seguinte redacção: “A condutora do veículo xx-xx-xx, nas circunstâncias de tempo e lugar supra referidas, circulava com as rodas do lado esquerdo do veículo a ocuparem a hemi-faixa contrária ao seu sentido de marcha”.

7. O veículo SS circulava numa recta com cerca de 200 metros de extensão, com total visibilidade em toda a extensão, em ambos os sentidos (ponto Provado L) e “não havia qualquer veículo a circular nem estacionado ao longo de uma extensão de cerca 200 metros daquela estrada, nem qualquer outro obstáculo à visibilidade sobre aquela estrada” (ponto Provado D), o que, segundo as regras da experiência comum, permite, numa via com a largura total de cerca de 6 m, que os veículos circulem normalmente no meio da via, com as rodas esquerdas a invadir (pouco ou muito) a faixa contrária. A MF nunca viu a B.., pelo que não tinha motivos para agir de forma diferente.

8. As declarações do Apelante são precisas no sentido da B… ter sido embatida quando estava mais ou menos na linha divisória das duas faixas de rodagem (…); que o embate foi mais ou menos a meio da frente do veículo SS e que este quando embateu e ao longo dos 32,8 metros seguintes foi sempre com as rodas esquerdas a invadir a faixa contrária. “Mantinha-se a meio da coisa. Tenho ideia disso”, afirmou Rúben.

9. Também H.. e I… não tiveram dúvidas quanto à posição final do corpo da B..: “Mais ou menos a meio da estrada” e “No meio, no meio da via”.

10. Acresce que ficou provado que “I. A condutora do veículo xx-xx-xx não travou nem desviou o seu sentido de marcha, tendo B.. sido arrastada por 32,8 metros, após o que saiu por baixo do veículo xx-xx-xx...”

11. Ora, se ficou assente que a posição final do corpo da B… ficou no meio da via, em cima da linha divisória, e se a condutora do veículo SS “não desviou o seu sentido de marcha” desde que embateu na B… até o corpo desta ter saído por baixo do veículo, a conclusão óbvia que o Tribunal “a quo” deveria ter retirado é que o embate do veículo SS na B… ocorreu quando esta estava em cima da linha divisória das duas hemi-faixas, ou seja, no local I da marcação efectuada na inspecção ao local. Pesa neste sentido a credibilidade dada pelo Tribunal ao depoimento do Apelante e, em sentido contrário, às incongruências de todo o depoimento de MF.

12. O corpo da B foi levado pelo veículo “por 32,8 metros”. Para tal acontecer o embate nunca poderia ter sido apenas com a frente esquerda do veículo, porque se assim fosse a B… teria sido projectada para a esquerda do veículo e nunca poderia ter sido arrastado por este.

13. Aliás quer o R..quer MF..(esta por referência a uma bola verde) afirmam que a B.. subiu o capô do veículo SS (…). Para arrastar a B.. por 32,8 metros, o embate teria que necessariamente ter sido mais ou

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menos a meio do veículo, mais centímetros ou menos centímetros. Mas nunca poderá ser numa das laterais.

14. Assim, necessariamente as rodas esquerdas do veículo SS estariam a invadir a faixa contrária, poucos ou muitos centímetros, mas sempre na faixa contrária, daí que deverá ser considerado provado que a condutora do veículo xx-xx-xx, nas circunstâncias de tempo e lugar supra referidas, circulava com as rodas do lado esquerdo do veículo a ocuparem a hemi-faixa contrária ao seu sentido de marcha.

15. Caso o Tribunal “a quo” tivesse considerado como provados os factos como acima se requer, necessariamente deveria, na distribuição das responsabilidades pelo acidente fixar a responsabilidade da condutora do veículo SS em 100% ou muito próximo desta percentagem, pois para além da violação das normas estradais referidas na sentença, MF, conduzia o veículo SS na faixa de rodagem contrária, em violação do disposto no artigo 13º, nº 1, do Código da Estrada (CE): “A posição de marcha dos veículos deve fazer-se pelo lado direito da faixa de rodagem, conservando das bermas ou passeios uma distância suficiente que permita evitar acidentes”.

16. A matéria de facto deverá ser alterada em conformidade com o acima exposto, sob pena de violação dos artigos 413º e 662º, nº 1, do Código do Processo Civil.

B - Recurso sobre a decisão relativa à matéria de direito:

17. Mesmo admitindo que a matéria de facto fixada na sentença se mantenha inalterada, a mesma deveria sempre: a) Quanto à culpa do lesado, nos termos do artigo 570º do Código Civil, deveria concluir que a causalidade do acidente deve ser imputada na proporção nunca superior a 10% para o pai da B.. e nunca inferior a 90% para a condutora do veículo SS; b) e deveria fixar a indemnização pelo dano morte no mínimo de € 100.000,00.

- Culpa do lesado (artigo 570º CC):

18. A sentença recorrida fundamenta e sustenta a responsabilidade e o contributo da condutora do veículo SS para o acidente (vide todas as citações da sentença acima efectuadas), mas, de forma contraditória, apenas imputa 60% da responsabilidade para a mesma, quando deveria, pelo menos, atribuir 90%.

19. A sentença recorrida fundamentou bem a negligencia grosseira da condução exercida por MF, que não conseguiu ver o único elemento estranho àquela recta de 200 m, a B.., menina alta e obesa para a idade que vestia e calçava roupa florescente, mas não adequou a responsabilidade da condutora de forma proporcional às circunstâncias do caso concreto e não aquilatou a maior intensidade dos riscos próprios da circulação do veículo e a sua concreta relevância causal para o acidente.

20. A condutora, pelo menos desde aquela curva não viu sequer a via onde circulava, estando certamente atenta às novidades do jornal que o marido estava a ler ao seu lado. A condutora se visse a B.. desde o início, como era sua obrigação, teria sempre evitado o acidente, independentemente da circulação atenta ou não da B.

21. Com a sua circulação desatenta e negligente, a condutora violou, de forma ostensiva e grosseira, as regras estradais previstas nos artigos 3º, nº 2, 11ª, nºs 2 e 3, 24º, nº 1, e 25º do CE, subsunção integral que deveria ter sido efectuada pela sentença recorrida.

22. É certo que os peões deverão atravessar as vias “com prudência e por forma a não prejudicar o trânsito de veículos” – artigo 99.º, n.º 2 al. a) CE - mas na situação dos autos, por mais cuidado que a B.. tivesse no

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atravessamento da via seria sempre atropelada, pois a condutora do veículo SS nunca a viu, quando tal estava ao seu alcance desde que fez a curva antecedente a mais de 80 metros.

23. Uma criança na berma da estrada já é um utilizador vulnerável, que deverá ser alvo da maior atenção e cuidado pelos condutores dos veículos. Então uma criança a atravessar uma recta com cerca de 200 m, com total visibilidade, ainda mais cuidado se deverá exigir aos condutores dos veículos.

24. Este não é nenhum caso de criança que sai a correr detrás de autocarro, ou que atravessa a via numa curva ou em local com trânsito ou sem visibilidade.

25. Nenhum contributo a B.. teve para o embate do veículo SS, a não ser estar no local errado na hora em que MF exercia a condução desatenta e com negligência grosseira, e não apenas “inconsciente” como referido na sentença.

26. No caso concreto, a acção da B teve diminuta relevância e contribuição para o resultado ou lesões sofridas, pelo que a proporção da responsabilidade pelo acidente deverá ser no mínimo de 90% para a condutora do veículo SS e nunca deverá ultrapassar os 10% para o Apelante (pai), sob pena de violação das seguintes normas:

- artigos 491º, 496º e 570º CC;

- artigos 3º, nº 2, 11ª, nºs 2 e 3, 24º, nº 1, e 25º CE - Dano morte / direito à vida:

27. Os € 75.000,00 fixados pela sentença para compensação do dano morte é, neste caso, pouco, muito pouco. Não se compreende que a sentença recorrida tenha feito referência a diversa jurisprudência do STJ, não muito recente, que em muitos casos o dano pela perda do direito à vida chega aos € 100.000,00 (cem mil euros) e não tenha fixado este valor, supostamente máximo (o que não se compreende), neste caso da B.

28. Como referido pelo Ac STJ de 29-10-2013 - Procº 62/10.2TBVZL.C1.S1III - A jurisprudência tem avançado no sentido de uma crescente valorização do direito à vida, atribuindo valores que geralmente oscilam entre os € 50 000 e os € 80 000, chegando mesmo atingir os € 100 000 para vítimas ainda jovens”. 29. A indemnização fixada pela sentença não é consentânea com os factos provados da mesma de W a KK nem com a crescente valorização do direito à vida que tem se verificado na última década.

30. O que se espera de uma menina de 7 anos de idade, com esta saúde, vitalidade, alegria, cheia de energia, afável e muito sociável? O juízo de prognose terá que, necessariamente, ser o mais auspicioso. E o Tribunal “a quo” não considerou esta questão, quando deveria.

31. Ora, se já em 2013 o STJ refere que as indemnizações por dano morte atingem os € 100.000, precisamente para vítimas ainda jovens, e que, em 2013, a “jurisprudência tem avançado no sentido de uma crescente valorização do direito à vida”, significa que em 2019 (ano da sentença) os € 100.000,00 para uma criança que fez de 7 anos no dia anterior ao da morte, esta quantia deveria ser normal, justa e equitativa em relação à B, sob pena de violação dos artigos 24º, nº 1, CRP, 70º, nº 1, 496.º, n.º3, e 494.º do CC.

32. Pelo exposto, nesta parte a sentença deverá ser revogada e substituída por decisão que fixe o dano morte em € 100.000,00 (cem mil euros).

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*

Não há contra-alegações. *

Colhidos os vistos, cumpre decidir. II - Questões a decidir

O objecto do recurso é delimitado pelas conclusões das alegações dos apelantes, pelo que as questões a decidir são:

- se deve ser alterada a decisão sobre a matéria de facto - responsabilidade pela eclosão do acidente

- se os autores têm direito a ser indemnizados por danos patrimoniais e não patrimoniais e quais os valores a fixar

*

III - Fundamentação

A) Na sentença recorrida vem dado como provado:

A. No dia 7 de Julho de 2013, pelas 9h00, a B. saiu com o pai (o A. ) de motociclo para ver os animais e passear.

B. Circularam na Estrada Regional no sentido Cedros – Ribeira Funda e, entre as 10h00 e as 11h10m, pararam ao Km29 da referida estrada, junto à berma do lado direito atento o sentido de marcha em que seguiam, para conversar com um amigo do A. que lhe pediu ajuda para segurar um vitelo.

C. Como o motociclo não tinha suporte para estacionar, e daquele lado onde pararam não havia qualquer muro, barreira, passeio ou estacionamento, o A. disse à criança para ficar junto à berma, mas na estrada, enquanto o mesmo ia colocar o motociclo do outro lado da faixa de rodagem, encostado ao muro que aí existe.

D. Nesse instante, já o amigo do A. não se encontrava junto a este e à criança e não havia qualquer veículo a circular nem estacionado ao longo de uma extensão de cerca 200 metros daquela estrada, nem qualquer outro obstáculo à visibilidade sobre aquela estrada.

E. Sucede que quando o A. já estava do lado contrário da faixa de rodagem (àquele onde deixou a criança) a encostar o motociclo ao muro, B iniciou o atravessamento da via.

F. Nesse momento, circulava na referida Estrada Regional, no sentido Ribeira Funda – Cedros, o veículo de matrícula xx-xx-xx, conduzido por MF acompanhada esta pelo seu marido, que se encontrava no banco dianteiro de passageiro.

G. Sendo que 83 metros após desfazer a curva aberta da Ribeira Joana Pires e quando a B.. já tinha atravessado a hemi-faixa de rodagem contrária ao sentido de circulação do veículo xx-xx-xx, a condutora do mesmo embateu na criança, atropelando-a, causando-lhe a morte.

H. O A. apercebendo-se da aproximação do veículo xx-xx-xx, quando olhou para trás vê o embate e já não teve tempo para qualquer reacção senão gritar e correr atrás do veículo xx-xx-xx para alcançar a B... I. A condutora do veículo xx-xx-xx não travou nem desviou o seu sentido de marcha, tendo B.. sido arrastada por 32,8 metros, após o que saiu por baixo do veículo xx-xx-xx, tendo então a condutora imobilizado a sua marcha a 7,7 metros do local onde ficou imobilizado o corpo da criança.

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J. A condutora do veículo xx-xx-xx ao longo da sua marcha nunca avistou a B, só se tendo apercebido de que atropelara uma criança depois de imobilizar o seu veículo e dele sair.

K. A condutora do veículo xx-xx-xx exercia a condução do mesmo de modo desatento e descuidado. L. O local do acidente é uma recta com cerca de 200 metros, antecedida de uma curva aberta no sentido Ribeira Funda – Cedros, a qual após desfeita permite total visibilidade em toda a sua extensão, em ambos os sentidos, bermas e passeios.

M. A faixa de rodagem tem 6,10 metros de largura, permitindo o trânsito em dois sentidos, e cada hemi-faixa mede 3,05 metros, estando separadas com linhas divisórias descontínuas de cor branca.

N. O local é ladeado de terrenos e de casas de habitação e tem passeio para peões e estacionamento, mas estes apenas no sentido de marcha do veículo xx-xx-xx (sentido Ribeira Funda – Cedros).

O. Do lado contrário (sentido Cedros/Ribeira Funda) não há passeio. Há apenas berma com relva e 2 postes de madeira para suporte de linhas telefónicas.

P. No momento do embate o piso, de asfalto e em bom estado de conservação, encontrava-se limpo e seco e não existia chuva, névoa ou neblina.

Q. No local o limite de velocidade é de 50 Km/h.

R. À data do embate, a B… trajava um fato de treino de cor verde fluorescente e uns sapatos cor-de-rosa e tinha uma compleição física alta e com excesso de peso para a sua idade.

S. A B.. depois do embate sofreu fortes dores, medo e angústia, tendo sido alvo de várias tentativas de reanimação.

T. Porém, todas goradas, vindo o seu óbito a ocorrer às 11h10m do dia 07.07.2013.

U. Do relatório de autópsia realizado ao corpo de B.. resulta o seguinte teor, no item designado por Discussão:

“Observou-se na autópsia de B um conjunto de lesões traumáticas externas e internas, atingindo sobretudo o Tórax e o Abdómen, que pressupõem o embate violento contra uma superfície dura, existindo, pois, um nexo de causalidade entre as lesões descritas e as circunstâncias em que se deu a morte – atropelamento. A morte sobreveio em pouco tempo por rotura de vísceras Toraco-Abdominais e consequente hemorragia interna maciça. Muito provavelmente já deveria estar inconsciente devido ao traumatismo crânio-encefálico.”.

V. Do relatório de autópsia realizado ao corpo de B resulta o seguinte teor, no item designado por Conclusão:

“1.ª – É de admitir que a morte de B.. tenha sido devida a hemorragia interna provocada por traumatismo toraco-abdominal.

2ª – As lesões pleuro-pulmonares e hepáticas e esplénicas observadas são causa adequada de morte. 3ª – As lesões traumáticas descritas foram provocadas por acidente de viacção – atropelamento. 4ª – Os elementos necrópsicos constatados são compatíveis com uma etiologia acidental. 5ª – A pesquisa de álcool no sangue revelou-se negativa.”.

W. A B era e é a única filha dos AA. e nasceu em 06.07.2006.

X. Até à data do embate a B gozava de boa saúde e não tinha qualquer defeito físico. . Y. Era uma menina alegre, cheia de energia, afável e muito sociável.

Referências

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