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Panorama Macroeconômico

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Academic year: 2021

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FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS

Artigos

Leda Maria Paulani analisa a contribuição de Celso Furtado, principalmente em relação ao conceito de subdesenvolvimento, que deve ser entendido não como uma etapa do processo de desenvolvimento, mas como um tipo específico de desenvolvimento.

Antonio Lanzana e Luiz Martins Lopes partem de uma decomposição do investimento agregado em público e privado, analisando seus principais condicionantes. Concluem que a redução dos gastos de custeio é fundamental para aumentar a capacidade de investimento público e estimular o investimento privado.

Panorama Macroeconômico

Segundo a carta Fipe, após um desfavorável ano de 2003, o ano de 2004 teve um

desempenho econômico bem mais promissor. Rodrigo Celoto destaca que, apesar do crescimento do PIB e da inflação, houve aumento

da carga tributária nos primeiros dez meses deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado. Roberto Troster reitera que, na análise dos juros, é dado destaque exagerado à taxa Selic, apesar da maior importância da taxa de longo prazo, que depende do desempenho da economia e das finanças públicas. Hélio Nogueira da Cruz comenta o desempenho do setor externo em 2004, prevendo que as exportações podem chegar a US$ 100 bilhões no próximo ano. Fernando Homem de Melo destaca a última previsão da safra 2004/05 de 132 milhões de toneladas, com crescimento significativo sobre a safra anterior, apesar da queda de preços da soja, algodão e milho no mercado internacional e da valorização do Real. Manuel Enriquez Garcia comenta os números mais recentes sobre o Produto Interno

Bruto, tanto por setores como pela ótica da demanda agregada. Destaca também a evolução da produção industrial e do emprego.

ISSN 1234-5678

Nº 291 Dezembro / 2004

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INFORMAÇÕES FIPE É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL DE CONJUNTURA ECONÔMICA DA FUNDAÇÃO

ISSN 1234-5678

CONSELHO CURADOR

Maria Cristina Cacciamali (Presidente) André Franco Montoro Filho Carlos Antonio Luque Carlos Roberto Azzoni Hélio Nogueira da Cruz

Ricardo Abramovay Simão Davi Silber DIRETORIA

DIRETOR PRESIDENTE

José Paulo Z. Chahad DIRETOR DE PESQUISA

Antonio Evaldo Comune DIRETOR DE CURSOS

Antonio Carlos Coelho Campino PÓS-GRADUAÇÃO

Fabiana Fontes Rocha SECRETARIA EXECUTIVA

Domingos Pimentel Bortoletto COORDENAÇÃO DE PUBLICAÇÕES - SUPERVISÃO EDITORIAL E PRODUÇÃO

Eny Elza Ceotto EDITOR CHEFE

Heron C. E. do Carmo CONSELHO EDITORIAL

Ivo Torres Lenina Pomeranz Luiz Martins Lopes José Paulo Z. Chahad Maria Cristina Cacciamali Maria Helena Pallares Zockun Simão Davi Silber ASSISTENTES

Maria de Jesus Soares Luis Dias Pereira PROGRAMAÇÃO VISUAL E COMPOSIÇÃO

Sandra Vilas Boas

Nº 291 DEZEMBRO DE 2004

AS IDÉIAS E OPINIÕES EXPOSTAS NOS ARTIGOS SÃO DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DOS AUTORES, NÃO REFLETINDO A OPINIÃO DA FIPE

PANORAMA MACROECONÔMICO

carta Fipe ... 3

finanças públicas ... 4 RODRIGO RODRIGUES CELOTO

política monetária ... 6 ROBERTO LUIS TROSTER

setor externo ... 8 HÉLIO NOGUEIRADA CRUZ

agricultura ... 9 FERNANDO HOMEMDE MELO

nível de atividade e emprego ... 10 MANUEL ENRIQUEZ GARCIA

ARTIGOS 12 ... Celso Furtado e a dialética do desenvolvimento

LEDA MARIA PAULANI 14 ... crescimento sustentado e investimentos públicos e privados

em 2004 e próximos anos

ANTONIO LANZANA, LUIZ MARTINS LOPES 18 ... inflação em 2004 e perspectiva para 2005

HERON CARLOS ESVAELDO CARMO 21 ... o agronegócio nos estados brasileiros

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panorama macroeconômico

carta Fipe

Após um desfavorável ano de 2003, com um cresci-mento do PIB de apenas 0,5%, o ano de 2004 termina muito melhor do que começou. Apesar das críticas e consideráveis controvérsias referentes à política mo-netária (juros) e outros aspectos da política econômica do governo federal, o fato é que 2004 foi um excelente ano. Com um crescimento esperado da ordem de 5,0% (Relatório de Mercado do Banco Central), o ano ruim de 2003 fica para trás. As principais dúvidas que agora surgem estão ligadas ao provável desempenho econômico em 2005.

Outro favorável e importante indicador é o desempre-go, que caiu significativamente neste ano. No último mês de outubro, a taxa foi de 10,9%, com uma queda de 2,4% em relação ao mesmo mês do ano passado. Apesar de ser uma ótima notícia do ponto de vista social, se adicionarmos o crescimento da PEA de 1,8% no período, o aumento do produto por trabalhador nesse ano foi zero. Isto é, o emprego cresceu muito porque a produtividade não cresceu nada.

É provável que o indicador mais positivo da economia em 2004 tenha sido o crescimento do investimento, bem acima do crescimento do produto. Enquanto o PIB, no terceiro trimestre, cresceu 6,12% relativa-mente ao mesmo trimestre de 2003, a formação bruta de capital fixo cresceu 20,13%. Adicionalmente, no terceiro trimestre, o produto cresceu 1,04% em relação ao segundo, enquanto a formação bruta de capital fixo cresceu 6,73%. Isto indica que a taxa de investimento

positivo no crescimento do produto potencial, em es-pecial no aumento da produtividade em um momento seguinte. O crescimento econômico brasileiro a médio prazo dependerá disso; entretanto, dois grandes pro-blemas ainda existem com respeito aos investimentos e ainda não foram solucionados. O primeiro se refere aos investimentos em infra-estrutura, que estão aquém do desejado, mais por uma questão de falta de iniciativas governamentais e problemas de regulação. O segundo é a construção civil, que só deverá decolar em uma situ-ação de menores taxas de juros, de modo que o sistema financeiro se interesse por esse mercado de crédito. Falando em taxa de juros, dia 15 deste mês, o Banco Central aumentou a taxa SELIC para 17,75%, a maior desde 2003. Isto é relevante no contexto dos investi-mentos em infra-estrutura, pois esta decisão acarretará um aumento de R$ 2,29 bilhões na dívida pública, não contando os aumentos dos últimos meses.

A expectativa de crescimento para 2005, como indi-cada pelo Relatório de Mercado do Banco Central, é de 3,50%. Aí está um ponto interessante: de um lado estão aqueles que acreditam que um crescimento de 3,5%, para uma economia sem capacidade ociosa e depois de um ano de crescimento de 5,0%, seria um excelente desempenho, um dos melhores dos últimos 20 anos; de outro lado, vários analistas argumentam que o país deve e até pode crescer mais que essa taxa de 3,5%. Para isso, mudanças na política macro

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dez emb ro de 2004 janeiro-outubro 2003 2004 04/03% Receita Total 291.780 341.542 17,1% Receitas do Tesouro 229.125 267.722 16,8% Receita da Previdência 61.864 72.854 17,8% Transferências 49.902 54.994 10,2% Receita Líquida 241.879 286.548 18,5% Despesa Total 198.994 235.535 18,4% Pessoal e encargos 62.467 68.613 9,8% Benefícios previdenciários 80.792 95.107 17,7% Custeio e Capital 54.319 70.182 29,2%

Transferências ao Banco Central 432 495 14,6% Despesas do Banco Central 984 1.138 15,7% Resultado Primário Gov. Central 42.885 51.014 19,0%

Tesouro Nacional 62.005 73.439 18,4%

Previdência Social (18.928) (22.254) 17,6%

Banco Central (192) (171) -10,9%

Resultado Primário Governo/PIB 3,45% 3,66% 6,1%

RODRIGO RODRIGUES CELOTO (*)

finanças públicas

Resultado do Tesouro Nacional

O crescimento nominal da receita total nos primeiros dez meses do ano foi de 17,1% contra os dez meses do ano anterior, saltando de R$ 291.8 bilhões para R$ 341.5 bilhões. A receita do Tesouro cresceu 16,8% e a da previdência cresceu 17,8%. Considerando que a inflação acumulada em 12 meses até outubro foi de 7%, e que o PIB cresceu em torno de 6%, houve um aumento da carga tributária federal.

As transferências aumentaram 10,2%, resultando num crescimento da receita líquida de 18,5%, ou seja, passou de R$ 241.9 bilhões para R$ 286.5 bilhões. As despesas, por sua vez, cresceram 18,4%, sendo tal crescimento resultante das despesas com pessoal e encargos (9,8%), com benefícios previdenciários (17,7%) e com custeio e capital (29,2%).

O resultado primário do Governo Central saltou de R$ 42.9 bilhões nos primeiros dez meses do ano passado para R$ 51 bilhões no mesmo período do ano em cur-so, ou seja, um crescimento de 19%. Do resultado pri-mário nos dez primeiros meses, o Tesouro contribuiu com um superávit de R$ 73.4 bilhões e a Previdência com um déficit de R$ 22.2 bilhões.

Necessidade de Financiamento do Setor Público

O superávit primário do setor público nos primeiros dez meses do ano, pelo critério abaixo da linha, foi de R$ 78 bilhões ou 5,6% do PIB, o que representa um aumento em relação aos R$ 64 bilhões ou 5,15% do PIB do mesmo período do ano de 2003.

Fonte: STN.

tabela 1 - resultado do Tesouro Nacional - R$ milhões

Os juros nominais dos dez primeiros meses do ano foram menores que os do mesmo período do ano passado, caindo de 123.7 bilhões (9,94% do PIB) para R$ 106.4 bilhões (7,63% do PIB).

O resultado nominal no período janeiro/outubro de 2004 é um déficit de R$ 28.4 bilhões (2% do PIB) contra R$ 60 bilhões (4,8% do PIB) no mesmo período de 2003.

Para o ano de 2005, o superávit primário de 4,25% será mais do que suficiente para o cenário esperado de crescimento de 3,5%, juros reais de 9% e dívida/PIB de 5%, o que irá resultar numa queda em torno de 1,5% da dívida/PIB, e será o segundo ano consecutivo de queda da relação dívida/PIB.

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R$ milhões Correntes % PIB

2003 2004 2003 2004

Discriminação Jan-Out Ano Jan-Out Jan-Out Ano Jan-Out

Nominal 59 694 79 032 28 398 4,80 5,22 2,04 Governo central 43 897 62 153 12 356 3,53 4,10 0,89 Governo federal1/ 46 570 74 065 16 087 3,74 4,89 1,15 Bacen -2 673 -11 912 -3 731 -0,21 -0,79 -0,27 Governos regionais 21 196 27 002 27 870 1,70 1,78 2,00 Governos estaduais 17 383 22 936 22 522 1,40 1,51 1,61 Governos municipais 3 813 4 067 5 349 0,31 0,27 0,38 Empresas estatais -5 400 -10 123 -11 828 -0,43 -0,67 -0,85

Empresas estatais federais -3 126 -7 834 -12 663 -0,25 -0,52 -0,91 Empresas estatais estaduais -2 275 -2 311 727 -0,18 -0,15 0,05

Empresas estatais municipais 1 21 108 0,00 0,00 0,01

Juros nominais 123 729 145 205 106 370 9,94 9,58 7,63 Governo central 87 969 100 896 65 374 7,07 6,66 4,69 Governo federal1/ 90 834 113 003 69 276 7,30 7,46 4,97 Bacen -2 865 -12 107 -3 903 -0,23 -0,80 -0,28 Governos regionais 33 817 40 824 44 298 2,72 2,69 3,18 Governos estaduais 28 753 34 851 37 738 2,31 2,30 2,71 Governos municipais 5 064 5 973 6 560 0,41 0,39 0,47 Empresas estatais 1 942 3 484 -3 302 0,16 0,23 -0,24

Empresas estatais federais 893 1 763 -6 301 0,07 0,12 -0,45

Empresas estatais estaduais 849 1 482 2 828 0,07 0,10 0,20

Empresas estatais municipais 201 239 171 0,02 0,02 0,01

Primário -64 035 -66 173 -77 971 -5,15 -4,37 -5,59 Governo central -44 072 -38 744 -53 018 -3,54 -2,56 -3,80 Governo federal -63 192 -65 343 -75 443 -5,08 -4,31 -5,41 Bacen 192 195 171 0,02 0,01 0,01 INSS 18 928 26 405 22 254 1,52 1,74 1,60 Governos regionais -12 621 -13 821 -16 427 -1,01 -0,91 -1,18 Governos estaduais -11 370 -11 916 -15 216 -0,91 -0,79 -1,09 Governos municipais -1 250 -1 906 -1 211 -0,10 -0,13 -0,09 Empresas estatais -7 342 -13 608 -8 526 -0,59 -0,90 -0,61

Empresas estatais federais -4 019 -9 597 -6 362 -0,32 -0,63 -0,46 Empresas estatais estaduais -3 124 -3 793 -2 101 -0,25 -0,25 -0,15

Empresas estatais municipais - 200 - 217 - 63 -0,02 -0,01 0,00

(*) Economista – Participante do Grupo de Conjuntura da FIPE.

Fonte: BCB.

Notas: 1 - Inclui o INSS. (+) déficit (-) superávit.

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ROBERTO LUIS TROSTER (*)

política monetária

A antecipação, e depois os comentários, sobre o ve-redicto da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central – Copom – lembram uma final de campeonato de futebol, pela intensidade da cobertura e pela enxurrada de críticas e elogios ao resultado. Entretanto, no caso dos juros, predomina a cegueira na análise, que foca apenas a taxa Selic dos próxi-mos trinta dias, em detrimento de outros aspectos importantes.

É fato que quanto mais baixas forem as taxas de juros melhor para todos. Com juros mais baixos, a sociedade brasileira como um todo ganha, pois há mais consu-mo, mais investimento, mais emprego etc. Os bancos também são beneficiados com uma maior demanda de crédito e de serviços. É tão óbvio quanto dizer que ganhar, no esporte, é melhor do que empatar ou perder. O desejo de ganhar e de baixar os juros é unânime. Mas, se é assim, por que o Copom é reticente em baixar os juros rapidamente?

É oportuno lembrar que a taxa de juros é o preço de troca entre dinheiro do presente pelo do futuro; se o preço for muito alto, haverá um excesso de oferta de dinheiro (leia-se: recessão no presente), e se for muito baixo, haverá um excesso de demanda (leia-se: pres-sões de inflação, bolhas de crescimento e desempenho medíocre no futuro). Na posologia, diz-se que na dosagem certa na determinação das taxas está a chave do sucesso ou do fracasso da política monetária. As taxas de juros equilibram as poupanças dos setores privado e público com os investimentos e a deman-da de crédito. Para cademan-da nível deman-da taxa de juros há um equilíbrio diferente, alguns mais desejáveis que outros. A análise deve focar a consistência dinâmica da política monetária, pois algumas trajetórias de juros não são sustentáveis e conduzem a economia a desempenhos fracos e a crises.

Uma trajetória muito alta de juros pressiona a dívida pública, tornando sua dinâmica insustentável: uma projeção de aumento da dívida pública acima do crescimento do PIB exige prêmios de risco maiores, e ao gerar um círculo vicioso de juros cada vez mais altos, em alguns casos especiais, pode-se ter mais in-flação, ao invés de menos, com juros exageradamente elevados.

No outro extremo, uma evolução de taxas muito baixas propicia uma bolha de crescimento a curto prazo, mas num segundo momento gera inflação e a necessidade de juros reais mais elevados, criando uma dinâmica perversa. O caminho desejável para a autoridade monetária é estreito, em que os erros são punidos com um desenvolvimento econômico perdido, mas o acerto contribui para um crescimento consistente e sem sobressaltos.

A taxa a ser definida hoje é a taxa Selic, para ope-rações de um dia com títulos públicos, portanto, de curtíssimo prazo. Atenção: neste prazo, o patamar das taxas é um fenômeno monetário, sob o controle do Banco Central, enquanto que a médio e a longo prazo é um fenômeno real, em que a influência da autoridade monetária é tênue e apenas indireta. Esse nível é determinado pelas expectativas dos agentes, por aspectos reais e pela dinâmica da dívida pública. Há situações especiais em que uma alta da Selic pode até baixar algumas taxas.

Historicamente, a maior restrição à política monetária e ao crescimento do crédito no Brasil é o desequilíbrio fiscal crônico. Enquanto em 1994 a dívida pública era equivalente a cerca de quatro quintos do total de crédi-to bancário, atualmente supera o dobro, pressionando os juros para o restante da sociedade. Nesse sentido, é correto acompanhar uma análise da política mone-tária com o desempenho dos indicadores fiscais, pois

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um endividamento excessivo do governo encarece o crédito para todo o restante da sociedade.

É pertinente acompanhar todo o espectro de juros, pois a taxa Selic tem seu uso restrito a operações entre bancos e o Banco Central. E o conjunto de taxas rele-vantes para a economia é mais amplo e inclui prazos variados e outros instrumentos, entre os quais abun-dam taxas diferenciadas, dependendo do tomador de recursos, do prazo, das garantias etc.

Na análise do conjunto de taxas é necessária a in-corporação da tributação, da política bancária e do quadro institucional e legal, pois são fatores que pressionam as taxas finais. Mudanças na tributação, redução dos compulsórios, aprimoramentos na le-gislação e investimentos na eficiência do judiciário contribuiriam para baixar o espectro de juros. Além da definição da Selic, o Banco Central, na con-dução da política monetária, tem um papel importante em coordenar expectativas, antecipando as trajetórias futuras de preços e juros. Contribui, dessa forma, para dar mais previsibilidade, menos volatilidade às osci-lações nos preços dos ativos e melhores fundamentos para decisões de investimento.

O Brasil voltou a crescer desde fins de 2003. O PIB deve aumentar 4,5% este ano, surpreendendo os analistas de forma positiva. Um dos fatores respon-sáveis é a queda do espectro de juros dos últimos vinte meses, que impulsionou a oferta de crédito, que está se expandindo a uma taxa real, descontada a inflação, acima de 10% ao ano. É um desempenho digno de comemoração, mas é pouco para um país com ambições de manter o atual ritmo de crescimento sustentadamente nos próximos anos.

Baixar as taxas de juros, especialmente as taxas de crédito de prazos longos, é a palavra de ordem. É premente crédito livre abundante, a custo baixo e com

prazos longos para satisfazer a nossa ambição de cres-cimento. Para tanto, é imperativo avanços consistentes em todas as frentes que pressionam os juros.

A análise da política monetária deve focar não apenas na taxa a ser definida pelo Copom, mas também no comportamento de todo o espectro de juros e sua evolução no futuro. A análise deve incorporar, além das variáveis estritamente monetárias, indicadores fiscais, consistência dinâmica da dívida, variáveis legais e institucionais de operações de crédito, política bancária e o arcabouço tributário. Acima de tudo, é preciso ter presente que a política monetária é apenas um instrumento para o desenvolvimento da Nação; nada mais que um instrumento.

Uma análise da nossa mídia mostraria que o futebol e os juros são focos de atração nacional. Nelson Ro-drigues escreveu que ”em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. Em economia, o pior cego é o que só vê um único número.

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Os principais resultados econômicos alcançados em 2004 foram a elevação da taxa de crescimento do PIB para um patamar de 5,0%, valor inferior à média dos países emergentes (6,1%), segundo o Banco Mundial, o superávit comercial da ordem de US$ 32 bilhões e a inflação pouco acima de 7%. A recuperação econômica beneficiou-se, sobretudo, do ajuste ocorrido em 2003, quando o PIB cresceu menos de 1%, e do crescimento das exportações.

O crescimento da economia brasileira em 2005 deve ser da mesma ordem de grandeza do verificado em 2004, mantendo-se a inflação em valores próximos a 6% ou 7%, e o saldo comercial deverá apresentar valores da ordem de 25 a 30 bilhões de dólares, ou seja, pouco inferiores ao de 2004. Um bom ano, mas nada excepcional.

Para o ano de 2005 o horizonte externo apresenta-se positivo. A economia mundial deve manter uma taxa de crescimento satisfatória, com ligeira queda em relação a 2004. Prevê-se que a OECD cresça 2,9%, ao passo que em 2004 o valor é de 3,6%. A área do euro deve crescer apenas 1,9% em 2005. A taxa de juros in-ternacional deverá permanecer em patamares pouco superiores aos verificados em 2004.

As ameaças de elevação da inflação, fortemente pres-sionada pelo preço internacional do petróleo e pela alta utilização da capacidade instalada, acabam por manter o Banco Central do Brasil em posição cautelo-sa, que significa taxas de juros muito elevadas. Neste cenário, a recuperação dos investimentos, que pode dar sustentabilidade de longo prazo ao cresci-mento, fica comprometida. As exportações brasileiras oferecem boas perspectivas para atingir o patamar de US$ 100 bilhões, e as importações também devem

crescer, estimuladas pela demanda doméstica e pela taxa de câmbio valorizada em relação ao dólar. Em novembro, as exportações brasileiras foram de US$ 8,159 bilhões, valor 36,4% superior ao mesmo período de 2003. No período de janeiro a novembro as exportações foram de US$ 87,280 bilhões, recorde histórico neste período. No acumulado de 12 meses as exportações somam US$ 94,028 bilhões.

No mês de novembro o Brasil importou 6,082 bilhões, um recorde histórico, valor 42,7% superior ao de novembro de 2003. Apesar deste crescimento das im-portações, o saldo comercial foi de US$ 2,077 bilhões e US$ 30,196 bilhões no ano, ao passo que no mesmo período de 2003 alcançava US$ 22,043 bilhões. Nas últimas semanas tem ocorrido expressivo cresci-mento das importações e queda no saldo comercial, o que é, em larga medida, decorrente do crescimento doméstico que pressiona as importações, e também da valorização do real em relação ao dólar (que está sendo desvalorizado relativamente às demais moedas no cenário internacional). O valor do real precisa ser cuidadosamente monitorado, para não desestimular as exportações.

O ano de 2004 tem apresentado resultados insatisfa-tórios do ponto de vista das mudanças institucionais. Evoluíram em ritmo inadequado as mudanças referen-tes às PPPs, às agências reguladoras e à reforma tri-butária. O calendário político ficou prejudicado pelas eleições de outubro. O Governo Luis Inácio Lula da Silva tem em 2005 a última grande oportunidade de mostrar sua capacidade inovadora neste mandato.

(*) Professor da FEA-USP.

HÉLIO NOGUEIRADA CRUZ (*)

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A CONAB – Companhia Nacional de Abastecimento – acaba de divulgar o segundo levantamento de in-tenção de plantio de grãos para a safra 2004/05. Em boa medida, os números confirmam os do primeiro levantamento. Basicamente, eles indicam que, mesmo sob condições econômicas bastante desfavoráveis, o Brasil colherá uma safra recorde, da ordem de 132 milhões de toneladas. Essas condições econômicas mudaram muito ao longo de 2004 e, provavelmente, pegaram os agricultores no contrapé: os momentos das tomadas de decisões (meados do ano), as compras de insumos e a realização dos plantios na região Cen-tro-Sul (último trimestre do ano).

Duas variáveis fundamentais para a formação dos preços agrícolas ilustram essa mudança das condições econômicas. Nossa taxa de câmbio média foi de R$ 3,128/US$ em junho último. Em dezembro de 2004 ela chegou a menos de R$ 2,70/US$, caracterizando uma expressiva desvalorização. De outro lado, o preço médio da soja na Bolsa de Chicago caiu de US$ 364/t em abril para US$ 196/t em novembro. Na mesma comparação, o preço do algodão caiu de US$ 1.361/t para US$ 1.018/t, enquanto o do milho diminuiu de US$ 124/t para US$ 78/t. Milho e algodão são os casos mais sérios de queda de preços nesta década. O preço da soja ainda supera os de 2000 e 2001 e praticamente empata com o de 2002. Essas duas mudanças ocorre-ram juntamente a aumentos de custos de produção e dificuldades de crédito (escasso e caro).

Mesmo assim, os números de intenção de plantio fo-ram relativamente favoráveis. Vejamos, inicialmente, os de área plantada: algodão, 4,5% de aumento; arroz, 0,7%; feijão – 1ª safra –, 10,0%; milho – 1ª safra –, 2,9%; soja, 4,9%; demais produtos, 3,0%; total, 2,2%.

aumento de área entre as diversas regiões: Sul, 27,7%; Sudeste, 4,7%; Centro-Oeste, 49,3%; Nordeste, 11,8% e Norte, 6,4%. Portanto, mesmo nas condições adversas, o Centro-Oeste ficou com metade da expansão, com 514 mil hectares. O que seria, então, com um compe-tente projeto de desenvolvimento regional?

E em termos de produção? Os números foram os seguin-tes: algodão, 5,0%, arroz, 1,4%; feijão – 1ª safra –, 4,7%; milho – 1ª safra –, 3,0%; soja, 23,4%; demais produtos, 1,0%; total, 10,7%. Portanto, apenas o arroz apresen-tará uma pequena queda de produção, perfeitamente coberta pela disponibilidade de estoques. A conclusão inicial é de que não há no horizonte problemas de abastecimento. O que existe, e de modo algo preocu-pante, é uma acentuada queda de rentabilidade ou, mesmo, sua ausência, para a maioria das culturas e regiões (dados de custos da CONAB).

A pior situação será no primeiro semestre de 2005, quando se comercializa a maior parte da produção. Comparando-se os preços previstos para o primeiro semestre de 2005 (em dólares) com os realizados no primeiro semestre de 2004, temos as seguintes va-riações: soja, 40,0%; milho, 27,8%; algodão, 31,3%. Fazendo-se o mesmo exercício para a taxa de câmbio, a taxa média prevista para os primeiros cinco meses de 2005 (BM&F) é de R$ 2,791, enquanto a mesma taxa média nos primeiros cinco meses de 2004 foi de R$ 2,937. Portanto, a pressão sobre os produtores de grãos será dupla: menores preços no mercado internacional e apreciação da taxa de câmbio. Felizmente, esse não é um quadro geral para a agropecuária, pois, café, cana-de-açúcar, suco de laranja e carnes escapam dele. Indiscutível é a conclusão de, mais uma vez, se utilizar a taxa de câmbio para controlar preços internos.

FERNANDO HOMEMDE MELO (*)

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+11,8%, segundo o IBGE, a maior taxa acumulada em três trimestres desde o ano de 1995; o Consumo do Governo experimentou crescimento positivo de +0,6%, enquanto que as exportações de Bens e Ser-viços cresceram +18,6%, ao passo que as importações registraram um expressivo crescimento: +14,9%. Dados pontuais, coletados pelo IBGE e referentes ao mês de outubro/2004, mostraram uma desaceleração do crescimento do Produto Industrial Brasileiro. Assim, informações referentes ao mês de outubro/04 mostram que a Indústria experimentou uma variação negativa de –0,4% em face de setembro/04, ou seja, o mês imediatamente anterior. E como era de se esperar, devido ao fato de a base de comparação ser muito bai-xa, os dados revelaram que a Indústria experimentou um incremento positivo de +2,7% ante o mesmo mês do ano de 2003.

Informa o IBGE que o recuo da produção industrial observado em outubro/04, em face de setembro/04, é o reflexo do que ocorreu em quatorze das vinte e três atividades pesquisadas, considerando-se as séries ajustadas sazonalmente. As maiores quedas foram registradas nos ramos de Alimentos (–3,0%), Borracha e Plástico (–6,4%), Veículos automotores (–1,7%) e Perfumaria (–6,3%). Dentre os ramos que experimentaram incrementos positivos merecem destaque: Refino de Petróleo e Produção de Álcool (+2,8%), Outros Químicos (+1,9%), Máquinas e Ma-teriais Elétricos (+4,0%) e Metalurgia (+1,2%). Por sua vez, sob a ótica das Categorias de Uso, os dados do IBGE registram incrementos negativos de maneira generalizada, em outubro, em face do mês imediata-mente anterior, em todas as quatro categorias de uso. O recuo mais acentuado na produção foi observado no segmento de Bens de Consumo Duráveis (–2,3%),

MANUEL ENRIQUEZ GARCIA (*)

nível de atividade e emprego

Segundo informações do IBGE, o PIB - Produto Interno Bruto cresceu, em termos físicos, 1,0% na comparação entre o terceiro trimestre de 2004 com o trimestre imediatamente anterior. Já na comparação do terceiro trimestre de 2004 com igual período de 2003, o crescimento do PIB, em termos reais, ou seja, descontada a inflação, foi de +6,1% e de 4,2% quando se comparam os últimos quatro trimestres com os quatro imediatamente anteriores.

Os dados do IBGE também registram que o PIB a preços de mercado, no acumulado do ano, apresentou crescimento positivo de +5,3% em relação a igual pe-ríodo de 2003, o maior resultado desde 1995, quando a taxa de crescimento observada foi de +6,4%. Nesse mesmo período de comparação ocorreu um cresci-mento positivo da Indústria da ordem de +6,3%, da Agropecuária de +5,6% e dos Serviços de +3,8%. Considerando-se o setor Industrial, merece destaque, nesse mesmo período de comparação, a variação positiva observada na Indústria de Transformação (+7,4%). Com taxas de crescimento mais moderadas situaram-se: Construção Civil (+5,9%); Serviços Industriais de Utilidade Pública (+4,1%) e Extrativa Mineral (2,1%). Por sua vez, o crescimento do setor Serviços deveu-se à excelente performance dos sub-setores: Comércio (+8,1%) e Transporte (+5,6%) e Outros Serviços. Com menores taxas de crescimento situaram-se: Instituições Financeiras (+4,0%); Ad-ministração Pública (+2,2%); Aluguéis (+1,6%) e Comunicações (+0,5%).

A distribuição do PIB pode ser observada sob a ótica da demanda. Assim, no acumulado de 2004 em face de igual período de 2003, o Consumo das Famílias apresentou incremento positivo de +3,9%; a Formação Bruta de Capital Fixo registrou variação positiva de

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seguido pelas categorias de Bens de Capital (–1,3%), Produção de Bens Intermediários (–0,1%) e Bens de Consumo Semiduráveis e não Duráveis (–1,1%). Deve-se registrar que em outubro a taxa de desocupa-ção estimada pela nova Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE foi de 10,5%, o nível mais baixo da nova série da PME, iniciada em outubro de 2001. Diz o IBGE que esse porcentual de 10,5% é equivalente ao observado em dezembro de 2002, e que na comparação com os meses de outubro de 2002 e 2003 essa taxa de deso-cupação registrou recuo de 0,7% e 2,4%.

Com os dados da Pesquisa Mensal de Emprego de outubro, o IBGE estimou em 19,4 milhões o total de pessoas com 10 ou mais anos de idade, ocupadas nas seis regiões pesquisadas. Conforme o instituto, ocor-reu ligeiro aumento de 0,2% em relação a setembro e, como era de se esperar, crescimento de 4,2%, ou seja, aproximadamente 774 mil pessoas ocupadas, em face de outubro de 2003. Os registros revelam que os homens representavam 56,5% dos ocupados e as mulheres 43,5%.

Ainda em igual período de comparação (outubro/04 em face de setembro/04), o rendimento médio real habitualmente recebido pelo trabalhador apresentou recuo de –1,2%, alcançando o patamar de R$ 900,20. Na análise do rendimento com ou sem carteira assina-da, os dados coletados mostraram que o rendimento médio real habitualmente recebido pelos empregados com carteira assinada no setor privado situou-se em R$ 915,30, com retração de –1,6% ante o mês imedia-tamente anterior, e de R$ 566,60 para os empregados sem carteira assinada no setor privado. Por último, deve-se assinalar que o rendimento dos trabalhado-res por conta própria, em outubro/04, situou-se em R$ 730,60, com crescimento de 2,2% em face do mês imediatamente anterior.

Em resumo, dados do IBGE mostram vigorosas taxas de crescimento quando os indicadores são compara-dos com meses ou trimestres correspondentes de 2003. Era de se esperar, nessas comparações, elevadas taxas de variação positivas, uma vez que o ano de 2003 foi um ano fortemente recessivo. Dados mais recentes, todavia, têm sinalizado para uma desaceleração do produto industrial, principalmente a partir de setem-bro próximo passado.

De qualquer modo, em parte pela baixa base de com-paração e em parte pelo espetacular crescimento do setor exportador, o fato é que a taxa de crescimento do PIB, em 2004, deverá situar-se próxima de 5%. É normal que sejamos tentados a dizer algo sobre o crescimento do produto interno bruto no próximo ano de 2005. Em primeiro lugar, não há dúvidas de que este crescerá, contudo, a uma taxa mais modesta do que a observada em 2004 (algo em torno de 3,5% a 3,7%). De um lado, porque o setor exportador não deverá reproduzir, no ano em 2005, o mesmo com-portamento de 2004, devido ao menor crescimento da economia mundial e, de outro, porque o crescimento do mercado interno deverá demandar parte do que antes era exportado e também porque a relação In-vestimento/PIB está muito distante dos vinte e cinco pontos porcentuais necessários para garantir um crescimento sustentado acima de 5% a.a.

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artigos

LEDA MARIA PAULANI (*)

Celso Furtado e a dialética

do desenvolvimento

Diz o filósofo francês G. Lebrun que a dialética é uma máquina de moer significações até elas confessarem que não são nada. Consciente disso ou não, Furtado trabalhou dialeticamente quando criou o conceito de subdesenvolvimento. Ao afirmar e mostrar que o subdesenvolvimento, contrariamente ao que apre-goavam as teorias mais convencionais, não é uma etapa do desenvolvimento, mas um tipo específico de desenvolvimento, Furtado mostrou que o desen-volvimento capitalista pode significar subdesenvol-vimento, se não for acompanhado de soberania, de distribuição minimamente eqüitativa de riqueza e renda, de equilíbrio regional, de sociedade civil forte e de Estado democrático. Em outras palavras, cresci-mento e modernização capitalista, ao invés de sinais do desenvolvimento, podem significar afirmação do seu contrário, se não forem produtos de um projeto de Nação em execução.

Em tempos tão sombrios, que sua morte torna ainda mais melancólicos, onde questões como essas saíram completamente de moda, cabe lembrar brevemente as lições do velho mestre. Nos anos de 1950, sob os profícuos eflúvios da CEPAL e preocupado que estava em descobrir as causas de nosso crônico atraso, mesmo depois do “deslocamento do centro dinâmico” e do abandono do modelo agrário-exportador, Furtado toma a dicotomia que Prebisch ia consagrando e re-solve trabalhar com ela de modo diacrônico. Em sua

autobiografia ele afirma que estava interessado no desenrolar dos acontecimentos no tempo, de modo que substituiu o par Centro-Periferia, essencialmente sincrônico, pela idéia de “economia colonial”, já que ela lhe permitia inserir o País em seu quadro histórico. Em razão disso, ele percebeu que a deterioração dos termos de troca, descoberta por Prebisch, constituía, na realidade, o corolário natural da vinculação metró-pole-colônia e um aspecto particular e historicamente específico da tendência geral do capitalismo de con-centrar poder econômico.

Isto posto, o desmonte da armadilha que enredava o País no modelo anterior (agrário-exportador) im-pedindo-o de realizar todas suas potencialidades havia sido possível graças à contingência histórica criada pela crise de 1929. Mas esse desmonte, se era condição necessária para a construção da Nação e para a superação do subdesenvolvimento, não era de modo nenhum condição suficiente. A despeito da industrialização, que brotara com força, o País conti-nuava “atrasado”, tolhido, com largos contingentes de sua população empurrados pela miséria de regiões esquecidas pelo crescimento e pela modernização, os quais iam se incorporando, sem se integrar, à “vida moderna” das cidades que se agigantavam. Esse desenvolvimento capenga, manco e desequilibrado, suspeitava Furtado, tinha que ver com a natureza de nosso passado colonial, com o caráter pouco burguês

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de nossas elites e com a crônica abundância de mão-de-obra que marcava a história brasileira.

Era esse passado e essa situação que produziam o que Furtado vai denominar “desenvolvimento tecnológico dependente”. Funcionando às avessas, o avanço tec-nológico chegava aqui por meio da difusão dos bens de consumo que sua evolução produzia nos centros do sistema. Seu ponto de chegada era para nós seu ponto de partida. Por isso, vai dizer Furtado, ele nunca se limita à introdução de novas técnicas, mas impõe a adoção de padrões de consumo e conseqüentes modos de vida que implicam um grau de acumulação absolutamente não universalizável para um país de periferia. Contudo, a permanência e o aprofunda-mento desse tipo de moviaprofunda-mento só vinham sendo possíveis no Brasil porque essa sorte de “progresso capitalista” podia ir em frente ignorando a inexis-tência de um mínimo de homogeneização social. O que permitia isso era a facilidade com que, graças à congênita superoferta de força de trabalho, as classes abastadas historicamente decidiam que destino dar ao excedente econômico.

Assim, para sair desse círculo de ferro em que desen-volvimento produzia atraso e subdesendesen-volvimento Furtado prescrevia o fortalecimento incondicional da sociedade civil, o abandono das idéias convencionais sobre vantagens comparativas e a adoção do plane-jamento como instrumento primordial do Estado, preservando o País das forças cegas do mercado. Essa postura permitiria completar o processo de industria-lização, planejar a redução das desigualdades regio-nais e de renda e fortalecer o mercado interno para que ele não fosse destronado do posto de baliza do desenvolvimento do País a que tinha sido guindado pelo acaso histórico da crise mundial de 1929. Furtado morre 50 anos depois de ter escrito boa parte dessas reflexões. Viveu o suficiente para ver o quão certo estava. Assistiu à implantação de chofre do setor de bens duráveis de consumo, depois à conclusão do

globalizado. Em todos esses momentos, como não foram tomadas as providências que ele prescrevera, a modernização produziu atraso e subdesenvolvimen-to, e produz agora também barbárie. Os 20 anos de ditadura que ocorreram de permeio moeram a socie-dade civil e sua capacisocie-dade de atuar como elemento determinante no processo de conclusão da construção da Nação. A entrada do País no maravilhoso mundo novo da globalização, patrocinada pelos nossos me-lhores quadros intelectuais “progressistas”, implicou o abandono total da utilização do planejamento como instrumento primordial do Estado e a entrega com-pleta do País às forças cegas do mercado.

Ainda assim Furtado mantinha esperanças de ver retomado o projeto de construção da Nação. Mas a última delas morreu com a ortodoxia férrea e a defesa dos interesses financeiros que vêm caracterizando a política econômica do atual governo. Consta que Lula teria ligado a Celso Furtado, pouco antes de sua morte, para “justificar” a demissão do Prof. Carlos Lessa da presidência do BNDES. Prestou com isso um tributo ao velho mestre e a suas idéias, mas não deve ter re-duzido sua amargura ante o cenário desolador que o governo do amigo está ajudando a aprofundar.

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A economia brasileira sofre forte processo de perda de dinamismo, desde o início dos anos oitenta, ou seja, de 1981 até 2004. Com efeito, o PIB, que no período 1950/1980 cresce a 7,4% a.a., apresenta ritmo reduzido de crescimento (algo próximo de 2% a.a.) no último quarto de século. Observa-se, também, passados dez anos do advento do Real, em 1994, que o País ainda não tem firme retorno de crescimento sustentado. As flutuações recentes mostram ligeiro aumento do PIB de 0,5% em 2003 (estimações revisadas) e recuperação de crescimento estimado em algo próximo a 5% em 2004. Esta situação é verificada a seguir.

Brasil – evolução do PIB (% a.a. – média do período)

Fonte: IBGE; FMI.

Esse comportamento é certamente explicado pelo reduzido nível de investimento observado no País. Os investimentos sobre o PIB são estimados em 19,9% em 2004 e previsão em torno de 21,3% em 2005, que, se confirmada, será a maior dos últimos quatorze anos, embora o patamar seja ainda reduzido para uma retomada de maior crescimento da economia. Há preocupação, inclusive, de que este quadro está voltando a ocorrer na economia brasileira neste momento de crescimento maior retomado em 2004. Com efeito, começam a se observar estrangulamentos, principalmente na logística da exportação, e ainda na utilização plena da capacidade nos segmentos produtores de bens intermediários.

O objetivo deste texto é analisar, por meio de um modelo bastante simples, o impacto da infra-estrutu-ra, da carga tributária, da renúncia fiscal e dos juros elevados como fatores determinantes do nível de investimentos no País.

Para isto, os investimentos no País são divididos em dois grupos: público e privado. A idéia é analisar as variáveis determinantes de cada um desses conjun-tos de investimenconjun-tos para buscar explicações sobre o comportamento do nível agregado e setorial dos investimentos.

É importante lembrar que, embora analisados de forma separada, os dois conjuntos estão interligados na medida em que um dos fatores determinantes da realização de investimentos privados é exatamente a disponibilidade de infra-estrutura (investimento público). Considerando esta hipótese, pode-se iniciar utilizando a equação geral de crescimento dada por:

(1) onde:

taxa de crescimento potencial do PIB relação produto-capital na economia

Ipr = investimento privado autônomo (independente

do investimento público)

Ig = investimento público

ka = parcela do investimento privado que depende

do investimento público.

ANTONIO LANZANA (*)

LUIZ MARTINS LOPES (*)

crescimento sustentado e investimentos

públicos e privados em 2004 e próximos anos

3,5% (PIB Mundial)

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Analisando-se inicialmente o investimento público, sabe-se que a capacidade do governo de investir está associada à evolução da poupança pública, isto é, à diferença entre receita e gastos correntes do governo. A evolução dessas variáveis indica, de um lado, que a receita tributária no País eleva-se substancialmente ao longo dos últimos anos, passando de aproximadamen-te 25% do PIB até o início do Real para os atuais 37% do PIB (um aumento líquido de cerca de 12% do PIB). Por outro lado, nota-se que as despesas correntes do governo (excluídos os gastos com correção monetária e cambial da dívida pública) passaram de 19,8% na década de setenta para 36% do PIB atualmente (um aumento líquido de mais de 16,0% do PIB, muito aci-ma, portanto, da elevação da carga tributária). Nesse comportamento é possível destacar alguns pontos para reflexão. Em primeiro lugar, nota-se que o País tem carga tributária comparável aos países desenvolvidos, que têm maiores níveis de tributação sobre o PIB, bem como patamares maiores do “Estado de Bem-Estar”, características das nações de renda mais elevada. É verdade que o aumento da carga tributária possibilita a expansão dos gastos sociais do País, que causa, sem dúvida, impactos positivos sobre uma economia de renda muito baixa e, além disso, muito mal distribuída.

Um segundo ponto a destacar é que apesar do aumen-to da carga tributária, o País vem tendo capacidade de investimento muito reduzida nos últimos anos, o que afeta o ritmo de crescimento, principalmente pela ausência de infra-estrutura. E mais, como se pode ob-servar na equação (1), parte do investimento privado ( ) é dependente do investimento público. Isto porque muitos investimentos privados tornam-se inviáveis sem a disponibilidade de infra-estrutura. Embora algumas empresas de grande porte acabem “cobrindo” essa lacuna, realizando investimentos em infra-estrutura com seus próprios recursos (a exemplo

No que se refere ao investimento privado, as questões podem ser analisadas sob duas óticas: a taxa de re-torno do investimento e a taxa de lucro da atividade, onde o empresário leva em consideração quanto o investimento gera do valor adicionado e os gastos com matérias-primas e bens intermediários para realizar esse valor adicionado.

Do ponto de vista da taxa de retorno do investimento privado, esta pode ser definida por:1

(2) , onde:

Rℓ = retorno líquido do investimento.

L = Lucro Bruto D = Depreciação Td = Imposto direto

W = Folha de Salários

Cw = Contribuição sobre a folha J = Juros pagos

A = Aluguéis pagos Ti = impostos indiretos.

relação produto-capital (razão entre aumento do produto e o investimento).

A equação (2) permite analisar os impactos da tribu-tação e dos juros sobre o investimento privado. No que se refere à tributação, pode-se perceber que: a) aumentos da tributação direta (Td) levam a uma redu-ção do retorno líquido dos investimentos; b) aumentos na contribuição (Cw) e nos impostos indiretos (Ti) poderão reduzir o valor do lucro bruto (L), a menos que sejam “transferidos” para outro componente do valor adicionado; c) ao mesmo tempo, nota-se que determinadas renúncias fiscais podem favorecer o investimento em setores específicos (com reduções em Td e Ti).

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dos salários. Em outras palavras, o aumento da carga, via Cw e Ti, reduz a participação dos lucros.

Brasil – composição porcentual do valor adicionado

Ano 1995 2002 Juros 1,99 1,85 Aluguéis 1,43 1,43 Salários 23,28 20,76 Contribuições 4,07 6,03 Lucros 56,78 54,67 Impostos Indiretos 12,44 15,26 Valor Adicionado 100,00 100,00

Fonte: IBGE, Guilhoto e Torres.

Essa atuação fez com que as taxas brutas de retorno de investimento caíssem de 19,3% em 1995 para 18,6% em 2002. Como também se observa aumento da tributação direta (Td), a taxa de retorno líquida cai mais que proporcionalmente no mesmo período (de 16,7% para 15,0%).

Comparando, por outro lado, a taxa líquida de retorno com as taxas reais de juros oferecidas pelo governo (40,5% em 1995 e 13,8% em 2002), pode-se observar que as taxas de juros são adversas aos investimentos, fortemente em 1995, mas aquém dos retornos líquidos em 2002.

A segunda abordagem em relação ao investimento privado refere-se à taxa de lucro da atividade. Nesse sentido, ter-se-ia:

(3)

onde:

Lℓ ρ = taxa líquida de lucro VP = valor da produção Ci = custos intermediários CT = custo total

e as demais variáveis são definidas em (2).

Nessa proposta, como observado, o empresário leva em consideração não somente quanto o investimento gera de valor adicionado que possa ser apropriado

pelo lucro, mas também quanto terá de gastos para realizar esse valor adicionado.

Concentrando-se na equação (3), pode-se perceber que aumentos de impostos e de contribuições (Cw, Ti e Td) tendem a reduzir a taxa líquida de lucro. Da mesma forma, se o setor privado tem que realizar os investimentos em infra-estrutura, CT tende a se ele-var. A tabela a seguir mostra a participação crescente das contribuições e dos impostos indiretos na compo-sição dos custos. Concomitantemente, é possível que o aumento do consumo intermediário também tenha sido gerado por impostos.

participação porcentual dos componentes no custo de produção Componentes/Ano 1995 2002 Consumo Intermediário 67,23 70,50 Juros 1,50 1,80 Aluguéis 1,09 0,94 Salários 17,65 13,52 Contribuições 3,09 3,92 Impostos Indiretos 9,44 9,92 Custo da Produção 100,00 100,00

Fonte: IBGE, Guilhoto e Torres.

Essa situação fez com que a taxa bruta de lucro (lucro bruto em relação aos custos totais) caísse de 43,0% em 1995 para 35,6% em 2002, e a taxa líquida de lucro (lucro líquido em relação aos custos totais), seguindo a mesma tendência, caísse de 33,9% para 26,5%.

taxas líquidas de lucro

Anos 1995 2002

Taxa Bruta de Lucro 43,03 35,57

Depreciação 7,45 6,39

Taxa Tributável de Lucro 35,58 29,18

Impostos Diretos 1,60 2,83

Taxa Liquida de Lucro 33,98 26,55

Fonte: IBGE, Guilhoto e Torres.

As abordagens em relação ao investimento público e privado permitem concluir que, se do ponto de vista do controle do déficit público a política fiscal tem gerado resultados favoráveis, o mesmo não se pode dizer em relação ao ritmo de crescimento do País.

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Além de contrair os investimentos públicos, a forma de ajuste tem prejudicado o investimento privado, que é a principal alavanca do crescimento econômico do País. Esse prejuízo ocorre a partir do aumento da carga tributária (que reduz a rentabilidade do investi-mento) e da menor disponibilidade de infra-estrutura (que inviabiliza a realização de alguns investimentos privados e aumenta o custo de outros).

Do ponto de vista setorial, porém, o setor público tem procurado estimular os investimentos, a partir da renúncia fiscal, principalmente do ponto de vista dos impostos indiretos. Isto tem se verificado, por exemplo, na tentativa de reduzir o custo do investi-mento com a isenção de impostos na compra de bens de capital.

Partindo-se da hipótese mais realista que dificilmente tende a haver reduções na carga tributária atual do País, cabe discutir como retomar o processo de cresci-mento e, simultaneamente, buscar níveis maiores do “Estado de Bem-Estar”, mantendo também o necessá-rio ajuste fiscal. Nas condições atuais, o investimento total (público e privado) não retoma níveis maiores e o País continua no seu caminho de crescimento muito moderado.

Para recuperar a capacidade de investimento do setor público (inclusive a obtenção de recursos para as PPPs) faz-se necessário mudar a composição dos gastos, sem reduzir os níveis atuais de superávit primário. Considerando a despesa pública como:

(4) , onde:

Dg = Despesas totais do setor público Ga = Gastos com assistência

Gj = Gastos com juros

Go = Gastos com outros componentes Ig = Investimento do governo

merecem uma análise mais criteriosa: vários progra-mas do governo têm duvidosa efetividade, e muitos gastos acabam beneficiando as classes de maior poder aquisitivo, como é o caso das faixas maiores da pre-vidência do setor público. Para diminuir as despesas com juros, a manutenção de superávits primários é fundamental porque reduz o risco País. E em relação a outras despesas é preciso neutralizar a tendência generalizada de crescimento dos gastos públicos em relação ao PIB, bem como conter as vinculações, a criação de novos municípios, e assim por diante. A redução real dos gastos de custeio permitiria au-mentar a poupança pública e, conseqüentemente, a capacidade de investimento do setor público. A maior disponibilidade de infra-estrutura contribuiria para alavancar os investimentos privados, mesmo na pre-sença da atual carga tributária. Ao mesmo tempo, a maior racionalidade das despesas públicas, com maior ênfase para as camadas mais pobres, poderia manter, bem como ir aumentando, as conquistas sociais, pro-porcionando os avanços concomitantes da distribuição de renda do País e da retomada de ritmo maior de cres-cimento sustentado em 2005 e próximos anos, a partir do retorno atual de crescimento maior em 2004.

1 As estimações das equações (2) e (3) foram avaliadas conjunta-mente com o Professor Ivo Torres, em nota técnica elaborada durante o ano de 2004.

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Todo o final de ano, a análise das perspectivas da inflação para o próximo ano é um dos temas que merece maior atenção de analistas especializados, provavelmente pelas implicações da trajetória da inflação sobre a política monetária. Neste sentido, um primeiro referencial para a formação de expecta-tivas é a trajetória recente de indicadores de inflação, principalmente o IPCA-IBGE, que é o índice utilizado

como base para as metas de inflação estabelecidas pelo BACEN. No acompanhamento da inflação e forma-ção de expectativas outros indicadores de preços são utilizados, entre os quais o IPC-FIPE. Considerando isto, mostramos na Tabela 1 a evolução do IPCA e do IPC, desde 2000, por grandes grupos formados pela agregação de itens de produtos e serviços, segundo o processo de formação de preços.

HERON CARLOS ESVAELDO CARMO (*)

inflação em 2004 e

perspectiva para 2005

tabela 1 - evolução de Índices Gerais e de grupos de itens de produtos e serviços do IPCA-IBGE e IPC-FIPE

Ponderações Taxas de Variação

IPCA IPC Jan00-Dez00 Jan01-Dez01 Jan02-Dez02 Jan03-Dez03 Dez03-Nov04 Ago 99 Dez 99 IPCA IPC IPCA IPC IPCA IPC IPCA IPC IPCA IPC Classificação

Geral 100,00 100,00 5,97 4,38 7,67 7,13 12,53 9,90 9,30 8,18 7,24 6,30

Produtos 50,10 51,21 6,39 4,00 6,50 5,90 13,74 13,59 6,94 5,88 7,04 5,92 Industrializados Geral 39,39 35,88 7,27 5,70 6,10 5,52 11,85 11,41 7,34 6,54 8,53 6,37 Industrializados (exceto combustíveis) 29,68 32,65 4,20 3,19 6,64 5,58 11,86 10,95 8,38 7,61 7,71 5,75

Combustíveis 4,03 3,23 31,14 34,81 4,48 4,97 16,15 16,25 -1,63 -3,69 13,25 12,87

Alimentos não industrializados 10,70 15,33 3,29 0,12 8,01 6,79 21,35 18,86 5,44 4,34 1,29 4,88

Serviços 49,90 48,79 4,34 4,79 7,81 8,40 9,06 6,08 10,16 10,41 5,90 6,71 Serviços de Utilidade Pública e Taxas 17,32 18,49 7,07 6,44 12,32 15,27 14,03 6,06 14,25 17,26 5,66 6,48 Serviços Regidos por Contratos 15,77 19,24 1,01 4,00 3,95 3,08 3,74 3,98 6,13 5,46 5,41 6,67 Serviços Reg Cont(exceto cursos formais) 11,77 15,94 -0,33 2,86 3,10 2,52 2,22 3,56 4,82 4,64 3,28 5,77

Cursos Formais 4,00 3,30 4,91 9,69 6,35 5,80 7,94 6,05 9,66 9,51 10,84 11,13

Serviços Privados 16,81 11,07 4,54 3,46 6,31 6,76 7,97 9,87 8,47 8,12 6,65 7,17

Tomando como referência o IPCA-IBGE, observa-se que nos últimos cinco anos a taxa de variação apre-sentou tendência de crescimento, até atingir o pico de 12,53% em 2002, tendo recuado a partir daquele ano para 9,30% no ano passado, estando prevista para este ano um recuo adicional para 7,31%, segundo projeção baseada em pesquisa do BACEN. Essa trajetória reflete o estado das expectativas dos agentes econômicos; a primeira fase pode ser associada ao período

pré-eleitoral e a segunda fase à superação da prevenção dos agentes privados no Brasil e no exterior quanto à qualidade da política econômica do novo governo. Naturalmente, outros fatores afetaram os IPCs, no período analisado, como preços dos combustíveis, tarifas públicas e cursos formais. Por exemplo, com relação à queda de cerca de dois pontos porcentuais do IPCA prevista para este ano, é importante ressalvar que esta poderia ser mais intensa não fossem o choque

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de preços de matérias-primas, inclusive petróleo, e o aumento bem superior à média do preço dos serviços de educação.

Com relação às perspectivas para o próximo ano, a tendência recente da taxa de câmbio, dos preços de

commodities no mercado internacional e os

desdobra-mentos dos últimos audesdobra-mentos na taxa básica de juros devem levar à manutenção da tendência de queda nos IPCs, sendo que o IPCA deverá se situar mais prova-velmente entre 5,3% e 5,8%. Quanto à distribuição temporal, o mais provável é que os IPCs apresentem em 2005, comparativamente a 2004, taxas inferiores no segundo e terceiro trimestres, devido ao efeito da entrada da safra 2004-2005 e de reajustes não tão elevados nas tarifas públicas. Com relação à próxima safra, estimativas recém-divulgadas indicam que deverá aumentar significativamente quando compa-rada à última safra. Por sua vez, no que se refere aos reajustes de tarifas de serviços públicos, a tendência de forte redução no ritmo de aumento dos IGPs, aliada aos resultados do leilão de energia elétrica, aponta para reajustes médios muito próximos à variação do IPCA.

Entre as possíveis fontes de pressão inflacionária, que poderiam amenizar a tendência de queda prevista, merecem destaque: os efeitos do aquecimento na atividade econômica sobre a demanda e preços de serviços e o repasse residual de pressões de custo de matérias-primas para os preços de bens de consumo. Esses efeitos estão relacionados ao ritmo da atividade econômica. A esse respeito, as últimas estimativas do IPEA apontam para um crescimento do PIB de 5,2% neste ano e de 3,8% em 2005.

Naturalmente, as perspectivas se transformarão em resultados se restrições interpostas à continuidade do processo de melhoria nos fundamentos da economia brasileira, tanto as de origem externa quanto internas, forem superadas com pragmatismo. Nesse sentido, o cenário externo já sinaliza para o agravamento da

economia americana pode levar a um aumento da inflação nos EUA e à elevação da taxa de juros. Isto deve afetar o crescimento mundial e o financiamen-to das economias emergentes, com reflexos sobre a economia brasileira.

No cenário para o próximo ano, uma questão carre-gada de simbolismo político, cujo encaminhamento depende da evolução do cenário externo, é a da reno-vação ou não do acordo com o FMI. Provavelmente, se prevalecer o cenário mais otimista, o governo brasilei-ro terá condições de não renovar o acordo, o que terá como conseqüência a adoção de políticas econômicas mais restritivas do ponto de vista fiscal e monetário, com a finalidade de dar um sinal claro, não só ao público externo, de responsabilidade na condução da economia. Isto deverá acarretar, comparativamente à alternativa de renovação do acordo, a um menor ritmo de crescimento e a uma menor taxa de inflação. No entanto, no médio prazo contribuirá para a redução do risco País, com conseqüente queda mais significativa da taxa básica de juros, maior crescimento, melhoria mais rápida da dívida pública como proporção do PIB, sem afetar significativamente o processo de redução gradual da taxa de inflação.

No plano interno, os principais fatores restritivos são a paralisia no processo de reformas constitucionais, a tendência de crescimento no custeio do setor público e os porcentuais, relativamente ao PIB, reduzidos para a necessidade de manutenção da taxa de crescimento da poupança e do investimento agregados. A esse respei-to, merece atenção especial a questão das deficiências na infra-estrutura e a evidente dificuldade do governo federal de agilizar os investimentos para eliminar, gradualmente, os pontos de estrangulamento. Se nada for feito para resolver esses problemas, o ritmo de crescimento se restringirá, nos próximos anos, a cerca de 3% ao ano, isto é, inferior ao ritmo previsto para este ano e o próximo.

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mais provável é que o déficit nominal do setor público tenda a se situar em porcentual inferior a 3%, que é o limiar utilizado como referência pela Comunidade Européia. Por sua vez, com relação ao setor externo, a tendência é de aumento do grau de abertura da economia brasileira para um porcentual em torno de 30% do PIB. Provavelmente, as importações devem crescer, em 2005, em um ritmo mais intenso que as exportações, mas com a manutenção de superávit na conta de transações correntes. Essa tendência de re-dução do superávit em transações correntes é positiva, considerando que para um país em desenvolvimento como Brasil seria mais adequado um pequeno déficit de até 2% do PIB.

Em síntese, os resultados de 2004 foram mais favorá-veis, exceto no que se refere à inflação, que o previsto ,e têm contribuído, neste final de ano, para melhorar as expectativas de empresários e consumidores. Ex-pectativas favoráveis, como mostra a história econô-mica, são condição importante para a continuidade do processo de crescimento com estabilidade. Comparando-se o desempenho recente da economia brasileira com a sua evolução desde o final da déca-da de setenta, estamos atualmente no nosso melhor momento. Se acrescentarmos ao cenário econômico o cenário político-institucional, caracterizado por uma

estabilidade sem paralelo na história da República, ficam mais evidentes as possibilidades de desenvolvi-mento, com estabilidade, que se abrem para o País.

(*)Vice Presidente do CORECONSP e Professor da FEA-USP.

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O PIB do Agronegócio brasileiro em 2000 corres-pondeu a aproximadamente 27% do PIB do Brasil, e as últimas estimativas mostram que este número está atualmente ao redor de 30% do PIB. Apesar da sua importância para a economia brasileira como um todo, o tamanho do território brasileiro e as suas diferenças regionais chamam atenção para o fato de que a importância do agronegócio não é uniforme em todas as regiões brasileiras. Neste artigo é feito um estudo da importância do agronegócio para os 27 estados da economia brasileira, sendo a análise feita para o ano de 1999, com base nos dados de um sistema inter-regional de insumo-produto construído para a economia brasileira por Guilhoto et al. (2004). A partir dos dados apresentados na Tabela 1 pode-se perceber a desigualdade existente na distribuição da renda entre os estados e as macrorregiões brasileiras. A região mais rica é a Sudeste, com uma renda per

capita 34% acima da média brasileira, e que

concen-tra 57,6% do PIB brasileiro, 42,6% da sua população e 45,4% do PIB do agronegócio. Ela é seguida pela região Sul, com uma renda per capita 21% acima da média brasileira, uma participação de 18,1% no PIB do Brasil, em 14,9% da sua população e 28,1% do PIB do agronegócio. A região Centro-Oeste possui uma renda per capita que é 15% acima da média brasileira, principalmente por causa do Distrito Federal, que apresenta um renda per capita três vezes superior à média nacional. Como resultado, a região Centro-Oeste possui 7,8% do PIB do Brasil, 6,8% da população e 8,1% do PIB do agronegócio. A região Norte possui uma renda per capita 37% abaixo da média nacional, participa com 4,7% do PIB, 7,4% da sua população e 5,7% do PIB do agronegócio. E, finalmente, a região Nordeste tem uma renda per capita 56% abaixo da do Brasil, uma participação de 12,5% no PIB, 28,2% da

Em termos econômicos, o estado mais desenvolvido do Brasil fora o Distrito Federal (principalmente uma economia do setor público) é o Estado de São Paulo, com 34,5% do PIB do Brasil, 21,9% da sua população, 28,7% do PIB do agronegócio, e uma renda per capita 58% superior à media nacional.

Considerando a importância do PIB do agronegócio, relativamente à importância do PIB da economia (Tabela 2), os resultados mostram que o agronegócio é relativamente menos importante para a região Sudeste do que para as outras regiões, apesar desta região possuir a maior participação no agronegócio nacional.

Para 15 dos 27 estados brasileiros, o agronegócio pos-sui uma dimensão maior do que as outras atividades na economia, ou seja, a participação do agronegócio destes estados no agronegócio brasileiro é maior do que a sua participação no PIB do Brasil (Tabela 2). Dentro de cada um destes estados é possível mensurar a importância do agronegócio para a sua economia (Tabela 3). Os resultados mostram que o agronegócio possui uma participação maior do que 33% do PIB estadual. Estes estados são (os valores para a participa-ção da agricultura e do agronegócio, respectivamente, no PIB do estado são mostrados entre parêntesis): Espírito Santo (7,5% e 34,4%), Paraná (13,0% e 37,0%), Santa Catarina (12,9% e 49,1%), Rio Grande do Sul (12,6% e 41,3%), Goiás (16,0% e 41,1%), Mato Grosso (21,0% e 50,3%), Mato Grosso do Sul (28,4% e 61,2%), Pará (23,5% e 50,8%), Rondônia (16,7% e 37,9%), Tocantins (18,3% e 46,0%), Alagoas (8,2% e 38,6%), Maranhão (17,2% e 40,2%), Paraíba (11,1% e 33,7%),

JOAQUIM J. M. GUILHOTO (*)

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tabela 1 – PIB, população, PIB per capita, e PIB do agronegócio para os estados brasileiros, macrorregiões, e a economia como um todo – 1999

PIB População PIB Per Capita PIB do Agronegócio

US$ Milhões Mil Hab. US$ US$ Milhões

Norte 24.950 12.134 2.056 7.996 Acre 865 528 1.639 174 Amapá 905 440 2.058 115 Amazonas 9.566 2.581 3.706 1.385 Pará 9.299 5.886 1.580 4.719 Rondônia 2.759 1.297 2.128 1.045 Roraima 448 267 1.679 48 Tocantins 1.107 1.135 976 510 Nordeste 66.569 46.289 1.438 17.940 Alagoas 3.385 2.713 1.248 1.305 Bahia 22.279 12.993 1.715 5.398 Ceará 10.071 7.107 1.417 2.429 Maranhão 4.285 5.418 791 1.724 Paraíba 4.131 3.376 1.224 1.391 Pernambuco 13.297 7.581 1.754 3.157 Piauí 2.419 2.734 885 821

Rio Grande do Norte 3.941 2.655 1.485 608

Sergipe 2.762 1.713 1.613 1.106

Centro Oeste 41.633 11.221 3.710 11.495

Distrito Federal 19.547 1.970 9.923 603

Goiás 9.557 4.849 1.971 3.926

Mato Grosso 6.469 2.376 2.723 3.257

Mato Grosso do Sul 6.061 2.027 2.991 3.709

Sudeste 302.137 69.858 4.325 64.103 Espírito Santo 9.528 2.938 3.243 3.276 Minas Gerais 51.349 17.296 2.969 13.404 Rio de Janeiro 58.004 13.807 4.201 6.919 São Paulo 183.256 35.817 5.116 40.505 Sul 95.845 24.446 3.921 39.667 Paraná 34.706 9.376 3.702 12.846 Santa Catarina 19.988 5.098 3.920 9.814

Rio Grande do Sul 41.152 9.972 4.127 17.006

Brasil 531.135 163.948 3.240 141.201

Os resultados revelam, portanto, a complexidade da economia brasileira e do seu agronegócio, com dife-renças entre as regiões e, dentro das regiões, entre os seus estados membros.

Os resultados para o agronegócio mostram o papel fundamental que este segmento representa para

economia brasileira, responsável por 27% do seu PIB em 1999. Mostram também a dependência dos outros setores da economia na agricultura: a sua participação de 7,5% no PIB brasileiro de 1999 é multiplicada por aproximadamente 3,6 vezes quando o conceito do agronegócio é utilizado.

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tabela 3 – participação da agricultura e do agronegócio no PIB dos estados e das macrorregiões, Brasil - 1999 Particip. da Agricultura no PIB (%) Particip. do Agronegócio no PIB (%) (2) / (1) (1) (2) (3) Norte 12,70 32,05 2,52 Acre 4,54 20,11 4,43 Amapá 5,02 12,71 2,53 Amazonas 2,24 14,48 6,48 Pará 23,54 50,75 2,16 Rondônia 16,72 37,88 2,27 Roraima 4,02 10,64 2,64 Tocantins 18,28 46,03 2,52 Nordeste 8,18 26,95 3,29 Alagoas 8,17 38,55 4,72 Bahia 8,53 24,23 2,84 Ceará 5,31 24,12 4,54 Maranhão 17,16 40,24 2,34 Paraíba 11,13 33,68 3,03 Pernambuco 7,33 23,74 3,24 Piauí 9,13 33,94 3,72

Rio Gre do Norte 3,23 15,44 4,78

Sergipe 7,78 40,05 5,15

Centro Oeste 11,22 27,61 2,46

Distrito Federal 0,32 3,09 9,74

Goiás 15,99 41,08 2,57

Mato Grosso 20,96 50,34 2,40

Mato Grosso do Sul 28,44 61,19 2,15

Sudeste 4,66 21,22 4,55 Espírito Santo 7,46 34,38 4,61 Minas Gerais 9,19 26,10 2,84 Rio de Janeiro 0,81 11,93 São Paulo 4,47 22,10 4,94 Sul 12,81 41,39 3,23 Paraná 13,00 37,01 2,85 Santa Catarina 12,87 49,10 3,81

Rio Grande do Sul 12,61 41,33 3,28

Brasil 7,47 26,58 3,56

Média 10,39 31,30 4,07

Mediana 8,83 33,81 3,13

tabela 2 – participação dos estados e macrorregiões no PIB e no PIB do agronegócio, Brasil – 1999

Particip. no PIB (%) Particip. no Agronegócio (%) (2) / (1) (1) (2) (3) Norte 4,70 5,66 1,21 Acre 0,16 0,12 0,76 Amapá 0,17 0,08 0,48 Amazonas 1,80 0,98 0,54 Pará 1,75 3,34 1,91 Rondônia 0,52 0,74 1,42 Roraima 0,08 0,03 0,40 Tocantins 0,21 0,36 1,73 Nordeste 12,53 12,71 1,01 Alagoas 0,64 0,92 1,45 Bahia 4,19 3,82 0,91 Ceará 1,90 1,72 0,91 Maranhão 0,81 1,22 1,51 Paraíba 0,78 0,99 1,27 Pernambuco 2,50 2,24 0,89 Piauí 0,46 0,58 1,28

Rio Gde do Norte 0,74 0,43 0,58

Sergipe 0,52 0,78 1,51 Centro Oeste 7,84 8,14 1,04 Distrito Federal 3,68 0,43 0,12 Goiás 1,80 2,78 1,55 Mato Grosso 1,22 2,31 1,89 Mato Gr. do Sul 1,14 2,63 2,30 Sudeste 56,89 45,40 0,80 Espírito Santo 1,79 2,32 1,29 Minas Gerais 9,67 9,49 0,98 Rio de Janeiro 10,92 4,90 0,45 São Paulo 34,50 28,69 0,83 Sul 18,05 28,09 1,56 Paraná 6,53 9,10 1,39 Santa Catarina 3,76 6,95 1,85

Rio Grande do Sul 7,75 12,04 1,55

Brasil 100,00 100,00 1,00

Fonte: Dados da Pesquisa. Fonte: Dados da Pesquisa.

Este artigo é um resumo, e é baseado no trabalho de Guilhoto, J.J.M. (2004). “The regional (state level) importance of the agribusiness GDP in the Brazilian economy”, apresentado no XXXII Encontro

Nacional de Economia da ANPEC, realizado em João Pessoa, PB, de

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