Teoria Macroeconˆ omica II
Marcio Garcia PUC-Rio
1o Semestre de 2018 - Parte II - Economia Aberta
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 1/299
Macroeconomia Aberta
Objetivo: estudar efeitos de pol´ıticas macroeconˆ omicas em economias nas quais h´ a trocas relevantes entre residentes e n˜ ao-residentes: transa¸ c˜ oes de bens e servi¸ cos (conta-corrente) e ativos (conta de capitais)
Referˆ encia: Blanchard, cap´ıtulos 18-20
Macroeconomia Aberta
O Brasil ´ e uma economia aberta?
E os EUA?
Pode um pa´ıs exportar mais do que seu PIB?
O que determina a taxa de cˆ ambio?
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Macroeconomia Aberta
Trˆ es no¸ c˜ oes distintas de abertura:
1
Abertura nos mercados de bens:
escolha entre bens dom´ esticos e importados tarifas / cotas ...
2
Abertura dos mercados financeiros:
escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros controle de capitais
integra¸ c˜ ao dos mercados financeiros mundiais / mobilidade de capitais
3
Abertura nos mercados de fatores:
liberdade para as firmas escolherem onde instalar suas f´ abricas
e para os trabalhadores escolherem onde trabalhar.
Macroeconomia Aberta
Abertura nos mercados de bens:
Exporta¸ c˜ ao de Bens e Servi¸ cos como Porcentagem do PIB Estados Unidos 12,6%
Jap˜ ao 17,9%
Alemanha 46,9%
Reino Unido 27,4%
Su´ı¸ ca 63,5%
Luxemburgo 213,8%
Brasil 13,0%
Ano 2015
Fonte: World Development Indicators (Banco Mundial)
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Macroeconomia Aberta
Pode-se inferir da tabela acima que os EUA tˆ em mais restri¸ c˜ oes ao com´ ercio do que a Su´ı¸ ca?
N˜ ao. GEOGRAFIA e TAMANHO s˜ ao as causas da diferen¸ ca.
Jap˜ ao: isolamento geogr´ afico explica em boa parte o baixo coeficiente de exporta¸ c˜ oes.
Su´ı¸ ca (3,7% do PIB dos EUA) ´ e pequena e n˜ ao consegue produzir a
mesma variedade de bens que os pa´ıses “continentais”.
Macroeconomia Aberta
O grau de abertura de uma economia n˜ ao ´ e s´ o medido pelo com´ ercio internacional que efetivamente ocorre.
Exemplo: em 2012, custo em US$ de exportar uma tonelada de soja para Shangai:
Davenport, IOWA Sorriso, Mato Grosso
pre¸ co local 458.68 392.10
custo de transp. interno 43.98 123.31
custo de transp. mar´ıtimo 53.08 50.50
custo total 555.74 565.91
Produ¸ c˜ ao e exporta¸ c˜ ao de soja (em mil toneladas):
EUA Brasil produ¸ c˜ ao 90605 75500 exporta¸ c˜ ao 40859 29951 raz˜ ao 45.1% 39.7%
Pergunta: o mercado de soja ´ e mais aberto nos EUA?
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Macroeconomia Aberta
O grau de abertura de uma economia n˜ ao ´ e s´ o medido pelo com´ ercio internacional que efetivamente ocorre.
Muitas empresas est˜ ao expostas ` a concorrˆ encia estrangeira, mas sendo competitivas, conservam sua fatia no mercado interno.
Temos que levar em considera¸c˜ ao os mercados que est˜ ao expostos ` a competi¸ c˜ ao internacional, sem que necessariamente haja importa¸ c˜ oes.
Uma medida melhor do grau de abertura deve ser a propor¸ c˜ ao do produto agregado composto de bens comerci´ aveis (tradables).
Bens comerci´ aveis: aqueles que concorrem com bens estrangeiros tanto
nos mercados dom´ esticos como nos externos.
Macroeconomia Aberta
Por que exporta¸ c˜ oes podem superar o PIB?
Exemplo: considere um pa´ıs que
importe US$ 1 bilh˜ ao de bens intermedi´ arios
transforme esses bens intermedi´ arios em finais apenas com trabalho sal´ arios = US$ 200 milh˜ oes e n˜ ao h´ a lucros nessa atividade
valor dos produtos finais: US$ 1,2 bilh˜ oes exporta US$ 1 bilh˜ ao
consome US$ 200 milh˜ oes
PIB= C + G + I + X − Q = 0, 2 + 0 + 0 + 1 − 1 = 0, 2 bilh˜ oes Conclus˜ ao: X /PIB = 1/0, 2 = 5
onde Q ´ e importa¸ c˜ oes e X ´ e exporta¸ c˜ oes.
Em suma: exporta¸ c˜ oes e importa¸ c˜ oes podem incluir bens intermedi´ arios.
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Macroeconomia Aberta
Como a abertura dos mercados de bens afeta o equil´ıbrio no mercado de bens?
Em uma economia fechada, concentramo-nos na decis˜ ao de consumir ou poupar.
Agora, h´ a adicionalmente a decis˜ ao de se comprar bens dom´ esticos ou importados.
A vari´ avel chave para esta ´ ultima decis˜ ao ´ e o pre¸ co dos bens estrangeiros em termos dos bens dom´ esticos, que ´ e a taxa real de cˆ ambio.
Ao contr´ ario da taxa nominal de cˆ ambio, a taxa real n˜ ao ´ e diretamente
observ´ avel.
Macroeconomia Aberta: a taxa nominal de cˆ ambio
Taxa nominal de cˆ ambio: ´ e o pre¸ co relativo das moedas de dois pa´ıses.
e = moeda nacional moeda estrangeira Se e ↑: desvaloriza¸ c˜ ao ou deprecia¸ c˜ ao nominal Se e ↓: valoriza¸ c˜ ao ou aprecia¸ c˜ ao nominal
Aten¸c˜ ao: alguns pa´ıses adotam a conven¸ c˜ ao contr´ aria. N´ os mesmos j´ a o fizemos. H´ a cem anos, a taxa de cˆ ambio era cotada em libras por mil-r´ eis. Assim, veja sempre como ´ e definida a taxa de cˆ ambio.
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Macroeconomia Aberta: a taxa real de cˆ ambio
Taxa real de cˆ ambio: ´ e o pre¸ co relativo dos bens de dois pa´ıses.
Ex.: pegue os pre¸ cos de dois carros similares no Brasil e nos EUA:
Hyundai nos EUA: US$30.000 por um carro.
Gol no Brasil: R$40.000 por um carro.
Suponha que: e = 2R$/US$ .
A que taxa trocamos carros americanos por brasileiros?
Pre¸ co do Hyundai em reais: R$60.000 Pre¸ co do Gol em reais: R$40.000 Taxa de troca: 3/2.
troca-se um Hyundai nos EUA por 3/2 Gol no Brasil
Macroeconomia Aberta: a taxa real de cˆ ambio
Taxa real de cˆ ambio: ´ e o pre¸ co relativo dos bens de dois pa´ıses.
ε = e × P ∗ P onde P P
∗´ e raz˜ ao do n´ıvel de pre¸ cos.
Se a taxa de cˆ ambio real (ε) ´ e elevada, os bens estrangeiros s˜ ao relativamente caros e os bens dom´ esticos relativamente baratos.
Se a taxa de cˆ ambio real (ε) ´ e baixa, ent˜ ao os bens estrangeiros s˜ ao relativamente baratos e os bens dom´ esticos s˜ ao relativamente caros.
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Macroeconomia Aberta: a taxa real de cˆ ambio
Cˆ ambio real vs. nominal.
Macroeconomia Aberta: a taxa real de cˆ ambio
O que ocorre ap´ os uma deprecia¸ c˜ ao real?
ε ↑⇒ X ↑, Q ↓
O que ocorre ap´ os uma aprecia¸ c˜ ao real?
ε ↓⇒ X ↓, Q ↑
onde X s˜ ao as exporta¸ c˜ oes e Q s˜ ao as importa¸ c˜ oes.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 15/299
´Indice Big Mac
Cˆ ambio real:
ε = e × P ∗ P Note que se ε = 1,
P = e × P ∗
Teoria da Paridade do Poder de Compra (Purchasing Power Parity, PPP):
Com livre mobilidade de bens e servi¸ cos: no longo prazo, ε = 1 Problema: como medir ε?
Cestas de bens utilizadas para calcular P ∗ e P s˜ ao diferentes.
Por exemplo: IPCA no Brasil vs. CPI nos EUA.
Solu¸ c˜ ao: ´ındice Big Mac,
“Cesta de bens” que comp˜ oe o Big Mac (carne, p˜ ao, gergelim,
alface, cebola, ...) ´ e constante ao redor do mundo.
´Indice Big Mac
Hip´ otese: no longo prazo, ε = 1 e e = P/P ∗
Pergunta: o real est´ a apreciado ou depreciado? Em julho de 2011, Pre¸ co do Big Mac nos EUA: US$4.07
Pre¸ co do Big Mac no Brasil: R$9.50
Taxa de cˆ ambio nominal (25 de julho): e = 1.54R$/US$
Pre¸ co do Big Mac no Brasil em d´ olares: US$6.16 (9.5/1.54) PPP do d´ olar no Brasil: 2.34 (9.5/4.07)
taxa nominal de longo prazo
Real est´ a apreciado em 52% (2.34/1.54 - 1)
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´Indice Big Mac
Hip´ otese: no longo prazo, ε = 1 e e = P/P ∗
Pergunta: o real est´ a apreciado ou depreciado? Em janeiro de 2017, Pre¸ co do Big Mac nos EUA: US$5,06
Pre¸ co do Big Mac no Brasil: R$16,50 Taxa de cˆ ambio nominal: e = 3, 22R$/US$
Pre¸ co do Big Mac no Brasil em d´ olares: US$5,12 (16,50/3,22) PPP do d´ olar no Brasil: 3,26 (16,50/5,06)
taxa nominal de longo prazo
Real est´ a apreciado em 1,2% (3,26/3,22 - 1)
´Indice Big Mac
Hip´ otese: no longo prazo, ε = 1 ou e = P/P ∗
Pergunta: o yuan chinˆ es est´ a apreciado ou depreciado? Em julho de 2011,
Pre¸ co do Big Mac nos EUA: US$4.07 Pre¸ co do Big Mac na China: Yuan 14.7
Taxa de cˆ ambio nominal (25 de julho): e = 6.45Yuan/US$
Pre¸ co do Big Mac na China em d´ olares: US$2.27 (14.7/6.45) PPP do d´ olar na China: 3.60 (14.7/4.07)
taxa nominal de longo prazo
Yuan est´ a depreciado em 44% (3.60/6.45-1)
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 19/299
´Indice Big Mac
Hip´ otese: no longo prazo, ε = 1 ou e = P/P ∗
Pergunta: o yuan chinˆ es est´ a apreciado ou depreciado? Em julho de 2016,
Pre¸ co do Big Mac nos EUA: US$5,06 Pre¸ co do Big Mac na China: Yuan 19,60 Taxa de cˆ ambio nominal: e = 6, 93Yuan/US$
Pre¸ co do Big Mac na China em d´ olares: US$2,83 PPP do d´ olar na China: 3,87 (19,60/5,06)
taxa nominal de longo prazo
Yuan est´ a depreciado em 44,1%
´Indice Big Mac
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 21/299
´Indice Big Mac
The Economist, 09 de janeiro, 2016
´Indice Big Mac
Janeiro de 2017
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 23/299
´Indice Big Mac
Julho de 2017
´Indice Big Mac
Janeiro de 2018
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 25/299
´Indice Big Mac
Referˆencia: http://www.economist.com/content/big-mac-index, valores para janeiro de 2017
´Indice Big Mac
Referˆencia: http://www.economist.com/content/big-mac-index, valores para janeiro de 2017
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 27/299
´Indice Big Mac
Problemas com o ´ındice Big Mac:
Pre¸ cos podem estar distorcidos por tarifas, impostos, margem de lucro...
Pre¸ cos podem refletir componentes non-tradables, como sal´ arios e alugu´ eis.
Efeito Balassa-Samuelson:
Hip´ otese 1: pa´ıses ricos s˜ ao mais produtivos no setor de bens comerci´ aveis;
Hip´ otese 2: trabalho ´ e um fator de produ¸c˜ ao que n˜ ao migra livremente entre pa´ıses;
O sal´ ario no setor n˜ ao-comerci´ avel ´ e maior nos pa´ıses ricos;
Pre¸ cos dos bens n˜ ao-comerci´ aveis (non-tradables) s˜ ao maiores nos pa´ıses ricos;
P e P ∗ incluem ambos os setores;
Resultado: desvios persistentes da PPP no longo prazo;
Em particular, pa´ıses menos produtivos no setor de bens
comerci´ aveis tendem a ter uma moeda mais depreciada.
´Indice Big Mac
Efeito Balassa-Samuelson: necessidade de corrigir para o PIB do pa´ıs.
Referˆencia: http://www.economist.com/content/big-mac-index
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 29/299
Taxa de cˆ ambio multilateral
Taxa real de cˆ ambio multilateral:
ε = e × P ∗ P
Ideia: calcular P ∗ usando n˜ ao s´ o apenas um ´ unico pa´ıs, mas diversos parceiros comercias.
Por quˆ e? Para que taxa de cˆ ambio real reflita a composi¸ c˜ ao do com´ ercio internacional.
Como? P ∗ ´ e uma m´ edia ponderada dos n´ıveis de pre¸ cos nos diversos parceiros comerciais.
Como peso de pondera¸ c˜ ao, por exemplo, poder-se-ia usar a
participa¸ c˜ ao relativa de cada pa´ıs no com´ ercio internacional.
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Demanda Dom´ estica por Bens 6= Demanda por Bens Dom´ esticos
Por quˆ e?
Bens produzidos domesticamente podem usar insumos importados.
Os estrangeiros tamb´ em demandam bens dom´ esticos.
A demanda dom´ estica pode incluir bens finais importados.
Demanda por bens dom´ esticos:
Z ≡ C + I + G − εQ + X
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 31/299
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Demanda por bens dom´ esticos:
Z ≡ C + I + G − εQ + X Dois ajustes em rela¸ c˜ ao a economia fechada:
1
Subtrair as importa¸ c˜ oes
exprimir a quantidade importada em termos da quantidade dos bens dom´ esticos
ou seja: um conversor de quantidade de bens estrangeiros (Q ) em quantidade de bens dom´ esticos
esse conversor, como se viu, ´ e a taxa de cˆ ambio real (ε), que ´ e o pre¸ co dos bens estrangeiros em termos dos bens dom´ esticos εQ = importa¸c˜ oes em termos dos bens dom´ esticos
2
Adicionar as exporta¸ c˜ oes
demanda estrangeira por bens dom´ esticos (X )
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Determinantes de C , I e G :
Poucas altera¸ c˜ oes em rela¸ c˜ ao ` a an´ alise de uma economia fechada.
A taxa de cˆ ambio real deve afetar a composi¸ c˜ ao do consumo e do investimento (privado e do governo), mas n˜ ao o total.
Portanto, podemos continuar a descrever C, I e G como j´ a v´ınhamos fazendo.
Demanda dom´ estica:
C + I + G = C(Y − T ) + I (Y , r ) + G onde ∂C/∂(Y − T ) > 0 ; ∂I /∂ Y > 0; ∂I /∂r < 0.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 33/299
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Determinantes das importa¸ c˜ oes (Q):
Q = Q(Y , ε)
∂Q/∂ Y > 0 e ∂Q/∂ε < 0
Determinantes das exporta¸ c˜ oes (X ):
X = X (Y ∗ , ε)
∂X /∂Y ∗ > 0 e ∂X /∂ε > 0
onde Y ∗ ´ e a renda do resto do mundo.
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 35/299
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Curva DD: demanda dom´ estica, C(Y − T ) + I (Y , r ) + G hip´ otese padr˜ ao: inclina¸ c˜ ao positiva menor que 1.
Curva AA: demanda dom´ estica por bens dom´ esticos, C(Y − T ) + I (Y , r ) + G − εQ(Y , ε)
curva AA ´ e menos inclinada que a DD, j´ a que Q cresce com Y
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 37/299
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Curva ZZ: demanda por bens dom´ esticos, C(Y − T ) + I (Y , r ) + G − εQ(Y , ε) + X (Y ∗ , ε)
curva ZZ ´ e paralela ` a curva AA pois X n˜ ao depende de Y Exporta¸c˜ oes l´ıquidas, NX = X (Y ∗ , ε) − εQ(Y , ε)
fun¸ c˜ ao decrescente do produto.
Y TB ´ e o n´ıvel de produto tal que NX = 0.
se Y < Y TB , NX > 0 (super´ avit comercial) se Y > Y TB , NX < 0 (d´ eficit comercial) qual ´ e a rela¸ c˜ ao de NX e ε? Amb´ıgua:
∂NX
∂ε = ∂X
∂ε − ε ∂Q
∂ε − Q > ? < 0
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Em equl´ıbrio: produto dom´ estico = demanda Y = Z ou seja
Y = C (Y − T ) + I (Y , r) + G − εQ(Y , ε) + X (Y ∗ , ε)
A equa¸c˜ ao acima determina o produto como uma fun¸ c˜ ao de todas as vari´ aveis que tomamos como dadas: impostos, taxa de cˆ ambio real e produto estrangeiro.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 39/299
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Graficamente:
O Mercado de Bens em uma Economia Aberta
Coment´ arios:
Economia aberta, equil´ıbiro implica Y = ZZ
S´ o por coincidˆ encia, Y TB tal que NX = 0, ou seja DD = ZZ Em 2015, o Brasil teve super´ avit comercial. O saldo da Balan¸ ca Comercial foi de US$ 19,69 bilh˜ oes, o melhor em 4 anos.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 41/299
Efeito de um aumento dos gastos do governo
Efeito de um aumento dos gastos do governo.
Hip´ otese: no equil´ıbrio incial, NX = 0 e Y = Y TB
Curva ZZ se desloca paralelamente para cima.
O que gera um aumento no produto.
Efeito de um aumento dos gastos do governo
Graficamente:
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 43/299
Efeito de um aumento dos gastos do governo
O que mudou em rela¸ c˜ ao ` a economia fechada?
H´ a um efeito via balan¸ ca comercial.
Como G n˜ ao entra diretamente na determina¸ c˜ ao de Q ou X , a rela¸ c˜ ao NX = X − εQ n˜ ao se mexe.
Ou seja: a curva NX n˜ ao se move, mas ocorrer´ a um movimento sobre a curva.
Movimento do produto de Y para Y 0 ocasiona o aparecimento de um
d´ eficit comercial.
Efeito de um aumento dos gastos do governo
Efeito sobre o produto ´ e menor do que em uma economia fechada. Por que?
quanto menor a inclina¸c˜ ao da demanda (ZZ), menor ser´ a o multiplicador
vimos que ZZ ´ e menos inclinada que DD
ou seja, ceteris paribus, o multiplicador em uma economia aberta ´ e menor
Intui¸c˜ ao: um aumento da demanda recai, agora, s´ o parcialmente sobre bens dom´ esticos, o restante recai sobre bens estrangeiros.
Portanto, com um aumento de gastos:
o efeito sobre a demanda por bens dom´ esticos ´ e menor do que ocorreria em uma economia fechada similar
como parte da demanda que cresceu ser´ a atendida por importa¸ c˜ oes, enquanto as exporta¸ c˜ oes permanecem inalteradas, haver´ a uma deteriora¸ c˜ ao da balan¸ca comercial
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 45/299
Efeito de um aumento dos gastos do governo
Quanto mais aberta for a economia, menor ser´ a o efeito sobre o produto e maior ser´ a o efeito adverso sobre a balan¸ ca comercial.
A B´ elgica, por exemplo, tem Q/PIB = 0.7, e assim, quando a demanda aumenta, cerca de 70% do aumento ser´ a atendido por importa¸ c˜ oes e s´ o 30% por produ¸ c˜ ao dom´ estica. Ou seja, a pol´ıtica fiscal expansionista na B´ elgica tende a deteriorar a balan¸ ca comercial e a n˜ ao expandir muito o produto.
Nos EUA, onde Q/PIB = 0.13, aumentos na demanda tamb´ em estar˜ ao
associados a deteriora¸ c˜ oes na balan¸ ca comercial
Efeitos de um aumento da demanda externa
Efeitos de um aumento da demanda externa: Y ∗ Hip´ otese: no equil´ıbrio incial, NX = 0 e Y = Y TB Curva ZZ desloca-se paralelamente para cima.
Curva NX desloca-se paralelamente para cima.
O aumento de produto externo causa um aumento no produto interno.
∆Y ∗ ⇒ ∆X ⇒ ∆Y
O aumento de produto externo causa uma melhora na balan¸ ca comercial.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 47/299
Efeito de um aumento da demanda externa
Graficamente:
Demanda interna vs. externa
Aumentos tanto na demanda interna quanto na externa conduzem ao aumento do produto. Entretanto, produzem efeitos opostos sobre a situa¸c˜ ao comercial do pa´ıs.
Um aumento na demanda externa, ao contr´ ario da demanda interna, melhora a balan¸ ca comercial.
Por que d´ eficits comerciais sucessivos s˜ ao ruins?
pa´ıs acumula muita d´ıvida para com o resto do mundo pagamentos de juros cada vez mais altos
Conclus˜ ao: aumento da demanda externa ´ e prefer´ıvel ao aumento da demanda interna.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 49/299
Problema de coordena¸c˜ ao
Choque de demanda em um pa´ıs afeta os outros pa´ıses. Efeito ser´ a mais forte quanto maior os la¸ cos comerciais.
Entretanto, considere o seguinte exemplo:
Recess˜ ao generalizada num grupo de pa´ıses que comercializam Os pa´ıses poderiam aumentar a demanda dom´ estica. Entretanto:
pequeno aumento no produto grande d´ eficit comercial
Ou os pa´ıses poderiam esperar que os outros aumentem a demanda dom´ estica. Neste caso:
produto aumentaria
melhora na balan¸ ca comercial
Mas se todos os pa´ıses esperarem, recess˜ ao continuar´ a.
Problema de coordena¸ c˜ ao. Se todos os pa´ıses coordenarem suas
pol´ıticas econˆ omicas, sair-se-ia da recess˜ ao.
Problema de coordena¸c˜ ao
Efeito de uma atua¸ c˜ ao coordenada:
produto aumentaria
balan¸ ca comercial n˜ ao mexeria muito
“melhora” na balan¸ ca comercial fruto do choque externo
“piora” na balan¸ ca comercial fruto do choque interno Evidˆ encia: apesar do esfor¸co ret´ orico do G7, pouca macrocoordena¸ c˜ ao entre pa´ıses.
Pa´ıses que n˜ ao est˜ ao em recess˜ ao relutariam em fazer a sua parte.
Problema do carona: uma vez que todos est˜ ao coordenando, pode ser ´ otimo n˜ ao coordenar.
Durante a grande depress˜ ao (anos 30), n˜ ao havia coordena¸ c˜ ao, e o com´ ercio internacional caiu em 2/3.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 51/299
Problema de coordena¸c˜ ao
Problema de coordena¸c˜ ao
Importa¸c˜ ao mundial (% do PIB):
Fonte: World Bank Data
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 53/299
Deprecia¸c˜ ao, balan¸ca comercial e produto
Taxa real de cˆ ambio: ´ e o pre¸ co relativo dos bens de dois pa´ıses.
ε = e × P ∗ P
pre¸co dos bens estrangeiros em termos do bem dom´ estico
Considerando pre¸ cos fixos (externo e interno), uma deprecia¸ c˜ ao nominal reflete-se igualmente numa deprecia¸ c˜ ao real.
Qual ´ e o efeito de uma deprecia¸ c˜ ao real sobre a balan¸ ca comercial e
o produto?
Deprecia¸c˜ ao, balan¸ca comercial e produto
Deprecia¸ c˜ ao e a balan¸ ca comercial:
NX = X − εQ = X (Y ∗ , ε) − εQ(Y , ε) Uma deprecia¸ c˜ ao real afeta a balan¸ ca comercial em 3 lugares:
As exporta¸ c˜ oes aumentam. A deprecia¸ c˜ ao torna os bens internos relativamente mais baratos.
As importa¸ c˜ oes diminuem. A deprecia¸c˜ ao torna os bens externos relativamente mais caros.
O pre¸ co relativo dos bens externos importados, Q, aumenta.
∂NX
∂ε = ∂X
∂ε − ε ∂Q
∂ε − Q > ? < 0
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 55/299
Deprecia¸c˜ ao, balan¸ca comercial e produto
∂NX
∂ε = ∂X
∂ε − ε ∂Q
∂ε − Q > ? < 0
Para uma deprecia¸ c˜ ao melhorar a balan¸ca comercial as exporta¸ c˜ oes devem aumentar o suficiente e as importa¸ c˜ oes devem diminuir o suficiente para compensar o aumento do pre¸co das importa¸ c˜ oes.
Condi¸c˜ ao de Marshall-Lerner: uma deprecia¸ c˜ ao real conduz a um
aumento nas exporta¸ c˜ oes l´ıquidas.
Deprecia¸c˜ ao, balan¸ca comercial e produto
Derivando a condi¸ c˜ ao de Marshall-Lerner quando NX = 0:
NX = X − εQ = 0 ⇒ X = εQ
Efeito de uma mudan¸ ca pequena na taxa real de cˆ ambio de ∆ε,
∆NX ≈ ∆X − ε∆Q − Q∆ε Dividindo por X
∆NX X ≈ ∆X
X − ε∆Q
X − Q ∆ε X Como NX = 0, ou seja, X = εQ,
∆NX X ≈ ∆X
X − ε∆Q
εQ − Q ∆ε
εQ Logo
∆NX X ≈ ∆X
X − ∆Q Q − ∆ε
ε
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 57/299
Deprecia¸c˜ ao, balan¸ca comercial e produto
Derivando a condi¸ c˜ ao de Marshall-Lerner quando NX = 0. Se taxa real de cˆ ambio aumenta ∆ε:
∆NX X ≈ ∆X
X − ∆Q Q − ∆ε
ε Primeiro termo ´ e positivo se ∆ε > 0.
Segundo termo ´ e negativo se ∆ε > 0.
Condi¸c˜ ao de Marshall-Lerner: ∆NX > 0 se e somente se
∆X X − ∆Q
Q > ∆ε ε
Exemplo: suponha que ∆ε ε = 1% implique ∆X X = 0.9% e ∆Q Q = −0.8%.
Como (0.9%) − (−0.8%) = 1.7% > 1%, a condi¸ c˜ ao de de
Marshall-Lerner ´ e satisfeita.
Deprecia¸c˜ ao, balan¸ca comercial e produto
Supondo que a condi¸ c˜ ao de Marshall-Lerner ´ e v´ alida, os efeitos da deprecia¸ c˜ ao s˜ ao semelhantes aos efeitos de um aumento do produto externo.
Deprecia¸ c˜ ao aumenta NX e desloca tanto a ZZ como a NX para cima.
O produto aumenta e a balan¸ ca comercial melhora.
Diferen¸ca entre ∆Y ∗ > 0 e ∆ε > 0: na deprecia¸ c˜ ao, os habitantes do pa´ıs ficam mais pobres. Os produtos externos s˜ ao mais caros e as pessoas precisam pagar mais para obter esses bens.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 59/299
Efeito de um aumento da taxa real de cˆ ambio
Graficamente:
Aprecia¸c˜ ao do franco su´ı¸co
Em meados de 2011...
Deteriora¸ c˜ ao da economia global: busca por ativos seguros.
Geralmente, ativos sem risco denominados em d´ olar.
D´ıvida alta nos EUA / pol´ıticas que geram deprecia¸ c˜ ao do cˆ ambio.
Euro: problemas semelhantes.
Alternativas?
ouro franco su´ı¸ co
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 61/299
Aprecia¸c˜ ao do franco su´ı¸co
Pre¸co do ouro:
Aprecia¸c˜ ao do franco su´ı¸co
Taxa de cˆ ambio (franco su´ı¸ co / Euro):
Fonte: European Central Bank
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 63/299
Efeito de um aumento da taxa real de cˆ ambio
Aprecia¸c˜ ao real da moeda diminui o produto e piora a balan¸ ca comercial.
06 de setembro de 2011: o Banco Nacional Su´ı¸ co estabeleceu um m´ınimo para a taxa de cˆ ambio nominal.
No comunicado a imprensa:
“The Swiss National Bank (SNB) is therefore aiming for a substantial
and sustained weakening of the Swiss franc. With immediate effect, it
will no longer tolerate a EUR/CHF exchange rate below the minimum
rate of CHF 1.20. The SNB will enforce this minimum rate with the
utmost determination and is prepared to buy foreign currency in
unlimited quantities.”
Efeito de um aumento da taxa real de cˆ ambio
15 de setembro de 2015: o Banco Nacional Su´ı¸co abandona o m´ınimo para a taxa de cˆ ambio nominal.
No comunicado a imprensa:
“The Swiss National Bank (SNB) is discontinuing the minimum exchange rate of CHF 1.20 per euro.”
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 65/299
Combinando pol´ıtica cambial e fiscal
Suponha que um governo queira melhorar seu d´ eficit comercial sem alterar seu produto.
Apenas uma deprecia¸ c˜ ao n˜ ao funcionaria pois reduziria o d´ eficit mas aumentaria o produto.
Apenas uma contra¸ c˜ ao fiscal n˜ ao funcionaria pois reduziria o d´ eficit mas diminuiria o produto.
Resposta: usar a combina¸c˜ ao certa de deprecia¸ c˜ ao e contra¸ c˜ ao fiscal.
Combinando pol´ıtica cambial e fiscal
Suponha que a economia esteja em equil´ıbrio com produto Y e com d´ eficit comercial (NX < 0).
1 o passo: realizar uma deprecia¸c˜ ao suficiente para eliminar o d´ eficit comercial no n´ıvel inicial do produto Y . Curva ZZ deslocaria para ZZ’, aumentando o produto.
2 o passo: reduzir os gastos do governo de forma a deslocar ZZ’ de volta para ZZ.
Resultado: balan¸ ca comercial melhora, e o produto Y fica constante.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 67/299
Combinando pol´ıtica cambial e fiscal
Graficamente:
Combinando pol´ıtica cambial e fiscal
Na medida que os governos se preocupam tanto com produto quanto com a balan¸ ca comercial, eles devem usar combina¸ c˜ oes de pol´ıticas fiscais e cambiais.
Super´ avit comercial D´ eficit comercial
Produto baixo ε?, G ↑ ε ↑, G ?
Produto alto ε ↓, G ? ε?, G ↓
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 69/299
Dinˆ amica: curva J
Os efeitos de uma deprecia¸ c˜ ao cambial n˜ ao s˜ ao instantˆ aneos.
Leva tempo para os consumidores perceberem os novos pre¸ cos relativos, para as empresas trocarem seus fornecedores etc.
Assim, no in´ıcio, pode haver uma deteriora¸ c˜ ao na balan¸ ca comercial. Por quˆ e?
O efeito inicial tende a se refletir mais nos pre¸ cos que nas quantidades, o que implica uma deteriora¸ c˜ ao inicial da balan¸ ca comercial.
NX = X − εQ
Se a condi¸ c˜ ao de Marshall-Lerner for satisfeita, a resposta nas
importa¸c˜ oes e exporta¸ c˜ oes, com o decorrer do tempo, ser´ a mais forte que
o choque negativo de pre¸cos e haver´ a uma melhora na balan¸ ca comercial.
Dinˆ amica: curva J
Evidˆ encia emp´ırica para pa´ıses da OCDE: processo leva de 6 meses a 1 ano.
Implica¸c˜ ao de pol´ıtica: deprecia¸ c˜ ao exerce um efeito inicial contracionista sobre o produto.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 71/299
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
Da equa¸ c˜ ao de equil´ıbrio no mercado de bens temos que:
Y = C + I + G − εQ + X Y − C = I + G + NX Y − C − T
| {z }
S
priv= I + G − T + NX NX = S priv + T − G
| {z }
S
pub−I
NX = S priv + S pub − I S priv : poupan¸ ca privada
S pub : poupan¸ ca p´ ublica
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
Da equa¸ c˜ ao de equil´ıbrio no mercado de bens temos que:
NX = S priv + S pub − I
Coment´ arios:
super´ avit comercial tem que corresponder ao excesso de poupan¸ ca sobre o investimento
super´ avit comercial implica o pa´ıs emprestar ao resto do mundo.
d´ eficit comercial tem que corresponder a um excesso de investimento sobre a poupan¸ ca
d´ eficit comercial implica o resto do mundo emprestar ao pa´ıs
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 73/299
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
Se o pa´ıs investe mais do que poupa, S priv + S pub < I
estar´ a tomando emprestado do resto do mundo, o que equivale a dizer
que importa liquidamente recursos reais do exterior.
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
NX = S priv + S pub − I ⇐⇒ I = S priv + S pub − NX O que esta equa¸ c˜ ao diz:
Um aumento no investimento deve se refletir num aumento da poupan¸ ca privada ou p´ ublica, ou em uma deteriora¸ c˜ ao da balan¸ ca comercial.
Um aumento no d´ eficit fiscal deve se refletir em um aumento da poupan¸ ca privada, ou em uma diminui¸ c˜ ao do investimento, ou em deteriora¸ c˜ ao da balan¸ca comercial.
O pa´ıs que tem alta taxa de poupan¸ ca dom´ estica (privada e p´ ublica) deve ter uma alta taxa de investimento ou um grande super´ avit comercial.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 75/299
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
NX = S priv + S pub − I O que esta equa¸ c˜ ao n˜ ao diz:
se um d´ eficit fiscal se refletir´ a em um d´ eficit comercial, em um aumento da poupan¸ca privada ou em uma queda do investimento.
Para responder essa pergunta, devemos resolver explicitamente para o produto e seus componentes, usando as hip´ oteses que fizemos sobre consumo, investimento, exporta¸ c˜ oes e importa¸ c˜ oes.
Para tal pode-se usar tanto:
Y = C (Y − T ) + I (Y , r) + G − εQ(Y , ε) + X (Y ∗ , ε) quanto
NX = S + (T − G ) − I
Entretanto, a ´ ultima equa¸ c˜ ao pode levar a mal entendidos.
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
NX = S + (T − G ) − I
Argumento falacioso: “´ E claro que um pa´ıs n˜ ao pode reduzir seu d´ eficit comercial atrav´ es de uma deprecia¸ c˜ ao. Veja a equa¸ c˜ ao acima. Ela mostra que o d´ eficit comercial ´ e igual ao investimento menos a poupan¸ ca, p´ ublica e privada. Por que uma deprecia¸ c˜ ao deveria afetar o investimento ou a poupan¸ ca? Se n˜ ao afeta nem I nem S + (T − G ), como ent˜ ao afetar´ a NX ?”
Sabemos que o argumento ´ e falso, pois, quando vale a condi¸ c˜ ao de Marshall-Lerner, uma deprecia¸c˜ ao leva a um aumento no produto e a uma melhora na balan¸ ca comercial (NX sobe).
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 77/299
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
NX = S + (T − G ) − I O que est´ a errado com argumento?
Uma deprecia¸ c˜ ao afeta sim a poupan¸ ca e o investimento.
J´ a que afeta positivamente a demanda por bens dom´ esticos, elevando o produto.
Um produto maior leva ao aumento da poupan¸ ca em rela¸ c˜ ao ao investimento e redu¸ c˜ ao do d´ eficit comercial.
Este ´ e o outro lado da corre¸c˜ ao do d´ eficit comercial.
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
Algebricamente: em equil´ıbrio,
Y = C (Y − T ) + I (Y , r) + G − εQ(Y , ε) + X (Y ∗ , ε) Hip´ oteses:
C = c 0 + c 1 (Y − T ) I = b 0 + b 1 Y − b 2 r Q = q 1 Y − q 2 ε X = x 1 Y ∗ + x 2 ε Logo:
Y = C(Y − T ) + I (Y , r ) + G − εQ(Y , ε) + X (Y ∗ , ε)
Y = c 0 + c 1 (Y − T ) + b 0 + b 1 Y − b 2 r + G − ε(q 1 Y − q 2 ε) + x 1 Y ∗ + x 2 ε (1 − c 1 − b 1 + εq 1 )Y = c 0 − c 1 T + b 0 − b 2 r + G + q 2 ε 2 + x 1 Y ∗ + x 2 ε
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 79/299
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
Y = c 0 − c 1 T + b 0 − b 2 r + G + q 2 ε 2 + x 1 Y ∗ + x 2 ε 1 − c 1 − b 1 + εq 1
Logo (verifiquem):
∂Y
∂ε = x 2 + 2q 2 ε − q 1 Y 1 − c 1 − b 1 + εq 1
O que o ocorre com a poupan¸ ca:
S = Y − C − T = Y − c 0 − c 1 (Y − T ) − T = −c 0 + (1 − c 1 )(Y − T ) Logo
∂S
∂ε = ∂S
∂Y
∂Y
∂ε = (1 − c 1 ) ∂Y
∂ε
Poupan¸ca, investimento e balan¸ca comercial
O que o ocorre com o investimento:
I = b 0 + b 1 Y − b 2 r Logo
∂I
∂ε = ∂I
∂Y
∂Y
∂ε = b 1
∂Y
∂ε Como NX = S + (T − G) − I ,
∂NX
∂ε = ∂S
∂ε
|{z}
=(1−c
1)
∂Y∂ε+ ∂(T − G )
∂ε
| {z }
=0
− ∂I
∂ε
|{z}
=b
1∂Y∂ε
= (1 − c 1 − b 1 ) ∂Y
∂ε
Hip´ otese: 1 − c 1 − b 1 > 0, caso contr´ ario o multiplicador seria negativo.
Conclus˜ ao: um aumento no produto por conta da deprecia¸ c˜ ao ocasiona um aumento da poupan¸ ca privada maior que o aumento no investimento.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 81/299
Exerc´ıcios
Exerc´ıcio: Uma desvaloriza¸ c˜ ao do cˆ ambio real sempre eleva as
exporta¸c˜ oes e as exporta¸ c˜ oes l´ıquidas. Verdadeiro ou Falso? Justifique.
Exerc´ıcio: Comente a seguinte prescri¸ c˜ ao de pol´ıtica econˆ omica: “Se um
pa´ıs tem elevado d´ eficit em conta corrente, uma poss´ıvel solu¸ c˜ ao ´ e cortar
os gastos p´ ublicos.” Tal prescri¸ c˜ ao ´ e correta?
Exerc´ıcios
Exerc´ıcio: Considere a seguinte economia aberta: a taxa de cˆ ambio real ´ e fixa e igual a 1 e o consumo, o investimento, os gasto do governo e os impostos s˜ ao dados por: C = 20 + 0, 6(Y − T ), I = 20, G = 20, T = 20. As importa¸ c˜ oes e exporta¸ c˜ oes s˜ ao dadas por Q = 0, 4Y e X = 0, 4Y ∗ , onde o asterisco representa uma vari´ avel estrangeira.
a. Resolva para a renda de equil´ıbrio da economia interna, dado Y ∗ . Qual ´ e o multiplicador desta economia? Se estiv´ essemos numa economia fechada (de modo que exporta¸c˜ oes e importa¸ c˜ oes fossem iguais a zero) qual seria o multiplicador? Por que os dois multiplicadores s˜ ao diferentes?
b. Imagine que a economia estrangeira tenha as mesmas equa¸ c˜ oes que a economia interna (remova o asterisco de todas as vari´ aveis que o tˆ em e acrescente ` aquelas que n˜ ao o tˆ em). Use os dois conjuntos de equa¸ c˜ oes para resolver a renda de equil´ıbrio de cada pa´ıs. Agora, qual ´ e o multiplicador de cada pa´ıs? Por que ´ e diferente do multiplicador da economia aberta acima?
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 83/299
Exerc´ıcios
c. Considere que cada pa´ıs tem como objetivo um n´ıvel de produto de 125. Qual ´ e o aumento de G necess´ ario para que cada um desses pa´ıses alcance seu objetivo, na hip´ otese que o outro pa´ıs n˜ ao altere G ?
d. Qual ´ e o aumento comum de G necess´ ario para alcan¸ car a meta relativa ao produto?
e. Por que ´ e t˜ ao dif´ıcil alcan¸car na pr´ atica a coordena¸ c˜ ao (como o
aumento comum de G visto no item anterior)?
Exerc´ıcios
Exerc´ıcio (Prova 2013, 2015): Descreva a dinˆ amica da Curva J e explicite as etapas em que a deprecia¸c˜ ao cambial exerce efeito maior sobre pre¸ cos (quantidades) relativamente a quantidades (pre¸ cos). Relacione o predom´ınio do efeito sobre pre¸cos (quantidades) com a validade (ou invalidade) da condi¸ c˜ ao de Marshall-Lerner.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 85/299
Mercado de ativos
Final do s´ eculo XX:
o aumento das transa¸ c˜ oes internacionais com ativos
grau de abertura financeira alto, assim como no in´ıcio do s´ eculo Em 2013:
o volume di´ ario das transa¸ c˜ oes de cˆ ambio no mundo era de US$5,3 trilh˜ ao (87% envolvendo d´ olares) - Fonte: Relat´ orio BIS 2013 a valor anual da soma das exporta¸ c˜ oes e importa¸ c˜ oes dos EUA era de US$ 5 trilh˜ oes (em m´ edia, US$ 13 bilh˜ oes di´ arios)
a maioria das transa¸ c˜ oes est´ a associada a compra e venda de ativos Abertura financeira:
permite a um pa´ıs tomar emprestado (e emprestar), isolando seu consumo de choques na sua produ¸ c˜ ao
empr´ estimos em moeda e vendas de t´ıtulos privados de d´ıvida
tornam-se instrumentos corriqueiros no mercado de cˆ ambio
movimentos de capitais s˜ ao mais importantes
Balan¸co de Pagamentos
O Balan¸ co de Pagamentos ´ e o registro de todas as transa¸ c˜ oes envolvendo bens, servi¸ cos e ativos entre os residentes de um pa´ıs e o resto do mundo (n˜ ao-residentes).
1
Balan¸ ca comercial (Exporta¸ c˜ ao - Importa¸ c˜ ao)
2
Balan¸ ca de servi¸ cos
3
Rendas
4
Transferˆ encias Unilaterais
5
Conta Corrente ou Transa¸ c˜ oes Correntes
6
Conta Capital e Financeira
Saldo do BOP = BC + BS + Rendas + TU (saldo de transa¸ c˜ oes correntes) + Conta de Capital e Financeira = Varia¸ c˜ oes nas reservas internacionais
D´ eficit no balan¸ co de pagamentos: residentes est˜ ao efetuando mais pagamentos a estrangeiros do que est˜ ao recebendo destes. Significa que a soma dos saldos das contas correntes e de capital ´ e negativa.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 87/299
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
Hip´ oteses:
perfeita mobilidade de capitais
apenas a moeda dom´ estica serve para liquidar transa¸ c˜ oes no pa´ıs Escolha relevante entre ativos dom´ esticos e estrangeiros:
ativos que rendem juros e n˜ ao moeda
por exemplo: t´ıtulos dom´ esticos x t´ıtulos estrangeiros
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
Exemplo: t´ıtulos de renda fixa
Vocˆ e pode investir R$1.00 em um t´ıtulo brasileiro que rende i t . Ganho:
1 + i t
Vocˆ e pode investir R$1.00 em um t´ıtulo americano que rende i t ∗ . Como cada R$1.00 ´ e trocado por U $1/E t , o ganho esperado ´ e:
1 E t
(1 + i t ∗ )E t+1 e
onde E t+1 e ´ e a taxa de cˆ ambio esperada no per´ıodo seguinte.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 89/299
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
Investe em um t´ıtulo de renda fixa no Brasil:
Em t, R$1.00 ⇒ Em t + 1, R$(1 + i t ) Investe em um t´ıtulo de renda fixa nos EUA:
Em t , R$1.00 = U $ 1 E t
⇒ Em t + 1, U $ 1 E t
(1 + i t ∗ ) = R$ 1 E t
(1 + i t ∗ )E t+1 e Hip´ oteses:
livre movimenta¸ c˜ ao de capitais
indiferen¸ ca entre ativos (de mesmo risco)
Se os investidores retˆ em apenas os t´ıtulos com maior rentabilidade esperada, ambos os t´ıtulos devem ter o mesmo rendimento esperado.
Rela¸c˜ ao de (n˜ ao) arbitragem:
(1 + i t ) = (1 + i t ∗ ) E t+1 e E t
Condi¸ c˜ ao de paridade n˜ ao coberta das taxas de juros.
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
Reescrevendo:
(1 + i t ) = (1 + i t ∗ ) E t+1 e
E t = (1 + i t ∗ )
1 + E t+1 e − E t E t
Aproxima¸ c˜ ao logar´ıtmica: se x ´ e um n´ umero pequeno, ln(1 + x ) ≈ x
Logo
i t ≈ i t ∗ + E t+1 e − E t
E t
taxa de juros interna ´ e aproximadamente igual a taxa de juros externa mais a taxa de deprecia¸ c˜ ao esperada da moeda nacional.
Implica¸c˜ ao: a menos que os pa´ıses estejam dispostos a tolerar grandes varia¸c˜ oes na taxa de cˆ ambio, as taxas de juros dos pa´ıses tendem a se mover em conjunto.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 91/299
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
i t ≈ i t ∗ + E t+1 e − E t
E t
Simplificando a nota¸ c˜ ao:
i ≈ i ∗ + E e − E
E ⇐⇒ E = E e 1 + i − i ∗ Logo:
um aumento da taxa de juros interna leva a uma diminui¸ c˜ ao (aprecia¸ c˜ ao) da taxa de cˆ ambio nominal
um aumento da taxa de juros externa leva a um aumento (deprecia¸ c˜ ao) da taxa de cˆ ambio nominal
um aumento da taxa de cˆ ambio esperada leva a um aumento (deprecia¸ c˜ ao) da taxa de cˆ ambio nominal
Intui¸c˜ ao: arbitragem!
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
E = E e 1 + i − i ∗ Intui¸c˜ ao: arbitragem
se i aumenta, investidores trocam t´ıtulos americanos por brasileiros ou seja, vendem d´ olares e compram reais (real aprecia)
se i ∗ aumenta, investidores trocam t´ıtulos nacionais por estrangeiros ou seja, vendem reais e compram d´ olares (real deprecia) se E e aumenta, investidores trocam t´ıtulos nacionais por estrangeiros
ou seja, vendem reais e compram d´ olares (real deprecia)
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 93/299
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
Escolha entre ativos dom´ esticos e estrangeiros
Hip´ oteses:
livre movimenta¸ c˜ ao de capitais
indiferen¸ ca entre ativos (de mesmo risco)
investidores retˆ em apenas os t´ıtulos com maior rentabilidade Condi¸c˜ ao de paridade n˜ ao coberta das taxas de juros:
i t ≈ i t ∗ + E t+1 e − E t E t O que estamos ignorando:
custos de transa¸ c˜ ao riscos cambial e de cr´ edito
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 95/299
Arbitragem
Condi¸c˜ ao de paridade n˜ ao coberta das taxas de juros:
i t ≈ i t ∗ + E t+1 e − E t E t
| {z }
expectativa de deprecia¸ c˜ ao Condi¸c˜ ao de paridade coberta das taxas de juros:
i t ≈ i t ∗ + F t − E t
E t
| {z } prˆ emio a termo onde F t ´ e o pre¸ co do “d´ olar futuro”.
Prˆ emio a termo = prˆ emio de risco cambial + expectativa de deprecia¸ c˜ ao F t − E t
E t
= F t − E t+1 e E t
+ E t+1 e − E t
E t
Por que E t+1 e 6= F t ? Avers˜ ao ao risco.
Cˆ ambio futuro
D´ olar Futuro vs. D´ olar Esperado No Futuro:
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 97/299
Cˆ ambio futuro
D´ olar Futuro vs. D´ olar Esperado No Futuro:
Cˆ ambio futuro
D´ olar Futuro vs. D´ olar Esperado No Futuro:
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 99/299
Cˆ ambio futuro
D´ olar Futuro vs. D´ olar Esperado No Futuro:
Cˆ ambio futuro
D´ olar Futuro vs. D´ olar Esperado No Futuro:
3,60 3,70 3,80 3,90 4,00 4,10 4,20 4,30 4,40 4,50
1 mês 3 meses 6 meses
24/09/2015 Futuro 24/09/2015 Esperado
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 101/299
Cˆ ambio futuro
Arbitragem
Se houver risco de cr´ edito:
i t ≈ i t ∗ + F t − E t
E t
+ θ t
onde θ t ´ e o “risco pa´ıs”.
Exemplo: EMBI+, calculado pela JPMorgan.
´ındice que reflete o comportamento dos t´ıtulos da d´ıvida externa de pa´ıses emergentes (denominados em d´ olar)
corresponde ` a m´ edia ponderada dos prˆ emios pagos por t´ıtulos brasileiros em rela¸ c˜ ao a pap´ eis de prazo equivalentes do Tesouro dos EUA
a cada 100 pontos expressos pelo EMBI+ os t´ıtulos do pa´ıs pagam uma sobretaxa de 1 p.p. sobre os pap´ eis dos EUA
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 103/299
Arbitragem
Arbitragem
CDS (atualizado):
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 105/299
Juntando os mercados de bens e financeiros
Objetivo: entender os movimentos conjuntos do produto, da taxa de juros e da taxa de cˆ ambio.
Trˆ es equa¸ c˜ oes:
1
Equil´ıbrio no mercado de bens (sob a hip´ otese P = P ∗ ):
Y = C (Y − T ) + I (Y , i) + G + NX(Y , Y ∗ , E )
2
Equil´ıbrio no mercado de moeda:
M
P = YL(i)
3
Paridade n˜ ao coberta da taxa de juros:
(1 + i) = (1 + i ∗ ) E e
E ⇒ E = E e (1 + i ∗ )
(1 + i )
Juntando os mercados de bens e financeiros
Eliminando a taxa de cˆ ambio, reduzimos o sistema a duas equa¸ c˜ oes.
Curva IS:
Y = C(Y − T ) + I (Y , i) + G + NX
Y , Y ∗ , E e (1 + i ∗ ) (1 + i)
Curva LM:
M
P = YL(i)
Hip´ otese: taxa de cˆ ambio esperada E e ´ e tomada como dada.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 107/299
Juntando os mercados de bens e financeiros
Curva IS:
Y = C(Y − T ) + I (Y , i) + G + NX
Y , Y ∗ , E e (1 + i ∗ ) (1 + i)
Qual ´ e o efeito do aumento, via curva IS, da taxa de juros sobre o produto?
1
i ↑⇒ I ↓⇒ Z ↓⇒ Y ↓
2
i ↑⇒ E ↓⇒ NX ↓⇒ Y ↓
Ambos os efeitos v˜ ao no mesmo sentido.
Conclus˜ ao: assim como numa economia fechada, a IS ´ e negativamente inclinada.
Curva LM: idˆ entica na economia aberta e fechada.
Juntando os mercados de bens e financeiros
Graficamente:
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 109/299
Efeitos da pol´ıtica fiscal em economia aberta
Qual ´ e o efeito do aumento dos gastos G ?
Efeitos da pol´ıtica fiscal em economia aberta
Qual ´ e o efeito do aumento dos gastos G ? a IS expande, mas a LM n˜ ao se move
novo equil´ıbrio: Y e i s˜ ao maiores, mas E menor (se aprecia).
Num primeiro momento:
G ↑⇒ Z ↑⇒ Y ↑⇒ demanda por moeda ↑⇒ i ↑ (M/P ´ e fixo) ⇒ E ↓ Num segundo momento:
i ↑ e E ↓⇒ Z ↓⇒ cancela parcialmente o efeito de G em Y
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 111/299
Efeitos da pol´ıtica fiscal em economia aberta
O que ocorre com os componentes de Y ? G aumenta por hip´ otese
C aumenta porque Y aumenta
efeito em I ´ e amb´ıguo pois Y ↑⇒ I ↑, mas i ↑⇒ I ↓ NX diminui, pois Y aumenta e E diminui (se aprecia)
Observe neste ´ ultimo t´ opico que o aumento do d´ eficit fiscal leva a uma
redu¸c˜ ao da balan¸ ca comercial. Se a balan¸ ca comercial estivesse zerada,
ter´ıamos que um d´ eficit or¸ cament´ ario implicaria um d´ eficit comercial.
Os efeitos da pol´ıtica monet´ aria em economia aberta
Considere uma contra¸ c˜ ao monet´ aria: curva LM se desloca para cima.
M
P ↓⇒ Y ↓, i ↑, E ↓
Hist´ oria: contra¸ c˜ ao monet´ aria leva a um aumento na taxa de juros, tornando os t´ıtulos dom´ esticos mais atraentes, desencadeando uma aprecia¸c˜ ao. Tanto uma aprecia¸ c˜ ao do cˆ ambio como um aumento na taxa de juros diminuem a demanda e produto.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 113/299
Os efeitos da pol´ıtica monet´ aria em economia aberta
Qual ´ e o efeito de uma contra¸c˜ ao monet´ aria M ?
Taxas de cˆ ambio fixas
Hip´ otese at´ e ent˜ ao: BC fixa M e deixa E flutuar ` a vontade.
Em v´ arios pa´ıses, isso n˜ ao ´ e verdade.
Usa-se a pol´ıtica monet´ aria para se atingir metas para o cˆ ambio (impl´ıcitas ou expl´ıcitas).
V´ arios s˜ ao os tipos e nomes dos regimes cambiais:
Cˆ ambio flutuante: EUA, Europa e o Jap˜ ao. N˜ ao h´ a meta expl´ıcita para o cˆ ambio.
Cˆ ambio fixo: US$ - Argentina (at´ e dez/2001) que adotava o d´ olar como ˆ ancora cambial.
Mudan¸ cas na taxa de cˆ ambio s˜ ao raras
Quando tais mudan¸cas occorem, estas s˜ ao chamadas de desvaloriza¸ c˜ oes e valoriza¸ c˜ oes
Sistema h´ıbridos: diferentes graus de compromisso com a meta de taxa de cˆ ambio
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 115/299
Taxas de cˆ ambio fixas
Sistema h´ıbridos: diferentes graus de compromisso com a meta de taxa de cˆ ambio
Minidesvaloriza¸ c˜ oes (crawling peg): se infla¸c˜ ao ´ e alta, fixar o cˆ ambio geraria aprecia¸c˜ ao real cont´ınua
Bandas cambiais: cˆ ambio flutua, mas dentro de um intervalo Hist´ oria do Euro:
O SME (Sistema Monet´ ario Europeu) determinou a varia¸ c˜ ao das taxas de cˆ ambio na Uni˜ ao Europ´ eia de 1978 a 1998
Pa´ıses-membro concordaram em manter suas taxas de cˆ ambio
dentro de bandas de varia¸ c˜ ao, em torno de uma paridade central
Alguns pa´ıses deram um passo adiante e adotaram uma moeda
comum, o euro, adotando uma taxa de cˆ ambio fixa entre eles
Taxas de cˆ ambio fixas
Sob mobilidade perfeita de capitais, independentemente do regime cambial, temos a condi¸ c˜ ao de paridade n˜ ao coberta da taxa de juros:
(1 + i) = (1 + i ∗ ) E e E
Suponha um regime de cˆ ambio fixo cr´ıvel, tal que E e = E = ¯ E . Logo:
(1 + i) = (1 + i ∗ ) ⇒ i = i ∗ Curva LM:
M
P = YL(i ∗ )
Conlus˜ ao: como P e L(i ∗ ) est˜ ao fixos, se Y aumenta, o BC tem que aumentar M de forma a manter o cˆ ambio fixo.
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 117/299
Taxas de cˆ ambio fixas
S´INTESE: Com mobilidade perfeita de capitais e regime de cˆ ambio fixo, o BC desiste de ter a pol´ıtica monet´ aria como instrumento de pol´ıtica econˆ omica.
Por que? O regime de cˆ ambio fixo exige que i = i ∗ , logo o estoque nominal de moeda M deve se ajustar para garantir i = i ∗ .
Mais geral: ´ e imposs´ıvel para um pa´ıs ter ao mesmo tempo os seguintes objetivos:
1
Fixar a taxa de cˆ ambio
2
Ter mobilidade perfeita de capital
3
Usar pol´ıtica monet´ aria como instrumento de pol´ıtica econˆ omica
Trade-off entre abertura do mercado de capitais, dependˆ encia da pol´ıtica
monet´ aria e volatilidade de taxa de cˆ ambio nominal.
Taxas de cˆ ambio fixas
Entretanto: dois objetivos s˜ ao sempre mutuamente consistentes.
Um pa´ıs pode ter mobilidade perfeita de capital e regime de cˆ ambio fixo, desde que abra m˜ ao da pol´ıtica monet´ aria.
i = i ∗ e M
P = YL(i ∗ )
Um pa´ıs pode ter mobilidade perfeita de capital e usar a pol´ıtica monet´ aria como instrumento, desde que o cˆ ambio flutue.
(1 + i) = (1 + i ∗ ) E e E e M
P = YL(i)
Um pa´ıs pode usar a pol´ıtica monet´ aria como instrumento e ter um regime de cˆ ambio fixo, desde que n˜ ao permita a livre mobilidade de capitais (impondo controles, por exemplo)
i 6= i ∗ e M
P = YL(i)
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 119/299
Pol´ıtica fiscal sob cˆ ambio fixo
Dado que a pol´ıtica monet´ aria deixa de ser uma op¸ c˜ ao sob cˆ ambio fixo, o que ocorre com a pol´ıtica fiscal?
Supondo um aumento nos gastos do governo, sob taxa de cˆ ambio flex´ıvel, o produto aumenta e a taxa de juros aumenta, o que aprecia a taxa de cˆ ambio.
Entretanto, sob cˆ ambio fixo, a moeda n˜ ao pode apreciar e o banco central deve acomodar esse aumento de demanda por moeda com uma oferta maior.
Assim, a LM se desloca para a direita para manter a taxa de juros e a
taxa de cˆ ambio constantes.
Pol´ıtica fiscal sob cˆ ambio fixo
O que ocorre com os componentes da demanda agregada?
Por hip´ otese, ↑ G
Como a renda aumenta e T ´ e constante, ↑ C
Como a renda aumenta e i ´ e constante (por hip´ otese), ↑ I E o que ocorre com as exporta¸ c˜ oes l´ıquidas?
Como NX = NX(Y , Y ∗ , ), e Y ∗ e n˜ ao se alteram, enquanto
↑ Y , as exporta¸ c˜ oes l´ıquidas caem - essencialmente, porque as importa¸ c˜ oes aumentam (aumenta a demanda dom´ estica), enquanto as exporta¸ c˜ oes n˜ ao se alteram.
Note que uma pol´ıtica fiscal, sob cˆ ambio fixo, n˜ ao tem efeito de crowding out. A expans˜ ao dos gastos do governo (ou a redu¸ c˜ ao dos impostos) n˜ ao provocar´ a efeito adverso sobre o investimento, via ↑ i , porque as taxas de juros s˜ ao mantidas constantes (h´ a acomoda¸ c˜ ao monet´ aria pelo BC).
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Pol´ıtica fiscal sob cˆ ambio fixo
Exerc´ıcios
Exerc´ıcio (Prova 2011): Na d´ ecada de 70, a taxa de cˆ ambio no M´ exico era fixa em rela¸ c˜ ao ao d´ olar, no entanto, a taxa de juros mexicana era muito maior do que a taxa americana. Suponha mobilidade perfeita de capitais. Por que motivo a taxa de juros mexicana era mais elevada do que a americana? Sob que condi¸ c˜ ao, as taxas de juros deveriam ser iguais entre os dois pa´ıses?
Obs.: ignore considera¸ c˜ oes sobre avers˜ ao ao risco e risco-pa´ıs.
Resposta: De acordo com a paridade descoberta da taxa de juros 1 + i mex = (1 + i eua ) E e
E ⇒ i mex ≈ i eua + E e − E E Logo: i mex > i eua se
h´ a expectativa de deprecia¸c˜ ao da moeda mexicana em rela¸ c˜ ao ao d´ olar: E e > E
em outras palavras, o regime de cˆ ambio fixo n˜ ao era cr´ıvel
Marcio Garcia PUC-Rio Teoria Macroeconˆomica II - Parte II 123/299