RESENHA•ECONOMIA INDUSTRIAL – FUNDAMENTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS NO BRASIL
124 •©RAE • VOL. 43 • Nº 2
ECONOMIA INDUSTRIAL – FUNDAMENTOS
TEÓRICOS E PRÁTICOS NO BRASIL
Por Francisco Alves
Professor Adjunto do Departamento de Engenharia de Produção da UFSCar.
E-Mail: [email protected]
Finalmente, os estudantes de Eco-nomia, Administração, Engenharia de Produção, bem como os profissio-nais da área de economia e outras ciências afins, que se debruçam por compreender a dinâmica das empre-sas capitalistas neste novo milênio, têm à disposição uma obra comple-ta sobre o tema. Este livro vem pre-encher uma enorme lacuna no ensi-no de ecoensi-nomia na atualidade: a falta de um livro-texto que tratasse, com o rigor necessário, a evolução dos principais instrumentos analíticos para o estudo das empresas e dos mercados. Tal lacuna é aqui preen-chida com um senso crítico raro e necessário a uma temática eivada de contribuições de diferentes visões, como é o comportamento
concor-rencial e estratégico das empresas no capitalismo contemporâneo.
O objeto do livro está contido no que os teóricos neoclássicos cha-mam de reino da microeconomia. Porém, esse vago objeto assim defi-nido, devido à sua complexidade e à incapacidade do instrumental neo-clássico em dar conta de suas espe-cificidades, é também conhecido como economia industrial, ou orga-nização industrial, ou, ainda, micro-economia não neoclássica. O foco da questão é entender como são toma-das as decisões toma-das empresas ou or-ganizações nos marcos de um eleva-do estreitamento eleva-dos mercaeleva-dos e uma concorrência mais acirrada em nível planetário. Sabe-se que essas decisões não se restringem apenas à
adequação da quantidade ofertada visando à maximização dos lucros, como queriam os neoclássicos, com sua concepção de empresas e orga-nizações passivas. A atuação e a de-cisão das empresas no capitalismo contemporâneo levam em conside-ração um amplo e complexo conjun-to de variáveis econômicas, tecno-lógicas e sociais, que repercutem nos mercados, na sociedade e até nas relações sociais.
O livro, além de dar conta, por meio de uma visão abrangente, da evolução dos principais instrumen-tos analíticos para o estudo das em-presas e dos mercados, discute igual-mente as particularidades da indús-tria brasileira e, dessa forma, dá sub-sídios para que também pensemos a
ECONOMIA INDUSTRIAL – FUNDAMENTOS TEÓRICOS E PRÁTICOS NO BRASIL
De David Kupfler e Lia Hasenclever (Organizadores)
ABR/MAIO/JUN/2003 • ©RAE • 125
FRANCISCO ALVES
economia brasileira e as possibilida-des de políticas públicas.
Seu objetivo é apresentar uma vi-são abrangente de duas das principais correntes teóricas da economia indus-trial. A primeira corrente, denomina-da abordenomina-dagem tradicional, estruturou-se a partir de Joe S. Bain e de sua con-tribuição para entender o comporta-mento das empresas em mercados oli-gopolísticos por intermédio das cha-madas barreiras à entrada, que vai culminar com o modelo de estrutura-conduta-desempenho, que, por sua vez, objetiva a análise da alocação de recursos escassos. A segunda corren-te, chamada de abordagem alternati-va ou schumpeteriana /institucionalis-ta, tem como objetivo central o estu-do da dinâmica da criação de riqueza nas empresas. Essa abordagem tem uma preocupação menos normativa que a anterior e considera a história e as instituições como elementos vitais de seu corpo teórico. A empresa, se-gundo tal concepção, não atua visan-do apenas à minimização de custos, mas, acima de tudo, à constituição de capacidade de inovação, que é a grande variável dinâmica, segundo Schumpeter.
Ainda nessa segunda corrente são incluídas as contribuições de Oliver Williamson sobre a natureza institu-cional da empresa para visualizar as diferentes formas de organização in-terna das corporações, as configura-ções industriais e o funcionamento dos mercados, tendo por base a aná-lise dos custos de transação.
O livro busca mostrar o que há de mais recente na análise dos fenôme-nos da dinâmica dos mercados das economias capitalistas, com ênfase na concorrência industrial no Brasil. Para isso, o livro apóia-se na grande tradição do Instituto de Economia da UFRJ, e, por ser baseado em pesqui-sa dos autores, torna-se vivo e não apenas uma mera coletânea de
arti-gos relacionados. A outra caracterís-tica que torna o livro vivo é o fato de haver uma homogeneidade no trata-mento dos temas. Segundo os auto-res, essa homogeneidade foi conse-guida a partir de três princípios nor-teadores de todas as contribuições: 1) a forma de organização preserva a evolução da matéria, agregando a contribuição das diferentes filiações teóricas; 2) cada capítulo aborda as definições dos termos, seus principais desenvolvimentos teóricos, suas apli-cações, temas para discussão e a su-gestão de leituras complementares ou relacionadas à temática tratada; e 3) a padronização da linguagem.
O livro é composto de sete partes e 26 capítulos:
A parte I (Conceitos básicos) in-troduz o leitor nos conceitos bási-cos de microeconomia neoclássica e mostra de que forma esses concei-tos serão desdobrados em novas ca-tegorias analíticas que estavam in-satisfatoriamente tratadas na visão tradicional.
A parte II (Análise estrutural dos mercados) é composta de quatro ca-pítulos e aborda o modelo estrutura-conduta-desempenho.
A parte III (Interação estratégica), composta também de quatro capítu-los, é dedicada à nova economia in-dustrial, que tem como identidade o recurso à teoria dos jogos como fer-ramenta analítica. Essa teoria pode ser tomada, em princípio, como um conjunto de técnicas de análise de situações de interdependência estra-tégica, na medida em que uma das características das estruturas oligopo-lísticas é que a decisão de cada orga-nização tem conseqüências sobre as demais, ao mesmo tempo em que as decisões das demais determina a for-ma de atuação da organização.
A parte IV (A grande empresa contemporânea), formada por cinco capítulos, tem como foco a análise
institucional da empresa e introduz o importante conceito dos custos de transação.
A parte V (Estratégias empresa-riais), formada por quatro capítu-los, dedica-se a apresentar a teoria da concorrência – formulada por J. Schumpeter e aperfeiçoada nas duas últimas décadas pelos neo-schumpeterianos – em contraste com a corrente tradicional, tratada na parte II.
A parte VI (Políticas e regulação dos mercados) trata da política eco-nômica, mas fundamentalmente so-bre os princípios que devem nortear a intervenção do Estado nos merca-dos e sobre a institucionalidade es-pecífica da economia brasileira, que tem sido a área de grande contribui-ção do IE-UFRJ;
Finalmente, a parte VII (Guia para análises empíricas), composta de dois capítulos, visa a permitir que o leitor possa empreender os conceitos e ao mesmo tempo acessar as fontes para desenvolver estudos empíricos, fun-damentais ao desenvolvimento da economia industrial.