O Guerreiro e a Rosa
The Warrior and the Rose (Scottish Medieval 1)
Brenda Joyce
Sinopse
Lady Juliana MacDougall reza para que seus entes queridos sobrevivam a guerra contra Robert Bruce ... Mas a batalha vem até ela quando suas terras são atacadas por um bando de Highlanders, liderados por um homem vestindo as cores do pior inimigo do seu clã.
Tomada como refém por Alasdair Og, Juliana rapidamente descobre que ele é um amante tão excepcional como é um guerreiro.
O mais cruel é como ela pode amar Alasdair quando ele é seu inimigo de sangue?
Primeiro Capítulo
Castelo Coeffin, Lismore, Escócia-Fevereiro de 1287
Não havia nenhum som na sala, exceto o dos dois meninos que galopavam sobre pôneis imaginários, agitando bastões de madeira um contra o outro como se fossem espadas. Juliana MacDougall adorava seus pequenos sobrinhos, mas não conseguia sorrir. Ela tremeu, mas não pela escuridão de um inverno frio, mas sim porque não podia desfazer o nó de medo que tinha em seu interior.
Olhou através da grande sala de pedra para sua irmã Mary, que estava sentada junto à mesa amamentando o seu filho mais novo, era um espetáculo tão formoso que Juliana se comoveu ao vê-la. Mary Comyn era nove anos mais velha que ela, entretanto, mais que uma irmã, era sua melhor amiga. Juliana sempre se encantava em ter sua irmã em casa com ela e adorava seus filhos, já que não tinha nenhum próprio.
Entretanto, desejava que a atual visita da Mary fosse estritamente familiar.
Mas não era.
Ela estava em Coeffin Castle porque o país estava em guerra.
A Escócia estava em guerra porque não tinha um rei.
Deus, haveria alguma vez um período de paz? As têmporas de Juliana doíam, como odiava a guerra e como odiava aguardar notícias daqueles que amava!
Mary ergueu os olhos. Era uma mulher muito bonita, com olhos azuis como o céu e cabelo loiro acobreado. Sua graça era natural e atraía aos homens e às mulheres como abelhas ao mel. Ela sorriu, a expressão cálida, mas a preocupação enchia seus olhos. Enquanto o fazia trocou de lado o menino de um ano de idade e ajustou seu surcote1.
—Vou ter que desmamar Thomas em breve.
— Sim, você vai.
Mary estava esperando seu quarto filho para o início do verão. Estava encantada, assim como Juliana. Esperava que fosse uma sobrinha.
O pequeno sorriso de Mary desapareceu.
— Não posso acreditar que Buittle caiu — disse laconicamente.
O Buittle Castle tinha pertencido a John Balliol, uma grande propriedade, que foi adquirida pelos laços do casamento. A notícia de sua queda tinha acabado de alcançá-los.
De repente, os rapazes gritavam e golpeavam violentamente os bastões um do outro. Com a dor de cabeça de Juliana aumentando, ela levantou-se e caminhou em direção de seus sobrinhos.
— Roger! Donald! Basta!
Rindo selvagemente, os dois meninos, de quatro e cinco anos de idade, detiveram-se, burlando-se dela. Roger era ruivo e sardento, Donald loiro. Então, Donald levantou seu bastão de madeira para ela.
— Ao Comyn! — Ele gritou o chamado de batalha, agitando sua espada de mentira ameaçadoramente.
— Donald — advertiu Mary.
— Está claro que vai ser um grande guerreiro como seu pai — disse Juliana, tirando habilmente o bastão de suas mãos. — Mas logo aprenderá que não deve levantar sua espada ou sua mão a uma dama, e em especial a sua tia.
Donald estava cabisbaixo.
—Sinto muito, tia — sussurrou.
— Bom, deveria senti-lo. — Então Ela tomou o bastão de Roger também. – Se tiverem que jogar como bárbaros vikings, que joguem lá fora.
Deixando os bastões na mesa, sentou-se ao lado de sua irmã.
— Talvez não seja tão grave como pensamos — disse falando em voz baixa.
Mas era grave, ela sabia, e não só devido aos estreitos laços entre sua família e a família do Balliol. O país estava em guerra porque o rei tinha deixado o trono para sua neta, só uma menina, e havia aqueles que não a aceitaram.
— Bruce levou as guarnições reais em Wigtown e Dumfries… e agora tomou Buittle? — Disse Mary, pálida.
Referia-se ao Conde do Annandale, o poderoso magnata Robert Bruce. Em abril passado tinha declarado que ele era o legítimo herdeiro do rei Alexander. Não era a primeira vez que tinha manifestado isso. Inclusive afirmava que, décadas atrás, o rei Alexander lhe tinha declarado seu provável herdeiro… mas ninguém acreditava isso.
E há apenas uns meses, tinha tomado as armas com seus partidários, atacando Dumfries, Wigtown, e agora Buittle. Claramente sua intenção era apoderar do Trono de Escócia.
Mas ele não era o único possível sucessor do Rei Alexander. John Balliol também tinha afirmado seu legítimo direito a sucessão ao trono. De fato, havia se feito uma dúzia de reclamações por parte de nobres de todo o país, e inclusive de fora … e por que não? Ninguém pensou, nem sequer por um momento, que uma criança de três anos de idade, pudesse jamais chegar a ostentar a coroa.
A Escócia estava, ao parecer, pronta para o desastre.
E sem um regente, com apenas seis guardiães para governar o reino, havia se dividido tão rapidamente em rivalidades amargas e antigas. Os Comyns e os MacDougalls eram inimigos ancestrais da família Bruce, inclusive sem sua lealdade à reivindicação de Balliol. E o mais ardente partidário de Bruce foi Angus Mor, Senhor de Islay e das Ilhas. Dois de seus filhos, Alexander “Alasdair” Og e Angus Og2, seguiram-lhe. E o Clã Donald era, de todos os vivos, o pior inimigo dos MacDougalls. A vingança de sangue se remontava há séculos atrás, quando Dougall, um dos antepassados de Juliana, tinha sido assassinado por seu próprio sobrinho, Donald.
O marido de Mary, William Comyn, tinha ido à guerra com seu irmão, Alexander MacDougall , junto com muitos outros parentes Comyn e MacDougall , para manter Robert Bruce longe do trono e com a esperança de que, algum dia, fosse coroado, em seu lugar, John Balliol.
— Talvez, a notícia não seja verdade — disse Juliana, consciente de que estava se agarrando a palhas. — Ou talvez, neste momento, nossas forças estejam tomando o Buittle Castle para devolver-lhe a John Balliol.
Mary olhou fixamente para ela.
— Realmente não me importa quem tenha Buittle, e não estou sendo desleal!
Só me importa saber que William não foi ferido ou algo pior.
— Eu sei— disse Juliana brandamente.
— Só tenho vinte e sete anos — sussurrou Mary. — E já perdi três maridos…
Amo William, Juliana. Não poderia suportar perdê-lo também.
Juliana lhe apertou a mão. Sua irmã tinha estado casada brevemente com o Rei da Ilha de Mann, com o Conde de Strathearn e com outro barão escocês. A guerra e a enfermidade tinham acabado com cada um de seus maridos. Mas há seis anos, apaixonou-se pelo terceiro filho do Conde de Buchan, William Comyn. A família
Comyn era a dinastia mais abastada no norte da Escócia. Seu irmão ficou satisfeito ao permitir o compromisso.
Juliana sabia que Mary era tão leal como ela, que se preocupava muito pela sorte de sua família e que, é obvio, desejava que Bruce fosse derrotado. Caso Bruce triunfasse, as famílias MacDougall e Comyn sofreriam a perda de terras, títulos e vidas. Mas nesse momento, o medo por seu marido lhe fez fazer caso omisso a todos outros, como se houvesse tornado insensível, e Juliana não a culpava.
Em segredo, admirava tanto sua irmã, não por ter sobrevivido a seus três maridos anteriores, não por fazer um quarto bom casamento, mas sim por ter encontrado o amor.
Juliana não conhecia nenhum outro casal que realmente se amasse verdadeiramente como Mary e William, depois de tudo, os casamentos eram um assunto de política e de poder; o amor era um bem aleatório ou dispensável.
— Vamos à Catedral rezar — disse Mary, ficando em pé. Fez um gesto a uma criada que se aproximou para pegar o sonolento Thomas de seus braços.
— Obrigado, Elasaid. Orar acalmará a ambas — adicionou.
Uma hora mais tarde, os meninos tinham sido enviados a suas câmaras, e as duas mulheres estavam envoltas em peles. Ian, capitão do guarda de Juliana, estava fora, esperando por ela, como lhe tinha sido ordenado. Outros quatro highlanders também lhe acompanhavam.
Juliana estava acostumada a ter sua própria guarda. Lismore era uma parte de seu dote. Era uma ilha muito fértil, com abundante pesca e pastoreio, mas a sua verdadeira importância estava em Coeffin Castle, com o controle do Estuário do Lorn3, a Catedral de St. Moluag e o Achanduin Castle, que foi a sede do bispo de Argyl .
Lismore era um porto seguro, e nunca tinha sido atacado seriamente em sua vida.
Seu irmão tinha seus maiores castelos exatamente a leste e a sudoeste. Como resultado, não era fácil para outro clã controlar a rota em Argyl do estuário.
Entretanto, os MacDonalds, os MacSweens, e inclusive os MacRuaris, tinham estado lutando ao longo dessa rota durante todo o tempo que ela podia recordar.
No ano anterior tinha estado a ponto de casar-se com um dos filhos de Alan MacRuari, Lachlan. O clã Ruari poderia ser convencido de aliar-se com o deles e seu irmão tinha tido a esperança de solidificar esse vínculo inconstante. Mas Lachlan tinha morrido durante uma batalha no mar no verão passado e nenhuma outra união ainda tinha lhe sido apresentada, como Juliana tinha agora dezoito anos, estava ficando ansiosa. A maioria das mulheres se casava aos quinze anos. Logo seria considerada longe de seu melhor momento, se seu irmão não procurasse seriamente um marido para ela.
Quando saíram do castelo, Ian estava esperando para ajudá-la a montar, e Juliana lhe sorriu. Quando ambas as mulheres estavam montadas em suas pequenas éguas, a comitiva partiu. A pesar do frio era um belo dia de inverno, o sol brilhante, o céu azul sem nuvens. A neve estava derretendo nas colinas e no caminho que percorriam. Os esquilos saíram em busca de alimento. Juliana olhou para Mary, viu que estava profundamente pensativa e decidiu permanecer em silêncio.
A Catedral finalmente apareceu à frente, rodeada por grossos pinheiros. Era um pequeno edifício de planta quadrada, com um século de idade, não maior que a igreja da vila, flanqueado por duas torres de pedra cinzenta. Uma grande cruz, também de pedra, da altura de dois homens, erguia-se de um montículo na parte dianteira do edifício. O Monastério de St. Moluag estava abaixo da Catedral, atrás de um pomar que não podia ser vista do pátio.
Juliana deslizou de sua montaria, como fez Mary. De mãos dadas, deixaram seu pequeno grupo de soldados lá fora, abriram a pesada porta de madeira e entraram no vestíbulo. De lá, podia-se ver a nave e duas mulheres da aldeia que estavam de
pé em oração, não muito longe do pódio no outro extremo. O bispo Alan estava de pé diante da sacristia, de costas para elas.
Estava incrivelmente tranquilo. Juliana levantou a vista para o alto teto acima;
sempre havia encontrado a serenidade e a paz na Catedral de St. Moluag, desde a primeira vez que tinha entrado lá com sua mãe, quando era uma menina. Deus estava ali, para escutar suas orações, para manter ao William e Alexander seguros. Não tinha nenhuma dúvida.
Alan Frasier, o bispo de Argyll, as tinha visto chegar. Era um homem de estatura e circunferência medianas, com o cabelo castanho e olhos amáveis. Ele sorriu, deixando a abside4, quando se aproximaram dele.
— Lady Juliana! Lady Mary! Estou muito contente que estejam aqui.
— Não posso esperar a missa para rezar — disse Mary, tentando um sorriso.
— Nunca se deve esperar para orar. — Respondeu. Dando uma olhada em Juliana, pergunto:
— Houve notícias? — Parecem angustiadas.
Juliana tinha conhecido o bom Bispo durante quase toda sua vida. Ele a conhecia bem.
— Ainda não ouviu dizer que Buittle também foi perdida? — Perguntou Juliana.
O Bispo Alan empalideceu.
— Como é isso possível? — Bruce realmente derrotou o seu irmão e a grande família Comyn?
— Foi só uma batalha, Sua Eminência, e imagino que a guerra não tem feito mais que começar. Meu irmão, geralmente, é triunfante… sem dúvida, triunfará com o tempo. — Respondeu Juliana.
— Devemos esperar que assim seja — disse Alan.
Quando Mary começou a acender velas e ajoelhar-se para rezar, Juliana tocou seu braço.
— Estou angustiada — disse em voz baixa, — mas o senhor está também.
Ele duvidou em responder.
— Nunca esperei que Bruce tomasse Dumfries ou Wigtown, e derrotasse aos exércitos ingleses lá. E agora, Balliol perdeu Buittle. Isto não augura nada bom, Lady Juliana, absolutamente. Bem, ao menos estamos longe das lutas.
Juliana desejou que ele tivesse sido mais otimista… ela não precisava preocupar-se ainda mais agora. E pensou em seu último e muito estranho comentário, mas antes que pudesse refletir sobre isso, gritos de guerra rasgaram o dia.
Ficou imóvel e Mary gritou.
Tinham ouvido os gritos de guerra dos highlanders muitas vezes em sua vida.
O som destes guerreiros da montanha era agudo, bárbaro e apavorante. Abalada, Juliana voltada para fora da catedral, ouvia o som violento das espadas em plena luta. Os cavalos relinchavam em pânico e os homens gritavam com raiva assassina.
Nesse instante, o tempo pareceu deter-se quando se deu conta de que a Catedral, ou seus homens, estavam sendo atacados.
Juliana agarrou sua irmã, que tinha retrocedido, pensando levá-la para a parte posterior da catedral, onde um transepto lhes permitiria sair pelo lado sul. Mas justo nesse momento, a porta principal se abriu de repente e Juliana viu Ian e outro de seus soldados lançando-se para dentro.
— Lady Juliana! Lady Mary! — Gritou Ian, seus olhos ferozes e aumentados, com a espada na mão, gotejando sangue.
Antes que ela pudesse se mover, para ele ou para longe, viu uma dúzia de guerreiros das Highlands entrando na catedral, uma imagem confusa de homens altos
e de cabelos longos, vestidos de peles, de pernas nuas, empunhando espadas e punhais.
Juliana e Mary gritaram. Ian virou-se para enfrentar os invasores, mas era muito tarde. Sua espada foi abatida de sua mão, e logo lhe atravessaram o peito.
Com um soluço de angústia, Juliana não esperou vê-lo cair. Ela agarrou Maria, e elas correram para o lado direito da catedral, com a intenção de fugir pela porta lateral do transepto.
Enquanto corriam para lá, a porta se abriu de repente.
Juliana tropeçou, detendo-se, quando um highlander irrompeu através da porta de entrada. Tudo o que viu foi o cabelo negro despenteado, os olhos azuis pálidos e o tartán azul escuro com raias de cor vermelha. As cores de seu pior inimigo.
Ela e Mary estavam congeladas quando o Highlander as encarou, espada na mão. Uma horda de homens estava correndo para dentro, passando por ele. O choque de Juliana se converteu em terror quando uns olhos azuis, em um rosto duro, encontraram os seus.
Os MacDonalds estavam atacando a Catedral, seus homens, suas terras!
De repente, o imponente Highlander estava passando por ela. Juliana se voltou e gritou quando ele agarrou o bispo Alan, colocando uma adaga cruelmente contra sua garganta.
Juliana queria lhe gritar que parasse. Mas nenhuma palavra saiu — o MacDonald ia matar seu bispo, ela estava certa, assim como seus homens haviam massacrado seus soldados. Viu a desumana intenção assassina em seus frios olhos azuis.
— Poupe-me, Alasdair! Rogo-lhe isso! — O bispo Alan soluçou.
— Não — Juliana ouviu-se engasgar, mas quando ela falou, ela foi agarrada brutalmente por trás por seu cabelo. Ela foi empurrada para trás, nos braços de um
homem, enquanto ao lado Mary também foi agarrada. Seu captor pressionou uma faca em sua garganta.
Juliana ficou imóvel.
O Highlander, Alasdair, ainda segurando Alan, virou-se para olhar para ela.
— Não machuque minha irmã! — Exclamou Juliana, seu olhar travado com o de Alasdair. — Ela está grávida!
—Não estamos aqui pelas mulheres — disse friamente, e empurrou Alan, violentamente, derrubando-o de bruços no chão e pressionando a bota em suas costas. A repulsão cobriu brevemente seu rosto, e logo olhou a Juliana de novo. — Soltem as duas mulheres.
Seus homens obedeceram imediatamente. Juliana correu para Mary e imediatamente apertaram as mãos. Mas não conseguia tirar os olhos de Alasdair, que continuava a pressionar Alan no chão com a bota.
Ela começou a tremer. Seus homens haviam sido assassinados, e ela sabia que esse escocês também queria matar seu bispo.
Seu medo se intensificou. Era este Alasdair Og, o filho maior de Angus Mor, o Senhor das Ilhas?
Seu pai era um guerreiro implacável que se considerava um rei. E, na verdade, ele era praticamente isso. Angus Mor comandava não apenas Islay e Kintyre, mas outras ilhas menores, terras em Argyll e Galloway, e uma grande parte do alto mar.
Nenhum regente ousou firmar sua autoridade lá. Os reis da Escócia, Inglaterra e Noruega tinham tentado e fracassado.
Angus Mor era agora um homem mais velho, mas tinha ouvido dizer que seu filho era tão implacável, tão destemido, tão ambicioso, e um dia, possivelmente logo, seria o Senhor das Ilhas.
Não só era alto, uma cabeça mais alto que a maioria, mas estava proporcionado como uma estátua de pedra. Seus ombros largos, peito e braços eram
os de um escocês que passara toda a sua vida trabalhando com machados e espadas.
E seu cabelo necessitava um corte, estava bem além de seus ombros. Então ela viu uma pena azul tecida em uma trança, a cor quase tão pálida como seus olhos.
Juliana estremeceu, pois percebeu que o estava olhando e viu que Alasdair também olhava atentamente para ela.
De repente, ela se ruborizou. Ele não apareceu tão implacável naquele momento, pois seu olhar estava estreitado, e ele estava olhando para seus cabelos ruivos, que tinham se soltado de sua trança e agora derramavam sobre seu peito.
— O que querem? — Conseguiu perguntar.
Sua boca se curvou e ele tirou o pé das costas de Alan, que correu pelo chão, rastejando freneticamente para longe dele, mas Alasdair deu dois passos em direção a Alan, agarrou seu ombro e puxou-o para seus pés.
— Não pode se arrastar mais rápido? — Burlou-se.
— Não fiz nada de mal, milord! — Alan ofegou, as bochechas manchadas de lágrimas.
Juliana não pôde suportar tal abuso. — Pare!
Mary agarrou sua mão e deu-lhe um olhar incrédulo de advertência.
Alasdair enfrentou Juliana e de repente todos se detiveram, fazendo-se tal silencio na Catedral, que Juliana pôde ouvir sua própria respiração, que era trabalhosa, e a de sua irmã, que era muito forte.
— O que disse?
Uma sobrancelha negra se elevou drasticamente para cima.
Agora notava inclusive como eram seus traços e que tinha uma cicatriz em forma de meia lua debaixo de seu olho direito. Umedeceu os lábios. Ela mal podia falar com Alasdair MacDonald tão perto.
— Por favor, reconsidere o que pensa fazer.
Ele sorriu, divertido, e virou-se para seu primeiro soldado, um escocês com cabelos longos e encaracolados.
— Leve-o para fora. Prenda-o. Sairei e me encarregarei dele em um momento.
— Eu não te traí! — Gritou Alan.
— Mentiroso.
Alasdair o golpeou na cara com o dorso da mão. A bofetada foi dada sem esforço, mas foi tão poderosa que o osso e a cartilagem se romperam, e Alan foi impulsionado através da nave central com o sangue correndo por sua cara.
Outro soldado o segurou antes que caísse e o levou para fora.
Ela não podia permitir isso! Juliana correu para frente.
— Pare! — O que têm contra do Bispo? Por que o atormenta assim?
Com os olhos arregalados, ele a olhou novamente. Desta vez, a especulação estava clara em seu olhar.
— O Bispo me traiu, senhora. Se quiser saber.
— Não poderia haver um engano? Conheço o Bispo há dez anos, se não mais.
É um bom homem.
— Ah, por que não me surpreende, senhora, que pensem assim?
Ele sorriu lentamente, e ela estremeceu porque não gostava da forma em que a olhava… Estava olhando com muita atenção cada um de seus traços e de sua figura.
— Você deve ser a Senhora de Lismore.
Ele se daria conta de sua identidade cedo ou tarde. Era do conhecimento comum que Lismore era seu dote. Ela era claramente uma mulher nobre, e seus cabelos ruivos eram sempre motivo de interesse e admiração, muitas vezes a delatava.
— Eu sou lady Juliana MacDougall .
— Os bardos5 não lhes têm feito justiça, milady — disse, em voz muito baixa.
— Cantaram sua beleza, mas não o suficiente. Suas canções não podem igualar sua beleza.
Juliana estremeceu. Ian jazia morto perto da entrada, assim como outro de seus cavaleiros. E se atrevia a adulá-la agora?
— Você atacou minhas terras, matou meus homens!
— E o sinto… mas o Bispo deve pagar por sua traição.
Juliana não queria discutir com ele.
— O bispo Alan não tem caráter traiçoeiro.
Não acrescentou o que ela desejava dizer… que ele devia estar equivocado.
— Não me surpreende tal lealdade de você… você é uma MacDougall . Ela ficou tensa, respirando com dificuldade
— Você é Alasdair Og? — Perguntou finalmente.
Ele sorriu.
— O mesmo.
Então ela enfrentava seu pior inimigo.
— Eu pensei que você estivesse no Sul lutando com Robert Bruce.
— Retornei… por vingança.
— O que acredita que ele fez? — Exclamou.
Mary agora se apressou até ela.
— Juliana, deixa estar. Você não pode salvá-lo.
Sua irmã estava muito pálida, e apoiava sua mão na protuberância de seu ventre. Ela sabia que Mary realmente queria dizer, “deixa a guerra aos homens”. Seu irmão caçaria Alasdair pelo que ele tinha feito hoje. Disso, não havia dúvida.
Mas tinha que fazer algo para tentar salvar a vida do Bispo Alan. Juliana tomou o braço de Mary e a guiou até os degraus diante do altar, fazendo-a sentar.
— Não quero que ponha em perigo o bebê — disse em voz baixa.
— Você está se colocando em perigo. Você nunca vai persuadi-lo a deixar o bispo em paz. — Disse Mary em um sussurro, mas seu olhar estava posto em Alasdair.
Ele não se moveu e do fundo da nave, olhava-as.
Juliana se voltou para sua irmã.
— Muitos já morreram! E ele atacou minha terra!
Antes que Mary pudesse rebatê-lo, Juliana se endireitou e se aproximou de novo a Alasdair.
Ele moveu a cabeça.
— Você deve prestar atenção a sua irmã — ela é sábia.
— O que ele fez?
— Não vou debater com você, Lady Juliana. Mas me agrada lhes dizer a verdade. O bom bispo veio até mim, dizendo que apoiava ao Bruce como rei. Mas, como não sou tolo, coloquei-o a prova e descobri que não era mais que um espião enviado por seu irmão. Espiou-me, espiava meu irmão, e espiava meu pai. Não posso deixar acontecer semelhante traição.
Juliana conhecia seu irmão — ele também era um homem de grande ambição.Tinha jogado reis um contra outro, e tinha ganhado. Provavelmente era ele quem tinha empurrado o bom Bispo para espionar.
— Vejo que acredita em mim...
Ela devolveu seu olhar, que não era tão frio como antes.
— Por favor, poupe-o — Juliana se ouviu sussurrar.
Seu olhar era penetrante.
— E o que eu ganharia com tal ato de misericórdia? Seu irmão terá vencido.
Ele seguirá pensando em enviar outro espião e outro e outro…
— Eu não sou meu irmão.
Ele sacudiu a cabeça, entre perplexo e divertido.
— Quando eu sair daqui vocês correrão para o seu irmão, e mesmo se não o fizerem, outros o farão.
— Não posso ignorar este ataque.
— Têm coragem, Lady Juliana, mas não deveria estar no meio de guerras de homens.
— Você me colocou no meio delas. E está na casa de Deus. Talvez Deus lhe perdoe pelo sangue derramado hoje aqui, se perdoar Alan. Talvez ganhe a Graça de Deus.
—Não tenho nenhum uso para a graça, nem sequer a de Deus.
E ele girou e desceu a nave, desaparecendo no vestíbulo.
Juliana sentiu os joelhos se curvarem. Enquanto lutava por manter-se em pé, sua mente dava voltas. Olhou aos seus dois soldados mortos e outro highlander, um MacDonald.
Mary a alcançou, tomando seu braço.
— Não podemos salvá-lo.
— Devemos salvá-lo!
— Como poderíamos fazê-lo? Juliana, não pode deter Alasdair Og, um guerreiro bem versado em vingança pelos comentários que escutei! E o escutaste.
Não lhe importa se irá para o inferno ou não!
Mary tinha razão. Juliana tentou argumentar com MacDonald, mas ela falhou.
Não podia pensar em nada naquele momento que não fosse uma maneira de rogar pela vida do bispo.
— Deveríamos ir… deveríamos voltar para Coeffin Castle — disse Mary, — onde estaremos a salvo.
Juliana olhou para ela, de repente assustada. Ela não tinha considerado que Alasdair também poderia significar prejudicá-los.
Apressaram-se a sair ao exterior. As nuvens apareciam no céu e o bispo balançava em uma forca improvisada no outro lado do pátio. Juliana se sentiu doente e deliberadamente desviou o olhar. Mary pôs seu braço ao redor dela e a abraçou.
— Ele irá para o céu — sussurrou.
Juliana piscou para conter as lágrimas. Podia ouvir uma multidão sussurrando nervosamente entre eles. Secou os olhos e olhou para cima.
Os monges do Monastério se precipitaram à colina quando ouviram o que estava acontecendo. Um grande número de aldeões também se congregou, na sua maioria, pescadores e suas esposas. Viu que nenhum de seus soldados tinha sobrevivido, e era muito cedo para que outros soldados de Coeffin Castle houvessem chegado. Ainda não teriam sido informados do ataque.
— OH, Meu Deus — gritou Mary, sacudindo seu braço.
Juliana se voltou e viu os homens MacDonald lançando palha, madeira e lenha ao redor da Catedral. Tinham a intenção de queimar a Catedral de St. Moluag. Não podia acreditar no que via.
— Certamente, ele não irá queimar a Casa de Deus — disse Mary, sem fôlego.
Juliana se perguntou se ela se veria tão tremendamente assustada como sua irmã. E então, viu o Alasdair dirigir-se a pernadas para ela.
— Por que queimar a Catedral?
— Uma mensagem para seu irmão — disse. — E assim ele não poderá deixar de recebê-la.
— Por favor, não! — exclamou Juliana, agarrando seu braço.
Seus olhos se abriram e a olharam fixamente, como se o surpreendesse por seu contato.
Deu-se conta de que estava sujeitando seu musculoso braço, ela o soltou como se queimasse.
— O bispo Alan está morto. Meu irmão certamente vai entender isso.
— É muito valente para seu próprio bem. — Fez uma pausa, com o olhar terrivelmente frio. — A próxima vez seu irmão pensará duas vezes antes de me tomar por tolo. — Disse, e se virou.
— Queimem.
Seus homens começaram a acender a madeira com tochas. O fogo prendeu imediatamente, consumindo a lenha, enquanto lambia as paredes da centenária catedral.
Com horror, Juliana observou como o fogo se apropriava das paredes. As lágrimas encheram seus olhos ao pensar no bispo Alan, que tinha morrido em vão.
Mary tomou sua mão. Ela também estava chorando.
— Alasdair!
Juliana estremeceu e conteve o fôlego quando um cavaleiro apareceu a galope, detendo seu cavalo em frente a Alasdair.
— MacDougall está no mar, chegando quase às praias.
Alasdair se voltou.
— Vamos, agora! — Gritou a seus homens.
Juliana ainda não havia assimilido o que estava ocorrendo quando Alasdair saltou rapidamente sobre um cavalo de guerra cinza. Todos seus homens montaram com a mesma rapidez. Ela ainda não tinha soltado o ar quando os homens galopavam afastando-se, mas Alasdair deteve seu cavalo ante ela.
Aturdida, olhou para cima.
Quando seu cavalo se moveu nervoso a seu redor, disse: — Sinto que vocês estivessem hoje aqui.
E esporeou o cavalo, galopando atrás de seus homens.
De repente, Juliana e Mary estavam sozinhas. Não muito longe delas, o bispo morto girava na corda. Seus highlanders mortos jaziam pulverizados pelo pátio e no
final do caminho que levava à igreja. A multidão não se moveu, igualmente aturdida, enquanto todos observavam como queimava a Catedral.
Capítulo Dois
Juliana ia e vinha através do grande salão. Sua mente não se detinha um segundo.
Seguia vendo o bispo Alan pendurando na corda, do mesmo modo que não podia tirar da cabeça a lembrança de seus homens mortos enquanto jaziam pulverizados pela nave da catedral, o vestíbulo e o pátio exterior. Por último, não podia arrancar de sua mente a imagem escura, aterradora, de Alasdair Og.
Suas súplicas desesperadas tinham cansado em ouvidos surdos, pensou sombriamente.
Mas, teriam salvado a Catedral? Ela, os monges e os aldeãos tinham estado lutando freneticamente contra o fogo quando seu irmão e seus homens chegaram.
Alexander MacDougall tinha ordenado imediatamente a suas duas irmãs que retornassem a Coeffin Castle, assumindo o esforço por salvar a Catedral. Juliana não tinha querido ir, mas Mary estava quase desmaiando e ela tinha acompanhado sua irmã de volta ao castelo.
Mary estava descansando comodamente agora, e Juliana deu graças a Deus.
Escutou as vozes de Alexander e de William se girou quando os homens entravam pela porta, sacudindo a neve de seus mantos, seguidos por duas dúzias de seus melhores soldados. Quando chegaram ao vestíbulo, Alexander sorriu.
Era um homem alto, de quase quarenta anos, com rasgos fortes e cabelo castanho. Como a maioria dos highlanders, levava uma simples túnica de manga curta de linho leine6, com cinturão, com as pernas nuas, salvo pelas botas de cano alto. Hoje levava uma cota de malha por cima de seu espartilho7. Seu tartán8 de lã era de raias vermelhas com branco, as cores MacDougall .
— Fique tranquila. Sua Catedral não está a não ser um pouco deteriorada. Está em pé.
Juliana se sentiu alagada de alívio.
— Mary? — William se precipitou para frente.
Três anos mais jovem que sua esposa, era um homem alto, loiro, de feições atrativas, vestido com uma túnica vermelha de manga larga, um sulque9 marrom, meias e botas.
— Ela está descansando no piso de cima — lhe disse Juliana, e William saiu correndo da sala.
Juliana começou a tremer, recordando uma vez mais o bispo Alan e pensando em Alasdair Og.
Seu irmão já não sorria.
— Me conte tudo, Juliana.
Ela inspirou.
— Não…, me conte você!
Ele se surpreendeu.
— Como?
— Encarregou o bispo Alan de espionagem? Enviou o pobre Bispo a essa guarida de lobos?
— Não sei do que falas! — Espetou com raiva.
Sentia que queria golpeá-lo, mas ele era o chefe de seu clã, e ela sabia muito bem.
— Enviou-lhe para espionar aos MacDonald sabendo quão perigosos são, sabendo que o pobre Alan era um homem de paz, não de guerra!
— Culpa-me? — Exclamou.
Mordeu o lábio com força. Seu irmão era um homem desumano. Ela cuidava dele e o respeitava, é obvio que o fazia, mas ela também o temia.
— Ele está morto por causa disso.
— Fostes muito longe, Juliana — disse Alexander, seus olhos azuis obscurecidos pela cólera.
Então, passou junto a ela e arremeteu suas luvas sobre a mesa.
Tinha razão, pensou com temor. Ela não ganharia nada agora acusando a seu irmão de enviar Alan a sua morte.
— Necessito um exército — disse.
Ele se girou.
— Você, o que?
— Quero vingança.
Alexander finalmente sorriu, e logo se pôs a rir.
— Está louca!
Tinha estado pensando em vingança desde que deixou a Catedral ardendo.
Não acreditava ter estado tão zangada.
— Minha é a vingança, diz o Senhor.
— Você é uma mulher.
— Eu sou sua irmã.
Ele a olhou. Passou um longo momento, e finalmente disse: — De verdade acredita que te deixaria tomar um exército e ataca-los? Você não sabe nada de guerra!
A imagem de Alasdair Og destelhou em sua mente, duro, frio, orgulhoso…
aterrador. Seu irmão tinha razão. Ela não sabia nada de guerra, só que com muita frequência se cobrava a vida de inocentes e jovens.
— Atacou Lismore — disse ela, deixando-se cair ao sentar em um banco. — Matou a meus cavaleiros, a nosso Bispo. Tratou de incendiar a Catedral. — Sentia- se mau… como se tivesse sido violada. — Mary poderia ter perdido seu filho.
— Mas não o perdi— disse Mary em voz baixa, da soleira da habitação.
Juliana voltou-se para vê-los, a ela e a William, agarrados um nos braços do outro. A cor de sua irmã havia voltado, e estava sorrindo, seus olhos azuis iluminados. Tinha o aspecto de uma mulher apaixonada.
— Não necessita um exército – Disse-lhe Alexander, e era definitivo. — Vou fazê-lo pagar pelo assassinato do bispo, Juliana. Vou atacar Ardtornish Castle. — De repente passeou, pensativo. — É uma fortaleza nova. Forte, bem construída, com paredes grossas. Dizem estar orgulhosos dela. Ele ficará furioso ao perdê-la.
— Vais ordenar queimá-la? — perguntou.
— Aye10. Como Mary e Will vieram sentar-se a seu lado, Juliana ficou olhando seu irmão. Quão único sabia era que Alexander, geralmente, obtinha o que ambicionava. Tinha tomado a liderança do clã e de suas extensas terras à idade de dezessete anos, vinte e um anos atrás, antes que Juliana nascesse. Nas últimas duas décadas tinha lutado e acabado com cada uma das ameaças a seu poder, desde clãs rivais, como o Clã Donald, até inclusive dos reis da Escócia e da Inglaterra.
Alexander MacDougall era um desumano, mas excelente guerreiro, e o tinha demonstrado. Seu controle de Argyl e Lorn nunca tinha sido tão grande.
— Quando vais atacar? — Sussurrou Juliana.
— Logo… logo que seja possível. — Seu sorriso era selvagem. — O bastardo vai pagar, Juliana… terá sua vingança.
Mary tomou sua mão. Juliana não a olhou. De repente, nesse momento, temeu… e se perguntou se ela acabava de pôr em marcha uma nova e terrível luta.
*
— Estiveste te comportando de forma estranha… desde o ataque à catedral.
Juliana estava ajudando Mary a vestir-se. Era cedo e o fogo rugia na chaminé da habitação de sua irmã, mas lá não a perseguia o frio inverno de fora. Nem tampouco podia acalmar seus pensamentos. Quase uma semana tinha passado desde que Alasdair MacDonald tinha atacado a Catedral e assassinado o bispo Alan.
Quase tinha passado uma semana desde que seu irmão tinha zarpado para o Ardtornish Castle. E ele tinha atacado fazia dois dias… um mensageiro tinha sido enviado para lhe dizer. Juliana terminou de trançar o longo e denso cabelo de sua irmã. Seu estômago se revolveu.
— Pergunto-me o que terá acontecido.
Mary voltou-se, compreendendo-a.
— Não haver notícias pode ser uma boa notícia. E um ataque a um castelo como Ardtornish poderia tomar dias ou inclusive semanas.
Juliana não assinalou que seu irmão lhe havia dito que ia destruir o Ardtornish Castle, não a sitiá-lo. E como Mary estava olhando-a com muita curiosidade, Juliana se afastou.
— O que está acontecendo? — Perguntou Mary em voz baixa. — Está tão angustiada. Está preocupada com o Alexander?
Juliana vacilou. Cada vez que pensava em um enfrentamento entre seu poderoso irmão e Alasdair Og, ela se enchia de um medo estranho. Afinal acreditava que nada bom poderia vir de um combate entre esses homens.
Estou preocupada — disse finalmente. — Mas não se trata de nosso irmão…
ele é invencível. — Sorriu, e logo tentou explicar-se. — Não sei o que está me incomodando tão… Não posso esquecer o assassinato do bispo Alan.
Isso era certo, porque ela se sentia culpada cada vez que pensava nele. De noite, sonhava com o maldito ataque. Via seus soldados mortos. Via Alan rogando por sua vida. E via Alasdair Og, seus olhos azuis tão frios como o gelo. Era impossível esquecer.
— Sei que já estávamos em guerra com os MacDonald — disse finalmente — Mas me sinto como se tivesse iniciado outra guerra.
— Não começaste nada — ressaltou Mary. — Ele nos atacou.
Juliana decidiu não assinalar que seu irmão tinha enviado o bispo para espioná-los, e, de certo modo, tinha provocado o ataque. Ela ainda não sabia com qual homem deveria estar mais furiosa… com seu irmão ou com o MacDonald.
— Me alegro de que ainda esteja aqui — disse ela impulsivamente.
Devido a William permanecer lealmente ao lado de seu irmão, Mary tinha decidido ficar em Coeffin Castle com ela. Uma vez que a batalha tivesse terminado, ela e seu marido queriam passar por suas terras em Loch Fyne, e logo viajariam para Bain Castle, fortaleza que William herdada de seu pai. Mary tinha intenção de dar à luz lá.
— Logo teremos notícias. — Assegurou-lhe Mary. — Ardtornish não está mais que a umas horas de distância.
Essa noite, Juliana e Mary estavam jantando, quando chegou um segundo mensageiro. Ambas saltaram quando um jovem, um jovem sardento Highland, entrou apressado sem fôlego na habitação. Estava nevando lá fora, e deixou um montão de neve que se derreteu no chão quando ele pisou com suas botas e sacudiu seu tartan11.
Juliana entregou uma taça de vinho.
— Que notícias traz?
Tomou um gole.
— Alasdair Og estava em Ardtornish quando atacamos. Ele manteve a raia, senhora, durante dois dias inteiros.
O menino estava tremendo, e Mary tomou seu manto entregando-o a uma criada para que pusesse para secar junto ao fogo.
Juliana não podia acreditar.
— Mas, sem dúvida, meu irmão vencerá?
O moço fez uma careta.
— Minha senhora, Alexander reuniu seus homens e estão retornando a Dunstaffnage enquanto falo. E ordenou que se unam a ele lá, logo que possam ir.
Sua surpresa aumentou. O ataque de Alexander havia falhado… Alasdair Og tinha ganhado de novo! Onde estava a justiça?
E por que seu irmão lhe ordenava ir a seu castelo agora? Temia por sua segurança em Lismore?
O jovem highlander agora se voltou para a Mary, lhe entregando um pergaminho enrolado.
— De seu marido, minha senhora — disse.
Juliana se aproximou de Mary.
— O que diz William?
Mary olhou para cima, sem sorrir.
— O Conde de Buchan o convocou diretamente para um conselho de guerra no Lochaber. Alexander vai também. William quer que vá imediatamente a Dunstaffnage… porque em breve haverá mais lutas, para deter a rebelião de Bruce.
Juliana esfregou a fronte, que de repente lhe doía.
— Mais luta, onde? Estará Lismore em perigo?
— William não diz.
Ficou olhando a Juliana com temor. Logo, abraçou seu pequeno ventre.
Juliana sabia que temia o resultado desta guerra… que ainda temia pela vida de seu marido.
— William é um guerreiro, Mary. Ele não pode ficar à margem desta luta.
— Sei.
Mary olhou para o mensageiro, que não tinha mais de quinze ou dezesseis anos.
— Veem, sente-se e jante — Disse-lhe.
Quando o menino esteve sentado, alimentando-se de carne de veado, Juliana e Mary caminharam para a chaminé e ficaram olhando. Mary foi primeira a falar.
— Devemos nos preparar para partir.
— Sim, devemos fazê-lo.
Juliana suspirou. Não queria deixar Lismore, mas não podia desobedecer seu irmão. E não havia nenhum inconveniente, na verdade, em viver em Dunstaffnage.
Era uma grande fortaleza e uma magnífica propriedade.
— Alexander deve estar preocupado, para me ordenar sair de minha casa.
Mary a olhou pensativa.
— Sim, deve estar preocupado, mas, está preocupado pela guerra com o Bruce, ou pelas represálias por parte de Alasdair Og?
Ambas as mulheres ficaram então em silêncio, perdidas em seus próprios pensamentos.
Mary finalmente disse: — Vou necessitar um dia para preparar todos nossos pertences.
Devido a seus três filhos, ela tinha viajado com um grande séquito.
— Podemos pedí-los que nos enviem nossos baús, e partir com a primeira luz
— disse Juliana.
Estava começando a sentir um pouco de ansiedade que seu irmão realmente estivesse temendo as represálias de Alasdair Og. Ela só o tinha visto uma vez, mas sabia, com toda segurança, que estaria sedento de vingança depois do ataque a sua nova fortaleza.
Mary negou com a cabeça.
— Não acredito que importe a demora de um só dia; nem Alexander nem William disseram que devíamos correr. E você não sabe quando retornará. Deve preparar o castelo para sua ausência.
— Tem razão — disse Juliana, decidindo que era absurdo que de repente ficasse nervosa. — Vou encontrar um jergón12 para o moço, e me retirarei logo.
Amanhã será um longo dia.
*
No dia seguinte, à alvorada, ambas as mulheres estavam cada uma atarefada nos vastos preparativos necessários para sua partida. Juliana levou a um lado seu mordomo, Walter, para repassar suas muitas tarefas. O inverno era uma estação tranquila e ela esperava estar de volta na primavera, quando teriam que fazer as reparações habituais no castelo e suas cozinhas, quando os armazéns, esgotados durante o inverno, teriam que ser preenchidos, quando vacas e ovelhas começassem a parir, e quando ela fosse necessária para dúzias de batismos… havia tantos meninos nascidos na primavera.
— Milady — Um de seus highlanders se precipitou na grande sala. — Duas dúzias de navios estão se aproximando.
Juliana ficou de pé com seu mordomo.
— É meu irmão, Fergus?
— Estão muito longe para sabê-lo, mas vêm do Oeste.
Juliana ficou gelada. O Ardtornish Castle estava a Oeste.
Enquanto estava lá, com o coração acelerado, Mary se apressou pelo salão.
— O que está acontecendo? — Exclamou. — Ouvi que uma frota se aproxima de nós!
Juliana não respondeu. Passou junto à Mary, subindo à torre, com Fergus, o mordomo e Mary atrás dela.
Os vigias estavam fora da torre, nas muralhas, os dois homens olhando para o mar. Reuniu um bom número de seus arqueiros, juntamente a mulheres e meninos.
Juliana se precipitou através da torre para o exterior.
Era um dia de inverno cinzento, com pouca visibilidade, o céu e os sons quase da mesma triste cor. As sombras se aproximavam lentas, mas inexoravelmente; suas formas, suficientemente claras, para saber que estava vendo uma frota de galeras.
E logo, de repente, a bruma se deslocou, uma parte da mesma se elevou, e um raio de sol que entrava através das nuvens, iluminou subitamente a frota.
Mais de duas dúzias de navios se aproximavam. E então, viu as enormes bandeiras azuis e vermelhas do clã Donald ardendo como o fogo no céu cinza.
Alasdair Og estava empenhado na represália… e tinha intenção de atacá-la.
— Toquem os sinos — ordenou Mary.
Um dos homens se precipitou para obedecer, e imediatamente, os sinos começaram a repicar.
— Podemos nos defender? — Juliana se ouviu perguntar.
O coração lhe palpitava enquanto observava a frota, navegando cada vez mais perto.
— Vamos nos defender, Lady Juliana, lhe juro — exclamou Fergus.
Mary enfrentou o soldado.
— Não foi isso que ela perguntou. Podemos enfrentar a Alasdair Og e seu exército? Temos suficientes homens, suficientes armas e munições?
Fergus se ruborizou.
—A verdade, senhora?
— Sim, é obvio que queremos a verdade! — Gritou Mary.
— Podemos defender o Coeffin Castle, acredito, mas não Coeffin e Achanduin de uma vez!
O Achanduin Castle tinha sido a sede do bispo Alan. Juliana devia decidir entre defender sua casa, ou a do Bispo já falecido. Mas se esse fosse o caso, não haveria mais remédio que fazê-lo.
Olhou a sua pálida irmã.
—Talvez não queira o Achanduin Castle.
— Se ele estiver aqui para nos atacar, logo saberemos, e devemos nos preparar.
Juliana assentiu.
— Fergus, se atacar o Achanduin Castle, vamos deixar que o tomem. Mas não podemos permitir que caia Coeffin Castle.
Ela quase não podia respirar.
—Convoca todos os arqueiros às muralhas — disse Mary. — Assegure-se de que nossas catapultas estão preparadas, e devemos acender fogos. Também devemos enviar uma nota a Alexander.
— Estou preparado para defender Coeffin Castle, Lady Mary— Disse Fergus.
Fez um sinal a vários homens e se afastou rapidamente.
Juliana inspirou. Sua irmã tinha sofrido vários assédios em sua vida. Fergus era um perito soldado… um de seus melhores homens. Mas, meu Deus, já tinha perdido cinco de seus melhores soldados. O que aconteceria se não conseguisse se defender?
Alexander viria, inclusive se já tivesse partido para o Lochaber, mas, e se já fosse muito tarde? Que intenções tinha Alasdair Og? Apoderar-se de sua casa… ou destruí-la?
Juliana estava assustada. Ele tinha assassinado ao Bispo Alan sem nenhum remorso, como se não tivesse consciência. Mas sem dúvida, ela e sua irmã não estavam em perigo… eram mulheres da nobreza.
— Não tem nenhum sentido permanecer aqui, nos congelando — disse Mary.
Tomou o braço de Juliana e se apressou a entrar.
Na sala, Juliana a agarrou.
— Deve disfarçar os meninos… vesti-los como os meninos da aldeia… e lhes advertir que não digam a ninguém quem são.
Mary empalideceu.
— Crê que levará a meus filhos como reféns?
— Não sei o que pensar! — Exclamou Juliana. — Mas devemos nos preparar para o pior, inclusive para essa possibilidade.
Mary assentiu e saiu correndo. Juliana piscou para conter as lágrimas. Se havia uma coisa que tinha que fazer, pensou, era proteger a sua irmã e seus filhos.
Capítulo Três
Ao cair da noite, Coeffin Castle estava preparado para um ataque. O fogo ardia no alto das muralhas de maneira que azeite fervendo pudesse ser jogado a qualquer invasor. Montões de rochas e pedras se encontravam junto às catapultas, arqueiros e soldados ocupavam as muralhas. As irmãs esperaram até que a lua saiu, mas nenhum ataque chegou.
No grande salão, Juliana ficou de pé.
— Ele não virá.
— Não — disse Mary. — Não esta noite.
Quando sua irmã disse isto, Juliana se perguntou se teria tomado Achanduin Castle. Imaginou Alasdair lá, seus homens celebrando a fácil vitória na grande sala, rindo e levantando as jarras em sinal de vitória.
Viria amanhã? Ou Achanduin Castle seria suficiente?
Mary ficou de pé.
—Vou descansar um pouco. Você também deveria fazê-lo.
Juliana de algum modo conseguiu sorrir. Ela não poderia dormir essa noite, não quando tinha medo do que o amanhecer traria.
Mas Mary se deteve.
— Há uma coisa que não posso compreender. Foi nosso irmão quem atacou Ardtornish Castle. Não você. Então, por que está aqui?
Juliana ficou rígida.
— Não sei.
Mary lhe dirigiu um estranho olhar e se foi.
Juliana voltou a sentar-se no banco, olhando através da grande sala, onde muitos de seus soldados dormiam sobre jergones13. Uma enorme chaminé estava na parede oposta e o fogo ardia lá.
— “Lamento que estejam aqui hoje”.
De repente, recordou as palavras de despedida de Alasdair e ficou gelada.
Nem sequer gostaria de tentar compreender o que ele tinha querido dizer, ou se tinha estado verdadeiramente arrependido.
Apoiou a bochecha em seus braços sobre a mesa. Estava em Lismore, não por Alexander, a não ser por causa dela… de algum jeito pressentia.
As lágrimas queimaram suas pálpebras fechadas. Desejou não ter pedido nunca um exército a seu irmão, desejou não ter sonhado nunca com vingança!
Mas sobre tudo, desejava que ela e sua irmã tivessem ido para Dunstaffnage essa manhã, quando ela tinha insistido em que saíssem imediatamente. Então Mary e seus três filhos estariam a salvo.
E para piorar as coisas, Mary estava grávida de cinco meses. Se algo acontecesse ao bebê, ou a qualquer um de seus filhos, Juliana nunca perdoaria a si mesmo.
Despertou. Não tinha tido intenção de adormecer. Mas viu que o fogo agora ardia na chaminé, depois de ter sido alimentado pelas criadas. A luz, fora das janelas, era a pálida claridade do amanhecer.
Levantou-se de um salto do banco, e saiu correndo do salão para a estreita escada. Os dois homens da torre se voltaram enquanto corria para eles.
O amanhecer era cinza, e a neve caía. A escassa luz tingia o dia, sem nenhum rastro de sol. E não havia navios no horizonte.
Não podia acreditar. Foram-se?
— Lady Juliana, deve ir à torre de entrada.
Juliana virou para olhar a torre de vigilância, fora das muralhas havia barulho.
Jogou uma olhada à pálida e sombria expressão de Fergus, e soube que Alasdair Og havia chegado.
Tomou ar, rogando por força e coragem. Então, ela assentiu e o seguiu ao interior, pela planta baixa, e por todo o Coeffin Castle. Mary apareceu, e caminhou a seu lado.
Estava nevando mais forte agora. Uma ligeira capa de gelo cobria o pátio. A frente estava a torre de entrada, a ponte levadiça, abaixo, mantinha-se fechada.
Todos seus arqueiros e soldados estavam nas muralhas a cada lado das portas do Coeffin Castle.
Juliana subiu as escadas exteriores com o Fergus e Mary, e entrou na torre.
Aproximou-se da janela e se agarrou ao batente.
Talvez uma centena de guerreiros a cavalo, highlanders vestidos com peles e cavaleiros com cota de malha formavam uma linha entre as colinas do Oeste e o Coeffin Castle, como uma barricada, frente a ela.
Juliana se sentiu doente. Não podia ver atrás das linhas de frente, mas sabia que centenas de arqueiros e soldados, armados com espadas e lanças, estavam lá.
Três bandeiras azuis MacDonald, luzindo sinistros dragões vermelhos, ondeavam por cima do exército.
— O que vamos fazer? — Sussurrou Mary.
Juliana não podia falar. Viu um cavaleiro sobre um cavalo de guerra cinza separar-se do exército e devagar, ir avançando. Era tanta a tensão, que sentiu que se afogava.
— É Alasdair Og — disse Mary laconicamente.
Deteve sua montaria a certa distância da torre de entrada. Estava muito longe para que suas feições fossem visíveis, mas ele estava, sem dúvida, olhando fixamente à torre… Juliana sabia que ele olhava fixamente a ela.
— Se vocês pudessem atraí-lo para mais perto, nossos arqueiros poderiam matá-lo — disse Fergus lentamente.
—Não. Não disparem — respondeu Juliana, com tanta veemência, que Mary e Fergus a olharam com receio. —Não vamos matá-lo a sangue frio.
— Então, ele ordenará nos matar — disse Fergus categoricamente.
Mary a olhou, e Juliana sabia que estava pensando que ele, sem dúvida, tinha matado ao Bispo Alan a sangue frio. Mas, curiosamente, ela não acreditava que Alasdair Og mataria a ela e nem a sua irmã. Mas ele estava empenhado na vingança.
Ela sabia. E, de repente, não havia outra saída. Sabia o que devia fazer para proteger a sua irmã e seus sobrinhos.
Como se ele pudesse ler seus silenciosos pensamentos, cavalgou aproximando-se. Pôde distinguir seu cabelo longo e escuro, solto sobre seus ombros, enquanto olhava para ela. Seus olhares se encontraram.
Era o momento, pensou. Juliana pediu a Fergus sua adaga. Surpreso, ele a deu.
Imediatamente, ela se agachou e debaixo de seu sulque cortou uma tira de linho azul.
Mary ofegou quando Juliana entregou a adaga, dando-se conta agora do que pretendia.
Juliana deu a volta e saiu às muralhas, Mary e Fergus atrás dela, suas expressões sombrias. Quando se dirigiu às ameias14, um grupo de arqueiros a rodearam.
—Afastem-se — ordenou.
— Lady Juliana, não pode pôr sua vida em perigo. — Protestou Fergus.
— Ele não me fará mal.
Apertou-se contra a borda do muro, confiante de suas palavras.
Olhando abaixo para ele, levantou sua mão e deixou a tira de linho da rendição cair por cima do muro. Ambos o olharam flutuar para ele, de maneira muito parecida com a neve que caía.
*
Juliana parou frente à chaminé no grande salão, com as mãos firmemente entrelaçadas diante dela, rígida pela tensão. Era insuportável.
Sabia que Alasdair caminharia por sua sala em qualquer momento, reclamando-a como dele.
Jogou uma olhada à escada. Mary tinha ido ver seus filhos, que estavam vestidos como vulgares meninos escoceses. Elasaid ia dizer que eram deles.
Os meninos eram utilizados como reféns todo o tempo.
Ouviu pesados passos de botas, seguidos de graves tons masculinos. O coração deu um tombo. Alguém se pôs a rir. A mesma voz disse: — Talvez isto seja um bom augúrio, né, Alasdair? Talvez nossa próxima luta seja tão fácil e sem derramamento de sangue. Talvez todos nossos inimigos se acovardem quando nos aproximarmos à próxima vez!
Juliana estremeceu. Estava assustada, mas também estava furiosa. Ela estava sendo acusada de covardia.
Alasdair entrou pela porta e seu olhar se fundiu com dela.
— Eu acredito que Lady Juliana jamais se acovardou, Neil.
Juliana se limitou a olhá-lo.
Dirigiu-se para ela, um highlander imponente. Seu tartan azul e vermelho estava jogado para trás, as abas de sua túnica formavam redemoinhos sobre suas
coxas nuas, suas espadas chocando lá com cada passo dele. Seu olhar azul era penetrante, quando se deteve ante ela.
— Foi sua a decisão de render-se?
Era difícil falar.
— Sim.
Ele se abrandou.
— Por conseguinte, tornaste-te sábia.
Sentia desejos de golpeá-lo.
— O que quer de mim? Por que voltaste?
Seu sorriso se desvaneceu.
— Seu irmão atacou meu Castelo, Lady Juliana, sem dúvida com sua bênção.
— Ele atacou, não eu.
Sentiu que seu temperamento bulia, e era consciente de que devia lutar contra ele, mas nem sequer o tentou.
— Não seria tão fácil atacar a meu irmão. Isso necessitaria valor. Eu sou um rival fácil. Atacar a uma mulher é coisa de risada.
Ele se obscureceu, e parecia incapaz de falar. Atrás dele, seus homens pareciam assombrados e incômodos.
— Isto não é coisa de risada, asseguro-lhes. Lady… acusa-me de ser covarde?
Ela começou a tremer.
— Precisamente eu estava sendo acusada de covardia.
Sua boca se curvou, mas sem alegria.
— Não acredito que você seja covarde, acredito que é muito valente e audaz para seu próprio bem.
— Agora me adula? — Exclamou. — Ou me insulta? É covarde por atacar a uma mulher!
E no momento em que ela gritou, desejou não o ter feito.
Ficou olhando-a com incredulidade. Um surpreso silêncio caiu. E Mary entrou na sala, com o rosto cinzento.
Em meio deles, olhou para trás e para diante várias vezes. Logo, aproximou- se depressa de Juliana.
— Minha irmã está angustiada. — Disse rapidamente. — Ela não quis lhe insultar.
— Ela tinha essa intenção. — Disse secamente. — Ataquei-lhes, Lady Juliana, porque têm um grande valor para mim.
O que tinha querido dizer?
Olhou a sua irmã, segura de que sua consternação era compartilhada. Mary parecia tão angustiada como ela se sentia.
Alasdair se voltou para Neil, o alto e loiro highlander a seu lado.
— Procurem na torre. Conta a todos. Assegure de que não há armas que estejam ocultas. —Alimentarão a meus homens. Sairemos amanhã com a primeira maré.
Com fria expressão, passou diante de ambas, tomando assento na mesa.
Criadas do castelo se apressaram a lhe servir.
Juliana se encolheu quando seus homens correram escada acima, e outros baixaram aos porões. Mary e ela intercambiaram olhadas mais preocupadas e Mary agarrou seu pulso. O medo se refletia em seus olhos.
Juliana sabia que estava assustada porque os meninos logo seriam descobertos. Mas ela tinha um assunto mais urgente. Correu à cabeceira da mesa, tomando uma profunda respiração para infundir-se valor.
Alasdair virou para ela, com uma perna a cada lado do banco. Sua expressão se voltou cautelosa.
— Que intenções tem? — Perguntou Juliana, tratando de manter um tom calmo. Foi impossível. —Vai deixar uma guarnição aqui, quando sair com a primeira maré? E o que vais fazer comigo e com minha irmã?
— Rogo que me perdoem. Nós sairemos com a primeira maré. Vamos a minha casa em Islay.
Seu olhar era inquebrável.
Juliana se abraçou.
— Está me tomando prisioneira?
— Aye, estou tomando você e sua irmã como reféns.
— Por quê? — Gritou. — Por que procurar vingança comigo? Você nos atacou!
— Seu irmão atacou a Ardtornish Castle.
— Eu não sou meu irmão!
De repente ficou de pé, abatendo-se sobre ela.
— Vocês não deveriam ter ido à Catedral a semana passada.
Não podia entendê-lo. Em lugar de questionar o que ele disse, ela lhe perguntou:
— Quer reacender esta guerra entre o clã Donald e Dougall ? Porque isso é tudo o que vai conseguir!
—Crê que pode me aconselhar? Seu irmão devia pensar duas vezes antes de enviar uma ovelha a me espionar. Portanto, pouco importa. Já estávamos em guerra.
Estivemos em guerra durante cem anos, inclusive mais. Estou lhes tomando como refém, Lady Juliana, e nem com súplicas, nem com lágrimas, será trocada minha vontade.
— Isso não é o que importa! — As lágrimas encheram seus olhos. — Se tiver que tomar um refém, leva a mim… mas por favor, deixa a minha irmã aqui. Ela está grávida.
— Assim admite todo o dito. Eu não posso deixar lady Comyn aqui. Ela é a filha do Conde do Buchan por casamento… afinal, ela pode ser uma bênção maior que você.
Com autêntico desalento, Juliana olhou a Mary quando se aproximou dela.
Antes que qualquer delas pudesse falar, ele levantou a mão.
— Já basta. Assegurem-se de estar preparadas para a viagem ao amanhecer.
E assegure de que os meninos estejam preparados também.
Mary empalideceu.
Juliana disse: — Os meninos?
— Lady Comyn tem três filhos.
Mary parecia a ponto de deprimir-se. Juliana tomou seu braço para mantê-la em pé.
— Eles não estão aqui, Alasdair. Eles permanecem em Bain Castle, na casa de seu marido.
Ele cruzou seus musculosos braços sobre o peito.
— Inteirei-me que há meninos aqui, Lady Juliana.
Como soube disso? Então, recordou que tinha passado a noite em Achanduin Castle… a maior parte da ilha sabia que sua irmã estava na fortaleza com seus meninos.
Neil veio abaixo com o Elasaid, a jovem de cabelo escuro, pálida de medo.
— Quem é esta? — Exigiu Alasdair.
— É minha dama. — Sussurrou Mary.
— Estava em uma câmara lá em cima. — Disse Neil. — Com três meninos, assegurando que são dela.
— Tenho três filhos. — Sussurrou Elasaid, tremendo.
— E o loiro me viu e gritou: Por Comyn! —Disse Neil. Em realidade, rindo entre dentes.
Alasdair voltou seu olhar penetrante sobre Mary.
Mary deu um passo adiante antes que Juliana pudesse detê-la. Respirava com dificuldade.
— Não podemos lhe enganar, então. Os meninos são meus filhos, mas te rogo que não os tome como reféns.
Antes que pudesse responder, Juliana se precipitou entre eles.
— Quer-me …não a minha irmã, não aos meninos. Por favor. — Disse.
Ela agarrou seu braço.
— Leve a mim, mas deixa a Mary e os meninos. Certamente, em algum lugar dentro de você, há bondade e compaixão.
Seus olhos se abriram. Baixou a vista para sua mão. Juliana o soltou.
Obscurecendo seus olhos, disse: —Você, sua irmã e seus sobrinhos, serão bem atendidos… em Islay.
Posso matar ao inimigo na batalha, mas eu não faço mal a mulheres ou meninos, Lady Juliana.
E com isso virou lhe dando as costas.
Capítulo Quatro
Dunyveg Castle, Islay, Escócia, no dia seguinte.
— Se houver algo que necessitem, é só pedir. — Disse Lady MacDonald. — Sei que estes são tempos difíceis.
Juliana tinha caminhado até a única janela da habitação da torre que ia compartilhar com sua irmã e os meninos. Dunyveg estava construída sobre um escarpado que sobressaía no oceano e o mar de abaixo era negro com a chegada da noite, mas jogava espuma com cristas brancas; por cima, o céu estava encapotado, voltando-se púrpura. Não haveria estrelas essa noite, nem tampouco lua.
A noite não demoraria para ser negra.
As tochas se acenderam, tão dentro como fora do Castelo.
Parecia que havia luzes por debaixo dele, na praia.
Acabavam de chegar a Islay fazia uma hora, ao entardecer, depois de ter deixado Lismore logo depois do amanhecer. Congelou pelo vento, a névoa e a neve, e ela continuava sem poder acreditar. Quando contemplou o Oceano Atlântico, pensou, que era um lugar esquecido de Deus, bem merecido para um homem esquecido da mão de Deus… um que tomava a uma mulher grávida e seus filhos pequenos como reféns.
Como ia conseguir a liberdade de sua irmã?
Quanto antes se exigisse um resgate, melhor.
Os três meninos estavam deitados juntos em uma cama, e Mary agora sentou com eles, ainda envolta em sua pele.
— Obrigada. — Disse em voz baixa a Lady MacDonald.
Juliana voltou-se para olhar à mãe de Alasdair. Tinha o cabelo cinza, olhos azuis, era de média estatura e constituição miúda, ainda formosa, e uma voz muito doce. Ela parecia amável… inclusive parecia preocupada. Como tinha dado à luz a um homem tão frio e desumano?
E o que teria querido dizer ele realmente com que ela não deveria ter estado na Catedral quando atacou? Arrependia-se de havê-la envolvido em sua guerra?
Juliana jogou para longe tão caprichosos pensamentos.
Alasdair Og não se arrependia, não tinha dúvidas, tinha, tão somente, desumana ambição.
— O que precisamos é ser liberadas, para que possamos voltar para casa. — Disse Juliana, com um pouco de aspereza.
O sorriso de Lady MacDonald vacilou.
— Espero que logo seja liberada, Lady Juliana.
Juliana a olhou, dando-se conta de que ela estava sendo amável e que dizia a sério. Seria uma aliada, então?
— Não entendo por que seu filho nos capturou. Se tão somente liberasse a minha irmã e seus filhos… eu ficaria alegremente como sua refém.
Enquanto falava, ouviu um movimento no salão, e se esticou quando Alasdair se apoiou contra a porta aberta. Ele sorriu lentamente para ela.
Lady MacDonald disse brandamente:
—Deixei de tentar entender os caminhos dos homens… e sua necessidade de guerra… faz muito tempo, Lady Juliana. Mas meu filho vai assegurar-se de que
estejam bem cuidados, enquanto estiverem aqui. — Voltou-se para Alasdair. — Não é assim?
—Você sempre tem razão.
Aproximou-se, beijou a bochecha de lady MacDonald quando ela os deixou, e se voltou para olhar a Juliana.
— Se queria comover a minha mãe para conspirar contra mim, deveria repensar.
Juliana abraçou a si mesma, com o coração acelerado. Era muito consciente de estar completamente sob o controle deste homem… era sua refém, encarcerada em sua fortaleza, rodeada pelo inimigo.
— Sua mãe parece amável.
— Diferente de mim?
Ele parecia divertido, e de algum modo, era muito diferente agora que estava em sua casa. Seus olhos tinham mudado, porque já não eram frios nem duros. Então, deu-se conta de que mesmo sua atitude tinha mudado. Era como se ele já não se preparasse para a guerra.
–Ela é muito amável, mas não vai me trair. —Disse Alasdair. — Então quer dizer que você permaneceria aqui alegremente, como minha refém?
— Sim, se Mary e seus filhos forem liberados.
Ele riu.
— Poderia chegar a desfrutar de minha hospitalidade, Lady Juliana… está advertida.
Dirigiu-lhe um olhar de soslaio e se voltou para Mary, seu sorriso se desvaneceu.
— Encontra-se bem, Lady Comyn?
— Foi um dia muito longo, mas além de estar muito cansada, sinto-me bem.
— Respondeu Mary.
Aproximou-se da cama, e tanto Roger como Donald o olharam com os olhos muito abertos. Tinham olhado tudo com aberta fascinação, enquanto estavam em seu navio.
— Os moços, devem ter fome. — Disse Alasdair, surpreendendo a Juliana.
Roger assentiu, com os olhos tão grandes como pratos, e Donald disse:
— Realmente penduraste o Bispo?
— Donald. — Disse Mary, lhe agarrando e trazendo-o para perto dela.
— O Fiz. A traição não é boa ideia… nem tampouco é a espionagem. — Disse com total naturalidade Alasdair.
Juliana caminhou até interpor-se entre ele e a cama, onde estavam Mary e os meninos. Lançou-lhe um sombrio olhar.
Alasdair a ignorou, sorrindo a Mary.
— Devo pedir que minha mãe envie algo para jantar? Sei que o dia foi longo e difícil.
— Lhe agradeço. — Disse isso Mary. — Acredito que todos queremos nos retirar cedo.
Roger estava bocejando enquanto falava. Thomas já estava enrolado junto a ela, profundamente adormecido.
Alasdair enfrentou lentamente a Juliana, sua expressão irônica.
— Ficará com sua irmã?
— Se a opção é permanecer com Mary, ou jantar contigo, não há escolha. — Disse Juliana. — É um pouco tarde para bondade.
Divertido, sacudiu a cabeça, e se foi.
— Juliana.
Mary lutou para levantar. Juliana se apressou a ajudá-la, enquanto Thomas murmurava entre sonhos.
— Não brigue com ele agora! Não lhe provoque! Estamos a sua mercê. Sou feliz que pode ser amável, mesmo que seja por um momento.
Juliana sabia que Mary tinha razão. Desejou ter controlado seu temperamento.
Repreendê-lo não a ajudaria a liberar sua irmã!
— Somos reféns. — Disse Mary, tomando-a pela mão. — Se você aceitar isso, talvez possamos suportar esta dura prova com a menor dificuldade possível.
— Está me pedindo que mude minha forma de ser? — Disse Juliana.
Mas, inclusive enquanto falava, sabia que sua irmã tinha razão. Apesar que raramente pensava antes de agir, sabia que sempre se caça mais moscas com mel que com vinagre.
— Voltarei.
Antes que Mary pudesse protestar, Juliana correu ao salão.
Alasdair estava no outro extremo, ao lado do corredor, e desapareceu em uma câmara sem vê-la.
Juliana vacilou. Certamente ele não tinha seus aposentos na torre onde ela e Mary dormiam! Certamente não estava no mesmo corredor delas! E por que isso lhe incomodava? Talvez, ele simplesmente queria assegurar-se de que ela e sua irmã não escapassem… inclusive não havendo realmente nenhuma possibilidade de fazê-lo.
Islay era uma ilha, não se podia simplesmente caminhar para fora!
Recuperou a compostura, e caminhou para a porta, que estava aberta. Deteve- se na soleira.
Alasdair estava de costas para ela, e estava tirando o cinturão da espada. Seu tartán azul marinho e vermelho já estava jogado sobre a cama. Vestia só a túnica de linho que levava e suas botas de couro. Não pôde deixar de notar como eram largos seus ombros, quão musculosos eram seus braços, como eram estreitos seus quadris.
A túnica deixava muito pouco à imaginação.
— Então me seguiu até minha habitação?