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Ao cair da noite, Coeffin Castle estava preparado para um ataque. O fogo ardia no alto das muralhas de maneira que azeite fervendo pudesse ser jogado a qualquer invasor. Montões de rochas e pedras se encontravam junto às catapultas, arqueiros e soldados ocupavam as muralhas. As irmãs esperaram até que a lua saiu, mas nenhum ataque chegou.

No grande salão, Juliana ficou de pé.

— Ele não virá.

— Não — disse Mary. — Não esta noite.

Quando sua irmã disse isto, Juliana se perguntou se teria tomado Achanduin Castle. Imaginou Alasdair lá, seus homens celebrando a fácil vitória na grande sala, rindo e levantando as jarras em sinal de vitória.

Viria amanhã? Ou Achanduin Castle seria suficiente?

Mary ficou de pé.

—Vou descansar um pouco. Você também deveria fazê-lo.

Juliana de algum modo conseguiu sorrir. Ela não poderia dormir essa noite, não quando tinha medo do que o amanhecer traria.

Mas Mary se deteve.

— Há uma coisa que não posso compreender. Foi nosso irmão quem atacou Ardtornish Castle. Não você. Então, por que está aqui?

Juliana ficou rígida.

— Não sei.

Mary lhe dirigiu um estranho olhar e se foi.

Juliana voltou a sentar-se no banco, olhando através da grande sala, onde muitos de seus soldados dormiam sobre jergones13. Uma enorme chaminé estava na parede oposta e o fogo ardia lá.

— “Lamento que estejam aqui hoje”.

De repente, recordou as palavras de despedida de Alasdair e ficou gelada.

Nem sequer gostaria de tentar compreender o que ele tinha querido dizer, ou se tinha estado verdadeiramente arrependido.

Apoiou a bochecha em seus braços sobre a mesa. Estava em Lismore, não por Alexander, a não ser por causa dela… de algum jeito pressentia.

As lágrimas queimaram suas pálpebras fechadas. Desejou não ter pedido nunca um exército a seu irmão, desejou não ter sonhado nunca com vingança!

Mas sobre tudo, desejava que ela e sua irmã tivessem ido para Dunstaffnage essa manhã, quando ela tinha insistido em que saíssem imediatamente. Então Mary e seus três filhos estariam a salvo.

E para piorar as coisas, Mary estava grávida de cinco meses. Se algo acontecesse ao bebê, ou a qualquer um de seus filhos, Juliana nunca perdoaria a si mesmo.

Despertou. Não tinha tido intenção de adormecer. Mas viu que o fogo agora ardia na chaminé, depois de ter sido alimentado pelas criadas. A luz, fora das janelas, era a pálida claridade do amanhecer.

Levantou-se de um salto do banco, e saiu correndo do salão para a estreita escada. Os dois homens da torre se voltaram enquanto corria para eles.

O amanhecer era cinza, e a neve caía. A escassa luz tingia o dia, sem nenhum rastro de sol. E não havia navios no horizonte.

Não podia acreditar. Foram-se?

— Lady Juliana, deve ir à torre de entrada.

Juliana virou para olhar a torre de vigilância, fora das muralhas havia barulho.

Jogou uma olhada à pálida e sombria expressão de Fergus, e soube que Alasdair Og havia chegado.

Tomou ar, rogando por força e coragem. Então, ela assentiu e o seguiu ao interior, pela planta baixa, e por todo o Coeffin Castle. Mary apareceu, e caminhou a seu lado.

Estava nevando mais forte agora. Uma ligeira capa de gelo cobria o pátio. A frente estava a torre de entrada, a ponte levadiça, abaixo, mantinha-se fechada.

Todos seus arqueiros e soldados estavam nas muralhas a cada lado das portas do Coeffin Castle.

Juliana subiu as escadas exteriores com o Fergus e Mary, e entrou na torre.

Aproximou-se da janela e se agarrou ao batente.

Talvez uma centena de guerreiros a cavalo, highlanders vestidos com peles e cavaleiros com cota de malha formavam uma linha entre as colinas do Oeste e o Coeffin Castle, como uma barricada, frente a ela.

Juliana se sentiu doente. Não podia ver atrás das linhas de frente, mas sabia que centenas de arqueiros e soldados, armados com espadas e lanças, estavam lá.

Três bandeiras azuis MacDonald, luzindo sinistros dragões vermelhos, ondeavam por cima do exército.

— O que vamos fazer? — Sussurrou Mary.

Juliana não podia falar. Viu um cavaleiro sobre um cavalo de guerra cinza separar-se do exército e devagar, ir avançando. Era tanta a tensão, que sentiu que se afogava.

— É Alasdair Og — disse Mary laconicamente.

Deteve sua montaria a certa distância da torre de entrada. Estava muito longe para que suas feições fossem visíveis, mas ele estava, sem dúvida, olhando fixamente à torre… Juliana sabia que ele olhava fixamente a ela.

— Se vocês pudessem atraí-lo para mais perto, nossos arqueiros poderiam matá-lo — disse Fergus lentamente.

—Não. Não disparem — respondeu Juliana, com tanta veemência, que Mary e Fergus a olharam com receio. —Não vamos matá-lo a sangue frio.

— Então, ele ordenará nos matar — disse Fergus categoricamente.

Mary a olhou, e Juliana sabia que estava pensando que ele, sem dúvida, tinha matado ao Bispo Alan a sangue frio. Mas, curiosamente, ela não acreditava que Alasdair Og mataria a ela e nem a sua irmã. Mas ele estava empenhado na vingança.

Ela sabia. E, de repente, não havia outra saída. Sabia o que devia fazer para proteger a sua irmã e seus sobrinhos.

Como se ele pudesse ler seus silenciosos pensamentos, cavalgou aproximando-se. Pôde distinguir seu cabelo longo e escuro, solto sobre seus ombros, enquanto olhava para ela. Seus olhares se encontraram.

Era o momento, pensou. Juliana pediu a Fergus sua adaga. Surpreso, ele a deu.

Imediatamente, ela se agachou e debaixo de seu sulque cortou uma tira de linho azul.

Mary ofegou quando Juliana entregou a adaga, dando-se conta agora do que pretendia.

Juliana deu a volta e saiu às muralhas, Mary e Fergus atrás dela, suas expressões sombrias. Quando se dirigiu às ameias14, um grupo de arqueiros a rodearam.

—Afastem-se — ordenou.

— Lady Juliana, não pode pôr sua vida em perigo. — Protestou Fergus.

— Ele não me fará mal.

Apertou-se contra a borda do muro, confiante de suas palavras.

Olhando abaixo para ele, levantou sua mão e deixou a tira de linho da rendição cair por cima do muro. Ambos o olharam flutuar para ele, de maneira muito parecida com a neve que caía.

*

Juliana parou frente à chaminé no grande salão, com as mãos firmemente entrelaçadas diante dela, rígida pela tensão. Era insuportável.

Sabia que Alasdair caminharia por sua sala em qualquer momento, reclamando-a como dele.

Jogou uma olhada à escada. Mary tinha ido ver seus filhos, que estavam vestidos como vulgares meninos escoceses. Elasaid ia dizer que eram deles.

Os meninos eram utilizados como reféns todo o tempo.

Ouviu pesados passos de botas, seguidos de graves tons masculinos. O coração deu um tombo. Alguém se pôs a rir. A mesma voz disse: — Talvez isto seja um bom augúrio, né, Alasdair? Talvez nossa próxima luta seja tão fácil e sem derramamento de sangue. Talvez todos nossos inimigos se acovardem quando nos aproximarmos à próxima vez!

Juliana estremeceu. Estava assustada, mas também estava furiosa. Ela estava sendo acusada de covardia.

Alasdair entrou pela porta e seu olhar se fundiu com dela.

— Eu acredito que Lady Juliana jamais se acovardou, Neil.

Juliana se limitou a olhá-lo.

Dirigiu-se para ela, um highlander imponente. Seu tartan azul e vermelho estava jogado para trás, as abas de sua túnica formavam redemoinhos sobre suas

coxas nuas, suas espadas chocando lá com cada passo dele. Seu olhar azul era penetrante, quando se deteve ante ela.

— Foi sua a decisão de render-se?

Era difícil falar.

— Sim.

Ele se abrandou.

— Por conseguinte, tornaste-te sábia.

Sentia desejos de golpeá-lo.

— O que quer de mim? Por que voltaste?

Seu sorriso se desvaneceu.

— Seu irmão atacou meu Castelo, Lady Juliana, sem dúvida com sua bênção.

— Ele atacou, não eu.

Sentiu que seu temperamento bulia, e era consciente de que devia lutar contra ele, mas nem sequer o tentou.

— Não seria tão fácil atacar a meu irmão. Isso necessitaria valor. Eu sou um rival fácil. Atacar a uma mulher é coisa de risada.

Ele se obscureceu, e parecia incapaz de falar. Atrás dele, seus homens pareciam assombrados e incômodos.

— Isto não é coisa de risada, asseguro-lhes. Lady… acusa-me de ser covarde?

Ela começou a tremer.

— Precisamente eu estava sendo acusada de covardia.

Sua boca se curvou, mas sem alegria.

— Não acredito que você seja covarde, acredito que é muito valente e audaz para seu próprio bem.

— Agora me adula? — Exclamou. — Ou me insulta? É covarde por atacar a uma mulher!

E no momento em que ela gritou, desejou não o ter feito.

Ficou olhando-a com incredulidade. Um surpreso silêncio caiu. E Mary entrou na sala, com o rosto cinzento.

Em meio deles, olhou para trás e para diante várias vezes. Logo, aproximou-se depressa de Juliana.

— Minha irmã está angustiada. — Disse rapidamente. — Ela não quis lhe insultar.

— Ela tinha essa intenção. — Disse secamente. — Ataquei-lhes, Lady Juliana, porque têm um grande valor para mim.

O que tinha querido dizer?

Olhou a sua irmã, segura de que sua consternação era compartilhada. Mary parecia tão angustiada como ela se sentia.

Alasdair se voltou para Neil, o alto e loiro highlander a seu lado.

— Procurem na torre. Conta a todos. Assegure de que não há armas que estejam ocultas. —Alimentarão a meus homens. Sairemos amanhã com a primeira maré.

Com fria expressão, passou diante de ambas, tomando assento na mesa.

Criadas do castelo se apressaram a lhe servir.

Juliana se encolheu quando seus homens correram escada acima, e outros baixaram aos porões. Mary e ela intercambiaram olhadas mais preocupadas e Mary agarrou seu pulso. O medo se refletia em seus olhos.

Juliana sabia que estava assustada porque os meninos logo seriam descobertos. Mas ela tinha um assunto mais urgente. Correu à cabeceira da mesa, tomando uma profunda respiração para infundir-se valor.

Alasdair virou para ela, com uma perna a cada lado do banco. Sua expressão se voltou cautelosa.

— Que intenções tem? — Perguntou Juliana, tratando de manter um tom calmo. Foi impossível. —Vai deixar uma guarnição aqui, quando sair com a primeira maré? E o que vais fazer comigo e com minha irmã?

— Rogo que me perdoem. Nós sairemos com a primeira maré. Vamos a minha casa em Islay.

Seu olhar era inquebrável.

Juliana se abraçou.

— Está me tomando prisioneira?

— Aye, estou tomando você e sua irmã como reféns.

— Por quê? — Gritou. — Por que procurar vingança comigo? Você nos atacou!

— Seu irmão atacou a Ardtornish Castle.

— Eu não sou meu irmão!

De repente ficou de pé, abatendo-se sobre ela.

— Vocês não deveriam ter ido à Catedral a semana passada.

Não podia entendê-lo. Em lugar de questionar o que ele disse, ela lhe perguntou:

— Quer reacender esta guerra entre o clã Donald e Dougall ? Porque isso é tudo o que vai conseguir!

—Crê que pode me aconselhar? Seu irmão devia pensar duas vezes antes de enviar uma ovelha a me espionar. Portanto, pouco importa. Já estávamos em guerra.

Estivemos em guerra durante cem anos, inclusive mais. Estou lhes tomando como refém, Lady Juliana, e nem com súplicas, nem com lágrimas, será trocada minha vontade.

— Isso não é o que importa! — As lágrimas encheram seus olhos. — Se tiver que tomar um refém, leva a mim… mas por favor, deixa a minha irmã aqui. Ela está grávida.

— Assim admite todo o dito. Eu não posso deixar lady Comyn aqui. Ela é a filha do Conde do Buchan por casamento… afinal, ela pode ser uma bênção maior que você.

Com autêntico desalento, Juliana olhou a Mary quando se aproximou dela.

Antes que qualquer delas pudesse falar, ele levantou a mão.

— Já basta. Assegurem-se de estar preparadas para a viagem ao amanhecer.

E assegure de que os meninos estejam preparados também.

Mary empalideceu.

Juliana disse: — Os meninos?

— Lady Comyn tem três filhos.

Mary parecia a ponto de deprimir-se. Juliana tomou seu braço para mantê-la em pé.

— Eles não estão aqui, Alasdair. Eles permanecem em Bain Castle, na casa de seu marido.

Ele cruzou seus musculosos braços sobre o peito.

— Inteirei-me que há meninos aqui, Lady Juliana.

Como soube disso? Então, recordou que tinha passado a noite em Achanduin Castle… a maior parte da ilha sabia que sua irmã estava na fortaleza com seus meninos.

Neil veio abaixo com o Elasaid, a jovem de cabelo escuro, pálida de medo.

— Quem é esta? — Exigiu Alasdair.

— É minha dama. — Sussurrou Mary.

— Estava em uma câmara lá em cima. — Disse Neil. — Com três meninos, assegurando que são dela.

— Tenho três filhos. — Sussurrou Elasaid, tremendo.

— E o loiro me viu e gritou: Por Comyn! —Disse Neil. Em realidade, rindo entre dentes.

Alasdair voltou seu olhar penetrante sobre Mary.

Mary deu um passo adiante antes que Juliana pudesse detê-la. Respirava com dificuldade.

— Não podemos lhe enganar, então. Os meninos são meus filhos, mas te rogo que não os tome como reféns.

Antes que pudesse responder, Juliana se precipitou entre eles.

— Quer-me …não a minha irmã, não aos meninos. Por favor. — Disse.

Ela agarrou seu braço.

— Leve a mim, mas deixa a Mary e os meninos. Certamente, em algum lugar dentro de você, há bondade e compaixão.

Seus olhos se abriram. Baixou a vista para sua mão. Juliana o soltou.

Obscurecendo seus olhos, disse: —Você, sua irmã e seus sobrinhos, serão bem atendidos… em Islay.

Posso matar ao inimigo na batalha, mas eu não faço mal a mulheres ou meninos, Lady Juliana.

E com isso virou lhe dando as costas.

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