GEO BRASIL ECONÔMICO Aula III
Objetivo: A região de agricultura mercantil escravista A) Características gerais
Um ponto a se destacar na empresa de colonização europeia na América é que ela foi desde o início um empreendimento comercial. A motivação da colonização estava diretamente relacionada ao processo de expansão comercial, pela via atlântica, iniciado em meados do século XIII, e que permitiu aos países europeus, em especial os ibéricos, uma grande acumulação de capital, fruto do comércio das mercadorias africanas e do extremo oriente.
Foi justamente esse caráter estritamente comercial da expansão marítima que determinou o baixo interesse despertado pelas terras descobertas por Cabral no continente americano. A expectativa do lucro com a colonização era muito inferior a grande lucratividade do comércio das especiarias. Somente a ameaça representada pelas nações recém-chegadas à expansão marítima, como França, Inglaterra e Holanda, que buscavam dominar pontos estratégicos da navegação atlântica, fez com que os países ibéricos buscassem a colonização efetiva. No caso de Portugal, pela incapacidade de localizar metais preciosos em seu território, optou-se pela implantação da produção de bens agrícolas, que só poderiam ser cultivados nos trópicos, para o abastecimento do comércio com a Europa. Através da distribuição de sesmarias, buscava-se implantar a grande lavoura e fixar na terra o lavrador.
É importante salientar que essa inserção das colônias no mercado europeu, assumindo o papel de produtora de bens necessários ao comércio continental, não foi exclusividade dos países ibéricos. Nas colônias francesas, inglesas e holandesas, também era o interesse comercial da metrópole que determinava a instalação e o desenvolvimento das mesmas. A grande consequência disso era o enfraquecimento do mercado interno, a ênfase na produção exportadora. A diferença entre as áreas ibéricas e inglesas, da América do Norte, não se deve a intenção inicial da colonização, mas sim a características peculiares da região inglesa e ao momento em que a empresa colonial se encontra plenamente estabelecida. No caso dos portugueses, a segunda metade do século XVI. Já para os ingleses, isso somente ocorreria no século XVIII. Não se justifica, portanto, a distinção entre colônias de exploração e colônias de povoamento.
A opção pela grande lavoura não se fez ao acaso. A necessidade de abastecer o mercado europeu motivou a facilitação do acesso a grandes lotes de terra, na forma das sesmarias, que possuíam como única obrigação a necessidade fazê-las produzir. Caso isso não ocorresse, as terras poderiam ser retomadas. Isto fez com que prosperassem mais aqueles que dispunham de possibilidade de investimento na aquisição de insumos de produção, em especial de escravos. A consolidação do modelo da grande propriedade está diretamente relacionada ao "cabedal" dos sesmeiros. Quanto maior fosse a sua capacidade de investimento, maior seria a porção de terras destinada a ele, aumentando a concentração fundiária. Desta forma a grande propriedade rural se consolidou como padrão da agricultura voltada para o fornecimento de bens comercializáveis na Europa.
É importante destacar que isto não representa uma exclusividade da colonização portuguesa. Por toda a América, sempre que se desenvolveu a agricultura voltada para o comércio com a metrópole, a grande propriedade se tornou dominante.
As duas grandes características da grande lavoura eram a monocultura e a mão de obra escrava. Em relação à monocultura, todo o esforço produtivo estava voltado para a mercadoria a ser vendida no comércio exterior. Os bens de subsistência necessários para a manutenção da força produtiva ficavam a cargo de pequenas propriedades, baseada em uma produção familiar.
A mão de obra escrava foi adotada desde o início na grande lavoura. Somente ela poderia satisfazer a produção em larga escala demandada pelo comércio exterior. No caso do Brasil primeiro se utilizou a mão de obra indígena, que predominou até o início do século XVII. Presente de início, também, a mão de obra africana foi gradativamente se tornando dominante. Mais caro que o escravo nativo, o africano era, no entanto, mais adaptado à lavoura extensa. Além disso, a mortalidade do escravo índio era muito alta em função da ausência de proteção contra as inúmeras doenças trazidas pelos colonizadores.
O trabalho livre, presente inicialmente, na forma dos artesãos, foi gradativamente também substituído pela mão de obra escrava. O europeu que vinha para a América não tinha como plano tornar-se "jornaleiro". Buscava a distinção social que ele não possuía em sua terra de origem. Nas áreas de agricultura mercantil escravista não houve uma grande imigração de trabalhadores pobres.
Por fim, outra característica da região de agricultura mercantil escravista foi o seu estabelecimento na região litorânea. Isto se deu em função da necessidade de ter acesso ao escoamento da produção, e, também, pela existência de solo fértil na reserva florestal. A grande extensão de Mata Atlântica sofreu um processo de devastação para a
implantação da grande propriedade agroexportadora. Essa devastação se tornou ainda mais intensa devido ao fato o de que todo o investimento era feito na produção direta do bem comercializável. Não havia a preocupação de recuperar o solo exaurido. Isto fornecia a lavoura uma itinerância. Quando o solo não se mostrava mais lucrativo, devastavam-se novas áreas e a lavoura se movia. A grande consequência dessa prática foi a quase extinção da Mata Atlântica que vivenciamos nos dias atuais.
De um modo geral após um período de expansão que se seguia a implantação da grande lavoura, havia uma tendência de estagnação. Com toda a sua produção voltada para o mercado externo, ficava a mercê das altas e baixas desse mercado, muitas vezes provocados por processos políticos alheios à colônia. Não havia preocupação em desenvolver o mercado interno, tendo-se como única preocupação o fornecimento de bens primários para o comércio exterior.
B) A lavoura açucareira
Desde o início da produção agroexportadora o açúcar se destacou como o principal produto. A explicação para esse fato está, primeiro, na experiência que os portugueses possuíam com esta produção. Já no século XIV exploravam esta cultura na ilha atlânticas da Madeira, Açores e Cabo Verde. Detinham, portanto o know how desta produção. Outro fator foi a valorização desse produto na Europa ao longo do século XVI, que proporcionou a oferta de capital, na forma de financiamentos, pelos interessados na aquisição dessa mercadoria para comercialização. Era o caso dos holandeses, que desde o início foram importantes parceiros dos produtores portugueses na colônia.
O engenho de açúcar se torna então um importante meio de colonização, concentrando a atividade sedentária. Nele a casa grande aparece como o centro da vida da propriedade. Além de residência do senhor do engenho, trazia anexa a ela a capela, onde se realizam todos os tipos de serviços religiosos, e a senzala, que nas maiores propriedades poderia abrigar algumas centenas de escravos.
Também próximo à casa grande ficava a casa de engenho, onde a cana de açúcar era transformada, no valioso produto de exportação. As propriedades mais importantes possuíam moendas movidas à força hidráulica, eram os engenhos reais, contudo, a maioria se utilizava de força de tração animal. A área cultivada estava divida em quinhões de terra chamados de partidos. Nem todos os partidos eram cultivados diretamente pelo senhor de engenho. Havia casos de arrendatários e posseiros que limpavam uma parte da mata, com recursos próprios e se dedicavam ao cultivo da cana. Também havia os
pequenos proprietários, que não possuíam condições de manter um engenho, e se dedicavam exclusivamente ao cultivo da cana de açúcar. Nos dois casos a colheita era entregue ao senhor de engenho que ficava com 50% do açúcar produzido. Essa pequena produção era muito importante para atender a demanda pelo produto. Havia, inclusive, engenhos que somente se ocupavam dessa atividade, sem possuir cultivo próprio.
Apesar da importância da indústria do açúcar, os canaviais não ocupavam toda a extensão da área dos engenhos. A maior parte das terras era ocupada pela mata e a produção de lavouras de subsistência de pequenos plantadores dependentes do senhor de engenho. Isto serve para que possamos dimensionar o tamanho dessas propriedades.
A produtividade dos engenhos no Brasil era inferior à produção média dos engenhos antilhanos, comandados pelos holandeses, cerca da metade destes. A explicação para isso se encontra no caráter mais rudimentar da produção no Brasil, expressada na utilização de queimadas para a preparação do solo.
C) Outras lavouras
Apesar do início do plantio ter se dado em 1640, somente na última década do século XVII, e na primeira do posterior, o comércio do fumo iria adquirir grande importância, se tornando o segundo produto na produção agrícola voltada para o mercado externo.
O fumo era exportado para a metrópole e para a África, onde servia como moeda no tráfico negreiro. Esta utilização provocou um aumento na sua produção, em um momento de expansão da produção açucareira e do início da produção das regiões das minas, pois ambas as atividades demandavam escravos, proporcionando ainda maiores lucros para os produtores de tabaco.
As regiões mais importantes neste cultivo foram a Bahia e o Rio de Janeiro. O baixo custo da implantação fez com que pequenos lavradores, que se dedicavam à plantação de subsistência passassem a se dedicar a esta cultura. O plantio do fumo tornaria patente o choque de interesses entre os colonos, e entre os produtores de fumo e a metrópole. A destruição das matas, provocadas pela plantação de fumo que esgotava o solo mais rápido do que a cana de açúcar, colocava em risco o fornecimento de madeira para a construção naval e para a sua utilização como combustível dos engenhos de açúcar. Além disso, entrava em choque com a nova política do Conselho Ultramarino, criado em 1642 para regular a administração da colônia, de fomentar o cultivo de subsistência na colônia, devido ao encarecimento deste comercio via atlântico. O auge
deste conflito se dá entre 1704 e 1712, quando se ordena a destruição de plantações de tabaco em várias regiões. Apesar disso este cultivo seguiu como o segundo mais importante durante o período colonial.
Depois do fumo, o cultivo mais importante do período colonial foi o algodão. Até a segunda metade do século XVIII a produção brasileira se voltava para o consumo interno, sendo utilizada na fabricação de vestimentas para os escravos e a população mais pobres. Com o advento da revolução industrial o aumento da demanda inglesa pelo produto serviu de incentivo ao aumento da produção brasileira. Seguindo o modelo da grande lavoura escravista, a produção se concentrou no Maranhão e em alguns estados do nordeste brasileiro. O auge dessa produção ocorreu no último quartel do século XVIII, quando os efeitos da Revolução Francesa, prejudicaram o escoamento da produção antilhana para a Inglaterra. No entanto, o caráter rudimentar dessa produção, totalmente baseada na colheita manual, feita pelos escravos, limitou a competitividade da colônia brasileira, quando os norte-americanos passaram a utilizar a máquina descaroçadora, inventada por Eli Whitney, em 1793, passando a dominar o mercado fornecedor de algodão para os ingleses.