Universidade de Aveiro Departamento deEletr´onica, Telecomunica¸c˜oes e Inform´atica 2019
Joel
Sanches B´
arrios
T´
ecnicas de Probabilistic Constellation Shaping
para sistemas 400G
Universidade de Aveiro Departamento deEletr´onica, Telecomunica¸c˜oes e Inform´atica 2019
Joel
Sanches B´
arrios
T´
ecnicas de Probabilistic Constellation Shaping
para sistemas 400G
Disserta¸c˜ao apresentada `a Universidade de Aveiro para cumprimento dos re-quisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do grau de Mestre em Engenharia Eletr´onica e Telecomunica¸c˜oes, realizada sob a orienta¸c˜ao cient´ıfica do Professor Dou-tor M´ario Jos´e Neves de Lima, Professor do Departamento de Eletr´onica, Telecomunica¸c˜oes e Inform´atica da Universidade de Aveiro e do Engenheiro Francisco Manuel Ruivo Rodrigues, CEO na empresa PICadvanced, inte-grada na Incubadora de Empresas da Universidade de Aveiro.
o j´uri / the jury
presidente / president Professor Doutor Telmo Reis Cunha
Professor Auxiliar do Departamento de Eletr´onica, Telecomunica¸c˜oes e Inform´atica da Universidade de Aveiro
vogais / examiners committee Doutor Henrique Manuel de Castro Faria Salgado
Professor Associado do Departamento de Engenharia Eletrot´ecnica e de Computa-dores da Universidade do Porto (arguente principal)
Professor Doutor M´ario Jos´e Neves de Lima
Professor Auxiliar do Departamento de Eletr´onica, Telecomunica¸c˜oes e Inform´atica da Universidade de Aveiro (orientador)
agradecimentos / acknowledgements
´
E quase inacredit´avel que esta longa e incr´ıvel jornada est´a agora prestes a terminar. Foi um percurso com muitos altos e baixos, um curso que me obrigou a sair da zona de conforto e a superar-me dia ap´os dia.
Quero agradecer, de uma forma especial, `a minha m˜ae e `a minha irm˜a, que me apoiaram incondicionalmente e que me deram a for¸ca necess´aria para que eu conseguisse chegar aqui. Foi gra¸cas a vocˆes que eu n˜ao desisti e tive a coragem para seguir em frente.
Agrade¸co ao Ricardo Ferreira, da PICAdvanced, por toda as vezes que me ajudou sem nunca hesitar. Digo, com toda a certeza, que, sem a sua dis-ponibilidade incondicional, n˜ao conseguiria terminar esta disserta¸c˜ao com sucesso. Agrade¸co igualmente ao meu orientador, M´ario Lima, e ao meu coorientador, Francisco Rodrigues, por todo o acompanhamento da minha disserta¸c˜ao e por me colocarem sempre uma press˜ao positiva para cumprir os prazos.
Obrigado a todos os amigos e familiares que estiveram l´a nos momentos em que mais precisei. Um agradecimento particular ao Daniel Almeida, por me ter ajudado a superar algumas das fases menos boas pelas quais passei ao longo da realiza¸c˜ao desta disserta¸c˜ao.
Este trabalho ´e financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regio-nal (FEDER), atrav´es do Programa Operacional Regional do Centro (CEN-TRO 2020) do Portugal 2020 [Projeto HeatIT com o no 017942 (CENTRO-01-0247-FEDER-017942)].
Palavras chave: Probabilistic Constellation Shaping, Forward Error Correction, Quadrature Amplitude Modulation
Resumo O mundo est´a a evoluir nas mais diversas ´areas. Contudo, a evolu¸c˜ao mais assinal´avel verifica-se ao n´ıvel do desenvolvimento tecnol´ogico, como uma resposta `as necessidades da popula¸c˜ao. O avan¸co no mundo tecnol´ogico implica um aumento no tr´afego de dados e no ritmo de transmiss˜ao a que os mesmos s˜ao transportados.
Para fazer face `as exigˆencias no que toca ao desempenho dos sistemas digi-tais, ´e esencial que existam t´ecnicas que permitam a otimiza¸c˜ao do processo de transferˆencia de informa¸c˜ao. Embora a utilidade da modula¸c˜ao Quadra-ture Amplitude Modulation (QAM) seja um dado adquirido, nomeadamente em aplica¸c˜oes de entrega de transmiss˜ao dom´esticas por cabo ou em comu-nica¸c˜oes por ondas de r´adio, nada impede que a comunica¸c˜ao QAM seja melhorada. ´E neste contexto que surge o Probabilistic Constellation Sha-ping (PCS), que promete diminuir o n´umero de erros ocorridos durante a transmiss˜ao, assim como reduzir a energia necess´aria para que a modula¸c˜ao QAM seja efetuada. Tratando-se de um esquema de codifica¸c˜ao, a aplica¸c˜ao do Forward Error Correction (FEC), a um sistema de transmiss˜ao digital, permite a obten¸c˜ao de um n´umero de erros extremamente reduzido. Tanto o PCS como o FEC providenciam ganhos, em termos de rela¸c˜ao sinal-ru´ıdo, ao sistema no qual s˜ao aplicados.
Nesta disserta¸c˜ao, pretende-se explorar o conceito de PCS, apresentando-se algumas t´ecnicas para a sua implementa¸c˜ao em sistemas a operar a uma taxa de 400Gb/s. Ilustrar-se-˜ao as constela¸c˜oes QAM modeladas probabi-listicamente e comparar-se-˜ao os valores de Bit Error Ratio (BER), energia m´edia e entropia dos sistemas com e sem o bloco de PCS presente. O conceito do FEC tamb´em ´e explicado, com destaque para os c´odigos de blocos, que s˜ao os escolhidos para a implementa¸c˜ao do mesmo num con-texto pr´atico. Nos resultados das simula¸c˜oes dos sistemas com codifica¸c˜ao, o principal objetivo ´e a determina¸c˜ao do ganho de codifica¸c˜ao.
Keywords: Probabilistic Constellation Shaping, Forward Error Correction, Quadrature Amplitude Modulation
Abstract The world is evolving in many different areas. However, the most remar-kable improvement occurs in the technological development, as a response to the needs of the population. The advancement in technological world implies increases in data traffic and at the transmission rate at which they are carried over.
To meet the performance demands of digital systems, techniques allowing the optimization of the information transfer process are essential. Although the usefulness of Quadrature Amplitude Modulation (QAM) is taken as gua-ranteed, namely in cable home transmission delivery applications or radio wave communications, nothing prevents QAM communication from being improved. It is in this sense that Probabilistic Constellation Shaping (PCS) arises, which promises to decrease the number of errors occured during the transmission, as well as reducing the required energy for QAM modulation being performed. As a coding scheme, Forward Error Correction (FEC) is applied to a digital transmission system to obtain extremely small error numbers. Both PCS and FEC provide gains, in terms of signal-to-noise ratio, to the system in which they are applied.
In this dissertation, it is intended to explore the concept of PCS, introducing some techniques for its implementation on systems operating at a rate of 400 Gb/s. Probabilistically modeled QAM constellations will be ilustrated and the values of Bit Error Ratio (BER), average energy and entropy of the systems will be compared, with or without the PCS block. The concept of FEC is also explained, highlighting the block codes, which are the codes chosen for its implementation in a practical context. In the simulation re-sults of systems with coding, the main objective is to determine the coding gain.
Conte´
udo
Conte´udo i
Lista de Figuras iii
Lista de Tabelas v
Lista de Siglas e Acr´onimos vii
1 Introdu¸c˜ao 1
1.1 Contexto e Motiva¸c˜ao . . . 1
1.2 Objetivos . . . 1
1.3 Estrutura . . . 2
2 Fundamentos b´asicos de um sistema de transmiss˜ao digital 5 2.1 Sistema de transmiss˜ao digital . . . 5
2.2 Modula¸c˜ao . . . 7
2.2.1 Modula¸c˜ao digital . . . 7
2.2.1.1 Amplitude Shift Keying (ASK) . . . 8
2.2.1.2 Phase Shift Keying (PSK) . . . 9
2.2.1.3 Frequency Shift Keying (FSK) . . . 10
2.2.2 Quadrature Amplitude Modulation (QAM) . . . 10
2.2.2.1 Convers˜ao entre bits e s´ımbolos . . . 14
2.3 Ru´ıdo . . . 16
2.4 M´etricas de desempenho de um sistema de transmiss˜ao digital . . . 19
2.4.1 Entropia . . . 19
2.4.2 Entropia relativa . . . 19
2.4.3 Informa¸c˜ao m´utua . . . 20
2.4.4 Energia m´edia de um sinal . . . 20
2.4.5 Bit Error Ratio (BER) . . . 20
2.5 Limita¸c˜oes de um canal de transmiss˜ao . . . 21
2.5.1 Largura de Banda . . . 21
2.5.2 Bit rate . . . 22
2.5.3 Rela¸c˜ao entre bit rate e largura de banda: modelos de Nyquist e Shannon 22 2.6 Conclus˜oes . . . 23
3 Probabilistic Constellation Shaping e Forward Error Correction 25 3.1 Introdu¸c˜ao . . . 25
3.2 Probabilistic Constellation Shaping . . . 26
3.2.2 Conceito . . . 28
3.2.3 Ganho de shaping . . . 29
3.2.4 Distribui¸c˜ao de Maxwell-Boltzmann . . . 29
3.2.5 Diferentes algoritmos de Probabilistic Constellation Shaping . . . 30
3.2.5.1 Constant Composition Distribution Matching (CCDM) . . . 30
3.2.5.2 Hierarchical Distribution Matching (HiDM) . . . 34
3.2.5.3 DM constitu´ıdo por uma ´unica LUT . . . 37
3.3 Forward Error Correction (FEC) . . . 40
3.3.1 Evolu¸c˜ao do FEC . . . 40
3.3.2 C´odigos de blocos . . . 41
3.3.3 Matriz geradora e matriz de verifica¸c˜ao de paridade . . . 42
3.3.4 C´odigos Low-Density Parity-Check (LDPC) . . . 43
3.3.5 Descodifica¸c˜ao FEC . . . 44
3.3.5.1 Hard decision e soft decision . . . 45
3.3.5.2 C´alculo de LLRs e descodifica¸c˜ao . . . 45
3.3.5.3 Descodifica¸c˜ao por m´axima verosimilhan¸ca . . . 46
3.3.5.4 S´ındroma e descodifica¸c˜ao de erros . . . 46
3.3.5.5 Distˆancia m´ınima . . . 47
3.3.5.6 Capacidade de dete¸c˜ao e corre¸c˜ao de um c´odigo de blocos linear 47 3.3.6 C´odigos convolucionais . . . 48
3.3.7 Ganho de codifica¸c˜ao . . . 50
3.4 Bit rates e baud rates das diferentes arquiteturas . . . 51
3.5 Conclus˜oes . . . 51
4 Simula¸c˜ao e An´alise de Resultados 53 4.1 Implementa¸c˜ao do PCS . . . 53
4.2 Implementa¸c˜ao do FEC e do CCDM . . . 54
4.3 Metodologia de simula¸c˜ao . . . 55
4.4 Resultados e an´alise de resultados . . . 55
4.4.1 Compara¸c˜ao entre 16QAM e 64QAM . . . 56
4.4.2 Hierarchical Distribution Matching . . . 58
4.4.3 Distribution Matchers de LUT ´unica . . . 61
4.4.4 Constant Composition Distribution Matching . . . 63
4.4.5 Forward Error Correction . . . 65
4.4.6 Compara¸c˜ao entre os diferentes algoritmos de PCS . . . 68
4.5 Conclus˜oes . . . 70
5 Conclus˜oes e Trabalho Futuro 71 5.1 Conclus˜oes . . . 71
5.2 Trabalho Futuro . . . 72
Lista de Figuras
2.1 Esquem´atico de um sistema de transmiss˜ao, com bloco de Probabilistic
Cons-tellation Shaping inclu´ıdo [3] . . . 5
2.2 Sinal da modula¸c˜ao OOK [9] . . . 8
2.3 Sinal da modula¸c˜ao DPSK [9] . . . 9
2.4 Modula¸c˜ao BFSK [7] . . . 10
2.5 Sistema de modula¸c˜ao e desmodula¸c˜ao de sinais QAM [13] . . . 11
2.6 Constela¸c˜ao 4QAM (QPSK) [15] . . . 12
2.7 Constela¸c˜ao 16QAM [15] . . . 13
2.8 Constela¸c˜ao 64QAM [15] . . . 13
2.9 Sinal de ru´ıdo branco gaussiano aditivo para uma SNR de 15dB . . . 17
2.10 Potˆencia de um sinal de ru´ıdo branco [20] . . . 18
2.11 Gr´afico da distribui¸c˜ao normal, com m´edia µ e variˆancia σ2 [22] . . . 18
2.12 Largura de banda de um sistema de comunica¸c˜oes[27] . . . 21
3.1 Geometric shaping [33] . . . 26
3.2 Probabilistic shaping [33] . . . 27
3.3 Ilustra¸c˜ao gr´afica de quatro esquemas de PCS aplicados a constela¸c˜oes 64QAM, com diferentes valores de entropia: (a) H(P1)= 5.73 bits, (b) H(P2)= 5.23 bits, (c) H(P3)= 4.60 bits, (d) H(P4)= 4.13 bits [3] . . . 28
3.4 Exemplo de um c´odigo aritm´etico [42] . . . 32
3.5 Exemplo de um codificador CCDM [37] . . . 33
3.6 Esquema da arquitetura HiDM, que converte conjuntos de 16 bits uniforme-mente distribu´ıdos em sequˆencias de 24 bits com uma dada distribui¸c˜ao n˜ao uniforme [31] . . . 35
3.7 Esquem´atico do DM constitu´ıdo por uma ´unica LUT, sem FEC aplicado . . . 38
3.8 Esquem´atico do DM constitu´ıdo por uma ´unica LUT, com FEC aplicado . . . 39
3.9 Representa¸c˜oes alternativas de um c´odigo LDPC (3,12), que adiciona nove bits de paridade por cada trˆes bits de dados [50] . . . 44
3.10 Esquem´atico de um codificador convolucional [58] . . . 48
3.11 Esquem´atico de um codificador convolucional (2,1,3) [48] . . . 49
3.12 Ilustra¸c˜ao do ganho de codifica¸c˜ao [59] . . . 50
4.1 Esquem´atico para o dimensionamento do CCDM . . . 54
4.2 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para um sistema 16QAM (preto) e 64QAM (azul) 56 4.3 Ilustra¸c˜ao das constela¸c˜oes 16QAM e 64QAM, para uma SNR de 22dB . . . . 57
4.4 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para um sistema 64QAM, com PCS (cor de vinho) e sem PCS (azul) . . . 58
4.6 Histogramas das distribui¸c˜oes dos 45000 s´ımbolos 64QAM, para uma SNR de 22dB . . . 60 4.7 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para um sistema 64QAM, com PCS
implemen-tado por uma LUT de 65536x8 s´ımbolos (laranja) e por uma LUT de 128x3 s´ımbolos (verde) . . . 61 4.8 Ilustra¸c˜ao das constela¸c˜oes 64QAM, com PCS implementado por um DM
cons-titu´ıdo por uma LUT, para uma SNR de 17dB . . . 62 4.9 Histogramas das distribui¸c˜oes dos 45000 s´ımbolos 64QAM, para uma SNR de
17 dB . . . 62 4.10 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para um sistema 64QAM com CCDM aplicado
(cor de rosa) e para um sistema 16QAM (preto) . . . 64 4.11 Constela¸c˜ao 64QAM produzida pelo CCDM . . . 64 4.12 Distribui¸c˜ao probabil´ıstica dos s´ımbolos gerados pelo CCDM . . . 65 4.13 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para modula¸c˜ao 16QAM, com FEC aplicado
(vermelho) e sem FEC (preto) . . . 66 4.14 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para modula¸c˜ao 64QAM, com FEC aplicado
(vermelho) e sem FEC (azul) . . . 66 4.15 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para um sistema 64QAM com PCS, com FEC
aplicado (vermelho) e sem FEC (cor de vinho) . . . 67 4.16 Rela¸c˜ao entre a BER e a SNR para os sistemas com e sem PCS aplicado . . . 69
Lista de Tabelas
2.1 LUT da modula¸c˜ao 16QAM . . . 14
2.2 LUTs da modula¸c˜ao 64QAM . . . 15
3.1 LUT do DM3 . . . 36
3.2 LUT do DM2 . . . 36
3.3 LUT do DM1 . . . 36
3.4 LUT do DM1 em termos de s´ımbolos QAM . . . 37
3.5 Bit rates dos diferentes sistemas estudados . . . 51
4.1 Valores de SNR para uma BER de 10−4 . . . 68
4.2 Ganhos de codifica¸c˜ao e de shaping para uma BER de 10−4 . . . 68
Lista de Siglas e Acr´
onimos
ASK Amplitude Shift Keying
AWGN Additive White Gaussian Noise BCH Bose, Chaudhuri and Hocquenghen BER Bit Error Ratio
BFSK Binary Frequency Shift Keying BPSK Binary Phase Shift Keying
CCDM Constant Composition Distribution Matching DM Distribution Matching
DPSK Differential Phase Shift Keying DSP Digital Signal Processor
FEC Forward Error Correction FSK Frequency Shift Keying
GCS Geometric Constellation Shaping HiDM Hierarchical Distribution Matching LDPC Low-density parity-check
LLR Log-likelihood ratio LUT Look-up table NRZ Non-return-to-zero OOK On-off Keying
PAS Probabilistic Amplitude Shaping PCS Probabilistic Constellation Shaping PSK Phase Shift Keying
QPSK Quadrature Phase Shift Keying QAM Quadrature Amplitude Modulation
RS Reed-Solomon RZ Return-to-zero
CAP´ITULO
1
Introdu¸
c˜
ao
1.1
Contexto e Motiva¸
c˜
ao
De forma a acomodar a crescente evolu¸c˜ao no mundo tecnol´ogico, exige-se que o tr´afego de dados, nas redes de transporte de informa¸c˜ao, seja cada vez mais elevado, pelo que ´e necess´ario intervir na velocidade a que essa informa¸c˜ao ´e transmitida, sem esquecer alguns dos crit´erios que garantem que essa transmiss˜ao ´e efetuada com um elevado grau de confiabilidade. Uma premissa essencial ´e a de ser poss´ıvel reduzir o custo associado `a transmiss˜ao de informa¸c˜ao, aumentando simultaneamente a bit rate e a eficiˆencia espetral. Assim, a tendˆencia passa por desenvolver tecnologias que assegurem um ritmo de transmiss˜ao cada vez mais elevado, sendo a informa¸c˜ao transmitida atrav´es de formatos de modula¸c˜ao sucessivamente mais complexos [1].
Para o desenvolvimento de tecnologias 400G, podem ser aproveitados os trabalhos j´a efetuados no dom´ınio das tecnologias 100G. No entanto, h´a certamente algumas melhorias necess´arias a levar a cabo nesta transi¸c˜ao para o mundo dos 400G, entre as quais se podem referir: o uso de algoritmos de dete¸c˜ao e corre¸c˜ao de erros mais sofisticados; o desenvolvimento de formatos de modula¸c˜ao mais avan¸cados; a constru¸c˜ao de tecnologias mais complexas e um aumento na largura de banda utilizada. Apesar de ser necess´ario aumentar a complexidade para se chegar a 400 Gbit/s, a verdade ´e que, a este ritmo de transmiss˜ao, conseguem-se efetuar comunica¸c˜oes de elevada qualidade a longas distˆancias. Dadas as potencialidades do 400G, ´e importante otimizar o desempenho dos sistemas a operar a esta taxa de transmiss˜ao.
´
E neste ˆambito que a existˆencia de blocos, como o Forward Error Correction e o Probabilistic Constellation Shaping, se pode revestir de uma importˆancia assinal´avel [2].
1.2
Objetivos
A principal finalidade desta disserta¸c˜ao ´e explorar as potencialidades das t´ecnicas de Probabilistic Constellation Shaping para transmiss˜ao digital de informa¸c˜ao a uma taxa de 400 Gb/s. Tamb´em ser˜ao estudadas as contribui¸c˜oes que o Forward Error Correction pode dar ao sistema ao qual ´e aplicado. Para tal, ao longo deste documento, tentar-se-˜ao atingir os seguintes objetivos:
• Apresenta¸c˜ao do PCS, abordando-se os princ´ıpios de opera¸c˜ao dos principais algoritmos que permitem a sua implementa¸c˜ao, que s˜ao o caso do HiDM, do CCDM e do DM constru´ıdo com uma ´unica look-up table.
• Simula¸c˜ao de cada um dos algoritmos PCS, no programa MATLAB, com a finalidade de retirar gr´aficos da evolu¸c˜ao da BER em fun¸c˜ao da SNR, assim como calcular os valores de energia m´edia transmitida e de entropia das constela¸c˜oes QAM produzidas por cada um deles.
• An´alise cr´ıtica dos resultados obtidos, estabelecendo-se uma compara¸c˜ao entre o desem-penhos das diferentes propostas de PCS e entre as mesmas e os formatos de modula¸c˜ao uniformes (16QAM e 64QAM).
• Teste do desempenho dos sistemas com o bloco FEC inclu´ıdo, procurando-se medir qual o ganho que esta t´ecnica proporciona.
1.3
Estrutura
A estrutura da disserta¸c˜ao engloba os seguintes cap´ıtulos:
• Cap´ıtulo 1 - Introdu¸c˜ao: Neste cap´ıtulo introdut´orio, ´e explicado o contexto e a mo-tiva¸c˜ao para a elabora¸c˜ao desta disserta¸c˜ao, sendo tamb´em apresentados a sua estrutura e os objetivos a alcan¸car com a elabora¸c˜ao da mesma.
• Cap´ıtulo 2 - Fundamentos b´asicos de um sistema de transmiss˜ao digital: Este cap´ıtulo come¸ca por expor a estrutura do sistema de transmiss˜ao estudado ao longo desta disserta¸c˜ao, introduzindo, sucintamente, o papel de cada um dos seus blocos constituintes. De seguida, s˜ao explicados, de uma forma mais aprofundada, os princ´ıpios te´oricos subjacentes aos conceitos de modula¸c˜ao digital, com especial foco no QAM, e de ru´ıdo. Para conclus˜ao deste cap´ıtulo, s˜ao referidas m´etricas para avaliar o desempenho de um sistema e tamb´em s˜ao apresentados crit´erios, que d˜ao corpo `a certeza de que todo e qualquer sistema real tem limita¸c˜oes.
• Cap´ıtulo 3 - Probabilistic Constellation Shaping e Forward Error Correction: Este cap´ıtulo centra aten¸c˜oes no estudo daqueles que s˜ao os dois blocos mais falados ao longo desta disserta¸c˜ao: os blocos do PCS e do FEC. No que `a parte do PCS diz respeito, o conceito do mesmo ´e explicado e s˜ao apresentadas algumas das t´ecnicas, que permitem a sua implementa¸c˜ao, como s˜ao o caso do HiDM, do CCDM e do DM constitu´ıdo por uma s´o LUT. A parte do FEC come¸ca com uma explica¸c˜ao te´orica de alguns dos fundamentos te´oricos basilares desta t´ecnica, principalmente os que se referem aos c´odigos de blocos, que s˜ao utilizados nas simula¸c˜oes a efetuar. Os c´odigos convolucionais s˜ao abordados de um modo muito resumido. Finalmente, s˜ao calculadas as bit rates dos sistemas estudados ao longo desta disserta¸c˜ao.
• Cap´ıtulo 4 - Simula¸c˜ao e An´alise de Resultados: No in´ıcio do cap´ıtulo, s˜ao mencionados alguns pormenores importantes da implementa¸c˜ao pr´atica dos algoritmos de PCS, sobretudo do CCDM. De seguida, s˜ao apresentados e analisados os resultados
• Cap´ıtulo 5 - Conclus˜oes e Trabalho Futuro: Neste cap´ıtulo, pretende-se realizar uma reflex˜ao cr´ıtica sobre os resultados obtidos e especificar o que pode ser feito no futuro ao n´ıvel do estudo da t´ecnica de Probabilistic Constellation Shaping.
CAP´ITULO
2
Fundamentos b´
asicos de um sistema
de transmiss˜
ao digital
Este cap´ıtulo aborda os princ´ıpios te´oricos subjacentes ao funcionamento de um sistema de transmiss˜ao digital, sendo abordados os elementos que o constituem. Vai ser explicado, de uma forma relativamente aprofundada, o conceito de modula¸c˜ao digital e algumas das suas variantes. Discutir-se-´a a no¸c˜ao de ru´ıdo, em particular, a de ru´ıdo branco gaussiano, sendo apresentadas as principais caracter´ısticas do mesmo. Seguidamente, apresentam-se alguns dos crit´erios que permitem avaliar o desempenho de um sistema de transmiss˜ao digital. Finalmente, s˜ao introduzidos conceitos importantes para se perceber as limita¸c˜oes de um sistema no que `a quantidade m´axima de dados transmitida por unidade de tempo diz respeito.
2.1
Sistema de transmiss˜
ao digital
A figura 2.1 apresenta um esquem´atico com a constitui¸c˜ao do sistema de transmiss˜ao digital, que ser´a estudado ao longo desta disserta¸c˜ao.
Figura 2.1: Esquem´atico de um sistema de transmiss˜ao, com bloco de Probabilistic Constel-lation Shaping inclu´ıdo [3]
O sistema de transmiss˜ao digital recebe, `a sua entrada, uma sequˆencia bin´aria (designada na figura 2.1 como data), tendo como objetivo reproduzi-la o mais fidedignamente poss´ıvel na sua sa´ıda.
Relativamente `a data, h´a que dizer que a mesma ´e uma sequˆencia de bits independentes e uniformemente distribu´ıdos, em que os acontecimentos de se transmitir um bit a ’0’ e a ’1’ s˜ao equiprov´aveis.
Verifica-se que o sistema da figura apresenta os seguintes componentes [3]:
• PCS: este componente, que se assume como o de maior relevˆancia no contexto desta disserta¸c˜ao, ´e essencialmente constitu´ıdo por dois sub-blocos. Um deles ´e o distribution matcher (DM), que ´e o respons´avel pela gera¸c˜ao de uma sequˆencia de s´ımbolos ou bits n˜ao uniformemente distribu´ıdos a partir da sequˆencia de bits de entrada, cuja distribui¸c˜ao ´e uniforme. O segundo sub-bloco do PCS tem a fun¸c˜ao de identificar cada s´ımbolo, produzido `a sa´ıda do DM, por um conjunto finito de bits (conhecido por ”etiqueta bin´aria”).
• Codificador FEC: este ´e o segundo bloco de maior importˆancia para o estudo levado a cabo nesta disserta¸c˜ao. Este componente permite reduzir o n´umero de erros existente entre a sequˆencia enviada ao PCS e aquela que ´e gerada pelo bloco do PCS inverso. Isto s´o ´e poss´ıvel acrescentando bits redundantes `a sequˆencia de dados.
• Modulador QAM: este componente tem a fun¸c˜ao de fazer a correspondˆencia entre conjuntos de n bits e um dos 2ns´ımbolos existentes na constela¸c˜ao QAM. A modula¸c˜ao, como vai ser discutido de seguida, ´e um processo vital para que seja poss´ıvel enviar sinais atrav´es do canal de transmiss˜ao.
• Canal de transmiss˜ao: considera-se que o canal corrompe a constela¸c˜ao, resultante da modula¸c˜ao QAM, com ru´ıdo additive white gaussian noise (AWGN).
• Desmodulador QAM: este bloco recebe a sequˆencia de s´ımbolos, afetada por ru´ıdo AWGN, exigindo-se ao mesmo a resolu¸c˜ao de duas tarefas extremamente importantes: a decis˜ao, ou seja, diminuir o impacto do ru´ıdo, e a desmodula¸c˜ao propriamente dita, que consiste em proceder ao mapeamento dos s´ımbolos QAM na sequˆencia de bits correspondente.
• Descodificador FEC: este bloco nada mais faz do que retirar os bits de controlo adi-cionados pelo codificador FEC, tentando assim recuperar-se a sequˆencia de bits outrora gerada pelo bloco do PCS.
• PCS inverso: gera a sequˆencia de bits inicial a partir da sequˆencia de s´ımbolos ou bits com distribui¸c˜ao n˜ao uniforme.
´
E extremamente importante que a sequˆencia bin´aria de entrada seja uniformemente dis-tribu´ıda para assegurar o correto funcionamento do PCS. Como este bloco visa produzir uma sequˆencia de bits com uma distribui¸c˜ao de probabilidade n˜ao uniforme desejada `a priori, caso a sequˆencia de entrada do PCS j´a tivesse uma distribui¸c˜ao n˜ao uniforme, existiria aqui uma certa incongruˆencia e a a¸c˜ao do PCS estaria negativamente condicionada logo `a partida.
2.2
Modula¸
c˜
ao
Define-se modula¸c˜ao como o processo que promove a varia¸c˜ao de uma caracter´ıstica de uma onda peri´odica de frequˆencia elevada, a onda portadora, de acordo com um sinal de informa¸c˜ao de baixa frequˆencia, que se pretende transmitir. A modula¸c˜ao de um sinal de informa¸c˜ao tem como finalidade torn´a-lo mais adapt´avel `as condi¸c˜oes impostas pelo canal de transmiss˜ao, fazendo com que a comunica¸c˜ao seja mais eficiente do que seria caso o mesmo fosse enviado diretamente atrav´es do canal [4].
Existem, fundamentalmente, dois tipos de modula¸c˜ao: anal´ogica e digital. A diferen¸ca entre elas reside na forma de transmiss˜ao de informa¸c˜ao. Na modula¸c˜ao anal´ogica, o sinal de dados ´e anal´ogico, admitindo-se v´alido qualquer valor que caia dentro de um intervalo de valores previamente definido. A modula¸c˜ao digital ´e mais complexa, porque, sendo o sinal modulante do tipo digital, necessita-se de um conversor anal´ogico-digital antes da transmiss˜ao e de um conversor digital-anal´ogico para recuperar o sinal original. A maior complexidade na implementa¸c˜ao de um modulador digital ´e compensada pela maior imunidade deste tipo de modula¸c˜ao em rela¸c˜ao ao ru´ıdo do que a de um modulador anal´ogico. Deve-se isto ao facto de o recetor apenas ter de decidir entre dois s´ımbolos poss´ıveis (’0’ e ’1’), enquanto que o recetor na modula¸c˜ao anal´ogica tem uma gama bem mais alargada de s´ımbolos poss´ıveis, o que dificulta o ato de descodifica¸c˜ao de uma mensagem afetada por ru´ıdo [5].
Dentro das modula¸c˜oes anal´ogica e digital, existem v´arios subtipos de modula¸c˜ao, que diferem no atributo da onda portadora que se altera em fun¸c˜ao do sinal a transmitir, que pode ser a sua amplitude, a sua frequˆencia ou a sua fase. Dada a similitude existente entre as modula¸c˜oes anal´ogica e digital, detalhar-se-˜ao, em seguida, apenas os tipos de modula¸c˜ao digital, ficando-se com a a convic¸c˜ao de que os mesmos existem na modula¸c˜ao anal´ogica, mas diferindo no facto de o sinal modulante ser anal´ogico e n˜ao digital [5].
2.2.1 Modula¸c˜ao digital
Procedendo `a convers˜ao anal´ogico-digital de um sinal de informa¸c˜ao anal´ogico e promo-vendo a varia¸c˜ao de uma das caracter´ısticas de uma portadora sinusoidal, tem-se a chamada modula¸c˜ao digital. Consoante o parˆametro da portadora que se est´a a fazer variar, temos os seguintes tipos de modula¸c˜ao digital: Amplitude Shift Keying (ASK), caso se fa¸ca variar a sua amplitude; Frequency Shift Keying (FSK), que envolve a varia¸c˜ao da frequˆencia da portadora e Phase Shift Keying (PSK), que est´a associada a altera¸c˜oes na sua fase. A modula¸c˜ao digi-tal, comparativamente `a anal´ogica, tem as seguintes vantagens: maior imunidade aos efeitos nefastos do ru´ıdo, largura de banda dispon´ıvel superior e um maior valor de potˆencia m´axima admiss´ıvel [4].
Descrever-se-˜ao, de seguida, os formatos de modula¸c˜ao digital mais comuns para modular sinais digitais bin´arios.
2.2.1.1 Amplitude Shift Keying (ASK)
Na modula¸c˜ao ASK, a amplitude da onda portadora varia entre um conjunto discreto de valores poss´ıveis, dependendo estes ´unica e exclusivamente do bit (ou s´ımbolo) que se pretende transmitir. Consoante o n´umero de valores que a amplitude da portadora modulada (Am) pode assumir, existem algumas variantes da modula¸c˜ao ASK [10].
A variante da modula¸c˜ao ASK mais simples e de maior interesse ´e a modula¸c˜ao On-Off Keying (OOK), na qual existem somente dois valores poss´ıveis para a amplitude da portadora: ao se transmitir um bit ’0’, a amplitude ´e nula; transmitindo o bit ’1’, a portadora mant´em o seu valor de amplitude inalterado [10].
A express˜ao do sinal resultante da modula¸c˜ao ASK (s(t)) ´e apresentada na express˜ao 2.1, na qual: m(t) ´e um sinal modulante bin´ario unipolar (m(t) = {0, 1}) e A, ωc e θ s˜ao, respetivamente, a amplitude, a frequˆencia e a fase da portadora n˜ao modulada.
s(t) = A × m(t) cos (ωct + θ) (2.1)
Na figura 2.2, ´e apresentado um exemplo que ilustra o funcionamento deste tipo de mo-dula¸c˜ao.
Figura 2.2: Sinal da modula¸c˜ao OOK [9]
Analisando a express˜ao 2.1 e a observando a figura 2.2, verifica-se que o sinal modulante elimina ou preserva o sinal da portadora, consoante assuma, respetivamente, os valores 0 e 1. N˜ao ´e dif´ıcil verificar que a informa¸c˜ao ´e transmitida por altera¸c˜ao da amplitude da portadora, sendo que a sua fase e a sua frequˆencia mantˆem-se constantes [11].
Uma das vantagens da modula¸c˜ao ASK ´e a sua f´acil implementa¸c˜ao. Do lado das desvan-tagens, h´a que referir que esta modula¸c˜ao n˜ao lida bem com a presen¸ca de ru´ıdo, pelo que ´e mais comum ser utilizada juntamente com outros formatos de modula¸c˜ao ou ent˜ao na sua vers˜ao M-´aria (com M n´ıveis de amplitude) [4].
2.2.1.2 Phase Shift Keying (PSK)
Define-se modula¸c˜ao PSK como o processo que altera a fase da onda portadora de acordo com um sinal modulante. A forma mais simples da modula¸c˜ao PSK ´e conhecida como Binary Phase Shift Keying (BPSK). No BPSK, o sinal modulante bin´ario ´e bipolar e tem a fun¸c˜ao de controlar a fase da portadora, alternando este parˆametro entre dois valores poss´ıveis desfa-sados de 180o, correspondendo cada valor de fase a um s´ımbolo diferente. Se m(t) for o sinal em banda-base, o sinal produzido `a sa´ıda do modulador (s(t)) ´e dado pela express˜ao 2.2, na qual m(t) ´e o sinal bipolar em banda base, ωc ´e a frequˆencia da portadora e θ ´e a fase da portadora n˜ao modulada [6, 8].
s(t) = m(t) × cos (ωct + θ) 0 ≤ t ≤ T (2.2)
O sinal m(t), que assume somente os valores −1 e 1, interfere apenas na fase da portadora, mantendo a sua amplitude e a sua frequˆencia inalteradas [6, 8].
Uma outra variante da modula¸c˜ao PSK ´e o Differential Phase Shift Keying (DPSK). Neste formato de modula¸c˜ao, a fase da portadora depende n˜ao s´o do bit transmitido no instante atual como tamb´em do bit enviado no instante anterior [6].
Na figura 2.3, mostra-se como ´e gerado o sinal DPSK a partir de uma sequˆencia de bits de informa¸c˜ao.
Figura 2.3: Sinal da modula¸c˜ao DPSK [9]
Observando a figura 2.3, verifica-se o seguinte: quando se est´a a transmitir o bit ’0’, a fase da portadora n˜ao se altera, sendo igual `a fase apresentada no bit anterior; caso se pretenda enviar um bit ’1’, ocorre uma invers˜ao da fase da onda portadora [9].
A modula¸c˜ao BPSK ´e robusta e simples em termos de implementa¸c˜ao, mas acaba por revelar um uso ineficiente da largura de banda dispon´ıvel. Para al´em disso, ´e considerado um formato de modula¸c˜ao n˜ao linear [4].
2.2.1.3 Frequency Shift Keying (FSK)
O princ´ıpio do FSK que, quando aplicado a um sinal digital bin´ario recebe a designa¸c˜ao de Binary Frequency Shift Keying (BFSK), consiste no uso de duas frequˆencias diferentes para representar cada um dos dois s´ımbolos a transmitir [6].
Em termos matem´aticos, a cada s´ımbolo corresponde uma onda sinusoidal com uma frequˆencia espec´ıfica, cuja express˜ao ´e apresentada nas express˜oes 2.3a e 2.3b [6].
s1(t) = A × cos (2 × π × f1× t + θ) (2.3a) s2(t) = A × cos (2 × π × f2× t + θ) (2.3b) Pela an´alise das express˜oes anteriores, verifica-se que a amplitude (A) e a fase (θ) das sinusoides associadas a cada s´ımbolo (s1 e s2) s˜ao iguais, enquanto que a cada s´ımbolo ´e atribu´ıda a sua pr´opria frequˆencia (f1 ou f2).
A ilustra¸c˜ao do princ´ıpio da modula¸c˜ao FSK ´e apresentada na figura 2.4, na qual se representa o sinal modulante bin´ario e o sinal modulado, que ´e resultante da varia¸c˜ao da frequˆencia da portadora consoante o s´ımbolo que se pretenda transmitir.
(a) Sequˆencia de bits (sinal modulante)
(b) Sinal FSK
Figura 2.4: Modula¸c˜ao BFSK [7]
2.2.2 Quadrature Amplitude Modulation (QAM)
Na modula¸c˜ao QAM, tˆem-se duas portadoras sinusoidais em quadratura (com diferen¸ca de fase de 90o entre elas), que s˜ao moduladas em amplitude e fase de forma independente. O sinal resultante da modula¸c˜ao QAM (s(t)) ´e expresso matematicamente pela express˜ao 2.4, na qual: I e Q s˜ao, respetivamente, as amplitudes das portadoras em fase e em quadratura; fc´e a frequˆencia da portadora e T ´e a dura¸c˜ao de um s´ımbolo [12].
Figura 2.5: Sistema de modula¸c˜ao e desmodula¸c˜ao de sinais QAM [13]
Algumas conclus˜oes podem ser ditas em rela¸c˜ao `a figura 2.5 e aos processos de modula¸c˜ao e desmodula¸c˜ao QAM [13]:
• Os sinais m1(t) e m2(t) s˜ao sinais polares, que modulam as duas componentes em qua-dratura da portadora. Estes sinais s˜ao do tipo: m1(t) = aip(t) e m2(t) = bip(t). Assim, o sinal `a sa´ıda do modulador, φQAM(t), ´e dado pela express˜ao 2.5. ´E de salientar que o sinal p(t) ´e um impulso em banda base e que os pares de valores (ai, bi) variam con-soante o s´ımbolo QAM produzido e s˜ao os respons´aveis pela existˆencia dos M s´ımbolos da constela¸c˜ao QAM. Se m1(t) e m2(t) assumirem n valores poss´ıveis, ter-se-´a uma constela¸c˜ao com M = 2n s´ımbolos.
φQAM(t) = aip(t) cos(ωct) + bip(t) sin(ωct) , i = 1, 2, ..., n (2.5)
• A opera¸c˜ao do desmodulador envolve a recupera¸c˜ao dos sinais m1(t) e m2(t) a partir do sinal φQAM(t). O procedimento, que permite obter o sinal x1(t) e que pode ser facilmente replicado para obter x2(t), ´e explicado pelas rela¸c˜oes trigonom´etricas esta-belecidas pela express˜ao 2.6.
x1(t) = 2 cos (ωct)φQAM(t)
= 2[m1(t) cos (ωct) + m2(t) sin (ωct)] cos (ωct) = m1(t) + m1(t) cos (2ωct) + m2(t) sin (ωct)
(2.6)
• O filtro passa-baixo elimina as componentes m1(t) cos (2ωct) e m2(t) sin (ωct) do sinal x1(t), recuperando-se assim o sinal modulante m1(t). No ramo inferior do desmodulador, ocorre uma situa¸c˜ao semelhante `a do ramo superior, que culmina com a recupera¸c˜ao do sinal m2(t).
Mediante a modula¸c˜ao da amplitude e da fase das duas portadoras ortogonais, o sinal QAM apresenta diferentes estados poss´ıveis, em que cada estado representa uma amplitude e uma fase espec´ıficas. O conjunto de todas os estados poss´ıveis ´e representado numa grelha de pontos equidistantes nas dire¸c˜oes horizontal e vertical, correspondendo o eixo horizontal do gr´afico `a componente em fase (I) e o eixo vertical `a componente em quadratura (Q). Esta representa¸c˜ao designa-se por constela¸c˜ao e cont´em um n´umero de pontos igual a potˆencias de 2 (2, 4, 8, 16, e assim sucessivamente). O n´umero de pontos que a constela¸c˜ao apresenta ´e identificado na designa¸c˜ao do formato de modula¸c˜ao QAM: por exemplo, 64QAM refere-se ao formato QAM com 64 combina¸c˜oes poss´ıveis de amplitude e fase da portadora. A cada combina¸c˜ao ou estado ´e associado um conjunto de bits. Se a constela¸c˜ao for constitu´ıda por N s´ımbolos, a cada um destes ´e associado um conjunto de log2N bits. Pensando na modula¸c˜ao 64QAM, sabe-se que um s´ımbolo (cada ponto da constela¸c˜ao) ´e identificado pela sua pr´opria sequˆencia de 6 bits. Conclui-se ent˜ao que, quanto maior for o n´umero de pontos existentes na constela¸c˜ao QAM, maior ser´a o n´umero de bits transmitidos por s´ımbolo. Um aumento no n´umero de s´ımbolos implica que estes estejam mais pr´oximos uns dos outros e, consequente-mente, vai existir uma maior suscetibilidade para a ocorrˆencia de erros devidos `a influˆencia do ru´ıdo [14].
As figuras 2.6 a 2.8 mostram exemplos de constela¸c˜oes QAM com diferentes n´umeros de s´ımbolos. Na modula¸c˜ao QPSK Quadrature Phase Shift Keying, transmitem-se dois bits, definindo cada combina¸c˜ao poss´ıvel dos mesmos uma fase espec´ıfica da portadora. Assim, a fase da mesma pode assumir quatro valores diferentes. na figura 2.6, os bits b0 e b1 de-terminam, respetivamente, os sinais dos coeficientes das partes real e imagin´aria do s´ımbolo. Na constela¸c˜ao 16QAM, da figura 2.7, os pares (b0, b1) e (b2, b3) codificam, respetivamente, as componentes dos s´ımbolos nos eixos I e Q do plano complexo, sendo o sinal das mesmas determinado pelos bits b0 e b2. Na constela¸c˜ao 64QAM, ilustrada na figura 2.8, os bits b0 e b3 especificam, respetivamente, se os sinais dos coeficientes das partes real e imagin´aria dos s´ımbolos s˜ao positivos ou negativos. Os conjuntos (b0, b1, b2) e (b3, b4, b5) referem-se, respetivamente, `as componentes em fase e em quadratura [15].
Figura 2.7: Constela¸c˜ao 16QAM [15]
Para formatos de modula¸c˜ao QAM de maior ordem (com um maior n´umero de pontos na respetiva constela¸c˜ao), a gera¸c˜ao e dete¸c˜ao de s´ımbolos adquire maior complexidade e o ru´ıdo torna-se cada vez mais relevante e mais dif´ıcil de eliminar. Quando uma dada constela¸c˜ao QAM ´e afetada por ru´ıdo, verifica-se um desvio na posi¸c˜ao dos s´ımbolos relativamente `aquelas que seriam as sua posi¸c˜oes de referˆencia.
2.2.2.1 Convers˜ao entre bits e s´ımbolos
A informa¸c˜ao da codifica¸c˜ao bin´aria dos s´ımbolos QAM, exposta pelas figuras 2.7 e 2.8, pode ser armazenada em look-up tables, que permitam o estabelecimento de uma corres-pondˆencia direta e un´ıvoca entre sequˆencias de n bits e um dos 2n s´ımbolos da constela¸c˜ao.
Antes de apresentar as referidas tabelas, h´a que explicar como ´e que as mesmas foram constru´ıdas. Tanto na modula¸c˜ao 16QAM como no 64QAM, a representa¸c˜ao bin´aria dos s´ımbolos segue a l´ogica da codifica¸c˜ao de Gray. Um c´odigo bin´ario de Gray, de ordem m, ´e um conjunto de 2m palavras poss´ıveis, tal que duas quaisquer strings cont´ıguas do c´odigo difiram, exatamente, num ´unico bit. Ao se impˆor que as primeira e ´ultima palavras do c´odigo tenham um s´o bit diferente entre si, diz-que o c´odigo de Gray ´e c´ıclico. Este tipo de codi-fica¸c˜ao, inventado por Frank Gray, surgiu com o intuito de tornar as transi¸c˜oes entre s´ımbolos consecutivos mais suaves e r´apidas, sendo amplamente usado em ´areas como o controlo de circuitos combinat´orios e sequenciais. Neste campo, a necessidade de se especificar que apenas se altera um d´ıgito, numa transi¸c˜ao entre valores consecutivos, ´e um dado importante para que estes sistemas apresentem um melhor funcionamento [16, 17].
Na tabela 2.1, ´e apresentada a codifica¸c˜ao dos s´ımbolos 16QAM, em que os bits b0 e b2, por determinarem, respetivamente, os sinais das partes real e imagin´aria do complexo do s´ımbolo, s˜ao os bits de quadrante.
Tabela 2.1: LUT da modula¸c˜ao 16QAM b0b1b2b3 S´ımbolo 1 1 1 1 1+1i 1 0 1 1 3+1i 1 0 1 0 3+3i 1 1 1 0 1+3i 0 1 1 0 -1+3i 0 0 1 0 -3+3i 0 0 1 1 -3+1i 0 1 1 1 -1+1i 0 1 0 1 -1-1i 0 0 0 1 -3-1i 0 0 0 0 -3-3i 0 1 0 0 -1-3i 1 1 0 0 1-3i 1 0 0 0 3-3i 1 0 0 1 3-1i 1 1 0 1 1-1i
Pela an´alise da tabela, ´e intuitivo perceber-se que, se b0= 1, o coeficiente da parte real ´e positivo (ser´a negativo se o referido bit for 0) e que, tendo-se b2 = 1 ou b2 = 0, o coeficiente da parte imagin´aria ´e, respetivamente, positivo ou negativo.
As LUTs para a modula¸c˜ao 64QAM s˜ao apresentadas pela tabela 2.2.
Tabela 2.2: LUTs da modula¸c˜ao 64QAM (a) Primeiro quadrante
b0b1b2b3b4b5 S´ımbolo 1 1 0 1 1 0 1+1i 1 1 1 1 1 0 3+1i 1 0 1 1 1 0 5+1i 1 0 0 1 1 0 7+1i 1 0 0 1 1 1 7+3i 1 0 1 1 1 1 5+3i 1 1 1 1 1 1 3+3i 1 1 0 1 1 1 1+3i 1 1 0 1 0 1 1+5i 1 1 1 1 0 1 3+5i 1 0 1 1 0 1 5+5i 1 0 0 1 0 1 7+5i 1 0 0 1 0 0 7+7i 1 0 1 1 0 0 5+7i 1 1 1 1 0 0 3+7i 1 1 0 1 0 0 1+7i (b) Segundo quadrante b0b1b2b3b4b5 S´ımbolo 0 1 0 1 0 0 -1+7i 0 1 1 1 0 0 -3+7i 0 0 1 1 0 0 -5+7i 0 0 0 1 0 0 -7+7i 0 0 0 1 0 1 -7+5i 0 0 1 1 0 1 -5+5i 0 1 1 1 0 1 -3+5i 0 1 0 1 0 1 -1+5i 0 1 0 1 1 1 -1+3i 0 1 1 1 1 1 -3+3i 0 0 1 1 1 1 -5+3i 0 0 0 1 1 1 -7+3i 0 0 0 1 1 0 -7+1i 0 0 1 1 1 0 -5+1i 0 1 1 1 1 0 -3+1i 0 1 0 1 1 0 -1+1i (c) Terceiro quadrante b0b1b2b3b4b5 S´ımbolo 0 1 0 0 1 0 -1-1i 0 1 1 0 1 0 -3-1i 0 0 1 0 1 0 -5-1i 0 0 0 0 1 0 -7-1i 0 0 0 0 1 1 -7-3i 0 0 1 0 1 1 -5-3i 0 1 1 0 1 1 -3-3i 0 1 0 0 1 1 -1-3i 0 1 0 0 0 1 -1-5i 0 1 1 0 0 1 -3-5i 0 0 1 0 0 1 -5-5i 0 0 0 0 0 1 -7-5i 0 0 0 0 0 0 -7-7i 0 0 1 0 0 0 -3-7i 0 1 1 0 0 0 -5-7i 0 1 0 0 0 0 -1-7i (d) Quarto quadrante b0b1b2b3b4b5 S´ımbolo 1 1 0 0 0 0 1-7i 1 1 1 0 0 0 3-7i 1 0 1 0 0 0 5-7i 1 0 0 0 0 0 7-7i 1 0 0 0 0 1 7-5i 1 0 1 0 0 1 5-5i 1 1 1 0 0 1 3-5i 1 1 0 0 0 1 1-5i 1 1 0 0 1 1 1-3i 1 1 1 0 1 1 3-3i 1 0 1 0 1 1 5-3i 1 0 0 0 1 1 7-3i 1 0 0 0 1 0 7-1i 1 0 1 0 1 0 5-1i 1 1 1 0 1 0 3-1i 1 1 0 0 1 0 1-1i
Relativamente `a modula¸c˜ao 64QAM, os bits de quadrante s˜ao b0 e b3, definindo estes, respetivamente, os sinais dos coeficientes das partes real e imagin´aria dos s´ımbolos: se b0 for igual a 1 ou 0, o s´ımbolo tem, respetivamente, parte real positiva ou negativa; se b3 = 1, a parte imagin´aria ´e positiva, sendo esta negativa no caso de o referido bit ser igual a 0.
Como se pode constatar pela an´alise do conte´udo das tabelas, as sequˆencias bin´arias, que codificam dois s´ımbolos cont´ıguos de cada uma das constela¸c˜oes, diferem em apenas um bit. O uso de codifica¸c˜ao de Gray permite a obten¸c˜ao de valores de BER mais reduzidos do que no caso de se usar outra forma de codifica¸c˜ao, sendo este facto mais not´orio no caso em que o recetor confunde um s´ımbolo com o seu vizinho da constela¸c˜ao. Neste caso, ao usar codifica¸c˜ao de Gray, sabe-se que apenas se est´a a cometer erro num ´unico bit, algo que n˜ao se garantiria com o uso de outras formas de codifica¸c˜ao. Espera-se que, para valores elevados de SNR, o c´odigo de Gray permita reduzir significativamente o n´umero de erros, dado que a decis˜ao errada de se ter transmitido um s´ımbolo vizinho do verdadeiro ´e a mais prov´avel de ocorrer.
2.3
Ru´ıdo
Como j´a foi poss´ıvel perceber, o objetivo de qualquer comunica¸c˜ao ´e sempre o de transmitir informa¸c˜ao desde um transmissor at´e um recetor. Para que a comunica¸c˜ao seja efetivada, a mensagem tem de ser transportada por um qualquer canal de transmiss˜ao, que vai corromper a mesma com ru´ıdo. Apesar de a existˆencia de ru´ıdo ser algo indesej´avel, a verdade ´e que a presen¸ca do mesmo ´e inevit´avel. Para al´em disso, o estudo do ru´ıdo ´e de vital importˆancia para se compreenderem quais as limita¸c˜oes no desempenho de sistemas e para saber o que pode ser feito para que estas limita¸c˜oes possam ser ultrapassadas [18].
Em termos gen´ericos, o ru´ıdo pode ser entendido como um qualquer sinal indesejado, de natureza determin´ıstica ou aleat´oria, que interfira com a transmiss˜ao, o processamento ou a aquisi¸c˜ao de um sinal de informa¸c˜ao. O ru´ıdo pode reduzir a qualidade de uma comunica¸c˜ao de diversas formas. Pensando num sistema de telefonia celular digital, este fator indesej´avel pode surgir como: ru´ıdo ac´ustico de fundo; interferˆencias entre as ondas eletromagn´eticas ou ru´ıdo t´ermico. Sendo o ru´ıdo um fen´omeno de natureza predominantemente aleat´oria, este deve ser caracterizado em termos estat´ısticos, pelo facto de n˜ao ser poss´ıvel prever o seu comportamento ao longo do tempo [19].
No contexto desta disserta¸c˜ao, v˜ao ser estudados os efeitos do ru´ıdo branco gaussiano, cuja sigla inglesa popularmente difundida ´e AWGN (additive white gaussian noise).
Escrutinando esta designa¸c˜ao, importa perceber o conceito de ru´ıdo branco. Antes disso, ´e importante referir que o ru´ıdo pode ser descrito por um processo estoc´astico, que nada mais ´e que um conjunto de vari´aveis aleat´orias indexadas pelo parˆametro tempo. O ru´ıdo branco ´e definido por um processo estoc´astico descorrelacionado, com m´edia nula e variˆancia constante [20].
Estas propriedades s˜ao apresentadas nas express˜oes 2.7 a 2.9, nas quais se representa o ru´ıdo pela vari´avel aleat´oria t. Na express˜ao 2.8, como a m´edia do ru´ıdo branco µ ´e igual a zero, a partir da defini¸c˜ao de variˆancia, prova-se que a potˆencia do sinal de ru´ıdo (igual a E[2t]) ´e igual `a sua variˆancia, assumindo-se que esta assume um valor finito. Na express˜ao
Na express˜ao 2.9, Cov (t, t+s) e ρ(t, t+s) designam, respetivamente, a covariˆancia e o coeficiente de autocorrela¸c˜ao entre duas vari´aveis aleat´orias de ru´ıdo distanciadas de s instantes de tempo, considerando que s ´e um valor inteiro positivo. A express˜ao 2.9 usa a propriedade de que a covariˆancia e o coeficiente de correla¸c˜ao entre duas quaisquer vari´aveis aleat´orias s˜ao diretamente proporcionais [20].
µ = E [t] = 0 (2.7) V ar [t] = E(t− µ)2 = E 2t = σ2 < ∞ (2.8) Cov (t, t+s) = ρ(t, t+s) V ar[t] = 0 (2.9)
A ausˆencia de autocorrela¸c˜ao num qualquer par de vari´aveis aleat´orias, definidas em ins-tantes de tempo diferentes do processo estoc´astico do ru´ıdo branco, tem como consequˆencia que estas n˜ao tenham nenhuma correla¸c˜ao entre si. Isto significa que o valor assumido pelo si-nal de ru´ıdo num dado instante n˜ao ´e influenciado por qualquer um dos valores que o mesmo assumiu em instantes temporais anteriores. Este facto corrobora a tese de ser imposs´ıvel verificar qualquer padr˜ao de repeti¸c˜ao no comportamento do sinal de ru´ıdo [20].
´
E tamb´em poss´ıvel afirmar que o ru´ıdo branco ´e caracterizado por apresentar densidade espetral constante. Como a potˆencia do ru´ıdo ´e igual `a sua variˆancia e esta ´e constante, a potˆencia do ru´ıdo tamb´em o ser´a para qualquer frequˆencia [19].
A figura 2.9 apresenta uma ilustra¸c˜ao gr´afica de um sinal de ru´ıdo AWGN, gerado em MATLAB, para uma SNR de 15dB. A figura 2.10 ilustra uma das principais caracter´ısticas do mesmo, que ´e a de apresentar potˆencia constante ao longo de todo o eixo de frequˆencias. No sentido pr´atico, ´e necess´ario impˆor uma largura de banda ao sinal de ru´ıdo branco, porque a ausˆencia desta imposi¸c˜ao faria com que a potˆencia do mesmo fosse infinita.
Figura 2.10: Potˆencia de um sinal de ru´ıdo branco [20]
Falta perceber os motivos pelos quais se diz que o ru´ıdo ´e aditivo e gaussiano.
O termo aditivo indica que o sinal recebido ´e igual ao sinal transmitido mais o ru´ıdo, cabendo ao recetor a tarefa de tentar recuperar, da melhor forma poss´ıvel, a mensagem original. Significa isto que o canal de transmiss˜ao adiciona ru´ıdo ao sinal s, chegando ao recetor o sinal r (express˜ao 2.10). Refira-se ainda que o ru´ıdo ´e estatisticamente independente do sinal transmitido [21].
r = s + (2.10)
As consequˆencias de o ru´ıdo ser gaussiano ´e que este segue uma distribui¸c˜ao de probabili-dade normal (tamb´em conhecida por gaussiana). Seguindo esta distribui¸c˜ao, h´a v´arios factos a assinalar: o ru´ıdo pode assumir valores positivos, negativos ou nulos; a probabilidade de o ru´ıdo assumir valores pr´oximos de zero ´e muito superior `a a probabilidade de ocorrˆencia de valores afastados de zero. O gr´afico da distribui¸c˜ao normal ´e apresentado pela figura 2.11, na qual se pode verificar que a referida distribui¸c˜ao ´e sim´etrica relativamente `a sua m´edia [21].
Figura 2.11: Gr´afico da distribui¸c˜ao normal, com m´edia µ e variˆancia σ2 [22]
2.4
M´
etricas de desempenho de um sistema de transmiss˜
ao
digital
Nesta sec¸c˜ao, v˜ao ser discutidos alguns dos parˆametros que permitem avaliar o desempenho de um sistema de transmiss˜ao digital. Nesta disserta¸c˜ao, v˜ao ser usadas as seguintes m´etricas: entropia, energia m´edia e Bit Error Ratio.
2.4.1 Entropia
Considere-se X como uma vari´avel aleat´oria discreta com fun¸c˜ao massa de probabilidade p(x). A entropia da vari´avel X, H(X), ´e calculada a partir da express˜ao 2.11, na qual o operador E[.] representa o valor esperado da vari´avel aleat´oria em quest˜ao [23].
H(X) = −Xp(x) log p(x) = −E[log(p(x))] (2.11)
A entropia H(X) quantifica a incerteza esperada associada a uma dada vari´avel aleat´oria X, representando a quantidade de informa¸c˜ao m´edia que se adquire a partir de observa¸c˜oes dessa mesma vari´avel. A entropia ser´a tanto mais elevada quanto maior for a incerteza que se tem relativamente ao conhecimento de uma dada vari´avel aleat´oria X, sendo que esta ter´a um valor m´aximo quando a fun¸c˜ao massa de probabilidade p(x) segue uma distribui¸c˜ao uniforme e ser´a nula quando a fun¸c˜ao p(x) se resume a um ponto, tendo-se apenas um valor poss´ıvel para a vari´avel aleat´oria X [23].
2.4.2 Entropia relativa
Considere-se a existˆencia de duas distribui¸c˜oes de probabilidade poss´ıveis, p e q, para uma s´o vari´avel aleat´oria X, assumindo esta valores pertencentes ao conjunto X . Tem-se que a entropia relativa (ou distˆancia de Kullback-Leibler) entre essas duas distribui¸c˜oes ´e calculada a partir da express˜ao 2.12 [24].
D (p||q) = X x∈X
p(x) log2 q(x)
p(x) (2.12)
Sendo usada como uma medida da distˆancia entre duas distribui¸c˜oes probabil´ısticas, a entropia relativa acaba por permitir perceber tamb´em quais as consequˆencias negativas, em termos de ineficiˆencia, que traz uma errada escolha da distribui¸c˜ao para a vari´avel aleat´oria. Assumindo que p ´e a distribui¸c˜ao verdadeira de X, h´a dois casos poss´ıveis: se for escolhida p, s˜ao necess´arios H(p) bits para descrever a vari´avel aleat´oria X; se a op¸c˜ao para a distri-bui¸c˜ao de probabilidades de X recair sobre q, ent˜ao s˜ao necess´arios H(p) + D (p||q) bits para caracterizar X [25].
A entropia relativa ´e sempre um valor igual ou superior a zero, sendo nula apenas no caso especial em que p = q [25].
2.4.3 Informa¸c˜ao m´utua
Sejam X e Y duas vari´aveis aleat´orias com fun¸c˜oes massa de probabilidade p(x) e p(y), respetivamente, e uma fun¸c˜ao massa de probabilidade conjunta p(x, y). A informa¸c˜ao m´utua entre as vari´aveis aleat´orias X e Y , I(X; Y ), ´e calculada a partir da express˜ao 2.13. A informa¸c˜ao m´utua entre X e Y ´e definida como a entropia relativa entre duas distribui¸c˜oes: a distribui¸c˜ao conjunta de X e Y , p(x, y), e o produto das suas distribui¸c˜oes marginais, p(x)p(y) [25]. I (X; Y ) = X x∈X X y∈Y p(x, y) log2 p(x, y) p(x)p(y) = D(p(x, y)||p(x)p(y)) (2.13) A informa¸c˜ao m´utua mede a dependˆencia m´utua entre duas vari´aveis aleat´orias, quanti-ficando a informa¸c˜ao que uma vari´avel aleat´oria cont´em acerca da outra vari´avel. Enquanto medida da informa¸c˜ao compartilhada por duas vari´aveis aleat´orias, ´e definida como a redu¸c˜ao na incerteza de uma vari´avel consequente do conhecimento adquirido sobre a outra [25].
2.4.4 Energia m´edia de um sinal
No estudo do sistema apresentado anteriormente, um dos parˆametros mais importantes, para aferir o seu desempenho, ´e a energia m´edia transmitida. Embora haja outras formas de prever teoricamente qual ser´a a potˆencia m´edia expect´avel subjacente `a transmiss˜ao de uma constela¸c˜ao QAM, a determina¸c˜ao da energia m´edia, no contexto desta disserta¸c˜ao, vai ser diretamente aplicada `a constela¸c˜ao QAM produzida `a sa´ıda do modulador. Assim, se τ designar um ponto gen´erico da constela¸c˜ao, a energia m´edia da mesma vai ser dada pela raz˜ao entre o somat´orio das energias de todos os s´ımbolos da constela¸c˜ao e o n´umero de pontos da mesma (express˜ao 2.14. E = P τ|τ |2 Ntotal (2.14) Na express˜ao 2.14, Ntotal refere-se ao n´umero total de s´ımbolos existentes na constela¸c˜ao QAM e n˜ao ao n´umero de s´ımbolos poss´ıveis para cada modula¸c˜ao QAM (por exemplo, este ´e igual a 64 no caso de se ter uma constela¸c˜ao 64QAM).
Obviamente, o sistema ser´a tanto mais eficiente quanto menor o valor de E.
2.4.5 Bit Error Ratio (BER)
Contrariamente ao que acontece com outros crit´erios de teste do desempenho de um sistema, a Bit Error Ratio (BER) permite avaliar o desempenho global do sistema como um todo. A determina¸c˜ao da BER ´e relativamente simples: compara-se a sequˆencia de bits `
a entrada do transmissor com a aquela que ´e gerada `a sa´ıda do recetor e contabilizam-se o n´umero de bits que diferem entre essas duas sequˆencias. A BER ´e uma forma de estima¸c˜ao da probabilidade de ocorrˆencia de erros, sendo dada pela raz˜ao entre os n´umeros de bits errados e o total de bits enviados [26].
2.5
Limita¸
c˜
oes de um canal de transmiss˜
ao
Um sistema e um canal de transmiss˜ao reais nunca conseguem responder totalmente `as proje¸c˜oes te´oricas, uma vez que estas s˜ao constru´ıdas `a base de modelos te´oricos, que s˜ao simplifica¸c˜oes da realidade. Nesta sec¸c˜ao, s˜ao apresentadas diferentes defini¸c˜oes para um elemento comum: a velocidade m´axima a que um canal consegue transportar dados, sem que estes sejam corrompidos, de forma significativa, por ru´ıdo.
2.5.1 Largura de Banda
A largura de banda ´e uma caracter´ıstica f´ısica de um sistema de telecomunica¸c˜oes, que d´a indica¸c˜ao sobre a velocidade a que o canal consegue transmitir informa¸c˜ao num determinado instante. Em sistemas anal´ogicos, ´e expressa em Hertz (Hz), enquanto que, nos sistemas digitais, a largura de banda ´e especificada em bits por segundo [13].
No dom´ınio anal´ogico, a largura de banda ´e entendida como a faixa de frequˆencias dentro da qual se consegue transmitir informa¸c˜ao de uma forma confi´avel.
Na figura 2.12, a largura de banda ´e delimitada pelas frequˆencias f1 e f2, `as quais se verifica uma redu¸c˜ao de 3dB em rela¸c˜ao `a potˆencia m´axima do sinal. Em termos lineares, um decr´escimo de 3dB na potˆencia de um sinal significa que a mesma se reduziu para metade do seu valor inicial. As frequˆencias f1 e f2 correspondem, respetivamente, `as frequˆencias de corte inferior e superior [13, 27].
Figura 2.12: Largura de banda de um sistema de comunica¸c˜oes[27]
A largura de banda ´e diretamente proporcional ao ritmo de transmiss˜ao: se um canal de largura ∆f transmite N impulsos por segundo, ao se pretender transmitir KN impulsos por segundo, ent˜ao a largura de banda do canal tem de ser aumentada para K∆f [13].
2.5.2 Bit rate
No dom´ınio digital, a capacidade de transmitir informa¸c˜ao ´e medida em bits por segundo, o que ´e o mesmo que dizer que a bit rate est´a para os sistemas digitais como a largura de banda para os anal´ogicos. Quando se estabelece um determinado valor de bit rate, est´a-se a assumir que todos os bits tˆem a mesma dura¸c˜ao e que s˜ao transmitidos uns a seguir aos outros sem qualquer interrup¸c˜ao. A bit rate acaba por ser uma medida da velocidade m´axima a que ´e poss´ıvel transmitir informa¸c˜ao digital atrav´es de um dado canal [28].
2.5.3 Rela¸c˜ao entre bit rate e largura de banda: modelos de Nyquist e Shannon
A abordagem mais b´asica para relacionar estes dois parˆametros ´e afirmar que s´o ´e poss´ıvel transmitir um bit por cada Hz, ou seja, se por exemplo se pretender estabelecer uma liga¸c˜ao a 1200 bits por segundo, necessitar-se-ia de um canal com uma largura de banda de 1200 Hz. No entanto, o engenheiro eletr´onico Harry Nyquist trouxe um contributo fulcral para o desenvol-vimento dos conhecimentos na ´area da teoria da informa¸c˜ao, dizendo ser poss´ıvel transmitir, sem erros, a uma bit rate igual a 2f1 atrav´es de um filtro passa-baixo com frequˆencia de corte igual a f1. Por outras palavras, isto significa que se consegue transmitir dois bits in-dependentes, sem qualquer interferˆencia entre eles, num canal com 1Hz de largura de banda [28].
Claude Shannon enunciou um modelo diferente. Este matem´atico e engenheiro eletr´onico apresentou uma express˜ao para a capacidade de um canal de transmiss˜ao que, sendo expressa em bits por segundo e usualmente referenciada pela letra C, ´e definida como o n´umero m´aximo de bits que esse canal consegue transmitir por segundo com uma probabilidade de erro t˜ao pr´oxima de zero quanto se desejar. De acordo com o Teorema de Shannon, considerando que se est´a a transmitir um sinal de potˆencia m´edia igual a S (em W ), atrav´es de um canal com largura de banda B (em Hz), afetado por ru´ıdo branco gaussiano com potˆencia m´edia de N (em W ), tem-se que a capacidade do canal C ´e dada pela equa¸c˜ao 2.15 [13].
C = B log2 1 + S N (2.15) Analisando a equa¸c˜ao 2.15, verifica-se que, caso n˜ao existisse ru´ıdo (N = 0), se tinha que C = ∞, pelo que se poderia transmitir uma quantidade ilimitada de informa¸c˜ao, atrav´es do canal, sem quaisquer erros de transmiss˜ao. Vulgarmente, ouve-se falar em limite de Shannon para refor¸car a ideia de que os sistemas pr´aticos n˜ao conseguem transmitir informa¸c˜ao `a velocidade dada pela express˜ao 2.15 [13]. Dificuldades com as quais se tem que lidar no mundo dos sistemas reais s˜ao, por exemplo, a distor¸c˜ao de fase ou o facto de existirem canais de largura de banda limitada, nos quais valores elevados de bit rate come¸cam a provocar interferˆencia entre os s´ımbolos transmitidos [28].
A raz˜ao S/N representa a rela¸c˜ao sinal-ru´ıdo, que ´e muitas vezes referida como SNR (signal-to-noise ratio). Esta ´e uma quantidade adimensional e ´e tanto maior quanto maior for a potˆencia do sinal de informa¸c˜ao comparativamente `a do ru´ıdo que o distorce.
Preferen-SN RdB = 10 log10 Psinal Pruido = 10 log10 S N (2.16) Quando se quer transmitir um sinal em banda base com uma bit rate superior `a permitida pelo canal de transmiss˜ao, a solu¸c˜ao passa por usar modula¸c˜ao. Na verdade, a taxa de transmiss˜ao de dados, que um determinado canal consegue transportar, n˜ao ´e definida pela bit rate, mas sim pelo n´umero de transi¸c˜oes ocorridas no sinal por segundo, que recebe o nome de baud rate. Quanto mais avan¸cado for o formato de modula¸c˜ao, maior ser´a a quantidade m´axima de bits pass´ıvel de ser transmitida por unidade de tempo [28, 29].
A rela¸c˜ao entre a bit rate e a baud rate n˜ao ´e t˜ao linear como `a partida possa parecer. S´o ´e poss´ıvel estabelecer que baudrate = bitrate × n, em que n ser´a o n´umero de bits por s´ımbolo, no caso de se ter um sinal em banda base do tipo RZ, que sofre v´arias mudan¸cas de estado por segundo. Neste caso particular, se fosse usado, por exemplo, o 16QAM para modular o sinal de informa¸c˜ao, a bit rate seria o qu´adruplo da baud rate, uma vez que cada s´ımbolo ´e representado por quatro bits. J´a n˜ao haver´a uma rela¸c˜ao t˜ao linear entre bit rate e baud rate se o sinal for NRZ (non-return-to-zero), no qual s´o ´e admiss´ıvel uma transi¸c˜ao por segundo [28].
Uma outra condicionante na rela¸c˜ao entra a bit e a baud rates ´e o tipo de polariza¸c˜ao utilizado na modula¸c˜ao QAM. Se esta for simples, s´o ´e necess´ario modular a amplitude e a fase das duas componentes da portadora, entretanto geradas por um deslocador de fase de 90o, significando isto que apenas se precisa de um modulador IQ. Se a polariza¸c˜ao for dupla, seriam necess´arios dois moduladores IQ e o dobro dos bits. No sistema estudado nesta disserta¸c˜ao, usar-se-´a polariza¸c˜ao simples na modula¸c˜ao QAM.
2.6
Conclus˜
oes
Relativamente ao que foi apresentado neste cap´ıtulo, ´e poss´ıvel concluir que o QAM con-siste na modula¸c˜ao da amplitude e da fase de duas portadoras sinusoidais em quadratura, correspondendo cada uma destas a cada um dos eixos perpendiculares do gr´afico da cons-tela¸c˜ao. Cada s´ımbolo da mesma ´e codificado por um conjunto de n bits, tendo a constela¸c˜ao um total de 2n s´ımbolos poss´ıveis. A modula¸c˜ao QAM pode ser facilmente implementada por LUTs, havendo sempre que ter em conta que existem bits que determinam o sinal dos coeficientes das partes real e imagin´aria do s´ımbolo e outros que definem a magnitude do mesmo. Os dois tipos de modula¸c˜ao estudados v˜ao ser o 16QAM e o 64QAM e, como se vai verificar mais `a frente, a modula¸c˜ao 16QAM apresenta uma BER inferior ao 64QAM, dado que os s´ımbolos est˜ao mais distanciados uns dos outros e, por isso, os efeitos do ru´ıdo s˜ao menos danosos do que no 64QAM.
Neste cap´ıtulo, estabeleceu-se ainda que vai ser aplicado ru´ıdo AWGN ao sistema em estudo. Este ru´ıdo ´e caracterizado por um processo estoc´astico com m´edia nula, variˆancia constante e por ausˆencia de autocorrela¸c˜ao entre vari´aveis do ru´ıdo definidas em instantes de tempo distintos. A distribui¸c˜ao probabil´ıstica do ru´ıdo AWGN ´e a distribui¸c˜ao normal (ou Gaussiana).
Finalmente, apresentaram-se alguns dos crit´erios importantes para avaliar o desempenho do sistema de transmiss˜ao digital. Os mais usados ser˜ao a BER, a energia m´edia da cons-tela¸c˜ao QAM e a entropia.
CAP´ITULO
3
Probabilistic Constellation Shaping
e Forward Error Correction
Neste cap´ıtulo, explicar-se-˜ao, de forma detalhada, os conceitos de Probabilistic Constella-tion Shaping e de Forward Error CorrecConstella-tion. Mencionar-se-˜ao os benef´ıcios que, tanto o PCS como o FEC, trazem ao sistema de transmiss˜ao digital em que s˜ao aplicados. Em rela¸c˜ao ao PCS, ser˜ao apresentados n˜ao s´o os fundamentos te´oricos basilares desta t´ecnica como tamb´em ser˜ao abordados alguns dos diferentes algoritmos existentes para a sua execu¸c˜ao. Relativa-mente `a parte do FEC, ser˜ao explicados alguns dos conceitos te´oricos que suportam este m´etodo, com especial aten¸c˜ao para os c´odigos de blocos.
3.1
Introdu¸
c˜
ao
Muitos s˜ao os requisitos que os sistemas de transmiss˜ao atuais devem cumprir, sendo que os mais significativos s˜ao a eficiˆencia espetral e a m´axima distˆancia de transmiss˜ao, que se consegue alcan¸car de modo a explorar todos os recursos dispon´ıveis.
As caracter´ısticas da comunica¸c˜ao mudam consoante as condi¸c˜oes em que a mesma ´e estabelecida. No caso de um sistema consistir numa rede de pequenas dimens˜oes, com um elevado valor de SNR, este deve ter eficiˆencia espetral m´axima, de forma a maximizar a taxa de transmiss˜ao bin´aria ao longo da liga¸c˜ao. Caso se tenha, por exemplo, uma rede intercontinental, com um reduzido valor de SNR, deve-se usar um formato de modula¸c˜ao QAM, com uma constela¸c˜ao constitu´ıda por poucos s´ımbolos, e aplicar um esquema FEC complexo para que a comunica¸c˜ao seja mais confi´avel. Preferencialmente, s˜ao usados formatos de modula¸c˜ao QAM simples, havendo, por este motivo, uma penaliza¸c˜ao expressa em termos de SNR, que ´e explicada pelo facto de a capacidade do sistema ser inferior ao valor da capacidade de Shannon [30].
Para reduzir a diferen¸ca para a capacidade de Shannon, podem ser usadas duas aborda-gens: codifica¸c˜ao (assegurada pelo Forward Error Correction) e modela¸c˜ao (ou concretizada pelo Probabilistic Constellation Shaping) [31].
Com a codifica¸c˜ao, pretende-se encontrar uma sequˆencia de s´ımbolos apropriadamente distanciados uns dos outros, de forma a que cada s´ımbolo seja fidedignamente identificado e distinguido dos restantes, quando se verifica a presen¸ca de ru´ıdo. Com o shaping, procura-se transmitir informa¸c˜ao, com uma dada bit rate, com a menor energia m´edia transmitida poss´ıvel. Tem-se, ent˜ao, que a codifica¸c˜ao procura maximizar a distˆancia entre os diferentes s´ımbolos transmitidos, de forma a minimizar a influˆencia do ru´ıdo, enquanto que o shaping procura transmitir o m´aximo de informa¸c˜ao poss´ıvel com o m´ınimo dispˆendio de energia [32].
3.2
Probabilistic Constellation Shaping
Nesta sec¸c˜ao, estudar-se-˜ao os princ´ıpios te´oricos necess´arios `a compreens˜ao do conceito de PCS, abordando-se alguns dos m´etodos que possibilitam a sua realiza¸c˜ao.
3.2.1 Geometric shaping e probabilistic shaping
A t´ecnica de otimiza¸c˜ao do desempenho de um sistema, que ser´a mais abordada ao longo desta disserta¸c˜ao, ´e o signal shaping, que se subdivide em duas formas: geom´etrico (geometric shaping) e probabil´ıstico (probabilistic shaping). No geometric shaping, ´e atribu´ıda igual probabilidade de ocorrˆencia a todos os s´ımbolos, mas a distˆancia entre s´ımbolos cont´ıguos, na constela¸c˜ao QAM, n˜ao ´e constante. No probabilistic shaping, usa-se uma constela¸c˜ao com pontos equitativamente espa¸cados nas dire¸c˜oes horizontal e vertical do plano complexo, mas os s´ımbolos v˜ao ter diferentes probabilidades de serem transmitidos [30].
Nas figuras 3.1 e 3.2, s˜ao apresentados os resultados da aplica¸c˜ao de modela¸c˜oes geom´etrica e probabil´ıstica a constela¸c˜oes 16QAM uniformes.
Figura 3.2: Probabilistic shaping [33]
Tal como ´e poss´ıvel verificar, o shaping geom´etrico altera a distribui¸c˜ao espacial dos s´ımbolos, mantendo as suas probabilidades inalteradas (todos os pontos da constela¸c˜ao apre-sentam uma densidade idˆentica, estando esta associada `a colora¸c˜ao que lhe ´e atribu´ıda). O shaping probabil´ıstico altera a probabilidade dos s´ımbolos, verificando-se uma densidade dos mesmos tanto maior quanto mais pr´oximos estiverem do centro da constela¸c˜ao, mas n˜ao in-terv´em na sua distribui¸c˜ao no espa¸co.
Falando agora da evolu¸c˜ao do Probabilistic Constellation Shaping, ´e de real¸car que, primei-ramente, foi usado o Geometric Constellation Shaping. Neste tipo de modula¸c˜ao, procurava-se redistribuir os s´ımbolos de uma constela¸c˜ao de uma forma t˜ao mais aproximada da distribui¸c˜ao Gaussiana quanto poss´ıvel. Rapidamente se percebeu que este n˜ao era o caminho, uma vez que este tipo de shaping apresenta os seguintes problemas: grande dificuldade na determina¸c˜ao da posi¸c˜ao de todos os s´ımbolos da constela¸c˜ao e aumento da complexidade do Digital Signal Processor (DSP), respons´avel pela recupera¸c˜ao do sinal original. Assim, a elimina¸c˜ao do ru´ıdo acaba por ser um processo bastante moroso em termos de hardware. O PCS come¸cou a ser desenvolvido em 2015 e, contrariamente ao geometric shaping, deixa as posi¸c˜oes dos s´ımbolos no plano complexo inalteradas, mexendo apenas nas suas probabilidades de transmiss˜ao de modo a que estas sigam a distribui¸c˜ao gaussiana [34]. Ao se utilizar o PCS, a determina¸c˜ao da posi¸c˜ao dos s´ımbolos ´e trivial, uma vez que n˜ao se altera a localiza¸c˜ao dos mesmos no plano complexo, fazendo com que a atenua¸c˜ao do ru´ıdo n˜ao necessite de tecnologia muito complexa. A outra vantagem do PCS ´e a facilidade na imposi¸c˜ao de probabilidades aos s´ımbolos, bas-tando, muitas vezes, alterar um s´o parˆametro. Estudos, para permitir a combina¸c˜ao destas duas formas de shaping, ainda est˜ao numa fase muito embrion´aria [34].
Nesta disserta¸c˜ao, o foco ser´a totalmente virado para o estudo e desenvolvimento de t´ecnicas que permitam concretizar a modela¸c˜ao probabil´ıstica de constela¸c˜oes QAM.
3.2.2 Conceito
O elemento, que implementa o shaping probabil´ıstico, ´e o Distribution Matcher (DM). O DM consiste numa fun¸c˜ao, localizada no transmissor, que converte sequˆencias bin´arias, com uma distribui¸c˜ao de Bernoulli (probabilidade de 0.5 para cada bit), em sequˆencias de bits ou s´ımbolos com uma dada distribui¸c˜ao probabil´ıstica n˜ao uniforme e definida previamente[35]. O DM, sendo um elemento invert´ıvel, admite que exista um distribution dematcher, que ´e o elemento principal do bloco que implementa a fun¸c˜ao inversa do PCS, mapeando sequˆencias de s´ımbolos ou bits n˜ao uniformemente distribu´ıdos para conjuntos de bits com distribui¸c˜ao uniforme. No caso espec´ıfico de PAS (Probabilistic Amplitude Shaping), o DM transforma k bits uniformemente distribu´ıdos em n amplitudes com uma distribui¸c˜ao de probabilidades previamente especificada [3, 36].
O conceito de PCS ´e apresentado na figura 3.3, na qual se ilustram as fun¸c˜oes massa de probabilidade (P1, P2, P3, P4), referentes `as constela¸c˜oes 64QAM resultantes de quatro esquemas de PCS aplicados. A probabilidade de ocorrˆencia dos s´ımbolos ´e dada pela altura das barras verticais dos gr´aficos apresentados na figura.
(a) (b)
(c) (d)
Figura 3.3: Ilustra¸c˜ao gr´afica de quatro esquemas de PCS aplicados a constela¸c˜oes 64QAM, com diferentes valores de entropia: (a) H(P1)= 5.73 bits, (b) H(P2)= 5.23 bits, (c) H(P3)= 4.60 bits, (d) H(P4)= 4.13 bits [3]
Desde as ilustra¸c˜oes (a) at´e `a (d) da figura 3.3, existe um aumento na intensidade do shaping aplicado, verificando-se que a distribui¸c˜ao dos s´ımbolos fica cada vez mais confinada aos pontos mais interiores da constela¸c˜ao [3].