T ´
OPICOS
DE
AN ´
ALISE MATEM ´
ATICA
V´ıtor Neves
Departamento de Matem´
atica
Pref´
acio
Algures entre Agosto e Dezembro de 1981 – iniciava ent˜ao quatro anos como es-tudante graduado na University of Iowa, em Iowa City, Iowa EUA – tive a sorte de assistir a uma palestra de Marc Kac sobre Atractores Estranhos, assunto ao tempo muito na moda; ter´a seguramente sido interessant´ıssima cientificamente, mas as impress˜oes que me ficaram s˜ao literalmente de outra natureza. Foram cinquenta minutos de ´optima disposi¸c˜ao pois Kac mostrou um humor apurado; vim a perceber ser esta uma forma muito frequente de apresenta¸c˜ao, t˜ao mais perfeita quanto mel-hor cientista ´e o conferencista; n˜ao ´e regra terem sido todas as palestras significativas assim, mas as excep¸c˜oes n˜ao foram muitas. Gravei tamb´em a frase seguinte:
Quando pretendemos publicar uma demonstra¸c˜ao, devemos procurar uma revista de Matem´atica e para uma prova uma revista de F´ısica; se que-remos mostrar um resultado, ´e mais adequada uma revista de Sociologia. Outra cita¸c˜ao, suponho que do meu orientador de doutoramento, Keith Stroyan:
Como docentes [de Matem´atica, mas n˜ao s´o] devemos sempre falar ver-dade, mas n˜ao necessariamente dizer toda a verdade!
Por essa altura eram tamb´em muito bem considerados livros de J. E. Marsden, sobre diversos n´ıveis de An´alise Matem´atica e suas aplica¸c˜oes, nos quais as demonstra¸c˜oes eram quase sempre relegadas para o fim dos cap´ıtulos, ainda considero ser esta um ´optima forma de exposi¸c˜ao.
Tentei redigir de acordo com estas trˆes ideias; de facto o ponto de vista de Marsden s´o muito dificilmente se pode ver aplicado, mas sinto-me constantemente a estabelecer um compromisso entre ele e os h´abitos dos nossos alunos (e n˜ao poucos colegas), nomeadamente v´arias proposi¸c˜oes n˜ao s˜ao demonstradas, ou porque a demonstra¸c˜ao ´e demasiadamente fina para um texto deste ˆambito ou por a acharmos simples ou ainda digna de exerc´ıcio, enunciado ou n˜ao. Encontrar-se-´a porventura influˆencia de [16].
Este ´e um conjunto de notas resultante de um texto com o qual se tem recente-mente apoiado a disciplina de An´alise Matem´atica II da Universidade de Aveiro. Dirige-se a disciplina n˜ao s´o a estudantes de Matem´atica mas tamb´em a alunos de Engenharia pelo que n˜ao me parece despiciendo referir fun¸c˜oes de v´arias vari´aveis, ainda que de forma muito pragm´atica: tratar traject´orias ortogonais, equa¸c˜oes difer-enciais exactas e eventuais factores integrantes ´e importante bem como me parece ser tamb´em ´util a terminologia ”campo escalar”ou ”campo vectorial”; claro que a deriva¸c˜ao de uma composi¸c˜ao de curvas com campos escalares ´e uma dificuldade s´eria, mas a Regra da Cadeia parece-me f´acil de aceitar pelos alunos e n˜ao espe-cialmente dif´ıcil de expor pelo docente; a este prop´osito estimo particularmente os textos do professor Dias Agudo [8] e [9], muito em particular o segundo, n˜ao porque
4
os considere especialmente acess´ıveis – o segundo ´e – antes pelo contr´ario, mas por serem muito completos e bem escritos; ´e tamb´em interessante notar terem alguns alunos encontrado apoio no livro do professor Guerreiro [12].
O cap´ıtulo sobre S´eries de Fourier ´e uma forma de for¸car a utiliza¸c˜ao da ´Algebra Linear e evitar c´alculos, digamos ”`a la Zygmund”, a meu ver inapropriados para os alunos actuais de uma disciplina do segundo semestre do I ano do I Ciclo (segundo o acordo de Bolonha).
Os primeiros cap´ıtulos devem na verdade ser considerados revis˜oes: constituem uma incurs˜ao, de certo modo dirigida e r´apida ao que se poderia designar por Fundamen-tos da An´alise Real, apenas com o fim de tornar o texto auto-suficiente; exemplos desta economia de meios s˜ao a sec¸c˜ao sobre n´umeros naturais e a sec¸c˜ao sobre n´umeros complexos, onde se refere o que temos por verdadeiramente essencial `a compreens˜ao das notas. De facto s´o a partir do Cap´ıtulo 5 inclusive, se apresenta o que poder´a ser considerado An´alise Matem´atica mais avan¸cada.
A ´ultima sec¸c˜ao ´e um exemplo, inesperado para mim, de aplica¸c˜ao do Lema de Gron-wall conjuntamente com o Teorema de Peano para equa¸c˜oes diferenciais ordin´arias. N˜ao reputo os exerc´ıcios de particularmente bons, de facto s˜ao uma parte ainda a ser constru´ıda.
Conta-se que o leitor se sinta minimamente `a vontade com rudimentos de ´Algebra Linear bem como que tenha alguma familiaridade com o formalismo da L´ogica en-quanto estenografia da linguagem matem´atica por meio da quantifica¸c˜ao e dos conec-tivos.
OBSERVAC¸ ˜OES e AGRADECIMENTOS
1. Nos fins dos anos 1980 dizia na Covilh˜a o professor Dias Agudo, ent˜ao lec-cionando tamb´em na Universidade da Beira Interior, que os seus livros eram escritos para ”estudantes com professor”, por oposi¸c˜ao a autodidactas (menos capazes, acrescentamos n´os); uma leitura superficial do ´Indice destas notas ´e suficiente para se perceber a importˆancia de um, por assim dizer, orientador de leitura, de modo algum por serem de n´ıvel compar´avel `a obra do professor Dias Agudo, mas sim porque n˜ao seguem a ordem usual e n˜ao s˜ao, nem se pretende que sejam, realmente completas.
2.
log(e
x
) = x
(x ∈ R)
3. Ao Ant´onio Caetano agrade¸co ter verificado algumas demonstra¸c˜oes – n˜ao a maioria inteiramente de minha responsabilidade – `a minha esposa, Ana Helena Roque, o fornecimento de alguns exerc´ıcios, a ambos as variadas formas de paciˆencia e apoio que me dispensaram.
4. E muito importante eliminar qualquer erro tipogr´afico ou qualquer d´uvida´ conceptual, suscept´ıveis de ocorrer como consequˆencia de uma elabora¸c˜ao por vezes demasiadamente apressada, pelo que agrade¸co coment´arios, sugest˜oes e correc¸c˜oes, enviadas para
[email protected] de modo a poder ir adaptando.
Setembro de 2011 V´ıtor Neves
Pref´
acio (2010/2011)
Mant´em-se no essencial o pref´acio de 2005/06. Houve algumas modifica¸c˜oes de pagina¸c˜ao e reagrupamento, em particular no cap´ıtulo sobre equa¸c˜oes diferenciais, no entanto n˜ao se alterou o aspecto introdut´orio fortemente elementar, aqui e ali abri pistas para tratamento profundo.
A sec¸c˜ao sobre s´eries de Fourier deu lugar a um cap´ıtulo, ainda em constru¸c˜ao, em cuja sec¸c˜ao final se trata o tema sob um ponto de vista mais Funcional.
21 de Fevereiro de 2011 V´ıtor Neves
Pref´
acio (2005/2006)
Este ´e um texto de apoio `a disciplina An´alise Matem´atica II que ir´a sendo aper-fei¸coado `a medida que a disciplina for decorrendo no semestre — veja-se a prop´osito a observa¸c˜ao abaixo — pelo que muitos coment´arios de ´ındole menos formal e exem-plos, bem como algumas demonstra¸c˜oes, ser˜ao apresentados nas aulas te´oricas ou nas aulas te´orico-pr´aticas e n˜ao aparecer˜ao sistematicamente no texto podendo, no entanto, vir a ser acrescentados `a medida que o semestre decorre. As demonstra¸c˜oes apresentadas basear-se-˜ao apenas em resultados supostos de conhecimento geral ou outros apresentados no texto.
Perante a necessidade de elaborar estas notas com alguma rapidez (caso contr´ario, teriam necessariamente utilidade reduzida) e de manter um discurso n˜ao demasiada-mente codificado por vezes utilizamos linguagem formal de forma informal.
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OBSERVAC¸ ˜AO: ´E muito importante eliminar qualquer erro tipogr´afico ou qual-quer d´uvida conceptual, suscept´ıveis de ocorrer como consequˆencia de uma elabora¸c˜ao por vezes demasiadamente apressada, pelo que agradecemos coment´arios, sugest˜oes e correc¸c˜oes, enviadas para
de modo a que o texto possa ir sendo adaptado e corrigido.
2006 V´ıtor Neves
´Indice
1 Fundamentos 101 1.0 N´umeros reais . . . 101 1.0.1 Axiom´atica de corpo . . . 101 1.0.2 Axiomas de ordena¸c˜ao . . . 102 1.0.3 Outras propriedades . . . 103 1.0.4 Exerc´ıcios . . . 104 1.0.5 N´umeros racionais . . . 105 1.0.6 Subconjuntos de R. Parte I . . . 109 1.0.7 Exerc´ıcios . . . 1131.0.8 Subconjuntos de R. Parte II. Completude . . . 115
1.1 N´umeros complexos . . . 116
1.1.1 Preliminares . . . 116
1.1.2 Algumas particularidades . . . 118
1.1.3 Teorema fundamental da ´Algebra . . . 118
1.2 Continuidade e diferenciabilidade . . . 120 1.2.1 Exerc´ıcios . . . 120 1.2.2 Exerc´ıcios . . . 121 1.2.3 Exerc´ıcios . . . 128 1.3 Integra¸c˜ao . . . 130 1.3.1 Exerc´ıcios . . . 135
2 Teoremas da Fun¸c˜ao Composta e da Fun¸c˜ao Inversa 201 2.1 Teoremas da Fun¸c˜ao Composta . . . 201
2.2 Teoremas da Fun¸c˜ao Inversa . . . 203
2.2.1 Exerc´ıcios . . . 204 3 Teorema de Taylor 301 3.1 F´ormula de Taylor . . . 301 3.1.1 Exerc´ıcios . . . 306 3.2 Fun¸c˜oes Anal´ıticas I . . . 308 3.2.1 Exerc´ıcios . . . 312 7
8 ´INDICE
4 Sucess˜oes e S´eries num´ericas 401
4.1 Sucess˜oes num´ericas . . . 401
4.1.1 Sucess˜oes mon´otonas. Sucess˜oes limitadas . . . 401
4.1.2 Exerc´ıcios . . . 404
4.2 Convergˆencia . . . 405
4.2.1 Exerc´ıcios . . . 411
4.2.2 Sucess˜oes n˜ao limitadas . . . 412
4.2.3 Exerc´ıcios . . . 413
4.3 S´eries num´ericas . . . 416
4.3.1 Generalidades sobre convergˆencia . . . 416
4.3.2 Exerc´ıcios . . . 418
4.3.3 S´eries de termos n˜ao negativos . . . 418
4.3.4 Convergˆencia absoluta e convergˆencia simples . . . 422
4.3.5 Convergˆencia absoluta II . . . 423
4.3.6 Exerc´ıcios . . . 425
5 Sucess˜oes de fun¸c˜oes reais 501 5.1 Preliminares . . . 501
5.1.1 Exerc´ıcios . . . 505
5.2 S´eries de potˆencias . . . 506
5.2.1 Aspectos gerais . . . 506
5.2.2 Fun¸c˜oes anal´ıticas II . . . 510
5.2.3 As fun¸c˜oes transcendentes elementares . . . 511
5.2.4 Exerc´ıcios . . . 511 5.3 O raio de convergˆencia . . . 513 5.3.1 Exerc´ıcios . . . 517 6 S´eries de Fourier 601 6.1 Preliminares . . . 601 6.2 S´eries de Fourier . . . 603
6.3 Convergˆencia I. M´edia quadr´atica . . . 605
6.3.1 T´opicos sobre espa¸cos (quase-)euclidianos . . . 607
6.3.2 Desigualdades de Bessel . . . 610
6.3.3 Equa¸c˜ao de Parseval . . . 610
6.4 Convergˆencia II . . . 612
6.5 Fun¸c˜oes n˜ao peri´odicas . . . 616
6.6 Convergˆencia III . . . 617
6.6.1 Exerc´ıcios . . . 617
7 Integrais Impr´oprios 701 7.1 Integrais de primeira esp´ecie . . . 701
´INDICE 9
7.2 Integrais de segunda esp´ecie . . . 705
7.3 Integrais mistos . . . 707
7.3.1 Exerc´ıcios . . . 707
7.4 Transformada de Laplace . . . 709
7.4.1 Invers˜ao . . . 713
7.4.2 Exerc´ıcios . . . 714
8 Equa¸c˜oes Diferenciais Ordin´arias 801 8.1 Introdu¸c˜ao . . . 801
8.2 Equa¸c˜oes de vari´aveis separ´aveis . . . 801
8.2.1 Exerc´ıcios . . . 802
8.3 Equa¸c˜oes exactas . . . 804
8.3.1 Factor integrante para equa¸c˜oes n˜ao exactas . . . 805
8.3.2 Exerc´ıcios . . . 806
8.3.3 Brev´ıssima incurs˜ao informal a curvas em R2 . . . . 806
8.4 Forma normal . . . 807
8.4.1 Exerc´ıcios (traject´orias ortogonais) . . . 808
8.4.2 Equa¸c˜oes lineares de primeira ordem . . . 809
8.4.3 Exerc´ıcios . . . 809
8.4.4 Equa¸c˜oes lineares de segunda ordem e coeficientes constantes . 810 8.4.5 Exerc´ıcios . . . 810
8.4.6 Exerc´ıcios . . . 812
8.4.7 Equa¸c˜oes lineares de segunda ordem e coeficientes anal´ıticos . 812 8.4.8 Exerc´ıcios . . . 813
8.5 Singularidades . . . 813
8.5.1 Exerc´ıcios . . . 813
8.6 Equa¸c˜oes lineares de ordem n . . . . 814
8.6.1 Teoria geral . . . 814
8.6.2 Exerc´ıcios . . . 816
8.6.3 Equa¸c˜oes lineares de coeficientes constantes . . . 816
9 Sistemas lineares (forma normal) 901 9.1 A primeira ordem ´e suficiente . . . 901
9.2 Sistemas de primeira ordem . . . 902
9.2.1 Generalidades . . . 902
9.2.2 Matriz A constante . . . . 904
9.2.3 Exerc´ıcios . . . 906
9.3 Sistema lineares de ordem superior . . . 907
9.4 Exerc´ıcios . . . 908
10 ´INDICE
10.1 Continuidade (muito) elementar . . . 1001
10.1.1 Exerc´ıcios . . . 1002
10.2 Existˆencia e unicidade . . . 1002
10.3 O Lema de Gronwall . . . 1006
Cap´ıtulo 1
Fundamentos
1.0
N´
umeros reais
1.0.1
Axiom´
atica de corpo
C1. A soma ´e associativa:∀ x, y, z ∈ R (x + y) + z = x + (y + z).
C2. A soma tem elemento neutro, designado por 0, i.e. ∀ x ∈ R x + 0 = 0 + x = x.
C3. Qualquer n´umero real tem sim´etrico i.e.
∀x ∈ R ∃y ∈ R x + y = y + x = 0. O sim´etrico do n´umero real x designar-se-´a −x.
C4. A soma ´e comutativa:
∀ x, y ∈ R x + y = y + x.
C5. O produto ´e associativo:
∀ x, y, z ∈ R (x · y) · z = x · (y · z).
C6. O produto tem elemento neutro, designado por 1, i.e. ∀ x ∈ R x · 1 = 1 · x = x.
Como ´e habitual, omitir-se-´a · entre letras ou entre letras e n´umeros.
C7. O produto ´e comutativo:
∀ x, y ∈ R xy = yx.
102 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
C8. Qualquer n´umero real n˜ao nulo tem inverso i.e.
∀x ∈ R\{0} ∃y ∈ R xy = yx = 1. O inverso do n´umero real x designar-se-´a x−1 ou 1
x. C9. O produto ´e distributivo relativamente `a adi¸c˜ao, i.e.,
∀ x, y, z ∈ R [x(y + z) = xy + xz ∧ (y + z)x = yx + zx].
1.0.2
Axiomas de ordena¸c˜
ao
01. < ´e uma rela¸c˜ao de ordem total em R i.e. goza das propriedades seguintes.
1. < ´e anti-reflexiva:
∀x ∈ R x 6< x.
2. < ´e transitiva:
∀x, y, z ∈ R [[x < y ∧ y < z] ⇒ x < z] .
3. < ´e tricot´omica i.e. para quaisquer x, y ∈ R, se x 6= y d´a-se uma e s´o uma das condi¸c˜oes seguintes: x < y ou y < x.
O2. Monotonia da soma
∀x, y, z ∈ R [y < z ⇒ x + y < x + z].
O3. Semi-monotonia do produto
∀x, y, z ∈ R [[y < z ∧ 0 < x] ⇒ xy < xz] .
Por verificar os axiomas Ci, R diz-se um corpo; por verificar tamb´em os axiomas Oi, R diz-se que um corpo ordenado.
O {x ∈ R| 0 < x} designar-se-´a por R+ e os seus elementos chamam-se n´umeros
positivos. Por defini¸c˜ao, os n´umeros negativos s˜ao os elementos de R\(R+∪ {0}).
Repare-se que a rela¸c˜ao < ´e necessariamente anti-sim´etrica i.e. dados quaisquer x, y ∈ R, se x < y ent˜ao y 6< x, pois se se pudesse ter simultaneamente x < y e y < x, pela transitividade, concluir-se-ia x < x, o que n˜ao se verifica, em face da anti-reflexividade.
Nota¸c˜ao: Como ´e habitual, x > y ´e uma f´ormula equivalente a y < x; x ≥ y ou, equivalentemente y ≤ x, exprime que alguma das condi¸c˜oes x > y ou x = y ´e satisfeita.
1.0. N ´UMEROS REAIS 103
1.0.3
Outras propriedades
Quaisquer dos resultados seguintes se podem deduzir dos axiomas descritos acima, por isso os apresentamos como teoremas, se bem que n˜ao demonstrados. N˜ao se pressup˜oe que cada resultado se demonstra utilizando apenas os que o precedem.
Teorema 1.0.1 Um n´umero real n˜ao nulo e o seu inverso tˆem o mesmo sinal i.e. s˜ao ambos positivos ou ambos negativos.
Teorema 1.0.2
∀x, y ∈ R [xy = 0 ⇔ [x = 0 ∨ y = 0]].
Teorema 1.0.3 Qualquer quadrado de um n´umero real n˜ao nulo ´e positivo. Em particular
1 = 12 > 0. (1.1)
Define-se uma fun¸c˜ao valor absoluto | · | : R → R por |x| =
(
x se x ≥ 0
−x se x < 0. (1.2)
Teorema 1.0.4 A fun¸c˜ao | · | goza das propriedades seguintes
1. ∀x ∈ R |x| = | − x|. 2. ∀x ∈ R |x| = 0 se e apenas se x = 0. 3. ∀x, y ∈ R |xy| = |x||y|. 4. ∀x, y ∈ R |x + y| ≤ |x| + |y|. 5. ∀x, y ∈ R ||x| − |y|| ≤ |x − y|. 6. ∀x, y, z ∈ R |x − z| ≤ |x − y| + |y − z|. Eis uma importante propriedade da rela¸c˜ao <:
Teorema 1.0.5 Para quaisquer n´umeros reais a, b as seguintes condi¸c˜oes s˜ao equiv-alentes
1. a ≤ b
2. ∀ε ∈ R+ a < b + ε
104 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Dem. Verificar que 2 e 3 s˜ao equivalentes ´e um simples exerc´ıcio de aplica¸c˜ao da monotonia da soma (O2.): para qualquer ε > 0,
a < b + ε ⇒ a − ε < b + ε − ε = b e
a − ε < b ⇒ a = a − ε + ε < b + ε. Passamos a provar que 1 e 2 tamb´em s˜ao equivalentes.
Admitamos ent˜ao que vale 1. Dado ε ∈ R+, como a ≤ b < b + ε tamb´em a < b + ε
i.e. vale 2.
Suponha-se agora que n˜ao vale 1 i.e. a 6≤ b; como < ´e tricot´omica, necessariamente se tem b < a; mas ent˜ao, se tom´assemos ε = a − b, ε seria positivo e valeria a condi¸c˜ao imposs´ıvel a = b + ε 6< b + ε (porque < ´e anti-reflexiva); portanto se n˜ao se verifica 1 tamb´em n˜ao se verifica 2.
1 e 2 s˜ao assim condi¸c˜oes equivalentes. 2
1.0.4
Exerc´ıcios
Resolva as seguintes equa¸c˜oes e inequa¸c˜oes.
1. x(x + 3) = 1 2. 4x2−3x−1 x2+1 = 0 3. 1 x(| x | −3) = 2 4. | 1 − x | = 2 | x | 5. x+3 x−1 − 1x = 0 6. (x3− 4x2+ 7x − 4)(2 − x) = 0 7. x2−1 x > −x 8. x3−x 3x+1 ≤ 0 9. 1 3x+1 ≤ 1 x 10. |x|+13−x2 < 0 11. √x2 1−x ≤ 0 12. | x + 1 | + | x + 3 |> 2 13. √2x + 6 ≥ 2x 14. | x2− 3x |> x − 2 15. | 2x − 1 | −x ≥ 2 16. x − 2 ≥ (| x | −1)2 17. √x+3 x−1 < 0 18. 2x−1 x+1 < 0 19. x 2x−3 ≤ 3 20. 2x2− 7x + 3 > 0 21. x x2+x+1 ≥ 0 22. | x − 3 |< 4 23. | x + 1 |<| 2x − 1 | 24. | 3 − x−1 |< 1 25. | x x2−3 |< 2 26. x 1+|x| ≤ 2
1.0. N ´UMEROS REAIS 105
1.0.5
N´
umeros racionais
Um conjunto C de n´umeros reais diz-se indutivo se satisfaz as condi¸c˜oes seguintes
1. 1 ∈ C.
2. ∀x ∈ C x + 1 ∈ C.
O maior subconjunto indutivo de R ´e o pr´oprio R, o menor ´e o conjunto dos n´umeros naturais, que designaremos por N; este conjunto verifica o Princ´ıpio de Indu¸c˜ao em qualquer das vers˜oes seguintes (teorema 1.0.6).
Nota¸c˜ao: O s´ımbolo ⊆ designa, como ´e h´abito, inclus˜ao entre conjuntos i.e. A ⊆ B quando e s´o quando todos os elementos de A s˜ao elementos de B, podendo acontecer A = B. O s´ımbolo ⊂ designa inclus˜ao estrita i.e. A ⊂ B quando e s´o quando A ⊆ B e A 6= B.
Teorema 1.0.6 (Princ´ıpio de Indu¸c˜ao)
1. Se X ⊆ N, 1 ∈ X e x + 1 ∈ X sempre que x ∈ X, ent˜ao X = N. Numa express˜ao:
[X ⊆ N ∧ 1 ∈ X ∧ ∀x ∈ N [x ∈ X ⇒ x + 1 ∈ X]] ⇒ X = N
2. Se P (x) ´e uma propriedade verificada por 1 — i.e., vale P (1) — e k+1 verifica P (x) sempre que o n´umero natural k verifica P (x) — i.e., ∀k ∈ N[P (k) ⇒ P (k + 1)] — ent˜ao a propriedade P (x) vale para todo o n´umero natural — i.e., ∀k ∈ N P (k). Numa ´unica express˜ao:
[P (1) ∧ ∀k ∈ N[P (k) ⇒ P (k + 1)]] ⇒ ∀k ∈ N P (k).
3. Se X ⊆ N e para qualquer n´umero natural n , quando {x ∈ N| x < n} ⊆ X tamb´em n ∈ X, ent˜ao X = N. De novo tornando mais preciso:
[X ⊆ N ∧ ∀n ∈ N[{x ∈ N| x < n} ⊆ X ⇒ n ∈ X]] ⇒ X = N A formula¸c˜ao 3 no teorema anterior costuma designar-se por Princ´ıpio de Indu¸c˜ao Completa ou Transfinita.
Teorema 1.0.7 1 ´e o menor n´umero natural. Dem. Provamos que vale
∀n ∈ N 1 ≤ n (1.3)
106 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
I. Utilizando o teorema 1.0.6.1 Defina-se
X = {n ∈ N| n ≥ 1}
1 ∈ X porque 1 ≤ 1. Por outro lado, se n ∈ X, por defini¸c˜ao de X, n ≥ 1 e n + 1 ≥ 1 + 1 > 1 + 0 = 1, pela monotonia da soma e porque 1 > 0 (teorema 1.0.3); ent˜ao, por transitividade de <, n + 1 ≥ 1 e, de novo por defini¸c˜ao de X, n + 1 ∈ X, mostr´amos que n + 1 ∈ X sempre que n ∈ X; assim, pelo Princ´ıpio de Indu¸c˜ao (teorema 1.0.6), X = N ou seja vale (1.3) como quer´ıamos provar.
II. Utilizando o teorema 1.0.6.2 Defina-se
P (n) := 1 ≤ n Queremos mostrar que P (n) vale para qualquer n ∈ N. Como 1 ≤ 1 (pq ≤ ´e reflexiva), vale P (1).
Suponha-se que vale P (n) isto ´e que 1 ≤ n. Segue-se que 1 + 1 ≤ n + 1 (por monotonia da soma); como j´a sabemos que 0 < 1, podemos concluir
1 = 0 + 1 < 1 + 1 ≤ n + 1
e, portanto, que 1 < n + 1; em particular de 1 ≤ n podemos deduzir 1 ≤ n + 1, ou seja, de P (n) conclui-se P (n + 1).
Pela segunda forma do Princ´ıpio de Indu¸c˜ao, P (n) vale para todo o n ∈ N. E termina a primeira demonstra¸c˜ao.
2 Nota¸c˜ao: A express˜ao α := β significa que a express˜ao designada por α ´e definida pela designada por β.
Continuando a apresentar aplica¸c˜oes do Princ´ıpio de Indu¸c˜ao: uma raz˜ao pela qual n + 1 ´e chamado o sucessor de n (n ∈ N)
Lema 1.0.1 Seja qual for n ∈ N, n˜ao h´a n´umeros naturais entre n e n + 1, i.e,
∀m ∈ N ∀n ∈ N m < n + 1 ⇔ m ≤ n. (1.4)
Dem. O sentido ⇐ ´e consequˆencia imediata da transitividade de < e da reflexivi-dade de =.
(⇒) Este pode ser um exemplo de demonstra¸c˜ao por dupla indu¸c˜ao que abreviaremos um pouco em prol da clareza de argumenta¸c˜ao
1. Pelo teorema 1.0.7, ∀n ∈ N 1 ≤ n e a condi¸c˜ao (1.4) verifica-se com m = 1.
2. Suponha-se que se verifica condi¸c˜ao (1.4) com ⇒ em vez de ⇔ se verifica para m ∈ N, i.e.,
1.0. N ´UMEROS REAIS 107
Admita-se ent˜ao que n ∈ N & m + 1 < n + 1; pretendemos concluir m + 1 ≤ n; ora m, p, 1 ∈ R pelo que pela condi¸c˜ao (1.5) vem
m < (n − 1) + 1 & m ≤ n − 1 logo m + 1 ≤ n,
admitindo que tamb´em n − 1 ∈ N (eis um dos aspectos da abrevia¸c˜ao acima
referida). 2
Teorema 1.0.8 Se a fun¸c˜ao f : N → N ´e estritamente crescente ent˜ao ∀n ∈ N n ≤ f (n).
Dem. Vamos utilizar o teorema 1.0.6.3. Seja
X := {n ∈ N| n ≤ f (n)}.
Queremos mostrar que X = N, para o que basta mostrar para todos os n ∈ N a validade da implica¸c˜ao
{x ∈ N| x < n} ⊆ X ⇒ n ∈ X. (1.6)
Comecemos por ver o que se passa se n = 1.
Acontece que {x ∈ N| x < 1} = ∅ ⊆ X, portanto deveremos verificar se 1 ∈ X. Ora, todos os f (n) s˜ao n´umeros naturais, porque f : N → N e, como vimos acima, todos os n´umeros naturais s˜ao maiores ou iguais a 1; assim 1 ≤ f (1) i. e. 1 ∈ X e a condi¸c˜ao (1.6) vale para 1.
Tome-se agora n arbitr´ario e suponha-se que {x ∈ N| x < n} ⊆ X; como n − 1 < n, tamb´em n − 1 ∈ X, portanto n − 1 ≤ f (n − 1); mas ent˜ao
n = (n − 1) + 1 ≤ f (n − 1) + 1 < f (n) + 1
porque f tamb´em ´e estritamente crescente; segue-se que n < f (n) + 1; pelo lema 1.0.1
∀x, y ∈ N [x < y + 1 ⇔ x ≤ y] (1.7)
portanto n ≤ f (n) e n ∈ X como pretend´ıamos concluir. A propriedade (1.6) fica demonstrada e pela formula¸c˜ao 3. do Princ´ıpio de Indu¸c˜ao, X = N. 2
Exemplo 1.0.1 A f´ormula
n
X
i=1
(2i − 1) = n2 (1.8)
vale para todos os n´umeros naturais n.
Dem. Vamos utilizar a formula¸c˜ao 1 no Teorema 1.0.6. Seja X := {n ∈ N|
n
X
i=1
108 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
1 ∈ X porque 12 = 1 = 2 × 1 − 1 =P1
i=1(2i − 1); suponha-se que x ∈ X: tem-se x+1 X i=1 (2i − 1) = x X i=1 (2i − 1) + (2(x + 1) − 1) = x2+ (2x + 1) = (x + 1)2,
portanto tamb´em x + 1 ∈ X. Pela primeira forma do Princ´ıpio de Indu¸c˜ao X = N
e a f´ormula (1.8) vale para qualquer n ∈ N. 2
Defina-se sec¸c˜ao inicial de N, como sendo um conjunto In dado por
In := {k ∈ N| 1 ≤ k ≤ n} (n ∈ N).
Teorema 1.0.9 (Princ´ıpio de Boa Ordena¸c˜ao) Qualquer subconjunto n˜ao vazio de N tem primeiro — ou menor — elemento.
Dem. Suponha-se que
∅ 6= X ⊆ N. (1.9)
Vimos acima 1 ´e o menor elemento do pr´oprio N, portanto o caso X = N est´a tratado; em geral, se 1 ∈ X, ent˜ao 1 = min X e nada mais h´a a provar, portanto basta tratar o caso
1 6∈ X ⊂ N. (1.10)
Interessa ter presente
C ⊆ N\X ⊂ N, (1.11)
pois para qualquer n ∈ N, n ∈ In e X 6= ∅ por (1.9).
1 ∈ C porque 1 ∈ N\X — (1.10) — e I1 = {1}; se para qualquer n ∈ N, n + 1 ∈ C
quando n ∈ C, pelo Princ´ıpio de Indu¸c˜ao, pode concluir-se C = N, o que n˜ao ´e o caso pois, por (1.11), C ⊂ N. Segue-se que
para algum m ∈ N m ∈ C, mas m + 1 6∈ C.
Tome-se ent˜ao m ∈ C tal que m + 1 6∈ C; podemos retirar duas conclus˜oes, a saber:
• m+1 ∈ X pois, caso contr´ario ter-se-ia m+1 ∈ C, j´a que Im+1 = Im∪{m+1};
• todos os elementos de X s˜ao maiores que m, pois se n ≤ m, ent˜ao n 6∈ X, por defini¸c˜ao de C.
Como n˜ao h´a n´umeros naturais entre m e m + 1 (recorde-se a condi¸c˜ao (1.7)), concluimos que os elementos de X s˜ao todos maiores ou iguais a m + 1 i.e. m + 1 =
min X e X tem m´ınimo. 2
O conjunto dos n´umeros inteiros, designado por Z, ´e a uni˜ao de N com o conjunto dos sim´etricos dos n´umeros naturais e com {0} i.e.
Z = N ∪ {0} ∪ {−n| n ∈ N}. (1.12)
O conjunto dos n´umeros racionais, designado por Q, ´e a reuni˜ao de {0} com o conjunto dos quocientes de n´umeros inteiros, mais precisamente:
Q = nm
n| m ∈ Z ∧ n ∈ N o
1.0. N ´UMEROS REAIS 109 Teorema 1.0.10 O conjunto Q ´e um corpo ordenado para as opera¸c˜oes de soma e produto e para a rela¸c˜ao < restringidas de R.
Por outras palavras (de facto muito reduzidas, mas suficientes): a soma e o produto (bem como a diferen¸ca e o quociente) de n´umeros racionais ´e um n´umero racional. A existˆencia de n´umeros reais n˜ao racionais, ou seja, n´umeros irracionais ser´a discutida mais adiante na p´agina 115.
1.0.6
Subconjuntos de R. Parte I
Dados n´umeros reais a e b, os conjuntos definidos de seguida chamam-se intervalos de extremos a e b:
[a, b] := {x ∈ R| a ≤ x ≤ b} (1.14)
]a, b[ := {x ∈ R| a < x < b} (1.15)
[a, b[ := {x ∈ R| a ≤ x < b} (1.16)
]a, b] := {x ∈ R| a < x ≤ b} (1.17)
Em (1.14) o intervalo diz-se fechado, em (1.15) diz-se aberto, em (1.16) diz-se semi-fechado ´a esquerda ou semi-aberto `a direita, em (1.17) diz-se semi-fechado `a direita ou semi-aberto `a esquerda.
Parece-nos claro que, se b < a, todos os intervalos acima s˜ao vazios, i.e. s˜ao o conjunto vazio; se b = a, o primeiro (em (1.14))´e o conjunto singular {a} e todos os outros s˜ao vazios; se a < b nenhum dos intervalos ´e vazio nem singular, pois a+b
2
e 3a+b
4 est˜ao em todos eles e s˜ao distintos.
Todos os intervalos acima s˜ao limitados; mas definem-se ainda intervalos ilimita-dos, a saber: considerando que a ∈ R p˜oe-se
[a, +∞[ := {x ∈ R| a ≤ x} (1.18)
] − ∞, a] := {x ∈ R| a ≥ x} (1.19)
]a, +∞[ := {x ∈ R| a < x} (1.20)
] − ∞, a[ := {x ∈ R| a > x} (1.21)
Em (1.18) e (1.19) os intervalos dizem-se tamb´em fechados, nos outros dois casos dizem-se abertos.
Para al´em do intervalo ] − ∞, +∞[, que designa o pr´oprio conjunto R, n˜ao h´a mais intervalos que os j´a definidos.
110 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Defini¸c˜ao 1.0.1 Designemos por C um subconjunto n˜ao vazio de R e seja m um n´umero real.
1. m ´e um majorante de C se
∀x ∈ C x ≤ m.
C diz-se majorado ou limitado superiormente se tem um majorante.
2. m ´e um minorante de C se
∀x ∈ C x ≥ m.
C diz-se minorado ou limitado inferiormente se tem um minorante.
3. C diz-se limitado se for majorado e minorado, caso contr´ario diz-se ilimi-tado.
Teorema 1.0.11 Seja C um subconjunto n˜ao vazio de R.
1. As condi¸c˜oes seguintes s˜ao equivalentes
(a) C ´e majorado
(b) ∃a ∈ R C ⊆ ] − ∞, a]
(c) ∃a ∈ R C ⊆ ] − ∞, a[
2. As condi¸c˜oes seguintes s˜ao equivalentes
(a) C ´e minorado
(b) ∃a ∈ R C ⊆ [a, +∞[
(c) ∃a ∈ R C ⊆ ]a, +∞[
3. As condi¸c˜oes seguintes s˜ao equivalentes
(a) C ´e limitado
(b) Existem a, b ∈ R tais que C est´a contido em algum intervalo de extremos a e b.
(c) C est´a contido em algum intervalo limitado.
1.0. N ´UMEROS REAIS 111
Formas muito ´uteis de decidir se um conjunto ´e ou n˜ao limitado descrevem-se no teorema seguinte.
Teorema 1.0.12 Seja C um subconjunto n˜ao vazio de R. As condi¸c˜oes seguintes s˜ao equivalentes. 1. C ´e limitado 2. ∃m ∈ R+ ∀x ∈ C |x| < m 3. ∃m ∈ R+ C ⊆ ] − m, m[ 4. ∃m ∈ R+ ∀x ∈ C |x| ≤ m 5. ∃m ∈ R+ C ⊆ [−m, m]
Dem. (1 ⇒ 3 ⇒ 2) Como C ´e limitado por hip´otese, podemos tomar a, b ∈ R tais que
∀x ∈ C a ≤ x ≤ b.
Sejam m1 o m´aximo dos dois valores |a|, |b|, i.e. m1 = m´ax{|a|, |b|}, e m = m1+ 1.
Repare-se que m > 0. Como b ≤ |b| ≤ m1 < m, conclu´ımos
∀x ∈ C a ≤ x < m.
Por outro lado −|a| ≤ a; seja m2 o m´ınimo dos dois valores −|a|, −|b|; ´e f´acil verificar
que m2 = −m1 e que
−m = −(m1+ 1) = −m1− 1 = m2− 1 < m2 ≤ a.
Segue-se que
∀x ∈ C − m < x < m. isto ´e, vale 3. Mas esta mesma express˜ao ´e equivalente a
∀x ∈ C |x| < m,
portanto, em particular (3 ⇒ 2). ´E claro que se x < y tamb´em x ≤ y, pelo que (2 ⇒ 4). Mas |x| ≤ m ´e equivalente a x ∈ [−m, m], portanto 4 e 5 s˜ao equivalentes, em particular (4 ⇒ 5). Acontece que [−m, m] ⊆ ] − (m + 1), m + 1[ e portanto (5 ⇒ 1).
Prov´amos a seguinte cadeia de implica¸c˜oes
1 ⇒ 3 ⇒ 2 ⇒ 4 ⇒ 5 ⇒ 1.
112 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Teorema 1.0.13 Sejam A e B subconjuntos de R.
1. Se B ´e limitado e A ⊆ B, tamb´em A ´e limitado.
2. Se A e B s˜ao limitados.
(a) O conjunto definido por A + B := {a + b| a ∈ A ∧ b ∈ B} ´e limitado.
(b) O conjunto definido por A · B := {ab| a ∈ A ∧ b ∈ B} ´e limitado.
(c) O conjunto definido por A − B := {a − b| a ∈ A ∧ b ∈ B} ´e limitado.
(d) Para cada c ∈ R, o conjunto definido por cA := {ca| a ∈ A} ´e limitado. Certos majorantes e minorantes s˜ao especiais:
Defini¸c˜ao 1.0.2 Seja C um subconjunto n˜ao vazio de R.
1. Se C ´e limitado superiormente, o supremo de C ´e o menor majorante de C e designa-se sup C. Se o supremo de C ´e elemento de C, diz-se m´aximo de C e designa-se por m´axC.
2. Se C ´e limitado inferiormente, o ´ınfimo de C ´e o maior minorante de C e designa-se inf C. Se o ´ınfimo de C ´e elemento de C diz-se m´ınimo de C e designa-se por min C.
O m´aximo ou o m´ınimo de um conjunto podem n˜ao existir mesmo quando existem respectivamente o supremo ou o ´ınfimo; no entanto se existirem, s˜ao respectivamente o maior ou o menor elemento dele.
Lema 1.0.2 Todo o conjunto finito e n˜ao vazio de n´umeros reais tem m´aximo e m´ınimo, sendo em particular limitado.
Dem. Deixa-se como exerc´ıcio de aplica¸c˜ao do Princ´ıpio de Indu¸c˜ao ao n´umero de
elementos do conjunto. 2
O supremo e o ´ınfimo gozam das propriedades da maior importˆancia que se refor-mulam de seguida.
Teorema 1.0.14 Sejam C um subconjunto n˜ao vazio de R e m um n´umero real.
1. As seguintes condi¸c˜oes s˜ao equivalentes
(a) m = sup C
(b) m ´e majorante de C e
∀ε ∈ R+ ∃c ∈ C m − ε < c ≤ m. (1.22)
2. As seguintes condi¸c˜oes s˜ao equivalentes
(a) m = inf C
(b) m ´e minorante de C e
1.0. N ´UMEROS REAIS 113
Dem. Demonstramos apenas a segunda parte. Uma demonstra¸c˜ao da primeira pode fazer-se a partir desta trocando respectivamente inf por sup, minorante por majorante, maior por menor, < por >, ≥ por ≤ e + por −.
Suponhamos ent˜ao que vale 2.(a) i.e. m = inf C. Queremos concluir que vale a condi¸c˜ao 2.(b). Por defini¸c˜ao m ´e j´a minorante de C, de facto o maior minorante; portanto se ε > 0, como m < m + ε, m + ε n˜ao ´e minorante de C; da´ı existe algum elemento c de C tal que c < m+ε e, como m minora C, tamb´em m ≤ c e conclu´ımos m ≤ c < m + ε.
Finalmente suponhamos que vale 2.(b). Como, por hip´otese, m j´a ´e minorante de C, resta-nos provar que ´e o maior. Suponhamos que m0 ´e um minorante de C e
utilizemos o teorema 1.0.5 para mostrar que m0 ≤ m: para qualquer ε > 0, por
hip´otese, existe c ∈ C tal que c < m + ε; como m0 ´e minorante de C tem-se
m0 ≤ c < m + ε; por transitividade de <
∀ε ∈ R+ m0 < m + ε,
portanto, pelo teorema 1.0.5, m0 ≤ m. 2
1.0.7
Exerc´ıcios
Observa¸c˜ao: Nos exerc´ıcios que se seguem as propriedades enunciadas do ´ınfimo ou do supremo pressup˜oem a existˆencia de cada um deles.
1. Mostre que, para quaisquer n´umeros reais a, b,
(a) (a+b)−|a−b|2 = min{a, b}
(b) (a+b)+|a−b|2 = m´ax{a, b}
2. Seja A um conjunto n˜ao vazio de n´umeros reais e −A := {−x : x ∈ A}. Verifique que:
(a) b ´e majorante de A ⇔ −b ´e minorante de −A
(b) b ´e supremo de A ⇔ −b ´e ´ınfimo de −A
(c) b ´e m´aximo de A ⇔ −b ´e m´ınimo de −A
3. Determine, caso seja poss´ıvel, o ´ınfimo, m´ınimo, supremo e m´aximo de cada um dos seguintes subconjuntos de R:
(a) {x ∈ R :| x |< 2} (b) {x ∈ R : 1 <| 1 − x |≤ 2} (c) {x ∈ R : x2 < 2} (d) {x ∈ R : x2 ≤ x} (e) {x ∈ R : x <| x |} (f) {x ∈ R : ∃n ∈ N x = 1−n n } (g) Q ∩ ] − 1, 2] (h) {k 2n, k ∈ Z, n ∈ N} ∩ [1, 3[
4. Indique se s˜ao majorados, minorados ou limitados os seguintes subconjuntos de R: A = {x ∈ R : | x − 3 |= 2 | x |} B = ½ x ∈ R : x x−1 < x−1 x ¾
114 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Indique ainda, se existirem, o supremo, o ´ınfimo, o m´aximo e o m´ınimo de cada um desses conjuntos.
5. Sejam A = {−3, −2} ∪ (Q ∩ [0, 1] ) e B =] − 4, 2] ∪ ([0, 1] ∩ (R \ Q)). Indique, caso existam, os supremos e os ´ınfimos dos conjuntos A, B, A ∪ B e A ∩ B.
6. Sejam A e B conjuntos n˜ao vazios e limitados de n´umeros reais tais que A ⊆ B. Prove que inf B ≤ inf A ≤ sup A ≤ sup B.
7. Suponha que A e B s˜ao subconjuntos de R n˜ao vazios e limitados. Prove que:
(a) A + B ´e limitado
(b) sup(A + B) = sup A + sup B
(c) inf(A + B) = inf A + inf B
8. Suponha que ∅ 6= A ⊆ R. Dado c ∈ R, seja cA := {c a : a ∈ A}.
(a) Prove que, quando c 6= 0, cA ´e limitado se e apenas se A ´e limitado.
(b) Sendo c > 0, prove que:
i. sup(cA) = c sup A ii. inf(cA) = c inf A
(c) Enuncie e demonstre resultados an´alogos aos da al´ınea anterior para o caso c < 0.
(d) Mostre que a afirma¸c˜ao em (a) n˜ao ´e verdadeira se c = 0.
9. A e B designam duas partes n˜ao vazias e majoradas de R. Diga, justificando, se s˜ao verdadeiras ou falsas as seguintes proposi¸c˜oes:
(a) E condi¸c˜ao necess´aria para A ⊆ B que sup A ≤ sup B´
(b) E condi¸c˜ao suficiente para A ⊆ B que sup A ≤ sup B´
(c) sup(A ∪ B) = sup A + sup B
(d) sup(A ∪ B) = m´ax {sup A, sup B}
(e) sup(A ∩ B) = min {sup A, sup B}
10. Sejam A e B conjuntos n˜ao vazios e limitados de n´umeros reais tais que B ⊆ A. Suponha que, para cada x ∈ A, existe y ∈ B tal que x ≤ y. Prove que nestas condi¸c˜oes se tem sup B = sup A.
11. Sejam A e B conjuntos n˜ao vazios e limitados de n´umeros reais tais que para todo o x ∈ A e todo o y ∈ B se tem x ≤ y. Prove que sup A ≤ inf B. Prove ainda que sup A = inf B se e s´o se para todo o ε > 0 existem x ∈ A e y ∈ B tais que y − x < ε.
12. Sejam c um n´umero real positivo e A um subconjunto n˜ao vazio de R, satis-fazendo a seguinte condi¸c˜ao:
x, y ∈ A ⇒| x − y |< c
(a) Mostre que sup A − inf A ≤ c.
1.0. N ´UMEROS REAIS 115
1.0.8
Subconjuntos de R. Parte II. Completude
Axioma de Completude
AC Todo o subconjunto n˜ao vazio e majorado de R tem supremo.
Por verificar este axioma , diz-se que R ´e um corpo ordenado completo. O termo ”completo”pode tamb´em ter outro significado explicitado no teorema 4.2.7.
Teorema 1.0.15 O conjunto dos n´umeros naturais n˜ao ´e limitado superiormente. Dem. J´a vimos que N ´e limitado inferiormente (teorema 1.0.7). N˜ao sendo vazio — pois 1 ∈ N — se fosse limitado teria supremo, de acordo com o Axioma de Completude. Suponhamos ent˜ao que N ´e limitado e digamos que sup N = s ∈ R; s n˜ao ´e concerteza m´aximo, porque, s < s+1 e s+1 ∈ N se s ∈ N; pelo teorema 1.0.14, existe m ∈ N tal que s − 1
2 < m < s; mas ent˜ao tamb´em s − 12 < m < m + 1 < s e
pode concluir-se 1 = (m + 1) − m < s − (s −1 2) =
1
2 ou 1 < 1
2, o que n˜ao ´e verdade.
Assim N n˜ao ´e limitado superiormente, logo tamb´em n˜ao ´e limitado. 2 Uma forma equivalente deste teorema (1.0.15) ´e
Teorema 1.0.16 (Propriedade Arquimediana) O corpo R ´e arquimediano i.e.
∀a, b ∈ R+ ∃n ∈ N b < na (1.24)
Dem. Suponhamos que a, b ∈ R e que 0 < a < b; existe n ∈ N verificando 1
n < ab,
pelo teorema anterior (4.2.4); mas ent˜ao b < na, porque a, b > 0 e o produto ´e
semi-mon´otono. 2
Pode garantir-se a existˆencia de n´umeros irracionais utilizando o Axioma de Com-pletude. Um exemplo cl´assico ´e
s := sup{x ∈ R| x2 < 2}.
Este supremo existe porque o conjunto em quest˜ao, chamemos-lhe R, n˜ao ´e vazio — 1 ∈ R — e ´e concerteza majorado, por exemplo por 4 (ou mesmo apenas por 2, ou por 1, 5). Sendo f´acil provar que s2 = 2 e que 0 < s isto ´e que s =√2, e provando-se
de seguida que 2 n˜ao tem raiz quadrada em Q, conclui-se que √2 6∈ Q e obt´em-se uma demonstra¸c˜ao de que existem n´umeros irracionais.
Na verdade, h´a infinitos n´umeros irracionais e poder´ıamos j´a provar, utilizando o facto de √2 ser irracional, mas n˜ao s´o, o seguinte:
Teorema 1.0.17 (de Densidade) Estritamente entre quaisquer dois n´umeros reais distintos existem um n´umero racional e um n´umero irracional.
Dem. Suponha-se que a, b ∈ R e que a < b; tome-se n ∈ N tal que 1
n < b−a√2; o que
116 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS 1. Se a ∈ Q, ent˜ao (a) a < a + 1 n < a + (b − a) < b e a + 1 n ∈ Q (b) a < a + 1 n √ 2 < a + (b − a) < b e a + 1 n √ 2 6∈ Q. 2. Se a 6∈ Q, ent˜ao (a) a < a + 1 n < a + (b − a) < b e a + n1 6∈ Q. (b) Suponha-se que 0 < a e seja
k := min{m ∈ N| na ≤ m · 1 = m};
tal k existe pela propriedade arquimediana e por N ser bem ordenado. Tem-se k − 1 n < a ≤ k n < a + 1 n < b & k n ∈ Q.
(c) Se a ≤ 0, aplique-se o que acab´amos de ver tomando −b em vez de a e −a em vez de b; −k
n ´e o n´umero racional pretendido. 2
1.1
N´
umeros complexos
1.1.1
Preliminares
Esta ´e de certo modo uma revis˜ao de ´Algebra Linear pelo que seremos parcos em demonstra¸c˜oes.
Defini¸c˜ao 1.1.1 O conjunto C dos n´umeros complexos ´e o menor corpo que prolonga propriamente R.
De modo a evitar trivialidades de nota¸c˜ao, em face da defini¸c˜ao anterior, continuemos a designar a soma e o produto respectivamente por + e · (omitido este s´ımbolo quando conveniente)
1.1. N ´UMEROS COMPLEXOS 117 Teorema 1.1.1 C ´e o conjunto dos n´umeros z da forma
z = a + bi (a, b ∈ R) (1.25)
i2 = −1 (1.26)
e verifica-se o seguinte
1. A soma e o produto s˜ao opera¸c˜oes bin´arias comutativas, associativas, com ele-mentos neutros – 0 para a soma e 1 para o produto – e o produto ´e distributivo relativamente `a soma.
2. Sejam quais forem a, b, c, d ∈ R,
(a + bi) + (c + di) = (a + b) + (c + d)i (1.27)
(a + bi) · (c + di) = (ac − bd) + (ad + bc)i (1.28)
−(a + bi) = −a − bi (1.29)
a + bi = 0 ⇔ a = 0 ∧ b = 0 (1.30) a + bi = c + di ⇔ a = c ∧ b = d (1.31) (a + bi)−1 = a a2+ b2 − b a2+ b2i (a 6= 0 ∨ b 6= 0) (1.32) i2n = (−1)n (n ∈ N 0) (1.33) i2n+1 = (−1n)i (n ∈ N0) (1.34)
Defini¸c˜ao 1.1.2 Seja z = a + bi ∈ C (a, b ∈ R)
1. A parte real e a parte imagin´aria de z s˜ao respectivamente <(z) = a e =(z) = b.
2. O conjugado de z designa-se z e define-se por z = a − bi
3. O valor absoluto ou m´odulo de z, designa-se por |z| e define-se por |z| = √a2+ b2 Teorema 1.1.2 1. Tome z ∈ C. <(z) = z + z 2 (1.35) =(z) = z − z 2i (1.36) z = z ⇔ z ∈ R (1.37) |z|2 = zz (1.38) z−1 = z |z|2 (z 6= 0) (1.39)
2. Qualquer das opera¸c˜oes acima definida, para C prolonga a correspondente opera¸c˜ao em R em particular o valor absoluto de um n´umero real ´e o seu valor absoluto como n´umero complexo; al´em disso
118 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
1.1.2
Algumas particularidades
As fun¸c˜oes exponencial, seno e co-seno, respectivamente exp, sen, cos : C → C prolongam as correspondentes fun¸c˜oes reais de vari´avel real quando definidas do seguinte modo
exp(z) = ez = ea¡cos b + isen b¢ ¡(a, b ∈ R)¢ (1.41)
cos(z) = eiz+ e−iz 2 (z ∈ C) (1.42) sen(z) = eiz− e−iz 2i (z ∈ C) (1.43) Teorema 1.1.3 ez+w = ez· ew (z, w ∈ C) (1.44) sen2z + cos2z = 1 (z ∈ C) (1.45) eit = cos t + isen t (t ∈ R) (1.46) |eit| = 1 (t ∈ R) (1.47) (eit)−1 = e−it = eit (t ∈ R) (1.48) Teorema 1.1.4 (de Euler)
eiπ + 1 = 0.
1.1.3
Teorema fundamental da ´
Algebra
Teorema 1.1.5 Qualquer polin´omiop(z) = a0 +
n
X
k=1
anzn (ai, z ∈ C; 0 ≤ i ≤ n) (1.49)
de grau n ≥ 1 (an6= 0) tem pelo menos uma raiz em C, isto ´e, existe w ∈ C tal que
p(w) = 0; em particular existem zi, (1 ≤ i ≤ n) tais que
p(z) = an n
Y
i=1
1.1. N ´UMEROS COMPLEXOS 119
Mais espec´ıficamente ainda
Teorema 1.1.6 Quando todos os coeficientes ai em (1.49) s˜ao reais
1. ∀u ∈ C [p(u) = 0 ⇒ p(u) = 0]
2. Se p em (1.49) s´o tem ra´ızes imagin´arias distintas
αj± βji (αj, βj ∈ R, βj 6= 0; 1 ≤ j ≤ k ∈ N)
com multiplicidades respectivas mj (
Pk j=1mj = n), ent˜ao p(z) = an k Y j=1 ¡ (z − αj)2+ βj2 ¢mj
3. Se p em (1.49) s´o tem ra´ızes reais distintas αj (1 ≤ j ≤ k) de multiplicidades
respectivas mj ( Pk j=1mj = n), ent˜ao p(z) = an k Y j=1 (z − αj)mj.
4. Se p em (1.49) tem k ra´ızes reais distintas rj e m ra´ızes imagin´arias distintas
nunca conjugadas α`+ β`i com multiplicidades respectivas mj e n`, sendo k X j=1 mj + 2 m X `=1 n` = n, ent˜ao p(z) = an k Y j=1 (z − rj)mj k Y `=1 ¡ (z − α`)2+ β`2 ¢m`
120 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
1.2
Continuidade e diferenciabilidade
Sejam a e b n´umeros reais tais que a < b e f :]a, b[→ R uma fun¸c˜ao (real de vari´avel real); suponha-se ainda que β ∈ R.
Defini¸c˜ao 1.2.1 Para c ∈ [a, b],
β := limite de f (x) quando x tende para c := lim x→cf (x) significa ∀ε > 0 ∃δ > 0 ∀x ∈]a, b[ [0 < |x − c| < δ ⇒ |f (x) − β| < ε]. Se c ∈]a, b[, f diz − se cont´ınua em c quando lim x→cf (x) = f (c) ou seja ∀ε > 0 ∃δ > 0 ∀x ∈]a, b[ [|x − c| < δ ⇒ |f (x) − f (a)| < ε] f diz-se cont´ınua se for cont´ınua em todos os elementos do seu dom´ınio. Para harmonizarmos conceitos,
Defini¸c˜ao 1.2.1 uma fun¸c˜ao f :[α, β] ⊆ R→R dir-se-´a cont´ınua quando existem um intervalo ]a, b[ e uma fun¸c˜ao cont´ınua ˜f :]a, b[→ R tais que [α, β] ⊂]a, b[ e a restri¸c˜ao ˜f : [α, β] → R ´e precisamente f .
1.2.1
Exerc´ıcios
Suponha que f : [a, b] ⊆ R → R, que a < c < b, que
limx→cf (x) = ` ∈ R; prove que
1. Se ` < k ∈ R, ent˜ao existe ε > 0. tal que
]c − ε, c + ε[ ⊆ [a, b] (1.51)
∀x ∈]c − ε, c + ε[ f (x) < k. (1.52)
2. Se ` > k ∈ R, ent˜ao existe ε > 0. tal que
]c − ε, c + ε[ ⊆ [a, b] (1.53)
∀x ∈]c − ε, c + ε[ f (x) > k. (1.54)
3. Interprete a frase ”desigualdade em ponto de continuidade estende-se a uma vizinhan¸ca do ponto”.
1.2. CONTINUIDADE E DIFERENCIABILIDADE 121 4. Demonstre o teorema 1.2.1.
Teorema 1.2.1 Suponha-se que f, g : [a, b] ⊆ R → R, que α ∈ R, que c ∈]a, b[ e que lim x→cf (x) = ` x→climg(x) = β. 1. limx→c(αf + g)(x) = α` + β 2. limx→c(f · g)(x) = ` · β 3. Se β 6= 0, ent˜ao limx→c ³ f g ´ (x) = ` β
em particular combina¸c˜oes lineares (de coeficientes reais) de fun¸c˜oes cont´ınuas s˜ao cont´ınuas, e quocientes de fun¸c˜oes cont´ınuas s˜ao cont´ınuos em todos os pontos onde o denominador se n˜ao anula.
Teorema 1.2.2 Suponha que as fun¸c˜oes f : [a, b] ⊆ R → R e g : [c, d] ⊆ R → [a, b] s˜ao cont´ınuas, ent˜ao f ◦ g : [c, d] → R tamb´em ´e cont´ınua.
Dem. (muito esquem´atica)
lim
x→y(f ◦ g)(x) = g(x)→g(y)lim f (g(x))
= f (g(y))
2
Teorema 1.2.3 (de Bolzano) Se a fun¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R ´e continua e f (a) < 0 < f (b), ent˜ao existe c ∈]a, b[ tal que f (c) = 0.
Dem. c = sup{x ∈]a, b[¯¯ ∀t ∈ [a, x] f(t) < 0}. 2
1.2.2
Exerc´ıcios
Suponha que f : [a, b] ⊆ R → R ´e continua e prove
1. Se f (a) < k < f (b), existe c ∈]a, b[ tal que f (c) = k.
2. Se f (a) > k > f (b), existe c ∈]a, b[ tal que f (c) = k.
3. Se f (a) < a e f (b) > b, existe c ∈]a, b[ tal que f (c) = c.
122 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Teorema 1.2.4 Suponha que f : [a, b] ⊆ R → R ´e continua. Ent˜ao f ´e uniforme-mente cont´ınua, isto ´e
∀ε > 0 ∃δ > 0 ∀x, y ∈ [a, b] £|x − y| < δ ⇒ |f (x) − f (y)| < ε¤. (1.55) Dem. Suponha-se que f n˜ao ´e uniformemente cont´ınua, ou seja, para certo ε > 0
∀δ > 0 ∃x, y ∈ [a, b] £0 < x − y < δ ∧ |f (x) − f (y)| > ε¤. (1.56) Escolham-se para cada n ∈ N, xn, yn ∈ [a, b] tais que
xn, yn ∈ [a, b] ∧ 0 < xn− yn<
1
n ∧ |f (xn) − f (yn)| > ε (n ∈ N) (1.57) e seja
c = sup{xn| n ∈ N}.
Ora c ∈ [a, b] onde f ´e cont´ınua, pelo que existe δ > 0 tal que ∀x ∈ [a, b] |c − x| < δ ⇒ |f (x) − f (c)| < ε
2 Al´em disto,
para cada τ > 0, o {m ∈ N| 0 ≤ c − xm < τ } ´e infinito (exerc´ıcio 7),
pelo que podemos escolher m, n ∈ N e xm tais que
1 n < δ 4 (1.58) m > n (1.59) 0 ≤ c − xm < 1n < δ 4 < δ (1.60) Tem-se ent˜ao |c − ym| < c − xm + (xm− ym) < 1 n + 1 m < δ 2 < δ |f (xm) − f (ym)| ≤ |f (xm) − f (c)| + |f (c) − f (ym)| < ε |f (xm) − f (ym)| < ε ∧ xm− ym ≤ 1 m
o que claramente contradiz a condi¸c˜ao (1.57), assim a hip´otese de n˜ao continuidade uniforme (condi¸c˜ao (1.56)) ´e contradit´oria, logo inaceit´avel. 2
1.2. CONTINUIDADE E DIFERENCIABILIDADE 123 Defini¸c˜ao 1.2.2 Uma fun¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R diz-se
1. Limitada superiormente quando existe M ∈ R tal que ∀x ∈ [a, b] f (x) ≤ M
2. Limitada inferiormente quando existe m ∈ R tal que ∀x ∈ [a, b] m ≤ f (x)
3. Limitada quando for limitada superior e inferiormente. Exerc´ıcio
Mostre que qualquer combina¸c˜ao linear (de coeficientes reais) de fun¸c˜oes igualmente limitadas ´e uma fun¸c˜ao limitada do mesmo modo.
Teorema 1.2.5 Uma fun¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R ´e limitada se e apenas se existe K > O tal que
∀x ∈ [a, b] |f (x)| ≤ K Dem. Basta observar que, seja qual for C ⊆ R,
C ⊆ [m, M] ⇒ ∀c ∈ C |c| ≤ m´ax{|m|, |M|} ∀K > 0 [∀c ∈ C |c| ≤ K] ⇔ C ⊆ [−K, K]
2
Teorema 1.2.6 (de Weierstrass) Uma fun¸c˜ao cont´ınua f : [a, b] ⊆ R → R ´e
1. Limitada
2. Tem m´aximo e tem m´ınimo, isto ´e existem m´ax{f (x)| a ≤ x ≤ b}
min{f (x)| a ≤ x ≤ b}
Dem. Quanto a 1. basta demonstrar que vale a condi¸c˜ao de limita¸c˜ao superior e aplic´a-la de seguida a a −f . Suponha-se ent˜ao que f : [a, b] → R ´e cont´ınua mas os seus valores n˜ao tˆem majorante, por outras palavras f n˜ao ´e majorada; em particular f n˜ao ´e majorada em algum dos intervalos [a,a+b
2 ] ou [
a+b
2 , b]; seja qual
for o caso, existem ent˜ao
Um intervalo I1 := [a1, b1] ⊆ I0 := [a, b] de amplitude b1 − a1 ≤ b−a2 ,
um ponto x1 ∈ I1 tal que, por exemplo, f (x1) > 1.
f n˜ao ´e majorada em algum dos intervalos [a1,a1+b2 1] ou [a1+b2 1, b1];
124 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
existe um intervalo I2 := [a2, b2] ⊆ I1 de amplitude b2− a2 ≤ b−a22
e existe um ponto x2 ∈ I2 tal que f (x2) > 1 + f (x1) > 2.
Por este processo poderia obter-se um {xn| n ∈ N} ⊆ [a, b]} tal que, para qualquer
n ∈ N,
0 < |xn+1− xn| ≤
b − a 2n
|f (xn+1) − f (xn)| > 1.
Tal contradiz a continuidade uniforme de f , pois b−a
2n pode tornar-se arbitrariamente
pequeno (teoremas 1.0.15 e 1.0.8), portanto f tem de ser majorada. Para demonstrar 2. tenha-se em conta que
i. R ´e completo para <
ii. sup{f (x)| a ≤ x ≤ b} = m´ax{f (x)| a ≤ x ≤ b}, por f ser cont´ınua. 2
Defini¸c˜ao 1.2.2 Para c ∈]a, b[,
f diz − se diferenci´avel em c com derivada f0(c)
se f0(c) := lim
x→c
f (x) − f (c) x − c
f diz-se diferenci´avel se for diferenci´avel em todos os elementos do seu dom´ınio.
Teorema 1.2.7 A fun¸c˜ao f :]a, b[⊆ R → R ´e diferenci´avel em c ∈]a, b[ se e apenas se existirem um n´umero real f0(c) e fun¸c˜oes ε :]a, b[→ R e ² :]a − c, b − c[→ R
tais que
∀x ∈]a, b[ f (x) = f (c) + f0(c)(x − c) + ε(x)(x − c) & lim
x→cε(x) = 0 (1.61)
ou
∀h ∈]a − c, b − c[ f (c + h) = f (c) + f0(c)h + ²(h)h & lim
h→0²(h) = 0 (1.62) i.e. lim x→c f (x) − f (c) − f0(c)(x − c) x − c = 0. (1.63) ou ainda lim h→0 f (c + h) − f (c) − f0(c)h h = 0. (1.64)
1.2. CONTINUIDADE E DIFERENCIABILIDADE 125
Dem. A equivalˆencia entre as condi¸c˜oes (1.61) e (1.63) resulta de se poder tomar ε(x) := f (x) − f (c) − f0(c)(x − c)
x − c =
f (x) − f (c)
x − c − f
0(c);
observe-se ent˜ao que lim x→cε(x) = 0 ⇔ x→clim · f (x) − f (c) x − c − f 0(c) ¸ = 0 ⇔ f0(c) = lim x→c f (x) − f (c) x − c e aqui est˜ao trˆes formas de definir f0(c). Analogamente, a equivalˆencia entre as
condi¸c˜oes (1.62) e (1.64) resulta de se poder tomar ²(h) := f (c + h) − f (c) − f0(c)h
h =
f (c + h) − f (c)
h − f
0(c),
observando-se de seguida que lim h→0²(h) = 0 ⇔ limh→0 · f (c + h) − f (c) h − f 0(c) ¸ = 0 ⇔ f0(c) = lim h→0 f (c + h) − f (c) h
que s˜ao mais trˆes formas de definir f0. 2
Observa¸c˜ao 1.2.1 Quando c = a ou c = b, f diz-se diferenci´avel em c se tem um prolongamento ef : [α, β] → R com [a, b] ⊂ [α, β] ⊆ R diferenci´avel em c.
´
E f´acil demonstrar que
Teorema 1.2.8 Se uma fun¸c˜ao ´e diferenci´avel (resp. em algum ponto do seu dom´ı-nio) ´e cont´ınua (resp. nesse mesmo ponto).
Teorema 1.2.9 Suponha que f, g :]a, b[→ R s˜ao diferenci´aveis em c ∈]a, b[ e α ∈ R, ent˜ao (αf + g)0(c) = αf0(c) + g0(c) (f g)0(c) = f0(c)g(c) + f (c)g0(c) µ f g ¶0 (c) = f 0(c)g(c) − f (c)g0(c) g2(c) ¡ g(c) 6= 0¢
126 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Defini¸c˜ao 1.2.3
Um extremante relativo da fun¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R ´e um ponto x0 ∈ [a, b] para
o qual existe ε > 0 tal que pelo menos uma das duas condi¸c˜oes seguintes se verifica
1. Para qualquer x ∈]x0− ε, x0 + ε[⊆ [a, b], f (x) ≤ f (x0), caso em que x0 se diz
maximizante e f (x0) se diz m´aximo (ambos locais)
2. Para qualquer x ∈]x0 − ε, x0 + ε[⊆ [a, b], f (x) ≥ f (x0),caso em que x0 se diz
minimizante e f (x0) se diz m´ınimo (ambos locais)
3. Para qualquer x ∈ [a, b], f (x) ≤ f (x0), caso em que x0 se diz maximizante
e f (x0) se diz m´aximo (ambos absolutos)
4. Para qualquer x ∈ [a, b], f (x) ≥ f (x0),caso em que x0 se diz minimizante e
f (x0) se diz m´ınimo (ambos absolutos)
5. Quando as condi¸c˜oes se d˜ao com desigualdades estritas em pontos diferentes de x0, o extremante diz-se estrito.
Teorema 1.2.10 (de Fermat)
Se f (x0) ´e extremante local de f : [a, b] ⊆ R → R e f ´e diferenci´avel em x0 ent˜ao
f0(x
0) = 0.
Dem. Para simplificar ideias, suponhamos que
]x0− ε, x0+ ε[⊂ [a, b] & ∀x ∈]x0− ε, x0+ ε[ f (x) ≤ f (x0).
Tem-se, para qualquer x ∈]x0− ε, x0+ ε[,
x < x0 ⇒ f (x) − f (x0) x − x0 ≥ 0 (1.65) x > x0 ⇒ f (x) − f (x0) x − x0 ≤ 0 (1.66) f0(x 0) = lim x→x0 f (x) − f (x0) x − x0 ≥ 0 ≥ lim x→x0 f (x) − f (x0) x − x0 = f0(x 0) (1.67) f0(x 0) = 0 (1.68) 2
Teorema 1.2.11 (de Rolle)
Se a fun¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R ´e cont´ınua, ´e diferenci´avel em ]a, b[ e f (a) = f (b), existe c ∈]a, b[ tal que f0(c) = 0
1.2. CONTINUIDADE E DIFERENCIABILIDADE 127
Dem. Sendo cont´ınua, f tem extremos absolutos (teorema 1.2.6) Se f (a) ´e um desses extremos, ent˜ao
1. Ou ´e simultaneamente m´aximo e m´ınimo absolutos, f ´e constante e f0 ≡ 0
em ]a, b[
2. Ou ´e apenas de qualquer dos outros tipos, o outro extremo ocorre em algum c ∈]a, b[ e f0(c) = 0, pelo teorema 1.2.10
Se f (a) n˜ao ´e extremo qualquer dos extremos ocorre em ]a, b[ e aplica-se de novo
a´ı o teorema de Fermat 1.2.10, como em 2. 2
O teorema seguinte costuma designar-se por teorema de Lagrange, dos Acr´escimos Finitos, da M´edia ou do Valor M´edio.
Teorema 1.2.12 Se a fun¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R ´e cont´ınua e ´e diferenci´avel em ]a, b[, ent˜ao existe c ∈]a, b[ tal que
f0(c) = f (b) − f (a)
b − a . (1.69)
Dem. Considere-se a fun¸c˜ao auxiliar h : [a, b] → R dada por h(x) = [f (x) − f (a)](b − a) − [f (b) − f (a)](x − a.)
h ´e cont´ınua e ´e diferenci´avel em ]a, b[ e ainda h(a) = h(b) = 0; pelo teorema de Rolle, existe c ∈]a, b[ tal que h0(c) = 0; como assim
0 = h0(c) = f0(c)(b − a) − [f (b) − f (a)],
o teorema fica demonstrado resolvendo a equa¸c˜ao em ordem a f0(c). 2
Um corol´ario importante
Teorema 1.2.13 Se a fun¸c˜ao a fun¸c˜ao f :]a, b[→ R ´e diferenci´avel e f0(x) > 0 (a < x < b) (resp. f0(x) < 0 (a < x < b)) ent˜ao ´e estritamente
crescente (resp. decrescente).
Dem. Na primeira hip´otese f (y) − f (x) tem o mesmo sinal que y − x; na segunda
128 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
Teorema 1.2.14 (de Cauchy-l’Hˆopital) Sejam f, g fun¸c˜oes reais de vari´avel real diferenci´aveis em algum intervalo ]a, b[ e c um elemento de ∈]a, b[ tal que
lim x→cf (x) = limx→cg(x) = 0 ou tal que lim x→cf (x) = limx→cg(x) = ∞. Tem-se lim x→c f0(x) g0(x) = L ∈ R ∪ {−∞, +∞} ⇒ limx→c f (x) g(x) = L
Dem. Vejamos o caso em que L ∈ R, f (c) = g(c) = 0, f e g s˜ao de classe C1 e
g0(c) 6= 0, pelo que L = lim x→c f0(x) g0(x) = f0(c) g0(c). lim x→c f (x) g(x) = limx→c f (x) − f (c) g(x) − g(c) = lim x→c f (x)−f (c) x−c g(x)−g(c) x−c = f 0(c) g0(c) = L.
Um estudo completo deste teorema pode encontrar-se em [2, Sec. 7.12 ff]. 2
1.2.3
Exerc´ıcios
1. Mostre que, se limx→cf (x) = α ∈ R e limx→c[f (x) + g(x)] = β ∈ R, ent˜ao
limx→cg(x) = β − α.
2. Calcule os seguintes limites:
(a) limx→0 senxx . (b) limx→0 e
x−1
x . (c) limx→0 log x+1x .
(d) limx→0 x−arctanxx3 .
(e) limx→0 cosx−e
− x22
x4 .
3. Suponha que f (x) := ex2−e2
− x2 (x ∈ R)
(a) Mostre que 0, e e −e s˜ao extremantes locais de f , calcule os extremos locais de f e classifique-os.
(b) Mostre que a equa¸c˜ao f (x) = 0 tem quatro solu¸c˜oes sim´etricas duas a duas e designe-as por α, −α, β, −β, sendo 0 < α < β.
1.2. CONTINUIDADE E DIFERENCIABILIDADE 129 (c) Qual o dom´ınio da fun¸c˜ao x 7→ log[f (x)]?g
(d) Decida se o gr´afico de g tem ou n˜ao ass´ımptotas (OBS: Repare que g ´e par).
4. Suponha que f (x) := ex2−1 para qualquer x ∈ R.
(a) Mostre que a recta r de equa¸c˜ao y = x
2 ´e tangente ao gr´afico de f no
ponto (2, 1).
(b) Determine a ´area da regi˜ao plana limitada pelo gr´afico de f , pela recta r da al´ınea anterior e pelo eixo dos yy.
5. (a) Suponha que f e g s˜ao fun¸c˜oes diferenci´aveis no intervalo I e que f (x) > 0 para todo o x ∈ I. Prove que se
h(x) = f (x)g(x) := eg(x)log(f (x)), ent˜ao h0(x) = g(x) · f (x)g(x)−1· f0(x) + f (x)g(x)· log(f (x)) · g0(x). (b) Calcule f0(x), sendo f (x) = (x2+ 1)2x−1. 6. Calcule (a) lim x→0 4x− 3x x (b) lim x→+∞(e 3−xlog x) (c) lim x→+∞ ex− 1 x3+ 4x (d) lim x→0+(2x 2+ x)x (e) lim x→+∞(3x + 9) 1 x (f) lim x→1 1 − x log (2 − x) (g) lim x→+∞ log x xp com p ∈ R +
7. Prove que, na demonstra¸c˜ao do teorema 1.2.4,
para cada τ > 0, o {m ∈ N| 0 ≤ c − xm < τ } ´e infinito. 8. Demonstre o teorema 1.2.9.
9. Prove que qualquer combina¸c˜ao linear, com coeficientes reais, de fun¸c˜oes uni-formemente cont´ınuas ´e uniuni-formemente cont´ınua.
130 CAP´ITULO 1. FUNDAMENTOS
1.3
Integra¸c˜
ao
Nesta sec¸c˜ao f : [a, b] ⊆ R → R designa uma fun¸c˜ao limitada e
∀x ∈ [a, b] m ≤ f (x) ≤ M (1.70)
Defini¸c˜ao 1.3.1 Sejam n ∈ N e P = {a = x0 < x1 < · · · < xn= b} uma parti¸c˜ao
de [a, b].
1. A soma superior de f para a parti¸c˜ao P ´e dada por S(f, P) = n−1 X i=0 sup x∈[xi,xi+1] f (x)(xi+1− xi)
2. A soma inferior de f para a parti¸c˜ao P ´e dada por I(f, P) = n−1 X i=0 inf x∈[xi,xi+1] f (x)(xi+1− xi)
3. f diz-se integr´avel (em [a, b]) quando
sup©I(f, P)| P ´e parti¸c˜ao de [a, b]} = inf©S(f, P)| P ´e parti¸c˜ao de [a, b]ª Este supremo (ou ´ınfimo) diz-se o integral de f (em [a, b]) e nota-seRabf (x)dx
Observa¸c˜ao 1.3.1 Com esta defini¸c˜ao de integral ´e aparente que
Quando f ´e integr´avel e f (x) ≥ 0 (a ≤ x ≤ b), Rabf (x)dx pode entender-se como medida da ´area da regi˜ao de R2 delimitada pelo gr´afico
de f e o eixo dos xx entre as rectas de equa¸c˜oes x = a & x = b.
Teorema 1.3.1
1. Quando f ´e integr´avel, sejam quais forem as parti¸c˜oes P, Q de [a, b] m(b − a) ≤ I(f, P) ≤
Z b
a
f (x)dx ≤ S(f, Q) ≤ M(b − a) (1.71)
2. f ´e integr´avel sse para qualquer ε > 0, existe uma parti¸c˜ao P tal que S(f, P) − I(f, P) < ε.
3. Se f ´e cont´ınua, ent˜ao
(a) f ´e integr´avel.
1.3. INTEGRAC¸ ˜AO 131
Dem. A ´unica parte eventualmente dif´ıcil ´e a n´umero 2 (exerc´ıcio 7). Quanto `as outras partes:
1. As duas desigualdades centrais resultam da pr´opria de defini¸c˜ao de integral; a primeira desigualdade obt´em-se de
m ≤ inf
x∈[xi,xi+1]
f (x) (1 ≤ i < n); a ´ultima desigualdade obt´em-se de
sup
x∈[xi,xi+1]
f (x) ≤ M (1 ≤ i < n).
3(a) Resulta de 2. e do facto de f ser uniformemente cont´ınua (teorema 1.2.4). 3(b) Pode deduzir-se de 1 e dos teorema de Bolzano e de Weierstrass pois
min{f (x)| x ∈ [a, b]} ≤ 1 b − a Z b a f (x)dx ≤ m´ax{f (x)| x ∈ [a, b]} 2
Teorema 1.3.2 Suponha-se que as fun¸c˜oes f, g : [a, b] → R s˜ao integr´aveis e que α ∈ R. Ent˜ao
1. αf + g : [a, b] → R ´e integr´avel e Z b a αf (x) + g(x)dx = α Z b a f (x)dx + Z b a g(x)dx (1.72)
2. Se para qualquer x ∈ [a, b] f (x) ≤ g(x), ent˜ao Z b a f (x)dx ≤ Z b a g(x)dx
3. |f | : [a, b] → R ´e integr´avel e ¯ ¯ ¯ ¯ Z b a f (x)dx ¯ ¯ ¯ ¯ ≤ Z b a |f (x)|dx (1.73)
4. m´ax{f, g} : [a, b] → R ´e integr´avel.
5. min{f, g} : [a, b] → R ´e integr´avel.
6. f2 : [a, b → R ´e integr´avel.
7. f · g : [a, b] → R ´e integr´avel. Dem. Exerc´ıcio 2.