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Ciênc. saúde coletiva vol.20 número12

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Academic year: 2018

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A revolução do envelhecimento

O envelhecimento da população traz consigo significativas mudanças concernentes à importância relati-va das doenças. Da situação que prerelati-valeceu no século passado, quando eram preponderantes as doenças agudas, estamos agora passando para uma época em que as crônicas estão prevalecendo cada vez mais. O sistema de saúde centrado em hospitais, dos séculos XIX e XX, criado para lidar com as doenças agudas e, principalmente, com as infecciosas, é inadequado para a resposta às necessidades de tratamento continuado, por prazo extenso, dos doentes crônicos. Precisamos reorganizar o sistema de saúde de modo a centrá-lo no lugar onde cada pessoa vive, ou seja, em seu lar. O sistema de saúde deverá, portanto, mudar do atual modelo centrado em hospitais, para um modelo centrado na comunidade.

Tendo em vista que a maioria das doenças crônicas é evitável, a promoção da saúde e a prevenção da doença deverão merecer uma atenção prioritária. Promover hábitos saudáveis de vida é uma ação de fun-damental importância para se diminuir os encargos futuros associados às doenças crônicas. Mas a ação de promover a saúde deve ir mais além, focando também na moradia, no emprego, na educação, na renda e no meio ambiente, questões estas que constituem determinantes fortes para a saúde.

O atendimento básico é essencial para se garantir um adequado seguimento dos pacientes portadores de doenças crônicas, permitindo acompanhar a evolução da doença e o ajustamento no tratamento, evitando-se assim a utilização indevida e a deterioração das salas de emergência e hospitais. Os médicos e outros profis-sionais de saúde deverão ser apoiados por equipes geriátricas, visando prover um atendimento especializado para os frágeis idosos que sofrem de declínio funcional e deterioração aguda. Os serviços geriátricos deverão estar disponíveis não apenas em instituições (como unidades de avaliação geriátrica ou unidades de reabili-tação), mas também na comunidade [sob forma de day-hospitals (hospitais de atendimento abrangente em um mesmo dia), day-centers (centros de atendimento abrangente em um mesmo dia), clínicas ambulatoriais, e clínicas de reabilitação da memória].

O atendimento e os serviços necessários para atender às pessoas que sofrem de doenças crônicas vão além do tratamento médico e, por conseguinte, este deverá ter um papel mais marginal. A incapacitação por doença crônica constitui, hoje, o motivo principal da utilização de tratamentos e serviços de saúde. Nosso objetivo deverá ser o de otimizar a autonomia individual, reduzindo a incapacitação mediante o suporte necessário para atenuar as deficiências de cada indivíduo.

Os atuais sistemas de assistência médica estão muito longe de completar este processo de reorientação. Falta o acesso a serviços coordenados. A integração dos serviços de saúde e dos sociais, assim como a coorde-nação dos vários provedores envolvidos no atendimento de pessoas idosas frágeis constituem desafios signi-ficativos. Os modelos de plena integração, como o Programa de Assistência Abrangente para Idosos (PACE) nos Estados Unidos, ou de coordenação em assistência à saúde, como os Itens Preferenciais de Relatórios para Avaliações Sistemáticas e Meta-análises (PRISMA) que desenvolvemos, validamos e implantamos em Quebec, constituem soluções comprovadas para o aperfeiçoamento da continuidade na assistência à saúde. O atendimento em casa é manifestamente insuficiente, proporcionando cuidadores informais que de-veriam ser parceiros indispensáveis no sistema de assistência à saúde. No entanto, atualmente estão mais ou menos abandonados à sua própria sorte. Não recebem apoio e nem têm descanso. Sem o devido atendi-mento em casa, o idoso e sua família têm apenas uma opção: a assistência institucionalizada. Esta solução dispendiosa e não confiável chega com mais do que a sua própria quota de problemas, como a impessoali-dade e as condições restritas, a ruptura da rede social, a transmissão de infecções, a separação de casais e as dificuldades para se recriar um ambiente satisfatório no lar. Há uma necessidade urgente de mudarmos a nossa abordagem, para passarmos a oferecer os serviços onde eles são necessários, no lar e suas imediações. Em vez de obrigar as pessoas a irem onde os serviços são prestados, os serviços deveriam se dirigir para o lugar onde as pessoas vivem. Este tipo de abordagem implica em um investimento de envergadura no apoio à autonomia das pessoas, e requer o estabelecimento de benefícios pecuniários ou em bens, com base nas necessidades da população, e não de acordo com o ambiente em que vivem. Para a cobertura do risco crescente de declínio funcional, planos públicos de longo prazo, voltados para o seguro-saúde, têm sido desenvolvidos por muitos países na Europa e na Ásia.

O envelhecimento da população implica em uma verdadeira revolução na assistência à saúde e nas práticas profissionais. Será que estamos dispostos a mudar?

Réjean Hébert

Faculdade de Saúde Pública, Universidade de Montréal

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