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NATHALIA AGOSTINHO XAVIER

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO INSTITUTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA COMPARADA

NATHALIA AGOSTINHO XAVIER

A ortodoxia cristã e o “outro” religioso: uma análise comparada dos processos de cristianização e conversão nos reinos suevo e de Kent (séculos

VI-VII)

Rio de Janeiro 2015

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Nathalia Agostinho Xavier

A ORTODOXIA CRISTÃ E O “OUTRO” RELIGIOSO: UMA ANÁLISE COMPARADA DOS PROCESSOS DE CRISTIANIZAÇÃO E CONVERSÃO

NOS REINOS SUEVO E DE KENT (SÉCULOS VI-VII)

Material destinado à Defesa de Mestrado apresentado como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em História no Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Área de Concentração: História Comparada

Aprovado em:

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________

Prof.ª Dr.ª Leila Rodrigues da Silva – Orientadora Universidade Federal do Rio de Janeiro

___________________________________________

Prof.ª Dr. Paulo Duarte Silva Universidade Federal do Rio de Janeiro

___________________________________________

Prof.ª Dr.ª Carolina Coelho Fortes Universidade Federal Fluminense

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FICHA CATALOGRÁFICA

Xavier, Nathalia Agostinho.

A ortodoxia cristã e o “outro” religioso: uma análise comparada dos processos de cristianização e conversão nos reinos suevo e de Kent (séculos VI-VII). / Nathalia Agostinho Xavier, 2015.

Dissertação (Mestrado em História Comparada) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de História, PPGHC, Rio de Janeiro, 2015.

1. Considerações Introdutórias; 2. Discussão Bibliográfica; 3. Análise da documentação referente ao reino suevo; 4. Análise da documentação referente ao reino anglo-saxão de Kent; 5. Comparação entre unidades e proposta de dois modelos para os reinos: cristianização e conversão; 6.Conclusão;

7. Referências bibliográficas

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AGRADECIMENTOS

Aos meus amados pais, que não poderiam ser mais presentes, carinhosos ou melhores do que foram em toda a jornada.

À Leila, por ser a orientadora mais fofa e dedicada do mundo; também amiga e psicóloga quando necessário.

À Andréia, cujo “puxão de orelha”, ou incentivo de mestre, que gerou uma pesquisa melhor e muito mais divertida.

Aos amigos e familiares que partilharam da minha ansiedade.

Aos mais queridos do PEM, pelas cervejas, viagens, textos e discussões.

Por fim, e não por menos, ao companheiro de vida e melhor amigo, Raphael.

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APRESENTAÇÃO

Esta dissertação é fruto de estudos iniciados em 2009, no decorrer da graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e fomentados pela bolsa de Iniciação Científica da Faperj, durante dois anos. A pesquisa foi desenvolvida, então, com o objetivo de elaboração da Monografia de Conclusão de Curso, para a obtenção do grau de Bacharel em História. Entregue em 2012, tinha como objeto de estudo a comparação entre concepções de batismo presentes em duas fontes, de gêneros literários distintos, escritas pelo bispo Martinho de Braga, a saber: De Correctione Rusticorum e a De Trina Mersione. Aqui também considerados, ambos os documentos foram avaliados de acordo com a temática da dissidência religiosa e, naquele ponto, elaboramos a hipótese que associava a formulação de um discurso ortodoxo às relações de identidade/alteridade.

Desde a graduação, tal pesquisa é orientada pela Prof.ª Dr.ª Leila Rodrigues da Silva e realizada no âmbito do Programa de Estudos Medievais (PEM) da UFRJ. Além disso, está vinculada ao projeto coletivo coordenado pela professora acerca da produção intelectual eclesiástica e da normatização da sociedade nos reinos romano-germânicos.

Agora, no mestrado, ampliamos o corpus documental e os estudos focam-se, também, no reino anglo-saxão de Kent. Por meio da comparação entre projetos semelhantes, porém diversificados, relacionamos a produção de uma identidade católica às dinâmicas de poder de reinos recém consolidados ou em expansão, observando aspectos da formulação do discurso eclesiástico e sua capacidade de atribuição de autoridade a agentes hierarquicamente bem posicionados.

O trabalho divide-se em seis capítulos. No primeiro expomos a apresentação da problemática e do objeto de estudo, oferecendo a descrição do corpus documental e a explicitação dos recursos de análise e de comparação. Em síntese, o capítulo expõe os pressupostos e a hipótese, argumentando e defendendo-os, bem como contextualizando o leitor em relação aos períodos destacados. No segundo, são consideradas algumas das principais contribuições historiográficas sobre heresias e superstições e sobre a cristianização ou “História da Igreja” dos anglo-saxões e suevos, contemplando obras e tendências tanto recentes quanto clássicas, com o intuito de estabelecer diálogo entre correntes definidas e esta dissertação. Nos terceiro e quarto, dedicamo-nos à análise documental dos dois casos selecionados, com ênfase nos eixos de comparação, a saber: público, os argumentos de autoridade como elementos de formação de identidade e a caracterização do outro religioso.

No quinto, voltamo-nos para a comparação entre as fontes ressaltadas, com preocupação em

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demonstrar o vínculo entre a autoridade episcopal e rejeição a práticas e crenças não- ortodoxas e de diferenciar duas propostas de uniformização religiosa: a conversão e a cristianização. E, por fim, na conclusão, apresentamos a síntese das ideias e hipóteses ressaltadas nos capítulos anteriores.

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RESUMO

Esta dissertação centra-se em uma análise comparativa entre dois processos de conversão real/cristianização em Kent e entre os suevos, nos séculos VI-VII, com ênfase na atuação de Martinho de Braga e na missão de Agostinho de Canterbury, respectivamente.

Avaliamos um projeto de uniformização, organização e fortalecimento da Igreja, observado em ambos os casos, a partir da leitura de um sermão e uma carta, De Correctione Rusticorum e De Trina Mersione, escritos pelo metropolita de Braga, e das cartas de Gregório Magno aos agentes envolvidos na conversão dos anglo-saxões.

A pesquisa esteve restrita à temática da rejeição às dissidências. Em meio ao discurso exclusivista que permeia a documentação, encontramos a construção de um quadro religioso dicotômico, em que se elabora a diferença entre catolicismo e idolatria/superstição/heresia.

Tal distinção diz respeito à incipiente formulação de uma ortodoxia que figurasse como única e inquestionável. Assim, em exame detalhado das nuances deste processo, percebemos que a oposição a diversas crenças e interpretações da fé é, de fato, a oposição a um “outro”. Em poucas palavras, ortodoxia e heterodoxia estão interligadas e são interdependentes.

A partir destes pressupostos, e baseando-nos em uma comparação que permita a separação de duas unidades comparativas, objetivamos associar a produção de sentido/significado e a classificação valorativa do ambiente religioso a esforços de manutenção do poder da elite eclesiástica. E igualmente acentuar as especificidades de cada caso, sublinhando dois projetos semelhantes mas diversificados: um de conversão e outro de cristianização.

Deste modo, a distinção da fé é entendida como ferramenta ideológica, materializada no discurso episcopal que, por meio da definição de parâmetros religiosos, acentuava a legitimidade destes líderes para outros membros da instituição e fiéis. Deste modo, as relações de poder internas e externas ao corpo clerical são avaliadas neste contexto, e a hierarquização social intentada na delimitação do ortodoxo e da condenação do heterodoxo é interpretada pelo prisma político.

Palavras-chave: Agostinho de Canterbury; Martinho de Braga; Cartas Gregorianas; De Correctione Rusticorum; De Trina Mersione; Ortodoxia; Superstições; Heresias; Reinos Anglo-saxões; Reino Suevo.

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ABSTRACT

This dissertation is centered in a comparative analysis between two processes of monarch conversion/christianization in Kent and among the suevi, during centuries VI-VII, with emphasis at the performance of Martin of Braga and the mission of Augustine of Canterbury, respectively. We evaluate a project of uniformization, organization and strengthening of the Church, observed in both cases, through the reading of a sermon and a letter, De Correctione Rusticorum e De Trina Mersione, written by the metropolitan of Braga, and of the letters of Gregory I to the agents involved at the conversion of the anglo-saxon.

The research was restrict to the thematic of rejection of the dissident. In the exclusivist discourse that permeates the documents, we find the construction of a dichotomist religious frame, elaborated by the difference between Catholicism and idolatry/superstition/heresy.

Such distinction is related to the recent formulation of an orthodoxy that stands as equal and unquestionable. Therein, in a detailed exam of the nuances of this process, we realize that the opposition to diverse believes and interpretations of faith is, indeed, the opposition to an

“other”. In a few words, orthodoxy and heterodoxy are interconnected and interdependent.

By these standards, and basing this paper on a comparison that allows the separation of two comparative unites, we aim to associate the production of meaning/signification and the classification of a religious environment with efforts to maintain the power of an ecclesiastic elite. Likewise, to accentuate the particularities of each case, noting two different but similar projects: one of conversion other of christianization.

So on, the distinction of faith is understand as an ideological tool, materialized in the episcopal discourse that, by the definition of religious parameters, accentuates the legitimacy of these leaders to other members of the institution and the faithful. The relations of power, internal and external to the clerk, are evaluate in such context, and the social hierarquization intended by the delimitation of the orthodox and the condemnation of the heterodox is interpreted through political lens.

Key-words: Augustine of Canterbury; Martin of Braga; Gregorian Letters; De Correctione Rusticorum; De Trina Mersione; Orthodox; Superstitions; Heresies; Anglo-Saxon kingdoms;

Suevi Kingdom.

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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1: O processo de uniformização religiosa na Galiza sueva e no reino de

Kent...1

1.1. Considerações introdutórias: a construção de um objeto de comparação...1

1.2 A atuação martiniana e a cristianização da Galiza Sueva...6

1.3 A missão agostiniana em Kent e a cristianização dos anglo- saxões...11

1.4 A distinção entre crenças: conceituação de ortodoxia e a perspectiva da identidade e da diferença...16

1.5 Recursos ideológicos de manutenção do poder episcopal e sua associação com a criação de uma identidade cristã: perspectiva teórica e análise do discurso...22

CAPÍTULO 2: A questão do “outro” religioso: contribuições e debates historiográficos...28

2.1 Heresias...28

2.2 Superstições ...38

2.3 A atuação martiniana e a cristianização da Galiza Sueva...47

2.4 A missão agostiniana em Kent e a conversão dos anglo-saxões...57

CAPÍTULO 3: A identidade cristã na Galiza e a alteridade herética e supersticiosa na obra de Martinho de Braga: uma leitura do De Correctione Rusticorum e da De Trina Mersione...69

3.1 Martinho de Braga: representante eclesiástico da ortodoxia...69

3.2 De Trina Mersione...76

3.3 De Correctione Rusticorum...86

3.4 Identidade católica sueva e oposição religiosa: elementos de um discurso ideológico...99

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CAPÍTULO 4: A identidade cristã em Kent e a alteridade religiosa: uma leitura das cartas

gregorianas...104

4.1 Cristianização anglo-saxã: relatos, perspectivas e o protagonismo de Ethelberto e Agostinho de Canterbury (re)considerados...104

4.2 As cartas gregorianas...115

4.3 Identidade católica anglo-romana e oposição religiosa: elementos de um discurso ideológico...128

CAPÍTULO 5: A A formação da identidade religiosa nos reinos suevo e de Kent: análise comparativa de processos de cristianização e conversão...132

5.1 Constante comparativa, pressupostos, eixos e hipóteses ...132

5.2 O “outro” religioso: caracterização e função...135

5.3 Público(s): a amplitude do discurso ideológico...141

5.4 Argumentos de autoridade: elementos de unificação simbólica da identidade...144

5.5 Cristianização e conversão: duas propostas de fortalecimento do cargo eclesiástico...147

Conclusão...153

Referências Bibliográficas...156

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Capítulo 1: O processo de uniformização religiosa na Galiza sueva e no reino de Kent

1.1. Considerações introdutórias: a construção de um objeto de comparação

A pesquisa desenvolvida nas próximas linhas pauta-se na temática da dissidência religiosa. A construção de uma identidade católica1 – pois aqui trabalhamos com a noção de construção em detrimento de uma rigidez conceitual para o cristianismo – aparece-nos associada, constante e enfaticamente, aos seus opositores, sejam pagãos, supersticiosos ou hereges. Assim, a generalização do “outro” religioso, tão apontada pela historiografia,2 é acompanhada, na contrapartida, pela generalização do “ser cristão”. A oposição abstrata pelo esforço de diferenciação, vista como fenômeno histórico recorrente, faz-se presente na documentação dos reinos bárbaros ou romano- germânicos em momentos de conversão real,3 como observada em Kent, e de cristianização, pela organização clerical, como visto na Galiza. Trata-se de processos de

1O termo “católico” refere-se a uma perspectiva universalista e utilizamo-lo apenas com o intuito de fazer referência ao esforço institucional empregado pelas sedes episcopais do reino, no sentido de estabelecer normas e compreensões generalizantes para a comunhão de fiéis. Catolicismo ou católico são termos que sempre que repetidos neste texto deverão ser observados como meras referências ao que o discurso eclesiástico constituiu sob o título de “ortodoxia”, sem, no entanto, significarem a aceitação desta perspectiva.

2Cf.: capítulo 2, subitens 2.1 e 2.2: “Heresias” e “Superstições”.

3Esquivando-nos da polissemia do termo “conversão”, apresentamos uma breve discussão que pode ser elucidativa. Destacamos o livro “Conversion to Chrstianity...” em que esta é vista como fenômeno religioso que se fez presente em diversas épocas e localidades, sendo estudada em diferentes capítulos em uma perspectiva, portanto, sociológica. Na introdução e prólogo, Calvin Kendall e Fernández-Alonso, respectivamente, propiciaram um debate que girou em torno de duas conceituações principais: a conversão como experiência pessoal, que diz respeito a contentamento, elevação ou renascimento por escolha, e como experiência massificada ou coletiva, referente a momentos de transição de uma religião a outra em sociedades – transição esta, não vista de forma simplificada, isto é, não limitada a conceitos monolíticos e opositivos, ora prevendo uma noção de sincretismo que desconsidera a constante modificação a que religiões estão submetidas, ora reduzindo a questão a uma mera substituição de um conjunto de crenças e práticas por outro. A primeira conceituação é dificilmente identificável pelo historiador na documentação. A segunda pertinente à própria observação de contextos antigos e medievais. Assim, os autores relacionam o período estudado a esta conversão coletiva, superficialmente destacada na documentação e caracterizada pela especificidade de cada contexto. Chegam a propor o uso do termo “cristianização”, em detrimento de conversão para inserir o debate no campo do cultural, uma vez que este tipo de fenômeno estaria relacionado a formas mais amplas de ação cotidiana e social que não apenas a religiosa – envolvendo a arte, a relação com o tempo, com a natureza, etc. De fato, cristianização, assim percebida, é bastante pertinente e, no entanto, o termo assumirá outra conotação neste trabalho. No caso dos anglo-saxões, a conversão de um rei como ato político deve ser ressaltada de acordo com a problemática proposta. Por fim, cabe afirmar que aderimos à proposta de Higham, autor que também busca o diálogo com a sociologia da religião, que especifica conversão, vinculando-na diretamente ao ato de batismo real e de promoção da hierarquia eclesiástica no reino, optando por destituir o termo de seu caráter psicológico ou intelectual para defini-lo como estratégia. KENDALL, Calvin B. et all. (Ed.) Conversion to Christianity from Late Antiguity to the Modern Age:

Considering the process in Europe. Minesota: Center of Early Modern History, 2009. p. 1-44; HIGHAM, N. J. Changing perceptions of religion. In: ______. The Convert Kings: Power and religious affiliation in early Anglo-saxon England. Manchester: Manchester University Press, 1997. p. 16-20.

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que se assemelham pela constante relembrança do outro religoso, permeados por um discurso de uniformização e distinção.

Neste caminho, acreditamos que a comparação sincrônica entre dois momentos singulares mas semelhantes, – o do reino suevo e do reino anglo-saxão de Kent – parece-nos seguro meio de observar a intrínseca relação entre a rejeição de uma dissidência religiosa e o fortalecimento da autoridade eclesiástica, objeto central de nossas reflexões. Apresentamos, desta forma, dois contextos que, não apenas aproximados espacial e temporalmente, assemelham-se, sobretudo, pela clara aliança entre monarquia e Igreja, em período de organização da instituição clerical e de expansão/manutenção das estruturas políticas após a configuração de novas relações de poder.

Assim, dedicamo-nos ao estudo do período subsequente ao de incorporação do cristianismo em reinos cuja incipiência supera qualquer aparência de estabilidade.

Recentemente estabelecidos e pouco documentados, tais reinos são melhor estudados após a adesão ao cristianismo. É com a chegada de Martinho de Braga que temos notícias de intensa atuação pastoral e teológica na Galiza,4 região no noroeste peninsular em que os suevos se fixam, e o mesmo ocorre em Kent com a presença de missionários romanos liderados por Agostinho. Em ambos os casos, salvo diferenciações que aqui abordaremos, sublinhamos um esforço de expansão da fé cristã e de sua expressão normativa: a hierarquia eclesiástica.

A circulação de missivas e a realização de reuniões evidenciam a criação de redes de comunicação entre bispados e mosteiros e, portanto, a organização/fortalecimento de uma Igreja. Não coincidentemente a documentação central selecionada, consiste, ainda que com especificidades, em cartas trocadas entre sedes episcopais que demonstram uma rede de comunicações estabelecida no decorrer desses processos. As fontes do período suevo, De Trina Mersione e o sermão De Correctione Rusticorum, a ser exploradas nas próximas linhas, aproximam-se das cartas gregorianas sobre a cristianização anglo-saxã pela possibilidade de propiciarem um olhar sobre as relações entre o corpo eclesiástico entre e inter reinos.

4As duas perspectivas destacam-se na documentação central de nossa análise do reino suevo: a carta De Trina Mersione e o sermão De Correctione Rusticorum, escritos por Martinho de Braga. Ambos estudados comparativamente em nossa monografia de fim de curso por meio da contraposição de suas naturezas distintas. Observamos, naquele momento, as diferenças e semelhanças de um discurso de oposição a hereges e supersticiosos, respectivamente, permeados por características teológicas e pastorais.

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As ações pastorais fizeram parte de tal movimentação, em especial em momentos de transição ou de conversão monárquica como os que ali se desenvolveram no final do sexto século. Em síntese, a despeito de trajetórias diversificadas, nas duas situações percebemos esforços semelhantes de demarcação de uma ortodoxia, agregados a uma recente associação entre bispos e a uma monarquia cristianizada.

Deste modo, a missão de Agostinho de Canterbury e a atuação de Martinho de Braga parecem responder a uma tradição cristã comum bem como a projetos de institucionalização analogamente excludentes e hierárquicos e, no entanto, em cada reino, os acordos, concessões e demandas na conformação de um corpo clerical e de normativas particulares correspondiam a dinâmicas de poder variadas. Separados, portanto, como unidades de comparação, a contraposição entre estes dois processos de cristianização é ferramenta heurística para a elaboração de um objeto sobre a formulação de uma identidade católica universalizante e seu vínculo com as expressões políticas de poder.

Não obstante, é pela mesma contraposição que visamos a caracterizar as particularidades de cada região, não apenas para questionar a naturalização das fronteiras geográficas que as separariam, mas para propor uma diferenciação sistemática a partir de questões pré-definidas, isto é, os eixos de comparação referentes aos aspectos de distinção religiosa e legitimação clerical.

A priori, cabe ressaltar as contribuições de um historiador que auxilia na formulação desta pesquisa, principalmente pela defesa de uma separação analítica de entre casos na História Comparada, vista como campo específico ou metodologia necessária para a ampliação e aprofundamento de problemáticas. Destacamos, nesta linha, Kocka,5 que propõe uma metodologia flexível para alcançar objetivos do estudo,6 e é responsável por uma síntese das contribuições passadas e reconhecimento de uma separação descritiva entre eixos que não anule a possibilidade de interseções e

5KOCKA, Jürgen. Comparison and Beyond. History and Theory, 42, p. 39-44, fev/2003. [tradução de Maria Elisa Bustamante]

6Neste ponto, podemos relembrar as contribuições de Marc Bloch igualmente. De acordo com a proposição de um modelo amplo de contraposição entre processos análogos de diferentes “nações”. Em um texto que destaca as angústias do pós-guerra, o autor visa a quebrar com as barreiras “nacionais”, propiciando análises comparativas entre experiências sincrônicas. Criticada por ser demasiado rígida e limitada, sua proposta é, entretanto, uma das precursoras da defesa e argumentação de pontos caros à História Comparada e, por isso, ainda pertinente em quaisquer pesquisas que sigam por esta linha.

Relembra-se, assim, trabalho tão datado de Bloch porque ainda que sua exposição seja constantemente repensada, não se pode mudar a associação estabelecida entre a comparação e a “história problema”, isto é, a constante importância da relação entre objeto de comparação, problemática e hipótese. BLOCH, M.

Para uma História Comparada das Sociedades Européias. In: História e Historiadores . Lisboa: Teorema, 1998. p. 119-150.

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continuidades, respondendo a críticas mais recentes,7 mas que tenha como objetivo singularizar pelo contraste.

Considerada a exposição da comparação como método de diferenciação entre as conjunturas aparentemente semelhantes e, ao mesmo tempo, como reforço de uma hipótese que as una, apropriamo-nos, também, de exposição de Paul Veyne,8 delimitando uma abordagem específica para a documentação. Ao negar a rigidez da singularização grosseira de eventos históricos por meio de recortes espaço-temporais, – como se tal divisão artificial e por vezes anacrônica fosse por si só suficiente para indivualizar acontecimentos – o historiador apresentou uma linha de pensamento que abre possibilidades para o tratamento da temática, pois apesar de não indicar um campo específico para a comparação9 sua perspectiva nos auxiliou na construção do tipo de trabalho metodológico que propomos. Para ele, a identificação de similitudes passíveis de contraposição em contextos diversificados é inerente ao trabalho historiográfico, uma vez que sempre que nos voltamos para um objeto, carregamos conosco conceituações e constantes, – idéias gerais minimamente generalizantes – e o fazemos pela comparação, sem a qual não seríamos capazes de atingir um nível de abstração que permitisse caracterizar e selecionar os fatos históricos.

Assim, a oposição ortodoxia/heterodoxia, vista pela dinâmica de identidade/alteridade, é uma constante, uma recorrente abstrata que se repete no tempo e no espaço. Com efeito, por meio desta perspectiva, objetivamos individualizar os casos suevo e anglo-saxão – com ênfase em Kent – pela comparação e, concomitantemente, apontar para a relação entre dissidência religiosa, legitimação da autoridade eclesiástica e perpetuação de relações de poder, como um fenômeno não isolado, mas pertinente a um momento histórico característico e relativo a certos aspectos que se apresentam de forma similar em duas situações. Neste sentido, acreditamos que a constante

“ortodoxia/heterodoxia” viabilizou um objeto comparativo, bem como a seleção de aspectos privilegiados na análise a que chamamos de eixos de comparação. Estes

7Em especial em relação à História Cruzada, surgida em meio a discussões sobre a globalização, procurando superar a Comparada e a das transferências. Defenderia abordagens mais dinâmicas e flexíveis, repensando o papel do sujeito e a interação entre sociedades e culturas. Sobre, cf.: WERNER, Michael; ZIMMERMANN, Bénédicte. Beyond Comparison: “Histoire croisée" and the Challenge of Reflexivity. History and Theory, v. 45, n. 1, p. 30-50, 2006.

8VEYNE, Paul. O Inventário das Diferenças. História e Sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1983.

9A partir do momento em que o autor aborda a comparação como atividade essencial ao fazer historiográfico, elimina a necessidade de apontar para a autonomia deste campo. Entretanto, fornece argumentações que sustentem esta análise, feita de forma sistemática, tal qual proposta por outros autores, como os neste texto citados.

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referem-se à caracterização da dissidência religiosa na documentação, – considerando as formas de oposição – ao(s) público(s) pretendido(s) e aos recursos de autoridade conferidos ao discurso eclesiástico distintivo, avaliados como elementos usados na uniformização do cristianismo.

Desta maneira, pensamos a formulação de questões, visando a identificar como se constrói o discurso ideológico de oposição religiosa em cada reino?; sob que argumentos e o que caracteriza uma identidade católica nesta documentação? e; a que públicos destinam-se tais determinações e como estas dialogam com as relações de dominação de cada conjuntura? A comparação se torna essencial na medida em que não apenas garante a singularização de cada caso, mas também comprova a hipótese que circunda a ambos, reforçada pela constância em situações diferenciadas e no reconhecimento de que uma separação analítica de duas unidades comparativas não significa a inexistência de contato entre elas em contexto histórico mais vasto. Como, porém, ressaltar uma hipótese a partir de uma constante sem ao menos verificar sua pertinência em mais de uma conjuntura?

A saber, nossa hipótese prevê que em momentos de (re) estruturação da Igreja local com pretensões a universalidade e/ou uniformidade, o outro religioso – seja herege, idólatra ou bretão – assume o papel de opositor de uma identidade cristã, ideologicamente construída, isto é, mantenedora das relações de dominação de uma sociedade. Tal identidade é moldada em contraposição a um conjunto de práticas e crenças, estas últimas descritas negativamente, de forma a criar uma hierarquização social. Em síntese, por meio da distinção e do rechaço, a autoridade episcopal é legitimada como ortodoxa, reforçando a relação intermediária entre fiel-sacerdócio- Deus/salvação.

No decorrer da análise dos casos, encontramos processos semelhantes, porém particularizados em cada reino, em que tal função ideológica do outro religioso se destaca de maneira diferenciada. Tal diferença constituiu-se como umas das hipóteses.

Entre os suevos observamos a legitimação e reordenação da Igreja galega a partir da afirmação do cristianismo niceno e da comunicação entre sedes, para a formação de uma normativa centralizada. Tratar-se-ia de um esforço de cristianização.

Entre os anglo-saxões nota-se a construção de uma hierarquia na localidade, após a aceitação do cristianismo pelo monarca pagão, que se propõe em uma extensão da cristandade a partir de Roma. Tratar-se-ia de um esforço de conversão.

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Apresentados estes pontos, destacamos no decorrer deste capítulo as fontes de trabalho selecionadas, uma caracterização do período de produção destas e a explicitação de uma metodologia de leitura do discurso, identificando, também, as concepções teóricas que possibilitaram o destaque da constante e de sua ligação com as diversas expressões ideológicas do discurso eclesiástico.

1.2. A atuação martiniana e a cristianização da Galiza Sueva

Os suevos instalaram-se na Península Ibérica no início do século cinco, e tiveram singular relação com cristianismo. A conversão de Requiário em 466, à doutrina nicena é pouco documentada e, subsequentemente, considerada superficial no que concerne à população do reino. Após seu reinado temos noticias de uma conversão ao arianismo,10 comumente explicada pela relação de subordinação com os vizinhos visigodos.11 A isto segue-se um período de silêncio na documentação, com o fim da crônica de Idácio de Chaves no reinado de Remismundo,12 e só começamos a obter indícios da organização sueva na região por meio de documentos de ordem religiosa, como a carta enviada em 538 a Profuturo de Braga pelo bispo Virgílio de Roma,13 e com a chegada de Martinho de Braga, da Panônia. Após a elevação deste último ao bispado de Dume, a partir de meados do século VI, temos mais notícias acerca do contorno religioso e sócio-político do regnum, uma vez que boa parte da produção textual analisada pelos estudiosos foi escrita por Martinho, o que levou a proliferação de

10Conversão também considerada superficial, principalmente pela ausência de referências ao arianismo nos concílios bracarenses do século VI. Sobre a questão cf.: SILVA, Leila Rodrigues. Monarquia e Igreja na Galiza na segunda metade do século VI: o modelo de monarca nas obras de Martinho de Braga dedicadas ao rei suevo. Rio de Janeiro: EdUFF, 2008. p. 47-50.

11GARCIA MORENO, Luis A. La Iglesia y el cristianismo en la Galecia de época sueva. Antig. Crist., v.

23, p. 39-55, 2006. p. 49-50; GONZÁLES LÓPEZ, Emilio. Galicia Sueva. In: ______. Historia de Galicia. La Coruña: La voz de Galicia, 1980. p. 43; SILVA, Leila Rodrigues da. Os suevos na Crônica de Idácio e nas Histórias de Isidoro de Sevilha. Brathair, v. 10, n. 2, p. 14-25, 2010. p. 19.

12A crônica em questão, escrita em meados do século V, relata a chegada dos suevos como violenta e destaca a sucessão de seus líderes em quatro reinados. Comenta a conversão de Requiário ao cristianismo niceno, bem como a conversão de Remismundo ao arianismo, por influência do vizinhos visgodos. O autor abarca parte do processo de formulação do regnum após fixação na área, sendo responsável pelas informações que temos sobre o período. No entanto, sua crônica se encerra no reinado de Remismundo, por volta de 460-469, e entre esta e a carta de Vírgilio de Roma, de 538, há um silêncio documental acerca dos suevos. Outras fontes que relatem o assentamento e dinâmica deste reino, como a Historia de Isidoro de Sevilha, também não se voltam para tal período intermediário e, de fato, as notícias acerca da configuração política, social e religiosa da região estiveram relacionadas à presença de Martinho de Braga, a partir de meados do século VI.

13A carta é fruto de uma interlocução da qual só possuímos a resposta romana. Trata-se de consulta acerca de questões de cunho litúrgico e doutrinal, e dentre outros, está permeada por temas com a Páscoa, o batismo e a heresia priscilianista. Destacamo-na com o intuito de demonstrar um processo de organização da Igreja local anterior à chegada de Martinho de Braga. A transcrição da carta em latim, seguida de comentários, pode ser encontrada em texto escrito por Joaquim Bragança. Cf.: BRAGANÇA, Joaquim O.

A carta do papa Vigílio ao Arcebispo Profuturo de Braga. Bracara Augusta, Braga, v. 21, p. 65-97, 1967.

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perspectivas personalistas e apologéticas para o período. Assim, o enfoque na cristianização da região e no processo de (re) organização da Igreja, tão claro na documentação, foi muito centrado em uma personagem.

Neste ponto, cabe destacar que da perspectiva de um novo estudo do político, de acordo com as ideias de René Rémond,14 a organização de acontecimentos em uma linha narrativa linear, associados aos feitos de uma personagem proeminente encontra- se defasada e dificuldada pelas críticas expostas por estudiosos do social e do econômico. Em contraposição, visamos a abordar a participação de tal agente na fundamentação e fortalecimento da Igreja na região por sua inserção em um grupo social, pautado em um conjunto de motivações e interesses partilhados, sem contudo, desconsiderar a autonomia do político e sua capacidade de influência nos rumos dos acontecimentos estudados. Sua inegável, porém relativa, proeminência foi fruto de um prestígio local que o levou a receber o título episcopal em apenas seis anos, muito provavelmente por conta de sua atividade monástica.15 Uma vez ascendendo como bispo, a despeito das prerrogativas inerentes ao cargo, sua influência também esteve associada a outros fatores, como sua relação com a monarquia.16

Desta forma, associado à segunda conversão sueva ao catolicismo, principalmente por seu vínculo pessoal com o monarca e sua elevação ao cargo metropolitano em Braga, Martinho foi parte da busca por uniformização religiosa que se imiscuiu ao poder real, não sendo possível separar a produção clerical do âmbito

14O historiador francês é autor representativo da tendência da “Nova História Política”, sublinhando a importância do político, defendendo a possibilidade em se estabelecer um diálogo entre contínuos – conceitos que oferecem um instrumento de observação, como instituição ou ideologia – e descontínuos – fenômenos aparentemente curtos. Não mais restrito a acordos e sucessões narrados anedótica e psicologicamente, tal recorte não poderia ser mais visto como efêmero ou superficial, mas sim, constituinte dos processos históricos e portador de características particulares que não devem ser esquecidas. Ao abordar o objeto pelo prisma teórico da ideologia e buscar perscrutar os recursos discursivos utilizados na manutenção da hierarquia eclesial e no fortalecimento da legitimidade de uma instituição religiosa, dialogamos com esta corrente. RÉMOND, René. Uma história presente. In: _______

(org.). Por uma história política. 2ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 2003. p. 13-36.

15Ele fundou mosteiros e inaugurou o cargo de abade-bispo, até hoje perpetuado. Não sabemos exatamente a data da construção destes espaços, mas como Martinho tornou-se bispo em 556, acreditamos ter sido, portanto, entre este e o ano de 550. Sua autoria na fundação é atestada no X Concílio de Toledo, de 656. Igualmente, sua participação na vida monástica da região também é percebida pela seleção e tradução das Sentenças dos Padres Egípcios, um conjunto de normativas moralizantes voltadas para a ascesce. Concilios Visigóticos e Hispano-Romanos. VIVES, Jose (ed.). Madrid: CSIC. Instituto Enrique Florez, 1963. p. 322. SILVA, Leila Rodrigues. Monarquia e Igreja ... Op. Cit. p. 66-68.

16Assim, opomo-nos a perspectivas de historiadores apologéticos e acreditamos que seja necessário considerar um contexto específico, no qual a conversão do rei era recente, e a reorganização da Igreja uma demanda, sem exacerbar a participação de um agente nestes acontecimentos, uma vez que “tal posição, no mínimo ingênua, implicaria, por um lado, subestimar as atividades da Igreja na região nos anos que antecederam a chegada de Martinho e, por outro, em supervalorizar a ação de um só homem.”

SILVA, Leila Rodrigues. Monarquia e Igreja ... Op. Cit., p. 70.

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político. Basta, para tanto, afirmar que parte de sua vasta produção foi direcionada ao rei17 ou contou com a participação deste, em especial pela convocação de concílios, cujo conteúdo normativo revela questões de cunho dogmático, litúrgico e organizacional, mas permeadas pelos âmbitos sócio-políticos de setores laicos.

Considerando as vastas e complexas relações de poder entre monarquia, elites laicas e hierarquia eclesial que se apresentam, direta ou indiretamente, na documentação, nosso interesse está focado na perpetuação ideológica destes laços pela apregoação de uma identidade religiosa, defendida em norma, reforçada por ações pastorais, e contraposta ao “outro” religioso.

Assim, atentamos para o discurso de homogeneização de dogmas e ritos pertencentes à doutrina defendida como ortodoxa, analisando as trocas que Martinho de Braga travou com outros bispos, clérigos e com o próprio monarca, e demonstrando as prerrogativas de sua posição, como interlocutor dos anseios e demandas pertinentes à procura por expansão de um cristianismo normativo e restritivamente determinado.

Acreditamos ser possível avaliar em sua atuação o reforço da legitimidade da autoridade eclesiástica, intentada por intermédio da criação de regras acerca da ação pastoral, da religiosidade e da conduta dos clérigos.18

Preocupamo-nos, em síntese, com as concepções acerca da fé e da liturgia, estabelecidas após a opção pela doutrina nicena, e pela defesa desta como ortodoxa.

Questões referentes ao reforço do poder episopal, à educação homogeneizadora dos demais clérigos, à expurgação de hereges e dos idólatras estão, desta maneira, atreladas a um momento de cristianização das populações daquela província e tais elementos aparecem com clareza no corpus documental. A seleção deste último respeitou, portanto, à procura por estas temáticas e preocupações, e chegamos à exposição de duas

17Dentre seus escritos, Martinho de Braga dedica quatro ao rei Miro: Formula vitae honestae, De superbia, Pro repellenda iactantia e Exhortatio humilitatis. Todos eles voltam-se para questões de ordem moral, apresentando um ideal de conduta para o cristão, com vistas à formulação de um modelo de monarca que, seguindo estes parâmetros e virtudes, selaria seu compromisso com Deus. Estas obras fazem parte de um processo de aproximação entre Igreja e monarquia e de fortalecimento de ambas as instituições. Tal é a hipótese central trabalhada por Leila Rodrigues em sua tese doutoral. Cf.: Ibidem.

18Esta conduta poderia estar relacionada à questão religiosa, aqui privilegida, ou moral, à qual não pretendemos nos voltar neste trabalho. Entretanto, há de se ressaltar para a relação entre ambas uma vez que a associação entre diversos comportamentos errôneos, – como o assassinato, o roubo e o perjúrio – avessos às virtudes mais destacadas do cristianimo, aparecem como equivalentes à idolatria. Em especial, nas linhas do sermão De Correctione Rusticorum de Martinho de Braga.

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fontes principais, escolhidas dentre os escritos do bispo de Braga: a carta De Trina Mersione19 e o sermão De Correctione Rusticorum.20

Na carta enviada a Bonifácio, apresenta-se argumentação acerca da fórmula do rito batismal. Em resposta a uma carta anterior, da qual não dispomos, o metropolita de Braga comenta a prática da única imersão, comum nos reinos da Península Ibérica, criticando-a. Utiliza-se de argumentos de cunho teológico para defender a tripla imersão, com a qual pretende perpetuar a conformação com os símbolos nicenos.

Remonta, também, aos preceitos estabelecidos e aceitos em Roma, concedendo a esta sede uma autoridade apostólica, e pretendendo estabelecer uma só liturgia para o batismo a partir desta.

Tal demanda por uma congruência entre ritos e proposições doutrinárias era pertinente a um momento de organização religiosa. No documento, Martinho explica que a imersão única no ritual batismal era usada como forma de diferenciação entre o cristianismo niceno e o arianismo, por querer representar a consubstancialidade divina entre as três hipóstases. Discorda deste uso, afirmando que assim, aproximar-se-ia da heresia sabeliana, uma vez que a única imersão poderia significar a presença de apenas uma hipóstase, ou seja, concordar que os três nomes – Pai, Filho e Espírito Santo – denominavam a mesma coisa, confundindo as pessoas da Trindade. Tendo em vista a perspectiva teológica de sua escrita e a temática do afastamento da heresia em defesa de um credo, deve-se considerar tal epístola por sua inserção no contexto de formulação ortodoxa, entrevisto nos debates e na troca de informações entre sedes episcopais.

Por outro lado, o sermão DCR tem como principal foco outra forma de dissenção religiosa: as supertições. Enviado ao bispo Polêmio de Astorga,21 remonta aos esforços pastorais de controle das práticas e dos valores das populações rurais.

Destinando-se não apenas a um público de cristãos batizados de áreas rurais, a admoestação parece constituir um modelo ou exemplo de ação pastoral que garantisse a

19A edição usada para a carta: MARTINHO DE BRAGA. De Trina Mersione. In: MARTIN DE BRAGA.

Obras Completas. Ursicino Dominguez del Val. Madrid: Fundación Universitaria Española, 1990. p.

167-169. p. 167. A partir de agora, utilizamos a sigla DTM para nos referimos a este documento.

20O sermão divide-se em dezenove capítulos, e no que tange à sua tradução e edição utilizaremos a versão comentada pelo professor Aires A. Nascimento. MARTINHO DE BRAGA. Instrução pastoral sobre superstições populares. De Correctione Rusticorum. Edição, tradução, introdução e comentários de Aires A. Nascimento, com a colaboração de Maria João V. Branco. Lisboa: Cosmos, 1997. A partir de agora, utilizamos a sigla DCR para nos referimos a este documento.

21Bispo da província, assinou as atas do II Concílio de Braga, cuja correspondência com o Martinho parece ter se realizado posteriormente à congregação conciliar. Em especial pela repetição da temática e das práticas supersticiosas descritas nas atas do concílio e neste sermão. Portanto, acredita-se que o último deva ser datado após 572, ano da reunião, denotando uma continuidade no diálogo entre o bispo de Astorga e o metropolita.

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supressão das práticas supersticiosas e servisse de instrumento aos clérigos que a elas estivessem próximos, minimizando condutas errôneas. De fato, mais do que apenas preocupado com a cristianização de camponeses, aqui genericamente concebidos,22 o documento abrange os possíveis “desvios” ou sincretismos que pudessem permear as crenças de membros da própria instituição. Ou seja, a obra pastoral de Martinho de Braga não se restringia aos laicos, voltando-se também para os comportamentos internos ao corpo eclesiástico, garantindo uma abrangência de públicos que é de considerável interesse aos nossos propósitos.

A distinção entre o idólatra e o cristão baseia-se, nas linhas deste sermão, em complexa argumentação que se denvolve por um relato cronologicamente organizado que compreende a história humana por sua relação intrínseca com a criação divina do mundo e o surgimento do cristianismo. O metropolita procura explicar o engano da idolatria pela demonologia e desenvolve um número de associações valorativas que sirvam para a separação entre correto e errado no que tange à fé. Apresenta-se aos nossos olhos um discurso persuasivo que se utiliza de múltiplos recursos, dentre eles, a adjetivação de crenças e a antítese: ignorância/compreensão, ignomía/santidade.

Constrói, portanto, a unidade pela oposição.

Em ambas as fontes vemos a formulação de um discurso de distinção, cuja análise pode ser elucidativa em relação ao vínculo entre religião e poder. Com temáticas semelhantes, mas em especial por seu caráter normativo e geral, as atas dos dois concílios bracarenses e os Capitula Martini 23 serão também considerados, ainda que como corpus auxiliar. Fornecem elementos recorrentes e um olhar sobre as esferas de atuação conjunta do bispado e das autoridades laicas, nomeadamente se pensarmos a

22Genericamente pois a separação entre espaço rural e urbano não pode ser, neste período, considerada de forma dicotômica. A despeito da tradução do documento, que especificamente se refere às “gentes rurais”

[rusticorum], acreditamos que este detalhe pode ser entendido como indicativo de que parte do público ao qual o sermão destinava-se consistia nas populações fixadas em regiões relativamente distantes das igrejas episcopais e, principalmente, de Braga.

23Os I e II Concílio de Braga realizaram-se, respectivamente, nos anos de 561 e 572. O primeiro, presidido por Lucrécio no decorrer do reinado de Ariamiro, tratou de questões relativas à hierarquia eclesiástica, à uniformização dos ritos e à rejeição da heresia priscilinista, que se manifestou fortemente na região da Galiza. O segundo, presidido por Martinho de Braga, foi assinado por doze bispos e tratou, entre outros, de pontos relativos ao reforço da elite episcopal, o batismo e as superstições. A ele estão anexados os oitenta e quatro cânones conhecidos como Capitula Martini, os quais também analisamos, uma vez que número considerável de suas normas está voltado para a questão da superstição e para o fortalecimento da autoridade episcopal. Traduzidos para o espanhol por José Vives, os cânones estão presentes em sua coletânea de atas peninsulares suevas e visigodas: Concilios... Op. Cit., p. 65-106.

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convocação das reuniões conciliares pelo rei como indicativo de interesses partilhados por uma elite sueva e galaico-romana.24

Deste modo, apesar de não serem analisados de forma tão sistemática quanto, estas atas servirão como suporte à análise documental central e, nesta linha, selecionamos cânones que se referem não apenas à dissidência pagã/supersticiosa ou herética, mas também à uniformização religiosa de dogmas e da liturgia, e à autoridade do corpo clerical e do metropolita.

Totalizam-se cerca de 55 normas nomeadas,25 e buscando conciliar o que pode ser excessivamente extenso, dividimo-nas em três grandes grupos relacionais. Primeiro, separamos os que se destinam a descrever e rejeitar a existência do outro religioso, seja herege ou supersticioso, interno ou externo ao corpo clerical, de maneira direta ou indireta. Em seguida, escolhemos os que se dedicam a afirmar a autoridade do metropolita e do conjunto de bispos ou concílio. E, por fim, voltamo-nos àqueles que apresentam prescrições e normativas para os bispos em especial no que tange aos bens eclesiásticos e à ganância episcopal, com o objetivo de observarmos as dinâmicas e disputas internas à hierarquia eclesial.

1.3. A missão agostiniana em Kent e a conversão dos anglo-saxões

A primeira conversão de um monarca anglo-saxão26 ao cristianismo niceno ocorreu em finais do século VI em consequência da missão promovida por Gregório Magno, que envia às ilhas Agostinho e outros monges romanos. A despeito de diferenciadas versões e narrativas propostas para este acontecimento, alguns

24Apesar de falarmos de uma elite sueva e uma elite galaico-romano, em especial para indicar acordos necessários na configuração do reino com as populações presentes e a pertinência de uma conversão que visasse à aproximação entre ambas, reconhecemos a dificuldade de encontrar referências que comprovem uma efetiva separação entre estes grupos. Tal nos leva a perceber que a este ponto, mais de um século depois da fixação, houve uma assimilação e, a despeito de mudanças, apenas a perpetuação de uma sociedade nobiliarquicamente hierarquizada.

25Do ICB consideramos os 17 anátemas prévios aos cânones mais as normas XII a XIV que rechaçam práticas associadas ao priscilianismo e os VI, VII e VIII, relacionados à ordenação e autoridade do bispo e da patrística, bem como acerca dos bens eclesiásticos. Do II CB consideraremos todos os dez cânones, em maioria associados à conduta do bispos e um (X) ao priscilianismo e sua vinculação com clérigos menores. Dos Capitula Martini os cânones II a IV que se referem à primazia do meropolitano e os I e V a XVII que ordenam as prerrogativas e proibições ao corpo episcopal, bem como estabelecem as regras para o uso dos bens eclesiasticos. Os XVIII e XIX comentam a própria organização de reuniões conciliares. Sobre a heresia ou práticas consideradas dissidentes, XXXVI, LVII, LVIII, LXVII, LXX.

Sobre as superstições e a magia: LIX, LXIX, LXXI a LXXV.

26A classificação destes povos como anglo-saxões é generalizadora, e tem como objetivo dialogar com os diversos trabalhos que estudam os diferentes reinos reduzindo diversidades étnicas a esta nomenclatura.

Para o caso da região de Kent há o indicativo de que havia uma ocupação de saxões a leste e de jutos na região de Canterbury, estes últimos provenientes da atual Dinamarca.

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apontamentos podem ser explicitados para inclusão deste período no objeto de comparação. Interessa-nos, sobretudo, analisar as especificidades da organização eclesiástica nas ilhas em relação a outro contexto em que também está presente o elemento da relação Igreja-monarquia. Assim, temos como pressuposto um projeto amplo de conversão cujos contornos uniformizadores estão intrinsecamente associados a um discurso de oposição e ao campo do político.

Ethelberto, rei que recebe a missão gregoriana, é apontado por Beda como monarca que exercia suserania sobre amplos domínios. Este tipo de governo, descrito como overkingship ou overlordship,27 explicaria, para alguns autores,28 seu interesse na vinculação com o cristianismo e sucessiva conversão de outros chefes e reis. Seu casamento com Bertha, uma princesa franca cristã, demonstra que, ainda que previamente à chegada dos emissários de Gregório Magno, a região não estava isolada politicamente nem em relação ao cristianismo, bretão ou “estrangeiro”.

Visto o recorte, e lida a documentação, a adesão ao cristianismo foi pensada como “evento”,29 sobretudo por influência do relato episódico de Beda, e alguns dedicaram-se a questionar o porquê da escolha do monarca naquele momento, considerando a prévia presença de um bispo de nome Liudhard em ocasião da aliança com uma nobreza cristianizada franca30 e o contato com uma tradição religiosa autóctone.31 Outros, estenderam-se sobre a temática da continuidade, sobre a presente

27Overlosrship ou overkingship são termos comumente usados para descrever o quadro político dos reinos anglo-saxões. Sem uma tradução específica que não possa alterar seu significado, destacamos em algumas linhas explicativas. Tais conceitos se referem ao sistema das bretwaldas, citado nas Crôncias Anglo- Saxãs, posteriores a Beda, e pouco conhecido por conta da escassez de documentação sobre seu funcionamento ou real abrangência. Em síntese, os termos servem para destacar a relação de

“sobredomínio”, ou seja, de predominância de um reino sobre outro, de um monarca sobre domínios que não são imediatamente seus.

28Cf.: HIGHAM, N. J. “King Ethelbert: conversion in context”. In: ______. HIGHAM, N. J. The Convert Kings: Power and religious affiliation in early Anglo-saxon England. Manchester: Manchester University Press, 1997. p. 53-119. p. 102-112 YORKE, B. The Conversion of Britain. Religion, Politics and Society in Britain c. 600-800. Edinburgh: Pearson, 2006. p. 125.

29Esta perspectiva é perceptível em análises como a de Peter Blair e Edward Cuttis, que apresenta uma visão dicotômica, de ruptura entre missão e o período anterior, em uma região antes “obliterada pelo paganismo”. BLAIR, P. H. The Word of Bede. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. p. 42.

CUTTS, Edward. L. Augustine of Canterbury. Londres: Meuthen & Co, 1895. p. 29.

30Higham faz detalhada análise levantando a possibilidade de que Liudhard – observado como agente diplomático de Chilperico I – houvesse morrido em 596, o que desencadearia a missão agostiniana em 597, e pensando a atuação de Gregório junto ao bloco Austrasiano/Burgúndio em período de disputas entre os francos. HIGHAM, N. J. The Convert Kings... Op. Cit., p. 66-80. Já Ian Wood considera a possibilidade de uma conversão anterior à chegada da missão, que teria impulsionado a própria missão.

WOOD, Ian. The Mission of Augustine of Canterbury to the English. Speculum, v. 69, n.1, p. 1-17, 1994.

p. 10-11. ______. The Merovigian Kingdoms: 450-751. New York: Longman, 1994. p. 178.

31Considerando a possibilidade de haver contato com lideranças eclesiásticas bretãs ou mosteiros naquelas regiões, como descrito por Beda na Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum.

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importância das divindades nórdicas para a legitimação do poder real32 ou procuraram criar um paralelo entre estas tradições e o cristianismo.33

Por outro lado, a nossos intuitos, interessa pensar não a relação entre o cristianismo e outras religiões por si só, mas sua escolha como fator político, entrevista na abordagem de temática específica: o rechaço de um “outro” religioso. Longe de acreditarmos em uma novidade inaudita na adesão a um cristianismo romano, comparamos reinos objetivando pensar a reprodução da oposição e seu papel na organização de uma hierarquia local. O que, de fato, se inaugura com Agostinho é, portanto, a relação entre monarquia e Igreja nos reinos anglo-saxões. A opção de Ethelberto não apenas inicia uma série de conversões reais, mas evidencia que “um novo poder estabeleceu uma nova fé; e uma nova fé talvez tenha ajudado a estabelecer um novo poder.”34

Tal processo é pouco documentado e, geralmente, pensado a partir de referências exteriores ou posteriores, respectivamente, pelas cartas de Gregório Magno aos bispos, a Ethelberto e outros líderes, inclusive francos, no período, bem como pela Historia Ecclesiastica de Beda. Algumas destas epístolas gregorianas figuram como corpus de análise,35 selecionadas aquelas que destacam em suas linhas a missão, abrangendo apenas as que foram enviadas para clérigos, monges ou membros da nobreza e da monarquia nas ilhas britânicas,36 com o propósito de focar nas dinâmicas de poder estabelecidas em ambiente insular.37

32CARDOSO, Ciro Flamarion. O paganismo anglo-saxão: uma síntese crítica. Brathair, v. 4, n.1, p. 19- 35, 2004.

33CHANEY, W. A. Paganism to Chritianity in Anglo-Saxon England. The Harvard Theological Review, v. 53, n. 3, p. 197-217, 1960.

34CAMPBELL, J. Essays in Anglo-Saxon History. London: The Hambledon Press, 1986. p. 77.

35SCHAFF, Philip (ed.). Nicene and Post-Nicene Fathers: Gregory the Great (II), Ephraim Syrus, Aphrahat. Edinburgh: T&T Clark. Series II, V. 13. Cartas XXVIII, XXIX, LXV, LXVI, LXVI. p. 138- 142; 194-197;203-204.

36Excetuando-se, portanto, aquelas enviadas a bispos e monarcas francos no decorrer da missão e as que apenas fazem breve referência à missão, como a carta enviada a Eulogio de Alexandria em 598. Assim, a opção por não incluí-las neste corpus, auxiliar ou central, é relativa à ênfase escolhida na construção da problemática, de centralição nas dinâmicas insulares. Entretanto, o conteúdo destas epístolas trata do controle da simonia no reino franco e ainda que fuja aos nossos interesses de compreender as relações de oposição religiosa no reino de Kent, demonstram o uso da distinção, explicitando a relação entre dissidência, neste caso interna ao corpo clerical, como parte da argumentação de Gregório na composição de uma cristandade. O que significa que a leitura destas epístolas nos ajudou a compreender o contexto das que figuram no corpus.

37Considerado este corpus, cabe anunciar que nos escusamos de trabalhar com as chamadas Responsiones, isto é, a carta que constituída por diversas perguntas de Agostinho a Gregório ainda tem sua veracidade questionada. Não apenas por questões de datação, mas também por sua insistência em uma concepção de matrimônio e incesto que não estaria em voga no período, alguns dedicam-se a desconsiderá-la, outros a pensá-la em sua parcialidade. Não nos prendemos em uma concepção de

“verdade” ou “real” que nos impeça de observar no falseamento de documentos elementos de interesse

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Acreditamos que tais missivas destacam as relações entre Gregório, monarcas e outros bispos – dando indicativos de suas pretensões e dos vínculos estabelecidos/fortalecidos em meio a um projeto religioso de exaltação da cristandade.38 Também propiciam dados para pensarmos a recepção de Agostinho entre os anglo- saxões, inserindo sua atuação pastoral e sua posição arcebispal em um conjunto de vetores que caracterizam certas estruturas políticas pertinentes a uma experiência de monarquia cristianizada. Observamos, portanto, as especificidades de um projeto para a região britânica, procurando nas cartas duas referências: as relativas a um projeto de organização hierárquica clerical, compreendido verticalmente, e aquelas que explicitam a existência de um “outro” religioso, seja diretamente pelo combate à dissidência ou à oposição, seja indiretamente, pela conformação de regras na composição de uma Igreja que tende a unificação.

Centramos, portanto, nosso olhar sobre um grupo de cinco epístolas.39 São destacadas, assim, as enviadas a Ethelberto e à rainha Bertha, – ambas visando a impulsionar a expansão do cristianismo anglo-saxão e o apoio e autoridade conferidos aos líderes religiosos provenientes de Roma – duas cartas enviadas a Agostinho – a primeira referente ao papel dos milagres e ao comportamento dele como líder; a segunda destinada a apresentar um modelo de organização da Igreja naqueles reinos que confere autoridade ao próprio arcebispo – e a última enviada a Melito, monge missionário, acerca do tratamento a ser destinado aos pagãos e seus templos.

para estudo e, no entando, a dificuldade em datar e associar a contextos específicos seu conteúdo nos leva a crer que a este ponto da pesquisa, e também dos debates sobre a documentação, sua inserção pode ser problemática. Para além disso, a dissidência religiosa não ganha destaque nas perguntas e as respostas não contradizem de forma alguma a análise aqui desenvolvida das outras cartas. Sobre o debate supracitado acerca do uso desta documentação, cf..: DEANESLY, M.; GROSJEAN, P. The Canterbury Edition of the Answers of Pope Gregory I to S. Augustine. The Journal of Ecclesiastical History, v.10, n.1, p. 1-49, 1959; MARKUS, R. A. The Cronology of the Gregorian Mission to England: Bede’s Narrative and Gregory’s Correspondence. The Journal of Ecclesiastical History, v. 14, n. 1, p. 16-30, 1963.

38Nessa linha, destacamos que o termo “cristandade” dialoga diretamente com a noção de ortodoxia, visto sua pertinência na descrição de um discurso exclusivista e universalista, cujo principal objetivo é a garantia de uma uniformização que legitime um corpo clerical hierarquicamente organizado e reconhecedor da autoridade romana.

39SCHAFF, Philip (ed.). Op. Cit. Series II, Volume 13. p. 138-142; 194-204. Outra carta não é inserida no corpus por estar em em situação semelhante, é a enviada aos monges na primeira missão, presente no capítulo I-23 da Historia Ecclsiastica. Ela não foi encontrada no epistolário de Gregório Magno, figurando apenas em Beda e na Vita S. Gregori de John, o diácono. Desta maneira, entendemos que seu uso no corpus central levaria-nos a estabelecer um debate sobre autenticidade e sobre a diferença entre sua pertinência para a compreensão do período de conversão e para a construção narrativa de Beda.

Igualmente enviada ao grupo de monges na primeira missão, encontra-se, também, na seguinte edição:

SCHAFF, Philip (ed.). Nicene and Post-Nicene...: Leo the Great, Gregory the Great. Edinburgh: T&T Clark. Series II, V. 12. p. 1045.

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