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Argumentos de autoridade: elementos de unificação simbólica da

No documento NATHALIA AGOSTINHO XAVIER (páginas 154-157)

CAPÍTULO 5: A A formação da identidade religiosa nos reinos suevo e de Kent: análise

5.4 Argumentos de autoridade: elementos de unificação simbólica da

A definição de públicos, como dito, pode extrapolar a própria finalidade do documento, delimitada na relação entre objeto e autor. Contudo, esta finalidade primária pode ser pensada a partir da seleção de argumentos que conferem autoridade ao discurso. Além de assumirem uma faceta ideológica, sobretudo pela legitimação das prerrogativas de grupos sociais e seus gentes proeminentes, são indicativos da construção de uma identidade religiosa; de mecanismos de unificação do discurso.19

Trata-se, como efeito, de uma forma de identificação. A funcionalidade destes argumentos pode variar, como por exemplo, para convencimento de um público ou justificação de alguma defesa teológica, todavia é sempre uma forma de referência do autor ou de um coletivo por ele representado. Assim, a frequente citação a trechos e estórias bíblicas e a inclusão das audiências de sermões ou cartas em uma linha contínua que tem como origem o Antigo Testamento denotam a particularidade de um discurso eclesiástico.

O uso destas referências tem uma multiplicidade de funções. Elas propiciam um contínuo histórico que submete a todos. Trata-se, nestes casos, da apresentação de uma força supra-histórica: a divina. Por meio deste efeito de narrativização do discurso, há a

legitimação do próprio discurso e, com ele, a defesa de uma sociedade hierarquicamente organizada pelo parâmetro cristão. As dinâmicas de poder são, por esta via, apresentadas ora pela lógica de simulação, como recurso ideológico que tem por finalidade obscurecer/ocultar a assimetria destas relações, ora da coisificação, esta característica de uma naturalização/eternalização de tal assimetria.20

19

Cf.: nota 6, deste capítulo.

A reincidência deste mesmo tipo de mecanismo em ambos os autores, Gregório Magno e Martinho de Braga, evidencia uma tópica nos escritos de cunho pastoral e/ou exortativo, e reforçam o caráter eclesiástico do público-alvo, bem como a possibilidade deste ser elemento persuasivo na conversão/cristianização de populações mais vastas. Para o primeiro, a relembrança de povos bíblicos como modelo auxilia na proposição de condutas para os clérigos e, também, na construção de um inimigo comum recorrente no tempo e no espaço. Em tempo, Martinho de Braga evoca a narrativa bíblica para apontar para a mesma recorrência de ídolos, apresentando-os como falsos, e corroborar a Trindade segundo o niceanismo.

Estes recursos são coerentes com a finalidade de convencimento de clérigos menores e fiéis comuns. Certificam a veracidade da posição defendida e fornecem elementos de reconhecimento da instituição. Não casualmente, a mobilização destes argumentos acompanha a pequenas sutilezas que diferenciam os casos, pois são referentes aos debates de cada localidade. Nesta linha, nota-se que a inserção do idólatra na vida cristã se dá pela transposição de sacrifícios ao culto aos santos para Gregório, e no pacto realizado com o batismo pela ratificação do Credo para Martinho. Desta maneira, a transição de uma crença a outra, simplificada em discurso pela exaltação de Deus, guia a composição das epístolas gregorianas, que exaltam, sobretudo, a submissão do fiel e dos clérigos à potência divina. Ao passo que a presença do dogma trinitário no sermão martiniano esclarece que projeto de Igreja se formulava na Galiza, certamente, preocupada com a definição de uma corrente ortodoxa trinitária.

O uso destes argumentos tanto estabelece uma personalidade para a instituição quanto favorece o vínculo com outras regiões, inclusive diplomático. Com efeito, o que mais se destaca na documentação é a associação com Roma e com Constantinopla, seja por meio da evocação da comunicação com estas sedes, seja pela parecença com seus ritos e métodos. Estas determinações ou a afirmação de qualquer laço com tais dioceses apresenta-se, em ambos os reinos, como um parâmetro, a despeito de podermos identificar uma diferença nas fontes no que concerne ao relacionamento com Roma.

De mesmo modo, esta disparidade está asssociada às especificidades de cada localidade e de cada projeto, consequentemente, distanciando dois paradigmas, ou duas identidades.

Como líder reconhecido, Martinho de Braga promove uma autoridade à elite episcopal auto-conferida, ou seja, o discurso eclesiástico local, e a convocação de concílios, reforçam a legitimidade da instituição e de seus membros. Neste panorama

não há, necessariamente uma sobreposição de Roma em relação à Constantinopla. As duas são igualmente lembradas na argumentação para assinalar o contato entre o noroeste peninsular e estas dioceses. Atuam, de fato, como argumentos de autoridade, tanto para o público peninsular quanto externo.

Contudo, em Kent a autoridade dos clérigos é conferida pelas epístolas romanas, outorgada pela sede como recomendação destes agentes à monarquia local. Não apenas o discurso sobre a missão é oriundo da sede romana, como a memória de um cristianismo germinado na Península Itálica se perpetua, ao menos, até Beda. As prerrogativas pretendidas por Gregório Magno em sua obra epistolar indicam um comum acordo entre as personagens envolvidas. Cartas a reis e rainhas e determinações verticalmente impostas sobre o futuro da delegação ressaltam o caráter “estrangeiro” da identidade religiosa defendida em ambiente insular, ainda que pensemos na autonomia de Agostinho e dos outros monges. Trata-se, destarte, de uma proposta identitária universalizada.

Em síntese, a citação de conselhos oriundos de Roma na DTM e o uso destes para autenticar a proposta martiniana diferenciam-se deste tipo de relação, uma vez que a sede apenas serve como ponto de referência/reverência para a Igreja galega e, no reino anglo-saxão, apresenta-se como ponto de origem da própria instituição; não por uma veneração, mas pela premissa hierárquica anterior à própria migração dos monges. Em Kent, a identidade cristã defendida é, idealmente, uma extensão da cristandade que tem como princípio Roma e que se propaga a partir do ideário de uma missão. Desta maneira, a própria troca de correspondências, como vestígio material desta associação entre espaços serve como argumento de autoridade.

Assim sendo, o envio do pálio a Agostinho de Canterbury e aos outros bispos possuía a mesma funcionalidade de qualquer recurso de validação do discurso, apenas estendida ao campo visual, isto é, não-linguístico. Ou seja, o pálio era símbolo ideológico de legitimação, por exibir, no decorrer de ofícios,21 a competência do bispo como representante da vontade divina. Proporcionalmente, os milagres que ele teria realizado serviriam como sinais “externos” desta predileção e são apresentados sob a mesma condição de argumentos de autoridade. Estes mecanismos de convencimento, de prova da superioridade do cristianismo, são recorrentes nos escritos de Gregório Magno

21

Gregório Magno estabelece que o uso do pálio deveria estar restrito e/ou era apropriado na ocasião de ofícios. SCHAFF, Philip (ed.). Op. Cit.,Carta LXV. p. 194.

e pertinentes a uma lógica de ampliação do projeto de inserção de populações em um plano salvífico que tem como epicentro Roma.

Os aspectos citados concernem a todo o ideário de uma missão, tendo por finalidade promover a transição de uma fé a outra de maneira persuasiva e imediata – atribuindo a objetos certa acepção e, proporcionalmente, aos agentes certos poderes. Ou seja, são elementos simbólicos que constituem/promovem essa significação unívoca. De uma forma ou de outra, outorga-se ao missionário o conhecimento e a ação sobre os desígnios divinos.

Por esta via, as citações comuns das Escrituras e da Patrística, a identificação com sedes relativas a um passado imperial e exposição de fatores de confirmação do poder episcopal reúnem-se como argumentos que esboçam a identidade religiosa construída nos processos de cristianização/conversão.

Estes argumentos criam uma associação com a tradição e com dioceses emblemáticas, confirmando, por um lado, a proximidade entre a hierarquia local e Deus para os anglo-saxões, e por outro, a idoneidade da centralização normativa eclesiástica na Galiza interna e externamente à península.

5.5 Cristianização e conversão: duas propostas de fortalecimento do cargo

No documento NATHALIA AGOSTINHO XAVIER (páginas 154-157)