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Rev. Soc. Bras. Med. Trop. vol.28 número4

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Academic year: 2018

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Revista da Sociedade Brasileira de M edicina Tropical 28(4):419- 421, out- dez, 1995.

CARTA A O ED ITOR

Sr. Editor:

De várias maneiras vem sendo escrita em português a palavra T r ip an o s o m a, o que contraria o ideal de uniformidade que deve nortear a terminologia científica.

O termo foi criado por Grüby em 1843, utilizando-se dos elementos gregos t r y p an o n , verruma + s ô m a, corpo12. Designa tanto um gênero de flagelados, como o protozoário desse gênero, considerado individualmente.

É óbvio que, quando nos referimos ao gênero, devemos respeitar a forma original da nomenclatura latina: T r y p an o s o m a (com y ) . Quando, no entanto, nos referimos em português ao protozoário de maneira geral, a palavra deve ser escrita com a vogal i por não haver y em nosso alfabeto: T r ip an o s o m a.

Consultando-se os melhores léxicos da líng u a p o rtu g u esa, v e rific a-se q u e há verdadeira balbúrdia em relação ao vocábulo

t r ip an o s o m a.

Nascentes, no seu Dicionário Etimológico Resumido16 grafa t r ip an o s o m a. Já no dicionário por ele elaborado para a Academia Brasileira de Letras” prefere t r ip an o s o m o .

No dicionário de Caldas Aulete-Hamilcar de Garcia2, encontra-se averbado t r ip an o s o m a, com remissão para t r ip an o s s o m o .

Jo sé Pedro Machado, em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa13 consigna apenas t r ip an o s s o m a.

Silveira Bueno3, no verbete t r ip an o s s o m a refere-se a t r ip an o s s o m o como variante da mesma palavra.

Na décima edição do dicionário de Morais11

t r ip an o s s o m a (co m i e duplo s) designa o gênero e t r ip an o s s o m o o protozoário.

O dicionário de Cândido de Figueiredo8 e o

Grande Dicionário Brasileiro Melhoramentos11 registram t r ip an o s s o m a com remissão para t r ip an o s s o m o .

Laudelino Freire9 aco lhe as seguintes

fo rm as: t r i p a n o s o m a , t r i p a n o s s o m a , t r ip an o s o m o , t r ip an o s s o m o .

O Vocabulário Ortográfico da Academia

Brasileira de Letras1, que deveria servir de paradigma, menciona 3 formas: t r ip an o s o m a, t r ip an o s s o m a e t r ip an o s s o m o .

Recebido para publicação em 07/ 04/ 95.

O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Ferreira7 registra somente a forma t r ip an o s s o m o . Refere-se ao elemento grego s o m o ( ? ) e grafa erroneamente o gênero:

T r y p an o s s o m a (com y e duplo s).

Nos dicionários técnicos especializados em terminologia médica verifica-se, igualmente, não haver uniformidade na maneira de grafar a palavra t r ip an o s o m a.

Ramiz Galvão10 e Pedro Pinto18 optam por um ú n ic o s e p ela te rm in aç ão em o - t r i p a n o s o m o, enquanto Coutinho4 prefere t r ip an o s s o m a (com duplo s e terminação em à) . Mario Rangel19 averba unicamente t r ip an o s o m a e Paciornik17 registra duas formas: t r ip an o s o m a e t r ip an o s s o m o .

Serravale20, professor de Parasitologia da Universidade Federal da Bahia e autor de um Vocabulário de parasitologia médica, escreve

t r ip an o s o m ía s e (com um único s).

P e rc e b e -se q u e essa in d e c isão e m ultip licid ad e de fo rm as d eco rrem das alternativas que se oferecem em relação ao som sibilante da 4 - sílaba e à vogal final ( a ou o). A nalisem o s sep arad am ente as duas questões:

1. D u p lic a ç ã o d o s - Do ponto de vista etimológico, a duplicação do s não se justifica, considerando que essa consoante não existe no determinante t r y p an o n , mas somente no determinado s ô m a 1*.

Do ponto de vista fonético, a duplicação se justificaria para co nferir à sílaba o som sibilante forte. Essa norma, no entanto, nem sempre é seguida, conforme se verifica em outras palavras de formação análoga, que mantêm o som sibilante fraco, como em p a r a s it o (de p a r ã , ao lado, próximo + sitos, pão, alimento) e f i l ó s o f o (de p h ílo s , amigo + so p hó s, saber).

2 . M u d a n ç a d a v o g al f i n a l d e a p a r a o - Essa alteração é ainda menos defensável. Se a idéia é a de conferir o gênero masculino ao tripanosoma no sentido biológico, convém lembrar que os protozoários são assexuados e q u e, d en tre e le s, tem o s a am eb a e a leishmania, a que se atribui o gênero feminino.

Se o o bjetiv o é o g ênero gram atical (subentendido em protozoário) pecamos por ignorância, porquanto as palavras formadas

com elementos gregos e terminadas em m a já

(2)

Cana ao Editor. RezendeJM . Revista da Sociedade Brasileira de M edicina Tropical 28:419- 421, out- dez, 1995.

são d o g ênero m asculino . Exem p lo s: aro m a, a x i o m a , c e l o m a , c i n e m a , c l i m a , d i l e m a ,

e c z e m a , e r i t e m a , e x a n t e m a , e n i g m a , e p i g r a m a , e s t r o m a , f a n t a s m a , f o n e m a , idio m a, glio m a, lipo m a, m io m a, (e o utro s tu m o res em o m a ) , p a r a d i g m a , p r o b l e m a , p r o t o p l a s m a , s i n t o m a , s o f is m a , t e o re m a ,

t o xo plasm a, etc.

Assim sendo, por nenhum motivo se justifica a descaracterização morfológica e fonética do termo criado por Gruby. Não bastassem todos estes argumentos são ainda pertinentes as seguintes ponderações:

a) É necessário respeito à tradição e ao uso. Os trabalhos clássicos de parasitologia e medicina tropical publicados no Brasil, antes e depois da reforma ortográfica de 1943, indicam clara preferência pela forma tr ip an o s o m a.

b) Em linguagem científica, sempre que não se atentar contra o vernáculo, a melhor opção é aquela que nos aproxima de outros idiomas. c) Do ponto de vista prático, a duplicidade de

formas, uma para indicar o gênero, e outra para o protozoário pertencente ao mesmo gênero, levaria um professor de parasitologia a pronunciar a todo instante, durante uma aula, ora tripano so m a, ora tripano sso mo .

Na realidade, o que se ouve em co ng resso s, co n ferên cias, sim p ó sio s, seminários, aulas, é unicamente tripano so m a, t r i p a n o s o m í a s e o u t r i p a n o s o m o s e . T r i p a n o s s o m o , t r i p a n o s s o m í a s e e t ripano s s o m o s e só aparecem nos textos impressos após o filtro da revisão editorial. Cria-se, assim, uma dupla terminologia; uma para a linguagem falada e outra para a linguagem escrita, o que se deve evitar. d) A opção por tripano so m a encontra amparo

em uma das maiores autoridades lingüísticas de nosso país, o Prof. Ismael Lima Coutinho. Em seu livro Pontos de Gramática Histórica5, no capítulo sobre formação de palavras, à página 222, dá, entre outros, os seguintes exemplos de palavras formadas com elementos gregos da letra

s.-sitos, trigo, alimento: parasito , parasito lo gia sô m a, sõmato s,corpo: so mático , tripano so m a so phía, sabedoria - filo so fia, teosofia

e) O Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Ferreira, embora seja o léxico mais

mo derno e atualizado em no sso país, não deve servir d e p ad rão -o uro em terminologia m éd ico -científica, po is são bem co nhecid as as 'suas d eficiências nessa área6.

Essas as raz õ es p elas quais m e p arece legítim a a o p ção p ela fo rm a tripano s o m a.

REFERÊN C IA S BIBLIO G RÁ FIC A S

1. A cad em ia Brasileira d e Letras. V o cab ulário ortográfico da língua portu guesa. Bloch Editora, Rio de Janeiro, 1981.

2. A ulete FJC, G arcia H. D icionário co n tem p o rân eo da língua portu guesa, 3 a ed ição, Editora D elta, Rio de Janeiro, vol 5 ,1 9 8 0 .

3. Buen o FS. G rand e d icio n ário etim o ló g ico -p ro só d ico da língua -p ortuguesa, Editora Saraiva, São Paulo, vol 8 ,1 9 6 3

-4. C o utin ho CA . D icio n ário en ciclo p é d ico de m edicina, 3 a ed ição, A rgo Editora, Lisboa, vol 2, 1977.

5. C outinho IL. Pontos de gram ática histórica. 5a ed ição, Livraria A cad êm ica, Rio d e Janeiro, 1962.

6. C o u to Jr D. A final d icio n ário tam b ém erra. D iálogo M éd ico 1 3 :2 2 - 2 9 ,1 9 8 7 .

7. Ferreira A BH . N o v o d icio n ário da língua portuguesa, 2a ed ição , Editora N ova Fronteira, Rio d e Janeiro, 1986.

8. Figueiredo C. D icionário da língua portu guesa, 13a ed ição, Editora Bertrand, Lisboa, vol 2 ,1 9 4 9 .

9. Freire L. G rande e novíssim o dicionário da língua p ortuguesa, 3 a ed ição, Jo sé O lym pio Editora, Rio d e Janeiro, vol 5 ,1 9 5 7 .

1 0 .G a l v ã o B FR . V o c a b u l a ri o e ty m o l o g i c o , o rth o g ra p h i c o e p ro s o d i c o d as p a l a v ra s p ortuguesas derivadas da língua grega. Livraria Francisco A lves, Rio d e Janeiro, 1909.

11. G rande dicionário brasileiro. M elhoram entos, 8 a ed ição , São Paulo, vol 5 ,1 9 7 5 .

12. G ruby D . R ech erch es e t ob servations sur une

nouvelle esp èce d ’hém ato zoaire T ry pan osom a

san g u in is. C o m p tes R end us A cad em ie d es S ciences (Paris) 1 7 :1 1 3 4 - 1 1 3 6 ,1 8 4 3 .

13. M achado JP. D icionário etim o ló g ico da língua p ortuguesa, Editora C onfluência, Lisboa, vol 5, sem data.

14. M orais A . G rande dicionário da língua portuguesa, 10a ed ição, Editora C onfluência, Lisboa, vol 12, 1949- 1959.

(3)

Carta ao Editor. Rezeixde JM . Revista da Sociedade Brasileira de M edicina Tropical 28:419- 421, out- dez, 1995.

15. N ascentes A . D icionário da língua p ortu guesa. A cadem ia Brasileira d e Letras, Rio d e Janeiro, vol 4 ,1 9 6 1 - 1 9 6 7 .

16. N ascen tes A . D icionário etim ológico resum ido. IN L, Rio d e Janeiro, 1966.

1 7 .P a cio rn ik R. D icio n ário m é d ico , 2* e d ição , Ed ito ra G uanabara K oogan, Rio d e Janeiro, 1975.

18. Pin to PA . D icio n ário d e term o s m éd ico s, 8 ‘ ed ição, Editora C ientífica, Rio d e Janeiro, 1962. 19. Rangel M . D icionário m éd ico. Irm ãos D i G iorgi,

Rio d e Janeiro, 195 1 .

2 0 . Serravale A . V ocab ulário d e parasitologia m édica. C en tro Editorial e G ráfico da U n iv ersid ad e Federal da Bahia, Salvador, 1987.

Jo ffre M . d e R ez e nd e

Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás

Goiânia, GO

Referências

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