Maria Mulé Slem enson
HUMOR: DEFESA OU SUBLI MAÇÃO?
Trabalho de conclusão de curso com o exigência parcial para graduação no curso de Psicologia, sob orientação da Profª . Drª . Cam ila Sam paio Pedral.
Pont ifícia Universidade Cat ólica
Faculdade de Psicologia
Agradecim ent os
Agradeço à orientadora desta pesquisa, Cam ila Sam paio Pedral, a qual tive o prazer de escolher e o privilégio de ser escolhida. Agradeço pela sua atenta leitura e delicada escuta, por alim entar- m e com seu entusiasm o pelo estudo e com seu estim ado acervo bibliográfico. E com o não poderia faltar: por rechear nossos encontros com leveza e bom hum or. Agradeço aos dois psicanalistas entrevistados que contribuíram enorm em ente para a pesquisa, agradeço pela disposição e colaboração im ediata.
Aos professores da graduação, em especial, I sabel Kahn Marin, Maria de Lourdes Trassi Teixeira, Silvana Rabello, Regina Chu Cavalcanti, Franklin Goldgrub, que m e ensinaram algo além da teoria, m estres incapazes de passaram despercebidos e que, desde j á, deixam saudades. Ao professor Sidnei José Caseto, pela seriedade, im pecável e im plicada presença, ao lado do qual m e encantei pelo tem a desta pesquisa.
Aos abuelos, Marta e Carlos, que não pouparam cuidados e afetos à neta brasileira; desde o prim eiro olhar, a insistente e invariável aposta em m im , para os quais as palavras ficam curtas e insuficientes.
À m inha m ãe, olhos dos quais brotam orgulho, adm iração e um im enso com partilham ento das conquistas, aquela com a qual, lado a lado, dei os prim eiros passos, esses que m e possibilitaram percorrer este cam inho; ao m eu pai, que apenas com um sorriso m e aquece com a intensidade de nossa relação, presença na qual transborda acolhim ento e generosidade.
Aos m eus irm ãos, m eninos encantadores, I van, Tom ás e Teo, que m e distraíram com ím par bom hum or, nos m om entos de m aior introspecção e debruce sobre o trabalho.
Ao m eu analista, Christian I ngo Lenz Dunker, que com poucas e pertinentes palavras, m e acom panhou em am adurecim ento tão significativo, o que tornou possível a finalização de tantas etapas.
À I sabel Penteado, am ada am iga e cúm plice com panheira de tantas em preitadas e descobertas, que se interessou e se dispôs a fazer um a leitura de algum as destas páginas quando ainda eram rascunhos.
À Heloísa Reut er, pelo apoiou em m eus prim eiros passos e t ropeços na vida adulta, pelo am paro às m inhas inseguranças e conflitos profissionais, por acom panhar as batalhas e com em orar, sem pre, as vitórias.
Ao m estre Li, m ais além da m edicina, ao pleno acolhim ento do corpo, da alm a e das em oções.
Hum or: defesa ou sublim ação?
Palavras- chave: Riso, Hum or e Psicanálise.
Resum o
O present e t rabalho t eve com o obj et ivo provocar os leitores a se questionarem a partir de quais finalidades o hum or está presente na vida dos suj eitos. Para disparar a reflexão dois eixos foram contrapostos: o hum or enquanto um a potência elaborativa e resignificativa e enquanto defesa e afastam ento da realidade.
Para sustentar as inquietações suscitadas, em um a prim eira parte, realizou definições conceituais e aprofundou teoricam ente as peculiaridades das diferentes espécies de riso, estabelecendo estreitas articulações com a psicanálise. Em um segundo m om ento, se dedicou a discutir a respeito das contribuições do hum or no desenvolvim ento infantil. Na terceira etapa, estendeu os efeitos do hum or e desafiou a possibilidade da presença do dito hum orístico no cotidiano dos suj eitos. Para tal, prim eiram ente voltou- se para a clínica psicanalítica e posteriorm ente para outros contextos sociais.
S U M Á R I O
I nt rodução p.0 6
Met odologia p.0 9
1 .0 Hum or e Psicanálise
1.1 - O hum or na vida de Sigm und Freud p.1 2
1.2 - O côm ico, o chiste e o hum or: a quitanda do riso p.1 7
1.3 - As risadas aplaudem o espetáculo: o outro im prescindível p.4 0
2 .0 A infância no j ardim do riso p.5 2
3 .0 Olhar a vida at ravés da lent e do hum or p.6 4
3.1 - Um a nota sobre a transferência p.6 7
3.2 - A clínica bem - hum orada p.6 9
3.3 - Vinhetas Clínicas p.8 5
3.3 - O hum or no cenário social p.9 3
Considerações Finais p.1 0 1
I nt rodução
A ótica do hum or e, das tiradas hum orísticas, está estam pada na cam iseta dos adolescentes, nas conversas de bar, no j ornal que em brulha o peixe, no dito que encanta a m ocinha, nas propagandas publicitárias, nos encont ros fam iliares, no t êt e- à- t êt e dos com panheiros de esperanças, nos abraços dos nam orados, no olhar dos cúm plices, na cena desconcertada e à m ercê do im previsto. Apesar de ser um “ dom raro e precioso” , que traz um tem pero especial para os dias de chuva, para os am bientes abafados e para as noites de luar, é um a experiência vivida e com partilhada.
O interesse pela tem ática do hum or é antigo. Nascida de um a fam ília argentina e, em grande parte j udia, os ditos espirituosos estiveram presentes em m inha vida desde os tem pos de fraldas. As inúm eras anedotas que são contadas dem onstram que o hum or sem pre foi um prestigiado convidado em nossas m esas de j antar. Sensível a este, devido à sua presença especialm ente fam iliar, aprofundei m eu interesse quando as charges da Mafalda e do Yo, Matias com eçaram a fazer sentido em m inhas leituras.
Diante da proposta de produzir um trabalho de conclusão de curso, não foi im ediato o encam inham ento em direção a esta tem ática. Sentia-m e tíSentia-m ida eSentia-m discorrer sobre uSentia-m assunto que neSentia-m sequer desluSentia-m brava a possibilidade de um aprofundam ento teórico. Divaguei por outros tem as, até que, desanim ada pelos cam inhos que percorria, o hum or surgiu, abruptam ente, com o um a possibilidade de pesquisa.
Este trabalho de conclusão de curso está dividido em três capítulos: no prim eiro se encontram articulações estreitas entre o hum or e a psicanálise, com ênfase nas considerações que podem ser feitas ent re os conceitos hum orísticos e a abordagem psicanalítica; no segundo capítulo é proposto um m ergulho nos ânim os infantis e no entusiasm o com o qual o hum or incide na vida dos pequenos e o terceiro está voltado para a presença do dito espirituoso na vida cotidiana dos suj eitos.
Dentre esses, encontram os sub- capítulos: no prim eiro há um a retom ada do hum or nos m eandros da vida de Sigm und Freud, com foco na int ensidade e proxim idade que o m est re m ant eve com est e; em seguida, há definições conceituais e o aprofundam ento de algum as das contribuições das teorizações freudianas à reflexão, reforçando as peculiaridades e singularidades dos conceitos de côm ico, de chiste e de hum or; e para finalizar é caracterizado o dito espirituoso, legitim ando e fundam entando a im prescindível presença do público para a piada circular.
No segundo capítulo, é situado o riso no j ardim da infância, onde é desconstruída a idealização de que as crianças não desfrutam das piadas, visão destorcida, concepção pela qual se acredita que essas são felizes por natureza, dispensando deste recurso. O hum or, neste contexto, é apresentado, segundo as contribuições possíveis para o estado de orfandade e hum ilhação que as crianças se encontram diante das tentativas de inserção no universo que se apresenta a elas em seus prim eiros anos de vida.
O capítulo final é iniciado com um sub- capítulo sobre os efeitos da presença do riso na experiência analítica, desafiando a possibilidade de um a clínica bem - hum orada. Neste, estabeleceu- se um diálogo entre os diferentes autores, apresentando as contribuições de cada um desses no universo do hum or. Após este, é dada continuidade às reflexões com algum as vinhetas clínicas que ilustram o que é desenvolvido teoricam ente, e finalizando, com o hum or para além da prática clínica, reconhecendo seus efeitos na transm issão cultural e social na constituição dos indivíduos e abordando as interfaces do dito espirituoso na vida cotidiana.
espirituoso, possam os nos aproxim ar da possibilidade de discrim inar segundo quais efeitos o hum or incide na vida psíquica dos suj eitos. Para disparar a reflexão, foram contrapostos dois eixos: o hum or enquanto um m ovim ento elaborativo e sublim atório, com o form a de ressignificar situações traum áticas e angustiantes, ou ao invés, de form a defensiva, com o recusa e afastam ento da realidade.
A interrogação, Hum or: defesa ou sublim ação?, propõe- se a provocar os leitores na perspectiva de se questionarem quais potências podem ser incitadas a partir do dito espirituoso e que efeitos podem se configurar. Mais do que tudo, pretende dar elem entos para validar um a possibilidade do viver à m argem da seriedade, afirm ando o estilo de olhar através da ótica do hum or.
Ao princípio da realização deste trabalho de conclusão de curso, o em penho estava em rechear a pesquisa com experiências práticas que trouxessem sustentação às reflexões. O tem or era não encontrar, teoricam ente, o suficiente para isso. À m edida que o acervo bibliográfico ganhava volum e e alim entava as interrogações suscitadas, foi depositado m aior peso nas leituras e conseqüentem ente retirado da perspectiva de coletar dados práticos. O equilíbrio encontrado foi apresentar as vinhetas clínicas, que trouxeram substanciosas ilustrações.
Neste sentido, a m etodologia desta investigação foi elaborada segundo estratégias que possibilitassem um a aproxim ação e reconhecim ento dos efeitos do hum or na vida dos indivíduos. Atenta às inconvenientes interferências que poderiam ser suscitadas, caso fosse realizada um a abordagem invasiva ou intem pestiva ao suj eito, optou- se pela colet a de casos clínicos. Nesses, as int erfaces e as incidências dos ditos hum orísticas nas experiências hum anas, foram relatados a partir da escuta e observação de psicanalistas do percurso de seus pacientes.
Devido ao recém desabrochar de m inha experiência clínica, foi solicitado a analistas relatos que trouxessem elem entos da relação que seus pacientes estabelecem com o hum or. O critério para escolha dos profissionais foi que tivessem atuação clínica e que se apoiassem na abordagem psicanalítica para nortear sua atuação, j á que esta é a orientação deste trabalho.
Neste contato, foi priorizada um a discussão am pla, rica em relatos de vivências e percepções destes analistas acerca do acom panham ento de seus pacientes. Dessa form a, a entrevista individual não dispôs de um questionário dirigido e rígido, com questões pré- elaboradas a serem respondidas, m as sim , um a conversa flexível e espontânea, que pudesse contem plar e abranger as variadas óticas acerca da incidência do hum or.
quais os efeitos do hum or você identifica na vida de seus pacientes? Diante das respostas, a atenção se direcionou para o que se desenhou na fala desses, desfrutando da abrangência e rica experiência destes profissionais. O m aterial coletado não está disponível em sua íntegra, apenas estão presentes as vinhetas clínicas.
1 .1 - O hum or na vida de Sigm und Freud
Este capítulo pretende contextualizar a predileção de Sigm und Freud em relação ao hum or, proxim idade que não parece por acaso. Seus prim eiros escritos acerca desta tem ática surgem no início do século XX. No entanto, antes disso, dam as e cavalheiros que o conheceram deixaram registros, através de anedotas, de que o pai da psicanálise era bastante espirituoso, costum ando optar por com entários dotados de hum or e sagacidade.
A leitura de suas obras traz indícios de seu estilo persuasivo e de sua próxim a relação com o hum or: é freqüent e vê- lo fundam ent ar t eorias ou fortalecer argum entos com piadas e casos graciosos. Suas ilustrações, m esm o que algum as vezes pouco delicadas, m as sem pre divertidas, facilitam que os leitores ou ouvintes com preendam teorias psicanalíticas com plexas que pret ende t ransm itir.
Em seu histórico capítulo intitulado Piadas Sérias, Peter Gay ( 1992) com partilha com seus leitores que, em conversas inform ais, a ironia e a sátira tam bém não deixavam de se apresentar ao expor observações m ordazes por puro prazer. Relatos daqueles que o conheceram , descrevem - no com o um a presença dotada de sim plicidade, encantadora j ovialidade e um a incrível capacidade de encontrar graça nas situações cotidianas, até m esm o naquelas que denotavam um conteúdo grave ou polêm ico. Algum as de suas opiniões e postura diante de conflitos políticos, guerras m undiais e ditadores da época ainda trazem dúvidas de com o não trouxeram conseqüências m ais desastrosas: através de piadas, não poupava suas críticas às autoridades e líderes.
Alem ã. Desde então, prefiro m e proclam ar um j udeu” . ( Freud, 1827, apud Gay, 1992, p. 194) .
Seu ím peto e entusiasm o em se declarar um j udeu eram m ais int ensos em m om ent os polêm icos e problem át icos do que nos m ais tranqüilos. Ao ler algum as de suas piadas publicadas, evidenciam - se com ent ários host is e m aliciosos em relação à cultura e aos j udeus em especial vindos da Europa Oriental. A explicação para esta am bigüidade pode estar segundo Gay ( 1992) , no fato de que Freud ao m esm o tem po em que procurava estabelecer um a distância com esta frota de j udeus que invadia sua cidade, ironicam ente se identificava com eles em alguns de seus aspect os e cost um es m enos refinados. Nest e cont ext o, seu int eresse pelas anedotas j udaicas se explicaria pela possibilidade de se defrontar com seus sentim entos am bíguos e assim transitar pelos dois extrem os, ainda m ais com o interessante acréscim o de fazer graça para os outros.
Ao abordar rituais cotidianos, trazia em butido, além da cena em si, a sátira e a ironia características do gênero da piada. Nos casos a seguir, dem onstra sua hostilidade pouco disfarçada em relação aos j udeus, que em sua arrogante declaração de lim peza, apenas vinham a confirm ar sua pouca higiene:
“ Dois j udeus falam sobre o ato de se banhar. Eu tom o um banho por
ano, fala um deles, necessitando ou não” ; ou essa outra; “ Um j udeu
observa restos de com ida na barba do outro: posso te dizer o que você com eu ontem . Diga então. Lentilhas. Errou! I sso foi antes de ontem ” . ( Freud, 1905/ 2001, p. 69) .
O fascínio pelo desconhecido e a busca por desvendar enigm as acom panharam Freud desde os dias de estudante até a poltrona com o analista atrás do divã. Os indícios e as perguntas que o incitavam a prosseguir em suas form ulações, em sua m aioria, foram recolhidas a partir do acom panham ento de seus pacientes, assim sendo, descobriu um laboratório de observação em seu próprio consultório.
procurou esclarecer o enigm ático processo do sonhar, apresentando- o com o um retorno de um a operação aním ica norm al, articulando o conteúdo m anifesto do sonho, aquilo que recordam os e relatam os um a vez acordados, m esm o que m uitas vezes nos pareça fragm entado, absurdo e sem nexo, aos pensam entos oníricos latentes, m aterial presente na psique hum ana, do qual podem os nos aproxim ar através de associações aos elem entos sonhados. Afirm a que da com paração entre o conteúdo m anifest o do sonho recordado e os pensam entos lat ent es descobertos se obt êm o conceit o de t rabalho com sonhos. Descreve o processo de condensação pelo qual passam os elem entos da psique durante o ato de sonhar, o que leva a um a abreviação e form ações substitutivas com o m aterial dos sonhos, segundo ele, assem elhando- se com a técnica do chiste.
Nas palavras do m estre Freud ( 1905/ 2001) :
Procurou- se descobrir na t écnica do chist e os processos de condensação com form ação subst it ut a ou sem ela, de deslocam ent o, de figuração por um cont ra- sent ido e pelo cont rário, de figuração indiret a, et c., o que segundo acham os, cooperam com a form ação do chist e e m ost ram m uit o am plas coincidências com o processo de t rabalho com sonhos. ( p. 153) .
Assim sendo, Freud se dedicou a investigar a lógica do inconsciente, durante os prim eiros anos do século XX, com o esforço de evidenciar que o inconscient e não est á present e apenas nos sint om as e nos sonhos. A tentativa era em fundam entar que as m anifestações inconscientes poderiam acontecer na vida cotidiana, nos atos falhos, nas piadas, produções artísticas, entre outros. Sustentava com isso, a universalidade e onipresença do inconsciente e da psicanálise na vida dos suj eitos.
Esta postura esteve presente em todos os trabalhos escritos, assim com o a insistente intenção de form ular hipóteses que pudessem se aplicar universalm ente e a am biciosa expectativa de explicar a m ente hum ana. A im portância que foi em butida a estas prem issas é com preensível, se a localizam os naquele período histórico, em que havia um a im ensa recusa à Psicanálise. Neste terreno, a possibilidade de que esta teoria contem plasse todo e qualquer cidadão sustentava a pertinência e a continuidade de suas form ulações.
Por esta razão, o sonho, experiência vivenciada por qualquer ser hum ano, foi um excelente ponto de partida. Para introduzir o texto sobre as piadas, Freud disse acreditar que existia um a íntim a relação entre todos os fenôm enos m entais e, nesta perspectiva, estabeleceu estreitas ligações entre o m ecanism o do sonhar e da piada. Sua m otivação em explorar os recursos hum orísticos, não estava lim itada a captar a essência da ironia e da piada, m as propunha- se principalm ente a revelar a essência do funcionam ento da m ente.
Sensível às piadas após coleta das anedotas j udaicas, ele am plia a tem ática e aprofunda os recursos técnicos, ao produzir O chiste e sua
relação com o inconscient e ( 1905) , assunto que estendeu, com o verem os
no capítulo O Hum or ( 1927, volum e XXI ) . Desde o princípio desta discussão, sustenta que as piadas são assunto profundo e sério, pois dizem o que não pode ser dito, denunciam a autoridade e as figuras de poder que a m uitos oprim em . As piadas, m uito sedutoram ente são além de um a pequena conquista de liberdade em relação às restrições culturais, sociais e políticas, um a calorosa oferta de prazer ao ouvinte.
1 .2 - O côm ico, o chist e e o hum or: a quit anda do riso
A im portância que Freud atribuiu ao m aterial dos chistes fica evidente pela sua extensa produção teórica, as num erosas leituras que realizou para fundam entar suas teorias, a quantidade de piadas que coletou para refutar e aprofundar suas hipóteses e, por fim , o grau de detalham ento, com o qual discute os processos psíquicos envolvidos na form ulação das piadas. Sua insistente busca foi identificar o que faz, afinal, um a frase, um a cena ou um a lem brança tornar- se algo engraçado, um a fonte de prazer aos indivíduos.
Em suas obras, O chist e e sua relação com o inconscient e ( 1905) e O
Hum or ( 1927) , Sigm und Freud aponta para os diferentes desdobram entos
do riso, o contexto e os cam inhos pelos quais ele se dissem ina. Para disparar sua reflexão apresenta a idéia de que no riso há um a econom ia de gasto psíquico que opera na suspensão da inibição de desej os, cuj a satisfação norm alm ente estaria proibida e que, através deste m ecanism o, acaba por se satisfazer. I sto é, defende que “ a ganância de prazer hum oríst ico provêm da econom ia de um gasto de sentim ent o” . ( Freud, 1927/ 2001, p. 157) .
Nesta perspectiva, a essência do riso estaria em poupar afetos a que a situação naturalm ente daria origem e afastar, com um a pilhéria, a possibilidade de tais expressões de em oções. A realização da piada seria com o um desengano na expectativa do ouvinte, no m om ento em que a brincadeira ocupa o lugar do sentim ento preparado para a ocasião. Nesta, a graça se dissem ina pelo im previst o, pelo desconcert o e com ele a econom ia do afeto preparada para o contexto: o suj eito com eça a contar algo, o ouvinte se prepara para m anifestar um sentim ento pertinente ao contexto que esta sendo relatado. No entanto aquele que relata surpreende as expectativas do ouvinte, contando um a piada. Diante desta m udança de rum o, logo, pela não necessidade da descarga destes afetos preparados pelo ouvint e, est e é levado ao riso.
não se aplica, invariavelm ente e indiscrim inadam ente, a qualquer explosão de riso. O côm ico, o chist e e o hum or, est abelecem relações de parent esco, m as, sobretudo de distinção. A seguir, será percorrido o cam inho da com icidade, posteriorm ente a este, das form ulações do chiste e por últim o da dinâm ica do hum or. Para finalizar, será realizada um a breve com paração entre essas três form ulações, para com isso, construir elos de sem elhanças e diferenciações entre elas, introduzir e aprofundar a tem ática.
O contem porâneo Luis Cam palans Pereda ( 2005) quando arrisca fazer esta diferenciação, identifica que o côm ico encontra seu território quanto m ais explicitam ente a cena se constrói, vam os esclarecer, diz ele que com a com icidade desfrutam os da graça em sua form a bruta e inesperada: no click da fotografia. I lustrações corriqueiras e fam iliares são aquelas em que vibram os de rir diante de trapalhadas, escorregões no piso m olhado ou do contundente grito, quando intencionalm ente dem os um susto em alguém . O nascim ento da com icidade pode ser identificado no cont rast e ent re o que seria esperado, nos exem plos cit ados: um com portam ento civilizado; no lugar do que efetivam ente ocorreu, os tropeços e as trapalhadas. I sto é, o côm ico se instala na falta de proporção entre a atitude esperada e o que ao final sucedeu.
A cena côm ica, com o em qualquer atividade hum ana, para fazer, exercitar ou dizer algo investim os certa quantidade de energia psíquica. Diante desta constatação som os lavados a nos perguntar de que m aneira, no côm ico, ocorre a econom ia de gast o psíquico que nos leva ao riso. A resposta trazida por Mezan ( 2005) é que:
Mezan ( 2005) em sua fala reitera o que Pereda ( 2005) j á nos havia alertado, quanto à desproporção do dispêndio de energia característico do côm ico. Verem os com o est a dinâm ica ocorre psiquicam ent e: est e processo pode ser com preendido com o um a liberação do inconsciente, na autorização dos desej os e fantasias na em ergência com a infantil. Este resgate de elem entos da infância opera ao oferecer um a abertura aos j ogos e brincadeiras, sob um a lógica que esbarra no tênue lim ite com o absurdo e que nos convida a acessar as várias possibilidades de ser. O exagero da com édia, associado aos m últiplos sentidos que apresenta e à alternância entre eles, estabelece um am biente suportável e seguro para que o suj eito se descole da repressão de seu superego e, com a supressão dos processos prim ários do inconsciente, ocorra um a econom ia de gasto psíquico, o que explica o prazer que o suj eito experim enta diante de cenas bizarras.
Nas com édias cinem atográficas, os passos atrapalhados do herói, que ora figura o ideal e ora o ridículo, fazem com que, nesta alternância ent re um e out ro, o espect ador ao m esm o t em po est ej a afast ado da personagem e identificado com ela. O côm ico se situa na relação do eu com a im agem do outro, em que a graça se estabelece em ver o outro em circunstâncias que poderiam ser m inhas e vice- versa. Neste em baralham ento, o sem elhante, o outro igual, se vê atingido e contam inado sob efeito de um a descarga catártica, devido à proxim idade com o puro significado.
O francês Gilbert Diatkine ( 2006) , em seu texto Sobre o Riso, faz um a interessante analogia do côm ico através de um film e do cinem a m udo de Charles Chaplin: descreve a tram a e pontua cenas em que identifica a em ergência da com édia. Considera que é no cenário, no enquadram ento, na m ontagem e nas habilidades m ím icas que os atores do côm ico podem , em certas ocasiões, dispensar as form as lingüísticas e expressar- se por outras operações. O código verbal pode assim , contracenar no côm ico, porém não é indispensável.
registro, sej a no côm ico verbal ou no não- verbal, o pensam ento circula pelo talento de trazer graça e espontâneas risadas à cena.
Bons convidados para com preenderm os com o o renascim ento da infância nos leva ao côm ico, através do qual “ podem os ver o m undo sob os binóculos do riso ( ...) é deste lim iar entre a vida cotidiana e o espetáculo do m undo que o palhaço faz o convite” ( Sam paio, 1992, p. 43) são aqueles que entram em cena portados de narizes verm elhos. Os palhaços com suas roupas, gestos, m ovim entos exagerados e repetições exaustivas nos convencem de que, sob aquela lona estendida, tudo é brincadeira e personagens que a princípio vêm a alegrar as crianças não deixam de desenhar um sorriso nas feições dos pais que acom panham seus tropeços. Sam paio ( 1992) nos faz pensar que entre gargalhadas e “ palhacices” , perde- se o controle do destino e a brincadeira nos destina, perm itindo que a espera do que está por vir se torne suportável e a angústia do desconhecido e enigm ático, naquela m agia, possa ser tolerada. Os exageros e “ palhacices” , que em baralham e desem baralham , fazem com que o acento psíquico da platéia se desorganize para organizar- se de outra form a. Neste m ovim ento a tensão se alivia, o suj eito está no cenário do circo, vê o palhaço ora com o um sem elhante e ora com o um estrangeiro, diante da alternância da graça e do ridículo, deixa- se levar e neste cam inho pode se surpreender com outros significados.
Perm ite- se pensar que, j ustam ente pela razão de tornar- se possível ver a realidade de “ cabeça para baixo” , sej a suportável ver nosso porteiro da alegria em tantas enrascadas e apertos, em geral m om ento de explosão da graça. Falam os aqui de um “ deixar- se levar” pela palhaçada, pela graça e pelo im previsto, entretanto, “ o riso é garantido, apenas, porque tivem os a experiência, pela repetição, de que nada de grave vai realm ente acontecer. É nesse investim ento econom izado que se descarrega no riso” ( Diatkine, 2006, p. 05) . I sto é, devido a experiências anteriores, nas quais fom os levados a concluir que “ debaixo da lona do picadeiro” , a brincadeira é possível e perm itida e que nada de m al sucederá, torna- se possível relaxar e deixar- se levar.
m arcado na platéia para todo o público que se propõe, por aqueles instantes, soltar as am arras e se deixar levar, talvez por tudo isso, o côm ico diferencia- se de outras espécies do riso, sendo capaz de penetrar tanto e convocar a um a universalização do espetáculo da m agia e do riso.
O seguinte processo psíquico que irem os abordar apresenta, desde j á, um a consistente polêm ica diante da tradução adotada ao português: no originário alem ão é conhecido com o Witz, alguns autores brasileiros cham am de chiste, no entanto, m uitos outros criticam veem entem ente o uso deste term o. A crítica sustenta- se pelo fato de que o term o utilizado no Brasil foi im portado do espanhol, idiom a no qual a palavra em sua term inologia carrega em si o efeito m ordaz, sagaz e espirituoso, característico do Witz. Entretanto, o que não se m antêm no português, onde frequentem ente se associa o chiste com a piada, o que pode ser reduzido apenas a um a anedota ou história engraçada. Justam ente a esta diferenciação, Freud dedicou considerável esforço para que Witz não se confundisse com côm ico. O que proponho para continuidade da leitura da pesquisa, inclusive reconhecendo a pertinência da observação é que, realizado o devido esclarecim ento, podem os seguir a reflexão, utilizando-nos do t erm o chist e, que é o m ais difundido e em pregado, porém com a cautela de considerá- lo em seu adequado significado.
Ainda na tentativa de nos apoiarm os no conceito em sua form a m ais consistente e correta, trago a pesquisa realizada por Mezan ( 2005) para este aprofundam ento:
Havendo- nos com a insistente determ inação de realizar as diferenciações necessárias, a prim ordial delas é que diferentem ente do côm ico é no código verbal e no uso das palavras que o chiste se organiza para produzir o riso. A refinada com posição da piada, os recursos textuais e lingüísticos serão os responsáveis por um significante poder ser escutado sob várias faces e significados, e com isso, a censura ser anestesiada. O autor da piada tem a seu dispor todas as fontes de linguagem e, utilizará de sua habilidade para articular a representação pré- consciente à elaboração inconsciente.
Tais técnicas nos entregam ao riso, por deslocarem o acento psíquico, isto é, provocarem um desengano nas expectativas dos ouvintes, dando m argem a outros sentidos. A censura do superego adorm ece e a repressão é pega desprevenida j ustam ente pelo fato do significante rem eter o ouvinte a vários significados: num instante, um determ inado elem ento pode ser ele m esm o ou seu oposto. O refinado trabalho com a linguagem é a flexibilização que fornece o relaxam ento suficiente para que se abra um a fresta no inconsciente e o ego perm ita- se rir.
“ O m atrim onio X tem um a boa condição econôm ica. Na opinião de alguns, o m arido deve ter ganhado m uito e com isso se acom odou um pouco, enquant o out ros acredit am que sua esposa se acom odou um pouco
e com isso ganhou m uit o” . ( Freud, 1905/ 2001, p. 33) .
Nest e exem plo fica evident e que a t écnica do reordenam ent o das frases ( ganhou m uito - se acom odou um pouco/ se acom odou um pouco – ganhou m uito) , o que foi realizado a partir das m esm as palavras apenas alt erando sua ordem , foi o que t rouxe o acento irônico e crítico ao com entário. Outra técnica, m últiplo significado, pode ser observada no seguinte chiste:
“ Um cavalheiro, supost o parent e de Rousseau, t am bém ruivo e com o m esm o nom e é apresentado a um a dam a. No entanto seu com port am ent o é desconcert ado e inadequado e a dam a lhe diz: você m e fez conhecer um hom em roux ( ruivo) e sot ( bobo) , m as não um Rousseau” . ( Freud, 1905/ 2001, p. 30) .
A graça está, pois, roux- sot e Rousseau têm a m esm a pronúncia, assim , a partir de um a m esm a sonoridade têm - se m últiplos significados: o prim eiro desqualifica o suj eito diante de si e o segundo refere- se ao est im ável filósofo e poet a. No seguint e exem plo, diferent e do ant erior, o chiste se estabelece pelo j ogo de palavras que enuncia um duplo sentido:
“ O m édico vem exam inar um a senhora doente, m ovendo a cabeça ao m arido que a acom panha, diz: não gosto nada do que vej o em sua esposa. Há t em pos que eu t am bém não gost o, se apressa em responder o
m arido.” ( Freud, 1905/ 2001, p. 37) .
chiste a seguir evidencia o teor lógico da falácia ( falsa verdade) , no qual o cliente troca a torta pelo licor, através de um vínculo inexistente:
“ Um senhor chega a um a doceria e pede um a torta, m as em seguida a devolve e no lugar pede um copo de licor. Bebe- o e quer ir sem pagar. O dono do estabelecim ento o retém : o que o senhor quer de m im ? Deve pagar o licor. Na troca dele j á lhe dei a torta. Mas você tam bém não
a pagou. Mas tam bém não a com i.” ( Freud, 1905/ 2001, p. 58) .
Muitos são os recursos t écnicos - condensação, deslocam ent o, et c.- que a partir das construções lingüísticas têm o efeito de provocar prazer no ouvint e. Assim , sust ent a- se que o efeit o chist oso se encont ra na m aneira em que o pensam ent o se expressa e não no m at erial em si que é apresentado. Freud ( 1905) propõe ao leitor fazer o exercício de form ular de diversas m aneiras um m esm o chiste: deparam o- nos com o fato de que o sentido se m antém , m as a graça se perde, esta que apenas se expressa sob determ inada técnica lingüística. Conclui que, j ustam ente o produto léxico, o j ogo de palavras, causa o caráter chistoso e seu “efect o risueño”1.
Ao recapitular a obra de Freud, Renato Mezan ( 2005) faz um a interessante articulação entre as tem áticas: sonhos e chistes. Diz ele:
No sonho, o rest o diurno se veicula por algum elem ent o fort uit o aos desej os reprim idos, e, com o um im ã, os at rai para si; o t rabalho do sonho consist e precisam ent e em disfarçá- los para que possam penet rar na consciência, e, graças à regressão form al, ali se est rut uram com o seqüência de im agens. No wit z ( chist e) , sem elhanças fônicas ent re palavras e analogias inesperadas e ent re idéias, desem penham
1
função idênt ica a do rest o diurno para o sonho: as t endências condenadas pela censura t om am , por assim dizer, carona naquelas sem elhanças e analogias, o que é possibilit ado pela condensação e pelo deslocam ent o operant es t ant o na t écnica quant o no curso dos pensam ent os. ( p. 148) .
Com o j á se sabia, o sonho é a realização disfarçada de um desej o reprim ido, restava saber se o chiste operava da m esm a form a. Tal indagação levou Freud ( 1905) a perceber que alguns chistes operavam a partir de um a intenção, batizados por ele com o tendenciosos e outros que oferecem prazer apenas pela sua form a, cham ados inocentes.
No caso dos chistes da prim eira categoria, tendenciosos, o prazer é resultado da expressão de um a m otivação que de outra form a seria censurada. Nestas, a tendência esquiva- se de algum a im posição, em que com o auxílio do chiste, cancela- se a inibição, evitando a sufocação e a estase psíquica. A form a alusiva indireta desta categoria de chistes possibilita que pensam entos sej am expressos, com o um drible à repressão. Por um a brecha psíquica, pensam entos inconscientes podem tocar a consciência e, por esta característica singular dos chistes tendenciosos, esses proporcionam um a satisfação bem m ais intensa, carim bados com risos m ais fortes.
Nos tendenciosos se encontram pensam entos m orais, obscenos, preconceituosos, que derivam fundam entalm ente das esferas sexuais e agressivas. Freud enfatizou que com ponentes singulares da constituição sexual dos indivíduos podem ser decisivos na construção dos chistes, por exem plo, os chist es obscenos m uitas vezes são de aut oria de pessoas com inclinação exibicionista e, os agressivos, com um ente form ulado por aqueles que apresentam um com ponente sádico, m ais ou m enos reprim ido em suas vidas.
Nas palavras de Mezan ( 2005) :
sobre t ais idéias passa a ser supérflua - o inconscient e se t orna conscient e. O prazer deriva, port ant o, diz Freud, da econom ia de um dispêndio psíquico, aquele que era necessário para m ant er a inibição - o que, em t erm os dinâm icos, equivale ao levant am ent o de um a repressão. ( p. 148) .
Os chistes inocentes, valorizados por Freud ( 1905) ao longo de sua obra, não são m enos relevantes ou sem substância, podem enunciar algo m uito valioso, pois se apresentam em sua form a m ais pura. Um a regra geral é que a substância do chiste é inteiram ente independente dele e, será na m aneira chistosa que apresenta o pensam ento que este se torna engraçado. Estes nos fazem sorrir e não gargalhar, no entanto, têm o im enso desafio de m obilizar as energias psíquicas dos suj eitos a partir da destreza no uso dos recursos técnicos.
Freud ( 1905/ 2001) aborda os chistes inocentes, ao retom ar o desenvolvim ento e apreensão da linguagem de um a pequena criança que faz suas prim eiras tentativas. Localiza nestes passos iniciais em desvendar o código verbal, a criança acom odando sua postura psíquica na sonoridade acústica da palavra, sem se ater ao seu sentido ou ao seu significado. Equívocos entre palavras com um a fonética sem elhante são absolutam ente com uns, esses que levam os adultos a rir. Em suas palavras:
Nesta fala, ressalta- se outro aspecto, que se refere ao fato de que com o crescim ent o do suj eito e sua apreensão da linguagem , est es graciosos enganos e confusões são extintos e não lhe resta outra opção a adotar o código verbal estabelecido. Nesta perspectiva, a form ulação de chistes inocentes vem a ser um a retom ada nostálgica deste período do desenvolvim ento da linguagem infantil, em que se identifica um alívio de gast o psíquico, pois a relação que o suj eito est abelece com as palavras é apenas com o variações de sonoridades, econom izando a elaboração da com preensão e em prego da palavra com o represent ação de algo. A graça encontrará m aior alcance quanto m ais distante estiver do círculo de representação da palavra, isto é, de seu contexto habitual.
De passagem , sob as características fundam entais dos chistes inocent es e t endenciosos, poderíam os est abelecer um a extensão ent re esses e o t rabalho com os sonhos - cont eúdo m anifest o e cont eúdo lat ent e. O conteúdo m anifesto seria a piada em si e o conteúdo latente, a intenção ou fantasia à qual se pode aceder à consciência. Através desta analogia poderíam os identificar que, caso tenham os um conteúdo latente insignificante, porém com refinado uso dos recursos técnicos, tem os um chist e inocent e; se ele t raz cont eúdos proibidos e secret os, será tendencioso e m aior será a explosão da risada.
No t exto O Hum or ( 1927) , publicado pouco m ais que duas décadas após de O chist e e sua relação com o inconscient e ( 1905) , Freud retom a o tem a, porém agora não se trata m ais de chiste ou de côm ico em geral, m as de efeitos hum orísticos. O que, em 1905, era teorizado com o um relaxam ento parcial do recalque, com o um a brecha na vigilância e na coerção por parte da censura psíquica, passa a ser form ulado, em 1927, em term os de um sobreinvestim ento do superego.
poupando- lhe por alguns instantes das penas da vida. Este superego bondoso e tolerante m ostra que é possível brincar, “ que a vida não vale a pena ser levada tão a sério” , que o m undo foi feito tam bém para se gozar e não apenas para o sofrim ento interm inável. O superego propõe um distanciam ento da realidade penosa e introduz a possibilidade de tirar proveit o dos afet os angust iant es im plicados na ocasião, o que é em si, a econom ia na despesa com o afeto angustiante. Mostra ao eu outra form a de olhar, um a visão m ais leve de m undo.
O êxit o na prom oção do dist anciam ent o da sit uação desfavorável est aria na possibilidade encont rada pelo hum orist a de ident ificar- se at é cert o pont o com o pai, consolando assim , do alt o da sua nova posição, a aflição das crianças desam paradas às quais reduziu seu público. No ent ant o, a operação não se rest ringe aos ouvint es, recaindo sobre o próprio hum orist a que, ao rir de si m esm o, é ao m esm o t em po a criança aflit a e o adult o superior em relação a essa m esm a criança. ( Kuperm ann, 2005, p. 33) .
Freud com preende a relação do piadista com o ouvinte com o um a relação parental em que o prim eiro exerce a função paterna, do adulto, direcionando o cam inho da graça que será percorrido pelo ouvinte, função do filho, que ingenuam ent e e despret ensiosam ent e o segue. A at itude hum oríst ica seria o com port am ent o que o indivíduo tem em relação a si próprio, com o o adulto que procura am enizar um a am arga realidade para a criança. “ I sto quer dizer que o hum or surge por um efeito da im aginação, pelo qual se engendra, para o suj eito, um redim ensionam ento dos valores e dos poderes do m undo e que perm ite ao ego um a pequena vitória, um alívio im aginário” . ( Sam paio, 1998, p. 56) .
energia, ao superego pode parecer- lhe fácil sufocar as possibilidades de reação do ego. ( Freud, 1927/ 2001, p.160) .
Neste sentido, há um superinvestim ento do superego à custa do ego, em que um pensam ent o pré- conscient e é confiado por um m om ent o ao inconscient e, e o que resulta dest e t rat am ent o é im ediat am ent e recuperado pela percepção consciente, logo, fornece ao ego um a pequena parcela de prazer. Portanto, seria o superego o protagonista da cena no distanciam ento prom ovido pelo hum or, fazendo das angústias do ego, algo à toa, da qual podem os inclusive rir.
Dito isso, vej am os a seguinte piada que apresenta exacerbada virulência, o que se evidencia pela ira que a perpassa. Esta pode vir a fundam entar a hipótese que farem os a seguir:
“ Um goy [ não j udeu] pergunta a um j udeu: “ para que um j udeu precisa de pés? Pois para o bris [ circuncisão] ele é carregado, para o hupá [ altar nupicial] ele é conduzido e, para o túm ulo ele vai no caixão!” . Resposta: “ Para fugir depressa” . E o j udeu retruca: “ Para que um goy precisa de cabeça? Ele não coloca tefilin, não usa peies [ os cachos
laterais] e a inteligência não tem m esm o!” . ( Mezan, 2002, p. 292) .
Ao acom panhar os desdobram entos psíquicos através dos quais o hum or atinge a vida dos suj eitos e a ilustração acim a, nada nos im pediria de levantar a hipótese de que este fosse, eventualm ente, um m anej o indevido da realidade e um a postura defensiva do suj eito. A possibilidade de burlar a realidade poderia ser com preendida com o o triunfo do narcisism o, um escapism o, com o um a insistente tentativa de defender- se do fato de estar à m ercê do envelhecim ento, debilidades, necessidades orgânicas, frustrações e falências.
m ostrando que para ele são apenas focos de obtenção de prazer, rindo e burlando, através do com entário hum orístico. I sto não poderia ser considerado diferente de um a psicopatologia e um intenso m ecanism o de defesa.
Assim constatado, Freud ( 1927/ 2001) nos indaga:
Em que consist e a at it ude hum oríst ica, pelo qual o suj eit o se recusa ao sofrim ent o, põe em dest aque que o ego é indom ável ao m undo real, sust ent a com t riunfo o principio do prazer, m as t udo isso sem com prom et er, com o fazem out ros procedim ent os de igual propósit o, o t erreno da saúde aním ica. ( p.159) .
Para responder à pergunta, Freud ( 1927/ 2001) escreve sobre a m etapsicologia do hum or, em que diz que a dificuldade que encontram os em nos entregar a um a cena engraçada está na em ergência de sentim entos conflitivos presentes na m esm a. Defende que a escolha pelo hum or é a m ais saudável delas, pois se econom iza o dispêndio de afet os penosos e, neste m ovim ento, dim inuem - se as agruras da vida. Tais afetos dolorosos são econom izados através do hum or: para a pessoa que o produz, nada m ais é do que a poupança da energia dos afetos geradores de desprazer, um a vez que “ o superego condescendente, identificado com o papel paterno, perm ite um a burla controlada do princípio da realidade, favorecendo o princípio de prazer e, com isso, a transposição da barreira do inconsciente” ( Calich, 2006, p. 75) .
Abrão Slavutzky ( 2005) , ao retom ar o Mal Estar na Civilização, apresenta a questão de form a m ais concreta:
( ...) O hum or se aproxim a desses cam inhos, m as com um a vant agem , pois o t riunfo do princípio de prazer é feit o dent ro do t erreno da saúde psíquica. Logo, se a piada é o m odelo para se pensar o inconscient e, o hum or é um a form a sublim ada de reagir às dores da exist ência: um m odelo para pensar as cont radições hum anas sem perder a graça. ( p. 209) .
Abordar um a passagem hum orística talvez sej a recom endável para esclarecerm os o que aqui procuram os vislum brar: os contornos do hum or. Resisti bravam ente em trazer a esta pesquisa o exem plo que vem a seguir, devido ao fato de ser um gesto de pouca originalidade. Ao m e encontrar com autores que retom aram as obras de Freud, esses em sua grande m aioria, apresentam esta passagem em suas linhas. Porem , m e deixei vencer, quando concluí que est e exem plo, sem desqualificar sua capacidade explicativa da dinâm ica hum orística, investida com os anos, deixou de ser apenas um exem plo para tornar- se cauda, isto é, um a extensão da teoria. Vam os lá: um condenado à m orte é levado à forca em um a segunda- feira e exclam a: “ A sem ana com eça bem !” .
Este exem plo nos m ostra que o hum orista em seu com entário irônico é capaz de separar- se de si por alguns instantes e rir de sua própria desgraça. O herói renuncia a ocupar o lugar privilegiado da desej ada perfeição e “ diante de um a falha, de um a queda, de um fracasso, o eu é capaz de duplicar e debruçar- se sobre o narcisism o ferido com benevolência, com o um pai que, que vez de criticar, acha graça nas bobagens dos filhos” ( Kehl, 2005, p. 62) . Em sua fala recupera a fragilidade perdida e esbanj a que o que aos outros seria desprazer, para ele é um a fonte de obtenção de prazer e que, m uito m ais além das vicissitudes da vida, ele, o piadista, perdeu tudo que tinha a perder e aprendeu a rir de si m esm o.
( Mezan, 2005, p. 171) . A extraordinária clareza deste exem plo, em colocar em descoberto a econom ia de um gasto psíquico, nos traz explicações pelo qual esse caso frequentem ente é utilizado pelos contem porâneos para retom ar essas teorias.
A seguir, um a piada m ais contem porânea, a qual apresenta um a dinâm ica sem elhante à do condenado, além do fato de abordar a questão da m orte, esta que aqui é apenas um a casualidade:
“ Três hom ens são condenados à m orte e têm direito a um últim o desej o. “ Quero que m inhas cinzas sej am j ogadas sobre o t úm ulo de Pilsudski” , diz o polonês. “ As m inhas, sobre o túm ulo de Masaryk, diz o tcheco. “ E eu quero ser enterrado lado a lado do grande cam arada Brezhnev” , diz o j udeu. Mas Brezhnev ainda não m orreu! “ Perfeito. Eu
posso esperar.” ( Mezan, 2002, p. 293) .
O leitor que observa a história em quadrinhos pode m ostrar- se, a princípio, interrogativo ou espantado com a originalidade da história. Após alguns quadrinhos, se dará conta que o desafio de Mister O é atravessar o abism o. O que tem os em j ogo para esta descoberta são as expressões do personagem , suas tentativas, erros e acertos. À m edida que Mister O tem idéias e as coloca em prática, acom panham os seus efeitos, a partir de seu sorriso, espanto, dúvida, cansaço e até m esm o a m orte, quando chegam os no últim o quadrinho. Sendo que, através destas expressões, nos encam inha a conclusões.
Ao acom panhar a história, talvez sem nos darm os conta, tem os indícios tem porais: quando Mister O j oga um a pedra no abism o, esta dem ora cinco quadrinhos para chegar ao chão, com isso, im ediatam ente t em os a percepção que est e é bast ant e profundo, m esm o sem vê- lo. Passa sol, passa chuva, o relógio m ovim enta os ponteiros: na cena seguinte o nosso personagem está com a barba branca, ou sej a, não estam os falando de segundos, m inutos ou horas, com o concluím os quanto à queda da pedra, agora falam os de anos ou m esm o de toda um a vida.
Talvez por tanto esforço físico, talvez pela solidão, talvez pela m onotonia na qual se m anteve durante os últim os anos de vida, Mister O, quando finalm ente preenche o abism o com pequenas pedrinhas, m orre com o coração partido. Um a considerável dose de angústia é suscitada nos leitores, enquanto acom panham seqüencialm ente os quadrinhos: sej a por não saber o que lhe vai acontecer, sej a pela nossa im paciência de observar um quadrinho por vez, respeitando sua seqüência, no lugar de direcionar a vista para o fim ( e então não entender o que se passa) ou pela solidariedade em ver alguém diante de um a m issão tão exaustiva.
Mister O após tantos anos, consegue atravessar o abism o. Porém , o que verificam não é bem isso: Mister O chega a com em orar, esbanj ar um grande sorriso de alegria, entretanto, a felicidade dura pouco, pois em dois quadrinhos a seguir, isto é, rapidam ente, j á se tornou um defunto. O leitor prepara- se para com em orar com o personagem a vitória, quando o vê, repentinam ente, de olhos esbugalhados recostado sobre o chão. É no contra- circuito da expectativa do leitor em relação ao que sucede que está a econom ia do gasto psíquico, som ado à elaboração que dispensa por com pleto a representação em butida na palavra: as im agens se explicam por si só.
Percebe- se que em alguns aspect os, essas t rês cat egorias delineadas por Freud ( 1905/ 1927) , o côm ico, o chiste e o hum or, conversam entre si. A prim ordial sem elhança entre os m ecanism os psíquicos descritos é o fato de que em todos eles ocorre um a econom ia de gasto psíquico, isto é, um a surpresa nas expectativas do ouvinte que lhe perm ite rir em lugar de outra reação preparada para a ocasião. Tais m ecanism os se caracterizam por um a form a de diversão, que ficam sem graça um a vez explicados. Afinal, explicar um a piada é quase um a piada em si.
O riso, efeit o dos processos descritos, é cost urado na suspensão da inibição, um a vez que para desfrutar da graça é fundam ental que haj a um desprendim ento por parte do suj eito, que lhe perm ita “ descansar a sua vista” e apreender o m undo em outra perspectiva. A desproporção, a inversão, o desequilíbrio, o trocadilho, o inesperado são estim ados convidados, que contribuem para que a realidade sej a construída sob diferentes pilares, m esm o que apenas por alguns instantes: m om ento em que há relaxam ento, há m ovim ento, há ruído, há risadas.
Apesar das relações de parentesco, com o acom panham os, tais m ecanism os apresentam , sobretudo, im portantes distinções. No destaque das diferenças fundam entais, está a localização psíquica através da qual se obtém prazer, um a vez que na elaboração hum orística, o prazer provém do levantam ento de inibição de um m aterial inconsciente, pelo qual se ordenam os fant asm as sexuais e agressivos no cam po dos desej os inconscientes. Seu enunciado é um a experiência da transgressão, pois o desej o inconscient e se m anifest a e se realiza ext ernam ent e na relação com o outro, apesar dos lim ites im postos pelo recalque. Enquanto no côm ico, o prazer provém da com paração de dois dispêndios e a resposta do interlocutor, está em contrapartida inserida no pré- consciente.
graça e ainda m elhor se provocar o m esm o em out ro que com ele est ej a. No entanto, no chiste e no hum or, a possibilidade de rir sozinho não existe, seu processo de form ação requer a com unicação a outro: a platéia torna- se um a instância fundam ental para encerrar seu processo.
No processo do côm ico bastam apenas duas pessoas: o eu, aquele que elabora o côm ico e a pessoa obj eto, que será o obj eto da gozação. Nesta dinâm ica, é possível adicionar m ais um a pessoa, o ouvinte, apesar de não ser necessário. Já no chiste que, j oga com as palavras e pensam entos, é fundam ental um a prim eira pessoa, aquela que terá a atividade de elaborar o chiste e um a terceira pessoa, aquela a quem irá com unicar o chiste. A presença desta terceira pessoa assegura ao prim eiro se houve ou não o efeit o chist oso em de sua elaboração, ist o é, o público com prova ao piadista que este alcançou seu propósito.
O chiste necessita invariavelm ente do código verbal e do deslizam ento de significados adquirido a partir deste m anuseio. As palavras, as expressões e o vocabulário estão no bolso do piadista que as recolhe com adm irável destreza, fazendo com que a com posição sej a hilária. No côm ico, apesar das palavras poderem colorir a cena, são absolutam ente dispensáveis, um a vez que esta m odalidade de risada se desenvolve no registro da im agem , no contraste entre o esperado e o absurdo. Esta determ ina um a fundam ental característica do côm ico, que por ter um m enor refinam ento em sua form ulação, pode ser um a m era descarga catártica gerada pelo contágio social, tendo assim , um im pacto m ais am plo, que tenderia à m assificação de sua graça. “ Há um a tendência à universalização, que se acentua à m edida que se afasta da propriedade significante da palavra e se aproxim a do puro significado: a torta na cara, o escorregão na banana e etc.” ( Pereda, 2005, p. 117) . O côm ico fala a m ultidões, em contrapartida, o hum or fala ao seu público fiel, aqueles seletos que entendem o que quer transm itir, são da sua “ tribo” . O hum or cria o laço social, fala a poucos, m as com trem enda profundidade. I sto atribui aos ditos hum orísticos a potência de form ular críticas, transgredir, com bat er conceit os e valores sociais.
prim eiro é identificado com o um am plo leque de técnicas lingüísticas, que em seu em baralho resultam em com posições chistosas. O efeito hum orístico é m ais do que isso, pode estar a serviço do deboche, da agressão, da violação. “ O efeito hum orístico não é exclusividade do chiste, pois abrange operações de linguagem que lhe são afins, tais com o alusão, o ato falho, a ironia, a casualidade, a gozação e o j ogo de palavras” ( Slavutsky, 2005, p. 118) .
A distinção entre essas diferentes form as de desfrute de graça, o côm ico, o chiste e o hum or, faz- se pertinente neste cenário introdutório do tem a para construirm os e nos aproxim arm os das diversas m aneiras em que a risada penetra os suj eitos, os m eandros pelos quais se utilizam para chegar a seus fins e, sobretudo, para identificarm os suas peculiaridades e os efeit os que t erão nos processos criat ivos hum anos. A percepção m ais am pliada destas três form as de piada nos presenteia com o dispositivo de identificar singularidades em seus efeitos e desdobram entos para se chegar ao riso.
1 .3 - As risadas aplaudem o espet áculo: O out ro
im prescindível
O fenôm eno hum orístico aponta para um a extraordinária am bivalência, pois na estrutura da piada podem os encontrar, por um lado, a vitalidade e, por outro, a m ortificação. Esta estranha oscilação entre vida e m orte nos traz explicações ao corriqueiro fenôm eno de ver alguém chorar diante de algo côm ico, rir diante de algo trágico ou m esm o chorar de rir ou rir em lugar de chorar. O chiste apresenta em si um a potência criadora de am bivalência, o que torna possível transitar entre a angústia e o riso, am or e ódio em relação a um m esm o obj et o.
Diante da sedução im posta pela piada, pelo convite que nos faz para entrada no gozo e no prazer, facilm ente alcançadas através do riso, ainda m ais, com o outra possibilidade no lugar da angústia, poderíam os supor que esta fosse um a atividade desej ada e possível a todos os indivíduos. Desej ada talvez o sej a, m as possível não, pois sabem os que nem todos são capazes de desfrutar deste recurso: o hum or é um “ dom raro e precioso” , a que apenas um a pequena m inoria tem acesso. Muitos ainda são incapazes de provocar ou até m esm o gozar do prazer hum oríst ico que lhes é oferecido.
Ainda às voltas de com preender em qual instância e circunstância um a frase lacônica dita por alguém se transform a em um estrondoso riso por parte de outro, identificou que a prim eira das aptidões necessárias para se desfrutar da piada é que o ouvinte tenha suficiente concordância psíquica com aquele que conta a piada para que a partir disso possa ser acom et ido da m esm a m aneira com o est e o foi. I st o é, o cancelam ent o de sua inibição interna deve ser superado, assim com o o foi na prim eira pessoa no m om ento que ouviu a piada. O sucesso da piada dependerá do encontro destas duas partes, a sintonia que haj a entre elas e sua especifica concordância psíquica.
No chist e, o suj eit o precisa da presença do out ro com o t est em unho e parceiro, para que o desej o em processo de realização no chist e possa ser reconhecido pelo int erlocut or, pelo riso que é capaz de provocar. O chist e seria ent ão da ordem do prazer prelim inar para a experiência do riso, que seria assim da ordem do gozo final, ist o é, daquilo que foi t ram ado inconscient em ent e pelo locut or. ( Birm an, 2005, p. 102) .
Desta form a, o dito espirituoso ocorre na esfera da linguagem e pressupõe a presença de três pessoas: aquele que inventa a piada, o que é obj et o dela e o t erceiro, o ouvint e, a quem é cont ada. Exist e, no prazer que o chist e provoca um com part ilham ent o de sent im ent o, o que escancara a inscrição da piada no cenário social. Um a determ inada form ulação lingüística apenas poderá se localizar no cam po do hum or se tiver algo a com unicar a outrem . Esta é a prim eira exigência que se im põe à experiência da articulação da piada, caracterizada pelo prazer descom prom etido que, ao m esm o tem po em que convida, autoriza e contagia, se dissem ina rapidam ente pelo espaço social.
hum or é um efeit o em inent em ent e social, um a vez que envolve o suj eito e m ais alguém , sej a com o obj eto de hostilidade, sej a com o aliado contra tal obj eto e, em contraposição:
O sonho ocorre na solidão do sonhador, não é social, não t em nada a com unicar ao out ro. Já a piada é a m ais social de t odas as operações aním icas cuj a m et a é o ganho de prazer. ( ...) A piada é um j ogo desenvolvido; j á o sonho é sem pre um desej o irreconhecível, que serve para econom izar um desprazer, a piada produz um ganho de prazer. ( Slavut zky, 2005, p. 208) .
O quinto capítulo de O chiste e sua relação com o inconsciente, intitulado “ Os m otivos do chiste - chistes com o um processo social” ( 1905/ 2001) , apresenta a tem ática que invariavelm ente é abordada por todo e qualquer autor que se proponha discorrer sobre o tem a: o chiste inexiste sem a presença da platéia. A descrição detalhada realizada por Freud acerca de que m odo ocorre o encont ro ent re piadist a e ouvint e é pertinente de ser retom ada para ao fim com preendem os de que form a a piada convert e- se em m oeda de t roca no espaço social.
Aquele que conta a piada está concentrado em relatá- la exatam ente com o a escutou e com isso produzir o m esm o efeito do qual foi vítim a. Nesta perspectiva, com porta- se de form a a não tropeçar no efeito de sua graça e apenas ao final testem unha seu prazer diante da risada de outro. Em contrapartida, o terceiro experim enta um a risada que nasce em si quando um a significativa energia psíquica, antes em pregada da investidura de certo cam inho psíquico veio a ser inaplicável e com sorte pode desfrutar de um a livre descarga. O prazer adquirido converte-se em risada, a partir econom ia de gasto psíquico.
possibilidade de descarga ou com pletude na ganância de prazer, com isso, fica excluída da prim eira pessoa a possibilidade da espontânea explosão do riso.
Mesm o que a descarga não se consum a, um a vez que esta j á ocorreu, para que a prim eira pessoa pudesse elaborar ou relatar o chiste é necessário que a resistência sej a suspensa e para tal sabe- se que é necessário que o investim ento de inibição sej a cancelado. A prim eira pessoa não pode rir arrebatada pela surpresa, porém a esta lhe corresponde um novo gasto psíquico, que se refere a contar a piada.
Um a ganância de prazer fica garantida pelo ato de reproduzir aquilo que um a vez lhe deu prazer e, com o cancelam ento da inibição, ri sob um efeito contagioso de desfrute da risada alheia produzida a partir de sua fala. Assim , a com unicação do chiste com pleta o prazer daquele que conta a piada sob efeit o ret roat iva do out ro sobre ele e rem edia o “ desânim o” que experim enta pela ausência da novidade.
Neste encontro passam os de ouvinte para piadista, transitam os ent re os diferent es papéis: post eriorm ent e a nos surpreenderm os e rirm os com o conteúdo da piada tem os um prazer especial por partilhar com os dem ais e repassar a m ensagem . “ deslocam o- nos assim da posição de seduzido para a de sedutor, isto é, da posição de público para de ator, da m esm a form a que fará o nosso interlocutor, certam ente, logo que seguida se possível, dissem inando a boa- nova.” ( Birm an, 2005, p. 88) .
Birm an ( 2005) enfatiza que há um sutil e saboroso prazer exclusivo ao piadista: este se engrandece, infla seu ego diante do poder e prestígio que recebe da platéia, sendo nada m ais, nada m enos, que o catalisador do gozo dos dem ais. Nest e j ogo, os risos aparecem com o aplausos pelo excelente espetáculo. Esta súbita glória, autom aticam ente infla o narcisism o do piadista, que não à toa se torna o sedutor da platéia e por este registro desej a ser reconhecido.
sucedido a partir da risada de alguém e, se isso não ocorrer, saberem os que a piada fracassou, logo não foi um a piada. “ O chiste é com partilhado, sancionado e festej ado pelo outros, cuj a participação é condição. ( ...) A ressonância ou a reprodução desta satisfação em outros é o que dará sustento à questão da transm issão de um a piada” ( Pereda, 2005, p. 121/ 122) .
Apenas podem os dissem iná- las e serm os nutridos pelos efeitos que elas causam ao nos depararm os com alguém que não a conheça, ou que, m esm o a conhecendo, se disponha a ser novam ente “ pego” a rir. A circulação da piada exige, portanto, a prim ordial presença de outro, pois:
O processo psíquico da form ação do chist e não parece acabado com sua ocorrência; ainda falt a algo que m ediant e a com unicação da ocorrência, quer encerrar esse desconhecido processo ( ...) do chist e que m e ocorreu e que eu t ransm it i, não posso rir eu m esm o, apesar do inequívoco gost o que t enho por ele. Quem sabe, a necessidade de com unicar o chist e a out ro se ent ranhe de algum m odo desse efeit o de risada negado a m im , porém m anifest o no out ro. ( Freud, 1905/ 2001, p. 137) .
A discussão de Freud é j ust am ent e em t orno da função que é atribuída a esta terceira pessoa na dinâm ica do chiste, aquela para a qual são transm itidas as piadas, sem pre com a im ensa expectativa de com o esta irá reagir, pois se sabe que, sem a sua autorização, a graça não pode circular.
pertencem o piadista e o público, porém neste, o obj eto da graça não passa de um estrangeiro, de um diferente, excluído e alheio.
O alvo da piada é por ela ridicularizado, quando não ofendido ou hum ilhado. I núm eras são as piadas que se referem a grupos étnicos, aproveitando- se de algum traço m arcante e característico com o tem ática dos chistes. Esse gênero de piada, reflete im agens preconceituosas que outros têm em relação a ele. Por esta razão, “ aquilo do que se ri” pode nos dar referências significativas sobre a organização de dado agrupam entos, bem com o a estrutura psíquica de seus com ponentes. Piadas elaboradas acerca de seus costum es, crenças, instituições, valores, rituais e outros, trazem indícios do que os singulariza e com o esses se relacionam com outros agrupam entos.
O hum or, desta form a, é um fenôm eno em inentem ente social, pois o m esm o efeito não se encontraria sem a presença do público, sem o qual o piadista ficaria solitário e sua percepção e opinião acabaria em si, destino absolutam ente “ sem graça” . A piada encontra seu rum o para circular diante da platéia, um a vez que esta autorize a transgressão do com ediante, dem onstrando que tam bém desfruta desta traquinagem e apóie- o através da dem onstração de seu agrado.
Um a leit ura alt ernat iva, no ent ant o, indica um a eficiência bem m ais com plexa e valiosa, que configura um a aut ênt ica polít ica do Wit z ( chist e) : a dim ensão t ransgressora do recalcam ent o viabilizando novas possibilidades ident ificat órias e sublim at órias, ou sej a, novos m odos de sociabilidade. Nest e sent ido, ao se t ransm it ir um chist e ou um dit o hum oríst ico, busca- se com part ilhar a crit ica social e a denúncia das hipocrisias que sobrevivem em qualquer agrupam ent o ( ...) favorecendo um a libert ação t em porária das im posições sociais anacrônicas. ( Kuperm ann, 2005, p. 24) .
servem apenas para excluir o outro, na tentativa de nos diferenciarm os. Por um a causa m ais nobre, o chiste, am parado pelo código lingüístico, se torna um a ferram enta para com partilhar questionam entos, denúncia, protesto, crítica social, hipocrisia, ao expor ao divertim ento público os m odelos questionáveis e negativos da sociedade, sob os contornos do hum or.
“ Fritz Rabinovittch é levado à presença de Hitler, o qual está furioso. “ É você, j udeu im undo, que anda fazendo piadas ao m eu respeito? Com o aquela [ conta] , aquela [ conta] e aquela [ conta] ?!” . “ Sim , sou eu” , responde Fritz. “ Mas você não sabe que eu sou Adolf Hitler, o Führer do Reich que vai durar m il anos? “ . E Fritz: “ Essa não fui eu que
inventei, não!” ” . ( Mezan, 2002, p. 293) .
A piada acim a se refere a um m arco histórico que poderá aj udar-nos a ilum inar udar-nossa com preensão. A política de exterm ínio à cultura j udaica foi um m ovim ento tresloucado que ascendeu ao poder na Alem anha em 1933 e instalou a perseguição aos j udeus, num anti-sem it ism o cuj as origens são difíceis de serem explicadas. Os j udeus passaram a serem vistos com o um fator de corrupção do povo alem ão, sendo que a pureza da raça ariana deveria ser defendida através da im piedosa perseguição ao povo j udeu. Daí surgiu o regim e totalitário e m ilitarista que se baseava num a m ística heróica de regeneração nacional, segundo a qual os hom ens eram desiguais por natureza. Utilizando- se de espetáculos de m assa e dos m eios de com unicação, o partido nazista conseguiu m obilizar a população por m eio do apelo à ordem e ao revanchism o, o que resultou no m assacre de grande parte da população j udaica da Europa perpetrado pelos nazistas entre 1941- 45.
nazista transform ou- se em franco e irônico obj eto de riso para os j udeus e um a brilhante resposta ao anti- sem itism o. Abandonaram a posição passiva de vit im ização e apoiados em um dispositivo criat ivo e ressignificante, encontraram no chiste a via de desconstruir a realidade sanguinária e recolocar- se no circuito social.
Roustang ( 1984) com partilha que “ gosta m uito dos j udeus porque é o único povo do m undo a utilizar, contra eles próprios, um hum or tão reconfortante” ( p.32) . Verem os a seguir um a piada que faz, com grande graça, um a critica as autoridades não- j udaicas e à hostilidade delas quanto aos j udeus:
“ Um j udeu encontra seu am igo sentado em um café em Berlim , lendo placidam ente Der Stürm er [ o j ornal do partido nazista] . “ Com o! Você está lendo esta porcaria! Por acaso virou m asoquista?” E o outro: “ Vej a, se eu leio a im prensa j udaica, só fico sabendo das desgraças: loj as destruídas, pessoas presas e hum ilhadas... Mas neste j ornal só dão boas notícias: os j udeus dom inam o m undo, são os m aiores financistas, os intelectuais m ais destacados... É lógico que prefiro ler isto” . ( Mezan, 2002, p. 293) .
Ou a seguinte piada, m uito bem hum orada:
“ Quando se conta um a piada para um cam ponês, ele ri três vezes: quando a ouve, quando ela lhe é explicada e quando ele a com preende. Quando se conta um a piada a um conde russo, ele ri duas vezes: quando a ouve e quando ela lhe é explicada: entendê- la, ele não vai nunca. E quando se conta um a piada a um oficial do exército [ russo] , ele só ri um a vez: quando a ouve, porque entendê- la está fora de questão e ele j am ais vai deixar que a expliquem . Mas quando se conta um a piada a um j udeu, prim eiro ele diz “ essa eu j á conheço! ” e em seguida ele cont a um a m elhor” . ( Mezan, 2002, p. 292) .
a crueldade ou a m ortificação passiva, pelo contrário, se organizaram para desm ontar o dispositivo de aniquilam ento colocado em cena pelo anti-sem itism o. A desconstrução da realidade através do chiste possibilitou a circulação do desej o, pois o dispositivo anti- sem ita de destruição da tradição j udaica se constituiu efetivam ente no cam po político e social. Foi possível dar a volta por cim a através do chiste, pelo hum or e pelo riso, para desconstruir politicam ente em ato o gesto de destruição colocado im perativam ente na cena social. Assim se realizou a tradição j udaica, constituindo a sua cultura pelo reconhecim ento do trágico.
É preciso sem pre rir e produzir chist es cot idianam ent e para desconst ruir a crost a dos int erdit os inst it uídos pelo poder, para que assim o suj eit o possa afirm ar o seu desej o e rest aurar ent ão cert os direit os para m ant er a exist ência de sua com unidade social. ( Birm an, 2005, p. 106/ 107) .
Observa- se que há neste processo um a dim ensão libertária, pela qual o espírito se posiciona diante das experiências de angústia e abusos, não sendo através do grito ou força física sua m anifestação, m as sim , no processo criativo da elaboração e expressão do chiste. A piada se caracteriza pelo prazer descom prom etido que ao m esm o tem po em que convida, autoriza e contagia, se dissem ina rapidam ente pelo espaço social.