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Invenções da velhice

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Academic year: 2021

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Invenções

da

velhice

Silvana Tótora O poeta Manuel de Barros em sua trilogia de poemas de memórias da infância intitula-as de “memórias inventadas”. Inicia pela epígrafe “Tudo que não invento é falso”. O termo invenção é empregado para colocar sob suspeita qualquer relação da memória com vivências recolhidas de um passado que imprimiriam ao presente a sua marca. Seríamos aquilo que vivenciamos ao longo de nossa vida? Pode ser isso, mas o que sugere o poeta é algo diferente. A invenção é um termo que implica uma ruptura. Um começo. Algo novo. Uma emergência em meio às relações de forças.

O poeta também associa à invenção o termo falso, numa clara renúncia da busca de uma verdade essencial, seja ela factual ou ideal transcendente. Nada é verdadeiro. Nada se sobrepõe ou antepõe à invenção. E inventar é falsear, imaginar, fabular, iludir... Eis a potência da vida. De quantos valores temos que nos livrar para dar início a algo novo! Refiro-me à invenção de um mundo e não somente vivenciar o mundo dos outros. Trata-se de uma interrupção de um circuito previsível e de repetição do que é igual. E para isso não podemos contar com a experiência vivida, mas sim com uma experimentação de risco. Experimentar não é repetir uma experiência sobre controle. Pelo contrário, em qualquer experimentação de algo novo corremos o risco de fracassar. Talvez seja por isso que preferimos nos fiar a algo já vivenciado. Também não é sem dor que se experimenta uma ruptura.

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Vou me ater ao filme, Poesia, com roteiro e direção do coreano Lee Chang-Dong (2010), porque o considero rico de possibilidades para trabalhar o tema sugerido “invenções da velhice”.

Mija é a protagonista do filme. Ela é uma mulher de 65 anos, que cria um neto de 16 anos. Mora numa casa modesta, vive de uma pequena aposentadoria e trabalha, para completar seus rendimentos, alguns dias da semana, como empregada na casa de um velho que necessita de cuidados especiais em razão de um AVC. Com esse perfil, Mija em nada difere da maioria

da população de pobres. Seu dia a dia é de muito trabalho para garantir o seu sustento e de seu neto, bem como os cuidados da casa.

Incomodada por uma dor no braço, Mija vai consultar um médico e logo é encaminhada a uma especialista, não em razão do problema no braço, mas da suspeita, que se confirma após os exames, de estar com Alzheimer. Na saída da consulta, é profundamente afetada pela dor de uma mãe diante da morte de sua filha. Trata-se do suicídio da menina Agnes, que mais tarde tomará conhecimento de se tratar de um fato que envolve seu neto.

O Diretor constrói uma trama complexa da relação memória e esquecimento. A perda gradativa da memória provocada pela doença, em que primeiro se esquece os substantivos, depois os verbos, como lhe adverte a médica, contrasta com os afetos de uma memória que luta contra as forças do esquecimento, para criar uma nova memória de futuro que permite tornar vivas as forças e potências afirmativas da vida pela poesia.

Um fato terrível desencadeia na vida de Mija um acontecimento, que vai provocar uma sequência de invenções que a distingue e a singulariza em relação aos valores e condutas dos demais personagens da trama. A saber, uma jovem de 16 anos se suicida, atirando-se no rio Han e deixa uma carta em que relata que foi estuprada no laboratório do colégio, durante 6 meses, por seis meninos, também de 16 anos.

O Diretor não julga o caso, mas expõe as saídas e os procedimentos que vários personagens vão empreender. Não se trata, neste caso, de uma decisão fácil que se resolve com base em um juízo que, num primeiro momento, inocenta ou culpabiliza os envolvidos apoiando-se num princípio moral. Trata-se, sim, das saídas, ou seja, dos percursos construídos ou adotados. O juízo moral é sempre a saída dos preguiçosos, ou acomodados aos valores

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estabelecidos, e que ignoram que também a moral teve um começo, e um começo baixo, banhado em sangue 1.

Destaco a cena de Mija observando da janela seu neto brincando com duas crianças menores com um bambolê. Ele ensina as crianças a rodopiarem o bambolê e depois ele próprio rodopia, com muito prazer e alegria. Essa cena complica um julgamento moral que torna um ato e aquele que o pratica idênticos.

Sem juízos condenatórios a priori, Mija vai construindo sua relação com o neto cercada de pequenos cuidados cotidianos, como repreendê-lo por deixar a casa suja, fazer a comida e arrumar a mesa com dedicação e chamar a atenção para o cuidado com o corpo (alimentação, higiene etc.). Vale destacar que inúmeros, diversos e conflitantes são os afetos, forças e pulsões que atravessam nosso corpo, não somente os impulsos sexuais, embora esses sejam muito fortes.

A relação avó e neto é marcada por momentos de muita tensão, mas também de muito carinho. Prioriza na relação pequenos e intensos gestos mudos. Aliás, o silêncio é a forma do discurso no pensamento oriental. É comovente a cena em que deixa sobre a mesa do café da manhã um porta-retrato com a foto da jovem morta (Agnes). É preciso, nesse caso, lutar com as forças do esquecimento. Mas sua atitude está longe de criar uma memória de marcas ou imprimir um sentimento de culpa.

O cuidado de si se mostra através do banhar-se, do vestir-se, do exercitar-se com uma peteca. Mija se veste muito bem. O cuidado com o modo de se vestir não exige uma grande variedade de roupas, mas num estilo na composição do visual. Aliás, ela tem poucas roupas: alterna uma saia branca com outra preta (ambas de rendas) com três casaquinhos muito alinhados, uma echarpe e um chapéu de crochê, ambos de cor branca, uma bolsa de palha e dois pares de sapatos que varia de acordo com a cor das saias. Seu modo de vestir é impecável e arranca muitos elogios.

Após o diagnóstico da doença de Alzheimer, e não necessariamente por esse motivo, decide fazer um curso de poesia em um centro cultural. Sua justificativa é que sempre gostou de flores e tinha umas ideias diferentes. Mija apreendeu dos ensinamentos do poeta e professor que a criação poética dependia de uma mudança no modo de olhar as coisas cotidianas que nos cercam.

Mija queria muito construir um poema, que, aliás, era o objetivo a ser atingido por todos

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os frequentadores do curso. Ela então de posse de uma caderneta passou a observar e anotar, principalmente dedicou-se às flores.

Imersa em uma de suas observações em busca da uma possível construção de um verso poético, recebe um telefonema do pai de um amigo de seu neto, convocando-a para uma reunião. Apreensiva ela vai a reunião e recebe a revelação do estupro e suicídio de uma jovem de 16 anos, em que seu neto e os filhos dos demais presentes estão envolvidos. A cena dessa reunião contrasta uma racionalidade calculadora dos pais (todos homens exceto Mija), e um profundo sentimento de perplexidade e tristeza expresso na face de Mija. Esses pais estão preocupados em livrar os seus filhos de uma punição judicial, e compartilham o temor do diretor da escola com as repercussões públicas que possam prejudicar a sua reputação. A imprensa, diz um deles, está de olho no caso.

O repórter interessado na notícia, o diretor voltado para os interesses da escola, os pais em livrar os filhos. O diretor do filme constrói uma perspectiva sombria do mundo masculino. Ele destaca a fria racionalidade e o cálculo de interesse. Os pais decidem que uma boa quantia em dinheiro partilhada entre eles, seria a alternativa para fazer um acordo com a mãe da jovem e encerrar o caso. Numa outra reunião propõem a Mija que use da sua condição de mulher e velha para, com lágrimas, convencer a mãe a aceitar o acordo.

Os procedimentos empregados pelos homens não vão além dos valores de uma sociedade de mercado onde tudo tem um preço, medido por uma quantidade monetária. Os sentimentos podem ser representados para reforçar esses valores. Mija não se conforma ao que todo o mundo pensa, mas busca outra saída, a produção de um outro mundo. Poetar é seu procedimento de habitar o mundo, o mesmo que dizer inventá-lo.

Mija só aparentemente faz tudo o que se decide na reunião, contudo de modo diferente, ou seja, próprio. Não se limita a reproduzir os valores, mas sim transvalorá-los. Destaca-se, nessa direção, o seu encontro com a mãe de Agnes. Diferentemente de seguir o combinado, ou seja, representar um sentimento que sensibilizasse a mãe a aceitar o pagamento, põe-se a observar a casa, mirar o retrato de Agnes, e, em seguida, caminha até o campo para encontrar-se com a mãe. Esse encontro é marcado pela intensidade poética. Nenhuma menção a qualquer pagamento.

O roteiro da personagem Mija compõe-se de visitas, sempre anotando as sensações, eivadas de muito afeto, aos locais em que se decidiu o triste destino de Agnes. Assiste a missa de sétimo dia de sua morte, observa o laboratório onde os estupros foram praticados, visita o local onde o suicídio ocorreu; Agnes se atirou da ponte sobre o rio Han. Em meio a uma profunda dor, inventa o seu percurso poético de estar no mundo. Não se deixa abater, embora chegue em alguns momentos a esmorecer desabando num choro compulsivo.

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Frequenta um círculo de pessoas que gostam de poesia e fazem leituras de poetas em um bar. Suas vidas e atitudes, segundo Mija, a decepcionam, pois os acha muito pouco poéticos, seus encontros se parecem mais com um passa tempo. Nesta direção destaca-se a cena em que está reunida com o grupo e o professor do curso de poesia que frequenta entra na companhia de um jovem que diz ser um grande poeta. Trata-se de uma caricatura de alguém profundamente niilista e alienado. Mija se retira imperceptivelmente e chora compulsivamente sozinha em um canto do lado de fora do bar. Mija é surpreendida em seu choro por um delegado, frequentador do grupo, a quem ela reputou de profundo mau gosto ao proferir piadas obscenas misturadas com uma declamação caricata de poemas.

A poesia para Mija nada tem de edificante, consoladora, exibicionista, entretenimento ou passa tempo, mas se revela no modo de sua vida, nos pequenos detalhes cotidianos. Destaco sua relação com o velho acometido de AVC, seu modo de cuidar dele, de banhá-lo esfregando a bucha em seu corpo e lhe dando, nesse momento, um prazer corporal. Mija também é capaz de manifestar um temperamento irascível como a cena em que explode e rompe com o velho, que após tomar um comprimido de viagra a suplica por um ato sexual para que se sinta vivo. Ele, assim como a maioria dos homens comuns, reduz o seu prazer sexual à genitália, e, talvez, não tenha percebido quanto de prazer erótico podia desfrutar nos

banhos que Mija lhe dava. Mesmo assim, Mija após sua ida ao local onde Agnes tinha cometido o suicídio, entende os desejos de vida do velho, retorna após uma chuva, com o corpo encharcado, entra no quarto dele, dá-lhe um comprimido de viagra e satisfaz seu desejo sexual, num gesto muito delicado e de comovente doação. Somente uma mulher seria capaz de um gesto dessa grandeza. Há nisso também muita poesia.

Contudo é preciso desvincular a poesia de qualquer essência originária, fora do mundo, das relações de forças, suas lutas, afrontamentos, desvios, mudanças de direção. A poesia não está fora do tempo e do espaço. Invenção é o modo de Nietzsche conjurar da poesia uma origem essencial. Seu começo é inumerável, marcado por relações de forças e pela vontade de potência que as alimenta. Nas lutas e domínios dessas forças podem-se divisar os tipos que daí derivam. Existem modos de poetar que são próprios de um tipo decadente. A velhice, em si, em nada tem a ver com uma vida poética, ou refere-se a um sujeito substância: definido pela idade cronológica e as moléstias que assolam seu corpo, perdas ou decadência biológica. Ou melhor, não existe o velho em si, um sujeito substância (metafísica ideal ou positivista). Falar em invenções

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modelo. Enquanto estamos vivos, e pretendemos continuarmos vivos – pois há existentes que há muito estão mortos – temos que persistir na invenção poética de habitar o mundo. Um devir singular em meio à cotidianidade. E roçado pelo Caos ao qual nos reenvia para impedir uma cristalização do eu-identitário. Esse é um trabalho que desenvolvemos a cada dia como se fosse o derradeiro. Voltemos ao filme.

O acordo é feito com a mãe de Agnes. Uma quantia de dinheiro é paga para encerrar o caso. Mija entrega a sua parte, retira-se da sala e troca, através da vidraça, um profundo olhar com a mãe de Agnes. O olhar de Mija revela um desacordo em relação a encerrar o caso num acordo financeiro. Vai para sua casa e põe-se a escrever num gesto frenético.

Cena final

Mija não comparece no último dia do curso de poesia, mas deixa um buquê de flores brancas. Há aí uma mudança, pois no correr do filme sobressaem as flores vermelhas que expressam o sangue. Junto ao maço de flores deixa o seu poema, cumprindo o acordo inicial que era cada aluno fazer um poema no final. Somente Mija fez o poema, nenhum dos alunos o trouxe. Poema e vida não se diferenciam. Assim não se pode construir um poema quem não vive uma vida poética. Pelo menos é esse o sentido que o Diretor pretende deixar. O melhor ainda está por acontecer. O professor põe-se a ler o poema. A voz em off, inicialmente, é a de Mija, em seguida a voz em off é a da jovem, Agnes, que, por fim, aparece na cena. Ela caminha de costas, com o uniforme da escola, até à ponte, debruça-se sobre ela, mas não salta, virando de frente. A câmera é fechada no rosto da menina, num longo close. Em seguida, focaliza o rio Han. O rio do devir em seu movimento caudaloso ocupa toda a tela.

A poesia de Mija inventa um novo percurso, que não termina com a morte, mas no eterno fluir da vida. Agnes vive na poesia. Seu olhar de frente para a câmera deixa um registro:

Para lá – quero ir; e doravante confio em mim e no pulso./ Aberto estão todos os mares, para o azul./ Impele meu navio genovês./ Tudo brilha de modo novo e mais novo para mim./ Meio dia dorme em tempo e espaço.../ Somente teu olhar, descomunal,/ Me fita, infinitude. (Nietzsche, Gaia Ciência, Canções do príncipe Vogelfrei).2 Memória de futuro. O homem é uma promessa, uma ponte, segundo Nietzsche. O tornar-se o que tu és é também ser diferente do que se é, isto é superar-se a si mesmo. Construir e desconstruir a subjetividade. Não se trata de encontrar-se, mas de perder-se para acolher novas singularidades. Esquecimento e

2 A palavra alemã “volgelfrei” pode ser traduzida por “livre como um pássaro” (N. do T.). Gaia

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memória do futuro, e o futuro é o instante, já aí e ainda não, sempre por vir. Entretempo que se abre ao acontecimento, intensidades onde tudo é possível. A vida como obra ou a obra como vida se expressa no seguinte aforisma de Nietzsche.

O que é necessário aprender com os artistas. – Que meios temos nós de tornar as coisas belas, atraentes e desejáveis, quando não o são?... E nunca o são em si, parece-me. Há aqui receitas a aprender com o médico, que adoça, por exemplo, os amargos ou que acrescenta açúcar e vinho às suas misturas, e, mais ainda, com os artistas, que no fundo não cessa de se aplicar a este gênero de invenções, de quase impossíveis (grifos meu). Afastar-se dos seus objetos até fazer desaparecer um bom número dos seus pormenores e obrigar o olhar a acrescentar-lhe outros para que possa ainda vê-los; escondê-los com um ângulo de maneira a descobrir apenas uma parte; dispô-los de tal modo que entremascarem em parte e só permitam que o olhar mergulhe na sua perspectiva; olhá-los com vidros de cor ou à luz do poente; dar-lhes uma superfície, uma pele, que não seja completamente transparente; tudo isso nos é necessário aprender com os artistas, e, quanto ao resto, ser mais sábios do que eles. Porque a sua força sutil se detém geralmente no ponto onde acaba a arte e começa a vida: mas nós queremos ser os poetas da nossa vida, e em primeiro lugar nas mais pequenas coisas, nas íntimas banalidades do quotidiano (Gaia Ciência, § 299).

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Silvana Tótora - Professora do Departamento de Política da PUC-SP e dos programas de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais e em Gerontologia da PUC-SP. E-mail [email protected]. Fotos: Divulgação.

Referências

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