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Lebre de Freitas Armindo Ribeiro Mendes

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Academic year: 2021

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Pº R.P. 267/2006 DSJ-CT – AUGI – Não atribuição de carácter vinculativo geral à decisão de requalificação como definitivo do registo provisório de aquisição de modo a que tal decisão favorável tenha reflexo, com a mesma requalificação como definitivos, em todos os restantes registos que foram lavrados provisoriamente por natureza, em virtude dos registos de acção de divisão de coisa comum – Posições defendidas em recurso hierárquico – Acatamento vinculativo pelos conservadores apenas nos processos em que foram assumidas.

PARECER Relatório:

Segundo alega o recorrente, está pendente no 1º juízo Cível do Tribunal Judicial de …a acção de divisão de coisa comum nº 330/…, e o objecto do pedido de extinção da compropriedade é uma AUGI que compreende os prédios descritos sob os nºs 25 486 e 25 487.

A acção foi registada sob o nº 11 362 no prédio nº 25 486 e sob o nº 11 363 no prédio nº 25 487, com simples pedido de divisão de coisa comum.

Pendente lite (escritura de 20.06.2006) ocorreu a transmissão de 1/261 do

prédio nº 25 487, que veio a ser registada (já depois do registo da acção) sob o já aludido nº 104 574, provisoriamente por natureza nos termos do disposto no art. 92º, nº 2, b), do C.R.P.

Notificada a qualificação minguante do registo, o ora recorrente, na qualidade de mandatário forense da transmissária Ana …, veio interpor o presente recurso hierárquico em que pediu a) a requalificação da inscrição nº 104 574 como definitiva e b) a atribuição de carácter vinculativo geral à decisão de procedência do pedido de a) – a emitir no presente recurso hierárquico – e às deliberações tomadas nos Pºs C.P. 66/2002 DSJ-CT, in BRN nº 6/2003, págs. 15/20, R.P. 257/2002, in BRN nº 6/2003, págs. 21/23, e R.P. 258/2002, in BRN nº 6/2003, págs. 24/25.

A Senhora Conservadora recorrida, em despacho fundamentado, veio reparar a decisão de qualificação do registo de aquisição nº 104 574 como provisório por natureza, e converteu tal registo em definitivo.

Naquele despacho, a recorrida alegou ter fundado a sua decisão de lavrar o registo como provisório por natureza na doutrina firmada no parecer emitido no Pº R.P. 124/97 DSJ-CT, in BRN nº 4/98, págs. 30 e segs., e a sua decisão de requalificar este registo para definitivo na doutrina firmada nos citados Pºs C.P. 66/2002, R.P. 257/2002 e R.P. 258/2002.

Notificado do despacho que antecede, o recorrente veio pedir à recorrida a aclaração desse despacho sobre se a sua autora (a recorrida) assumia a rectificação oficiosa dos restantes registos, de acordo com a doutrina também firmada nos já citados processos.

A recorrida despachou o pedido de aclaração, no sentido de que as decisões proferidas nos processos de registo apenas vinculam no “caso em apreço”.

Notificado deste despacho, o recorrente requereu à recorrida que os presentes autos subissem “para decisão sobre o carácter vinculativo geral das

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decisões jurisprudenciais aceites agora apenas para o caso concreto (art. 744º nº 2

in fine do CPC)”.

A recorrida exarou novo despacho em que reitera o seu entendimento sobre a matéria e informa que a) os registos de aquisição cuja requalificação se pretende já foram requalificados por se ter verificado a caducidade dos registos da acção de divisão de coisa comum (cuja anotação já consta, com data de 20.10.2006, de fotocópia junta), inscrições essas que foram consequentemente convertidas (cujos averbamentos também já constam, com a mesma data, das inscrições fotocopiadas nos autos), e b) apenas as inscrições de aquisição que foram objecto de processo especial de rectificação, indeferidos liminarmente 1, se encontram pendentes da

resolução judicial do respectivo recurso (não figura nos autos fotocópia destas inscrições).

A final, a recorrida ordenou a remessa dos autos à DGRN. Fundamentação:

1. Julgamos pacificamente assente que o valor da igualdade é um princípio constitucional que deve ser considerado e respeitado tanto no âmbito da função judicial como no âmbito da função administrativa (cfr. art.s 13º, nº 1, e 266º, nº 2, da Constituição).

Como foi salientado no Parecer nº 62/96 do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República 2, na função judicial o valor da igualdade é

tendencialmente prosseguido através dos recursos, e, em especial, do recurso para uniformização de jurisprudência.

A decisão do conservador que recuse a prática do acto de registo nos termos requeridos pode ser impugnada por recurso hierárquico para o director-geral dos Registos e do Notariado ou por recurso contencioso para o tribunal da comarca a que pertence a sede da conservatória (art. 140º, nº 1, C.R.P.).

O recurso contencioso é sempre interposto da decisão do conservador (art. 145º, nº 1, C.R.P.).

Portanto, o julgamento ampliado de revista, com que se visa a uniformização da jurisprudência (cfr. art.s 678º, nº 4, 732º-A, 732º-B e 754º, nº 2,

1-

Na verdade, o recorrente já havia alegado na petição de recurso que, com base na

“jurisprudência” alinhada nos assinalados processos C.P. 66/2002, R.P. 257/2002 e R.P.

258/2002, tinham sido “requeridas rectificações oficiosas de registos semelhantes” que

foram indeferidas liminarmente, juntando até cópia de um despacho de indeferimento de

um desses pedidos, onde inter alia se afirma que “a posição defendida no processo

número C.P. 66/2002, além de nos merecer bastantes reservas, vincula só o caso em

apreço e será, eventualmente, de ter em consideração na qualificação dos pedidos de

registo apresentados posteriormente”.

2-

Este Parecer foi homologado por despacho de sua Excelência o Ministro da Justiça de

21.07.1998, pelo que, como nele mesmo se refere, a sua doutrina é vinculativa para os

conservadores.

Está publicado no D.R. II Série nº 246, de 24.10.1998.

A consulta que veio a determinar a emissão deste Parecer está publicada no BRN nº

7/96, págs. 10 e segs.

(3)

do C.P.C.), não se estende às decisões proferidas pelo director-geral dos Registos e do Notariado no âmbito dos denominados recursos hierárquicos.

Importa, porém, sublinhar um ponto que se nos afigura pertinente à matéria dos autos.

Como referem Lebre de Freitas e Armindo Ribeiro Mendes, in Código de Processo Civil Anotado, Vol. 3º, 2003, pág. 12, com a alteração do nº 4 do art. 678º do C.P.C. introduzida pelo D.L. nº 38/2003, de 8 de Março (que eliminou a expressão “a processar nos termos dos artigos 732º-A e 732º-B”), «(…) ficou claro que o recurso de revista é admissível ex lege, mas não tem de seguir obrigatoriamente o regime da revista ampliada. Nesse recurso pode ser sugerido ao presidente do Supremo que determine o julgamento ampliado da revista, nos termos dos art.s 732-A e 732-B».

Como acentuou o citado Parecer da PGR, em matéria de registo o valor da igualdade apresenta um relevo primacial. Nele se escreveu:

«Justifica-se, pois, que seja de interesse público, quer a publicidade conferida pelo registo, quer a consecução da igualdade de tratamento de questões objectivamente iguais que a respeito deste surgem.

E correlativamente se entende que essa igualdade de tratamento seja neste âmbito impulsionada e promovida pelo Estado – e não apenas realizada se requerida pelos interessados (ou porventura, pelo Ministério Público), como sucede quando está em causa o exercício da função judicial».

Porém, a decisão proferida pelo director-geral em procedimento de recurso hierárquico só tem força obrigatória no caso submetido a apreciação.

Nem, aliás, no regime do recurso hierárquico está prevista a possibilidade de a decisão, para além do caso concreto nela apreciado, visar a “uniformidade de práticas registrais”, com a consequente vinculação dos conservadores, no exercício da actividade de qualificação de registos em que surjam questões objectivamente iguais, a um especial dever de ponderação da doutrina ínsita naquela decisão.

Apesar disso, tem constituído prática frequente este Conselho, no âmbito dos recursos hierárquicos, conhecer de questões não suscitadas no despacho de qualificação cuja omissão de pronúncia, no seu modo de ver, possa conduzir à feitura de registos nulos, e bem assim conhecer, embora a título meramente incidental, de vícios de registo (obviamente, também de acordo com o seu entendimento) e propor ao director-geral que ordene ao conservador recorrido a participação ao Ministério Público para a instauração da respectiva acção de declaração de nulidade ou anulação desses registos ou a instauração na própria conservatória do respectivo processo de rectificação desses mesmos registos 3.

3-

Pode perfeitamente acontecer que o director-geral, no seguimento da proposta do

Conselho Técnico, ordene ao conservador recorrido que instaure processo de

rectificação do registo (aliás, isso resultará directamente da homologação do parecer

donde conste tal proposta), mas, a final, o registo rectificando venha a ser julgado

válido.

Aconteceu, por exemplo, no caso que veio a ser decidido pelo Acórdão do S.T.J. de

27.01.2004, in BRN I Caderno nº 3/2004, págs. 18/20.

Aliás, teremos todos de reconhecer que é bem delicada a posição do conservador que,

tendo lavrado um registo na plena convicção da sua validade, é ulteriormente

(4)

Finalmente, importa transcrever as conclusões firmadas no citado Parecer da PGR:

1ª. O poder de direcção típico da relação de hierarquia administrativa integra, entre outras, a faculdade de emanar circulares interpretativas, ou seja, instruções gerais, vinculativas, dirigidas aos órgãos, funcionários ou agentes subalternos, acerca do sentido em que devem – mediante interpretação ou integração – entender as normas ou princípios jurídicos que, no âmbito do exercício das suas funções, lhes caiba aplicar;

2ª. As circulares interpretativas, porque não constituem actos com “eficácia externa”, não são incompatíveis com o nº 6 do artigo 112º da Constituição;

3ª. O Director-Geral dos Registos e do Notariado tem, enquanto superior hierárquico dos conservadores dos registos, competência para emitir circulares interpretativas, a estes dirigidas, relativas a questões respeitantes ao exercício da sua actividade vinculada tipicamente registral.

Convém, no entanto, frisar que este Conselho não se tem desviado do entendimento que resulta das conclusões firmadas no processo de consulta referido na nota (2).

Tem sido entendimento constante deste Conselho que a actividade que se destina a fixar o sentido e alcance com que o texto legal deve valer compete, no âmbito da qualificação registral, em primeira linha ao conservador.

Consequentemente, também tem sido preocupação permanente deste Conselho resistir ao impulso de propor a emissão de circulares interpretativas (naturalmente, com eficácia meramente interna) de normas jurídicas. Porque entende que o conservador, enquanto jurista, deve estar livre no exercício da

confrontado com uma ordem do director-geral para instaurar processo de rectificação

desse registo.

A questão não está em tabela, mas deveria merecer atenta reflexão.

O que aqui apenas importa referir é que se nos afigura incontroverso que o

director-geral pode ordenar ao conservador a rectificação oficiosa de um registo ou a instauração

de processo de rectificação. E não deve constituir motivo de preocupação a

eventualidade de, num ou noutro caso, no processo de rectificação vier a decidir-se que,

afinal, o registo não está viciado. Daí resultará para o conselho e para o director-geral o

especial dever de, em casos objectivamente iguais que venham a surgir, reponderar toda

a argumentação alinhada antes de propor e tomar nova decisão (que poderá ser,

novamente, a de ordenar a instauração de processo de rectificação).

A este respeito, pertinente se me revela transcrever o seguinte trecho do citado Parecer

da PGR:

«Note-se, ademais, que minguada justificação teria, em matéria de registos, face à

existência do recurso contencioso, a consagração dum chamado “recurso hierárquico”

que, afinal, não o fosse – e não propiciasse, por isso, uma das finalidades típicas deste

meio de impugnação: a de possibilitar ao superior hierárquico a detecção de situações

que justifiquem a emanação de instruções gerais de harmonização da interpretação e

aplicação das leis por parte dos subalternos».

(5)

actividade interpretativa. E ainda porque tem a obrigação de saber que, nesta sede, a certeza do Direito é um bem quase inatingível (cfr., v.g., parecer emitido no Pº C.P. 11/2004 DSJ-CT).

Não raras vezes, porém, são os próprios conservadores que, como que em certa medida renunciando à sua liberdade/responsabilidade interpretativa, vêm consultar a DGRN. Mesmo no âmbito do procedimento de consulta, se em relação ao conservador consulente fará pouco sentido não acatar a posição que superiormente venha a ser assumida sobre a matéria da consulta, já em relação aos conservadores não consulentes aquela posição, não assumindo a natureza de circular interpretativa, não será vinculante.

Não há, é nossa convicção, sistemas perfeitos. Mas, no que ao nosso sistema em concreto diz respeito, e pese embora estarmos no caso a advogar em causa própria, não cremos que o mesmo seja de todo ineficiente.

Em face de todo o exposto, teremos de concluir que no âmbito de um procedimento de recurso hierárquico o recorrente não pode formular o pedido de prolação de decisão do director-geral que vincule os conservadores a aplicar a doutrina subjacente à decisão de procedência do pedido formulado naquele recurso em todos os processos de registo onde se colocarem questões objectivamente iguais, devendo, por conseguinte, tal pedido ser liminarmente indeferido.

Não obstante, sempre tal pedido deverá ser interpretado como sugestão para que o director-geral, no uso do poder de direcção típico da relação de hierarquia administrativa, emita circular interpretativa e ordene aos conservadores a instauração de processos de rectificação de registo.

2. Como resulta do Relatório, a Senhora Conservadora recorrida reparou a sua decisão de registar provisoriamente por natureza o facto, e converteu o registo cuja qualificação era objecto de impugnação.

Resta, portanto, a questão de saber se deve ser considerada a sugestão do recorrente.

O que sugere o recorrente?

Concretamente, e se bem interpretamos, que o Senhor Director-Geral ordene ao conservador da conservatória recorrida que rectifique oficiosamente os registos de aquisição lavrados provisoriamente por natureza nos termos do art. 92º, nº 2, b), do C.R.P. (por dependência do registo da acção) sobre os prédios descritos sob os nºs 25 486 e 25 487, com base no entendimento firmado na conclusão VI do parecer emitido no Pº C.P. 66/2002.

Ora, afigura-se-nos manifesto que tal sugestão não poderá ser ponderada. Desde logo, porque os registos de aquisição em causa já estão convertidos em consequência da caducidade, entretanto ocorrida, do registo da acção 4.

4-

Informa a Senhora Conservadora que há inscrições de aquisição que foram objecto de

pedido de rectificação e que se encontram pendentes de resolução judicial.

Não temos que nos pronunciar sobre a matéria, até porque tais registos não estão

fotocopiados nos autos.

Mas sempre diremos, a título meramente opinativo, que prima facie não vemos razões

para não converter também estes registos em consequência da caducidade, constituindo

esta causa de impossibilidade superveniente da lide (o resultado visado pelo processo de

(6)

3. Em face do exposto, é entendimento deste Conselho que o pedido adicional formulado pelo recorrente nos presentes autos de recurso hierárquico deve ser liminarmente indeferido, e a sugestão em que o mesmo deve ser convolado também não merece ser considerada.

Este parecer foi homologado pelo Exmo. Senhor Presidente em 04.06.2007.

rectificação foi atingido por outro meio), devendo tal conversão ser comunicada pelo

conservador ao juiz.

Também não teremos que comentar a posição assumida pelo Senhor conservador no

despacho proferido no processo de rectificação fotocopiado nos autos e a posição

assumida pela Senhora Conservadora na sua decisão de reparação proferida nos

presentes autos.

Mas sempre diremos que, salvo o devido respeito, se nos afigura algo confusa a 1ª

posição. Se a posição defendida no Pº C.P. 66/2002 – sobre a rectificação oficiosa dos

registos de aquisição – merece “bastantes reservas” ao Senhor Conservador, de molde a

não o convencer da sua justeza, tal posição, porque não é vinculativa para os

conservadores não consulentes, não terá que ser por ele acatada na qualificação nem dos

registos apresentados anteriormente nem dos apresentados posteriormente, pelo que não

assimilámos o alcance desta distinção.

Relativamente à 2ª posição, salvo o devido respeito, também aqui, invocando-se

“algumas reservas” à posição doutrinal deste Conselho, sem as concretizar, fica-se com

a sensação de que foi com alguma contrariedade que se decidiu reparar a decisão. Ora,

se tal sensação corresponde à realidade, então não podemos deixar de manifestar a nossa

tristeza.

Que fique, pois, bem claro. As posições deste Conselho, quer quanto à natureza do

registo de transmissão pendente lite lavrado já depois de registada a acção (posição

reassumida no recente parecer emitido no Pº R.P. 148/2006 DSJ-CT), quer quanto à

viabilidade da rectificação dos registos lavrados (indevidamente) nos termos do art. 92º,

nº 2, b), do C.R.P., não são de acatamento vinculativo pelos conservadores fora dos

processos em que foram assumidas.

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