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Cidade, apropriação e urbanidade: o traçado urbano de Blumenau como sistema de espaços públicos

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Academic year: 2021

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CIDADE, APROPRIAÇÃO E URBANIDADE

O TRAÇADO URBANO DE BLUMENAU COMO SISTEMA DE ESPAÇOS PÚBLICOS

Dissertação submetida ao Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de Mestre em Arquitetura e Urbanismo

Orientador: Prof. Dr. Almir Francisco Reis

Florianópolis 2017

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Carminatti, Karol Diego

Cidade, apropriação e urbanidade : O traçado urbano de Blumenau como sistema de espaços públicos / Karol Diego Carminatti ; orientador, Prof. Dr. Almir Francisco Reis , 2017.

141 p.

Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico, Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Florianópolis, 2017.

Inclui referências.

1. Arquitetura e Urbanismo. 2. Urbanidade. 3. traçado. 4. integração. I. Reis , Prof. Dr. Almir Francisco . II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. III. Título.

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Esta pesquisa não seria possível sem a sábia orientação daquele que para mim se tornou uma inspiração e um exemplo, meu orientador Almir Francisco Reis, que me guiou de forma tranquila e amigável. A ele agradeço com votos de nos reencontrarmos em outros momentos e em outras pesquisas.

Agradeço aqueles que me deram a vida, meus pais Ana e Mario, que me encorajaram nesta minha incessante paixão pelas cidades e no desenvolvimento desta pesquisa.

Aos meus colegas de caminhada, mestrandos e doutorandos, também quero agradecer e dizer-lhes que me sinto felizardo em tê-los como companheiros de pesquisa, de dúvidas e de lutas. Em especial à Ana Knuth que sempre me empolgou em nossas conversas e me auxiliou em partes deste trabalho.

Aos meus grandes amigos, Paulo e João, que souberam ter paciência neste período da minha vida e que me acompanharam nos momentos de devaneios e discussões em meio a algumas taças de vinho.

Agradeço aos professores que tive o prazer de conhecer e que me proporcionaram horas de valiosos ensinamentos. Com certeza foram fundamentais nesta caminhada.

Ao Professor Luiz Alberto agradeço pelo aceite em participar da minha banca. Minha admiração pelo seu trabalho vem desde os tempos de faculdade quando também fora meu mestre.

Agradeço a Professora Sônia Afonso, a quem conheci tão brevemente, mas que me deixou um grande legado de ensinamentos e sugestões que enriqueceram a pesquisa. Espero vê-la em breve para outras conversas.

Ao Professor Renato Saboya devo agradecer por me instigar com a Sintaxe Espacial, método que deu a total base para a pesquisa, e por colaborar de forma fundamental durante o programa de mestrado e agora no seu fim, em banca.

Agradeço o corpo da secretaria do PósArq, em espacial à Adriana e Mariany, sempre muito interessadas em ajudar.

Devo agradecer também à CAPES, instituição que financiou este trabalho por inteiro, possibilitando maior dedicação e resultando em uma pesquisa de qualidade.

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Recentemente a discussão acerca das qualidades urbanas das cidades tem se tornado mais frequente e o espaço público surge como um dos principais elementos no debate. Com ele um importante conceito aparece, o de urbanidade, tentando identificar como uma cidade pode ser acolhedora para seus habitantes e transeuntes. Considerando que as ruas são parte fundamental do espaço público de uma cidade, propomos investigar a cidade a partir de uma questão: Poderia o traçado urbano ser um agente propiciador de urbanidade? Partindo de leituras com diversas abordagens metodológicas propusemos analisar Blumenau, importante cidade de Santa Catarina, para compreender o papel do traçado e suas implicações na vida urbana. Analisando o processo de crescimento urbano através da teoria da sintaxe espacial, identificamos que a urbanidade da cidade se modificou ao longo da história deslocando-se fisicamente e configurando uma nova dinâmica de relações sócio-espaciais que indicam o surgimento de um possível “novo centro” para a cidade, situado ao norte do centro histórico consolidado.

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ABSTRACT

Recently the discussion about the urban qualities of cities has become more frequent and the public space appears as one of the main elements in the debate. With it an important concept appears, that of urbanity, trying to identify how a city can be welcoming to its inhabitants and passers-by. Considering that the streets are fundamental part of the public space of a city, we propose to investigate the city from a question: Could the urban trajectory be a propitiator of urbanity? Starting from readings with different methodological approaches, we proposed to analyze Blumenau, an important city of Santa Catarina, to understand the role of the route and its implications in urban life. Analyzing the process of urban growth through space syntax theory, we have identified that the urbanity of the city has changed throughout history by moving physically and configuring a new dynamics of socio-spatial relations that indicate the emergence of a possible "new center" to the city, situated to the north of the consolidated historical center.

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Figura 01 - A região central de Blumenau e o seu sítio físico ... 27

Figura 02 - A região central de Blumenau e a curva do Rio Itajaí-Açu .. 28

Figura 03 – As quadras mais longas – esquerda e centro. Na direita as alternativas de trajeto aumentam com quadras mais curtas. ... 36

Figura 04 – Análise das vias, topografia e cortes transversais de ruas – Bacon Hill/ Boston ... 37

Figura 05 - Exemplo de como a configuração da malha sugere padrões diferenciados de movimento. ... 39

Figura 06 – Esquema do Movimento natural ... 40

Figura 07 – Contextualização de Blumenau ... 59

Figura 08 – Esquema de Evolução Urbana de Blumenau ... 64

Figura 09 – O traçado urbano da Blumenau colônia. ... 68

Figura 10 – O traçado urbano da Blumenau no ano de 1900. ... 71

Figura 11 – O traçado urbano da Blumenau no ano de 1955, com ênfase para a linha férrea. ... 72

Figura 12 – O traçado urbano da Blumenau no ano de 1974. ... 74

Figura 13 – O traçado urbano da Blumenau no ano de 2010. ... 77

Figura 14 – A evolução do traçado urbano de Blumenau, da colônia à cidade atual. ... 81

Figura 15 – Mapas axiais de integração local (R5) e do todo (RN) identificando os lugares prováveis de urbanidade ... 89

Figura 16 – Mapas axiais de integração local (R5) e do todo (RN) e de escolha, em 2010, identificando os lugares prováveis de urbanidade. 90 Figura 17 – Recortes específicos para análise local. ... 96

Figura 18 – Mapas de análise local considerando ilhas espaciais, integrações do todo e local, escolha e usos do solo. ... 101

Figura 19 – Locais determinados para a aferição In Loco na rua XV de Novembro ... 109

Figura 20 – Proximidades da Rua Paul Hering de dia durante a semana ... 111

Figura 21 – Proximidades da Rua Paul Hering à noite durante a semana ... 112

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Figura 23 – Proximidades da Rua Paul Hering à noite no final de semana

...113

Figura 24 – Locais determinados para a aferição In Loco na rua Antônio da Veiga ...113

Figura 25 – Proximidades da FURB de dia durante a semana ...115

Figura 26 – Proximidades da FURB à noite durante a semana ...116

Figura 27 – Proximidades da FURB de dia no final de semana ...116

Figura 28 – Proximidades da FURB à noite no final de semana ...117

Figura 29 – Mapas de análise local da rua XV de Novembro ...119

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Tabela 1 - Contagem de pedestres, ciclistas e veículos: Rua XV de Novembro ... 109 Tabela 2 - Contagem de pedestres, ciclistas e veículos: Rua Antônio da Veiga ... 114

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NOTAS INICIAS ... 19

1. INTRODUÇÃO ... 21

1.1 ESTRUTURA DO TRABALHO ... 29

2. ESPAÇO, CIDADE E URBANIDADE - REFERÊNCIAS TEÓRICO-CONCEITUAIS ... 31

2.1 CIDADE E URBANIDADE ... 33

2.2 A SINTAXE DO TRAÇADO E SUAS FORMAS DE CRESCIMENTO URBANO ... 44

3. MÉTODOS DE PESQUISA E PROCEDIMENTOS ... 49

4. TERRITÓRIO, SÍTIO FÍSICO E OCUPAÇÃO HISTÓRICA: CONTEXTUALIZANDO BLUMENAU ... 55

4.1 PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO TRAÇADO URBANO ... 65

4.2 BLUMENAU COLÔNIA E O TRAÇADO INICIAL ... 66

4.3 O PROCESSO INDUSTRIAL E A IMPLANTAÇÃO DE INFRAESTRUTURAS ... 69

4.4 O INÍCIO DO PERÍODO RODOVIARISTA ... 73

4.5 A CIDADE ATUAL E A EXPANSÃO AO NORTE ... 75

4.6 SINTESE DO TRAÇADO URBANO DE BLUMENAU ... 78

5. O TRAÇADO COMO SISTEMA DE ESPAÇOS PÚBLICOS ... 83

5.2 ANÁLISE SINTÁTICA DE BLUMENAU ... 86

5.3 SÍNTESE DA ANÁLISE SINTÁTICA ... 94

6. TRANSFORMAÇÕES SUCESSIVAS: OS LUGARES CRIADOS ... 97

6.1 CATEGORIAS DE ANÁLISE: INFERÊNCIAS LOCAIS ... 103

6.1.1 A Localização da fração analisada em relação as variáveis globais ... 103

6.1.2 A Leitura dos atributos formais locais ... 103

6.1.3 A Leitura das atividades presentes no uso do solo ... 105

6.1.4 A Leitura da copresença ... 106

6.1.5 Aferição da Real Copresença ... 108

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NOTAS FINAIS ...135 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...137

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NOTAS INICIAS

Em 2008, quando entrei no curso de Arquitetura e Urbanismo da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), minha visão da cidade se resumia a de alguém que passava em desapercebido à vida urbana. Não compreendia a complexidade da palavra “cidade”, tampouco sabia que ela seria o meu fascínio.

Apenas alguns anos mais tarde, depois de inúmeras derivas sobre o urbano, o meu interesse pelo estudo da cidade e sua complexidade surgiu. Entre as salas de aula da universidade, cafés nas padarias ou conversas de boteco, a curiosidade pelo entendimento do cotidiano dos lugares e das pessoas soou bastante forte.

Desde cedo compreendi que a arquitetura e o urbanismo não se separam, porém, as grandes escalas da cidade me pareciam sempre mais interessantes. Uma edificação, fazendo parte de um lote, dentro de uma quadra, desenhada num bairro, inserido na cidade. Não havia como negar, o urbano é preponderante, é determinante.

Com os anos de faculdade, minha paixão pelo espaço público se estendeu para fora da sala, e abarcou a cidade de Blumenau, aquela que chamo de minha “segunda casa”. Uma cidade mundialmente conhecida, mas que permanece com cara de cidade pequena, onde é possível reconhecer a cultura de um passado em coexistência com novas formas de vivência do cotidiano.

Decidido a reunir duas paixões, o estudo da cidade e o estudo de Blumenau, ingressei no Programa de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina, ainda com um projeto de pesquisa pouco específico. A intenção estava em estudar as interfaces que ocorriam entre o espaço público e o privado e suas implicações na vida da cidade. Mas logo descobri, por intermédio do meu orientador, que o desafio era outro e o caminho a percorrer era longo. Me dediquei então a compreender as formas e as qualidades urbanas, que entre grandes e pequenas escalas estruturam a vida nas cidades e que inegavelmente traçaram o caminho desta pesquisa.

Felizmente o caminho percorri, e aqui venho trazê-lo como trajetória e testemunho da minha paixão pelas cidades

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No estudo da cidade é comum a utilização de conceitos das mais diversas áreas. Para o arquiteto, a forma espacial que configura a cidade é sem dúvida um dos principais desafios a ser compreendido, interpretado e proposto. Isto porque a configuração urbana não é apenas forma, mas também é relação. Cada espaço edificado, cada rua, cada lugar aberto estabelece padrões de apropriação e por sua vez padrões de interface social. Entendemos que a arquitetura possui um papel de importância nas relações humanas, na medida que as intermedia através dos espaços que produz. Neste sentido, pretende-se estabelecer aqui um ponto de partida para compreender as relações entre arquitetura e sociedade abordando o espaço urbano, sua forma e apropriação.

No século XXI a crescente discussão a respeito dos espaços de caráter coletivo tomou força por movimentos sociais, que se manifestaram nestes lugares e por discussões acadêmicas, profissionais e políticas que começaram a entender o espaço público como componente fundamental da cidade. Nesse contexto, surge uma nova qualidade do urbano: a urbanidade. Ainda pouco estudada, a urbanidade se refere à civilidade como característica típica da cidade, dos seus lugares, individualmente e em seu conjunto, se referindo ao modo como espaços da cidade acolhem as pessoas, possibilitando interfaces entre os diferentes agentes da vida urbana. As múltiplas características da cidade, em diversas escalas, são aquilo que compõem a urbanidade. Mas dentre tantas características, seria possível encontrar elementos que fossem capazes de capturar atributos que compõe a urbanidade?

Desenvolvida junto à Universidade Federal de Santa Catarina, a presente pesquisa parte do interesse em compreender a estrutura morfológica da cidade, especificamente o traçado urbano, como propiciador de urbanidade. A forma da cidade indicaria uma determinada qualidade espacial, possibilitando determinadas formas de apropriação coletiva. A sua mudança implicaria em novas relações sócio-espaciais, alterando as formas pelas quais a cidade é vivida em seu cotidiano. Preocupados em avaliar a construção do traçado urbano e investigando seu significado e seus efeitos na cidade contemporânea, utilizamos Blumenau, importante cidade de Santa Catarina, como estudo de caso.

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Sendo a principal cidade da região do Vale do Itajaí, Blumenau se destaca por possuir uma economia pautada no setor têxtil, tecnológico e na sua atratividade turística. A cidade, nascida na foz do ribeirão Garcia, afluente do rio Itajaí-Açú, foi colonizada por alemães a partir de 1850 e há 165 anos vem se construindo em um sítio físico com características bastante específicas em função de sua situação de vale (figura 01). Com uma formação inicial derivada dos lotes estreitos e compridos definidos pelo traçado colonial, Blumenau se expandiu lentamente entre os morros e os rios. As indústrias tiveram papel importante na configuração espacial. Grandes empresas se estabeleceram em lugares distintos contribuindo para a implantação de infraestrutura, moradia e sistemas de movimento. Com o passar do tempo estas ações ainda são perceptíveis na estrutura urbana, principalmente aquela que compõe o centro de Blumenau.

Neste processo de expansão ao longo da história a cidade reconheceu diferentes espaços públicos e os modificou, alterando sua configuração e os modos de vivência do espaço urbano. Nos últimos 70 anos o crescimento de Blumenau se intensificou e juntamente com ele ocorreram mudanças significativas no traçado. Estas mudanças implicaram a modificação gradual da apropriação socio-espacial. O centro da cidade (figura 02) é um exemplo destas modificações, um lugar que possui muita vida no horário comercial, mas que perde sua vitalidade na medida em que os equipamentos comerciais vão fechando.

Isto começou a acontecer quando, através de políticas públicas aliadas à localização de grandes indústrias e a uma forte pressão do mercado imobiliário, a cidade teve seu traçado modificado e ampliado, direcionando a sua expansão para o norte. Com um crescimento populacional acelerado, novos equipamentos e serviços surgiram, conformando pequenos centros de bairro ou até mesmo centros de tal porte que passaram a competir com as atividades comercias do centro da cidade. O centro original perdeu seu caráter habitacional e se tornou em sua maioria um setor de comércios e serviços. Parte da população que residia ali migrou para outras partes da cidade, especialmente o norte, contribuindo ainda mais para que, atualmente, o centro não possua vitalidade fora do horário comercial. Este cenário está delineando uma forte tendência e é sobre ela que o trabalho se aprofunda.

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O traçado urbano que foi herdado deste processo estrutura o sistema de espaços públicos da cidade, organizando os padrões de movimento e apropriação. Interessa neste trabalho verificar a malha urbana e a forma dos espaços públicos enquanto propícia ou restritiva à urbanidade. Composto por passeios, parques, praças, beiras de rio e ruas, o espaço público tem uma dimensão social, uma política e outra morfológica. Sob um viés sintático este trabalho investiga atributos formais como indutores de co-presença – interação entre pessoas de diversas culturas, etnias, religiões, etc. – e de urbanidade.

O trabalho parte do pressuposto de que o centro de Blumenau está se deslocando e juntamente com ele a sua urbanidade devido a mudanças na sua configuração.

O principal objetivo é analisar a conformação histórica do traçado urbano de Blumenau, sua configuração atual e o seu papel enquanto estruturador dos espaços públicos e propiciador de urbanidade. Constituem objetivos específicos do trabalho:

- Analisar os determinantes históricos que criaram e modificaram o sistema de espaços públicos de Blumenau; - Descrever o papel do traçado urbano atual enquanto

estruturador do sistema de espaços públicos da cidade; - Aferir a configuração local e os modos de apropriação dos

espaços públicos da cidade, entendendo suas implicações nas interfaces sociais e sua correlação com a urbanidade. O trabalho envolve análises morfológicas do espaço urbano de Blumenau, com preocupações especificas relativas ao traçado da cidade juntamente com aspectos relacionados a sua construção e transformação. Estudar o processo de crescimento do traçado urbano instiga um olhar sobre a dinâmica da cidade e suas relações entre seus agentes ao longo do tempo. Para uma descrição das transformações históricas da estrutura urbana, caracterizou-se inicialmente o sitio físico-natural juntamente com as estruturas resultantes das primeiras ocupações percorrendo a construção do traçado até uma análise da sua configuração atual.

Para estudar historicamente a evolução do traçado de Blumenau realizamos uma investigação que tem por base documentos históricos, mapas, fotos, gráficos, como meio de entender também a vida da cidade nos diferentes momentos da sua história. Esta leitura tem por

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base teórica e metodológica trabalhos preocupados com o processo de crescimento urbano como Las formas de crecimiento urbano (Solá-Moráles, 1997).

Na segunda parte da investigação procurou-se entender o traçado sob um aspecto quantitativo e qualitativo, evidenciando suas implicações nas relações socioespaciais. Propomos como abordagem o uso da Sintaxe Espacial, desenvolvida por Hiller e Hanson em 1984 e descrita no livro The Social Logic of Space. Esta teoria busca descrever a configuração do traçado e as relações entre os espaços públicos e privados através de medidas quantitativas, que permitem compreender aspectos importantes do sistema urbano procurando identificar propriedades socialmente significantes. A análise sintática foi feita sobre os diversos mapas de expansão da cidade, evidenciando as estruturas espaciais consolidadas nos seus diferentes momentos históricos.

Através de recortes específicos estabelecidos nas análises sintáticas, foram aferidas leituras locais com base em mapas de usos do solo, das constituições morfológicas dos lugares e as características das suas espacialidades, se são públicas ou privadas. Por fim, verificamos a co-presença dos espaços públicos que compõem o traçado cruzando-a com os atributos encontrados discutindo como as formas espaciais auxiliam ou negam as interfaces sociais.

Os resultados encontrados mostram que Blumenau possui duas regiões de grande importância para a cidade. A primeira, o centro histórico, também centro de comércios e serviços que atrai pessoas de todos os lugares da cidade para participar do seu cotidiano. Se caracteriza como o lugar que possui maior vitalidade, maior apropriação e maior co-presença que são, porém, limitados ao horário comercial. Já noutra parte da cidade, também com grande importância, situa-se a região universitária. Por suas características de configuração do traçado urbano, seria uma região que estaria adquirindo condições para se tornar um lugar de urbanidade. Mesmo com uma apropriação inferior àquela encontrada no centro histórico, reúne usos e tipologias arquitetônicas diversas compondo um espaço urbano também de vitalidade que, perdura para além dos horários comerciais.

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Figura 01 - A região central de Blumenau e o seu sítio físico

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Figura 02 - A região central de Blumenau e a curva do Rio Itajaí-Açu

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1.1 ESTRUTURA DO TRABALHO

Esta pesquisa será apresentada em quatro capítulos:

O primeiro aborda referenciais teórico-metodológicos que foram importantes para o desenvolvimento da pesquisa. Nele estão contidos conceitos acerca de temas como urbanidade, traçado urbano e apropriação dos espaços públicos, necessários para descrever Blumenau, seu processo histórico e sua apropriação urbana cotidiana.

O segundo capítulo descreve as características de Blumenau, abordando as transformações no sítio físico, o crescimento urbano da cidade ao longo da história e caracterizando o traçado atual e seu sistema de espaços públicos. É demonstrada a construção do traçado urbano em quatro momentos: a colônia e suas primeiras modificações no território; o processo industrial e a implantação de infraestruturas; o início do período rodoviarista; e a cidade atual e sua expansão urbana para o norte.

O terceiro capítulo entra no campo dos estudos configuracionais urbanos e suas implicações nas interfaces sociais. Visto a grande quantidade de variáveis que compõem o sistema urbano, este trabalho se restringe a analisar o traçado de Blumenau, seus aspectos morfológicos, seus usos e apropriação cotidiana bem como a modificação gradual destes elementos ao longo do processo de construção da cidade.

O quarto capítulo analisa a apropriação local dos espaços públicos selecionando recortes específicos. Nele serão demonstradas correlações entre a análise total da cidade e as características locais de apropriação. Finaliza-se o capítulo apresentando os resultados obtidos nas análises de uso do solo, constituição morfológica e configuração, comparando-as com aferições in-loco de copresença.

A pesquisa finda com considerações importantes sobre os resultados obtidos, demonstrando o traçado urbano como um dos grandes responsáveis pela modificação dos padrões de urbanidade da cidade. São feitas observações acerca da estrutura urbana total e local de Blumenau.

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2. ESPAÇO, CIDADE E URBANIDADE - REFERÊNCIAS

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A busca pelo entendimento do urbano tem gerado uma quantidade abundante de estudos, ensaios e referenciais teóricos e metodológicos. Este caso não foi diferente. Mas em meio a tantos autores e pensadores críticos da cidade, tivemos o cuidado de trazer para este trabalho aqueles que mais se identificam com a temática aqui abordada: o espaço público e a urbanidade.

Os referencias teórico-conceituais que subsidiam estre trabalho provem do estudo de diversos autores que possuem um viés morfológico de leitura urbana voltada ao uso e apropriação do espaço público. Uma dualidade de conhecimentos é necessária. Por um lado, a forma urbana se torna objeto “tátil” através de leituras de espacialidade. Nesta linha autores como Hillier e Hanson (1984), Aguiar (2011), entre outros, nos ajudam a compreender o espaço formal da cidade e seus atributos, por outro lado, a apropriação urbana, algo muito mais sensorial, ligado a cultura e ao tempo, são reconhecidas como o resultado também da configuração espacial da cidade. Jacobs (2011), Holanda (2010) e Castelo (2007) por exemplo, auxiliam no entendimento da dimensão mais humana e de apropriação do espaço público.

O estudo dos processos de crescimento do espaço urbano, sob um viés histórico-morfológico, é referenciado por Solá-Morales (1997) que aborda questões voltadas ao parcelamento, urbanização e a edificação como variáveis fundamentais que expressam padrões espaciais e temporais.

A seguir são apresentados os conceitos que dão subsídios para a estrutura analítica desta pesquisa. A primeira secção trata dos conceitos de diversos autores que discutem a urbanidade relacionada à cidade contemporânea e sua problemática. Na segunda, aborda-se a literatura referente ao processo de construção do traçado urbano delineados sobre estudos configuracionais.

2.1 CIDADE E URBANIDADE

Visivelmente o espaço público da cidade contemporânea está passando por uma profunda crise tanto de forma quanto de apropriação. Frente a uma tendência observada nas cidades brasileiras no século XXI, onde está clara uma lógica de ocupação dos espaços urbanos sob uma cultura voltada à produção de tipologias

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arquitetônicas, espaços e sistemas que priorizam a separação de pessoas, do enclausuramento e da negação dos espaços públicos, a urbanidade parece ser assunto emergencial dos temas urbanos. Com uma cultura de produção do espaço urbano marcada por lugares introvertidos, shopping centers, grandes muros de condomínios fechados, vastas áreas de estacionamento, o espaço público resulta em um lugar cada vez mais inóspito indo de encontro à dinâmica atual de segregação. Tal dinâmica pode ser observada na medida em que a cidade resume sua vida a horários comercias, espaços coletivos nada convidativos e uma crescente violência urbana. Frente a esta tendência, o que poderia representar a urbanidade nos estudos urbanos?

Urbanidade, quando buscado no dicionário, traz uma conceituação de valores estabelecidos para o bom convívio em sociedade. Encontramos descrita no dicionário Aurélio, por exemplo, como a “qualidade do que é urbano, a vida de cidade, cumprimento das regras de boa educação e de respeito no relacionamento entre cidadãos”.

Pressupõe-se a partir daí, que urbanidade emerge da interação entre as pessoas que compartilham o mesmo espaço físico na cidade. Porém, como destaca Tenório (2012)“(...) indivíduos compartilhando de um mesmo espaço físico podem interagir ou não. A questão principal, então, não recai na interação, mas no compartilhamento do mesmo espaço físico, sem o qual nenhuma interação se dá” (TENÓRIO, 2012, p.14). Espaços que permitem ser compartilhados entre diversas pessoas, ainda que não haja uma interação direta, disseminam o reconhecimento e apreensão do outro, dos seus movimentos e das suas ações. Melhor ainda se estes espaços puderem ser compartilhados por grupos sociais com culturas distintas onde o reconhecimento mútuo pode ser tornar ainda mais intenso.

E haveria maior possibilidades de interação e compartilhamento do que aquela que ocorre no espaço público? Aparentemente o espaço público seria o principal agente de urbanidade, isto porque propicia o encontro entre semelhanças e diferenças criando um espaço integrador, pois segundo Peponis (1989, p.23) “se a sociedade enquadra as pessoas em diferentes classes, papéis e posições, o espaço urbano pode ser um dos meios de reintegração”.

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Em linhas gerais, um dos muitos interesses em estudar a urbanidade está na condição de indagar o espaço público e reconhece-lo como elemento fundamental para a vida em sociedade. Se urbanidade diz respeito ao convívio, este necessariamente acontece em algum lugar, e não se trata de um lugar qualquer e sim de espacialidades que deem suporte ao encontro e às relações sociais.

Pessoas se movimentam a partir de rotinas diárias. Indivíduos saem de suas casas para estudar, trabalhar, se divertir, entre outras tantas atividades. Esse movimento coletivo cria padrões de ocupação do espaço, que muitas vezes podem ser previstos e interpretados. Neste contexto, há uma modificação constante da cidade onde atores urbanos imprimem traços destas práticas diárias e destes movimentos coletivos de apropriação. Obviamente estas “marcações” acontecem de forma silenciosa ao longo de uma linha espaço-temporal e constituem a civilidade das cidades. Até mesmo grandes mudanças que podem provocar efeitos imediatos são resultado de características que estão acumuladas na cidade através do tempo.

Sendo uma discussão recente, a urbanidade se tornou um tema de estudos para vários teóricos de várias áreas em diversos momentos da história. Reconhecendo o fracasso dos modelos de cidade implantados pelo movimento moderno, bem como os problemas detectados no presente da vida urbana, vários autores se dedicaram a compreende-la, mesmo antes do termo “urbanidade” ser efetivo e usado nos estudos urbanos.

Em 1961, andando pelas ruas de Nova York, Jane Jacobs criticava a negação do espaço público materializado na cidade através de paredes cegas, estacionamentos e empreendimento privados. Em contrapartida, apontava atributos necessários para a vida urbana intitulando-os como condição de diversidade. Lugares animados, com vida na rua, mistura de tipologias arquitetônicas e pessoas e, principalmente, interação com o espaço urbano. Dentre diversas variáveis apontadas pela autora, a diversidade possuía uma dimensão social e outra arquitetônica. Na dimensão social, a importância da relação entre moradores e estranhos vem à tona como uma variável fundamental para a diversidade. O espaço público é o lugar de todos e assim deve ser apropriado. A autora emprega nesta apropriação um papel que garante maior sentimento de segurança. Um espaço público mais apropriado, envolto por fachadas mais ativas dá condições para

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que ele seja vigiado, caracterizando aquilo que Jacobs (2011) chama de “os olhos da rua”. Na dimensão arquitetônica são captados aspectos da configuração espacial quando, por exemplo, recomenda-se a projeção de quadras mais curtas como um elemento que oxigena a vida urbana e cria condições de vitalidade. Mesmo sem ter uma preocupação puramente morfológica, Jacobs dá os primeiros indícios que a apropriação dos espaços públicos estaria relacionada com a configuração espacial destes lugares. Espaços bem constituídos, caminháveis através de pequenas distâncias, teriam maior chance de reunir pessoas.

Figura 03 – As quadras mais longas – esquerda e centro. Na direita as alternativas de trajeto aumentam com quadras mais curtas.

Fonte: JACOBS, 2011, p. 189-199.

Na mesma época, década de 60, outro autor envereda na busca por formular elementos que caracterizam a vida dos espaços urbanos. Kevin Lynch (LYNCH, 2006) elabora e propõeuma forma interessante e prazerosa de olhar a cidade. Esta apreciação ocorre através de uma leitura da vida urbana, ou seja, como pessoas e edifícios se relacionam. Através de entrevistas com as pessoas, Lynch formula uma dimensão estrutural, reconhecendo que a maneira como as pessoas vivem a cidade está ligada ao sentido visual que elas possuem, e que isto resulta em um sistema que articula as atividades diárias de cada indivíduo. Aguiar (2012) aponta um elemento central sobre o discurso de Lynch: a condição estrutural da cidade, como uma rede interconectada, uma trama de atividades. Lynch também utiliza a legibilidade como uns dos conceitos fundamentais para o seu método. A legibilidade indicaria a clareza dos espaços ou conjuntos que constituem a cidade, indicando uma continuidade espacial de elementos que, unificados de tal forma, podem ser percebidos de uma maneira contínua.

Porém Lynch não consegue um resultado expressivo destes conceitos, então sugere outro modo descritivo que nos parece

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elemento principal na condição de urbanidade e elemento fundamental para o desenvolvimento desta pesquisa. Sugerindo a “linha de movimento” como conceito, o autor propõe um modo descritivo relevando a malha urbana na sua totalidade:

Uma cidade é estruturada por um conjunto de vias organizadas. O ponto estratégico de tal conjunto é a intersecção, o ponto de ligação e decisão para a pessoa em movimento; se isso puder ser claramente visualizado (...) o observador poderá então criar uma estrutura satisfatória (Lynch, 2006, p. 109).

Figura 04 – Análise das vias, topografia e cortes transversais de ruas – Bacon Hill/ Boston

Fonte: LYNCH, 2006, p. 189.

Mesmo inicialmente se valendo de uma análise mais sensorial, com base no sentido visual das pessoas, Lynch capta uma condição importante para apropriação nos espaços públicos. Uma estrutura urbana com lugares melhor conectados e facilmente percebidos sugere uma linha de movimento para quem utiliza a cidade. Esta ideia reforça o conceito que Jacobs havia abordado quando recomendava as quadras curtas. Essencialmente Lynch trata da constituição de sistemas de movimento que morfologicamente resultam na espacialização do traçado urbano. O termo ‘urbanidade’ não era explorado nesta época,

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mas as características urbanas observadas por Jacobs e Lynch, auxiliaram no início da formulação do conceito como qualidade da cidade, qualidade que mais tarde seria aceita como inerente A forma espacial do urbano.

A compreensão do sistema urbano através do traçado proposta por Lynch, vai ao encontro da abordagem descritiva feita por Hillier e Hanson em 1984 na University College of London. Descrito no livro The social logic of space (HILLIER e HANSON, 1984), os autores elaboram uma teoria denominada como Sintaxe Espacial, um método que descreve de forma mais eficaz os elementos de urbanidade que buscamos para referenciar este trabalho. A teoria fundamenta-se na constatação de que há uma lógica social no espaço, e há na sociedade uma lógica espacial. Para os autores, a urbanidade está condicionada a três fatores. O primeiro trata da escala global da cidade considerando que as áreas urbanas são importantes elementos que geram, controlam e sustentam o padrão de movimento exercido pelas pessoas. Para Hillier e Hanson (1984) o modo como os edifícios estão distribuídos em torno de determinados lugares é importante, mas essa forma de arranjo espacial não pode produzir urbanidade. O modo como o espaço se posiciona com relação ao entorno é um determinante mais importante.

O segundo fator diz respeito à escala local dos lugares, o modo como são constituídos os espaços públicos e como se relacionam com os edifícios. Na cidade atual este fator se demonstra presente de forma pertinente. Os muros, paredes cegas e empreendimentos privados, outrora criticados por Jacobs, agora reaparecem como dimensão analítica para Hillier e Hanson. Isto reforça a importância da configuração espacial local tanto quanto a do todo e abriga um conceito elaborado pelo autor: espaços convexos - espaços com certa clausura delineados por uma morfologia, por exemplo uma rua definida pelas paredes das edificações.

O terceiro fator que é abordado pelo autor se volta para o campo de possibilidades de interação social que o espaço urbano pode propiciar através da sua configuração. Segundo Peponis (1992):

É claro, que as pessoas interagem, partilham ou trocam experiências entre si, ou mesmo que se notam mutuamente. A configuração determina apenas o notar potencial de outros, como o pano

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de fundo para uma sociedade ativa”. (Peponis,

1992,p.82)

Esse campo de encontros prováveis, efetivados ou não, sugerido pela configuração, é chamado de “comunidade virtual” (HILLIER e HANSON, 1989)

A comunidade virtual é produto da escala maior de organização do espaço, que é o desenho do todo. Hillier e Hanson (1984) sugerem que a escala do todo é determinante no modo como os espaços são apropriados. O conceito de comunidade virtual é inerente à presença de habitantes de uma comunidade e os transeuntes que apenas passam por ela, mas que empregam um determinado sentimento de apropriação.

Em meio a estres fatores há ainda algo importante a ser considerando. Como dito anteriormente, todas as atividades que ocorrem no espaço urbano, surgem através de uma sequência de movimentos empregado pelas pessoas nas suas atividades diárias. Na sintaxe espacial este movimento também se torna elemento chave para avaliar o espaço público.

Bill Hiller aponta um ciclo que estabelece o movimento exercido pelas pessoas ao se locomoverem no espaço urbano como efeito primário para o surgimento de atividades que garantam vida neste espaço. Daí a importância da estrutura configuracional, que seria responsável por conter um determinado movimento empregado pelas pessoas, chamado pelo autor de “movimento natural”. O espaço tem efeitos sobre os movimentos e sobre os atratores que se posicionam em áreas mais facilmente acessíveis aproveitando o fluxo estabelecido pelo movimento natural.

Figura 05 - Exemplo de como a configuração da malha sugere padrões diferenciados de movimento.

Fonte: Hillier et al, 1993

A configuração da malha viária, por sua forma de articulação, estabelece a hierarquia do movimento definindo áreas com maior e

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menor concentração de fluxo. Áreas com maior concentração de fluxo tendem a atrair certos usos que se beneficiam deste movimento, como o uso comercial e os usos de serviço. Estes atratores, por sua natureza, atraem novos fluxos e mais movimento, e também podem alterar a configuração do espaço construído. (MEDEIROS, 2006, p.103)

Figura 06 – Esquema do Movimento natural

Fonte: MEDEIROS (2006, p.103)

Todo o trabalho realizado por Hillier e sua equipe evidenciam os discursos defendidos pelos autores que os antecederam. A importância da configuração espacial – local e global – como componente que estrutura o movimento das pessoas retoma a abordagem feita por Kevin Lynch. As relações sociais que podem ser estabelecidas mediados por esta configuração, se serão efetivas ou não, tratadas por Hillier e Hanson (1984) como comunidade virtual, herdam características das condições de diversidade advogadas por Jane Jacobs. A urbanidade que buscamos reconhecer nesta pesquisa trata sumariamente destes conceitos. A vida na cidade, sua apropriação coletiva e sua capacidade de estabelecer interfaces sociais, se demonstram inerentes à forma do espaço urbano na medida que estabelecem meios para a civilidade entre indivíduos e suas práticas.

Castelo (2007), classifica a urbanidade como uma característica única do ambiente construído onde, através da capacidade comunicacional de cada lugar, denota ao espaço urbano público uma dinâmica de experiências existenciais. É novamente reconhecido aqui que o atributo principal para a urbanidade, é inerente à forma urbana e principalmente ao espaço público. Castelo assume um discurso onde vincula os aspectos culturais de cada usuário da cidade por ser um determinante da presença ou não das pessoas nos espaços.

Em 2010 Frederico de Holanda pontua importantes contribuições. O autor trata urbanidade como condição simultânea que

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se estabelece no espaço físico da cidade e nos comportamentos humanos nela inseridos. Espacialmente esta condição se traduz na densidade de edificações, na forma como os espaços são constituídos, e na posição que cada espaço se integra com o todo da cidade. Holanda claramente herda os traços da pesquisa feita por Hillier e Hanson na Sintaxe Espacial, entretanto incorpora outro elemento como importante constituinte do espaço urbano: a condição de formalidade. Segundo o autor, a urbanidade se manifesta de melhor forma em lugares que são configurados para a vida cotidiana, onde há interações entre diversas pessoas, principalmente no espaço público, possibilitando relações sociais com pouca hierarquia. A formalidade implicaria no oposto. Lugares configurados por grandes espaços, com usos determinados, contribuindo para uma pouca apropriação do espaço público e uma maior apartação das interações sociais.

Reunindo os conceitos já abordados por autores anteriormente mencionados, Aguiar (2012) propõe operacionalizar a urbanidade para utiliza-la como parâmetro de qualidade arquitetônica. O autor entende que o conceito de urbanidade está intimamente conectado à arquitetura do espaço público, de uma forma geral: “Refiro-me à urbanidade inerente às diferentes escalas do espaço público [...], passando pela largura da calçada até definições sobre o desenho de ruas, quarteirões e bairros inteiros” (AGUIAR, 2012, p.63). As diversas escalas contribuem à condição de vida urbana e se tornam por definição uma qualidade da cidade. Ainda que reflita no comportamento e bem-estar das pessoas no espaço público através de uma dimensão social, a urbanidade possui também uma dimensão essencialmente material.

A proposta de Aguiar (2012) em operacionalizar a urbanidade para criar um parâmetro de qualidade na arquitetura e no urbanismo vem ao encontro com os objetivos propostos nesta pesquisa, de busca por elementos que caracterizam a urbanidade.

Na literatura mais recente Netto (2014) diz que:

Espaços operam em duas direções. Temos aqueles que restringem o contato deliberadamente, via estruturas espaciais, com a segregação espacial, baixa acessibilidade, separações e barreiras, ainda associados a dispositivos de vigilância. E temos aqueles

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espaços que podem tornar rarefeito o contato como efetivo de sua própria estrutura – digamos, certas áreas podem ter o efeito de diluir as oportunidades do encontro em geral. NETTO

(2014, p.212)

Para o autor, a cidade resulta em práticas e ações de diversos indivíduos, grupos, instituições, entre outros, responsáveis pela modificação constante do ambiente natural e construído, compondo um sistema de barreiras, permeabilidades e distâncias que dão a característica formal do espaço urbano.

Neste sistema, segundo Figueiredo (2012):

As barreiras e distâncias separam pessoas e ideias. Espaços abertos criam possibilidades para encontros e interações. A frequência e a intensidade na qual as pessoas se encontram e participam das atividades da cidade depende da capacidade delas de vencer barreiras e distâncias. Também depende, então, da localização delas em relação a essas atividades e do uso de sistemas de comunicação e transporte. FIGUEIREDO (2012,

p.216).

A forma urbana, enquanto ambiente construído, participa da reprodução de certos modos de vida quando cria facilidades na sua estrutura para práticas de sociabilidade. O contrário disso dificulta, sobretudo, as relações humanas, criando restrições. Nesse contexto pode ser identificado aquilo que surge como conflitante nas relações sociais nos espaços urbanos de caráter público. A urbanidade e desurbanidade, temas apontados por Figueiredo (2012). Segundo o autor:

A urbanidade acontece quando o ambiente construído e suas estruturas auxiliares, isto é, sistemas de transporte entre outros, permitem ou mesmo potencializam encontros e a copresença entre pessoas de classes ou estilos de vida distintos em espaços legitimamente públicos, dentro de um sistema probabilístico no qual as pessoas, em suas rotinas, tendem a usar ou passar pelos mesmos lugares. Seu contrário, a desurbanidade, numa definição mais ampla,

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acontece quando o ambiente construído e suas estruturas auxiliares, isto é, sistemas de transporte entre outros, impedem ou pelo menos restringem encontros e a copresença entre pessoas de classes ou estilos de vida distintos, separando-as em espaços privados ou semipúblicos, dentro de um sistema probabilístico no qual as pessoas, em suas rotinas, tendem a não usar ou não passar pelos mesmos lugares. (FIGUEIREDO, 2012, p.216). Nesta pesquisa se adota o conceito de urbanidade outrora delineado por Gabriela Tenório em sua tese de doutorado “Ao desocupado em cima da ponte. Brasília, arquitetura e vida pública” defendida em 2012 na Universidade Federal de Brasília, que aponta o sucesso do espaço público através de três indicadores:

Gente: um atributo aparentemente óbvio, mas que nos faz

relembrar o quão importante é voltar o olhar para as pessoas. Um lugar pode ser considerado esteticamente interessante, mas se está vazio perde seu sentido de espaço público. Onde não há suporte à vida pública, o espaço público também não será bem-sucedido.

Gente Variada: O espaço público bem sucedido é aquele que

também propicia uma copresença entre semelhantes e diferentes, moradores e estranhos, de classes e culturas distintas. Entretanto, não deverá haver a predominância de determinado grupo, pois os demais poderão se sentir intimidados no uso do espaço público.

Gente, sempre: A garantia de pessoas passando por um lugar a

toda hora e em todos os dias da semana torna-o um espaço com vida urbana. A vitalidade da cidade que é apenas garantida por horários comerciais acaba por configurar espaços públicos com horas de validade, onde a presença de pessoas estaria inerente também à presença de atividades comerciais.

O espaço público, elo entre os diversos espaços privados, recebe manifestações diárias de apropriação e se torna por excelência um agente produtor de urbanidade. Os autores aqui referenciados estabeleceram uma correlação direta entre arquitetura, como ambiente construído, e a produção de interfaces socais. Reconhecem a urbanidade em diversas escalas, mas todas tratando do espaço público. A rua – na escala mais local do urbano – se torna um elemento de grande importância como um componente fundamental para

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urbanidade, mediando e estabelecendo relações diretas entre edifícios e pessoas. Em uma escala mais abrangente o conjunto de ruas compõem o traçado da cidade constituindo a estrutura de maior permanência do espaço urbano. Suficientemente claro e bem constituído espacialmente, o traçado se ocupa em estabelecer regras de urbanidade que são implícitas aos diversos lugares, inclusive os mais locais, como a rua. As diversas escalas da cidade, ainda que possuam dinâmicas diferentes, estão correlacionadas e são interdependentes. Urbanidade estaria inerente a esta relação.

2.2 A SINTAXE DO TRAÇADO E SUAS FORMAS DE CRESCIMENTO URBANO

Os autores aqui mencionados estudam a urbanidade como resultado da forma espacial dos lugares através de padrões de movimentos e apropriação constituídos por espaços públicos claramente configurados. Esta seria a abordagem que dá subsídios à dimensão sintática da cidade, se referindo à inter-relação dos espaços públicos. Através da revisão teórica podemos ver que o espaço é intrínseco às atividades humanas. Nele há uma lógica espacial definida por influências geométricas intervindo na forma como percebemos, utilizamos e sentimos a cidade. Nos movemos por espaços lineares, como ruas e corredores, estabelecemos relações sociais em lugares com uma certa convexidade, e modificamos nossa percepção visual no decorrer dos nossos percursos.

Neste contexto a Sintaxe Espacial se refere à dimensão que articula os espaços criados pelo homem, analisando os movimentos cotidianos realizados no espaço urbano. Considerando que toda a ação humana acontece no território através de articulações espaciais, esta teoria trata basicamente de descrever o potencial de conectividade que cada articulação possui na cidade.

Os deslocamentos que caracterizam a articulação espacial são um estado sequencial de eixos, um arranjo constituído por linhas que conduzem os movimentos. São as linhas pelas quais nos movemos que também definem a espacialidade da cidade, dos seus edifícios e lugares públicos e privados.

As distâncias dos espaços nos remetem a diferentes escalas, as mesmas encontradas por Hillier e Hanson (1984) (global e local), que se

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sobrepõem ao arranjo de movimentos. A nível local, a urbanidade pode se traduzir a partir da relação direta entre interiores privados e espaços abertos públicos juntamente com a forma geométrica que dá convexidade a eles, podendo também se mesclar com condições de vitalidade na medida em que estes lugares denotem muita apropriação.

Quando alguém experiencia a escala local, automaticamente estará inserida na escala global mesmo que seja uma prática inconsciente. Hillier e Hanson (1984) consideram que a escala global é predominante à escala local. Um espaço com características locais, uma vez inserido em um contexto maior, assume uma condição diferente de urbanidade. “É exatamente a importância que é dada à estruturação global do tecido urbano que a diferencia da maioria das teorias descritivas que relacionam forma urbana e sua efetiva apropriação”

(REIS, 1993. p31). Daí compreendemos que a urbanidade está

relacionada, em primeira instancia, com o todo da cidade e inerente aos seus padrões de movimento, ditando condições para que a urbanidade crie, ou não, condições de emergir também na escala local.

Na teoria da Sintaxe Espacial, Hillier e Hanson (1984) identificam medidas que podem ser mensuradas e que tratam da relação entre os espaços urbanos públicos. Neste trabalho será utilizada a principal medida que, a nosso ver, relaciona muito bem os aspectos configuracionais com a busca por aferir graus de urbanidade: a medida de integração. Esta medida reduz a cidade a um sistema, analisando relações entre cada elemento que a compõe. Resumidamente, todo o espaço público, neste caso voltado ao pedestre, é representado por uma sequência de linhas que se conectam. Desta forma, ruas, praças, parques e espaços abertos públicos são tomados como componentes que integram o sistema, analisando o quão próximos ou distante cada um destes elementos está em relação a outro e a outros. Uma linha mais próxima em relação a todas as outras, será considerada integrada pois, espacialmente se torna mais facilmente acessível. O contrário disso indicaria uma linha com grau de segregação, ou seja, uma linha pouco acessível. A integração espacial estaria então inerente à posição de cada espaço em relação ao todo.

Entre os diversos espaços abertos que compõem o sistema urbano, existem aqueles que são mais frequentados. Esta assiduidade do espaço urbano também pode ser analisada através da sintaxe

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espacial, utilizando a medida de escolha. Com base na configuração espacial da cidade, a escolha mede o quão frequentemente um espaço é utilizado como parte dos caminhos mínimos entre outros pares de espaços.

Tanto a medida de integração quanto a medida de escolha se tornam eficazes para o entendimento da urbanidade no todo da cidade. Ambas analisam a articulação e o posicionamento dos lugares entre si denotando porções urbanas com maior ou menor apropriação.

Para analisar configurações mais locais, Hillier e Hanson (1984) sugerem o uso dos mapas de convexidade. Estes mapas conseguem captar atributos relacionados à constituição formal dos espaços de uso coletivo através da delimitação de áreas onde todos as pessoas presentes ali possam se enxergar e se aproximar ao percorrer uma linha reta.

Outro conceito que emerge da Sintaxe Espacial diz respeito a composição de centralidades. Os autores da teoria apontam que uma centralidade é definida por características globais e locais que, espacialmente, denotam um traçado urbano bastante conectado. Um lugar com centralidades é presumido como o lugar que possui mais apropriação, mais vida e maior interface social, a situação ideal para criar condições favoráveis de urbanidade.

Propomos o estudo e aplicação destes conceitos em uma das principais cidades do Estado de Santa Catarina, Blumenau. Com o crescimento urbano em 165 anos de história, a cidade parece estar em um processo de redefinição dos seus espaços públicos e da sua vida no espaço urbano. Em meio à paisagem do vale, duas situações são visivelmente distintas. A primeira observada na região central da cidade que se caracteriza como núcleo comercial da cidade, onde a vitalidade dos espaços públicos se resume aos horários comerciais. A segunda, que se constitui como um lugar diversificado, ainda que não tenha a mesma vida como o centro histórico, mas que está adquirindo condições de vitalidade para além dos horários comerciais.

Propomos discutir aqui o processo de mudança nos padrões de urbanidade que estão caracterizando a cidade, modificando a dinâmica urbana da área central e fazendo surgir uma nova área que se configura como o centro sintático.

O estudo de Blumenau busca captar também o processo de crescimento da cidade fazendo leituras sintáticas não somente do

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presente, mas em suas diferentes etapas evolutivas. Quanto a dinâmica urbana, o processo de crescimento é importante para entender os padrões estabelecidos no presente. Para compreender este processo o trabalho adquire referências de Solá-Morales (1997). Para o autor, a forma urbana é algo em permanente movimento onde é possível verificar como ações de parcelamento da terra, construção de infraestruturas e de edificações explicam a forma urbana no presente.

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Desdobramos a pesquisa em três etapas metodológicas. São elas:

Análise histórica da cidade, dos seus espaços públicos e do seu traçado urbano:

A primeira fase da pesquisa se preocupou em caracterizar o sítio físico natural e as transformações ocorridas no território ao longo do tempo. Utilizando recortes temporais de fotos, livros, mapas, etc. conseguidos no Arquivo Histórico Professor José Ferreira da Silva, remontamos em uma linha temporal o processo de crescimento urbano de Blumenau com foco no reconhecimento da criação dos espaços públicos da cidade. Foram analisados os elementos que contribuíram para o processo de urbanização, observando inicialmente a estrutura fundiária e o traçado colonial passando por diversas transformações até a configuração atual do tecido urbano.

A partir de um mapeamento sequencial utilizando, bases cartográficas dos anos de 1864, 1900, 1955, 1974 e 2010, foram analisados os processos de crescimento urbano elucidando a construção da forma urbana, seu traçado e, portanto, o surgimento e a modificação dos seus espaços públicos. Para esta análise nos concentramos em fazer uma leitura da estrutura geral da cidade afim de reconhecer momentos, aspectos e transformações que nos auxiliassem no reconhecimento da urbanidade nos diversos períodos históricos.

Nesta fase também foi abordado o processo de crescimento urbano relacionado com os aspectos da industrialização da cidade. Com uma revisão de trabalhos que já estudaram este processo, foram elaborados correlações com o desenvolvimento da estrutura urbana, todos tendo como base os mapas cartográficos históricos utilizados na pesquisa.

A busca por elementos de urbanidade espacializados no traçado urbano, como agente estruturador dos espaços públicos:

Buscando entender a forma urbana da cidade como um campo de possibilidades para interfaces sociais, nos valemos da sintaxe espacial e elaboramos diversas análises. Partindo dos mapas cadastrais da cidade analisados na etapa anterior, observamos a forma urbana

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como sistema de barreiras e permeabilidades. Duas escalas foram trabalhadas: uma diz respeito a escala do todo do espaço urbano e outra trata da configuração local de seus diferentes lugares. Estas escalas são observadas com especificidades distintas por meio da técnica de axialidade, já referenciada neste trabalho, aplicada sobre os diversos mapas históricos cadastrais de Blumenau.

Para a análise de atributos de ordem total e local dos espaços públicos foram utilizadas as categorias de integração e escolha das linhas axiais, observando o número de linhas e de mudanças de direção necessárias para, de um determinado espaço, alcançar os demais espaços e linhas dentro do sistema urbano.

Com os resultados que obtivemos, houve a necessidade de estabelecer recortes específicos em duas áreas da cidade. A primeira, centro histórico, a região que atualmente compreende maior vitalidade e apropriação, o segundo recorte compreendendo a região que se demonstrou como o núcleo sintático da cidade. Afim de compará-las, os recortes tiverem que ser elaborados com os mesmos critérios, no caso uma fração urbana com mesma área de abrangência para ambos, compreendendo uma área de 2.000.000,00m² em cada recorte.

Aferição da copresença e da urbanidade como atributo local:

Esta fase abordou aspectos locais dos recortes analisados. Nele estão incorporados estudos mais detalhados da configuração dos espaços públicos e seu entorno. Foram analisados os deslocamentos possíveis das pessoas nos espaços da cidade através de mapas de ilhas espaciais, descritos no capítulo das análises, tentando evidenciar atributos que correlacionem a densidade de movimento com as configurações locais.

Foram realizadas uma sequência de análises urbanas descritivas e gráficas. Primeiramente analisamos a relação entre espaços públicos e privados, através do mapeamento da morfologia urbana buscando compreender a legibilidade dos lugares estudados. Outra análise se preocupou com número de aberturas (portas) que se abrem para a rua buscando identificar lugares que criam uma interface ativa e uma relação direta entre público x privado, para tanto utilizamos o mapa de constituições. Em outro momento mapeamos o uso do solo de cada área estudada, identificando atividades residenciais, de comércios e

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serviços, institucionais ou mistos buscando compreender atividades que contribuem para a efetivação da urbanidade.

Por fim foi possível realizar uma análise dos recortes frente a uma aferição IN LOCO, em diferentes dias e diferentes horários, das atividades de cada lugar, apontando espacialidades que criem condições para a apropriação dos espaços públicos. Foram escolhidos os dias 11/06/2017 (final de semana) e 21/06/2017 (durante a semana) onde realizamos contagens no período vespertino, entre 15:00h e 16:00h, e noturno, entre 19:30h e 20:30h. As contagens levaram em consideração o número de pedestres, ciclistas e veículos passando por cada ponto escolhido por um período de 10 minutos. Como resultado, elaboramos um mapa de copresença para demostrar a apropriação cotidiana média considerando os dois dias estudados.

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4. TERRITÓRIO, SÍTIO FÍSICO E OCUPAÇÃO HISTÓRICA: CONTEXTUALIZANDO BLUMENAU

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O contexto histórico aqui retratado faz uso de diversas fontes bibliográficas que remontam o cenário da ocupação colonial de Santa Catarina, do Vale do Itajaí e de Blumenau dando ao trabalho informações descritivas históricas, geográficas e de preexistências naturais. Sendo de grande importância para compreender a construção do traçado urbano da cidade, a atividade industrial é abordada por Mamigonian (1965) e Moreti (2006) que reconhecem momentos distintos do período colonial. Outros autores como Tomio (2000), Siebert (1999), Singer (1968) e Budag (2004) também se tornam um referencial importante dando interpretações locais quanto ao processo de crescimento urbano de Blumenau.

Santa Catarina possui características interessantes no que diz respeito a sua colonização. O estado foi inicialmente colonizado por portugueses que, por muito tempo, mantiveram interesse apenas no litoral. Ao longo dos anos, novos imigrantes vindos de outros países se interessaram pelas demais regiões do estado e por lá se estabeleceram, fundando colônias que posteriormente se tornariam as cidades que conhecemos hoje. Com uma diversidade cultural portuguesa, alemã, italiana e outras mais, o território catarinense se desenvolveu sobre dinâmicas distintas de ocupação e consequentemente de espacialização e de desenvolvimento da sociedade urbana.

Dentre as várias regiões do estado, o Vale do Itajaí sedia municípios que ainda hoje evidenciam aspectos da colonização italiana e alemã. Neste cenário, Blumenau se destaca por ser uma cidade com grande atratividade turística e uma forte economia que a anos vem sendo pautada no setor têxtil. Distante a 140km de Florianópolis, com uma área de 509,38km² e constituindo um marco regional importante, Blumenau também é sede da Região Metropolitana do Vale do Itajaí possuindo a terceira maior população do estado de Santa Catarina, 338.876,00 habitantes segundo o CENSO IBGE de 2013.

O primeiro sinal de ocupação da atual cidade de Blumenau, surgiu com a chegada de imigrantes alemães em 1850 sob o comando de Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, através do Rio Itajaí-açú se estabelecendo na foz do ribeirão Garcia. Sendo implantada sobre as terras de um vale, a colônia sofreu grandes influências da conformação física do território no seu processo de ocupação. A água foi um fator determinante para situar o povoamento que se alastrou pelas bordas dos ribeirões. O rio se tornou a referência principal sendo o guia para a

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abertura de estradas e guia para o parcelamento das terras. Também através dele aconteciam importantes deslocamentos de pessoas e de mercadorias mediados pelo porto fluvial.

Os lotes foram demarcados perpendiculares aos cursos d`águas, estreitos e compridos, garantindo que além do acesso a água, todos os colonos pudessem se encontrar em uma pequena distância entre si. Tal demarcação contribuiu para o desenvolvimento de atividades agrícolas e posteriormente manufatureiras. Mantendo contato direto com o rio, a água primeiramente foi utilizada para a agricultura e mais tarde se tornou força motriz para os engenhos e fábricas.

Mamigonian (1965) aponta as dificuldades que imigrantes vindos da Alemanha enfrentavam visto que as condições do território em que chegavam não condiziam com o lugar que haviam deixado. Saindo do país de origem em meio ao século XIX, em um período semi-industrial, se deparavam com terras ainda intocadas criando dificuldades para o estabelecimento da nova colônia.

A primeira economia de Blumenau teve como característica a atividade agrícola como meio de subsistência. Esta fase abrangeu um período entre 1850 e 1880. Com o passar dos anos o crescimento populacional, pela imigração, e o incremento da produção agrícola, permitiram a ampliação da divisão do trabalho desenvolvendo atividades comerciais de manufatura artesanal de produtos primários (TOMIO, 2000).

Houve uma grande influência da colonização estrangeira no desenvolvimento urbano de Blumenau. Mediante características culturais e étnicas, juntamente com o processo de colonização através da iniciativa privada, a organização e estruturação do espaço foi constituído de uma forma própria. Através da organização de atividades baseadas na ajuda mútua em escolas, sociedades culturais e recreativas, a vida cotidiana ocorria de forma a permitir diferentes meios de expressão artística e cultural.

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Figura 07 – Contextualização de Blumenau

Fonte: montagem do autor a partir de dados e mapas da Prefeitura Municipal de Blumenau

As relações econômicas combinadas às relações sociais desenvolveram processos que permitiram construir uma sociedade

Referências

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