• Nenhum resultado encontrado

Download/Open

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Download/Open"

Copied!
134
0
0

Texto

(1)

NIDAL AFIF OBEID FREITAS

A DEMOCRACIA E O PROGEST­O: formaomo continuada em servioo

GOIÆNIA-GO 2012

(2)

PROGRAMA DE PÏS-GRADUAd­O STRICTO SENSU EM EDUCAd­O

NIDAL AFIF OBEID FREITAS

A DEMOCRACIA E O PROGEST

­O: formaomo continuada em servioo

Dissertaomo apresentada ao Programa de Pys-Graduaomo Stricto Sensu em Educaomo da Pontiftcia Universidade Catylica de Goiis como requisito parcial para a obtenomo do tttulo de Mestre em Educaomo, sob a orientaomo da Professora Dra. Iria Brzezinski.

GOIÆNIA-GO 2012

(3)

O12d Obeid, Nidal Afif Freitas.

A dem ocracia e o PROGESTO : formaĕĆo continuada em serviĕo [m anuscrito] / Nidal Afif Freitas Obeid. - 2012.

141 f. : il. Bibliografia

DissertaĕĆo (mestrado) - Pontifşcia Universidade Catſlica de GoiĄs, Departam ento de EducaĕĆo, Prſ-Reitoria de Pſs-GraduaĕĆo, 2012. Orientadora: Profa. Dra. Iria Brzezinski.

Inclui lista de abreviaturas, siglas, figuras, tabelas Inclui Anexo

1. Dem ocracia. 2. GestĆo DemocrĄtica. 3. ProgestĆo. 4. Modelo gerencial. I. Tştulo.

CDU: 37.014.53(043.3) 37.057

(4)

A DEMOCRACIA E O PROGEST­O: formaomo continuada em servioo

Dissertaomo apresentada ao Programa de Pys-Graduaomo Stricto Sensu em Educaomo da Pontiftcia Universidade Catylica de Goiis como requisito parcial para a obtenomo do tttulo de Mestre em Educaomo, sob a orientaomo da Professora Dra.Iria Brzezinski.

Aprovada em 13 de agosto de 2012.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________________ Profa. Dra. Iria Brzezinski (Orientadora PUC Goiis)

________________________________________________ Profa. Dra.L~cia Maria de Assis(UFG)

________________________________________________ Prof. Dr. Marcos Antonio da Silva (PUC Goiis)

(5)

DEDICATÏRIA

Aos Veneriveis Hplio, Selene e Jefferson cujas presenoas humanizam e divinizam um pouco mais nosso planeta Terra.

O resultado de intensas imers}es nos estudos aos meus pais Afif Hanna MoussaObeid (in memoriam) e Mariam Brahim Obeid (in memoriam), que vieram da Stria em 1952, se conheceram e se casaram no Brasil em 1956, sempre ensinando aos seus quatro filhos firmeza de cariter, determinaomo, disciplina, amor j famtlia, ao trabalho e a cultura brasileira. Muito devo a Eles, meu reconhecimento.

Ao marido Salommo Junior e filho Edinam Rafael por terem aceitado meu distanciamento ftsico de 1.100 km, meu amor e gratidmo.

Aos meus filhos Gabriel e Izabel que possibilitaram minha vinda para Goiknia, pela tranquilidade de seu lar que me permitiu escrever este trabalho meu sempre amor e gratidmo.

(6)

A professora Dra. Maria Francisca Bittes, minha primeira orientadora, pelas contribuio}es constantes, intensos diilogos e encorajamento.

¬ professora Dra. Iria Brzezinski, minha segunda orientadora, por ter acreditado em meu projeto, pelos densos e crtticos ensinamentos nas disciplinas de Polttica e Gestmo Educacional. Pela acurada verificaomo dos conceitos adotados ao longo da dissertaomo, pela profundidade dada as palavras dotando-as de vida, o que permitiu compreendr-las como criatura com movimento e forma.

Aos professores do Mestrado em Educaomo da Pontiftcia Universidade Catylica de Goiis - PUC GO, pelos momentos de reflexmo e crescimento, vivenciados nas disciplinas cursadas e relacionamentos.

A Maria das Graoas Ferreira (Gazinha), pela admirivel competrncia, dedicaomo e pacirncia, por cada olhar cuidadoso na revismo deste trabalho.

Aos professores, coordenadoras pedagygicas e direomo da escola pesquisada, pela cordialidade com que acolheram a pesquisadora e pela boa vontade com que facilitaram o trabalho emptrico.

¬ Universidade do Estado do Pari por terem proporcionado condio}es para a conclusmo deste curso.

Aos colegas de turma pelos calorosos debates ocorridos durante as disciplinas.

(7)

RESUMO

O objeto desta pesquisa smo os reflexos do programa de formaomo continuada de gestores escolares, ministrado na modalidade a distkncia, Progestmo, em uma escola estadual do Pari-Escola Estadual Carajis. O objetivo geral p analisar em que medida esse programa implicou mudanoas na concretizaomo da democracia na gestmo desta o objetivo geral. A investigaomo p qualitativa, com anilise documental e questionirios que seguiu um roteiro semiestruturado. No referencial teyrico parte-se do pressuposto de que a gestmo democritica na escola reflete o processo democritico da sociedade em que esti inserida. As categorias primordiais analisadas smo democracia, gestmo democritica e participaomo. Estudos acerca das concepo}es de gestmo democritica e participaomo consistem os eixos do referencial teyrico. O modelo de gestmo revelado pela anilise do Progestmo veicula a concepomo de gestmo sob uma perspectiva formal, decorrente da administraomo p~blica gerencial que adota ao}es flextveis, participativas e descentralizadas traduzidas em gestmo gerencial, como fator de melhoria da qualidade da educaomo. Nos cadernos de estudos do Progestmo ņ Mydulos, foi posstvel reconhecer uma concepomo formal de democracia, servindo de sustentaomo para as priticas de gestmo convencional que aparentemente assume o discurso democritico, mas que nmo p exercitado na escola observada ņ Escola Estadual Carajis. No plano de gestmo da Escola Estadual Carajis p comprovada a reproduomo de ideias de democracia, gestmo democritica, participaomo disseminadas pelo Progestmo. Verificou-se que a comunidade escolar percebe a democracia, a gestmo democritica e a participaomo voltados para resultados. Concluiu-se que o Progestmo introduz um modelo de gestmo gerencial para a escola p~blica.

Palavras-chave: democracia, gestmo democritica, Progestmo, modelo gerencial.

(8)

Theresearch isqualitative, with documentary analysis and questionnaires followed asemistructured script.In thetheoreticalpartis theassumption that thedemocratic management of theschoolreflectsthe democratic processof societyin which it operates. Theprimarycategoriesanalyzedare democracy, democratic managementand participation.Studies onthe concepts ofdemocratic managementand participationaxesconsistof the theoretical. The management modelrevealed byanalysis ofProgestmoconveys theconcept ofmanagement fromaformal perspective, due topublic managementactionsthat adoptsflexible, participatory and decentralizedmanagementtranslated intomanagementas a factor inimproving the quality ofeducation.Instudiesof thebooksProgestmoņmoduleswaspossible to recognizeaformal conceptionof democracy, serving as a support forconventionalmanagement practicesthat apparentlytakes thedemocratic discourse, but thatis notexercisedat the schoolobservedņState SchoolCarajis. In themanagement planState SchoolCarajisisprovenreproductionof ideasof democracy, democratic management, participation by Progestmodisseminated. It was found thatthe school communityperceives thedemocracy, democratic management, participation andresults-oriented. It is concludedthat theProgestmointroducesamanagement modelforpublic schoolmanagement.

Keywords: democracy, democratic management, Progestmo, managerial model.

SUMÈRIO

(9)

ABSTRACT 06

INTRODUd­O 12

CAPËTULO I - DEMOCRACIA E GEST­O DEMOCRATICA 22

1.1Breve histyrico da democracia 22

1.2 A gestmo democritica da educaomo na lygica da reforma do Estado 36

CAPËTULO II - A POLËTICA EDUCACIONAL BRASILEIRA PARA A GEST­O

DEMOCRÈTICA 48

2.1 Programas e projetos de capacitaomo de gestores escolares brasileiros: apoio

financeiro e determinao}es da UNESCO 49

2.2A educaomo e a polttica para gestmo democritica no Estado do Pari 56 2.3Tempo de democracia na escola por intermpdio da gestmo 72

CAPËTULO III -A DEMOCRACIA DO PROGEST­O 80

3.1 Histyrico do Progestmo 80

3.2 O Progestmo no Estado do Pari 85

3.3A democracia, a gestmo democritica e a participaomo do Progestmo 88

CAPËTULO IV - PROGEST­O NA ESCOLA: INTERMeDIO DE UM MODELO

DE DEMOCRACIA 96

4.1 Breve histyrico da escolha dos diretores da EEC 96

4.2 O Progestmo no plano de gestmo da EEC 97

4.3 A democracia, a gestmo democritica e a participaomo no plano da gestmo da EEC 100

4.4 O Progestmo na percepomo dos sujeitos da EEC 103

4.5 A democracia , a gestmo democritica e a participaomo na percepomo dos

sujeitos da EEC apys o Progestmo 104

CONSIDERAd®ES FINAIS 121

REFERÇNCIAS 126

ANEXO I - PORTARIA Nž 393/2001 - GS/SEDUC 134

ANEXO II - FOLHETO SINTEPP 135

ANEXO III - INSTRUd­O NORMATIVA Nž. 03/2009 - GS 136

ANEXO IV - PORTARIA Nž. 04/2009 - GS 137

(10)

LISTA DE SIGLAS

ANPAE - Associaomo Nacional de Polttica e Administraomo da Educaomo BIRD - Banco Internacional para Reconstruomo e Desenvolvimento

(11)

CAGE - Central de Atendimento ao Gestor

CEPAL - Comissmo Econ{mica para Amprica Latina CESUPA - Centro de Ensino Universitirio do Pari CF - Constituiomo Federal

CONAE - Conferrncia Nacional de Educaomo

CONSEB - Conselho de Secretirios de Educaomo do Brasil CONSED - Conselho Nacional de Secretirios de Educaomo EaD - Educaomo a Distkncia

EEEFC - Escola Estadual de Ensino Fundamental Carajis EPT - Educaomo para Todos

FNDE - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educaomo

FUNDEF - Fundo de Manutenomo e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorizaomo do Magistprio

GS - Gabinete da Secretiria

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estattstica IDEB -Ëndice de Desenvolvimento da Educaomo Bisica IES - Instituiomo de Ensino Superior

INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educaomo

MARE - Ministprio da Administraomo Federal e da Reforma do Estado Brasileiro MEC - Ministprio da Educaomo

OEA - Organizaomo dos Estados Americanos ONU - Organizaomo das Nao}es Unidas

PCCR - Plano de Cargos, Carreiras e Remuneraomo PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domictlios PDDE - Programa Dinheiro Direto na Escola

PDE - Plano de Desenvolvimento da Educaomo PEE - Plano Estadual de Educaomo

PNDNR - Plano Nacional de Desenvolvimento da Nova Rep~blica PNE - Plano Nacional de Educaomo

PNUD - Programa das Nao}es Unidas para o Desenvolvimento PP - Projeto Pedagygico

PPE - Projeto Principal para a Educaomo PPP - Projeto Polttico Pedagygico

(12)

PROMEDLAC - Projeto Principal de Educaomo para a Amprica Latina e Caribe PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira

PSECD - Plano Setorial de Educaomo, Cultura e Desporto PT - Partido dos Trabalhadores

RENAGESTE - Rede Nacional de Referrncia em Gestmo Educacional SAEB - Sistema de Avaliaomo da Educaomo Bisica

SEDUC - Secretaria de Estado de Educaomo

SINTEPP - Sindicato dos Trabalhadores em Educaomo P~blica do Pari SOME - Ensino Mpdio Modular denominado

STF - Supremo Tribunal Federal

UE - Unimo Europpia

UEPA - Universidade do Estado do Pari UNAMA - Universidade da Amaz{nia

UNDIME - Unimo Nacional dos Dirigentes Municipais UNED - Universidad Nacional de Educaciyn a Distancia UNESCO - Organizaomo das Nao}es Unidas para a Educaomo UNICEF - Fundo das Nao}es Unidas para a Infkncia

URE - Unidade Regional de Educaomo

(13)

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Demonstrativo do IDEB no Estado do Pari - IDEBs observados em 2005, 2007 e

etas para rede estadual 62

Quadro 2 - IDEB - Resultados e Metas - IDEB 2005, 2007, 2009 e projeo}es para o Brasil 3

Quadro 3 - Mpdia de Proficirncia em Ltngua Portuguesa Brasil, Pari 1995-2005 65 Quadro 4 - Media de Proficirncia em Matemitica Brasil, Pari 1995-2005 65 Quadro 5 - Cadernos de Estudos - Tttulos dos Mydulos do PROGEST­O 84 Quadro 6 - Gestores Atendidos por Unidade Federada - PROGEST­O

(2001-2006) 85

Quadro 7 - Munictpios, Polos e N~mero de Vagas para Cursistas na 1 Ediomo do

PROGEST­O no Pari - Rede Estadual 86

Quadro 8 - Matrtcula Inicial, N~mero de Turmas, Alunos Matriculados e Concluintes da 1

ediomo do PROGEST­O Estado do Pari- 2001 86

Quadro 9 - Gestores Capacitados por Ediomo - Pari por Rede e por Munictpio 87

LISTA DE GRÈFICOS

Grifico 1 - Dados sobre aprovaomo, reprovaomo, abandono no Pari 63

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - N~mero de Matrtculas do Ensino Fundamental na Rede Estadual por Modalidade

de Ensino 68

(14)

INTRODUd­O

Antes de o leitor conhecer esta dissertaomo gostartamos de contar um pouco da trajetyria deste trabalho e as raz}es que nos levaram j escolha do tema. Para isso precisamos retroceder um pouco no tempo, voltando a 1996 quando ocupivamos a funomo de coordenadora pedagygica em uma escola p~blica paraense. Naquele pertodo, o governo do Estado por meio da Secretaria de Estado de Educaomo/PA (Seduc) implementava a polttica educacional, visando j descentralizaomo das ao}es governamentais. Entre as estratpgias adotadas destacavam-se a formaomo de conselhos escolares e elaboraomo do projeto pedagygico (PP). Vale destacar que a Seduc intitula Projeto Pedagygico (PP), em vez de Projeto Polttico Pedagygico (PPP), descaracterizando o aspecto polttico do documento.

O desafio para as escolas estaduais, naquele momento, era elaborar o seu projeto pedagygico, que fazia emergir, no cenirio escolar, a gestmo democritica da escola. Assim, juntamente com um grupo de professores, ltamos textos recentes sobre projeto polttico pedagygico (PPP) e assim ficamos conhecendo diversos referenciais dentre os quais os que davam rnfase j dimensmo polttica, alpm do disponibilizado pela Seduc. Ainda que tenha sido incipiente, esta primeira experirncia democritica na gestmo da escola permitiu-nos alimentar a crenoa de ser posstvel uma pritica democritica nessa instituiomo.

Essas experirncias nos levaram a aprofundar conhecimentos teyricos acerca da democracia na escola e decidimos fazer um Mestrado em uma instituiomo no interior de Smo Paulo que ofertava o curso na modalidade semi-presencial no pertodo de julho e janeiro. Em nossos estudos escolhemos como tema ³O Processo de implantaomo do Projeto Polttico Pedagygico na Escola´. Naquela ppoca, concomitante j funomo de tpcnica, exerctamos a docrncia como professora da Universidade do Estado do Pari (UEPA) e, dadas as condio}es de trabalho, sy podtamos realizar uma formaomo nas fprias.

A trajetyria percorrida desde entmo, seja a profissional, seja a de cariter formativo,relacionava-se aos estudos, conhecimentos e assunomo da democracia com rnfase na participaomo. Neste pertodo conhecemos o Programa de Capacitaomo a Distkncia para Gestores Escolares (Progestmo), quando, em 2001, o Pari fez adesmo ao programa.

Essas duas experirncias, profissional e de formaomo com a democracia na escola, repercutiram profundamente em nosso referencial de mundo e consequentemente nas relao}es de trabalho, nas quest}es educacionais, na famtlia e na sociedade.

Ainda que o conceito democracia tivesse nos provocado intensamente naquela ppoca, senttamos necessidade de maior aprofundamento teyrico e pritico.

(15)

(PUC-GO), pois, na realidade, estivamos interessadas em colaborar para uma efetiva democracia na gestmo da escola e nmo apenas em uma democracia como cumprimento de normatizao}es.

Aliadojs experirncias mencionadas, o tema deste trabalho foi se definindo e tornando-se mais claro a partir de aproximao}es que se deram por meio da disciplina Gestmo Educacional, especificamente as reflex}es e discuss}es sobre aspectos referentes j gestmo democritica, quando comeoamos a entrar em contato com o trabalho dos crtticos brasileiros da gestmo democritica, como Paro (2007, 2008), Cabral Neto(1999), Oliveira(1997). As gradativas aproximao}es cienttficas com o conceito de democracia ocorreram tambpm na disciplina Poltticas Educacionais ao tratar essas poltticas no contexto da reestruturaomo do capitalismo, ji que a polttica de gestmo democritica na escola colabora para legitimar o rearranjo capitalista.

Intrigava-nos a maneira mecknica e a-histyria pela qual a democracia por meio da gestmo estava sendo apresentadaj comunidade escolar. Interessava-nos nmo somente as novidades que a teoria organizacional trazia para a instituiomo educativa, a gestmo democritica, mas tambpm e sobretudo, as consequrncias deste modelo para o cotidiano das escolas p~blicas.

Notivamos que as soluo}es administrativas e as poltticas educacionais, entre elas a da gestmo democritica, historicamente, enfatizavam mais os aspetos instrumentais da gestmo, focalizando a eficirncia dos processos gerenciais em detrimento do aspecto polttico formativo da cidadania. O entendimento de democracia como funomo educativa pessoal e social reforoou nosso interesse em investigar o processo democritico na gestmo como mediador de uma condiomo necessiria a efetiva pritica democritica na escola como exerctcio para uma liberdade social.

Com essa compreensmo de democracia, o que inicialmente era incerteza, foi gradativamente mudando para a convicomo acerca da importkncia de desenvolver pesquisa com sustentaomo teyrica no conceito de democracia. A decismo foi reforoada perante a definiomo de gestmo democritica formulada por representantes do governo e da sociedade civil durante a Conferrncia Nacional de Educaomo (Conae), ocorrida em 2010.

A possibilidade de uma gestmo democritica na escola gerou em nys algumas inquietao}es no sentido de conjeturar sobre posstveis alterao}es nas formas de gestmo no espaoo escolar. Decidimos, entmo, caminhar pela anilise do conceito democracia em uma perspectiva polttica, a fim de avaliarmos a democracia na gestmo da escola.

Assim sendo, refletir sobre a polttica educacional, ainda que represente um desafio herc~leo, vale a pena tentar. A busca de elementos necessirios para revelar que democracia esti contida nas poltticas educacionais para uma gestmo democritica na escola p o trabalho que nos propomos realizar.

Para alcanoar tal intento, inicialmente identificamos, entre diferentes tipologias de democracia a que tomartamos por referrncia neste trabalho. Diante das diversas acepo}es 15144

(16)

atributdas j democracia, recorremos j tipologia de Bobbio (2010), que toma por base a profundidade do ntvel de estrutura social global em que a(s) democracia(s) por ele classificadas se integram. Bobbio tipifica a democracia formal, substancial, representativa e direta com base na existrncia de regras que distinguem virias esppcies de regimes democriticos.

Buscamos com a ampliaomo dos estudos sobre esse conceito, aprofundar a revismo de literatura em outros referenciais teyricos, que consideram a democracia na escola como funomo educativa. Isso nos levou a uma compreensmo da democracia, como possibilidade real de melhoria na gestmo da escola p~blica.

Para examinarmos a perspectiva de democracia esbooada no Progestmo, abordamos trrs aspectos fundamentais:

x o cenirio polttico da dpcada 1990, em que se inscreve o referido programa, especialmente a reforma do Estado, adotada no Brasil pelo entmo ministro da Administraomo e Reforma do Estado (Mare), Luiz Carlos Bresser-Pereira, chamada nova administraomo p~blica; x as recomendao}es das agrncias internacionais, presentes no programa, de kmbito mundial,

denominada Educaomo para Todos (EPT), resultante da Conferrncia Mundial sobre Educaomo para Todos e o Projeto Principal para a Educaomo (PPE), assim como o resultado dos trabalhos

desenvolvidos, no pertodo de 1993 a 1996, pela Comissmo Internacional sobre a Educaomo para o spculo XXI, consubstanciado no ³Relatyrio Jacques Delors´;

x os condicionantes materiais, institucionais e ideolygicos do autoritarismo na pritica escolar, que smo manifestaomo dos determinantes estruturais mais amplos.

Os dois primeiros aspectos referem-se ao contexto em que o Progestmo se originou e o terceiro aspecto diz respeito js condio}es materiais de trabalho onde smo enfrentados os determinantes mais imediatos do autoritarismo. Desvelar esses trrs aspectos p imprescindtvel para a consolidaomo de uma gestmo democritica efetiva na escola p~blica.

Com o conhecimento desses componentes conceituais e do cenirio polttico de onde procedeu o modelo de gestmo democritica, buscamos os substdios legais das poltticas para a educaomo elaboradas nas dpcadas de 1980 e 1990 no Brasil.

Reunidas essas informao}es, nossos esforoos direcionaram-se para a compreensmo da democracia como funomo educativa escolar na promoomo de poltticas p~blicas e programas educacionais. Entre eles, o curso de capacitaomo a distkncia dirigido a gestores escolares que atuam em instituio}es p~blicas de ensino em todo o Pats, o Progestmo. Esse curso foi organizado pelos Secretirios de Educaomo que estavam j frente do Conselho Nacional de Secretirios de Educaomo (Consed).

(17)

abrangrncia na preparaomo de gestores no Brasil, haja vista a adesmo de 25 Estados da federaomo, conforme consta em relatyrios do programa, o que lhe confere legitimidade nacional. O curso visou tambpm socializar experirncias entre os gestores escolares de todo Pats. Foi selecionado tambpm por ser o curso que vrm capacitando os gestores escolares no Pari, espaoo geogrifico de nosso trabalho, de nossas experirncias de vida; e, especificamente pela importkncia atributda pelo programaj gestmo democritica para a escola p~blica.

Essas quest}es levaram-nos a refletir sobre a representaomo de democracia veiculada pelo programa no Pats hi onze anos, nomeadamente no Pari, e avaliar qual p a pritica democritica na gestmo da escola, uma vez que o Progestmo se compromete com o projeto de gestmo democritica da escola p~blica.

Para mediar a gestmo democritica escolar, o Progestmo elege o projeto pedagygico, autonomia, participaomo, eleiomo direta, papel do gestor escolar, conselho escolar, como elementos de democratizaomo. Como o Progestmo, origina-se no contexto das reformas do Estado e decorre das recomendao}es internacionais para a educaomo, buscamos identificar em sua proposta elementos da gestmo gerencial. Destacamos, entmo, estes elementos para nossa anilise, porque o Progestmo os inclui entre os elementos democratizantes da gestmo escolar smo eles: democracia, gestmo democritica e participaomo.

A relevkncia dos estudos empreendido por nys pode ser considerada diante os aspectos arrolados a seguir:

x a democracia esti presente nas poltticas educacionais;

x a gestmo democritica torna-se uma das poltticas educacionais mais populares em

decorrrncia das mudanoas operadas no modelo de administraomo das instituio}es p~blicas, fundadas em relao}es mais horizontalizadas;

x o pressuposto de gestmo defendido pelo Progestmo sugere perspectivas democriticas e prop}e a introduomo de diferentes estratpgias de aomo na gestmo da escola;

x a concepomo de democracia e de gestmo escolar democritica que o Progestmo dissemina; x o Progestmo ser responsivel pela capacitaomo de 2.727 gestores escolares no Pari , de

2001 a 2004, em ntvel de pys-graduaomo lato sensu, o que lhe confere cariter cienttfico; x a quase inexistente avaliaomo de resultados alcanoados pelo programa, que esta em sua

quarta ediomo no Estado do Pari.

Essas quest}es conduziram ao problema de pesquisa, qual seja: identificaomo do conceito de democracia veiculado pelo Progestmo e suas implicao}es nas priticas democriticas na gestmo de uma escola p~blica da rede estadual de uma cidade do Pari.

A seleomo da escola lycus da pesquisa deu-se, sobretudo, pelas seguintes raz}es:a) a escola contar com cursistas do Progestmo; b) sua diretora defender uma postura democritica na 17144

(18)

gestmo; c) possibilidade de acesso j documentaomo; d) garantia de participaomo dos sujeitos da pesquisa.

Na tentativa de compreender o problema, surgiram outras quest}es: O que p democracia? Em que concepomo de democracia se sustenta o Progestmo? A servioo de qual democracia o programa se apresenta? Qual a pritica democritica na gestmo da escola depois da capacitaomo dos seus gestores?

Para o desenvolvimento desta pesquisa, definimos como objetivo geral:

x analisar em que medida o Progestmo provocou mudanoas na concretizaomo da democracia na gestmo de escola p~blica estadual do Pari.

A fim de maior detalhamento, estabelecemos os seguintes objetivos espectficos: xidentificar concepo}es de democracia.

xcomparar as caractertsticas do modelo de gestmo adotado na reforma do Estado e nas recomendao}es das agrncias internacionais com o modelo de gestmo proposto pelo Progestmo.

xrelacionar a ideia de democracia, gestmo democritica e de participaomo difundidas nos estudos acadrmicos com as do Progestmo.

xavaliar as implicao}es da concepomo de democracia veiculada no Progestmo nas priticas no kmbito da gestmo na escola objeto de pesquisa.

Interessava-nos os estudos de uma democracia escolar de fato, que primasse pela educaomo pessoal e social dos integrantes da comunidade, superando as priticas autoritirias advindas dos ³determinantes estruturais mais amplos da sociedade´ no espaoo escolar, impeditivos da consolidaomo de uma gestmo democritica nesta instituiomo.

O contexto polttico da implantaomo da gestmo democritica na escola foi decisivo para tomarmos como pressuposto neste trabalho que esta gestmo reflete o processo polttico da sociedade em que esti inserida.

Adotamos este pressuposto como referrncia ao focalizarmos a Escola Estadual Carajis, cujos gestores se capacitaram pelo programa, o que nos permitiria confirmar ou rever nossa hipytese.

Com a finalidade de aprofundar conhecimentos acerca das m~ltiplas caractertsticas do objeto deste estudo ņ o Progestmo, programa de formaomo continuada de gestores escolares, ministrado na modalidade a distkncia ņ realizamos uma pesquisa de cariter qualitativo, com anilise documental e de questionirio. O termo qualitativo ³[...] p utilizado por questmo de rnfase e nmo de exclusividade´ (ALVES, 1991, p. 54), uma vez que a intenomo nmo p sugerir oposiomo entre

(19)

qualitativo e quantitativo, mas adotar a investigaomo qualitativa pelo fato de que³[...] as pessoas agem em funomo de suas crenoas, percepo}es, sentimentos e valores e seu comportamento tem sempre um sentido, um significado que nmo se di a conhecer de modo imediato, precisando ser desvelado´ (idem, ibidem).

Da pesquisa documental emergiram as seguintes categorias de anilise: democracia, gestmo democritica e participaomo. Com essas categorias foi posstvel apreender a concepomo de democracia impltcita no Progestmo.

Nossa pesquisa contemplou uma anilise dos materiais diditicos do Progestmo utilizados na formaomo dos gestores, denominados Mydulos. Foi examinado tambpm o Plano de Gestmo da Escola Estadual Carajis (2009/2011) e as Orientao}es Gerais para o Processo de Eleiomo Direta para Gestores Escolares, elaboradas pela Seduc em 2009. Segundo Franco (2005) a anilise de conte~do propicia identificar as caractertsticas da mensagem e o contexto no qual foi produzida.

Inclutmos na amostra os gestores que atuavam em funomo administrativa e tpcnica. Uma amostra constitutda de doze sujeitos. O questionirio foi destinado j diretora, vice-diretora, secretiria, coordenadoras e professoras. Duas coordenadoras solicitaram o envio do questionirio para o endereoo eletr{nico, justificando a importkncia da liberdade de expressmo para responder quest}es sobre a gestmo na Escola Estadual Carajis (EEC). A secretiria integrou o universo em foco porque comp}e a equipe gestora da ECC e p tambpm professora nesta mesma escola. Cursou o Progestmo quando era diretora de outra escola da rede.

Todas as professoras informantes atuam em sala de aula, e trrs trm dedicaomo exclusiva j EEC. Cinco professoras informantes lecionam tambpm, em outras escolas estaduais, quatro ministram aulas tambpm em instituio}es municipais.

Desses doze profissionais, cinco cursaram o Progestmo. Smo eles: a vice-diretora, uma professora, duas coordenadoras e a secretiria. Os cinco profissionais estmo atuando na escola

.

Identificamos uma diretora e uma vice-diretora que fizeram o Progestmo em 2001, hoje smo aposentadas.

Na escola pesquisada, o Progestmo alcanoou 13% dos profissionais, entre gestores e professores, desde a primeira ediomo do programa ocorrida em 2001.

Quanto aos procedimentos de coleta de dados os contatos iniciais com os sujeitos da investigaomo foram realizados em janeiro de 2010, em visitas j Escola Estadual Carajis. Nessas, aproximamo-nos da diretora e da vice-diretora, das coordenadoras e professores para obter documentos referentes j gestmo da escola. Os contatos diretos com os sujeitos da pesquisa foram realizados durante os meses de julho e dezembro de 2010 e em janeiro, julho, agosto e dezembro de 2011 quando aplicamos o questionirio.

Para iniciar a coleta de dados, realizamos uma reunimo com a diretora e as vice-diretoras, 19144

(20)

professores e coordenadoras pedagygicas. Informamos sobre a finalidade da pesquisa e fizemos esclarecimentos a respeito do o termo de consentimento.

A pesquisa qualitativa foi desenvolvida com aplicaomo de questionirio. Este instrumento de coleta de dados foi usado por considerarmos a sua efetividade diante das condio}es vivenciadas pela escola.

Durante a coleta de dados houve greve dos professores. Dada a circunstkncia polttica encontrada, alguns professores se mostraram reticentes em expressar suas ideias, o que levou j alteraomo de procedimentos previstos na metodologia para a coleta de dados inscritos no projeto de investigaomo ņ entrevista semiestruturada sem aplicaomo de questionirio. A variivel interveniente encontrada, greve de professores, requereu a mudanoa para aplicaomo exclusiva de questionirio.

Outra alteraomo necessiria foi no n~mero de sujeitos participantes da pesquisa. Pela amostragem, ttnhamos tomado por base a escolha de professores que atuavam na escola desde 2001 e com maior tempo de atuaomo na docrncia, professores em funomo de diretor e vice-diretor, funcionirios, alunos, pais e representantes do entorno da escola. Repensamos considerando as quest}es: a) a heterogeneidade do universo, o que requereria uma amostra maior dada as diferenoas econ{mica, social, cultural, polttica do universo. Ampliada a amostra, demandaria tambpm mais tempo para a pesquisa, o que poderia comprometer o tempo destinado para a conclusmo do Mestrado; b) sob a orientaomo de Franco (2005) optamos por [...] ³reduzir o pryprio universo (e, portanto, o alcance da anilise) para garantir maior relevkncia, maior significado e consistrncia daquilo que p realmente importante destacar e aprofundar no estudo em questmo´ (FRANCO, 2005, p. 50).

Embora a coleta de dados tenha ocorrido em uma sy escola estadual do Pari a pesquisa nmo constitui um estudo de caso. Nosso interesse foi obter informao}es no campo emptrico, a EEC, para subsidiar reflex}es e anilises de documentos e questionirios com foco na democracia no Progestmo.

Procedemos j sistematizaomo dos dados e j anilise das informao}es, utilizando como procedimento metodolygico a analise de conte~do, ji que esse recurso favorece a apreensmo de significados atributdos por sujeitos de uma investigaomo, neste caso sobre a gestmo democritica na EEC, depois da formaomo dos gestores pelo Progestmo. Esse procedimento foi escolhido tambpm para entendimento das acepo}es expressas nos documentos.

Nossa convicomo inicial era que a gestmo democritica, na escola, reflete o processo democritico da sociedade. Desse modo, o discurso sobre democracia e gestmo democritica tem sido assumido por muitos, sem que a funomo educativa para o cidadmo que aprende se efetive. Assim, pudemos realizar algumas aproximao}es com o que nos propusemos verificar.

(21)

Reiteramos que a categoria primordial, democracia, favoreceu o tratamento das informao}es reveladas pela anilise documental, considerando as possibilidades de contribuiomo para a adoomo de priticas formais ou substanciais de democracia na escola.

A revismo bibliogrifica empreendida auxiliou na contextualizaomo do problema e na construomo de um referencial teyrico que nos permitiu aprofundamentos sobre as diferentes acepo}es de democracia, de gestmo democritica e de participaomo, categorias de anilise. Lembremos que da primeira derivam as demais.

Buscamos as contribuio}es de Paro (2008, 2007) e Lima (2003), entre outros, que defendem a democracia na gestmo da escola, primeiramente, na aomo, desenvolvida por pessoas democriticas, que enfatizam a necessidade de vivrncia democritica e se empenham em desenvolver priticas escolares capazes de dar conta das demandas sociais e participativas, nmo apenas assimilando o discurso do democritico, mas exercitando a democracia, confirmando-a na pritica.

Organizamos a dissertaomo em quatro capttulos. Do primeiro consta um breve histyrico da democracia. Recorremos aos ensinamentos de Bobbio (2000, 2000b, 2006, 2010); Vasconcelos (2007) e Pateman (1992), autores que nos permitiram estabelecer relao}es com os objetivos do estudo. Valendo-nos das considerao}es feitas por esses autores, dedicamo-nos a identificar o cenirio da polttica de gestmo democritica da educaomo na lygica da reforma do Estado.

No segundo capttulo, buscamos contextualizar a polttica de gestmo democritica brasileira, com recorte nas dpcadas de 1980 e 1990, com base nas contribuio}es de Cabral Neto (1999); Cabral Neto e Rodrigues (2007); Oliveira (1997, 2003), estudiosos que possibilitaram uma vismo crttica da polttica de gestmo democritica no contexto do modelo gerencial. No que tange j gestmo democritica escolar, apoiamo-nos em obras de Lima (2003) e Paro (2005, 2007a, 2007b, 2008), entre outros. Esses autores foram fundamentais para o desenvolvimento desta dissertaomo, por um lado, porque tratam com mais clareza e concretude dos condicionantes imediatos do autoritarismo na escola, empecilhosj democracia escolar e, por outro, porque suas ideias vrm ao encontro das nossas convico}es. Alpm disso, com tais aportes teyricos, foi posstvel a ampliar o diilogo com as demais referrncias utilizadas neste nosso estudo. Os tipos de participaomo descritos por Bordenave (1994) corroboraram a compreensmo de que as pessoas smo chamadas a participar quando p conveniente para o Estado e o mercado.

Para abordar a educaomo e a polttica de gestmo democritica no Estado do Pari, optamos por descrevr-las, sem contudo, abandonar a reflexmo acerca dos programas de aomo do governo destinados a viabilizar seus projetos educacionais.

No terceiro capttulo, descrevemos e analisamos o Progestmo, recorrendo ao material do pryprio programa para extrair substdios necessirios a sua caracterizaomo e j identificaomo de 21144

(22)

democracia que o Programa veicula. Contextualizamos a instalaomo do Conded, identificando o cenirio polttico no qual o Progestmo foi idealizado e passamos a apresentar caractertsticas de seu desenvolveu no Estado do Pari. Procuramos identificar nos materiais diditicos, mydulos utilizados no Programa, o compromisso com a democracia, anunciado em seu pressuposto de gestmo, recorrendo aos elementos considerados pelo Progestmo como ³democratizantes´ da gestmo escolar: democracia, gestmo democritica e participaomo.

No quarto capttulo, envidamos esforoos para apreender as alterao}esque o Progestmo provocou na escola da rede estadual e o sentido de democracia vivenciado na gestmo escola. Para avaliar as posstveis alterao}es, buscamos a democracia, gestmo democritica e participaomo, porque foram aspectos privilegiados pelo Progestmo, que deveriam ser percebidos pela comunidade escolar. Nosso propysito foi o de verificar se o pressuposto de gestmo democritica subjacente ao Programa favorece a ampliaomo da democratizaomo na gestmo da escola ou que tipo de democracia p proposta.

(23)

CAPËTULO I - DEMOCRACIA E GEST­O DEMOCRATICA DA EDUCAd­O

Neste capttulo, abordamos o conceito de democracia e as origens que sustentam a gestmo democritica na educaomo.

Embora a perspectiva de anilise adotada siga um critprio cronolygico, apoiamo-nos na premissa de que o conceito democracia nmo obedeceu a uma linearidade, que possa impedir a anilise das foroas sociais antag{nicas dividas em classes de trabalho.

Enfatizamos a reforma do Estado, que contribuiu para a construomo da democracia na gestmo p~blica.

A atual polttica da educaomo brasileira incorpora o modelo gerencialista, caracterizado por ideias, valores e priticas cultivados na administraomo de empresas e transferido como um referencial para o setor p~blico, inclutda a gerrncia educacional, que ficou conhecida como gestmo democritica da educaomo.

Esperamos, ao final, esclarecer, pelo menos em parte, o significado do termo democracia, suas implicao}es e sua relaomo com as poltticas educacionais relativas j gestmo democritica escolar, implantadas no Pats nos ~ltimos anos.

1.1Breve histyrico da democracia

Com os filysofos na Grpcia, no intcio do spculo VI a.C., de acordo com foi posstvel saber que a organizaomo social e a organizaomo polttica deveriam ser baseadas nos princtpios da eunomia - ³boa ordem humana´ (lei e legislaomo) - e isonomia - ³o perfeito equiltbrio das propriedades (leis para iguais)´ (VASCONCELOS, 2007, p. 25). Esses dois princtpios deveriam impedir que os governantes agissem por sua vontade, e,sim, respeitando regras. Assim, os gregos legaram-nos trrs requisitos essenciais para sustentar a democracia: participaomo no poder, liberdade e igualdade.

(24)

A democracia origina-se, pois, na Grpcia, especificamente o sistema de governo popular, que, adotado em Atenas, durou quase dois spculos. Desse sistema, provavelmente, tenha surgido o termo demokratia - demos, o povo, e kratos, governar, que significa ³governo do povo´ , experirncia de tentar viver a forma mais aproximada de democracia direta. Esta, segundo Bobbio (2000), pode ser vista como aquela que engloba todas as formas de participaomo no poder.

Nmo se pode dizer que a democracia ateniense tenha assegurado a participaomo de todos, de forma direta, na tomada de decis}es, pois, embora em alguns momentos o povo ateniense tenha podido decidir sobre diversas quest}es, efetivamente nmo exercia diretamente o seu poder. Na democracia ateniense, o povo era representado pelos filhos de gregos nascidos na Grpcia, homens maiores de 21 anos de idade, livres (nmo podiam ser escravos ou estar em situaomo de escravidmo) e seus independentes. Desse modo, uma pequena parte da populaomo elegia os que exerceriam o poder em nome do povo (Bobbio, 2000). Escapavam j cidadania as mulheres, os escravos, os estrangeiros e as crianoas.

De acordo com este autor (2010, p. 319-329), sobre a democracia, a teoria contemporknea conflui para trrs grandes tradio}es do pensamento polttico, as quais comp}em o conjunto das referrncias da democracia contemporknea:

a) a teoria clissica, conhecida como teoria aristotplica, segundo a qual a democracia p entendida como governo do povo, de todos os cidadmos que gozavam dos direitos de cidadania. Democracia distingue-se da monarquia, governo de um sy, e da aristocracia, governo de poucos;

b) a teoria medieval de democracia, apoiada no ideirio da soberania popular de origem romana, marcada pela contraposiomo entre as ideais de que ou o poder supremo deriva do povo e se torna representativo, ou deriva do prtncipe e se transmite por delegaomo do superior para o inferior;

c) a teoria moderna, conhecida como a teoria de Maquiavel e que nasce com o Estado moderno. Neste legado teyrico, a democracia p uma forma de Rep~blica.

Historicamente, a democraciap definida sob diferentes perspectivas. Sua importkncia, seu significado e suas caractertsticas poltticas, sociais e ideolygicas constituem uma discussmo que tem sido feita constantemente e reformulada nas distintasppocas da histyria da humanidade. Esse movimento dificulta a elaboraomo definitiva de um conceito.

As primeiras medidas democriticas e o sufrigio universal foram adotados pelos Estados Unidos da Amprica entre 1820 e 1830. Na Franoa ocorreu em 1848 e, no Brasil, em 1891. A Constituiomo brasileira deste ano, entretanto, admitiu um sufrigio restrito, pois somente na Constituiomo Federal de 1988, o Pats adota o sufrigio universal (VASCONCELOS, 2007).

(25)

sistema vai se firmando como modelo polttico para atender a interesses divergentes na sociedade ocidental capitalista, divida em classes sociais antag{nicas.

No panorama de construomo conceitual de democracia, alguns teyricos destacam- se pela ampliaomo do entendimento do termo o que apresentaremos a seguir, esclarece em que nos fundamentaremos

Para Rousseau (apud COUTINHO, 2002), democracia significa a participaomo de toda a comunidade,p direta, legitimada por lei, que aprovada em assembleia popular.

A adoomo da democracia como modelo polttico se assenta, entre outras, na influrncia das crtticas de Rousseau sobre a sociedade do spculo XVIII e de sua proposta de sociedade alternativa, profundamente democritica, radical e popular, no movimento socialista que transforma em ator polttico nmo sy o povo, mas tambpm a classe proletiria. Estes movimentos suscitaram a ascendrncia da democracia, apresentada como irreverstvel no mundo moderno ³[...] esse conjunto de reflex}es e de priticas vai alpm do liberalismo numa perspectiva claramente democritico-popular´ (COUTINHO, 2002. p. 12).

Benjamin Constant (apud COUTINHO, 2002) combateu o absolutismo na Franoa, defendendo a democracia como a liberdade da sociedade moderna. A democracia p entendida como a liberdade individual em relaomo ao Estado, js liberdades civis e j liberdade polttica, diferentemente da liberdade dos antigos, reconhecida como participaomo direta na formaomo das leis por meio do corpo polttico, com mixima expressmo na assembleia dos cidadmos. A democraciap, portanto, a liberdade de participar na formaomo do governo, com a criaomo de uma esfera p~blica em que todos participam.

Segundo Tocqueville (apud COUTINHO, 2002), a igualdade de condio}es materiais de vida e a igualdade perante a lei, um destgnio divino, smo coisas que nmo se podem impedir. Para este autor francrs a democracia p irreverstvel.

Perante esta evoluomo, Coutinho julga mais adequado referir-se j democratizaomo, ³[...] ji que o que tem valor universal nmo smo as formas concretas que a democracia adquire em determinados contextos histyricos ņ formas essas sempre modificiveis, sempre renoviveis, sempre passtveis de aprofundamento´ (COUTINHO, 2002, p.17). Para o autor, o que tem valor universalp o processo de democratizaomo, expressa em uma crescente socializaomo da participaomo polttica.

A ideia de democracia como processo esti presente no sistema polttico idealizado por Rousseau (1999). O direito de participaomo direta baseia-se no princtpio da liberdade como prerrogativa inalienivel do homem e exigrncia peculiar de sua prypria natureza espiritual. Entende a liberdade como direito e dever ao mesmo tempo. Defende que a liberdade pertence ao homem, renunciar a ela p renunciar j prypria qualidade de homem. Esse pressuposto ocupa a 25144

(26)

centralidade no pensamento de Rousseau, e a liberdade de participaomo tem funomo educativa. e esta ideia de democracia como processo que vem orientando nossos estudos e orientari nossas anilises acerca das priticas de democracia na Escola Estadual Carajis, desenvolvidas apys a capacitaomo pelo Progestmo.

Rousseau distancia-se do individualismo e valoriza a dignidade do homem em geral. Essa compreensmo ilumina o valor universal da personalidade humana, e a conscirncia moral nmo se traduz no sentimento particularizado do amor-pryprio, mas na universalidade do amor de si1.

Desse entendimento, destacamos a liberdade e o cariter processual da democracia como movimentos de permanente ampliaomo da participaomo polttica dos indivtduos, o que reafirma nossa escolha por essa concepomo de democracia.

O pensamento de Rousseau difere, portanto, da perspectiva de Joseph Schumpeter (apud PATEMAN, 1992), para quem a democracia consiste em um mptodo peculiar de seleomo das elites por meio de eleio}es periydicas. Segundo este teyrico, democracia p a teoria de meios e fins, como um mptodo polttico, um determinado arranjo institucional, para chegar a decis}es poltticas (legislativas e administrativas).

Em suas duas principais crtticas j teoria clissica da democracia, Schumpeter afirma ser essa teoria irrealista e exigir do homem comum um ntvel de racionalidade imposstvel. Assevera que smo reais somente coisas experimentadas pelo homem comum em seu cotidiano e que a polttica, em geral, nmo pertence a essa categoria. Assegura, tambpm, que normalmente, quando o homem comum depara com assuntos poltticos, perde a noomo de realidade e se desloca para um ntvel mais baixo de desempenho mental, assim que ingressa no campo da polttica.

Nesse sentido, para que o mptodo polttico clissico funcione, cada cidadmo deveri saber de modo absoluto o que aquele mptodo polttico quer dizer. O cidadmo deveri, ainda, fazer deduo}es de acordo com as regras de inferrncia lygica, para chegar a uma conclusmo clara e imediata quantojs quest}es particulares. Enfim, o cidadmo exemplar teria de realizar tudo isso por si pryprio, independentemente dos grupos de pressmo e propaganda. Notamos que essa democraciap privilegio da elite, considerada a classe pensante.

As obras contemporkneas a respeito da democracia vrm sofrendo intensa influrncia, destas idpias: democracia como um regime polttico que garante a escolha dos integrantes da elite, por meio de eleio}es periydicas e como aomo constante de minorias.

Dahl (2009) considera que o significado de democracia esbarra nas diversas maneiras de uso do termo. Na busca de um significado adequado, a tarefa espectfica p identificar, no conjunto de regras e princtpios, uma constituiomo que determinari como sermo tomadas as decis}es de uma associaomo, de uma instituiomo. Nestas p fundamental atender ao princtpio elementar de que todos os membros sejam tratados como se estivessem igualmente qualificados para participar do processo de tomar decis}es sobre as poltticas a serem seguidas.

Ao reconhecer que o discurso da democraciap assumido por muitos e que seu conceito vem sendo largamente ampliado e traduzido como universal, pretendemos estabelecer algumas referrncias teyricas para guiarem nossa pesquisa e que expressem nosso entendimento de democracia, que pressup}e:

x uma funomo educativa pelo exerctcio da participaomo do indivtduo na tomada de decis}es; x um processo de aprendizagem em permanente construomo;

x um ordenamento polttico participativo, que constitua um novo tipo de sociedade e nmo apenas um arranjo institucional de tomada de decis}es coletivas;

1 No pensamento de Rousseau, o amor de si constitui a interioridade por excelrncia e a foroa expansiva da

alma que identifica o indivtduo com seus semelhantes.e a ponte que liga o eu individual ao eu comum, a vontade particular j vontade geral. ³Assim p que todos os cidadmos podermo chegar a identificar-se, por fim, com o Todo maior, sentir-se membros da pitria, ami-la com esse sentimento delicado que todo homem separado sy tem para si mesmo´ (ROUSSEAU, 1999, p. 17-19).

(27)

x uma condiomo que assegure a participaomo de todos os cidadmos na produomo, na gestmo e no usufruto dos bens naturais e culturais da sociedade de maneira equitativa;

x uma inter-relaomo conttnua entre o funcionamento da escola e as qualidades e atitudes psicolygicas dos indivtduos que interagem no interior da instituiomo;

x apropriaomo do saber necessirio ao autodesenvolvimento, para o exerctcio da liberdade individual e social.

Entre os autores revistos esti Bobbio (2010) que afirma

O~nico ponto sobre o qual uns e outros poderiam convir p que a Democracia perfeitaņ que atp agora nmo foi realizada em nenhuma parte do mundo, sendo utypica, portanto ņ deveria ser simultaneamente formal e substancial (BOBBIO, 2010, p. 329).

Por uma democracia utypica, entendemos tomar como ponto de partida a realidade de um mundo conhecido e nmo a hipytese de um mundo novo. Renovamos nossa crenoa, entretanto, de que a democracia pode existir e a busca pela sua construomo colabora com a produomo de sentido na histyria da humanidade. Para tal, apoiamo-nos em Rousseau, que prop}e uma forma de associaomo que respeite a liberdade do homem, a fim de que este nmo seja constantemente ameaoado por foroas que podem nmo sy o alienar dele mesmo como transformi-lo em tirano ou escravo. Advoga uma forma de associaomo na qual ³cada um, unindo-se a todos, obedece, porpm, apenas a si mesmo permanece livre, como antes de estabelecer o contrato´ (ROUSSEAU, 1999, p. 19). Dessa forma, as possibilidades de desigualdade e injustioa entre os cidadmos smo evitadas mediante a aceitaomo da autoridade da vontade geral. Esse modo de associaomo permite ao cidadmo nmo sy pertencer a um corpo moral coletivo, como adquirir liberdade obedecendo a uma lei prescrita para ele mesmo.

Bobbio (2010), ao longo de todo o spculo XIX, afirma que a discussmo em torno da democracia foi se desenvolvendo principalmente atravps de um confronto com as doutrinas poltticas dominantes no tempo, o liberalismo e o socialismo.

Nesta consideraomo de Bobbio (2010), o significado de democracia se estabelece considerando dois lados, quais sejam: de um, o modo como doutrinas liberais e socialistas, portanto, opostas no que concerne aos valores fundamentais considerara a democracia compattvel com os pryprios princtpios e atp como uma parte integrante do pryprio credo, p correto falar de liberalismo democritico e de socialismo democritico.

Assim, ³[...] e p crtvel que um liberalismo sem democracia nmo seria considerado hoje um verdadeiro' liberalismo e um socialismo sem democracia, um verdadeiro socialismo'´ (BOBBIO, 27144

(28)

2010, p. 326).

De outro lado, a maneira como uma doutrina inicialmente hostilj democracia, por exemplo a teoria das elites, foi se conciliando com ela, pode concluir-se que por democracia se foi entendendo um mptodo ou um conjunto de regras de procedimento para a constituiomo de Governo e para a formaomo das decis}es poltticas mais do que uma determinada ideologia.

O autor ainda esclarece que a democraciap compattvel, com doutrinas de diverso conte~do ideolygico e com uma teoria que em algumas das suas express}es em sua motivaomo inicial teve um conte~do antidemocritico, porque veio sempre assumindo um significado essencialmente comportamental e nmo substancial ³[...] mesmo se a aceitaomo destas regras e nmo de outras pressuponha uma orientaomo favorivel para certos valores, que smo normalmente considerados caractertsticos do ideal democritico´ (BOBBIO, 2010, p. 326).

Para Coutinho (2002), a adoomo da democracia pelo liberalismo foi uma resposta obrigatyria do pensamento liberal j ascensmo da democracia moderna. O liberalismo incorporou a democracia e passou a defendr-la, mas empobreceu suas determinao}es, pois a concebe de modo redutivo. Em face a isto, de termo essencialmente subversivo, a democracia passou a fazer parte tambpm de um discurso conservador. Essa avaliaomo positiva da democracia pelo liberalismo foi feita, contudo, apys dristico esvaziamento do conceito original.

A partir deste momento p necessirio organizar, com sustentaomo em Bobbio (2010) algumas tipologias de democracia que foram reunidas ao longo de nosso percurso, a fim de ampliar nosso entendimento das diferentes acepo}es de democracia.

Para o autor, na teoria contemporknea, as definio}es de democracia apresentam uma tendrncia de resolver-se e esgotar-se pela existrncia de determinadas regras de jogo que estabelecem como se deve chegarj decismo polttica e nmo em relaomo ao que decidir. Tambpm para as regras da democracia levamos em conta a posstvel diferenoa entre a enunciaomo do conte~do e sua aplicaomo. No tocante j decismo, o conjunto de regras do ³jogo´ democritico nmo estabelece regras. Bobbio (2010) adverte nmo ser posstvel estabelecer quantas regras devem ser observadas para que um regime possa dizer-se democritico. Chama atenomo tambpm para o fato de que um regime que nmo observa regras nmo p democritico ³[...] pelo menos atp que se tenha definido o significado comportamental de democracia´ (BOBBIO, 2010, p. 327).

Assim, nenhum discurso que venha a ser utilizado para explicitar o significado de democracia poderi ser considerado conclusivo, se a percepomo de conjunto se caracterizar por diferentes respostas j perguntas como: ³ Quem p que governa? Como governa? Para quem governa? Por que governa?´ ( BOBBIO, 1987, p. 104).

Aqui apresentamos a noomo de democracia como indica Rousseau (1999, p. 19), que a compreende como um processo educativo proveniente da participaomo individual de cada cidadmo

(29)

no processo polttico de tomada de decis}es, que se torna necessirio para o estabelecimento e a manutenomo do Estado democritico, da liberdade social.

A acepomo de democracia formulada por Rousseau, conforme Coutinho (2002),

[...] nmo se reduz a regras formais, tampouco j exclusmo de sentido econ{mico e social, significa sim a igualdade ņ que permite que o cidadmo participe da construomo de uma vontade coletiva ņ tambpm uma base material. [...] numa sociedade legttima, ningupm pode ser tmo pobre que seja obrigado a se vender [...] a democracia pregada por Rousseau era incompattvel com o principal instituto do modo de produomo capitalista. Rousseau nmo p socialista, mas certamente esti nos indicando aqui alguma coisa de extrema atualidade: nmo hi democracia efetiva onde existe desigualdade material entre os cidadmos, e essa desigualdade material, econ{mica, impede inclusive que haja uma democracia polttica efetiva (COUTINHO, 2002, p.20).

Essa tem sido a ideia de democracia como processo de ampliaomo crescente de participaomo e que adotamos como referencial. Acreditamos que, com base no entendimento do cariter individual, social e econ{mico de democracia, novas e diferentes possibilidades de ampliaomo da participaomo e da socializaomo dos valores humanos podermo ser sugeridas, o que implica uma dimensmo econ{mica, uma vez que nmo hi igualdade polttica se nmo hi igualdade material substantiva.

A tipologia proposta por Bobbio pode ser assim enunciada:

a) Democracia Formal

Caracteriza-se como um regime marcado pelos fins ou valores para os quais um determinado grupo polttico tende e os coloca em pritica. Constitui um conjunto das instituio}es caractertsticas deste regime polttico: eleio}es livres, voto secreto e universal, autonomia dos poderes de Estado (Executivo, Legislativo e Judiciirio), existrncia de mais de um partido polttico, liberdade de pensamento, expressmo e associaomo. Refere-se, portanto, j existrncia de regras do jogo democritico, ao estabelecimento de leis e princtpios abstratos, como o direito de ir e vir, a liberdade de expressmo, o direito ao voto, pelos quais a democracia p posta em pritica.

b) Democracia Substancial

Reporta-se a certos conte~dos inspirados em ideais caractertsticos da tradiomo do pensamento democritico, com relevo para o igualitarismo. Tem como objetivos primordiais o processo e os fins a serem alcanoados. Seus princtpios smo: igualdade jurtdica e igualdade polttica dos cidadmos. Esses princtpios vmo alpm das regras do jogo democritico, visam a alcanoar com igual intensidade e qualidade os beneftcios equknimes de toda a coletividade. Pressup}e, portanto, a existrncia de um estado de direito, ou seja, o respeito js leis. Ao mesmo tempo, leva em conta as desigualdades econ{micas.

(30)

Bobbio (2010) atenta para a necessidade de reconhecer que, nas duas express}es, democracia formal e democracia substancial, o termo democracia tem dois significados distintos. Na primeira diz respeito a um n~mero de regras de comportamento, ji a segunda que recomenda um conjunto de princtpios e fins, entre os quais sobressaem a igualdade jurtdica, a social e a econ{mica, independentemente dos meios adotados para alcanoi-los. A igualdade p princtpio adotado para distinguir um o regime democritico de um nmo democritico, nmo no modo formal, mas substancial. A democracia formal compreende uma forma de governo, ao passo que a substancial diz respeito ao conte~do desta forma, o que nos encaminha a concordar com Bobbio (2010) quando diz que³[...] o ~nico ponto ao qual uns e outros poderiam convir, p que democracia perfeitaņ que atp agora nmo foi realizada em nenhuma parte do mundo, sendo utypica, portanto ņ deveria ser simultaneamente formal e substancial´ (BOBBIO, 2010, 329).

Estes dois relevantes significados podem ser encontrados em fusmo na teoria rousseauriana de democracia, ji que o ideal igualitirio que a inspira se realiza na formaomo da vontade geral. Historicamente na teoria democritica entrecruzam-se motivos de mptodos e motivos ideais, os quais na teoria de Rousseau se encontram associados.

c) Democracia Representativa

Pode ser caracterizada como aquela em que o representante institutdo defende os interesses gerais da sociedade acima de interesses particulares. Sobre a democracia representativa, Bobbio (2010, p. 324) revela que se trata da forma democritica em que ³o dever de fazer leis diz respeito, nmo a todo o povo reunido em assembleia, mas a um corpo restrito de representantes eleitos por aqueles cidadmos a quem smo reconhecidos direitos poltticos´.

O autor salienta que a grande fragilidade da democracia representativa, se comparada j democracia direta, esti na tendrncia j formaomo de pequenas oligarquias, que smo os comitrs dirigentes de diferentes partidos, o que reduz a participaomo.

d) Democracia Direta

De acordo com o autor de supracitado, democracia direta ³p a liberdade entendida como participaomo direta na formaomo das leis atravps do corpo polttico cuja mixima expressmo esti na assembleia dos cidadmos´ (2010, p.323). Para existir democracia direta p preciso que o indivtduo participe das deliberao}es que lhe dizem respeito.

Desta forma,p imprescindtvel a tomada de conscirncia de que a participaomo p o elemento fundante da democracia direta e, de modo algum, poderi ser levada a efeito sem o envolvimento do cidadmo de per si.

Em sequrncia, valemo-nos tambpm dos estudos de Vasconcelos (2007) e Pateman (1992) sobre o papel da participaomo na democracia representativa e na democracia direta.

(31)

considerada o elemento principal do regime democritico, p resolvida atravps de uma das muitas liberdades individuais que o cidadmo reivindicou e conquistou contra o Estado absoluto. Essa forma de democracia se realiza com base no processo eleitoral, com o qual p concedido poder de governo aos representantes do povo.

Nesta acepomo de democracia, o poder p~blico concentra-se nas mmos de candidatos eleitos com investidura temporiria e atribuio}es predeterminadas. Segundo Vasconcelos (2002), a representaomo polttica em sua forma de democracia representativa alastrou-se por todos os patses. Essa tendrncia vinha se delineando desde o spculo XIX, cuja instituiomo tem origens nas Revoluomo Francesa (1789) e Norte-Americana (1776). Neste contexto revolucionirio, os princtpios de liberdade e igualdade smo anunciados na mesma dpcada e, por conseguinte, identificados, pelos idealistas, como princtpios inerentes js conquistas da democracia. A representaomo passou a revestir-se de um conceito que a confundia com a prypria democracia.

Para este autor a representaomo polttica imposta como sin{nimo de democracia nmo p um dispositivo intrtnseco desta, nmo resulta de princtpios nem deduo}es filosyficas e cienttficas. e uma forma deturpada do poder, de origem feudal e desde sua implantaomo, na Franoa, teve por finalidade impedir a democracia popular. Assegura, que o regime de representaomo polttica, sempre foi a forma de governo que possibilitou a detenomo do poder por grupos, defensores de seus pryprios interesses e que se posicionam a favor do povo apenas em momentos que se fazem mais conscientes e exigentes. O autor reitera a sua crttica ao afirmar que a ³representaomo polttica, chamada de democracia representativa nmo p uma estrutura cienttfica, nmo p correta para a sociedade humana, nem nada tem a ver com a democracia´ (VASCONCELOS, 2007, 86).

Com efeito, a instituiomo da democracia representativa tem mais de duzentos anos. e certo que muitas nao}es a adotaram em ppocas distintas, mas a concepomo de uma estrutura de democracia polttica foi hegem{nica na maioria dos lugares durante esse pertodo.

Vasconcelos (2002) explica que os povos estmo condicionados a acreditar que a representaomo polttica p um meio incontestivel de se fazer democracia. O fato de nao}es como os Estados Unidos, Inglaterra, Franoa, Alemanha, Canadi, Supcia despontarem como principais fontes de avanoo e progresso tecnolygico, intelectual e cienttfico diante do seu orgulho na manutenomo de seus sistemas de representaomo como aplicaomo autrntica da democracia, pelo menos,p o que aparentemente isso nos faz entender.

Conforme Bobbio (2000b), a eleiomo, desde a sociedade ateniense, estava arruinando o processo democritico, contribuindo com a corrupomo e demagogia. Estas, smo dois inimigos mortais da instituiomo democritica, que trm servido para engodo dos cidadmos. Bobbio salienta tambpm que eleiomo nmo p um instrumento somente do exerctcio democritico na escolha de pessoas a cargos p~blicos, o processo eleitoral p o mais importante mecanismo da Democracia 31144

(32)

Representativa.

Quanto ao voto e a eleiomo serem representao}es de um estado de democracia, Vasconcelos (2007) enuncia: ³a eleiomo nmo p um princtpio de democracia; no miximo poderi se revestir como um mptodo auxiliar de um de seus processos - o da escolha´ (VASCONCELOS, 2007, p. 70).

Neste quadro, a democracia se reduz apenas a afirmaomo de determinadas ³regras do jogo´, que Coutinho (2002), destaca como a principal delas a existrncia de eleio}es periydicas, nas quais o povo escolhe entre elites, acreditando, assim, quep livre para participar.

Vasconcelos (2007) considera que a democracia nmo necessita de conceitos complexos, sua definiomo p simples e compreenstvel, por se tratar literalmente de uma palavra que expressa autoridade do povo. Concebe como democracia pura a Democracia Direta, que consiste em um sistema de governo em que o povo se autogoverna, sem intermediirios.

Sobre a concepomo de democracia o autor esclarece que deve ser engendrada e compreendida nos seus fundamentos cienttficos, o que o leva a concordar com o conceito formulado por Hermes Lima (apud VASCONCELOS, 2002, p. 36):

Democracia p mais do que governo da maioria; p, idealmente, o governo do povo por si mesmo. Por isso implica certos caracteres gerais: a igualdade perante a lei, a livre acessibilidade aos cargos p~blicos de todos os cidadmos e esti no esptrito que anima um esforoo bisico, essencial para libertar o homem de todas as servid}es, da servidmo ignorkncia, como da servidmo econ{mica. Este autor em seus estudos entende a relaomo aumento populacional e democracia direta, como desafio a ser elaborado, haja vista ainda carecerem de soluomo mais consistente. Ele assim se expressa:

Devemos, porpm, no momento, preocupar-nos em estruturar a forma de governo no caminho certo da Democracia pura, desmontando alegorias demagygicas e impedindo a petrificaomo de esquemas para sustentaomo de prerrogativas a categorias, classes e grupos, com vistas a chegar j posteridade, com mais rapidez, mediante uma organizaomo social plena, em que despontem ampla justioa sycio-econ{mica-polttica, uma eficaz liberdade e avanoo evolutivo [...] entrementes as possibilidades matprias na concretizaomo dessa condiomo nmo trm se mostrado aprimoradas (VASCONCELOS, 2002, p. 41-42).

A propysito, a participaomo total ou representativa do cidadmo p um debate inacabado, pois as anilises a esse respeito no contexto contemporkneo, smo complexas, conforme considera Pateman (1992, p. 32-33):

Os formuladores da teoria da democracia contemporknea tambpm encaram a participaomo exclusivamente como um dispositivo de proteomo. Segundo eles, a natureza ³democritica´ do sistema reside em grande parte na forma dos ³arranjos institucionais´ nacionais, especificamente na competiomo dos ltderes

(33)

(representantes potenciais) pelos votos, de modo que os teyricos que sustentam tal vismo do papel da participaomo smo, antes e mais nada, teyricos do governo representativo. [...] Contudo, deve-se notar que a teoria do governo representativo nmo representa toda a teoria democritica, como sugerem muitas obras recentes.

Na anilise da questmo, a autora (1992) considera que estas teorias dmo rnfase nos perigos inerentes j ampla participaomo popular em polttica. Nesse aspecto, revela duas preocupao}es principais de teyricos que escrevem sobre democracia, sobretudo os norte-americanos. Smo elas: primeiro, a convicomo de que a teoria de seus predecessores, os chamados ³teyricos clissicos´, que acalentavam o ideal miximo de participaomo do povo, precisa ser revista ou rejeitada; segundo, a atenomo dirigida j estabilidade do sistema polttico e js condio}es necessirias para asseguri-lo2. De acordo com a autora, a preocupaomo origina-se

na comparaomo que se faz entre democracia e totalitarismo como as duas ~nicas alternativas poltticas posstveis no mundo.

Conforme Pateman (1992), teyricos poltticos de orientaomo empirista p}em em d~vida a possibilidade de as sociedades industrializadas colocarem em pritica ademocracia do modo como era compreendida na teoria clissica, ou seja, democracia como governo do povo por meio do miximo de participaomo de todo o povo.

Os argumentos contra a ³teoria clissica da democracia´, de acordo com Pateman (1992), smo respaldados em dados obtidos por meio de pesquisas, realizadas em patses ocidentais. Essas pesquisas buscaram identificar no cidadmo democritico um comportamento polttico que traduzisse atitudes de interesse e participaomo em assuntos poltticos. Os resultados indicaram deficirncias na pritica democritica, revelando que a maior parte dos cidadmos, sobretudo os desprivilegiados socioeconomicamente, demonstra falta de interesse generalizado por polttica e por atividades poltticas. Desse modo, para as tais pesquisas, as implicao}es da teoria democritica clissica, em geral, nmo foram encontradas no comportamento do cidadmo mpdio.

Esses resultados fortaleceram o argumento contra a rejeiomo das antigas teorias democriticas, conduzindo j afirmaomo de que eram normativas, valorativas, e se referiam, principalmente, js qualidades e atitudes que supostamente os cidadmos precisavam ter como indivtduos, cidadmo isolado, ignorando o pryprio sistema polttico e os fatos da vida polttica.

Os ensinamentos de Bordenave (1995) levam-nos a enfatizar que o desenvolvimento das atitudes e as priticas sociopoltticas dos indivtduos aconteceriam, por meio da participaomo no ntvel local. e, portanto, nesse ntvel, tal como o cotidiano de ind~strias, escolas e comunidades, que o indivtduo aprende a participar, com vistas a uma posterior macroparticipaomo democritica, logo, uma participaomo social.

Desse modo, tanto o sentimento de liberdade do indivtduo quanto sua liberdade efetiva tendem a aumentar em decorrrncia de sua participaomo na tomada de decis}es. Tal participaomo favorece um real controle sobre o curso da vida individual e sobre a estrutura do meio em que vive.

Essa aomo educativa para a democracia na escola, segundo Davis (apud PATEMAN, 1992) tem um propysito ambicioso: a educaomo de todo o povo atp o ponto em que suas capacidades intelectuais, emocionais e morais tenham atingido o auge de suas potencialidades e este povo se agrupe ativa e livremente em uma legttima comunidade. A estratpgia para alcanoar esse objetivo consiste no uso da atividade polttica do povo e na regulamentaomo do governo com vistasj educaomo p~blica. Esta educaomo estimularia uma democracia participativa para o

(34)

alcance da democracia polttica, destacando a aomo educativa da participaomo.

A participaomo que presenciamos nas poltticas educacionais concebidas nas dpcadas de 1980 e 1990 e em desenvolvimento nesse intcio do spculo XXI, nmo se afina, entretanto, com o ideal de participaomo voltado para a possibilidade de aumentar a liberdade do indivtduo e sua inseromo na estrutura do meio em que vive.

De acordo com Cabral Neto; Rodrigues (2008), a educaomo e sua polttica

devem ser compreendidas no kmbito das transformao}es econ{micas, geopoltticas e culturais em curso no mundo capitalista contemporkneo. As reformas educativas implementadas atualmente, na maioria dos patses da Amprica Latina, smo decorrentes, portanto, do processo de reestruturaomo pelo qual passa o capitalismo mundial sob apgide dos princtpios do neoliberalismo (CABRAL NETO; RODRIGUES, 2008, p.14).

Para os autores, a reforma na educaomo visa a torni-la mais

flextvel e capaz de responder js demandas contextuais para aumentar a competitividade dos patses, particularmente aqueles em processo de desenvolvimento, para que estes possam se integrar, de forma competitiva, no mundo globalizado (CABRAL NETO; RODRIGUES, 2008, p.14).

Assim, a descentralizaomo como nova forma de gestmo p uma das ao}es determinadas para a reforma da educaomo. Os patses se vrem compelidos a aderir, sob o risco de nmo ter acesso a financiamentos e outras adio}es.

Entre os documentos que veiculam essas recomendao}es esti o relatyrio feito para a Organizaomo das Nao}es Unidas para a Educaomo (Unesco), da Comissmo Internacional sobre a Educaomo para o spculo XXI, conhecido como Relatyrio Jacques Delors. Uma das indicao}es desse relatyrio p a participaomo democritica, como estratpgia para uma polttica educativa, como um processo permanente de enriquecimento dos conhecimentos de construomo das relao}es entre indivtduos, grupos e nao}es.

Essap a ideia de democracia como somente a presenoa de regras na gestmo escolar, noomo que, segundo nossa hipytese inicial, p revelada pelo Progestmo, objeto desta pesquisa.

Essa possibilidade democritica nmo interessa a uma sociedade que se empenha por uma real democracia nem ajuda na consolidaomo de priticas comprometidas com a construomo de um futuro de solidariedade e justioa, pois justifica a realidade dada.

Tal A perspectiva de democracia representativa consiste na institucionalizaomo de espaoos de participaomo da comunidade sem levar em conta as dificuldades para tal, ou a prypria qualidade da aomo participativa.

Nesta abordagem, a democracia reduz-se j existrncia de cargos eletivos para o controle das decis}es poltticas. Esse procedimento tem contributdo para confundir os indivtduos, que entendem a eleiomo e o voto como democracia, o que, entretanto, ³p apenas um mptodo auxiliar de

Referências

Documentos relacionados

A saída exposta por Nietzsche para essa falência é o super-homem afirmado pelo personagem do Zaratustra, “assim como Nietzsche descreveu metaforicamente a morte de Deus como

On a qualitative approach, and in order to understand the organization’s social media marketing practices and corresponding outcomes, the objective was to schedule in- depth

 Há certa resistência ou falta de conhecimento dos professores e da própria escola a respeito do Programa com o intuito de utilizá-lo como instrumento que

Mais uma vez, vemos uma inovação nos processos educacionais de Belo Horizonte: se as avaliações sistêmicas, como a Prova Brasil anteriormente apresentada, bem como as avaliações

In the dehydration by microwave, the power of 850 W resulted in a lower drying time and a better color preservation, but in a high hardness of the samples.. Among the three

Assim, podemos concluir que, dado um sobre-ideal primo P de um semigrupo ∨−semi-reticulado inverso S, existe um isomorfismo de ordem entre o reticulado das congruˆencias de l−grupo

Já num outro estudo que tinha como objectivo estudar a importância da depressão e do coping activo na qualidade de vida em candidatos com transplante hepático numa

Seu desejo reprimido é voltar ao passado, ou, ainda, é sair da reclusão e con- taminar-se com o espaço externo, com os homens e mulheres comuns que buscam um sanduíche ao