Grifico 1 Dados sobre aprovaomo, reprovaomo, abandono no Par
2.3 Tempo de democracia na escola por interm pdio da gestmo
Para explicitar a abordagem que possibilitou a compreensmo sobre a gestmo democritica como um processo a ser construtdo na instituiomo escolar, julgamos importante, primeiramente, refletir acerca da distinomo entre os termos administraomo da educaomo e gestmo da educaomo. Enveredamos por esse caminho com o intuito de esclarecer os conceitos dessas express}es que, muitas vezes, smo usadas como sin{nimos, mas tambpm assumem conotao}es diferentes.
De acordo com Bordignon e Gracindo (2001), na literatura educacional, o termo gestmo p empregado ora como um processo da aomo administrativa, ora com a intenomo de politizar a aomo administrativa. Em outras situao}es, a expressmo p utilizada com a conotaomo de pritica administrativa, sin{nimo de gerrncia. Aparece na literatura, ainda, significando o processo polttico-administrativo por meio do qual a pritica social da educaomo p organizada e orientada. Os autores destacam que a forma tecnicista e descomprometida de administraomo da educaomo como pritica desenvolvida na dpcada de 1970, gerou reao}es dos educadores no uso do termo administrador educacional (BORDIGNON; GRACINDO, 2001).
Ao analisar a trajetyria da produomo teyrica de administraomo da educaomo, veiculada pela Associaomo Nacional de Polttica e Administraomo da Educaomo (ANPAE), Maia (2008) corrobora a adoomo dos termos administraomo e gestmo. Identifica no conhecimento da administraomo da educaomo trrs pertodos principais. No primeiro, intcio da dpcada de 1980 uma tentativa dos educadores de defender a ideia da nmo separaomo entre o pensar e o agir, com rnfase no papel polttico desempenhado pela administraomo da educaomo e destaque nas consequrncias das priticas a favor ou contra as classes menos favorecidas.
O segundo pertodo, marcado pela realizaomo do simpysio com o tema ³A democratizaomo da educaomo e a gestmo democritica da educaomo´, realizado no ano de 1986, o termo gestmo predomina sobre o de administraomo.
Maia (2008), faz menomo a algumas caractertsticas necessirias a uma gestmo democritica, entre elas: novas formas de provimento do cargo de diretor; formaomo continuada de professores; maior flexibilidade e autonomia para as escolas; planejamento dinkmico e participativo; tomada de decis}es coletiva.
Finalmente, no terceiro pertodo, a autora localiza a continuidade na utilizaomo paralela dos termos administraomo e gestmo, destacando que, ao primeiro foram associadas formas antidemocriticas de trabalho, individualismo, hierarquizaomo e centralizaomo das decis}es, ji no tocante ao segundo termo, foram relacionadas as possibilidades desenvolvimento de relao}es menos hierarquizadas. ³[...] nestas predominam debates, afloram conflitos e as decis}es smo tomadas coletivamente, mediante vistvel participaomo dos atores interessados e com descentralizaomo das ao}es no sistema educacional e nas unidades escolares´ (MAIA, 2008, p.
42).
Nessa perspectiva, Lima (2003), alerta que por foroa das priticas neoliberais as organizao}es e administrao}es p~blicas trm buscado equiparar-se js organizao}es econ{micas, adotando critprios de produtividade, eficicia e eficirncia, ficando assim espoliadas do sentido polttico da descentralizaomo, autonomia, participaomo, democratizaomo e justioa social. Para este autor ³[...] as organizao}es e administrao}es p~blicas subsumidas pela racionalidade econ{mica dos programas de modernizaomo de tendrncia neoliberal tornam-se mais uma empresa a servioo do mercado´ (LIMA, 2003, p. 53).
Nesse sentido, segundo Mendonoa
nmo restam d~vidas de que as instituio}es educacionais brasileiras nmo escapam da ideologia da regulaomo pelo mercado, pelo fato de que as poltticas governamentais da educaomo subordinam-se a essa ideologia, porpm, aos poucos a luta pela democratizaomo das relao}es intra sistema e intra escola, paradoxalmente, vai conquistando esses espaoos (MENDONdA, 2000, p, 92). Com uma vismo histyrico crttica, Mendonoa (2000) esclarece qumo diftcil p a conquista da democracia e da gestmo democritica no campo educacional, em nosso pats, que viveu sob o jugo de governos autoritirios e tecnocriticos.
Uma das dificuldades no trato das quest}es ligadas j temitica da gestmo democritica p a do seu ntvel de abrangrncia. Resultado de um longo processo de luta pela democratizaomo da educaomo no pats p compreenstvel que seu escopo esteja impregnado de todo tipo de reivindicaomo decorrente desse esforoo, do qual participaram em diferentes graus de engajamento [...] grupos sociais que, mesmo nmo atuando ou recebendo diretamente servioos da escola, reconhecem na educaomo uma importante bandeira a ser defendida (MENDONdA, 2000, p. 94).
e importante ressaltar que a gestmo democritica faz parte de um conjunto amplo de mecanismos e procedimentos, desde a aomo nas estruturas mais amplas da sociedade atp j gestmo da escola.
Para Fplix (1989), a transposiomo das teorias da administraomo de empresas para a escola p o resultado de um desenvolvimento teyrico incapaz de abarcar todas as priticas administrativas da escola.
Libkneo (2008, p. 21) justifica essa adoomo por considerar a escola como instituiomo educativa com tarefas sociais e pticas peculiares, com um cariter profundamente democritico. Para atingir esses objetivos sociopoltticos, a escola precisa criar e desenvolver uma estrutura organizacional prypria (setores, cargos, atribuio}es, normas), uma tecnologia, uma cultura organizacional, processos de gestmo tomada de decis}es e anilise de resultados, de modo a contribuir com o processo de democratizaomo da comunidade.
Com este entendimento, reconhece que:
A organizaomo e gestmo da escola adquirem um significado bem mais amplo, para alpm de referir-se apenas a quest}es administrativas e burocriticas. Elas smo entendidas como priticas educativas, pois passam valores, atitudes, modos de agir, influenciando as aprendizagens de professores e alunos (LIBÆNEO, 2008, p. 30-31).
Nmo queremos alegar o desprezo aos aspectos de organizaomo da instituiomo escolar, importa entretanto, que a rnfase da escola nmo esteja voltada prioritariamente j burocracia, como tem sido a t{nica observada na maioria das instituio}es escolares.
Tomamos para nossa referrncia teyrica o entendimento de gestmo escolar democriticos, visando ao bem pessoal e a convivrncia social. Queremos exprimir com isso que a forma de dirigir a escola p~blica nmo pode ser determinada por um modelo modernizador de orientaomo empresarial.
Acerca do assunto, Santos (2000, p. 12) explica que:
Esquecem-se os apologistas da gestmo empresarial que a escola p diferente da empresa na sua essrncia, por ser um espaoo de celebraomo da vida, do encontro organizado com o outro; espaoo de liberdade pessoal, intelectual e crttica; de inovaomo, formaomo, crescimento e sobretudo, produomo do novo na perspectiva de mudanoa da realidade - esta p a especificidade dela.
Essa afirmaomo reforoa o sentido polttico da democracia escolar, incompattvel ³[...] com conotao}es gererencialistas, com os processos conservadores em que a participaomo surge associada a tpcnicas de gestmo eficazes, com vistas j racionalizaomo dos sistemas educativos´ (LIMA, 2003, p. 52). e necessirio, no entanto, levarmos em conta que a escola p um espaoo de contradio}es, confrontos e diferenoas. Assim, pode ser tanto um local produtor como reprodutor de ideologias.
A participaomo na escola, contudo p um desafio, ³[...] nmo p posstvel transitar da conscirncia ingrnua' para o processo de conscientizaomo' e para o exerctcio da conscirncia crttica' a nmo ser pela experirncia da participaomo crttica e da verdadeira participaomo'´ (LIMA, 2001, p. 32). Tambpm nmo se pode prescindir, de acordo com este autor, do fato de que a escola p integrada a um sistema de ensino p~blico, tradicionalmente, centralizado.
Paro (2008, p. 18), adverte que³[...] na escola p~blica hi que se considerar, tambpm, que sua pritica esti tmo perpassada pelo autoritarismo, que o discurso liberalizante mal consegue escamotei-lo´ e explicita que:
[...] esse discurso parece nmo conseguir encobrir totalmente p que se a participaomo depende de algupm que permite sua manifestaomo, entmo a pritica
em que tem lugar essa participaomo nmo pode ser considerada democritica, pois democracia nmo se concede, se realiza (PARO, 2008, p.18).
Nesse sentido, a concessmo de participaomo oferecida pelo Estado limita-se a servir aos interesses daqueles que detrm o poder econ{mico e polttico na sociedade ³[...] uma sociedade autoritiria, com tradiomo autoritiria, com organizaomo autoritiria e, nmo por acaso, articulada com interesses autoritirios de uma minoria, orienta-se na direomo oposta j da democracia´ (PARO, 2008, p. 20).
Como tal, para que a participaomo na escola, de fato, contribua para uma educaomo democritica, deve ultrapassar o tipo de participaomo concedida, uma vez que vem ³a ser parte de poder ou de influrncia exercida pelos subordinados e considerada como legttima por eles mesmos e seus superiores´ (BORDENAVE, 1994, p. 29). Acerca da participaomo concedida, este autor reconhece que:
O chamado planejamento participativo ', quando implantado por alguns organismos oficiais, frequentemente nmo p mais que um tipo de participaomo concedida, e js vezes faz parte da ideologia necessiria para o exerctcio do projeto de direomo-dominaomo da classe dominante. Com efeito, a ideologia dominante objetiva manter a participaomo do indivtduo restrita aos grupos baseados em relao}es sociais primirias, como local de trabalho, a vizinhanoa, as paryquias, as cooperativas, as associao}es profissionais etc., de modo a criar uma ilusmo de participaomo' polttica e social (BORDENAVE, 1994, p. 29).
A participaomo nmo resulta de uma migica, que basta ser proposta em textos legais para se tornar realidade. Os determinantes econ{micos, sociais, poltticos e culturais agem em favor da tendrncia social dominante, tornando muito diftcil toda aomo em sentido contririo.
Como explica Paro (2008, p.23 passim)
Para examinarmos os determinantes imediatos do autoritarismo, que no interior da escola dificultam a participaomo efetiva da comunidade na gestmo escolar, p preciso mencionar os m~ltiplos interesses dos grupos que at interagem, bem como os condicionantes materiais, institucionais e ideolygicos desse autoritarismo.
Para uma efetiva gestmo democritica, este autor (2008, p. 25) destaca a necessidade de conhecimento e a superaomo de trrs ³condicionantes´ do autoritarismo na escola p~blica:
x condicionantes materiais: condio}es de trabalho predominantes na escola, precariedade do prpdio e dos equipamentos, falta de recursos diditicos, baixo salirio de pessoal e especialmente o dos professores, jornada de trabalho exaustiva;
x condicionantes institucionais: existrncia de relao}es verticais, de mando e de submissmo, papel do diretor como autoridade mixima na escola;
x condicionantes ideolygicos: concepo}es e crenoas, sedimentadas nas pessoas, que movem priticas e comportamentos que violam a autonomia do outro.
As condio}es objetivas de trabalho na escola obstruem o desenvolvimento de relao}es democriticas do espaoo escolar. A aomo transformadora destes condicionantes p indispensivel j consolidaomo de uma gestmo democritica, consistente e duradoura. Essas condio}es permitem transitar em direomo a uma pritica democritica.
A democracia na escola balizada por uma construomo coletiva desenvolve-se com base em referrncias teyricas e se efetiva por atos e relao}es que acontecem na realidade concreta. A participaomo precisa ser trabalhada e vivida por pessoas democriticas se apropriando de informao}es necessirias j realizaomo da democracia escolar.
Gadotti (2002, p. 51), explica que sem informaomo sobre a estrutura e o funcionamento da educaomo bisica, no ³quadro da lygica polttica econ{mica que orienta o Estado brasileiro a participaomo nmo se torna posstvel, ou se mantpm nas inteno}es´.
Bordenave (1994, p. 12) enfatiza que³[...] a participaomo pode ser implantada tanto com o objetivo de liberaomo e igualdade como para a manutenomo de uma situaomo de controle de muitos por alguns´.
Na correlaomo de foroas entre os atores sociais das esferas do Estado e das sociedades polttica e civil, definem-se as formas de atuaomo, as ao}es governamentais e, por conseguinte, trava-se o jogo das poltticas sociais. Desse modo, ³a escola nesta perspectiva nmo se reduz a um mero reverso das poltticas ', mas, antes, configura-se como um espaoo de reconstruomo e de inovaomo, oferecendo elementos para a formulaomo de novas poltticas´ (VIEIRA, 2007, p. 6).
Para esta autora, a anilise das poltticas de educaomo deve alcanoar a escola e seus agentes que, em um movimento de ida e volta, devem apreender como as ideias se materializam em ao}es, traduzindo-se, ou nmo, na gestmo educacional e escolar.
A esse respeito, Cury (2001), afirma que as poltticas se configuram como um complexo contradityrio de condio}es histyricas, que implicam um movimento de ida e volta entre as foroas sociais em disputa. Bordenave (1994, p. 12) entende que,
Do ponto de vista dos setores progressistas, a participaomo facilita o crescimento da conscirncia crttica da populaomo, fortalece seu poder de reivindicaomo e a prepara para adquirir mais poder na sociedade. [...] por meio da participaomo, conseguem-se resolver problemas que ao individuo parecem insol~veis se contar sy com suas pryprias foroas. [...] do ponto de vista dos planejadores democriticos, a participaomo garante o controle das autoridades por parte do povo, visto que as lideranoas centralizadas podem ser levadas facilmente j corrupomo e j malversaomo de fundos.
necessidade polttica como caminho mais adequado para o enfrentamento dos problemas dos patses em desenvolvimento. Nesse sentido, a finalidade da participaomo torna-se prioritariamente, um instrumento para soluomo de problemas.
Neste estudo, adotamos a participaomo em um sentido que expressa uma necessidade pessoal e social inerente ao ser humano. A participaomo como exerctcio da democracia, pois democracia p apreendida pritica da participaomo (LIMA, 2002, p. 33).
O conceito da participaomo que tomamos neste trabalho pauta-se no entendimento da participaomo como um processo educativo. A participaomo individual no processo polttico de tomada de decis}es, torna necessirio para o estabelecimento e manutenomo da liberdade social no Estado democritico.
Nesse sentido, com a existrncia da participaomo coexiste uma dimensmo individual e uma social, as quais Paro (2007) julga fundamental para a escola realizar seus objetivos educacionais. O autor assim manifesta:
Entendida a educaomo como atualizaomo histyrica do homem e condiomo imprescindtvel, embora nmo suficiente, para que ele, pela apropriaomo da cultura produzida historicamente, construa sua prypria humanidade histyrico-social, parece justo admitir que a escola fundamental deva pautar-se pela realizaomo de objetivos numa dupla dimensmo: individual e social. [...] A dimensmo individual diz respeito ao provimento do saber necessirio ao autodesenvolvimento do educando, dando-lhe condio}es de realizar o bem-estar pessoal e o uso fruto dos bens sociais e culturais postos ao alcance dos cidadmos. Por sua vez, a dimensmo social liga-se j formaomo do cidadmo tendo em vista sua contribuiomo para a sociedade, de modo que sua atuaomo concorra para a construomo de uma ordem social mais adequada j realizaomo [...] da liberdade como construomo social. Se entendermos a democracia nesse sentido mais elevado de mediaomo para a construomo e exerctcio da liberdade social, [...] podemos dizer que essa dimensmo social dos objetivos da escola se sintetiza na educaomo para a democracia (PARO, 2007, p. 16-17).
A democracia como realizaomo na escola dessas duas dimens}es, requer correspondrncia entre discurso e priticas. Sabemos que a polttica da gestmo democritica escolar nmo garante por si sy a participaomo na instituiomo, o que compromete a existrncia democritica neste espaoo educacional. Concebida apenas como mptodo de gestmo, a democracia nmo pode ser alcanoada em seu sentido pleno.
Nossa abordagem de democracia, a gestmo escolar deve considerar o processo pedagygico, sua funomo educativa, no sentido mais elevado de mediaomo para a construomo e exerctcio da liberdade e emancipaomo dos sujeitos. Assim, compreendemos a democracia na gestmo da escola na pritica da participaomo, modo de resistir j via que a reduz ao decretado nas leis e nos programas de governo, os quais conduzem a despolitizaomo e risco de ter sua existrncia no campo do³discurso´ sem a real democratizaomo do espaoo escolar.
Para uma gestmo escolar democritica p imprescindtvel a existrncia pessoas democriticas. e posstvel, entretanto, desvelar o cenirio oriundo da polttica educacional de gestmo democritica e iniciar priticas efetivas de democracia. Essa p uma tarefa complexa e de diftcil execuomo, porpm, sabemos que a realidade escolar esti repleta de contradio}es que precisam ser aproveitadas como ponto de partida para ao}es em prol da transformaomo, pois p na pritica escolar cotidiana que os determinantes imediatos do autoritarismo precisam ser enfrentados. Acreditamos que pela participaomo, essrncia da democracia, podemos chegar j educaomo democratizante, diferentemente de uma democracia como existrncia apenas de regras de gestmo.
Buscamos esses substdios teyricos da gestmo democritica escolar porque estmo afinados com nossos objetivos de pesquisa. Neles, vimos a possibilidade de ampliar o diilogo com a democracia.
Esse esforoo analttico permite-nos o aprofundamento do estudo do pressuposto de gestmo presente nos conte~dos dos mydulos do Progestmo. Vejamos, entmo, o que p o Progestmo, em que democracia esse programa se inspira e que tipo de pritica democritica pode efetivar-se na gestmo da escola derivada desse programa.