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A TUTELA PENAL DO MEIO AMBIENTE

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A TUTELA PENAL DO MEIO AMBIENTE

DAUD JÚNIOR, Antonio (Unitri, correspondência [email protected]).

LANGONI, Msc Rafhaella Cardoso (Unitri, correspondência

[email protected]).

Resumo: o presente artigo discute a tutela penal ao meio ambiente, a partir de pesquisa bibliográfica, abordando sua possível incompatibilidade com o direito penal e a inefetividade da Lei de Crimes Ambientais brasileira. Observa-se que a lei brasileira tornou-se inefetiva, tendo em vista a dificuldade do direito penal amoldar-se aos ilícitos de ordem ambiental.

Palavras-chave: tutela, penal, ambiental.

1 Introdução

Nos primórdios da humanidade, a relação do homem com o meio ambiente foi marcada pela sobreposição desta sobre os seres humanos. O homem dela dependia e era efetivamente controlado pela natureza. A fúria dos elementos da natureza era miticamente aplacada por meio de rituais e sacrifícios humanos, já que o desconhecido gera crença e mitos. Assim, inicialmente, o homem era frágil na sua defesa ante as agressões dos fenômenos naturais e dos animais, dificultando a sua luta pela subsistência alimentar e pela sobrevivência.

Em um segundo momento, a partir do domínio do fogo, da agricultura e da domesticação dos animais, esta relação começa a se inverter. Este controle foi aumentando, de modo que a humanidade passa a crer que sobre a natureza poderia triunfar eternamente. Com as revoluções industriais (séculos XVIII-XX), a sociedade adotou um industrialismo sem consideração qualquer à qualidade da intervenção humana na natureza, ou à questão da sustentabilidade desse desenvolvimento industrial.

Nesse ínterim, as ações humanas poluidoras e degradadoras adquirem extensão e profundidade, de modo que os problemas ambientais, em escala global, se acentuam, muito devido também aos padrões de consumo de parcela da população.

É notório e de grande repercussão os danos ao meio ambiente causados pela ação do homem. A redução da camada de ozônio, o degelo dos polos, a poluição dos rios, da atmosfera e das florestas, os desmatamentos e as extinções de espécies vegetais e animais são apenas algumas das formas por meio das quais o meio ambiente é diariamente deteriorado. Tais flagelos preocupam, justificadamente, toda a opinião pública. A gigantesca atividade industrial, o alto consumo de

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combustíveis fósseis e a especulação imobiliária são apontados como as principais causas desses atentados contra a natureza.

Diante desse contexto, a humanidade passa a ter percepção da degradação provocada no planeta em virtude de sua ação e a discutir mecanismos para tentar contê-la.

Além da tentativa de preservação do meio ambiente enquanto patrimônio da humanidade, o homem toma consciência de que não sobreviverá sem o meio ambiente. Assim, como forma de garantir a sobrevivência das futuras gerações, a humanidade passa a discutir meios para assegurar a preservação do meio ambiente.

Um dos principais mecanismos vislumbrados é a tutela do ordenamento jurídico ao meio ambiente. Assim, a sociedade passa a exigir que o Estado tutele o meio ambiente, de modo a preservá-lo, inclusive como forma de garantir a vida das gerações futuras. Nesse sentido, tornou-se politicamente correta a proteção e a preocupação com o meio ambiente.

Dessa forma, diante da degradação e da poluição, dos danos à saúde e ao equilíbrio das condições de vida decorrentes, uma das mais significativas respostas do homem consciente ao homem poluidor consistiu em estabelecer legislação de proteção ao meio ambiente em geral e aos bens ambientais especificamente considerados.

De toda a tutela jurídica ao meio ambiente, discutir-se-á, neste artigo, especificamente a tutela penal sobre o meio ambiente, uma vez que existe grande celeuma doutrinária acerca da viabilidade e da efetividade da tutela penal do meio ambiente.

O tema é de grande relevância para toda a humanidade e também para a sociedade brasileira, sobretudo se for considerado que o Brasil, um dos países com maior biodiversidade, é dotado de grande riqueza natural e possui, em seu território, grande parte da Floresta Amazônica, o proclamado “pulmão do mundo”. Além disso, o Brasil é considerado como sendo o segundo país mais poluidor da América Latina (CALIXTO, 2012).

Assim, o debate deste tema, de “colorido” criminológico, tem grande relevância para o direito penal em si, visto que se questiona a possibilidade jurídica desta aplicação do direito penal. Por conseguinte, o tema revela grande importância para a própria preservação do meio ambiente, enquanto efetividade da tutela penal ambiental, e das soluções jurídicas criadas.

Para tornar o debate ainda mais complexo, vale ressaltar que várias das condutas que causam danos ao meio ambiente são necessárias para a própria sobrevivência humana e outras são frutos do nosso modelo de desenvolvimento socioeconômico.

Frisa-se que a análise da viabilidade da penalização de condutas atentatórias contra o meio ambiente não pode ser confundida com qualquer menosprezo pelo ambiente ou pela ecologia, muito pelo contrário. Com esta discussão, de contornos eminentemente jurídicos, busca-se também verificar a efetividade da política criminal ambiental, até mesmo porque o direito, enquanto fenômeno social, não pode se desprender da tentativa de solução dos conflitos humanos.

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Para atender aos objetivos desta discussão, utilizou-se, para fins metodológicos, o levantamento e a pesquisa bibliográfica na doutrina especializada. Mais detidamente, buscou-se analisar os fundamentos das opiniões dos principais estudiosos do direito penal ambiental à luz da legislação brasileira.

Não obstante, ante a existência de situação análoga no direito alemão e a percuciência da análise realizada por um dos grandes estudiosos no assunto, trouxeram-se à lume as conclusões esposadas neste estudo, para fins de análise do direito comparado. Apesar de as conclusões tomarem por base a legislação alemã e seu contexto fático, consideraram-nas amplamente aplicáveis à realidade brasileira.

2 A tutela penal ao direito ambiental

No Código Penal brasileiro original (Decreto-Lei 2.848/1940) e na Lei de Contravenções Penais original (Decreto-Lei 3.688/1941), havia poucos tipos penais relacionados à proteção ambiental.

Posteriormente, o Congresso Nacional promoveu uma atualização das tipificações penais ambientais, por meio do antigo Código Florestal (Lei 4.471/1965), hoje revogado pela Lei 12.651/2012, e por meio de diversas outras leis ambientais específicas, como aquelas que previram crimes e penas para a poluição do solo, da água e do ar (e.g., Lei 3.924/1961 e Lei 5.197/1967).

Na sequência, com a promulgação da Carta Magna, o meio ambiente foi definitivamente erigido a direito fundamental, a ser protegido, inclusive, penalmente, tendo como sujeitos passivos as gerações presentes e as futuras.

Já sob a égide da Carta Magna de 1988, foi publicada a Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, a qual impôs sanções administrativas e penais às condutas lesivas ao meio ambiente.

Tal diploma legal, intitulado de Lei de Crimes Ambientais (LCA), foi aprovado em meio à grande pressão da mídia, inclusive internacional, e no curso de ano eleitoral no âmbito federal.

Destarte, por consistir no principal marco normativo da tutela penal ambiental no país, este artigo se dedicará à Lei de Crimes Ambientais.

2.1 A tutela penal ao direito ambiental e a principiologia do Direito Penal

O principal mérito da Lei de Crimes Ambientais consiste na sistematização das principais infrações penais contra o meio ambiente em um único diploma legal (CARNEIRO; LANGONI, 2010), ainda que haja infrações ambientais tipificadas em outros textos normativos.

Analisando os tipos penais nela previstos, observa-se, a partir do seu art. 29, o rol dos crimes contra o meio ambiente, divididos em: Crimes contra a Fauna (seção I), contra a Flora (seção II), Crimes Ambientais ligados à Poluição (seção III), Crimes contra o Ordenamento Urbano e o Patrimônio Cultural (seção IV) e dos Crimes contra a Administração Ambiental (seção V).

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Quanto às espécies de penas aplicadas, observa-se prevalência das penas privativas de liberdade (reclusão e detenção), havendo também causas especiais de aumento de pena e outras penas restritivas de direito e multa.

A legitimidade da criminalização de condutas, de maneira geral, reside no bem jurídico a ser tutelado. Em outras palavras, diz-se que o bem jurídico é, neste cenário, instrumento de limitação material do injusto (DA COSTA, 2010, p. 37).

Ao se perquirir a utilização do meio ambiente como bem jurídico a ser tutelado, o obstáculo no qual se esbarra reside na própria dificuldade de se determinar e definir o que é o meio ambiente.

Nessa esteira, o risco de se utilizarem acepções amplas para o meio ambiente, no âmbito penal, consiste no alargamento do direito penal ambiental decorrente de amplas criminalizações. Ora, tal efeito esbarra em um dos princípios basilares do direito penal, qual seja: o da intervenção mínima ou ultima ratio.

Como decorrência da utilização de bens jurídicos com conceitos vagos e incertos, tem-se a utilização de conceitos vagos e genéricos na redação dos tipos penais e a utilização de formas penais de perigo abstrato. Assim, deve-se utilizar um conceito mais estreito e concreto de meio ambiente, até para ser possível limitar a esfera de atuação penal.

Para Helena Regina Lobo da Costa (DA COSTA, 2010, p. 50), o meio ambiente deve ser tratado como bem jurídico na sua acepção de elemento essencial para o desenvolvimento da personalidade humana, ou seja, fundamenta-se a proteção do meio ambiente a partir da pessoa. Tal visão consiste na acepção antropocêntrica do meio ambiente, a qual se difere da ecocêntrica, que encara no meio ambiente um valor intrínseco, de modo que sua proteção seria um fim em si mesma, e não um meio de se garantir o desenvolvimento e a sobrevivência humana. Assim, por considerar que a pessoa é o centro e o objetivo de todo o ordenamento jurídico, conclui-se que a visão antropocêntrica é a única admitida pela Constituição Federal, até mesmo porque, na topologia constitucional, o capítulo dedicado ao meio ambiente está inserido no título da ordem social.

Neste sentido, não se vislumbra a possibilidade de se considerar, enquanto bem jurídico, a proteção como valor em si mesmo, tampouco como mero interesse do Estado. Por esse motivo, a doutrina critica a criminalização do embaraço à fiscalização ambiental, estabelecida no art. 69 da LCA (tutela da mera ação fiscalizatória do Estado), e a criminalização da destruição de plantas de logradouros públicos, prevista no art. 49 (tutela do meio ambiente por seu valor em si).

Além disso, diz-se que (DA COSTA, 2010, p. 6) “a proteção de um bem jurídico é pressuposto inarredável do tipo penal, mas de forma alguma suficiente”. Assim, deve-se analisar também se os demais princípios do direito penal são atendidos e se a tutela penal é a forma mais adequada de proteção àquele bem jurídico.

Nesse sentido, outra crítica de grande pertinência apontada pela doutrina consiste na falta de razoabilidade das sanções estabelecidas pela Lei, havendo o crime de maus-tratos de animais (art. 32 da LCA), cuja sanção cominada é igual à imposta para o crime de lesão corporal de seres humanos (art. 129 do Código Penal).

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Outro fato que gera muitas críticas da doutrina é a ampla utilização de crimes de perigo abstrato. De modo geral, a doutrina critica sua utilização em todas as searas do direito penal, mas não chega a um consenso sobre a legitimidade desse uso.

Nesse sentido, Ângelo Roberto Ilha da Silva (2003, p. 73) afirma que quando a conduta típica tutelada possuir um perigo inerente, não há violação aos princípios constitucionais. Não se deve confundir bem jurídico tutelado com o objeto da conduta, ou objeto jurídico do crime com seu objeto material.

Helena Regina Lobo da Costa (2010, p. 64) afirma que o direito penal, por ser instrumento de controle social que atua por meio da imputação de responsabilidades individuais no trato social com bens jurídicos, ele amolda-se melhor quando utiliza os clássicos delitos de resultado.

De qualquer maneira, a criminalização da mera desobediência à legislação tem como efeito o surgimento de uma infinidade de ilícitos penais de bagatela que abarrotam as instituições de persecução criminal (Polícias e Ministério Público) e tornam a legislação cada vez menos efetiva e esvaziam a finalidade preventiva da pena.

Além da dificuldade da utilização das figuras de perigo abstrato no direito penal como um todo, mais complexa é a sua utilização no âmbito do direito penal do meio ambiente.

Outra crítica contundente por parte da doutrina reside na ampla necessidade de complementação da LCA pelo Direito Administrativo, o que diminui a clareza necessária à compreensão da norma e, por conseguinte, a necessária segurança jurídica.

Dada a complexidade das situações fáticas que permeiam os ilícitos ambientais, as quais os tipos penais não conseguem abarcar, resta inafastável a assessoriedade do Direito Administrativo.

Ademais, outro fato que dificulta a aplicação da lei penal ambiental reside na necessidade de se comprovar a relação de causalidade entre a conduta do agente e o resultado naturalístico, como decorrência do art. 13, caput, do Código Penal (teoria da equivalência dos antecedentes causais). Por exemplo, em uma situação de poluição de um rio em um complexo industrial com diversos agentes, como comprovar a relação de causalidade entre a conduta de um desses agentes e o aumento da poluição do rio? Quanto era a poluição anterior? Como e quando foi medida? Qual dos agentes ocasionou a poluição?

Ora, se é incerto o resultado naturalístico (materialidade do crime), tampouco sua autoria, torna-se extremamente complexa a comprovação da relação de causalidade nos moldes exigidos pelo direito penal.

Assim, a lei brasileira tentou solucionar toda esta complexidade por meio de diversos artifícios. Cita-se, como exemplo, a extensão da posição de garante ao diretor, administrador e membro de conselho técnico de pessoa jurídica, entre outros agentes, quando, sabendo da conduta criminosa de outrem, deixarem de impedir sua prática (art. 2º da LCA).

Miguel Reale (1999, p. 122) considera que, por meio da criação dessa forma de crime comissivo por omissão, cria-se um dever genérico de impedir a prática delituosa, e verifica-se “um dos mais gritantes exemplos de neototalitarismo penal”.

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Com relação à responsabilização penal das pessoas jurídicas, em virtude do dano ambiental, faz-se necessário resgatar a previsão contida no art. 225, § 3.º, da Constituição Federal, in verbis:

as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. (grifou-se)

Entretanto, ao dar cabo à previsão constitucional transcrita acima, a Lei 9.605/1998 não buscou dirimir as dúvidas sobre esta excepcionalidade de responsabilização penal, pois prevê, explicitamente, a responsabilização criminal de pessoa jurídica (art. 3º), mas o fez de forma vaga e incompatível com as regras de imputação penal previstas no Código Penal e demais legislações processuais penais.

2.2 A (in)efetividade da Lei de crimes ambientais

A doutrina (DA COSTA, 2010, p. 116-125) cita alguns indicadores da inefetividade da legislação. Um dos mais relevantes consiste na inefetividade instrumental, ou seja, a incapacidade da lei de direcionar o comportamento humano, ou seja, de realizar o controle social.

Dados do Instituto de Nacional de Pesquisas Espaciais (2006, p. 10) revelam que de 1995 a 2004 o desmatamento da Amazônia se mantém praticamente constante, de modo que a LCA parece não apresentar qualquer tipo de alteração positiva. Na verdade, houve apenas a redução de 1998 para 1999, possivelmente decorrente do efeito, de curto prazo, da aprovação da lei, mas sem efeitos de médio ou longo prazos, o que demonstra ausência de contribuição da LCA no controle do dano ambiental.

Ademais, em decorrência mormente da ampla utilização de tipos de perigo abstrato, tem-se, primordialmente, a punição de fatos de menor lesividade ao meio ambiente por meio da LCA, em geral casos de bagatela. Exemplo disto é a pesquisa realizada no Rio Grande do Sul (MORAES, 2004 ,p. 183-184), na qual concluiu-se que, dos delitos fiscalizados administrativamente, 46% consistiam em delitos de pessoas físicas como pesca, e outros 16% diziam respeito sobre delitos relacionados a pássaros em cativeiros. Na mesma pesquisa, ao analisar os casos que foram objeto de persecução criminal, observou-se que “não foram apurados nenhum poluidor de peso”.

Ante esses dados estatísticos, associados a todas as outras observações anteriores, resta evidente a inefetividade da Lei de Crimes Ambientais no controle social do dano ambiental. Esta conclusão leva à inevitável discussão sobre a possibilidade de a lei ter sido aprovada de modo meramente simbólico.

Nesse sentido, Helena Regina Lobo (2010, p. 124) cita que, para se analisar a possível conotação simbólica de uma legislação, deve-se levar em conta que a possibilidade de mero simbolismo será maior quanto/quando: 1) maior a pressão relacionada ao problema (pressão de opinião pública ou grupos de interesse); 2) menores as possbilidades de resolução efetiva do problema; 3) há interesses conflitantes; 4) o legislador quer contemplar o interesse mais forte faticamente, e o

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mais fraco apenas simbolicamente; 5) maior a complexidade do problema. 6) quanto mais heterogêneo o círculo de destinatários.

Assim, como todas estas circunstâncias estiveram presentes na aprovação da LCA, grandes são as chances de ela ter surgido como diploma meramente simbólico.

Ademais, como é cediço, em virtude de reações a fatos de grande repercussão na mídia e de comoção da sociedade, em geral, ocorre o aumento da severidade das penas por parte do legislador e a criminalização de condutas, sem qualquer preocupação com a observância aos princípios do direito penal ou com a sistematização dos tipos existentes.

Dessa forma, são grandes as chances de a LCA ter surgido e se tornado uma lei meramente simbólica, aprovada como uma suposta solução para o problema ambiental nacional, mas dirigida muito mais a uma satisfação política da sociedade do que à efetiva alteração de comportamentos.

Destarte, além de não ter sido capaz de efetivar o controle social do dano ambiental, a que supostamente se destinaria, a atual LCA consiste em ilusão de que o problema da proteção ao meio ambiente será por ela solucionado. Ora, tal ilusão precisa ser desmistificada para que o Estado possa iniciar o debate sobre formas efetivas de proteção ambiental e, só então, passar a resguardar o patrimônio ambiental brasileiro.

2.3 O exemplo alemão

Por ser de extrema relevância e aplicabilidade ao caso brasileiro, dedicar-se-á esta seção ao relato da análise efetuada pelo pesquisador alemão Winfried Hassemer (HASSEMER, 1995) acerca de legislação semelhante criada naquele país.

Para o pesquisador (HASSEMER, 1995, p. 2), o direito penal, considerando o seu papel no tocante à política ambiental, tem-se revelado amplamente contraproducente, chegando a afirmar que “quanto mais direito penal do ambiente, menos proteção ambiental” (HASSEMER, 1995, p. 3).

Assim, na suposta tentativa de se aumentar a tutela ao meio ambiente, a Alemanha promoveu, nos anos oitenta, uma reforma do direito penal ambiental alemão, com a consequente ampliação da tutela penal, por meio da criminalização de novas condutas e do aumento do rigor das penas.

Winfried Hassemer (1995, p. 3) cita que a ampliação do direito penal ambiental alemão, ao invés de dar mais garantia à proteção do meio ambiente, acabou resultando em um déficit na aplicação das penas da ordem de 95%, tendo em vista a complexidade dos processos penais e a tendência de persecução dos pequenos poluidores em privilégio das grandes empresas.

Mesmo nos poucos casos em que as penas eram aplicadas, a autora relata que as penas eram irrisórias se comparadas ao dano causado, visto que os juízes, ao realizarem a dosimetria da pena, levavam em consideração essa falta de isonomia dos casos apenados, e aplicavam pequenas penas na tentativa de diminuir a injustiça inerente ao sistema persecutório.

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Segundo o pesquisador (HASSEMER, 1995, p. 4), a causa para este cenário, de baixa eficácia da lei penal ambiental, reside no fato de que o direito penal não é o instrumento adequado para lidar com o problema ambiental.

Segundo o mesmo autor, o direito penal é voltado para a repressão, enquanto o direito ambiental é vocacionado à preservação, isto é, para a prevenção dos ilícitos. Além disso, o direito penal, pela necessidade de se perquirir a individualização das condutas, não se amoldaria às situações de danos ambientais, porquanto estes atentados contra o meio ambiente geralmente são perpetrados em conjunto, por meio de complexas organizações.

Dessa sorte, o autor conclui (HASSEMER, 1995, p. 4) que o direito penal não é hábil para solucionar a problemática da preservação ao meio ambiente por vários motivos.

O primeiro deles reside no fato de que a Administração deve definir, previamente a qualquer apenação, os limites dentro dos quais as empresas e os cidadãos podem agir no tocante ao meio ambiente. Por exemplo, o órgão técnico da Administração Pública deve definir, a partir de um amplo estudo e da estratégia de preservação adotada, os limites de lançamento de efluentes tóxicos nos mananciais de água.

Assim, somente após concluída esta ampla tarefa pelos órgãos administrativos, o direito penal ambiental poderia ser colocado em prática, até mesmo para se respeitar os princípios da legalidade e da irretroatividade da lei penal, ambos garantidores do instituto da segurança jurídica. Ademais, com a conclusão desta tarefa e a consequente fiscalização da observância dos limites estabelecidos por parte destes órgãos administrativos, o direito penal ambiental perderia sua função.

O segundo motivo diz respeito à necessidade de apuração da responsabilidade individual de cada pessoa natural acusada, em decorrência da gravidade das sanções impostas pelo direito penal. Nesse sentido, os ilícitos ambientais geralmente decorrem de responsabilidade coletiva, por exemplo, de um conselho de administração de uma sociedade anônima ou da diretoria de uma sociedade de responsabilidade limitada etc. Nesse cenário, é imposta ao julgador uma grande dificuldade de imputação de responsabilidades individuais para fins de aplicação das sanções penais. Assim, acaba por ocorrer, nos casos que são levados às Cortes, a responsabilização de alguns indivíduos, sendo que outros responsáveis são deixados impunes, originando mais uma situação de grande injustiça.

O terceiro motivo reside no fato de que esta ineficácia do direito penal ambiental acaba por frustrar o caráter de prevenção geral dessas penas, além do que, em grande número de casos de pena de multa, a empresa acaba por arcar com o pagamento, e não o próprio indivíduo. Assim, a finalidade da pena acaba não sendo atingida.

Destarte, conclui-se (HASSEMER, 1995, p. 4) que o direito penal ambiental nestes moldes é apenas de aparências, criado para atender a finalidades políticas, dando a impressão de que a classe política está atenta e que é sensível aos problemas ambientais.

Dessa sorte, além de não contribuir para a preservação ambiental, tal direito penal ambiental simbólico acaba desobrigando a classe política de estabelecer políticas efetivas de proteção ambiental.

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Portanto, para solucionar a precariedade do atual sistema de tutela do meio ambiente, o autor alemão propugna pela criação de um novo ramo do direito capaz de aglutinar diversos elementos protetivos ao meio ambiente. Neste sistema, de iniciativas integradas, o direito penal ainda deveria existir para capitular algumas poucas condutas praticadas contra o meio ambiente.

Dessa maneira, neste direito penal de amplitude reduzida, não deveria haver penas privativas de liberdade para os crimes contra o meio ambiente, o que reduziria o rigor imposto ao processo de responsabilização individual, simplificando, assim, a imposição de penas aos infratores ambientais.

3 Conclusão

Conforme já relatado anteriormente, várias mudanças sociais, econômicas e tecnológicas trouxeram também danos ao meio ambiente e colocaram em risco a sobrevivência das futuras gerações da espécie humana.

Diante desse cenário, buscou-se no direito uma das principais formas de proteção do meio ambiente, sobretudo no direito penal.

Todavia, ante todo o exposto é possível concluir que há dificuldade estrutural do direito penal para lidar com assuntos ambientais. Tal fato é constatado não apenas no Brasil, mas em vários outros países, como, por exemplo, a Alemanha.

No caso brasileiro, a Lei de Crimes Ambientais, ao prever crimes de perigo abstrato e utilizar amplo conceito de meio ambiente, a legislação atenta contra o princípio da intervenção mínima.

Além disso, deve-se adotar uma visão antropocêntrica do meio ambiente, sob pena de se cometer injustiça na penalização criminal de condutas que tem o meio ambiente como fim.

Outro aspecto que deve ser ressaltado é a falta de razoabilidade da cominação sanções na Lei, citando-se evidente contradição a mesma penalização para os crimes de maus-tratos de animais (art. 32 da LCA) e de lesão corporal (art. 129 do Código Penal).

Ademais, a falta de clareza e a dificuldade de comprovação da relação de causalidade nos delitos ambientais torna ainda mais distante a aplicação da lei.

Diante de todo este cenário, a Lei de Crimes Ambientais mostra-se pouco efetiva, o que denota ser contraproducente a utilização do direito penal para a tutela do meio ambiente, não somente no Brasil.

Dessa maneira, é preciso reconhecer que o direito penal não é estruturalmente capaz de oferecer respostas legítimas e eficientes ao meio ambiente.

Além disso, por melhor que seja a solução jurídica (o que não é o caso), deve-se ressaltar que a receita brasileira de solução de problemas por meio de meras “canetadas” do legislador mais uma vez não se mostra efetiva, visto que qualquer legislação deve ser acompanhada de políticas públicas de conscientização e educação e do adequado aparelhamento das instituições responsáveis pela

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persecução dos delitos, sejam os órgãos administrativos, as polícias e o Ministério Público.

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