Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761
Segredo de justiça e o princípio da publicidade dos atos processuais no Código de
Processo Civil: principais diferenças entre os regimes do CPC/1973 e o CPC/2015
Secret of Justice and the publicity principle of procedural acts in the Code of
Civil Procedure: main differences between the CPC/1973 regimes and the
CPC/2015
DOI:10.34117/bjdv6n11-106Recebimento dos originais: 19/10/2020 Aceitação para publicação: 06/11/2020
Miriam Fecchio Chueiri
Doutora em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Professora permanente da Graduação e do Programa de Mestrado em Processo e Cidadania da
Universidade Paranaense – UNIPAR Advogada
Endereço: Rua Ipiranga, 390, Zona 01, 87200000 – Cianorte/PR E-mail: [email protected]
Sivonei Simas
Mestrando do Programa de Mestrado em Processo e Cidadania da Universidade Paranaense – UNIPAR
Procurador do Município de Paranavaí/PR
Endereço: Rua Getúlio Vargas, Centro, 87702000 – Paranavaí/PR E-mail: [email protected]
Leonardo Fratini Xavier de Souza
Mestrando do Programa de Mestrado em Processo e Cidadania da Universidade Paranaense – UNIPA Procurador do Município de Paranavaí/PR
Endereço: Rua Osires Ramiro de Assis, 113, Jd. Iguaçu - Paranavaí/PR E-mail: [email protected]
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo analisar o Princípio da Publicidade e sua limitação pelo atual Código de Processo Civil, com ênfase nas alterações realizadas pelo sistema processual contemporâneo em comparação ao anterior, que era disciplinado pelo Código de Processo Civil de 1973.
Palavras-Chave: Princípio da Publicidade, Constituição da República Federativa do Brasil, Segredo
de Justiça, Código de Processo Civil, Regimes Processuais.
ABSTRACT
This paper aims to analyze the Publicity Principle and its limitation by the Civil Procedure Code, with an emphasis on the changes made by the current procedural system in comparison with the previous one, regimented by the Civil Procedure Code of 1973.
Keywords: Publicity Principle, Constitution of the Federative Republic of Brazil, Secret of Justice,
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761
1 INTRODUÇÃO
Dentre os inúmeros direitos fundamentais arrolados na Constituição da República Federativa do Brasil, a publicidade dos atos processuais ainda inspira debates, notadamente quando a lei prevê exceções à regra, ou seja, quando dispõe sobre os casos que devem tramitar em segredo de justiça ou em regime de restrição à publicidade.
Além de analisar o preceito constitucional da publicidade, este trabalho pretende identificar a ampliação do rol de exceções no Código de Processo Civil atual e a justificativa superveniente para alteração de regime em relação ao regime processual previsto no Código de Processo Civil de 1973, pautada na mudança de paradigma.
Para tanto, a pesquisa foi desenvolvida utilizando-se da revisão bibliográfica e jurisprudencial.
2 PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE NA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
De antemão, convém destacar que o Princípio da Publicidade na Constituição da República Federativa do Brasil será analisado neste trabalho com relação aos atos processuais (art. 5º, LX), afastando-se, portanto, sua análise sobre os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário ou, ainda, como imposição à administração pública (art. 37, caput), aqui incluindo o próprio Poder Judiciário.
No art. 5º, LX, da Constituição da República Federativa do Brasil a previsão é a de que “a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”.
Conforme afirma Silva (2004, p. 82-83), trata-se de norma constitucional com eficácia contida (prospectiva, redutível ou ainda, relativa restringível, para Michel Temer e Maria Helena Diniz, por exemplo), mas de aplicabilidade direta e imediata.
Além disso, da simples leitura do dispositivo constitucional é possível extrair três informações: 1. A de que a Constituinte delegou à lei a atribuição para restrição à publicidade1; 2. Há limites para lei realizar a restrição (defesa da intimidade ou o interesse social); 3. E a de que a restrição possível é dos atos processuais, e não do processo em si (a existência do processo é pública), conforme destacam Gomes Junior e Ferreira (2015).
E aqui se verifica a impropriedade da expressão trazida pelo legislador “Segredo de Justiça”
1 Do contrário e levando em consideração que não existem palavras inúteis no texto constitucional, a redação seria assim “só poderá ser
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761 , pois há somente, e em casos específicos, restrição à publicidade dos atos processuais, e não o trâmite do processo em Segredo de Justiça.
De acordo com Sarlet (2017, p. 909) ainda é possível verificar que a publicidade pode ser geral ou restrita. Aquela considerada como a que todos têm acesso ao conteúdo do processo (allgemeineÖffentlichkeit), enquanto que nesta (restrita) o acesso é permitido somente às partes ou seus advogados (Parteinöffentlichkeit). Ainda, a publicidade pode ser imediata, ou seja, aquela na qual é facultada ao público em geral, às partes e aos seus advogados a presença no momento da prática dos atos processuais (unmittelbareÖffentlichkeit). Por fim, também pode ser mediata, somente sendo acessível ao público, às partes e aos seus advogados o resultado da prática do ato processual (mittelbareÖffentlichkeit).
Arremata Medina (2017, p. 139) que no ordenamento jurídico interno vigente, “Vê-se, pela letra de referidos dispositivos constitucionais, que o direito brasileiro adota, como regra, o regime de publicidade absoluta (ou externa), limitando-o, contudo, com exceções que são manifestação do regime de publicidade restrita (ou interna). ”
Mas afinal, para que serve a publicidade no âmbito do processo? Pode-se afirmar que “a publicidade dos atos processuais permite sua maior fiscalização, freio indireto aos abusos, uma vez que amplia a possibilidade de acompanhamento e fiscalização do Poder Judiciário pelos concidadãos” (GAJARDONI, 2016, p. 96).
Nesse sentido2, também é a observação do Ministro do Supremo Tribunal Federal, Fux, ao
apresentar seu voto na ADI 4414/AL e observar que “Na clássica lição de Charrier, Justice is not only
to be done, but to be seen to be done”. E continua Fux afirmando que “a publicidade deve ser
considerada uma garantia democrática, que aproxima o Judiciário e os cidadãos, proporcionando um maior controle popular sobre o aparato jurisdicional”.
É por isso que, conforme bem ponderado pelo também Ministro do Supremo Tribunal Federal, Fachin (BRASIL, ADI 4419/AgR), que no caso da publicidade dos atos processuais o legislador deve lembrar que embora seja autorizada pelo Constituinte Originário a mitigação à publicidade, tal “deve receber o tratamento peculiar às restrições a qualquer direito fundamental, como a efetiva demonstração da sua necessidade e a maior brevidade possível da intervenção.
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761 Os princípios jurídicos gerais têm também uma função positiva, «informando» materialmente os actos dos poderes públicos. Assim, por ex., o princípio da publicidade dos actos jurídicos (cfr. art. 122.°) exige que, no caso de ser reconhecida eficácia externa a esses actos, eles sejam notificados aos interessados nos termos da lei (cfr. art. 268.73). Atrás do princípio da publicidade, está a exigência de segurança do direito, a proibição da arcana praxis (política de segredo), a defesa dos cidadãos perante os actos do poder público.
Feitas essas considerações sobre o Princípio da Publicidade, cuja importância e necessidade de conhecimento serão desveladas no desenvolvimento deste trabalho, passa-se a discorrer sobre as exceções legalmente previstas, notadamente aquelas arroladas pelo Código de Processo Civil como Segredo de Justiça.
3 O SEGREDO DE JUSTIÇA NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
3.1 PREVISÃO NO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015 E NO DE 1973
Tal como no Código de Processo Civil de 1973, o Código de Processo Civil traz um rol de hipóteses nas quais é admissível a tramitação do processo em Segredo de Justiça.
Dispõe o Código de Processo Civil que:
Art. 189 Os atos processuais são públicos, todavia tramitam em segredo de justiça os processos: I - em que o exija o interesse público ou social;
II - que versem sobre casamento, separação de corpos, divórcio, separação, união estável, filiação, alimentos e guarda de crianças e adolescentes;
III - em que constem dados protegidos pelo direito constitucional à intimidade;
IV - que versem sobre arbitragem, inclusive sobre cumprimento de carta arbitral, desde que a confidencialidade estipulada na arbitragem seja comprovada perante o juízo.
Com relação ao disposto no art. 155 do Código de Processo Civil de 1973, verifica-se que houve ampliação das exceções à publicidade dos atos processuais, incluindo-se o interesse social (inciso I), a proteção de dados relacionados ao direito constitucional à intimidade (inciso III) e os casos de arbitragem nas condições previstas (inciso IV).
Essas são, basicamente, as alterações textuais sobre os casos que podem tramitar em Segredo de Justiça, mas existem diferenças nos regimes processuais que vão além da simples ampliação do rol.
3.2 DIFERENÇAS ENTRE OS REGIMES PROCESSUAIS DE 1973 E DE 2015
A primeira diferença identificada foi a da ampliação do rol. Mas o por quê dessa ampliação? Com relação ao disposto nos incisos I e III é possível afirmar que se deu em razão da constitucionalização do processo, inclusive com a previsão em capítulo denominado como Normas Fundamentais do Processo Civil.
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761 Muda-se o ponto de vista do processo, antes entendido como um mero instrumento para se chegar a uma determinada decisão, para avançar e internalizar princípios de direito constitucional voltados à pessoa (dignidade da pessoa humana) e ao processo (publicidade e celeridade processual), conforme se extrai do teor do art. 8º do Código de Processo Civil, atraindo a necessidade de uma interpretação lógico-sistemática2 do Código de Processo Civil.
Conforme expõe Theodoro Júnior (2018) ao comentar sobre o atual Código de Processo Civil em relação aos anteriores, “é algo substancialmente diverso e inovador, apresentando-se como um estatuto ideológico, principiológico e sistêmico”. Para referido doutrinador, o caráter ideológico pode ser reconhecido pela impregnação de “apreço a valores ou pressupostos racionalizados institucionalmente a partir dos fundamentos constitucionais da tutela ética proposta pelo moderno Estado Democrático de Direito”.
Sobre o inciso II do art. 189 do Código de Processo Civil, de cunho constitucional, é importante elucidar que, conforme entende Moraes (2018, p. 97):
Os conceitos constitucionais de intimidade e vida privada apresentam grande interligação, podendo, porém, ser diferenciados por meio da menor amplitude do primeiro, que se encontra no âmbito de incidência do segundo. Assim, intimidade relaciona-se às relações subjetivas e de trato íntimo da pessoa, suas relações familiares e de amizade, enquanto vida privada envolve todos os demais relacionamentos humanos, inclusive os objetivos, tais como relações comerciais, de trabalho, de estudo etc.
Por esse motivo é que o Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina não deu provimento ao recurso interposto pela parte que pretendia a tramitação do processo em segredo de justiça em razão da exposição do seu salário3.
E no mesmo sentido foi o entendimento do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná4 ao observar
que:
No caso, embora seja inegável que se revestem de sigilo as declarações de imposto de renda, mas isso não justifica a determinação de processamento do processo com segredo de justiça. Diferente do que alega o embargante, a juntada de declaração de
2 Conforme bem leciona Miguel Reale: “A lei é uma realidade morfológica e sintática que deve ser, por conseguinte, estudada do ponto
de vista gramatical. É da gramática - tomada esta palavra no seu sentido mais amplo - o primeiro caminho que o intérprete deve percorrer para dar-nos o sentido rigoroso de uma norma legal. Toda lei tem um significado e um alcance que não são dados pelo arbítrio imaginoso do intérprete, mas são, ao contrário, revelados pelo exame imparcial do texto. Após essa perquirição filológica, impõe-se um trabalho lógico, pois nenhum dispositivo está separado dos demais. Cada artigo de lei situa-se num capítulo ou num título e seu valor depende de sua colocação sistemática. É preciso, pois, interpretar as leis segundo seus valores linguísticos, mas sempre situando-as no conjunto do sistema. Esse trabalho de compreensão de um preceito, em sua correlação com todos os que com ele se articulam logicamente, denomina-se interpretação lógico-sistemática.” (REALE, 2002 p. 200).
3 Conforme exposto na ementa: “A regra é a publicidade dos atos judiciais; o sigilo é medida excepcional, interpretada restritivamente.
O inciso III do art. 189 do novo CPC, relativo aos dados protegidos pelo direito constitucional à intimidade, não garante também o sigilo quanto àqueles relativos à vida privada” (Agravo de Instrumento nº 0151893-73.2015.8.24.0000).
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761 imposto de renda não se enquadra em nenhuma das hipóteses de tramitação do processo em segredo em justiça previstas no art. 189, do CPC/2015, pois não se confunde com dados protegidos pelo direito constitucional à intimidade.
Embora Dinamarco (2017, p. 68) afirme que no processo arbitral a publicidade é dispensável porque não há exercício da jurisdição estatal e que há “certas conveniências da opção por esse meio de solução de conflitos, inclusive a de preservação de intimidades ou segredos empresariais”, ainda assim houve a inclusão da arbitragem no rol do art. 189 do Código de Processo Civil.
Talvez porque “O sigilo do processo arbitral é concretização do direito fundamental à preservação da intimidade” (DIDIER JUNIOR, 2012, p. 62).
De acordo com Costa (2016), para quem os conceitos de privacidade e confidencialidade são distintos - “aquela diz respeito à exclusão de terceiros da arbitragem; esta, ao dever de não revelar informações sobre o processo” -, há um interessante questionamento que o próprio autor faz em razão do segredo de justiça no caso da arbitragem: “num sistema em que as decisões judiciais têm autoridade como fontes normativas, como compatibilizar o segredo de justiça com a necessidade de conferir-se unidade ao direito, por meio de precedentes, na área da arbitragem?”.
O próprio Costa responde a indagação (2016) no sentido de que a melhor solução para o problema, ou a solução ótima, seria encontrar na prática de publicação das decisões ou extratos “higienizados”, de modo a permitir o conhecimento do direito aplicável, mas sem a identificação das partes, da lide ou ainda “quaisquer outros fatos históricos desnecessários para garantir a cognoscibilidade do direito”.
De modo similar é o que já ocorre no sistema processual da Argentina, conforme relata Bermejo (2009) ao destacar que:
Aún cuando se lo efectúa con valor científico como la cita de los casos jurisprudenciales, en las causas en las que está involucrada la intimidad o el honor de las personas, como son los procesos penales o los vinculados a temas de familia u honor de las personas se suprimen los nombres completos de su contenido y sólo quedan sus iniciales.
Em nosso sistema processual civil, talvez, seja o caso de simplesmente observar que a Constituição da República Federativa do Brasil possibilita a restrição à publicidade de atos processuais (art. 5º, LX), e não do processo (o que engloba todos os atos processuais), como faz o Código de Processo Civil.
E mesmo ciente do entendimento contrário do Superior Tribunal de Justiça5, tal assunto é objeto
5 “Embora a jurisprudência superior repila a possibilidade de os dados sigilosos não serem encartados diretamente no processo (STJ,
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761 de crítica realiza por Gajardoni (2018, p. 800) ao afirmar que:
O CPC/2015 perdeu ótima oportunidade para prever, expressamente, a possibilidade de ser decretado sigilo parcial do processo. Há certas situações que o segredo de justiça faz sentido, apenas, sobre determinados atos ou fatos revelados pelas partes e testemunhas, preservando-se a regra da publicidade sobre os demais atos processuais. A revelação de dados protegidos por sigilo bancário ou fiscal das partes justifica o segredo de justiça parcial do processo, para que apenas esses dados sejam preservados (geralmente reservados em pasta própria da unidade, para consulta exclusiva de partes e advogados), sem, contudo, impedir a publicidade dos demais atos.
Apresentadas tais considerações sobre o segredo de justiça disposto no Código de Processo Civil, a parte final deste trabalho pretende discorrer sobre a natureza do rol de casos indicados para trâmite em segredo de justiça.
3.3 NATUREZA (TAXATIVA OU EXEMPLIFICATIVA) DO ROL PREVISTO NO ART. 189 DO CPC
Tal como ocorria na vigência do Código de Processo Civil de 1973, em seu art. 155, o entendimento jurisprudencial com relação ao art. 189 do Código de Processo Civil permanece inalterada. Entende-se que o rol é meramente exemplificativo6.
Na doutrina, é possível identificar que não há unanimidade7. Enquanto uns entendem que o rol do art. 189 do Código de Processo Civil é exemplificativo, outros afirmam ser taxativo (numerus
clausus).
De toda forma, Assis (2015, p. 354) destaca de forma sucinta e objetiva que: “Fora das hipóteses legais, em princípio ao juiz não é dado restringir, por sua própria iniciativa, a publicidade interna ou externa dos atos processuais. Os arts. 5.º, LV, e 93, IX, da CF/1988 põe a matéria sob reserva de lei em
Relator Ministro Mauro Campbell Marques, julgado em 28.06.2011; REsp 819455/RS, Primeira Turma, Relator Ministro Teori Albino Zavascki, julgado em 17.02.2009), essa solução é a mais prática, porque preserva a publicidade do processo quanto ao que não deve ser preservado.” (GAJARDONI, 2018, p. 801).
6 Na vigência do CPC/1973: “O art. 155 do Código de Processo Civil, em sintonia com a Constituição Federal, impõe, como regra, a
publicidade dos atos processuais, admitindo, no entanto, hipóteses em que o feito se processará mediante segredo de justiça. Essas hipóteses constituem rol exemplificativo, não exaustivo, sendo autorizado o segredo de justiça em outras situações também merecedoras de tutela jurisdicional, por envolverem a preservação de outras garantias, valores e interesses fundamentais, como o direito à intimidade da parte (CF, art. 5º, X), ao sigilo de dados (CF, art. 5º, XII), o resguardo de informações necessário ao exercício profissional (CF, art. 5º, XIV) ou para atender a interesse público, relacionado à segurança da sociedade e do Estado (CF, art. 5º, XXXIII)” (REsp 1082951/PR,). No mesmo sentido: AgRg na MC 14.949/SP.
Na vigência do CPC/2015: “(...) Contrato com cláusula de confidencialidade, como forma de evitar dissabores e exposição indevida de informações comerciais de estratégico - Previsão contratual, especificamente quanto à confidencialidade, que corrobora as alegações do agravante acerca da necessidade de se decretar segredo de justiça, evitando-se lesão grave ou de difícil reparação - Inteligência do art. 189 do CPC, cujo rol é exemplificativo (...)”. (TJSP; Agravo de Instrumento 2011648-79.2019.8.26.0000).
7 Por exemplo, endentem que não é exaustivo o rol do art. 189 do CPC/15: WAMBIER; TALAMINI, Curso avançado de processo civil
[livro eletrônico]: teoria geral do processo. 5. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 34. PINHO, Humberto Dalla Bernardina de. Direito processual civil contemporâneo: teoria geral do processo. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2017, p. 113.
Endentem que é exaustivo o rol do art. 189 do CPC/15: NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Comentários ao Código de Processo Civil [livro eletrônico]. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2015, p. 378.
Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 11, p. 85581-85592, nov. 2020. ISSN 2525-8761 sentido formal”.
A observação de Marinoni (2016, p. 556) é a de que:
Em primeiro lugar, é tarefa do legislador infraconstitucional densificar os casos em que é necessária restrição em nome da “defesa da intimidade” ou em função do “interesse social” (exemplo, art. 189) ou mediatização para proteção do “direito à intimidade”. A destinação primária, contudo, não impede o juiz de concretizar excepcionalmente o regime de publicidade restrita e mediata para realização da tarefa constitucional de proteção à intimidade e ao interesse social no processo.
No mesmo sentido leciona Monnerat (2018, p. 164), e modo que “o inc. I do dispositivo se vale de um conceito jurídico indeterminado, dando certa margem para que o juiz restrinja a publicidade por razões de interesse social”.
Há, ainda, quem entenda (SANTOS, 2017, p. 514) que a Constituição da República Federativa do Brasil prevê como direito fundamental do cidadão a publicidade dos atos processuais (art. 5º, LX), mas tal previsão “não afeta o art. 189, I, do Código de Processo Civil, que permite ao juiz definir interesse público, porque, de qualquer forma, a previsão, conforme determina a Carta Magna, está na lei”.
Assim, mesmo de constitucionalidade duvidosa8, é possível afirmar que o rol do art. 189 do Código de Processo Civil é taxativo - até porque somente a lei em sentido formal pode restringir a publicidade, conforme determinação constitucional -, mas com cláusulas abertas (incisos I e III) que possibilitam o julgador estender, por meio de decisão fundamentada, a restrição para outros casos em que possa haver violação à intimidade ou quando o interesse social exigir.
8 O art. 5º da Constituição da República Federativa do Brasil atribuiu à lei (reserva/restrição legal qualificada) a tarefa de indicar quais
seriam os casos compreendidos na exceção à publicidade dos atos processuais, ou seja, definir quais seriam os casos para defesa da intimidade ou atender o interesse social.
Contudo, o disposto nos incisos I e III do art. 189 do CPC/15, não cumpre tal tarefa e delega - ao contrário da determinação do Constituinte - diretamente ao juiz essa função.
Conforme já exposto, uma das fontes de legitimidade do Poder Judiciário é a publicidade assegurada constitucionalmente, o que justifica a opção do Constituinte eleger a lei (em sentido formal) como meio de restrição à publicidade.
Além disso, se a publicidade serve como garantia da imparcialidade do juiz e de controle da jurisdição, há mais um fundamento para reconhecer a inconstitucionalidade de tais dispositivos legais. Não pode o controlado controlar seu controle.
Reconhecida a inconstitucionalidade desses incisos, caberia ao julgador identificar a omissão legislativa e, em sede de controle difuso, impor restrição à publicidade a determinados atos processuais no caso concreto, pois o disposto no art. 5º, LX, da Constituição da República Federativa do Brasil é - como já dito - norma de eficácia contida, mas de aplicabilidade direta e imediata (procedimento similar ao que ocorre no mandado de injunção).
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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Portanto, conforme exposto no desenvolvimento deste trabalho, somente a lei - em sentido formal - é que pode restringir a publicidade dos atos processuais, e somente naquelas hipóteses previstas no art. 5º, LX, da Constituição da República Federativa do Brasil (proteção à intimidade e quando o caso de interesse social).
No Código de Processo Civil atual, além da ampliação do rol antes previsto no art. 155 do Código de Processo de 1973, com a inclusão das matérias previstas nos incisos I, III e IV, do art. 189, houve uma guinada de regime com a constitucionalização do processo, primando-se pela internalização de dispositivos constitucionais e incluindo um capítulo destinado às normas fundamentais do processo civil (arts. 1º ao 12).
Por fim, ressalvada a inconstitucionalidade do disposto nos incisos I e III do art. 189 do Código de Processo Civil vigente, entende-se que o rol do artigo é taxativo em razão da previsão constitucional de necessidade de lei, mas que em razão das cláusulas abertas ou de conceitos indeterminados nos incisos I e III é possível ao julgador restringir a publicidade dos atos processuais no caso concreto, fundamentando a decisão.
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REFERÊNCIAS
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