IN MEMORIAM
Coluna de leitores como lettre-de-cachet: como se tece, rasga-se e se cerze a vida na rua
Elzira Yoko Uyeno1 Resumo: Delimitando o campo das manifestações discursivas acerca do morador de rua em colunas de leitores da mídia impressa, o objetivo do presente estudo é discutir, nos comentários que sobre ele se tecem, qual era a representação que fazem sobre ele. Resultados da pesquisa revelaram que os comentários nas colunas de leitores de jornais de grande circulação acerca do morador de rua se constituem na versão contemporânea das ―lettres-de-cachet‖: ganham a dimensão de um documento pelo qual se dota os cidadãos de endereço fixo do exercício do poder sobre aquele que desse endereço é desprovido.
Palavras-chave: Subjetividade; discurso; coluna de Leitores; ―Lettres-de-cachet‖
Introdução
A observação de que, se como notícias na mídia impressa, cruéis e inconcebíveis homicídios ou chacinas de moradores de rua revelavam cair rapidamente no esquecimento, como comentários em colunas de leitores de jornais de grande circulação, a vida ordinária do morador de rua era frequentemente mencionada, constituiu a motivação para a pesquisa em relato.
De que natureza eram os comentários e como se manifestavam discursivamente nas colunas de leitores foram as perguntas que percorreram este estudo. Especificamente, balizando-se por uma perspectiva discursivo-desconstrucionista, a pesquisa buscou compreender: 1) quais eram as representações que os leitores de jornais de grandes circulação na cidade de São Paulo faziam dos moradores de rua do centro de São Paulo; 2) quais eram as representações que faziam da casa e da rua.
1 Pesquisadora e docente do Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada da
A exclusão do pobre, em cujo grupo se insere o morador de rua, escopo desta pesquisa, tem seus primeiros registros ―em meados do século XVII, quando se deu início à grande caça aos mendigos, aos vagabundos, aos ociosos, aos libertinos, etc e sancionou-se, seja pela rejeição para fora das cidades de toda essa população flutuante, seja por seu internamento em hospitais gerais‖ (FOUCAULT, 2001 [2002, p. 55]).
Denúncias, amiúde, revelam a sobrevivência dessa rejeição sob formas sutis e perversas que vão desde ajuda de custo para que os migrantes que se tornam moradores de rua voltem para suas cidades de origem a transferências, a sua revelia, para outras cidades. Esses rejeitados ganham estatuto de homo saccer, de uma vida mais do que indiferente, matável, descrita por Agamben (1995 [2002]), quando se observam referências que se lhe fazem e que percorrem a escala que se estende do desprezo, passa pelo enxotamento, pela agressão e atinge cruéis chacinas (UYENO, 2011).
Para efeito de orientação da leitura, em um primeiro momento, apresenta-se a relação que se estabelece entre o corpo da cidade e o corpo do sujeito; em seguida, a tessitura genealógica do poder da exclusão dos diferentes; a seguir, o acabamento da tessitura do morador de rua pelas cartas enviadas a coluna de leitores e, encerrando o balizamento teórico, discorre acerca da cerzidura do rompimento do tecido social entre aquele que é inserido na cidade, por dispor de residência fixa e aquele que dela é exilado, por dela não dispor. Finalmente, analisa-se o corpus de pesquisa.
A fim de cumprir os objetivos traçados, adotamos o método arqueogenealógico de Foucault, que considera o discurso e a materialidade que emana das condições de produção, por meio do qual se busca captar
o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações, lá onde ele se torna capilar; captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais, principalmente no ponto em que, ultrapassando as regras de direito que o organizam e delimitam, ele se prolonga, penetra em instituições, corporifica-se em técnicas e se mune de instrumentos de intervenção material, eventualmente violento (FOUCAULT, 1979, p. 102).
1.
A cidade e a urbe; a casa e a rua: o corpo da cidade e o corpo do sujeitoAnalisar o discurso sobre o morador de rua requer a consideração das condições de produção amplas que dizem respeito ao momento
sócio-histórico (pós-)moderno em que esse discurso é produzido e das condições restritas que dizem respeito ao contexto imediato da sua produção e de sua circulação, jornais de grandes centros urbanos, mais precisamente, na coluna de leitores.
Mencionar a expressão ―morador de rua‖ remete às representações sociais sobre o cidadão, a rua e a casa, uma vez que a referência a esse sintagma nominal subentende a casa, mais precisamente, o indivíduo que, despossuído da casa, mora na rua. Na verdade, se o termo morador deriva do verbo morar – derivado, por sua vez, do latim morare, verbo transitivo circunstancial que significa ―ter residência, habitar, residir‖ –, morador de rua significa aquele que, por não ter morada, mora na rua. Rua, por sua vez, remete a cidade que, com o fim do trabalho escravo e início do assalariado, tornou-se palco de desigualdades sob uma nova configuração da casa grande e da senzala que se expressam na configuração espacial da urbes, na criação de espaços diferentes para classes desiguais. Esses espaços não se diferenciam apenas pela topografia do terreno, pelas fachadas das casas, mas, sobretudo, pela distribuição desigual dos serviços públicos (CUNHA, 1986).
Desenvolvendo pesquisas que visam a analisar que sentidos podem ser apreendidos quando se toma como foco de observação o par, casa/rua, à sua análise, um dos elementos organizadores por excelência do espaço urbano e das relações sociais que nesse espaço ocorrem, Orlandi (2012, p.199) mostra em ―A Casa e a Rua: uma relação política e social‖ que ―a forma da cidade e a forma sujeito, ou seja, o modo como os sujeitos aí estão dispostos, estão ligadas‖. Afirmando que o modo como se dispõe o espaço é uma maneira de configurar sujeitos em suas relações, em suma, de significá-los, distinguindo o que é ordem do que é organização, adota ―a noção de ordem para o real da cidade, com seus movimentos, sua forma histórica, seu real‖ e a de organização, a que denomina de organização urbana, para o ―imaginário projetado sobre a cidade, tanto pelos seus habitantes como pelos especialistas do espaço, como urbanistas, administradores etc.‖ (ORLANDI, 2012, p. 200). A autora parte da análise da relação social que se estabelece em diferentes condições entre a casa e a rua para então pensar os sujeitos e seus modos de vida, seus processos de significação que são interpretados pelo par público/privado e, ocupando-se da intimidade, da sociabilidade, da hostilidade, da ruptura, da segregação, do equívoco e da contradição, suas pesquisas têm lhe permitido compreender que as relações sociais estão se tornando indiscerníveis e tensas. Analisando o fenômeno da pichação nos muros e nas construções por jovens, a pesquisadora conclui acerca dessa tensão que ―ainda que, empiricamente, cada vez mais se tenta separar casa e rua, através de muros, guaritas, vigilância, prisões etc., já que há uma
diluição de sentidos entre estes dois espaços, dada a maneira como o político está presente nessa relação, significando-a‖ (ORLANDI, 2012, p.200).
A cidade em sua dimensão material na contemporaneidade tem um dentro e um fora como os tinham os feudos da idade Média ou os burgos da Idade Média tardia, com a diferença de que os limites, não mais sendo determinados por limites físicos, portanto não passíveis de mapeamento, são invisíveis, como as cidades concebidas por Calvino (1999) em Cidades
Invisíveis. Eis que a inclusão e a exclusão que se faziam na dimensão
topológica passam a se fazer de forma invisível, sob um efeito ideológico que não consideramos.
As palavras cidade ou urbe, derivadas respectivamente do latim Urbs,
urbi e civitas, civitati, são nos apresentadas como sinonímicas, embora cidade
tenha perdurado como substantivo e urbe seja mais conhecida pelo adjetivo urbano. Daí cidade remeter mais a espaço povoado e organizado, e ao seu processo de povoamento e de organização se nomear urbanização. Pensando o morador de rua, objeto da pesquisa em relato, que remete à casa e à rua que remetem, por sua vez, à cidade e à urbanização, o espaço é, de um lado, ―o enquadramento de todos os fenômenos‖ (HENRY, s. d., apud ORLANDI, 2012, p.200) e, ―de outro, ele não é nem um vazio, nem apenas uma função, ele é espaço de interpretação, tem sua materialidade em que se confrontam o simbólico e o político‖ (ORLANDI, 2012, p.200). A cidade, assim, materializa-se num espaço que se constitui como significante, uma vez que, nela, os sujeitos e suas relações concretizam-se em práticas sociais, em uma forma material resultante do processo simbólico: é segundo esse processo que os sujeitos habitam os espaços, transitam, relacionam-se, atribuindo sentidos à cidade. Como afirma Orlandi (2012, p. 201), ―o corpo dos sujeitos está atado ao corpo da cidade e estes são significados por essa ligação‖ e constitui a sua dimensão jurídico-política.
Das várias materializações dessa ligação entre o corpo do sujeito e o corpo da cidade, a fundamental é a residência fixa, condição para fazer jus ao
in dúbio pro réu e ao habeas corpus, princípios caros à justiça e à
democracia. Outra materialização diz respeito às representações dos espaços urbanos, das quais predomina a periculosidade do espaço externo, da rua, o que leva à pressuposição de um território interno, de um espaço seguro, da casa. ―Não sendo objeto dessa distinção, o morador de rua faz do espaço público o seu espaço privado e, nessa indistinção entre os dois espaços, tem sido vítima de agressões que percorrem a escala da humilhação ao homicídio hediondo, passando pelo enxotamento e pela agressão física‖ (UYENO, 2011, p.31).
2.
Doentes, desviantes, diferentes e pobres: como se tece a exclusão Remetendo a dimensão jurídica de que fala Orlandi (2012), ao resgate por Agamben (1995[2002])2 das duas palavras pelas quais o grego antigo distinguia os dois sentidos de vita, trata-se da inserção da vida biológica na vida simbólica. Dada a posse da linguagem – um privilégio em relação a outros seres vivos –, o homem tem além da zoe, da vida enquanto mera existência biológica ou vida nua, como nomeia Agamben (1995 [2002]), de que qualquer outro ser vivo dispõe, uma existência política, de uma existência simbólica, pela qual a vida nua é revestida de uma dimensão jurídico-política: é a linguagem que possibilita ao homem passar da condição de um animal, da vida enquanto zoé para a de politikon zôon enquanto animal político e lhe permite uma biopolitikós, a vida política. Essa vida política se fez pelos processos de apropriação do corpo vivo pelo Estado ou biopolítica de que se ocupou Foucault e a quem Agamben prosseguiu.É de senso comum dos que se dedicam aos estudos de Foucault que uma parcela considerável da sua produção intelectual centrou-se na preocupação genealógica do poder, à biopolítica ou ao governo da vida, em substituição ao poder do soberano sobre a morte de seus subordinados. Dessa fase conhecida como a do Foucault genealógico a obra que mais a caracteriza é Vigiar e punir: a história do nascimento da prisão (FOUCAULT, 1975 [1991]), cuja preocupação constituiu a análise dos processos sócio-históricos de submissão do corpo ao confinamento em espaços destinados à observação do delituoso para obter seu disciplinamento. Em O nascimento da clínica, Foucault (1963[1994]) tratou do isolamento do indivíduo doente, para a proteção dos sãos, em espaços de controle pelo Estado, de cuja observação se obteve o saber médico. Em História da loucura, o autor (1972 [1997]) imputa uma determinação sócio-histórica, portanto, ideológica da classificação do indivíduo louco, portanto, da verdade psiquiátrica.
Esses estudos levam o autor à postulação de uma relação entre o poder e o saber, no sentido de que o exercício de poder sobre um indivíduo produz um saber sobre ele. Daí se falar na subjetivação foucaultiana como produto do exercício de poder; trata-se, mais precisamente do modo de objetivação do indivíduo que se desenvolve paralelamente ao modo de subjetivação que se faria a partir do sujeito em relação ao poder (REVEL, 2006).
Em 2001, em complementação a essas obras escritas por Foucault, foi publicado o volume ―Os Anormais‖, constituído a partir das gravações do curso por ele oferecido entre 1974 e 1975 e consagrado ao estabelecimento
2 A primeira data se refere à data da publicação da obra e a segunda, à da publicação
do estatuto da normalidade. Analisando a sobreposição dos discursos médico e jurídicos, Foucault (2001 [2002, p. 54]) menciona ter havido uma mudança gradativa nos procedimentos do Estado sobre o doente. De uma prática de exclusão, exercido sobre o leproso, ter-se-ia passado para uma prática de inclusão do pesteado, e essas práticas constituíram os dois grandes modelos de controle dos indivíduos: a exclusão do leproso e a inclusão do pesteado.
A exclusão do leproso que ocorreu ao longo da Idade Média e que faz, hoje, parte do conhecimento comum se fez por uma prática social que comportava, primeiro, uma rigorosa divisão entre leprosos e não leprosos; em seguida, a constituição consecutiva de dois agrupamentos estranhos um ao outro e, por fim, a desqualificação jurídica e política daqueles. Mais precisamente, a divisão entre leprosos e não leprosos se fez pelo distanciamento, por regras de não contato entre ambos, daí se falar da rigorosa divisão entre esses dois grupos. Essa divisão produziu a rejeição daqueles por estes: pelo afastamento daqueles para fora dos muros da cidade, dos limites da comunidade, produziu-se a sua desqualificação jurídica.
Essas regras de exclusão dos leprosos proliferaram a partir dos séculos XII e XIII nos textos consuetudinários – embora fundados nos costumes, nas práticas e não nas leis, tinham força de lei, as chamadas leis consuetudinárias – de Carlos Magno e nos estatutos dos sínodos ou assembleias da igreja. Aplicadas, essas regras determinavam um ritual de exclusão que se assemelhava a uma cerimônia fúnebre. Com a extinção da lepra em fins do século XVII e início do século XVIII, esse modelo de exclusão dos leprosos, para higienizar a comunidade, desapareceu, dando lugar a um outro não precisamente desenvolvido, mas reativado: o modelo da inclusão do pesteado.
A inclusão do sujeito acometido pela peste se realizava pelo estabelecimento da quarentena para uma cidade, quando a peste nela era declarada, e, ao contrário da expulsão como se fazia com os leprosos, esse modelo se caracterizava pela análise minuciosa do pesteado. Essa administração de inspeção hierarquizada da cidade em quarentena em que tudo e todos eram observados, analisados e descritos, era gerida por um governador especialmente nomeado. Assim, não se tratava, nesse modelo, da rejeição, mas da inclusão, da observação, da formação de saber, da multiplicação dos efeitos de poder, a partir do acúmulo da observação e do saber sobre o incluso a que chamou de ―invenção das tecnologias positivas de poder‖.
Constituíam, em suma, de fato, ―práticas de exclusão, práticas de rejeição, práticas de ‗marginalização‘ como diríamos hoje‖ (FOUCAULT, 2001 [2002, p. 54]). Analisando outros grupos, Foucault (2001 [2002, p. 54])
postula que é ―sob essa forma que se descreve, a seu [meu] ver ainda hoje, a maneira como o poder se exerce sobre os loucos, sobre os doentes, sobre os criminosos, sobre os desviantes, sobre os pobres3‖. Note-se o paradoxo: no exercício do poder sobre eles, tomam-se os diferentes (desviantes, doentes e pobres) como iguais.
3.
A mídia, a coluna de leitores: como se borda o morador de rua Nos documentos pesquisados acerca da exclusão por Foucault, descrevem-se em geral os efeitos e os mecanismos de poder que se exercem sobre os diferentes ―como mecanismos e efeitos de exclusão, de desqualificação, de exílio, de rejeição, de privação, de recusa, de desconhecimento; ou seja, todo o arsenal dos conceitos e mecanismos negativos de exclusão‖ (FOUCAULT, 2001 [2002, p.55]). Ao ministrar, porém, de janeiro a março de 1976, o curso Em defesa da Sociedade, no qual desenvolveu a genealogia do poder iniciada nos anos 70, Foucault (1975-1976 [2000, p. 229-230]) propõe que, se é preciso fazer a análise do poder coincidir com o esquema proposto pela constituição jurídica da soberania, e, se é preciso pensar o poder em termos de relações de força, é preciso decifrá-lo segundo a forma geral da guerra.Com a evolução dos Estados desde o início da Idade Média, as práticas e as instruções de guerra seguiram uma evolução visível: a política e, por conseguinte, o direito, torna-se uma guerra continuada por outros meios. Essa passagem de um modelo belicoso para um racional se faz perceptível nas práticas judiciárias que conformaram a subjetividade. As práticas judiciárias constituíram a maneira pela qual se arbitravam os danos e as responsabilidades, isto é, o modo pelo qual se definiu a forma com que os homens podiam ser julgados pelos erros que haviam cometido ou a maneira pela qual se impôs a alguns a reparação de algumas de suas ações e a outros, a punição, práticas que se tornaram regulares (FOUCAULT, 1973[2002, p.11]).
A justiça que se fazia pela contestação entre indivíduos e pela livre aceitação por eles de regras de resolução das contendas passa para uma fase em que não têm mais o direito de resolver seus litígios, devendo se submeter a um poder exterior a eles que se impõe como poder judiciário e poder político. Constituiu uma passagem da aplicação de um modelo belicoso para um modelo baseado num sistema racional de estabelecimento de verdade pelo procedimento do inquérito para a constatação de que houve um dano; seu estabelecimento evolui de um dano moral para um dano social, de uma
3
falta moral da ordem do pecado para uma infração, uma perturbação social, da ordem do crime (FOUCAULT, 1973[2002, p. 80]). Configurada a infração à lei, passou-se a submeter o criminoso à reparação do dano causado que constituiu a punição classificada em tipos pelos estudiosos da área: a deportação (exilá-lo, bani-lo); exclusão no próprio local (humilhá-lo, envergonhá-lo); o trabalho forçado (forçá-lo a uma atividade útil ao Estado); a pena de talião (submetê-lo ao mesmo crime que cometeu). O que se observa é que essas formas de punição foram substituídas pelo aprisionamento o que introduz a noção de periculosidade: ―toda penalidade do século XIX passa a ser um controle, não tanto sobre se o que fizeram os indivíduos está em conformidade ou não com a lei, mas ao nível do que podem fazer, do que estão sujeitos a fazer, do que estão na iminência de fazer‖ (FOUCAULT, 1973[2002, p. 84]).
A despeito dessa evolução, ainda se percebe que os ―modos de objetivação sócio-histórica que engendram o morador de rua parecem se fazer sob um desencadeamento perverso a partir de sua determinação como ‗outsider‘ que produz o (in)fame que, por sua vez, produz o ‗homo sacer‘‖ (UYENO, 2011, p.32). Embora explorado em Uyeno (2013), dada a demanda do corpus da pesquisa em relato, revisita-se o conceito de ―outsider‖, cunhado por Becker (1996 [2009]), que abriu caminhos para o conceito de desvio que, por sua vez, promoveu um deslocamento na tradição da pesquisa em sociologia a qual se pautava na preocupação com o crime.
Rompendo a tradição das pesquisas em Sociologia, partindo do pressuposto de que as pessoas agem com base em sua compreensão do mundo e do que há nele, Becker (1996 [2009, p. 12]) foi em busca de ―quem está definindo que tipos de atividades como criminosas e com quais consequências‖. Essa preocupação levou-o a nem sempre aceitar que tudo o que a ―polícia‖ considerasse crime realmente o fosse (cujos resultados ratificavam sua recusa) e, deixando de focalizar apenas quem cometeu o crime, ampliou o olhar para todos os tipos de atividade. Nessa ampliação, observou que, em ações coletivas, definem-se alguns atos como os incorretos e que devem ser impedidos. Ora, se algumas regras são restritas a grupos específicos, sua não observação por aquele que de determinado grupo não faz parte não pode ser considerada crime. Para casos como esse e a eles semelhantes, Goffman, Becker e outros usaram o termo ―desvio‖, cujos estudos foram ampliados como ―rotulação‖. É inevitável a todo grupo social criar regras que podem vir a ser impostas e, quando uma regra social define comportamentos como adequados ou inadequados e é ―infringida‖ por uma pessoa, ela é considerada alguém de quem não se espera agir de acordo com as regras estipuladas pelo grupo e é tomada como ―outsider‖; sua tradução
para o português, até que esse termo se consagrasse nas ciências sociais, foi a de marginal e desviante (BECKER, 1996 [2009, p. 15]).
Na sociedade capitalista contemporânea, vivendo do resto que ela descarta, o morador de rua não tem essa ocupação reconhecida, o que o configura como ―outsider‖ (BECKER, 1996 [2009]). A atividade do morador de rua de coletar o material descartado pela vida urbana é tomada como um comportamento apenas desviante de um ―outsider‖ e passa a se constituir um infame, diferindo de seu antepassado medieval, por não ter necessariamente cometido um ato vil que o tiraria do anonimato: sua ―vilania‖ estaria em não dispor de uma residência fixa, condição para fazer jus ao in dúbio pro réu e ao habeas corpus, princípios caros à justiça e à democracia. Esse morador de rua e ―outsider‖ vem a se configurar como o mais prototípico infame foucaultiano, quando é objeto de acusações, por seu comportamento não ser o convencionado como regra (UYENO, 2011).
À análise de Foucault, essas pessoas sem fama se faziam notadas quando eram objeto de acusações: daí infame significar simultaneamente sem fama e aquele que cometeu um ato vil. Daí ser possível postular o morador de rua como (in)fame cujos parênteses lhe atribuem o sentido de simultaneamente sem fama e com fama: sem fama, por ser invisível, não no sentido de imperceptível, mas de dele se desviar o olhar, de não se querer vê-lo; com fama, por ganhar celebridade, ao ser explorado pela mídia, quando vitima de atos vis que variam de desvios de olhar a homicídios covardes, passando por serem alvos de dejetos líquidos, agressões físicas.
Essa (in)fâmia sócio-historicamente, portanto, ideologicamente produzida, abre precedentes para ocorrências subsequentes: torna-o a forma contemporânea do homo sacer (UYENO, 2010). O homo sacer é definido por Agamben (19995[2002]) como aquele que, para além de perversamente destituído da dimensão jurídico-política da bíos, ficar reduzido à dimensão animal da zoé, daí nua e, como tal, matável, vive uma zona de indiferenciação: ora incluso, ora excluso.
A infâmia a que Foucault (1977[1992]) se refere é bem menos uma infâmia moral do que aquela outra que caracterizou aquele que não teve nome e foi objeto de um processo de difamação por meio de uma forma institucional denominada ―lettres-de-cachet‖ (FOUCAULT, 1973 [2002, p. 96]). Componentes de leis consuetudinárias da Idade Média, as ―lettres-de-cachet‖ constituíam cartas escritas por familiares ou vizinhos, contendo queixas sobre pessoas comuns (sem fama) que teriam cometido um ato vil e enviadas ao rei a quem cabia analisá-las e aplicar ou não a sanção a esse infame. Embora aparentemente emanassem do soberano, as ―lettres-de-cachet‖ eram solicitadas e por pessoas diversas ao intendente do rei que fazia
o inquérito: ―maridos ultrajados por suas esposas, pais de famílias descontentes com seus filhos, permitindo a alguém mandar prender sua mulher que o engana, seu filho que é gastador, sua filha que se prostitui‖ (FOUCAULT, 1973 [2002, p. 96]). Tratava-se, assim, de um documento redigido em nome da autoridade do rei e que dotava os seus súditos do poder sobre um familiar ou um vizinho que de algum modo se revelasse pernicioso para si ou para outrem.
Segundo as pesquisas conduzidas por Foucault (1973 [2002, p. 96]), resumiam-se em três categorias: as condutas da ordem da moral, da religião e do trabalho; as condutas consideradas imorais, em especial, a devassidão, o adultério, a sodomia e a bebedeira eram reprimidas pelo pedido das famílias e das comunidades por meio das ―lettres-de-cachet‖, exercendo, assim, uma repressão moral. As condutas religiosas julgadas perigosas e dissidentes eram denunciadas e, por meio das ―lettres-de-cachet‖, condenavam-se os feiticeiros a serem mortos nas fogueiras ou aprisionavam-nos. Às condutas desviantes e conflitos no trabalho, utilizavam-se as ―lettres-de-cachet‖, quando os empregadores não estivessem satisfeitos com seus operários.
A prisão, que vai se tornar a grande punição do século XIX, tem sua origem precisamente nesta prática para-judiciária da lettre-de-cachet,
utilização do poder real pelo controle espontâneo dos grupos. Quando uma lettre-de-cachet era enviada contra alguém, esse alguém não era enforcado, nem marcado, nem tinha de pagar uma multa. Era colocado na prisão e nela devia permanecer por um tempo não fixado previamente (FOUCAULT, 1973 [2002, p. 98]).
Constituíram uma intervenção policial e real para reprimir a desordem social e urbana instaurada, uma interferência garantida do poder público no controle da população, por emanar da própria sociedade que a reivindicava: a ―lettre-de-cachet‖ se materializava em um instrumento de controle realizado verticalmente de baixo para cima, por meio da qual a comunidade o exercia sobre si mesma e demandava sua legitimação pela deliberação do soberano. ―A ‗lettre-de-cachet‘ consistia, portanto, em uma forma de regulamentar a moralidade cotidiana da vida social, uma maneira do grupo ou dos grupos – familiares, religiosos, paroquiais, regionais, locais, etc. – assegurarem seu próprio policiamento e sua própria ordem‖. Nesse sentido, ela servia tanto às famílias quanto ao Estado na busca pela paz pública, pois, a ordem pública era entendida como um prolongamento da ordem privada.
As ―lettres-de-cachet‖ interessaram em razão de os jornais, a despeito dos novos veículos de comunicação, constituírem o veículo no qual se discutem os fatos, os comportamentos humanos as relações que estabelecem entre o corpo da cidade e o corpo do sujeito e, por conseguinte, no qual circulam notícias sobre moradores de rua em suas variadas perspectivas, de um discurso filantrópico, passando pelo ético e até o mais flagrante na contemporaneidade discurso excludente.
Analisando a pobreza na América Latina e mais precisamente na Colômbia, Pardo-Abril (2008 p. 124) afirma que a ―representação midiática da pobreza é construída por meio de textos que recorrem a um discurso historicamente construído e que é reconhecido e aceito como forma adequada de referir-se a um problema social‖. A pesquisadora ainda afirma que, a despeito de suas tentativas em se manterem isentos em seu papel fundamental de informarem, ―os meio de comunicação têm a capacidade de legitimar determinada ordem social assim como de se legitimar a si perante a sociedade‖ (PARDO-ABRIL, 2008, p. 126).
Tendo apresentado as condições sócio-históricas que determinam a constituição do sujeito de pesquisa e, por conseguinte, de seu discurso e, por delimitar a abrangência da pesquisa nos jornais que circulam na cidade de São Paulo e nas cartas impressas nas colunas de leitores que fizessem menção ao morador de rua dessa cidade, passa-se a apresentar esse cenário que compõe a condição imediata de produção do discurso.
4.
Moradores de rua da área central da cidade de São Paulo: como se cerze a exclusãoPessoas vivendo nas ruas fazem parte do cenário das cidades brasileiras neste início do século XXI, mas também das capitais do mundo desenvolvido e resulta de um processo de exclusão provocado por problemas sociais e econômicos enfrentados pelas grandes cidades do mundo. Este item buscou entender como se tecem as relações entre o morador de rua e os espaços da urbe.
Os moradores de rua não fazem parte dos censos demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por causa da ausência de domicílio. Assim, embora conhecida por pesquisar assuntos estritos da área econômica, mas também realizar levantamentos e análises na área de políticas sociais, foram solicitadas à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) três pesquisas sobre a população moradora de rua do município de São Paulo. Essas pesquisas quantificaram essa população e levantaram informações sobre as pessoas que moram em albergues e pernoitam nas ruas da cidade (SCARSO, 2010). Os dados do censo decenal
dos moradores de rua da cidade de São Paulo, realizado pela Fundação que resultou no relatório da pesquisa intitulado ―Perfil socioeconômico da população de moradores de rua do centro da cidade de São Paulo‖, coletados entre novembro e dezembro de 2009, confirmam o agravamento do quadro: se havia 8.706 moradores de rua, em 2000, eles são 13 mil - 49,3% mais – em 2010, tendo seu número crescido dez vezes mais do que o número de habitantes da cidade (SCHOR; VIEIRA, 2010).
Segundo os resultados do censo, o morador de rua se configura como uma modalidade extrema e dramática de desempregado: apenas 31,9% não trabalham, 54,1% são ambulantes, 24,9% vivem de esmolas e apenas 1,2% não têm renda algum. Muitos deles se ocupam da coleta de materiais para reciclagem dos abundantes resíduos urbanos do centro da cidade, razão pela qual ficam naquela área. São trabalhadores e mal pagos, uma vez que a cidade se beneficia de seus serviços, à análise dos resultados por Martins (2010). Constituem uma população essencialmente urbana, uma vez que apenas 4,3% vinham de ocupações agrícolas, apenas 3,3% não trabalhavam, 36,6% tinham ocupações de baixa classe média e 19,9% vinham da construção civil (SCHOR; VIEIRA, 2010). Segundo as autoras da pesquisa Silvia Maria Schor e Maria Antonieta da C. Vieira (2010), o desemprego atinge seletivamente suas vítimas. Uma grande parte desses moradores, 39,5%, tinha 41 ou mais anos de idade, a idade crítica nas relações de emprego, o que se confirma pelo fato de que 83,6% deles eram do sexo masculino, justamente os mais atingidos pela idade no desemprego precoce. De acordo com o censo, a idade média dos que estão na rua é de 40 anos; dessa população, 65% é parda e negra e 93% sabe ler e escrever.
Segundo os resultados do ―Perfil socioeconômico da população de moradores de rua do centro da cidade de São Paulo‖, 6.587 pessoas moram integralmente nas ruas, principalmente nas regiões centrais da cidade. Quase metade dessa população não consegue atendimento na única política pública da prefeitura municipal para a questão: pouco mais de 7 mil vagas distribuídas em hotéis, repúblicas sociais, instituições conveniadas e albergues, para 13.666 pessoas em situação de rua da cidade.
Apesar da reconhecida diversidade, as pessoas em situação de rua partilham inúmeras características. São todos muito pobres e com uma trajetória de vida cheia de fracassos pessoais e desamparo institucional. Sem casa e sem lar, reinventam diariamente as soluções para sua subsistência:
alimentos, abrigo, dinheiro, bebida, remédios e segurança (SCHOR, apud SCARSO, 2010, p. 1). Ainda conforme dados obtidos pela Fipe, pelo menos 1.842 crianças e adolescentes vivem nas ruas da cidade, cuja maioria tem a idade compreendida entre 12 a 17 anos e 15% das crianças têm menos de seis anos e estavam nas ruas há três anos. Para a socióloga Vieira, ―apesar da situação caótica, a indiferença reina na cidade‖:
Não é problema das ruas, é um problema da sociedade. Só que para determinados segmentos sociais – de baixa renda, com uma situação de desestruturação familiar – a rua passa a ser uma saída. A visão da sociedade é extremamente preconceituosa. As soluções apontadas são soluções higienistas, de ‗limpa, tira, coloca em uma instituição‘(VIEIRA, apud SCARSO, 2010, p.1). No processo de pesquisa, as autoras afirmam que não basta ter trabalho para manter o ser humano longe da penosa vida das ruas. Para Vieira, a falta de proteção da família e o uso de drogas podem influenciar na mesma medida, a saber:
não [se] sabe se a pessoa perdeu o emprego porque começou a beber ou começou a beber porque perdeu o emprego. Ou se a pessoa começou a se dar mal no trabalho porque a situação na família já estava difícil. Muito provável é um processo interativo e as mudanças vão acontecendo juntas (VIEIRA, apud SCARSO, 2010, p.1).
Morar na rua tem um custo mínimo para a manutenção da vida: comida, remédios, cigarros. Segundo as pesquisadoras, poucos são os que vivem somente de esmolas. Ainda, de acordo com Schor (2010), quase 70% trabalham catando latinha, desabastecendo caixas no Ceasa, fazendo ―bico‖ de segurança; em média, ganham R$19 por dia, renda insuficiente para sair das ruas.
A degradação física vai progredindo e cada vez menos os moradores de rua têm chances de ocupação ou mais regular ou menos informal. Um jovem que fica na rua por muito tempo, para se
reintegrar na sociedade novamente, fica muito difícil. As pessoas perdem a noção de tempo cronológico. Não sabem o dia da semana ou quanto tempo estão na rua. O futuro pra eles é o que estão vivendo naquele momento (SCHOR, apud
SCARSO, 2010, p.1).
O serviço de albergues, insuficiente na cidade de São Paulo, propicia outras segregações. A proporção de homens que dormem nos albergues é maior do que a de mulheres cuja maioria dorme na rua. A proporção de brancos morando nas ruas é maior do que negros, se os pardos não são somados aos primeiros ou aos últimos. ―Portanto, a distribuição desigual da injustiça social se multiplica na perversidade de uma diferenciação social na qual se supõe que já não há lugar para diferenciações‖ (MARTINS, 2010, p.1). Para Martins (2010), ―[H]há muita hipocrisia e muito oportunismo na redução do problema do morador de rua à questão do número de vagas nos albergues noturnos. É reduzir a tragédia de uma vida ao drama de uma noite, que nem por isso é menos real e menos doloroso‖. A análise sobre a inclusão das vítimas da crise do trabalho no mundo da rua constitui à sua análise uma forma de morte social, em que é pequena a possibilidade da ressurreição, dado o aprofundamento do abismo que separa o morador de rua da sociedade da qual se origina. Martins (2010) menciona a pesquisa da socióloga belga Marie-Ghislaine Stofells que, sob orientação do professor Lúcio Kowarick (1977), na USP, realizou uma das mais importantes pesquisas acerca de moradores de rua, da qual resultou o livro ―Os Mendigos na Cidade de São Paulo‖. Para a elaboração de sua pesquisa, Marie-Ghislaine decidiu morar na rua e colheu um relevante material sobre o drama vivido por essa população, do qual se ressaltam as etapas pelas quais o morador de rua passa.
Na rua, as pessoas passam por três etapas: a da defesa, a da revolta, a da resignação. Sociologicamente, a conversão do cidadão em morador de rua impõe-lhe um processo de progressiva dessocialização, de perda de suas referências sociais e, finalmente, seu conformismo com o modo de vida anômalo da rua, a exclusão por renúncia (MARTINS, 2010).
Os conflitos decorrentes da ocupação da rua pelos nomeados como mendigo, mendicante, pedinte, morador de rua, sem-teto ou sem-abrigo – ocupação questionada pelo cidadão comum – intensificaram-se ―a partir da
década de 80, momento em que, nas principais cidades do mundo, alguns dos pobres impuseram sua presença, numa demonstração exemplar de como a rua se transformou em espaço de construção de fronteiras econômicas, políticas e culturais‖ (NEVES, 2003, p.6). Ocupam praças e jardins, viadutos, casas, edifícios ou construções abandonadas ou em ruínas, para instalarem as suas residências. Essa apropriação da rua ―suscitou a contraposição dos demais segmentos da sociedade que os definiu como impostores ou indesejáveis, porque a priori também moralmente qualificados como perigosos e impuros‖ (NEVES, 2003, p.6). Por essa razão, o morador de rua precisa, além de desenvolver aptidão para assegurar certa territorialização da rua entre os seus iguais, aprender a lidar com os estigmas, as humilhações, as flagelações, a violência e com a ameaça de morte e de sua consumação que lhe são dirigidos pela sociedade, para não sucumbir a esse quadro.
Se este item pretendeu compreender como se teciam as relações entre o morador de rua e os espaços da urbe, compreendeu que elas se teceram com falhas que são cerzidas se não remendadas.
5.
Um olhar sobre o corpus de pesquisaA coluna de leitores é um gênero discursivo jornalístico geralmente encontrado no primeiro caderno de jornais de grande circulação e se destina à participação de leitores que geralmente se manifestam acerca das matérias das cessões do jornal. Os registros de pesquisa constituídos dessas manifestações foram coletados durante um período de 2009 a 2011 que faziam menção a moradores de rua. Desses registros, compôs-se um corpus de pesquisa, visando a compreender o teor das cartas. Diferindo do teor das outras cartas, as que tematizavam o morador de rua constituíam de reclamações às quais, embora houvesse uma cessão disponível, a ela não eram destinadas.
Apresenta-se, a seguir, a transcrição de uma dessas cartas de leitor (doravante CL) do leitor (doravante L) 1:
CL1
L1: Cidade Suja. Mudei-me há um ano para o bairro X e me
surpreendi com as condições da calçada em torno da escola pública Y, entre as Ruas W e Z. Além da calçada estar em péssimas condições (uma vez que a escola é pública, a quem reclamar do descaso?), tornou-se "moradia" de muitos carroceiros, que se apoderam do espaço público dificultando a passagem de pedestres, pois levam cães de grande porte e se deitam sobre as calçadas.
Na carta enviada ao jornal para ser publicada na coluna de leitores, consta que a calçada tornou-se “moradia” de muitos carroceiros que se
apoderam do espaço público dificultando a passagem de pedestres. Nessa
afirmação, verifica-se que o reclamante considera que as atitudes dos carroceiros são especificadas como ―erradas‖, desviantes do que o seu grupo social impôs como regras, atribuindo-lhes a condição de ―outsiders‖. A atribuição dessa condição é feita por escolhas de expressões como apoderam
do espaço público, dificultando a passagem de pedestres: a palavra
―apoderar‖ da primeira expressão, ação atribuída a carroceiros, que significa ―tomar o poder‖ produz o sentido de que considera que a atividade de carroceiro (aquele que ―puxa‖ carroças para transportar, supostamente, materiais recicláveis que recolhe) produz o efeito de sentido de desviante do que considera uma atividade ―certa‖. Além disso, na expressão apoderam do
espaço público, seguida da expressão dificultando a passagem de pedestres,
produz o sentido de que prioriza a passagem do pedestre e desconsidera o ―uso‖ que os carroceiros fazem do espaço público. Dessas afirmações, conclui-se que o reclamante considera que, embora o espaço seja público, não possa ser compartilhado com os carroceiros, porque eles fazem o uso desviante da regra que é o uso feito pelos pedestres, que devem ser entendidos como os outros cidadãos que não os carroceiros. Simultaneamente, é produzida a condição de ―outsider‖ pela consideração de desviante a atividade econômica de alguns cidadãos em grandes centros urbanos. Perceba-se como o teor é de relato de comportamento inadequado do morador de rua configurando-se como uma versão contemporânea de ―lettre-de-cachet‖. Com relação à palavra ―moradia‖ redigida entre aspas leva à ideia de que não a considera uma casa como a do cidadão que dispõe da residência fixa.
Na CL2 de L2, transcrita a seguir, outra ocorrência relativa a ocupações tomadas como desviantes se apresenta:
CL2
L2: Lixo na rua. Problema Social? Há pelo menos 8 anos um
terreno na Rua Y, foi invadido. Outro problema é que foi feito um ferro-velho clandestino. Carroceiros reciclam lixo, carros e plásticos no meio da rua, invadindo as calcadas de todo o quarteirão. Quando ligamos para o 156 reclamando, eles demoram 1 mês para mandar um caminhão para fazer a limpeza. Já quando reclamamos na Subprefeitura, eles dão um número de protocolo e demoram 2 meses para retirar o lixo. Os subprefeitos dizem que é um problema social. Ora, problema social é a invasão, mas não lixo jogado na rua.
Verifica-se a repetição da atribuição a carroceiros como ―outsiders‖ cujas presenças incomodam a vida na cidade: embora se reconheça o problema social e questione o lixo, esse mal estar se mantem. Note-se como, embora o texto tenha sido enviado para a cessão de coluna de leitores, seu teor é o da coluna de reclamações, na qual denuncia os atos inadequados do carroceiro que passa de ―outsider ‖ para infame.
Na CL3, as aspas que na CL1 foram aplicadas na palavra moradia, apresentam-se na palavra habitações:
CL3
L3: Na Avenida Jornalista Roberto Marinho (antiga Água
Espraiada), há um córrego canalizado, tendo às margens um gramado de 1 metro de largura, muro adentro, entre o córrego e a rua. Pois nesse espaço restrito, desabrigados puseram barracas, algumas até com fogão. (...) Além do perigo de atropelamento, jogam detritos no leito do córrego. (...) A cada dia aparece um novo barracão e nada é feito. Será permitido construir “habitações” precárias como essas em áreas públicas e eu não estou sabendo? Ou predomina a inoperância de quem deveria impedir que isso acontecesse?
A palavra “habitações” colocada entre aspas e acompanhada da predicação restritiva precárias leva à ideia de que existem as habitações sem aspas e não precárias, e, em áreas públicas, não cabem as primeiras. Seus referentes que estabelecem a tessitura do texto se fazem por meio de substituições lexicais que se lhe precederam: barracão e barracas. Se
barracão que lhe antecede imediatamente não é acompanhado de predicação,
leva à ideia de que constitui o sentido das aspas. Barracão, por sua vez, tem como referente a palavra barracas cuja parcela é predicada pela expressão
algumas até com fogão, cujo sentido posto pela preposição até é o de que
barracas não devem ter fogão. Embora se refira aos proprietários como
desabrigados cujo prefixo des pressupõe a existência de abrigados e a palavra
derivada produza o efeito que tomá-los apenas como desprovidos do abrigo, da casa, as construções daqueles devem ser impedidas – reivindicação que se faz por três vezes: 1. nada é feito, 2. é permitido construir e não estou
sabendo e 3. inoperância de quem deveria impedir que isso acontecesse. Eis
o efeito ideológico elementar que vela um paradoxo do qual o enunciador não se dá conta: se são desabrigados somente lhes resta quase tautologicamente pôr barracas, barracão ou habitações em áreas públicas. As áreas públicas
revelam ser de direito dos abrigados e o pedido de sua defesa se faz como ―lettre-de-cachet‖.
O conteúdo da CL4 é bastante semelhante ao do da CL3 com relação à referência a barraco:
CL4
L4: De olhos bem fechados. Que a cidade tenha inundado e o
prefeito diga que fez tudo que podia, podemos até acreditar. Entretanto, deixar que construam um barraco no barranco da Avenida 23 de Maio em frente à Beneficência Portuguesa, isso já é demais! Onde estão os fiscais, o administrador da regional e o prefeito? Pois, para ir à Prefeitura, a Avenida 23 de Maio é um dos caminhos possíveis
Como na CL3, na CL4, embora o sujeito esteja indeterminado em
construam, o não impedimento da construção do barraco no barranco da Avenida 23 de Maio em frente à [ao hospital] Beneficência Portuguesa é
tomado como o máximo da negligência na gestão da cidade. Em CL4 o barranco, como espaço público, não pode se utilizado por aquele que constrói barraco. A divisão dos espaços da cidade também se marca nas referencias à avenida, uma das referências da capital paulistana, e ao hospital privado e de referência não só na cidade de São Paulo como no Brasil, se não na América Latina.
Se as aspas apareceram aplicadas nas palavras moradia e habitações, nas CL1 e CL3, na CL5, elas o são na palavra casa:
CL5
L5: Na própria Rua X há um morador que construiu sua "casa" em
torno de um poste e há também na Rua Y dois sofás encostados no muro da escola. O que fazer com o entulho despejado por lá? A escola pintou seu muro, mas deixa sua calçada sempre suja. Existe alguma lei que possa coibir tal situação? A circulação de pessoas é livre e soberana, mas e a apropriação e o descaso com o espaço público? Para mim cidade limpa significa principalmente respeito e cuidado pelo espaço coletivo.
No enunciado Existe alguma lei que possa coibir tal situação? A
circulação de pessoas é livre e soberana, mas e a apropriação e o descaso com o espaço público? Para mim cidade limpa significa principalmente
respeito e cuidado pelo espaço coletivo, revela-se uma tentativa de atenuação
da restrição do uso da calçada aos outros cidadãos que não os moradores, escolha lexical desprovida de predicação restritiva, o que leva à ideia de igualá-los a todos os moradores. Essa característica explicativa pela qual os insere no espaço da cidade se explicita pelo reconhecimento de que a
circulação de pessoas é livre e soberana; contudo, ao ter perguntado se exist[e]ia alguma lei para coibir tal situação, retira o direito de circulação
dos moradores. Além disso, ao não fazer a distinção entre moradores [de rua] e entulhos como os dois sofás para se referir a o que considera cidade limpa, coloca-os na condição de não-cidadãos.
No que se refere ao item lexical casa que até então não ocorrera, na CL5 aparece explicitado e acompanhado das aspas o que leva à ideia de que não a considera casa como a dos demais moradores. O efeito de sentido de casa na CL5, portanto, não é o de espaço em que se habita, assim como
“moradia” que aparece na CL1 e “habitações”, “barracas”, “barracão”, na
CL3, e “barraco”, em CL4, não o constituem. CL6
L6: Pobreza no centro. No centro de São Paulo, no entorno da
estação de Metrô Pedro II, do Fura-Fila, moradores de rua construíram “casas” de tábuas divididas até mesmo por cômodos. A sujeira do local é bem visível no caminho até o terminal. Acredito que a subprefeitura da Sé já teve conhecimento do problema, mas nada foi feito até hoje.
Se, nos CL1, CL2 e CL3, o sintagma nominal morador de rua não era mencionado e a eles se referiu como carroceiros e desabrigados e, em CL4, aparece indeterminado na terceira pessoa do plural, em CL5 é desprovido de predicação, embora possa ser significada, em CL6 a expressão é explicitada. O efeito de sentido de ―casas‖ da CL6 é o de que casas não podem ser construídas de tábuas, o que revela o esquecimento de que em vários países, e mesmo no Brasil, são várias as casas cujos materiais de construção são madeira e tábua: as de tábuas são ―casas‖ e não casas e, como tais, não podem ter suas construções permitidas. No CL4, tal como ocorre em CL3, algumas características da casa não cabem às ―casas‖: se, na carta 3, o máximo da transgressão era ter fogão, nesta carta 6, serem divididas até
mesmo por cômodos é o máximo da transgressão.
A divisão da cidade permitindo algumas áreas a alguns e impedida a outros, que se revelou uma regularidade discursiva, apresentada no corpus desta pesquisa, traz o espectro da expulsão dos leprosos para fora do burgo,
que não se faz a partir da administração da cidade mas das manifestações de outros moradores da cidade, configurando um versão contemporânea das
lettres-de-cachet.
Considerações finais
Os comentários nas colunas de leitores de jornais de grande circulação acerca do morador de rua revelaram se constituir a versão contemporânea das ―lettres-de-cachet‖, um julgamento que, embora aparente emanar do Estado, é realizado por essas cartas que acabam por produzir o efeito do inquérito: a coluna de leitores ganha a dimensão de um documento pelo qual se dotam os cidadãos de endereço fixo do exercício do poder sobre aquele que se revela pernicioso para si por dele não dispor.
A exclusão do morador de rua revelou-se a partir de textos que pretendiam sobre ele comentar, mas acaba por configurá-lo como ―outsider‖, ao considerar a sua atividade como desviante; por configurá-lo como (in)fame, ao torná-lo conhecido (de sem fama para ―famoso‖), ao localizá-lo na cidade, denunciando suas atitudes julgadas inadequadas, por vezes, vis. A administração da cidade, ao acolher essas denúncias, fazem dos (in)fames ―homo sacer‖, na condição de incluso e, ao mesmo tempo, excluído do
espaço da cidade.
Não menos dotada de traços de fragilização dos laços sociais se revelou a compulsão para o descarte de objetos que se se revelem inúteis, transferida para aqueles que não foram suficientemente docilizados e, como tais, dessubjetivados.
Abstract: Delimiting the field of discursive manifestations about the homeless in newspapers readers’ columns, this study aims to discuss, in the readers’ comments, what do they think about him. Results of this research have shown that the comments in the readers’ columns of widely circulated newspaper revealed the contemporary version of "lettres-de-cachet": they work as a document by which endows citizens who have address exercising power over who does not have it.
Keywords: Subjectivity; discourse; Readers column; “Lettres-de-cachet” Referências:
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